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Esta Economia: não é para novos. Jornal de Negócios

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Todas as quintas-feiras ao fim da tarde, numa sala cedida pelo ISCTE-IUL, discute-se Economia.

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Esta Economia: não é para novos. Jornal de Negócios

  1. 1. Sexta-feira/06deFevereirode2015/Negócios 10 11 T odas as quintas-feiras ao fimdatarde, numasala cedidapelo ISCTE, discute-se economia. Não se faladoqueseensinanosbancosdafaculdade:mer- cadoseficientes,agentesracionais,modelosede- duções matemáticas, mas simde umaoutraeco- nomia.Durantehoraemeiaaduashoras,debate- -seainfluênciadocontextohistóricoeinstitucio- nalsobreasfamíliaseasempresas,aimportânciadasredesso- ciais e de conhecimento no que decidimos compraroufazer, ouatensãopermanenteentreeficiênciaebem-estar. QuemalireúnesãoseisalunosdoISCTE,unsaindanali- cenciatura,outrosnomestrado.Oobjectivonãoéfugiràma- temáticaouàs equações, mas questionarmuitas simplifica- ções e hipóteses assumidas pelos modelos dos economistas, debatercorrentes alternativas e procurarumarelação mais próximadaeconomiacomavidareal. Este ano, os alunos estão concentrados em obras de Sa- muelBowles,MatthewJacksoneMarcLavoie.Ocidadãoco- mumnuncateráouvidofalardeles.Eamaioriadosalunosdas licenciaturastambémnão.Pelomenos,nãoparaládebreves referênciasnosplanosdeestudosouembibliografiarecomen- dada.Noentanto,assuasáreas(economiasevolucionista,das redes e pós-keynesiana, respectivamente) estão nalinhada frentedodebatesobreasvirtudeseosfalhançosdaciênciaem quenoshabituámosaconfiarparadecidirquandocompramos umcarro,queimpostosdevemospagar,ouqualopreçoideal paraumamercadoria. BowleseJacksonmantêm-sedentrodachamadaecono- mia“mainstream” ou ortodoxa, mas afastam-se do agente ANÁLISE página12 Um pouco portodo o mundo, os alunos reclamam mais pluralidade e realismo no ensino da Economia, mas as mudanças são lentas, em parte porque não há consenso sobre as lições a tirar do desastre dos últimos anos. Esta Economia não é para novosRUI PERES JORGE rpjorge@negocios.pt
  2. 2. Sexta-feira|06deFevereirode2015|Negócios 12 13 ANÁLISE racionalquerepresentaotodoequepovoaamaioriadosmodelosmi- croeconómicos. Os seus contributos evidenciam aheterogeneidade entreaspessoasouaimportânciadasredesedassuasinteracçõesnas escolhasindividuaisecolectivas. Lavoie é diferente: integrado no imenso grupo das correntes hete- rodoxas,éumpós-keynesiano,umaescolaqueconsideraqueéaprocu- ra(enãooqueéproduzido)quegovernaomundo,tantonocurtocomo no longo prazo, e sublinhaque os equilíbrios são mais raros do que se aprendenasaulasdemacroeconomiaefinanças. “Emtrês anos de licenciaturanão conseguimos sequeraprendera maiorparte do mais relevante”, dizDuarte Gonçalves, que dinamizao seminárioinformal“ISCTE-IULEconomicStudies”,quearrancouno iníciode2014eque,noanopassado,tambémsededicouaoestudodas economiascomportamentaledafelicidade. Com24anos,Duartelicenciou-seprimeiroemHistórianaUniver- sidadeNova,depoisfascinou-sepelaeconomia,inscreveu-senoISCTE, que consideraser“amelhorescola” pelo espírito crítico que promove, eteveamédiamaisaltadalicenciaturaem2014.Agoraestáafazeromes- tradoenãotemdúvida:asuniversidadesprecisamdepromoverumen- sinomaisplural,commaisligaçãoàeconomiarealeàssuasinstituições, àvidadasempresasedopaís. FALHANÇO! QUE FALHANÇO?! Adificuldadedeeconomistas,governosebancoscentraisemante- ciparacriseincentivouestudantesdetodoomundoareclamarempor outroensino–umdosgruposmaisconhecidos,etambémdosmaispo- lémicospelascríticasquefazàsínteseneoclássicadominantenasúlti- masdécadas,éo“Post-CrashEconomicsSociety”,daUniversidadede Manchester,nascidoem2013. Alguns professores tambémo fizeram. EmPortugal, em2008, foi publicado no jornalPúblico umtexto assinado porcinco docentes do ISEG,ISCTE,edasuniversidadesdeÉvora,PortoeCoimbra,adefen- derque“oslivros-textoquehojedominamfalamderacionalidadeede equilíbrio, abstracções insensatas que aprovaempíricacontestacom violência”, considerando que “teorias deficientes têm, pois, ocupado o lugardasmaisprudentes,dasmaiscapazesdeperceberqueoeconómi- conãoéumaesferaautonomizáveldoinstitucional,dopolítico,doso- cial,dopsicológico”,assinaramJoãoFerreiradoAmaral,ManuelBran- co,SandroMendonça,CarlosPimentaeJoséReis. Mas quase oito anos após ahecatombe no mercado imobiliário de altorisconosEstadosUnidos,queatirouaochãoaeconomiamundial, háapenassinaisdeténuesalteraçõesnos“curricula”,tantoanívelna- cional como internacional. Aresistênciaé explicada, emboamedida, pelodesacordosobrequeliçõestirardacrise. “O que se passounos últimos anos não foiapenas umaquestão de umamassivafalhademercado,étambémumamassivafalhadaanálise económica.Éoruirdoedifíciointelectualqueestevenocentrodacrise equeaindanãofezasuaavaliaçãosobreoqueéaboaeamáteoria.Ha- bitamosdestroçoshoje”,defendeSandroMendonça,queagoradirigea licenciaturadeEconomiadoISCTE. Masodiagnósticonãoépartilhado,porexemplo,porRicardoReis, professornaUniversidadedeColumbia,emNovaIorque,paraquemos últimosanos“nãolevaramaumrequestionarprofundodaformacomo ensinamos”exactamenteporque“acriseeasanálisesdacrisenãoim- plicamumarejeiçãodaeconomiamoderna:umacrisedestadimensão éimprevisível;eporestacrisequetivemos,evitámosvárias”. O investigadornão poupa, aliás, emcríticas aos chamados hetero- doxos: “São umaminoriae háumaboarazão paraisso: namaioriadas vezes,nãotêmrazão.Porvezes,háquemvenhaaacertar,masissoéuma minoriaeéassimemtodasaciências”,diz,nãobaixandoaguarda:“Mui- tosdoschamadosheterodoxosvêemoensinocomoumaformaeinter- vençãopolíticaquandoavastamaioriadosrestantesestásimplesmen- teafazerasuainvestigação”. RicardoReisconcedeque,comacrise,algumasideiassagradascaí- ram,comoumaconfiançanaeficiênciadosmercados,quealimentoua desregulamentação e demitiuos bancos centrais damonitorização de bolhasfinanceiras.Mastambémaquiaconselhacautela:“Houve,defac- to,umcataclismonosbancoscentrais,quesurgiucomanecessidadede olharemtambémparaaestabilidadefinanceira,masissoédiferentede dizerque aeconomiaignoravaesse problema... esse debate ocorriana investigação”.Como,aliás,haviaeháinvestigaçãoemáreasquecomu- nicamcomoutras ciências, como economiacomportamental, econo- miadasinstituições,neuroeconomia,ouemtemascomoadesigualda- deeodesenvolvimentoeconómico,acrescenta. SandroMendonçanãocompraoargumento:“Asmudançasquees- tãoaocorrernalinhadafrentedainvestigação‘mainstream’nãodevem sersobrevalorizadas. Essaé umarealidade muito distante. É umaex- cepção,éo1%dainvestigação.Amaiorpartedotrabalhoéconvencio- nalevaiseguindoasinérciasdopassado”,contrapõe. O directordalicenciaturado ISCTE atiraao pensamento que diz continuaravigorar, nomeadamente nos bancos centrais. “Tornaram- -se verdadeiros ‘think-tanks’: fazemtrabalho técnico e científico. Mas issonãoéciência.É‘ciênciacomprometida’poisessasinstituiçõestêm mandatosquesãodepolítica...epolíticaestreita.Tornaram-senatro- padechoquedaortodoxiaeconómica”. O debate é muitas vezes feito emtermos mais duros. No arranque doano,emFrança,economistasdecorrentesheterodoxasreclamaram umespaçopróprionoscurrículosdasuniversidadesdopaís,oquelhes foinegadopelogovernoapóspressãodosortodoxoslideradosporJean Tirole,omaisrecenteNobeldaEconomia.Deumladoouviram-seacu- saçõesde“esquerdistas”,“obscurantistas”e“frustrados”.Dooutro,cri- ticaram-seestadosdenegaçãofaceaosfalhanços,tentativasdelimitar aconcorrênciadentro do pensamento económico e capturado ensino pelospoderesinstalados. página10 “O que se passou nos últimos anos não foi apenas uma questão de uma massiva falha de mercado, mas também uma massiva falha da análise económica”, diz o economista Sandro Mendonça.
  3. 3. MUDANÇAS SUAVES EM PORTUGAL EmPortugal,odebatenãoocorreu,pelomenosdeformaaberta.Mas mesmosemeleesemmudançasprofundasnosplanosdeestudo,osres- ponsáveis de duas das maiores universidades nacionais garantemque estãohojeaoferecercursosmelhoresaosalunos. SandroMendonçaconsideraqueoISCTEsedistingueexactamen- te porresistirao que descreve como “monoculturaneoclássica”, pro- movendo“aaberturacríticaaoconhecimentoeconómicoementaliza- çãodequenãohádoutrinasabsolutasqueexpliquem,porsi,arealida- deeconómica.(...)Nanossamicroeconomiafazemosensaiosdeecono- miaexperimentalparasimularofuncionamentoemlaboratóriodeem- presas reais. Porexemplo, nanossamacroeconomiadiscutimos os ca- sosquentesdapolíticaeconómicadaactualidade”. “Oficialmente,nãochegouahaverumdebate,oquegeraumpara- doxo:naciênciadaescolha,temosmuitopoucaescolha”,defende,con- siderandoqueo“maisgravesãoascadeirasque,sendodeEconomia,são demasiadobaseadasnasabstracçõeseusamamatematizaçãocomopre- textoparaseafastaremdarealidade”,desvalorizandooconhecimento históricoeinstitucional. NaFaculdadedeEconomiadaUniversidadeNova,aescolaencara- dacomoobastiãodopensamentoliberaldetradiçãoneoclássica,amu- dançatambémestáaocorrer, garantemos seus responsáveis, embora não pelas mesmas razões. DanielTraça, responsávelmáximo pelas li- cenciaturasemestrados,concordacomaimportância“detreinarosalu- nosparaperceberemoslimitesdaciência,dosmodelosedoscontribu- tosquecadaescolaemodelopodemdarpararesolverumproblema”e éissoqueexplicaamaiorênfasequecolocamnasfalhasenaregulação nosistemafinanceiro,noestudodaéticaempresarialedoempreende- dorismosocial,enaresoluçãodeproblemasemcontextoreal. Noentanto,aocontráriodoseucolegadoISCTE,DanielTraçades- valorizaareformadas disciplinas centrais, como amicroeconomiae amacroeconomia. “Procuramos apanharas várias perspectivas, mas estetrabalhodependemuitodecadaprofessor”,explica,consideran- doqueocurrículosemantémdentrodoquechamade“mainstream” e aindabem: “Muitas das ideias forado ‘mainstream’ aindanão pas- saramo crivo do reconhecimento e aprovação generalizada”, afirma, paraacrescentarqueaUniversidadeNovaoferece,háváriosanos,ca- deiras sobre economiadas instituições, economiacomportamental ouhistóriaeconómica. REVOLUCIONAR CONTRA REFORMAR Éalentidãodasmudançascurricularesanívelinternacionalquejus- tificaonascimentodoCORE,umprojectofinanciadopeloInstituteof NewEconomicThinking, que estáadesenvolverumplano de estudos alternativo, e que temprojectos-piloto emlicenciaturas naUniversity CollegedeLondresounaSciencesPOemParis,assimcomoemalguns mestradosnaUniversidadedeColumbia,entreoutrasescolas. “Hámuitainvestigaçãofeitanasúltimasdécadasquenosofereceu osinstrumentosanalíticosparadesenharmosasmelhorespolíticas,mas quenãoestáaserensinada”,explicaWendyCarlin,directoradoCORE. “Aprincipalideiaéprepararecapacitarosalunose,esperemososcida- dãos,paraummelhordebatepúblicoeparamelhoresdecisões,centran- do-nosemtrêsáreasfundamentais:estabilidadefinanceira,justiçaeco- nómicaesustentabilidadeambiental”. Aestratégiade reformasuave não convence todos. Paraos hetero- doxosemaiscríticosdopensamentoliberal,éprecisaumarevoluçãoe nãoapenasmudaralgumacoisaparaquetudofiquenamesma.Dolado dascorrentesdominantes,asmudançasnãosãovistascomoprofundas: “OCOREnãosedesviaassimtantodoquejáéfeitoedaformacomojá ensinamos”, diz Ricardo Reis, que consideraque “acrise teve impacto essencialmenteaotornarunstópicosmaisimportantesdoqueoutros: hojedamosmaisatençãoaodebateemtornosobresedevemosounão ajudarosbancos.Bom,ficamparatrás,porexemplo,osmodelosdeaju- daaodesenvolvimento”. Carlincontesta: “Essas reacções [dos heterodoxos] são surpreen- dentes.Creioquesurgemporquedefendemosqueosalunosprecisam deterosinstrumentosparaestudaraciênciaeconómica,emuitosjásão usadoshoje.Nãosomoscontraamodelizaçãoeconómica,pelocontrá- rio, é muito clarificadora”. Mas, ao mesmo tempo, aeconomistabritâ- nicarecusaque estejaapenas atrocaraordemdos factores do pensa- mentoortodoxo:“Nóscomeçamosdepontosdepartidamuitodiferen- tes e cobrimos temas muito diferentes”, defende, explicando: porum lado,colocamaeficiênciaeajustiçaeconómicaladoalado,afastando- -sedascorrentesqueprivilegiamaprimeira,confiantesquegarantem asegunda;poroutro,defendemumaaproximaçãoentreamicroecono- mia(oestudodasescolhasindividuais)eamacroeconomia,quesede- dicaaosgrandesagregadoseconómicos;finalmente,consideramque“a históriaeconómicaéfundamentale,nessesentido,émuitoimportan- tetrabalharcomdadosedarmuitaênfaseacasosconcretoseaosméto- dosexperimentais.” WendyCarlinreclamaumpoucomaisdasuniversidades:pelome- nos, umdebate aberto sobre os planos de estudos que vêmseguindo. “Nós, professores, estamos pouco habituados areflectiremprofundi- dadesobreoquefazemos.Aspessoascaemnarotinaemuitosdos‘cur- ricula’estãostandardizados,seguemosmesmoslivrosereferênciasem termosinternacionais”.Écertoque“nosúltimosanossurgiramalguns extrasdedicadosàcrise,porvezesacrescentadoscomoúltimoscapítu- los.Mas,muitasvezes,ascadeirasnemchegamlá”,lamenta. Osalunosagradeceriamareflexão.“Aeconomiaajuda-nosaperce- bercomofuncionamosmercados,asrelaçõesentreaspessoas,asesco- lhas,masprecisamosdeumaligaçãomuitomaisforteentreateoriaeo aproveitamentodateoria”navidareal,reclamaDuarteGonçalves.No fundo,precisamdeaprenderasereconomistas.Nãoépedirdemais.Mas émuitomaisdifícildoqueparece.W “A crise e as análises da crise não implicam uma rejeição da economia moderna: uma crise desta dimensão é imprevisível”, defende o economista Ricardo Reis.

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