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Resumo
Este ensaio discute alternativas de apoio
ao desenvolvimento da capacidade avali-
atória em organizações da sociedade civil.
Nele são debatidos elementos estratégicos
para apoiar processos de aprendizagem nas
organizações e para forta-
lecer conquista de autono-
mia no campo da avalia-
ção. Aborda-se a constru-
ção da capacidade avali-
atória como processo de
construção de sujeitos, e
não como um movimento
de natureza predominante-
mente técnica. Com base
nos princípios de aprendi-
zagem, autonomia, respei-
to e participação são pro-
postas cinco dimensões es-
tratégicas para apoiar o
desenvolvimento de capacidade avaliató-
ria: 1) a consciência a respeito e a capaci-
dade de lidar com as relações de poder
presentes nas ações avaliatórias; 2) a bus-
ca de razões e motivação para avaliar as
práticas; 3) a construção de um certo grau
de identidade organizacional em torno da
avaliação; 4) o desenvolvimento de com-
petências no campo da facilitação e ges-
Da Construção de Capacidade
Avaliatória em Iniciativas Sociais:
Algumas Reflexões
Daniel Braga Brandão
Rogério Renato Silva
Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
Daniel Braga Brandão
Mestrando em Educação, PUC/SP
Consultor do Instituto Fonte
daniel@fonte.org.br
Rogério Renato Silva
Doutor em Saúde Pública, USP
Coordenador Editorial
do Instituto Fonte
Cássia Maria Carraco Palos
Mestre em Saúde Pública, USP
Consultora do Instituto Fonte
fonte@fonte.org.br
tão de processos e da investigação da rea-
lidade, necessárias a realização de avalia-
ções; 5) a captação e alocação de recur-
sos para criar as condições de trabalho
necessárias aos processos de avaliação.
Palavras-chave: Avaliação. Capacidade
avaliatória. Avaliação de programas. Desen-
volvimento organizacional.
Identidade organizacional.
Abstract
Some
Reflections on
Building
Evaluation
Capacity on
Social Initiatives
This essay focuses on
building evaluation capacity
in civil society organizations. It considers
aspects to support the organizational learning
process and propose five dimensions to be
considered in an evaluation capacity building
process: 1) The power that involves the
relationship among the stakeholders and its
consequences in the decision making
process; 2) The reasons and motivations to
362 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
develop the evaluation process; 3) The
search to develop an organization
understanding of the meaning of evaluation;
4) The need to develop skills in evaluation
and 5) The need to raise and manage
resources to the evaluation.
Keywords: Evaluation. Capacity building.
Organizational development. Organizational
identity.
Resumen
Constructión de
Capacidad en Avaluación
Este texto trata de la construcción de
capacidades en evaluación en organiza-
ciones de la sociedad civil. Aborda el tema
orientado por los proceso de aprendijage
organizacional y considera cinco dimensi-
ones presentes en la construcción de la
capacidad en evaluación en una organi-
zación: 1) Las relaciones de poder entre
los stakholders y sus consecuencias en las
decisiones; 2) Las razones y los motivos
para desarrollar una evaluación; 3) La ela-
boración de una identidad organizacional
para la evaluación; 4) La necesidad del
desarrollo de competencias en evaluaci-
ón y 5) La necesidad de garantizar y ma-
nejar fondos para la evaluación.
Palabras clave: Evaluación. Capacidad
evaluativa. Desarrollo organizacional.
Aprendizaje organizacional.
Das razões que
nos levaram a
escrever este ensaio
A busca de melhores condições para o
enfrentamento dos graves problemas sociais
no Brasil, assim como em toda a América
Latina, requer investimentos decisivos na pro-
dução e sistematização de conhecimentos e
práticas a respeito dos problemas da região
e, sobretudo, de alternativas conceituais e
possibilidades concretas de intervenção e
mudança dos cenários de exclusão e depen-
dência que marcam as realidades locais.
Um dos pressupostos mais importantes
na busca por melhores políticas públicas ou
intervenções sociais que ajudem o processo
de desenvolvimento latino-americano encon-
tra-se na necessidade de criar e fortalecer
organizações e programas que estruturem
modelos de gestão que tenham a reflexão e
a aprendizagem entre seus pilares de sus-
tentação. Neste cenário, o desenvolvimento
de culturas de avaliação nas organizações
da região tem-se constituído como ação es-
tratégica para o fortalecimento organizacio-
nal. O caso brasileiro não foge à regra.
A ampliação daquilo que podemos de-
nominar de “pensamentos avaliatórios” no
Brasil tem sido acompanhado de fatos bas-
tante significativos. Seja por meio da criação
da Rede Brasileira de Avaliação no ano de
2002, das dezenas de cursos e seminários
sobre avaliação que têm sido promovidos em
distintos espaços e organizações ou dos in-
vestimentos públicos e privados para a con-
tratação de avaliações internas e externas,
parece já existir consenso em torno da neces-
sidade de que projetos e programas sejam
avaliados em busca de eficiência, transpa-
rência e equidade, ainda que muitos dos de-
senhos e métodos utilizados se apresentem
frágeis e, muitas vezes, pouco democráticos,
superficiais e pouco confiáveis.
Ao olharmos para além do horizonte dos
discursos existentes neste campo, identificamos
desafios complexos e de natureza estruturante
para o fortalecimento da cultura da avaliação
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 363
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
no Brasil. Ao mesmo tempo em que muito se
fala em avaliação, alguns fatores seguem de-
terminando um certo grau de dificuldade para
que as organizações a incorporem em sua
prática cotidiana. Dentre esses fatores, quere-
mos destacar e analisar brevemente os de na-
tureza econômica, os da natureza da forma-
ção de gestores, educadores e consultores e
os de natureza organizacional.
No que se refere ao aspecto econômi-
co, os recursos alocados para avaliações
entre as organizações da sociedade civil
ainda são restritos. Rubricas destinadas a
estudos avaliatórios ainda são difíceis de
negociar e, muitas vezes, entre destinar re-
cursos para realizar ações ou para avaliar
ações, não há dúvidas a respeito do cami-
nho seguido. À natureza de programação
e prioridade do investimento deste aspecto,
soma-se alguma dificuldade das organiza-
ções em fazer prognósticos dos custos de
uma avaliação. Pode até existir disposição
de se investir neste processo, mas existe di-
ficuldade e ausência de parâmetros para
definir quanto investir. Mesmo quando os
parâmetros recomendados por escolas mais
estruturadas são utilizados, como as reco-
mendações da escola americana em desti-
nar 6 a 10% do orçamento global de um
projeto para avaliação, não parece haver
qualquer sentido em estabelecer uma rela-
ção cartesiana entre tal diretriz e a realida-
de brasileira. Somente o acúmulo de expe-
riências em processos de avaliação e, so-
bretudo, a utilização de seus resultados,
poderão dar às organizações condições de
julgar a relevância de se destinar recursos
financeiros a essa finalidade.
Outra questão desafiadora encontra-se na
formação de gestores, educadores e consul-
tores para atuarem no campo da avaliação.
Ainda que já reunamos um bom volume de
literatura a respeito do tema, sobretudo nos
campos da saúde e da educação, ainda são
estritas e superficiais os espaços de forma-
ção. Tanto a universidade quanto as organi-
zações da sociedade civil que atuam no pre-
paro de gestores e consultores ainda inves-
tem pouco em conteúdos em avaliação.
Quanto aos fatores organizacionais, é
possível identificar que gestores e educado-
res convivem com uma polaridade entre fa-
zer e refletir que muitas vezes inviabiliza o
investimento em avaliação. A organização
do trabalho, o ativismo, as demandas cons-
tantes e a permanente escassez de tempo
são alguns dos fatores que impedem que
um processo de reflexão sobre a prática se
enraíze em muitas organizações, mantendo
a avaliação em um lugar inviável, ainda que
sempre reconhecido como importante.
A partir destes desafios é que procura-
mos organizar algumas idéias, reunir al-
gumas experiências, e compartilhar com os
interessados nossas reflexões. Queremos
também destacar três experiências que muito
contribuíram para o nascimento deste en-
saio. Em primeiro lugar nossa participação
no ciclo de “Seminários de Aprofundamento
Profissional para o Consultor em Processos
de Desenvolvimento”, ministrados por Jac-
ques Uljeé (Núcleo Maturi). Em segundo,
a coordenação que fizemos do Seminário
Construindo Capacidade Avaliatória em
Iniciativas Sociais, promovido em parceria
com a Ashoka Empreendedores Sociais. Em
terceiro, nossa participação como facilita-
dores na avaliação da quinta edição do
Programa de Apoio a Projetos de Atendi-
mento a Crianças e Jovens de 7 a 14 anos
na Grande São Paulo, de Vitae Apoio à
Cultura, Educação e Promoção Social.
364 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
A força de nossa aprendizagem está na
forma como queremos dividir nossas expe-
riências e, portanto, queremos afirmar que
este não é um modelo de avaliação, nem
consideramos as idéias aqui apresentadas
como definitivas. Buscamos colaborar com
o debate em torno do tema avaliação e
conhecer e discutir idéias e sugestões que
permitam incrementar nossa prática avali-
atória, fortalecer a cultura de avaliação na
América Latina, sobretudo, ajudar o Brasil
a alcançar o desenvolvimento social que
ajude a erradicar iniqüidades.
Do conceito de avaliação:
extrato de uma gramática
em expansão
Há muitas formas de definir o conceito
“avaliação”, percebido com intensa força po-
lissêmica quando examinamos alguns traba-
lhos de autores que escreveram sobre o tema,
como Chianca, Marino e Schiesari (2001);
Demo (1988); Guba e Lincoln (1988); Patton
(1997); Worthen, Sanders e Fitzpatrick (1997);
Stake (1995). Neste ensaio adotamos um con-
ceito que, em certa medida, reflete os diálogos
que temos estabelecido com as organizações
com as quais temos trabalhado. Apontamos
para avaliação como um processo de apren-
dizagem sistemático e intencional que um in-
divíduo, grupo ou organização se propõe a
percorrer para aprofundar a sua compreen-
são sobre determinada intervenção social, por
meio da elaboração e aplicação de critérios
explícitos de investigação e análise, em um
exercício compreensivo, prudente e confiável,
com vistas a conhecer e julgar o mérito, a re-
levância e a qualidade de processos e resulta-
dos. A avaliação leva à ampliação de consci-
ência sobre determinado programa ou projeto
o que possibilita que escolhas e decisões ma-
duras possam ser feitas.
Revisamos, com isso, o conceito que
apresentamos em artigo anterior (SILVA;
BRANDÃO, 2003).
Um dos princípios fundamentais que
temos em mente quando nos referimos a
um processo avaliatório é o de que uma
avaliação não se constitui apenas em um
dispositivo técnico, mas sobretudo político.
Quando agimos sem que este princípio es-
teja em nossa consciência, podemos incor-
rer em um exercício autoritário de poder,
como afirma Demo (1988) e fazer com que
a avaliação, ao invés de construir sujeitos,
torne-se um mecanismo de controle e de
coerção que impeça o desenvolvimento.
Entendemos avaliação a partir de uma
ótica emancipatória, participativa e colabo-
rativa na qual propósitos e critérios de jul-
gamento são construídos por meio da ne-
gociação entre diferentes atores sociais. Te-
mos certeza de que cada sujeito é capaz de
avaliar suas ações e nesse fenômeno, de
maneira reflexiva, ele se constrói e recons-
trói a sua prática. Para nós, o papel de “ava-
liadores externos” implica em desconforto,
em contradição. Agimos como facilitadores,
como educadores que, por meio da lingua-
gem da avaliação, procuramos ajudar su-
jeitos e organizações a se desenvolverem.
Da construção da
capacidade avaliatória:
alguns princípios
Nas análises que fizemos de nossas ex-
periências de consultoria, identificamos um
conjunto de princípios que entendemos
como importantes ao processo de constru-
ção de capacidade avaliatória. Ao mesmo
tempo em que operam como espelhamen-
to para nossas práticas de avaliação, per-
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 365
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
cebemos que estes princípios se colocam
como um escapulário que nos inspiram em
tempos de luz e nos orientam em períodos
de sombra. Os princípios são os seguintes:
a. O princípio da “aprendizagem”
anuncia a avaliação como promo-
tora de oportunidades, espaços e
movimentos para que os sujeitos e
as organizações aprendam. Avaliar
pode se constituir em um processo
altamente educativo e transformador
da vida social. Para isso é preciso
criar objetivos e condições de apren-
dizagem. Aprenderemos com nossos
acertos e erros se avaliarmos critica-
mente o que fazemos. Sem avalia-
ção não há desenvolvimento.
b. Os princípios do “respeito” e da “au-
tonomia” anunciam que o caminho
a seguir em um processo de constru-
ção de capacidade avaliatória deve
estar orientado pelo contexto cultural,
político e estrutural da organização.
Como os sujeitos, as organizações
vivem seus momentos históricos as
entradas forçadas podem mais des-
truir do que construir capacidades. O
processo de construção de capacida-
de avaliatória precisa ser endógeno.
c. Os princípios da “participação” e da
“colaboração” se estruturam na cren-
ça de que o processo de construção
de conhecimento e de produção de
conhecimento é individual e social,
ganhando sinergia nesta polaridade.
Ainda que venhamos a escolher ca-
minhos mais complexos e longos, não
se alcançarão práticas justas, orga-
nizações socialmente responsáveis e
condições sociais equânimes por ca-
minhos que não sejam democráticos.
d. O princípio da “felicidade” surge sensí-
vel e naturalmente nas esteiras da sa-
bedoria, do bom senso, da arte e, so-
bretudo, da educação (DEMO, 1988).
Felicidade é um processo que contém
dimensões mágicas, lúdicas, religiosas,
místicas e se constrói na cultura e na
história, não simplesmente como supe-
ração dos problemas materiais, mas
também como expressão sensível de de-
senvolvimento. Nas palavras de Demo
(1988, p. 27), a felicidade está “no cli-
ma que pinta, na atmosfera que envol-
ve, na influência que impregna, na so-
lidariedade que inspira” os processos e
as relações sociais.
Da construção de
capacidade avaliatória:
cinco dimensões
Os processos de construção de capaci-
dade avaliatória com os quais nos envolve-
mos e que revisamos para produzir este en-
saio foram capazes de revelar cinco dimen-
sões a respeito das quais queremos falar
agora. Ainda que interligadas, conectadas,
dependentes umas das outras, orgânicas,
fazemos aqui uma divisão que, acreditamos,
nos ajuda a explicitar a compreensão que
tivemos do tema. São elas a dimensão do
“poder”, da “motivação”, da “identidade”,
das “competências” e dos “recursos”.
Quando discutíamos e procurávamos
articular essas cinco dimensões na forma
de uma figura que representasse sua liga-
ção, chegamos ao pentagrama como uma
figura simbólica formada por cinco linhas.
Em nossas reflexões e experimentos, nos
vimos compreendendo o pentagrama como
uma espécie de tradução geométrica do ser
humano, ao mesmo tempo em que percebe-
mos cada dimensão que construímos relaci-
366 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
onada a distintas partes do corpo. Nos veio
a imagem de Leonardo da Vinci superposta
ao pentagrama, cujo sentido foi, ao menos
para nós, expressão importante da centrali-
dade do sujeito nesta discussão. O poder na
cabeça pensante, a identidade á esquerda
do peito, a motivação na força da mão, as
competências e recursos, sustentando – fisi-
camente – o processo. Esperamos que nosso
esforço criativo provoque reflexões.
Figura 1. Construção de capacidade avaliatória como construção de sujeitos.
Poder
Motivação Identidade
Competências Recursos
Do poder
A arquitetura e a dinâmica das relações so-
ciais estabelecidas em um grupo envolvido em
uma avaliação desempenham papel estruturan-
te na construção de capacidade avaliatória em
uma iniciativa social. As relações entre a organi-
zação financiadora e a organização financiada,
entre os sujeitos na organização, com as comu-
nidades com as quais se trabalha e, muitas ve-
zes, com a avaliadora externa, resulta em uma
dinâmica complexa de relações que vai determi-
nar o processo decisório e o caminho a ser se-
guido em uma avaliação. Conseqüentemente o
caminho de aprendizagem de um determinado
grupo também passa por estas relações.
Na perspectiva da construção da ca-
pacidade avaliatória a partir da constru-
ção de sujeitos, a participação efetiva e
autônoma dos diversos atores envolvidos
na iniciativa torna-se a alma do processo
de avaliação. Neste sentido, o exercício de
compartilhar poder e de equilibrar forças e
formas de tomar decisão ocupa posição
central no processo. Para alguns, este exer-
cício implica em abrir mão do controle so-
bre a avaliação, sejam estes gestores da
organização ou consultores externos.
O exercício de compartilhar poder se cons-
titui em um espaço privilegiado de negocia-
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 367
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
ção, conforme observam Guba e Lincoln
(1988) ao escreverem a respeito da Avaliação
da Quarta Geração. Negociam-se expectati-
vas na forma de perguntas e de desejos. Ne-
gociam-se pressupostos e conceitos na forma
de indicadores e critérios de julgamento. Ne-
gociam-se compreensões da realidade por
meio da escolha de métodos de investigação.
Negocia-se força e espaço por meio dos com-
promissos políticos assumidos externa e inter-
namente com o grupo que avalia.
A construção de um ethos político, no
qual o porquê e o como avaliar são defini-
dos de maneira colaborativa, tem grande
repercussão metodológica no processo de
avaliação. Quando operamos com a cren-
ça de que a avaliação ganha sentido e re-
levância à medida que envolve diferentes
atores que atuam de maneira autônoma
para orientar o processo, é preciso estar
preparado para lidar com as implicações
concretas que as decisões do grupo trazem
para o ato de investigação da realidade.
O acolhimento destas implicações pode tra-
zer legitimidade e crença no processo.
A discussão de poder que fazemos
aqui quer marcar o princípio de que cons-
truir capacidade avaliatória é um processo
coletivo. Por ser coletivo, transforma-se
em um caminho de pavimentação da au-
tonomia dos sujeitos e das organizações.
Nas palavras de Freire (1997, p. 35),
“ninguém é autônomo primeiro para de-
pois decidir. A autonomia vai se constru-
indo na experiência das várias decisões
que vão sendo tomadas” no processo de
trabalho. O caminho de construção de
capacidade avaliatória será gerador de
aprendizagem e autonomia à medida que
criar condições para lidar com a dimen-
são do poder de forma consciente.
Um outro elemento que queremos exa-
minar na dimensão do poder diz respeito à
relação entre organizações financiadas e
organizações financiadoras. Muitas vezes,
a demanda por avaliações surge no seio
de organizações financiadoras, que deli-
mitam suas necessidades avaliatórias e de-
finem as perguntas de avaliação que que-
rem responder. Por sua vez, a fonte de in-
formações para responder a essas pergun-
tas costuma ser, na maioria dos casos, as
organizações financiadas, bem como as
populações com as quais trabalha.
Se este percurso de orientação exter-
na é seguido na avaliação, é comum que
os resultados alcançados sejam apresen-
tados ao financiador e sirvam, primaria-
mente, para suas reflexões e decisões,
cabendo à organização financiada um
lugar de objeto, e não sujeito, da ação
avaliatória. Quando falamos em múlti-
plos atores e na necessidade de que o
processo de construção de capacidade
avaliatória resignifique relações de po-
der, imaginamos que a relação entre as
organizações financiadas e financiado-
ras também é objeto desta mudança.
Por fim, não podemos deixar de apontar
para a necessidade de que a relação entre
organizações e avaliadores externos seja
também profundamente revisada em um pro-
cesso de construção de capacidade avalia-
tória. Mais do que em qualquer outro tipo
de trabalho no campo da avaliação, aqui
os avaliadores não são unicamente especi-
alistas em avaliação, não são referências ou
autoridades em determinadas áreas de co-
nhecimento, mas sim são atores que aju-
dam os sujeitos e as organizações a estabe-
lecer sua dinâmica de trabalho e a fazer suas
escolhas e descobertas.
368 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
Da motivação
Se as implicações de poder são tratadas
como campo privilegiado no processo de
construção de capacidade avaliatória, a
necessidade de cuidar da motivação, en-
quanto campo de interesse e disposição em
participar do processo, constitui-se também
em uma dimensão importante. Frente a tan-
tas obrigações do do fazer administrativo,
financeiro, político, pedagógico, entre ou-
tros, depositar energia em processos de ava-
liação constitui-se um grande desafio.
A motivação não pode, entretanto, ser
tratada de maneira estanque. Assim, perce-
bemos a motivação como o fenômeno da
significação permanente dos processos de
avaliação e de construção de capacidade
avaliatória. Se, como afirma Falcão (2001,
p. 27), a vontade é “um desejo que cisma
que você é a casa dele”, esta casa apenas
será reconhecida e valorizada à medida que
se constituir em espaço permanente de apren-
dizagem, descobertas e transformações.
A dimensão da motivação se constitui
também em campo reflexivo à medida que
o sujeito e o processo se reinventam de
maneira permanente quando as condições
para tal são construídas. Usando uma da-
quelas frases cuja causa e efeitos são de
natureza não linear, somente terá espaço e
sentido para os sujeitos os processos de
avaliação que forem desejados por eles, ao
mesmo tempo em que só serão desejados
os processos avaliatórios que tiverem senti-
do para os sujeitos.
Para Sanders (2003), quatro razões di-
ficultam a incorporação da avaliação como
parte estratégica da organização, sendo elas
(a) o fato de que os sujeitos desconheçam
os benefícios das avaliações, (b) o fato dos
elevados investimentos de tempo e recur-
sos nas avaliações, (c) a inexistência de
sujeitos que desempenhem certo papel de
liderança frente aos processos de avalia-
ção e (d) o fato da pouca ou nenhuma
utilização das avaliações para aprender e
mudar. A estas observações acrescentaría-
mos, de forma radicular, o fato da insistên-
cia em processos exógenos, burocráticos,
persecutórios e não participativos.
Enfrentar estas condições, hegemônicas
em muitos cenários, constitui-se como peça
chave para atribuir sentido e trazer motiva-
ção ao processo de construção de capacida-
de avaliatória. Tratar a avaliação de forma
transparente e democrática, relacioná-la a
espaços e momentos de aprendizagem e de-
cisão, encontrar lideranças interessadas em
problematizar e motivar os grupos sociais a
avaliarem suas ações, são algumas das al-
ternativas que contribuem para que os pro-
cessos se tornem viáveis1
e sustentáveis.
Da identidade
Algumas ferramentas aplicadas à gestão
de iniciativas sociais são amplamente reco-
nhecidas como capazes de construir e signi-
ficar conceitos e práticas, como a elabora-
ção de projetos, o planejamento estratégico
e a sistematização. Neste conjunto a avalia-
ção se afirma como ferramenta técnica-polí-
tica efetiva para promover tais fenômenos.
Em si mesma, a avaliação espelha sujei-
tos e organizações de maneira significativa.
O que queremos, no que acreditamos, o que
valorizamos, com quem nos relacionamos, o
que negociamos e como julgamos, constitu-
1
Viabilidade: assegurar que uma avaliação será feita de maneira realista, prudente, diplomática e moderada (SANDERS, 1994).
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 369
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
em-se categorias com as quais operamos nos
processos de avaliação e que irão revelar de
forma marcante nossa identidade nos pro-
cessos. Por isso mesmo, a dimensão da iden-
tidade é de grande importância na constru-
ção de capacidade avaliatória. É na cons-
trução da identidade que percebemos os ou-
tros e o que nos difere e nos aproxima da-
queles com os quais trabalhamos.
Se por um lado nos preparamos para
lidar com poderes e criar espaços de cons-
trução e por outro enfrentamos a atribuição
permanente de sentido, uma terceira dimen-
são nos convida a explorar gramáticas, pres-
supostos e práticas. É nesta dinâmica que
se irmanam os elementos que nos ajudarão
a responder, como sujeitos e grupos sociais:
O que entendemos por avaliação? Por que
avaliamos? O que queremos aprender?
Como utilizaremos o que aprendemos em
nossas ações? Como aprenderemos?
Para além das definições em torno dos
próprios processos de avaliação, o que te-
mos observado participativamente é que as
avaliações criam espaços privilegiados para
que a prática dos sujeitos seja conceituada
e para que seus pressupostos e conceitos
sejam revisitados e, muitas vezes, negocia-
dos e revisados. Os processos de identifi-
cação de perguntas e de definição de indi-
cadores (critérios, sinais, marcadores, evi-
dências) de avaliação, são campos férteis
para se produzir e reinventar conceitos.
O processo de construção de capacida-
de avaliatória é um processo de construção
de identidades, por isso também é processo
que fortalece a construção de sujeitos. Am-
pliar consciências, aprofundar conhecimen-
tos, revisitar e revisar práticas, aprender,
mudar. Por isso falamos em identidade.
Das competências
Os processos de avaliação e de cons-
trução de capacidade avaliatória em ini-
ciativas sociais não avançam quando se
constituem em mera sucessão de métodos
e técnicas que se aplica para “desvendar”
a realidade. Avançam sim quando se con-
formam em um caminho de desenvolvi-
mento no qual as escolhas, elaborações e
a organização do trabalho são produzi-
dos de forma dinâmica, convivendo com
reinvenção permanente.
Os processos avaliatórios oferecem es-
paços nos quais muitas vezes nos confron-
tamos com nosso conhecimento técnico no
campo da investigação, com nossas ha-
bilidades de facilitação e nossa forma de
gerir processos. Por tudo isso percebemos
que, ao mesmo tempo em que articula-
mos poderes, que apoiamos motivações e
que provocamos construção de identida-
des, precisamos nos preparar para lidar
com estas dimensões de forma sensível e
eficaz, ao mesmo tempo em que cuida-
mos desse “lugar de investigação” sem o
qual não há avaliação, ou confiança em
seus resultados.
Assim articulamos três campos cujo
conteúdo queremos compartilhar. As com-
petências de facilitação de processos, de
gestão de processos e de investigação da
realidade compõem um cenário relevante
para o desenvolvimento de sujeitos na
área. Entendemos que o cenário de com-
petências é um campo de articulação das
demais dimensões analisadas aqui, é um
campo no qual caminhamos em busca de
apoiar processos que levem à reflexão,
aprendizagem e desenvolvimento. A Figura
2, a seguir, ilustra este cenário.
370 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
Figura 2. Cenário de competências em avaliação.
a) a competência para a
facilitação de processos
A facilitação de processos é competên-
cia fundamental para garantir que as di-
mensões aqui analisadas consigam existir
e buscar pontos de equilíbrio que assegu-
rem o desenvolvimento dos sujeitos e gru-
pos. A facilitação envolve trabalho com
sentidos, com significados, com articula-
ções, com negociações, com construções,
com leituras da realidade, com acolhimen-
to e com provocação.
Percebemos a facilitação como compe-
tência chave para atribuir sentido a pro-
cessos de avaliação. Por isso lida com po-
deres, motivações e identidade de maneira
intensa. Além do mais, é a facilitação que
articulará as competências de gestão e de
investigação da realidade a fim de garantir
processos viáveis e confiáveis. Toda a cons-
trução técnica da avaliação se dará a par-
tir das habilidades de facilitação. A seguir
identificamos seis habilidades importantes,
entre tantas outras.
ATRIBUIÇÃO DE SENTIDO
* motivos
* utilidade
* foco
* negociações
* problematização
APOIO À EMANCIPAÇÃO
* decisões
* processos
* reflexões
* interações
ANÁLISE DO
CONTEXTO
* tempo
* recursos $
* equipe
* comunicação
* viabilidade
* propriedade
PRECISÃO
* abordagens
* técnicas
* descrição
* análise
* julgamento
* sensibilidade
* criatividade
* compreensão
REFLEXÃO
APRENDIZAGEM
DESENVOLVIMENTO
FACILITADOR
GESTOR
INVESTIGADOR
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 371
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
• Capacidade de ouvir de forma aber-
ta e sensível os integrantes do grupo;
• Capacidade de trabalhar de forma
compreensiva as necessidades do grupo;
• Capacidade de problematizar ques-
tões, de provocar e estimular reflexões so-
bre o projeto e os elementos da avaliação;
• Habilidade para ajudar o grupo a
construir compreensões e respostas, sem
levá-las prontas;
• Capacidade de zelar pelo processo
de trabalho do grupo, cuidando de proce-
dimentos, relações e estrutura;
• Capacidade de agir com profundo
respeito pelas criações do grupo, acolhen-
do-as de maneira integral.
b) a competência para
gestão de processos
Trata-se da competência em lidar com as
variáveis internas e externas aos processos de
avaliação, tais como o tempo, os recursos fi-
nanceiros, a gestão de equipes de trabalho,
os planos de avaliação, a comunicação, en-
tre outras coisas. As habilidades para enfren-
tar estes desafios serão fundamentais para que
os processos de avaliação sejam sustentáveis.
c) a competência para
investigação da realidade
Em essência, os processos de avaliação
têm na necessidade de investigar a realida-
de um eixo comum e determinante para sua
existência. Por isso mesmo a necessidade de
desenvolver competências no campo da in-
vestigação é vista com grande importância
para os sujeitos e organizações que querem
desenvolver capacidade avaliatória.
É a competência para investigar a reali-
dade que terá peso determinante na em as-
segurar a precisão2
do processo e, em con-
seqüência, sua confiabilidade por parte dos
diferentes interessados. A necessidade de
escolher as abordagens mais adequadas, de
garantir os métodos mais apropriados, pro-
fundos e capazes de revelar, de compor quan-
tidade e qualidade de forma harmônica, são
os desafios que se colocam no caminho
daqueles que se interessam por avaliação.
Fugir do cientificismo ingênuo e do rela-
tivismo fundamentalista coloca aos sujeitos o
desafio de estabelecer formas confiáveis de
explorar a realidade, de retratar os fatos, de
aprofundar compreensões e de revelar infor-
mações que soem verdadeiras aos interessa-
dos. Por fim, como afirma Guba e Lincoln
(1988), o uso exclusivo do método científico
fecha as portas para maneiras alternativas de
se pensar a respeito do objeto da avaliação.
Dos recursos
A dimensão final a respeito da qual fa-
zemos breves comentários é a dimensão dos
recursos. Consideramos recursos o conjunto
de elementos que são consumidos em pro-
cessos de avaliação e que, por isso mes-
mo, implicam em escolhas, definição de li-
mites e certo controle. Tempo das pessoas,
contratações externas, equipamentos, ma-
teriais e estrutura de apoio muitas vezes
serão necessários a determinados tipos de
processos de avaliação.
Ainda que muitos desenhos avaliatóri-
os, sobretudo os de natureza processual,
demandam pouco ou quase nenhum inves-
timento direto, certos casos precisarão ser
analisados e ponderados com cuidado, a
fim de que a avaliação não se torne custosa
e pouco efetiva, traços que contribuiriam
2
Precisão: assegurar que uma avaliação irá revelar e produzir informações tecnicamente adequadas sobre os aspectos que
determinam o mérito e a relevância do programa avaliado (SANDERS, 1994).
372 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
para que cultura avaliatória não se enrai-
zasse nos sujeitos e nas organizações.
Da síntese das dimensões
As dimensões apresentadas assumem seu
sentido de existência ao se fazerem úteis no
apoio ao desenvolvimento de iniciativas ava-
liatórias. No estímulo à reflexão, na reorde-
nação da prática e na abertura para novas
percepções e sentimentos é que as cinco di-
mensões ganham vida. Para auxiliar este
processo, propõe-se uma configuração di-
dática das dimensões discutidas ao longo
deste ensaio, apresentada no quadro 1.
3 As perguntas entre parênteses foram sugeridas por Cláudia Mara de Melo Tavares, durante a oficina “Iniciativas Inovadoras em
Avaliação de Projetos e Programas Sociais”, por ocasião do V Congresso Nacional da Rede Unida, Londrina, PR, maio de 2003.
Quadro 1. Síntese das dimensões capacidade avaliatória de uma iniciativa social1
.
Dimensão Premissa O que gera Perguntas chave
Quem será envolvido?
Quais suas aspirações?
Poder Agir em Participação e Qual o papel de cada um?
(O que liberdade comprometimento Qual será a participação
podemos?) desses atores?
Que conflitos existem?
Como tomaremos decisões?
O que entendemos por avaliação?
Por que iremos avaliar?
Identidade Para que iremos avaliar?
(O que somos Conceitualizar Alinhamento Como vamos utilizar os resultados?
e pensamos?) O que buscamos aprender?
O que iremos avaliar
(pergunta avaliatória)?
Que sentimentos a avaliação
nos desperta?
Vontade Queremos avaliar?
(O que Desejar e inspirar Movimento Estamos dispostos a abrir
queremos?) espaço para a avaliação?
Quem pode liderar o processo?
Competências Reconhecer União e busca Como iremos avaliar?
(O que competências e do desenvolvimento Quais conhecimentos e
sabemos?) habilidades do grupo habilidades temos (eu e o outro)?
no grupo O que precisamos desenvolver?
Qual tempo/ envolvimento
Recursos Reconhecer o que Orientação pela vamos dispor?
(O que se tem e o que é realidade: Qual o prazo?
conseguimos necessário “Pé no chão” De quais recursos dispomos?
agora?) O que será necessário captar?
Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 373
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
Das considerações finais
Acreditamos que a construção de capa-
cidade avaliatória em iniciativas sociais pode
encontrar boas reflexões com base na experi-
ência que apresentamos aqui. Sabemos tam-
bém que estas dimensões são dinâmicas e
não obedecem a um processo equânime de
desenvolvimento. Há muito a ser feito, des-
coberto, revisado e aprofundado. Nossa con-
tribuição é circunscrita a este pressuposto.
Uma avaliação requer autenticidade,
curiosidade e rigor, o que nos coloca o
desafio permanente de lidar com a incerte-
za, de sermos compreensivos com a reali-
dade e de buscarmos, insistentemente, a
construção de sujeitos.
A construção da capacidade avaliatória
como processo de construção de sujeitos está
conjugada a um processo pedagógico de
perspectiva emancipatória que colabora com
o fortalecimento de indivíduos, grupos e or-
ganizações. Está associada à profunda cren-
ça de que mulheres e homens podem trans-
formar a si próprios e a sua interação com
os outros, num refazer do mundo e da pró-
pria história. Está relacionada à percepção
de que qualquer ação empreendida deve
alcançar a liberdade de homens e mulhe-
res. Significa dizer que se busca construir
um conhecimento que enxergue além da
indiferença cega e da ilusão ingênua.
Significa acreditar que se pode compar-
tilhar uma utopia.
Referências
CHIANCA, T. C.; MARINO, E.; SCHIESARI, L. M. C. Desenvolvendo a cultura de
avaliação em organizações a sociedade civil. São Paulo: Instituto Fonte, Global; 2001.
DEMO, P. Avaliação qualitativa. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1988.
FALCÃO, A. Mania de explicação. 5. ed. São Paulo: Salamandra, 2001.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
GUBA, E.; LINCOLN, Y. The fourth evaluation generation. Thousand Oaks, Calif.: Sage
Publications, 1988.
JOINT COMMITTEE ON STANDARDS FOR EDUCATIONAL STANDARDS. The program
evaluation standards. 2. ed. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications, 1994.
PATTON, M. Q. Utilization-focused evaluation: the new century text. 3. ed. Thousand
Oaks, Calif.: Sage Publications, 1997.
SANDERS, J. R. Mainstreaming evaluation. In: BARNETTE, J. J.; SANDERS, J. R. (Ed.).
The mainstreaming evaluation. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.
374 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos
Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005
SILVA, R. R.; BRANDÃO, D. B. Os quatro elementos da avaliação. São Paulo: Instituto
Fonte, 2003. Disponível em: <www.fonte.org.br>. Acesso em: 29 ago. 2005.
STAKE, R. E. The art of case study research. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications,
1995.
WORTHEN, B. R.; SANDERS, J. R.; FITZPATRICK, J. L. Program evaluation: alternative
approaches and practical guidelines. 2. ed. New York: Longman, 1997.
Recebido em: 14/01/2005
Aceito para publicação em: 27/06/2005

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  • 1. Resumo Este ensaio discute alternativas de apoio ao desenvolvimento da capacidade avali- atória em organizações da sociedade civil. Nele são debatidos elementos estratégicos para apoiar processos de aprendizagem nas organizações e para forta- lecer conquista de autono- mia no campo da avalia- ção. Aborda-se a constru- ção da capacidade avali- atória como processo de construção de sujeitos, e não como um movimento de natureza predominante- mente técnica. Com base nos princípios de aprendi- zagem, autonomia, respei- to e participação são pro- postas cinco dimensões es- tratégicas para apoiar o desenvolvimento de capacidade avaliató- ria: 1) a consciência a respeito e a capaci- dade de lidar com as relações de poder presentes nas ações avaliatórias; 2) a bus- ca de razões e motivação para avaliar as práticas; 3) a construção de um certo grau de identidade organizacional em torno da avaliação; 4) o desenvolvimento de com- petências no campo da facilitação e ges- Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões Daniel Braga Brandão Rogério Renato Silva Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 Daniel Braga Brandão Mestrando em Educação, PUC/SP Consultor do Instituto Fonte daniel@fonte.org.br Rogério Renato Silva Doutor em Saúde Pública, USP Coordenador Editorial do Instituto Fonte Cássia Maria Carraco Palos Mestre em Saúde Pública, USP Consultora do Instituto Fonte fonte@fonte.org.br tão de processos e da investigação da rea- lidade, necessárias a realização de avalia- ções; 5) a captação e alocação de recur- sos para criar as condições de trabalho necessárias aos processos de avaliação. Palavras-chave: Avaliação. Capacidade avaliatória. Avaliação de programas. Desen- volvimento organizacional. Identidade organizacional. Abstract Some Reflections on Building Evaluation Capacity on Social Initiatives This essay focuses on building evaluation capacity in civil society organizations. It considers aspects to support the organizational learning process and propose five dimensions to be considered in an evaluation capacity building process: 1) The power that involves the relationship among the stakeholders and its consequences in the decision making process; 2) The reasons and motivations to
  • 2. 362 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 develop the evaluation process; 3) The search to develop an organization understanding of the meaning of evaluation; 4) The need to develop skills in evaluation and 5) The need to raise and manage resources to the evaluation. Keywords: Evaluation. Capacity building. Organizational development. Organizational identity. Resumen Constructión de Capacidad en Avaluación Este texto trata de la construcción de capacidades en evaluación en organiza- ciones de la sociedad civil. Aborda el tema orientado por los proceso de aprendijage organizacional y considera cinco dimensi- ones presentes en la construcción de la capacidad en evaluación en una organi- zación: 1) Las relaciones de poder entre los stakholders y sus consecuencias en las decisiones; 2) Las razones y los motivos para desarrollar una evaluación; 3) La ela- boración de una identidad organizacional para la evaluación; 4) La necesidad del desarrollo de competencias en evaluaci- ón y 5) La necesidad de garantizar y ma- nejar fondos para la evaluación. Palabras clave: Evaluación. Capacidad evaluativa. Desarrollo organizacional. Aprendizaje organizacional. Das razões que nos levaram a escrever este ensaio A busca de melhores condições para o enfrentamento dos graves problemas sociais no Brasil, assim como em toda a América Latina, requer investimentos decisivos na pro- dução e sistematização de conhecimentos e práticas a respeito dos problemas da região e, sobretudo, de alternativas conceituais e possibilidades concretas de intervenção e mudança dos cenários de exclusão e depen- dência que marcam as realidades locais. Um dos pressupostos mais importantes na busca por melhores políticas públicas ou intervenções sociais que ajudem o processo de desenvolvimento latino-americano encon- tra-se na necessidade de criar e fortalecer organizações e programas que estruturem modelos de gestão que tenham a reflexão e a aprendizagem entre seus pilares de sus- tentação. Neste cenário, o desenvolvimento de culturas de avaliação nas organizações da região tem-se constituído como ação es- tratégica para o fortalecimento organizacio- nal. O caso brasileiro não foge à regra. A ampliação daquilo que podemos de- nominar de “pensamentos avaliatórios” no Brasil tem sido acompanhado de fatos bas- tante significativos. Seja por meio da criação da Rede Brasileira de Avaliação no ano de 2002, das dezenas de cursos e seminários sobre avaliação que têm sido promovidos em distintos espaços e organizações ou dos in- vestimentos públicos e privados para a con- tratação de avaliações internas e externas, parece já existir consenso em torno da neces- sidade de que projetos e programas sejam avaliados em busca de eficiência, transpa- rência e equidade, ainda que muitos dos de- senhos e métodos utilizados se apresentem frágeis e, muitas vezes, pouco democráticos, superficiais e pouco confiáveis. Ao olharmos para além do horizonte dos discursos existentes neste campo, identificamos desafios complexos e de natureza estruturante para o fortalecimento da cultura da avaliação
  • 3. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 363 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 no Brasil. Ao mesmo tempo em que muito se fala em avaliação, alguns fatores seguem de- terminando um certo grau de dificuldade para que as organizações a incorporem em sua prática cotidiana. Dentre esses fatores, quere- mos destacar e analisar brevemente os de na- tureza econômica, os da natureza da forma- ção de gestores, educadores e consultores e os de natureza organizacional. No que se refere ao aspecto econômi- co, os recursos alocados para avaliações entre as organizações da sociedade civil ainda são restritos. Rubricas destinadas a estudos avaliatórios ainda são difíceis de negociar e, muitas vezes, entre destinar re- cursos para realizar ações ou para avaliar ações, não há dúvidas a respeito do cami- nho seguido. À natureza de programação e prioridade do investimento deste aspecto, soma-se alguma dificuldade das organiza- ções em fazer prognósticos dos custos de uma avaliação. Pode até existir disposição de se investir neste processo, mas existe di- ficuldade e ausência de parâmetros para definir quanto investir. Mesmo quando os parâmetros recomendados por escolas mais estruturadas são utilizados, como as reco- mendações da escola americana em desti- nar 6 a 10% do orçamento global de um projeto para avaliação, não parece haver qualquer sentido em estabelecer uma rela- ção cartesiana entre tal diretriz e a realida- de brasileira. Somente o acúmulo de expe- riências em processos de avaliação e, so- bretudo, a utilização de seus resultados, poderão dar às organizações condições de julgar a relevância de se destinar recursos financeiros a essa finalidade. Outra questão desafiadora encontra-se na formação de gestores, educadores e consul- tores para atuarem no campo da avaliação. Ainda que já reunamos um bom volume de literatura a respeito do tema, sobretudo nos campos da saúde e da educação, ainda são estritas e superficiais os espaços de forma- ção. Tanto a universidade quanto as organi- zações da sociedade civil que atuam no pre- paro de gestores e consultores ainda inves- tem pouco em conteúdos em avaliação. Quanto aos fatores organizacionais, é possível identificar que gestores e educado- res convivem com uma polaridade entre fa- zer e refletir que muitas vezes inviabiliza o investimento em avaliação. A organização do trabalho, o ativismo, as demandas cons- tantes e a permanente escassez de tempo são alguns dos fatores que impedem que um processo de reflexão sobre a prática se enraíze em muitas organizações, mantendo a avaliação em um lugar inviável, ainda que sempre reconhecido como importante. A partir destes desafios é que procura- mos organizar algumas idéias, reunir al- gumas experiências, e compartilhar com os interessados nossas reflexões. Queremos também destacar três experiências que muito contribuíram para o nascimento deste en- saio. Em primeiro lugar nossa participação no ciclo de “Seminários de Aprofundamento Profissional para o Consultor em Processos de Desenvolvimento”, ministrados por Jac- ques Uljeé (Núcleo Maturi). Em segundo, a coordenação que fizemos do Seminário Construindo Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais, promovido em parceria com a Ashoka Empreendedores Sociais. Em terceiro, nossa participação como facilita- dores na avaliação da quinta edição do Programa de Apoio a Projetos de Atendi- mento a Crianças e Jovens de 7 a 14 anos na Grande São Paulo, de Vitae Apoio à Cultura, Educação e Promoção Social.
  • 4. 364 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 A força de nossa aprendizagem está na forma como queremos dividir nossas expe- riências e, portanto, queremos afirmar que este não é um modelo de avaliação, nem consideramos as idéias aqui apresentadas como definitivas. Buscamos colaborar com o debate em torno do tema avaliação e conhecer e discutir idéias e sugestões que permitam incrementar nossa prática avali- atória, fortalecer a cultura de avaliação na América Latina, sobretudo, ajudar o Brasil a alcançar o desenvolvimento social que ajude a erradicar iniqüidades. Do conceito de avaliação: extrato de uma gramática em expansão Há muitas formas de definir o conceito “avaliação”, percebido com intensa força po- lissêmica quando examinamos alguns traba- lhos de autores que escreveram sobre o tema, como Chianca, Marino e Schiesari (2001); Demo (1988); Guba e Lincoln (1988); Patton (1997); Worthen, Sanders e Fitzpatrick (1997); Stake (1995). Neste ensaio adotamos um con- ceito que, em certa medida, reflete os diálogos que temos estabelecido com as organizações com as quais temos trabalhado. Apontamos para avaliação como um processo de apren- dizagem sistemático e intencional que um in- divíduo, grupo ou organização se propõe a percorrer para aprofundar a sua compreen- são sobre determinada intervenção social, por meio da elaboração e aplicação de critérios explícitos de investigação e análise, em um exercício compreensivo, prudente e confiável, com vistas a conhecer e julgar o mérito, a re- levância e a qualidade de processos e resulta- dos. A avaliação leva à ampliação de consci- ência sobre determinado programa ou projeto o que possibilita que escolhas e decisões ma- duras possam ser feitas. Revisamos, com isso, o conceito que apresentamos em artigo anterior (SILVA; BRANDÃO, 2003). Um dos princípios fundamentais que temos em mente quando nos referimos a um processo avaliatório é o de que uma avaliação não se constitui apenas em um dispositivo técnico, mas sobretudo político. Quando agimos sem que este princípio es- teja em nossa consciência, podemos incor- rer em um exercício autoritário de poder, como afirma Demo (1988) e fazer com que a avaliação, ao invés de construir sujeitos, torne-se um mecanismo de controle e de coerção que impeça o desenvolvimento. Entendemos avaliação a partir de uma ótica emancipatória, participativa e colabo- rativa na qual propósitos e critérios de jul- gamento são construídos por meio da ne- gociação entre diferentes atores sociais. Te- mos certeza de que cada sujeito é capaz de avaliar suas ações e nesse fenômeno, de maneira reflexiva, ele se constrói e recons- trói a sua prática. Para nós, o papel de “ava- liadores externos” implica em desconforto, em contradição. Agimos como facilitadores, como educadores que, por meio da lingua- gem da avaliação, procuramos ajudar su- jeitos e organizações a se desenvolverem. Da construção da capacidade avaliatória: alguns princípios Nas análises que fizemos de nossas ex- periências de consultoria, identificamos um conjunto de princípios que entendemos como importantes ao processo de constru- ção de capacidade avaliatória. Ao mesmo tempo em que operam como espelhamen- to para nossas práticas de avaliação, per-
  • 5. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 365 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 cebemos que estes princípios se colocam como um escapulário que nos inspiram em tempos de luz e nos orientam em períodos de sombra. Os princípios são os seguintes: a. O princípio da “aprendizagem” anuncia a avaliação como promo- tora de oportunidades, espaços e movimentos para que os sujeitos e as organizações aprendam. Avaliar pode se constituir em um processo altamente educativo e transformador da vida social. Para isso é preciso criar objetivos e condições de apren- dizagem. Aprenderemos com nossos acertos e erros se avaliarmos critica- mente o que fazemos. Sem avalia- ção não há desenvolvimento. b. Os princípios do “respeito” e da “au- tonomia” anunciam que o caminho a seguir em um processo de constru- ção de capacidade avaliatória deve estar orientado pelo contexto cultural, político e estrutural da organização. Como os sujeitos, as organizações vivem seus momentos históricos as entradas forçadas podem mais des- truir do que construir capacidades. O processo de construção de capacida- de avaliatória precisa ser endógeno. c. Os princípios da “participação” e da “colaboração” se estruturam na cren- ça de que o processo de construção de conhecimento e de produção de conhecimento é individual e social, ganhando sinergia nesta polaridade. Ainda que venhamos a escolher ca- minhos mais complexos e longos, não se alcançarão práticas justas, orga- nizações socialmente responsáveis e condições sociais equânimes por ca- minhos que não sejam democráticos. d. O princípio da “felicidade” surge sensí- vel e naturalmente nas esteiras da sa- bedoria, do bom senso, da arte e, so- bretudo, da educação (DEMO, 1988). Felicidade é um processo que contém dimensões mágicas, lúdicas, religiosas, místicas e se constrói na cultura e na história, não simplesmente como supe- ração dos problemas materiais, mas também como expressão sensível de de- senvolvimento. Nas palavras de Demo (1988, p. 27), a felicidade está “no cli- ma que pinta, na atmosfera que envol- ve, na influência que impregna, na so- lidariedade que inspira” os processos e as relações sociais. Da construção de capacidade avaliatória: cinco dimensões Os processos de construção de capaci- dade avaliatória com os quais nos envolve- mos e que revisamos para produzir este en- saio foram capazes de revelar cinco dimen- sões a respeito das quais queremos falar agora. Ainda que interligadas, conectadas, dependentes umas das outras, orgânicas, fazemos aqui uma divisão que, acreditamos, nos ajuda a explicitar a compreensão que tivemos do tema. São elas a dimensão do “poder”, da “motivação”, da “identidade”, das “competências” e dos “recursos”. Quando discutíamos e procurávamos articular essas cinco dimensões na forma de uma figura que representasse sua liga- ção, chegamos ao pentagrama como uma figura simbólica formada por cinco linhas. Em nossas reflexões e experimentos, nos vimos compreendendo o pentagrama como uma espécie de tradução geométrica do ser humano, ao mesmo tempo em que percebe- mos cada dimensão que construímos relaci-
  • 6. 366 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 onada a distintas partes do corpo. Nos veio a imagem de Leonardo da Vinci superposta ao pentagrama, cujo sentido foi, ao menos para nós, expressão importante da centrali- dade do sujeito nesta discussão. O poder na cabeça pensante, a identidade á esquerda do peito, a motivação na força da mão, as competências e recursos, sustentando – fisi- camente – o processo. Esperamos que nosso esforço criativo provoque reflexões. Figura 1. Construção de capacidade avaliatória como construção de sujeitos. Poder Motivação Identidade Competências Recursos Do poder A arquitetura e a dinâmica das relações so- ciais estabelecidas em um grupo envolvido em uma avaliação desempenham papel estruturan- te na construção de capacidade avaliatória em uma iniciativa social. As relações entre a organi- zação financiadora e a organização financiada, entre os sujeitos na organização, com as comu- nidades com as quais se trabalha e, muitas ve- zes, com a avaliadora externa, resulta em uma dinâmica complexa de relações que vai determi- nar o processo decisório e o caminho a ser se- guido em uma avaliação. Conseqüentemente o caminho de aprendizagem de um determinado grupo também passa por estas relações. Na perspectiva da construção da ca- pacidade avaliatória a partir da constru- ção de sujeitos, a participação efetiva e autônoma dos diversos atores envolvidos na iniciativa torna-se a alma do processo de avaliação. Neste sentido, o exercício de compartilhar poder e de equilibrar forças e formas de tomar decisão ocupa posição central no processo. Para alguns, este exer- cício implica em abrir mão do controle so- bre a avaliação, sejam estes gestores da organização ou consultores externos. O exercício de compartilhar poder se cons- titui em um espaço privilegiado de negocia-
  • 7. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 367 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 ção, conforme observam Guba e Lincoln (1988) ao escreverem a respeito da Avaliação da Quarta Geração. Negociam-se expectati- vas na forma de perguntas e de desejos. Ne- gociam-se pressupostos e conceitos na forma de indicadores e critérios de julgamento. Ne- gociam-se compreensões da realidade por meio da escolha de métodos de investigação. Negocia-se força e espaço por meio dos com- promissos políticos assumidos externa e inter- namente com o grupo que avalia. A construção de um ethos político, no qual o porquê e o como avaliar são defini- dos de maneira colaborativa, tem grande repercussão metodológica no processo de avaliação. Quando operamos com a cren- ça de que a avaliação ganha sentido e re- levância à medida que envolve diferentes atores que atuam de maneira autônoma para orientar o processo, é preciso estar preparado para lidar com as implicações concretas que as decisões do grupo trazem para o ato de investigação da realidade. O acolhimento destas implicações pode tra- zer legitimidade e crença no processo. A discussão de poder que fazemos aqui quer marcar o princípio de que cons- truir capacidade avaliatória é um processo coletivo. Por ser coletivo, transforma-se em um caminho de pavimentação da au- tonomia dos sujeitos e das organizações. Nas palavras de Freire (1997, p. 35), “ninguém é autônomo primeiro para de- pois decidir. A autonomia vai se constru- indo na experiência das várias decisões que vão sendo tomadas” no processo de trabalho. O caminho de construção de capacidade avaliatória será gerador de aprendizagem e autonomia à medida que criar condições para lidar com a dimen- são do poder de forma consciente. Um outro elemento que queremos exa- minar na dimensão do poder diz respeito à relação entre organizações financiadas e organizações financiadoras. Muitas vezes, a demanda por avaliações surge no seio de organizações financiadoras, que deli- mitam suas necessidades avaliatórias e de- finem as perguntas de avaliação que que- rem responder. Por sua vez, a fonte de in- formações para responder a essas pergun- tas costuma ser, na maioria dos casos, as organizações financiadas, bem como as populações com as quais trabalha. Se este percurso de orientação exter- na é seguido na avaliação, é comum que os resultados alcançados sejam apresen- tados ao financiador e sirvam, primaria- mente, para suas reflexões e decisões, cabendo à organização financiada um lugar de objeto, e não sujeito, da ação avaliatória. Quando falamos em múlti- plos atores e na necessidade de que o processo de construção de capacidade avaliatória resignifique relações de po- der, imaginamos que a relação entre as organizações financiadas e financiado- ras também é objeto desta mudança. Por fim, não podemos deixar de apontar para a necessidade de que a relação entre organizações e avaliadores externos seja também profundamente revisada em um pro- cesso de construção de capacidade avalia- tória. Mais do que em qualquer outro tipo de trabalho no campo da avaliação, aqui os avaliadores não são unicamente especi- alistas em avaliação, não são referências ou autoridades em determinadas áreas de co- nhecimento, mas sim são atores que aju- dam os sujeitos e as organizações a estabe- lecer sua dinâmica de trabalho e a fazer suas escolhas e descobertas.
  • 8. 368 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 Da motivação Se as implicações de poder são tratadas como campo privilegiado no processo de construção de capacidade avaliatória, a necessidade de cuidar da motivação, en- quanto campo de interesse e disposição em participar do processo, constitui-se também em uma dimensão importante. Frente a tan- tas obrigações do do fazer administrativo, financeiro, político, pedagógico, entre ou- tros, depositar energia em processos de ava- liação constitui-se um grande desafio. A motivação não pode, entretanto, ser tratada de maneira estanque. Assim, perce- bemos a motivação como o fenômeno da significação permanente dos processos de avaliação e de construção de capacidade avaliatória. Se, como afirma Falcão (2001, p. 27), a vontade é “um desejo que cisma que você é a casa dele”, esta casa apenas será reconhecida e valorizada à medida que se constituir em espaço permanente de apren- dizagem, descobertas e transformações. A dimensão da motivação se constitui também em campo reflexivo à medida que o sujeito e o processo se reinventam de maneira permanente quando as condições para tal são construídas. Usando uma da- quelas frases cuja causa e efeitos são de natureza não linear, somente terá espaço e sentido para os sujeitos os processos de avaliação que forem desejados por eles, ao mesmo tempo em que só serão desejados os processos avaliatórios que tiverem senti- do para os sujeitos. Para Sanders (2003), quatro razões di- ficultam a incorporação da avaliação como parte estratégica da organização, sendo elas (a) o fato de que os sujeitos desconheçam os benefícios das avaliações, (b) o fato dos elevados investimentos de tempo e recur- sos nas avaliações, (c) a inexistência de sujeitos que desempenhem certo papel de liderança frente aos processos de avalia- ção e (d) o fato da pouca ou nenhuma utilização das avaliações para aprender e mudar. A estas observações acrescentaría- mos, de forma radicular, o fato da insistên- cia em processos exógenos, burocráticos, persecutórios e não participativos. Enfrentar estas condições, hegemônicas em muitos cenários, constitui-se como peça chave para atribuir sentido e trazer motiva- ção ao processo de construção de capacida- de avaliatória. Tratar a avaliação de forma transparente e democrática, relacioná-la a espaços e momentos de aprendizagem e de- cisão, encontrar lideranças interessadas em problematizar e motivar os grupos sociais a avaliarem suas ações, são algumas das al- ternativas que contribuem para que os pro- cessos se tornem viáveis1 e sustentáveis. Da identidade Algumas ferramentas aplicadas à gestão de iniciativas sociais são amplamente reco- nhecidas como capazes de construir e signi- ficar conceitos e práticas, como a elabora- ção de projetos, o planejamento estratégico e a sistematização. Neste conjunto a avalia- ção se afirma como ferramenta técnica-polí- tica efetiva para promover tais fenômenos. Em si mesma, a avaliação espelha sujei- tos e organizações de maneira significativa. O que queremos, no que acreditamos, o que valorizamos, com quem nos relacionamos, o que negociamos e como julgamos, constitu- 1 Viabilidade: assegurar que uma avaliação será feita de maneira realista, prudente, diplomática e moderada (SANDERS, 1994).
  • 9. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 369 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 em-se categorias com as quais operamos nos processos de avaliação e que irão revelar de forma marcante nossa identidade nos pro- cessos. Por isso mesmo, a dimensão da iden- tidade é de grande importância na constru- ção de capacidade avaliatória. É na cons- trução da identidade que percebemos os ou- tros e o que nos difere e nos aproxima da- queles com os quais trabalhamos. Se por um lado nos preparamos para lidar com poderes e criar espaços de cons- trução e por outro enfrentamos a atribuição permanente de sentido, uma terceira dimen- são nos convida a explorar gramáticas, pres- supostos e práticas. É nesta dinâmica que se irmanam os elementos que nos ajudarão a responder, como sujeitos e grupos sociais: O que entendemos por avaliação? Por que avaliamos? O que queremos aprender? Como utilizaremos o que aprendemos em nossas ações? Como aprenderemos? Para além das definições em torno dos próprios processos de avaliação, o que te- mos observado participativamente é que as avaliações criam espaços privilegiados para que a prática dos sujeitos seja conceituada e para que seus pressupostos e conceitos sejam revisitados e, muitas vezes, negocia- dos e revisados. Os processos de identifi- cação de perguntas e de definição de indi- cadores (critérios, sinais, marcadores, evi- dências) de avaliação, são campos férteis para se produzir e reinventar conceitos. O processo de construção de capacida- de avaliatória é um processo de construção de identidades, por isso também é processo que fortalece a construção de sujeitos. Am- pliar consciências, aprofundar conhecimen- tos, revisitar e revisar práticas, aprender, mudar. Por isso falamos em identidade. Das competências Os processos de avaliação e de cons- trução de capacidade avaliatória em ini- ciativas sociais não avançam quando se constituem em mera sucessão de métodos e técnicas que se aplica para “desvendar” a realidade. Avançam sim quando se con- formam em um caminho de desenvolvi- mento no qual as escolhas, elaborações e a organização do trabalho são produzi- dos de forma dinâmica, convivendo com reinvenção permanente. Os processos avaliatórios oferecem es- paços nos quais muitas vezes nos confron- tamos com nosso conhecimento técnico no campo da investigação, com nossas ha- bilidades de facilitação e nossa forma de gerir processos. Por tudo isso percebemos que, ao mesmo tempo em que articula- mos poderes, que apoiamos motivações e que provocamos construção de identida- des, precisamos nos preparar para lidar com estas dimensões de forma sensível e eficaz, ao mesmo tempo em que cuida- mos desse “lugar de investigação” sem o qual não há avaliação, ou confiança em seus resultados. Assim articulamos três campos cujo conteúdo queremos compartilhar. As com- petências de facilitação de processos, de gestão de processos e de investigação da realidade compõem um cenário relevante para o desenvolvimento de sujeitos na área. Entendemos que o cenário de com- petências é um campo de articulação das demais dimensões analisadas aqui, é um campo no qual caminhamos em busca de apoiar processos que levem à reflexão, aprendizagem e desenvolvimento. A Figura 2, a seguir, ilustra este cenário.
  • 10. 370 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 Figura 2. Cenário de competências em avaliação. a) a competência para a facilitação de processos A facilitação de processos é competên- cia fundamental para garantir que as di- mensões aqui analisadas consigam existir e buscar pontos de equilíbrio que assegu- rem o desenvolvimento dos sujeitos e gru- pos. A facilitação envolve trabalho com sentidos, com significados, com articula- ções, com negociações, com construções, com leituras da realidade, com acolhimen- to e com provocação. Percebemos a facilitação como compe- tência chave para atribuir sentido a pro- cessos de avaliação. Por isso lida com po- deres, motivações e identidade de maneira intensa. Além do mais, é a facilitação que articulará as competências de gestão e de investigação da realidade a fim de garantir processos viáveis e confiáveis. Toda a cons- trução técnica da avaliação se dará a par- tir das habilidades de facilitação. A seguir identificamos seis habilidades importantes, entre tantas outras. ATRIBUIÇÃO DE SENTIDO * motivos * utilidade * foco * negociações * problematização APOIO À EMANCIPAÇÃO * decisões * processos * reflexões * interações ANÁLISE DO CONTEXTO * tempo * recursos $ * equipe * comunicação * viabilidade * propriedade PRECISÃO * abordagens * técnicas * descrição * análise * julgamento * sensibilidade * criatividade * compreensão REFLEXÃO APRENDIZAGEM DESENVOLVIMENTO FACILITADOR GESTOR INVESTIGADOR
  • 11. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 371 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 • Capacidade de ouvir de forma aber- ta e sensível os integrantes do grupo; • Capacidade de trabalhar de forma compreensiva as necessidades do grupo; • Capacidade de problematizar ques- tões, de provocar e estimular reflexões so- bre o projeto e os elementos da avaliação; • Habilidade para ajudar o grupo a construir compreensões e respostas, sem levá-las prontas; • Capacidade de zelar pelo processo de trabalho do grupo, cuidando de proce- dimentos, relações e estrutura; • Capacidade de agir com profundo respeito pelas criações do grupo, acolhen- do-as de maneira integral. b) a competência para gestão de processos Trata-se da competência em lidar com as variáveis internas e externas aos processos de avaliação, tais como o tempo, os recursos fi- nanceiros, a gestão de equipes de trabalho, os planos de avaliação, a comunicação, en- tre outras coisas. As habilidades para enfren- tar estes desafios serão fundamentais para que os processos de avaliação sejam sustentáveis. c) a competência para investigação da realidade Em essência, os processos de avaliação têm na necessidade de investigar a realida- de um eixo comum e determinante para sua existência. Por isso mesmo a necessidade de desenvolver competências no campo da in- vestigação é vista com grande importância para os sujeitos e organizações que querem desenvolver capacidade avaliatória. É a competência para investigar a reali- dade que terá peso determinante na em as- segurar a precisão2 do processo e, em con- seqüência, sua confiabilidade por parte dos diferentes interessados. A necessidade de escolher as abordagens mais adequadas, de garantir os métodos mais apropriados, pro- fundos e capazes de revelar, de compor quan- tidade e qualidade de forma harmônica, são os desafios que se colocam no caminho daqueles que se interessam por avaliação. Fugir do cientificismo ingênuo e do rela- tivismo fundamentalista coloca aos sujeitos o desafio de estabelecer formas confiáveis de explorar a realidade, de retratar os fatos, de aprofundar compreensões e de revelar infor- mações que soem verdadeiras aos interessa- dos. Por fim, como afirma Guba e Lincoln (1988), o uso exclusivo do método científico fecha as portas para maneiras alternativas de se pensar a respeito do objeto da avaliação. Dos recursos A dimensão final a respeito da qual fa- zemos breves comentários é a dimensão dos recursos. Consideramos recursos o conjunto de elementos que são consumidos em pro- cessos de avaliação e que, por isso mes- mo, implicam em escolhas, definição de li- mites e certo controle. Tempo das pessoas, contratações externas, equipamentos, ma- teriais e estrutura de apoio muitas vezes serão necessários a determinados tipos de processos de avaliação. Ainda que muitos desenhos avaliatóri- os, sobretudo os de natureza processual, demandam pouco ou quase nenhum inves- timento direto, certos casos precisarão ser analisados e ponderados com cuidado, a fim de que a avaliação não se torne custosa e pouco efetiva, traços que contribuiriam 2 Precisão: assegurar que uma avaliação irá revelar e produzir informações tecnicamente adequadas sobre os aspectos que determinam o mérito e a relevância do programa avaliado (SANDERS, 1994).
  • 12. 372 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 para que cultura avaliatória não se enrai- zasse nos sujeitos e nas organizações. Da síntese das dimensões As dimensões apresentadas assumem seu sentido de existência ao se fazerem úteis no apoio ao desenvolvimento de iniciativas ava- liatórias. No estímulo à reflexão, na reorde- nação da prática e na abertura para novas percepções e sentimentos é que as cinco di- mensões ganham vida. Para auxiliar este processo, propõe-se uma configuração di- dática das dimensões discutidas ao longo deste ensaio, apresentada no quadro 1. 3 As perguntas entre parênteses foram sugeridas por Cláudia Mara de Melo Tavares, durante a oficina “Iniciativas Inovadoras em Avaliação de Projetos e Programas Sociais”, por ocasião do V Congresso Nacional da Rede Unida, Londrina, PR, maio de 2003. Quadro 1. Síntese das dimensões capacidade avaliatória de uma iniciativa social1 . Dimensão Premissa O que gera Perguntas chave Quem será envolvido? Quais suas aspirações? Poder Agir em Participação e Qual o papel de cada um? (O que liberdade comprometimento Qual será a participação podemos?) desses atores? Que conflitos existem? Como tomaremos decisões? O que entendemos por avaliação? Por que iremos avaliar? Identidade Para que iremos avaliar? (O que somos Conceitualizar Alinhamento Como vamos utilizar os resultados? e pensamos?) O que buscamos aprender? O que iremos avaliar (pergunta avaliatória)? Que sentimentos a avaliação nos desperta? Vontade Queremos avaliar? (O que Desejar e inspirar Movimento Estamos dispostos a abrir queremos?) espaço para a avaliação? Quem pode liderar o processo? Competências Reconhecer União e busca Como iremos avaliar? (O que competências e do desenvolvimento Quais conhecimentos e sabemos?) habilidades do grupo habilidades temos (eu e o outro)? no grupo O que precisamos desenvolver? Qual tempo/ envolvimento Recursos Reconhecer o que Orientação pela vamos dispor? (O que se tem e o que é realidade: Qual o prazo? conseguimos necessário “Pé no chão” De quais recursos dispomos? agora?) O que será necessário captar?
  • 13. Da Construção de Capacidade Avaliatória em Iniciativas Sociais: Algumas Reflexões 373 Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 Das considerações finais Acreditamos que a construção de capa- cidade avaliatória em iniciativas sociais pode encontrar boas reflexões com base na experi- ência que apresentamos aqui. Sabemos tam- bém que estas dimensões são dinâmicas e não obedecem a um processo equânime de desenvolvimento. Há muito a ser feito, des- coberto, revisado e aprofundado. Nossa con- tribuição é circunscrita a este pressuposto. Uma avaliação requer autenticidade, curiosidade e rigor, o que nos coloca o desafio permanente de lidar com a incerte- za, de sermos compreensivos com a reali- dade e de buscarmos, insistentemente, a construção de sujeitos. A construção da capacidade avaliatória como processo de construção de sujeitos está conjugada a um processo pedagógico de perspectiva emancipatória que colabora com o fortalecimento de indivíduos, grupos e or- ganizações. Está associada à profunda cren- ça de que mulheres e homens podem trans- formar a si próprios e a sua interação com os outros, num refazer do mundo e da pró- pria história. Está relacionada à percepção de que qualquer ação empreendida deve alcançar a liberdade de homens e mulhe- res. Significa dizer que se busca construir um conhecimento que enxergue além da indiferença cega e da ilusão ingênua. Significa acreditar que se pode compar- tilhar uma utopia. Referências CHIANCA, T. C.; MARINO, E.; SCHIESARI, L. M. C. Desenvolvendo a cultura de avaliação em organizações a sociedade civil. São Paulo: Instituto Fonte, Global; 2001. DEMO, P. Avaliação qualitativa. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1988. FALCÃO, A. Mania de explicação. 5. ed. São Paulo: Salamandra, 2001. FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. GUBA, E.; LINCOLN, Y. The fourth evaluation generation. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications, 1988. JOINT COMMITTEE ON STANDARDS FOR EDUCATIONAL STANDARDS. The program evaluation standards. 2. ed. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications, 1994. PATTON, M. Q. Utilization-focused evaluation: the new century text. 3. ed. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications, 1997. SANDERS, J. R. Mainstreaming evaluation. In: BARNETTE, J. J.; SANDERS, J. R. (Ed.). The mainstreaming evaluation. San Francisco: Jossey-Bass, 2003.
  • 14. 374 Daniel Braga Brandão, Rogério Renato Silva e Cássia Maria Carraco Palos Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v.13, n.48, p. 361-374, jul./set. 2005 SILVA, R. R.; BRANDÃO, D. B. Os quatro elementos da avaliação. São Paulo: Instituto Fonte, 2003. Disponível em: <www.fonte.org.br>. Acesso em: 29 ago. 2005. STAKE, R. E. The art of case study research. Thousand Oaks, Calif.: Sage Publications, 1995. WORTHEN, B. R.; SANDERS, J. R.; FITZPATRICK, J. L. Program evaluation: alternative approaches and practical guidelines. 2. ed. New York: Longman, 1997. Recebido em: 14/01/2005 Aceito para publicação em: 27/06/2005