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DANIEL DE ALMEIDA SILVA

AS CONCEPÇÕES DE NATUREZA EM PERSPECTIVAS GEOGRÁFICAS

GUARABIRA-PB
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DANIEL DE ALMEIDA SILVA

AS CONCEPÇÕES DE NATUREZA EM PERSPECTIVAS GEOGRÁFICAS

Monografia apresentada como requisito para...
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA SETORIAL DE
GUARABIRA/ UEPB

S586c Silva,  Daniel de Almeida

As concepções ...
Daniel de Almeida Silva

AS CONCEPÇÕES DE NATUREZA EM PERSPECTIVAS GEOGRÁFICAS

Monografia apresentada como requisito para...
À memória de José Adelino Pequeno (1914-2000).
AGRADECIMENTOS

Eternas gratidões aos meus pais,  Manoel e Irene,  que saíram da sua terra e
atravessaram o Brasil para as...
Só se vê bem com o coração.  O essencial é invisível aos olhos. 
(Antoine de Sanit Exupéry)
043 - Geografia

Título:  As concepções de natureza em perspectivas geográficas
Autor:  Daniel de Almeida Silva

Orientado...
ABSTRACT

Become pregnant by the man as sacred,  the nature conceptions have your
origin in the mythologies where nature a...
LISTA DE FIGURAS

Figura 01 - Esquema do espaço sagrado e do espaço profano . ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 17...
SUMÁRIO

1 -INTRODUÇÃO . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ....
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1 -INTRODUÇÃO

Este trabalho monográfico busca levantar reflexões sobre as concepções de
natureza dentro das necessida...
12

homem,  novos estímulos gerados pelas necessidades industriais geram novas
formas de perceber a natureza.  Estas perce...
13

2 - A NATUREZA E O SAGRADO

Observando a grandiosidade da natureza e sendo submisso a ela,  o homem
buscou nela as res...
14

natureza,  pois a grandiosidade dos fenômenos da natureza revelavam-se diante do
homem como uma força independente das...
15

uma árvore,  onde permaneceu por muitas eras até se formar outra árvore,  quando
uma serpente comeu suas raízes tornar...
16

2.2 - Do sagrado ao marginalizado

Sendo a natureza e o homem criações de Deus,  havia uma harmonia entre
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17

 

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Ao contemplar a natureza São Francisco de Assis descobre a presença de
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Na carta do chefe indígena ao presidente dos Estados Unidos,  a natureza
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hierofania,  e é deslocada para a periferia,  espaço passível de profanação.  Quando
Galileu define a natureza como "q...
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de Deus por isso pode ser profanado,  pois Deus não se manifesta na periferia. 
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3 - A NATUREZA UM BEM CAPITALIZADO

Ao ser transformada em mercadoria pelo capitalismo,  a natureza torna-se
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tal maneira é graciosa que,  querendo-a aproveitar,  dar-se-á nela tudo;  por
causa da água que tem!  (Carta a EI Rei ...
24

Para estes países,  os mercantilistas apresentavam uma solução feliz.  Uma "balança
de comércio favorável" HUBERMAN (1...
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histórico eram importantes pela sua produção de carvão,  a principal fonte de energia

da primeira Revolução Industria...
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Norte:  elas são atravessadas por rios caudalosos,  com terríveis cheias que
escoam não por vales mas,  ao contrário, ...
27

3.2 - Como percebemos a natureza

O valor da natureza está associado as percepções e aos estímulos recebidos
por cada ...
28

Os residentes em um clima frio vivem em um mundo mais carpintejado do
que os residentes em um clima quente,  por que o...
29

A mesma imagem pode nos levar a conclusões diferentes quanto a
localização do nosso ponto de observação.  Se nos imagi...
30

conclusões obscurecidas por uma serie de significados que são introduzidas ou
retirados do nosso meio de acordo com in...
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4.1 - A NATUREZA:  UMA NECESSIDADE HUMANA

Exaltado pelas suas conquistas,  o homem vive as contradições entre os seus...
32

caos e o cosmos,  observando o homem apenas como mais um elemento nesse
imenso mecanismo de destruição e (re)construçã...
33

sim-bólico como elementos capazes de construir em nós percepções diferentes de

natureza. 

Expliquemos,  antes de mai...
34

4.2 - Natureza e fragilidade

Pouco a pouco o homem foi perdendo a percepção do seu verdadeiro lugar
na natureza,  iss...
35

Lovelock (1990) acreditava que o equilíbrio que permite a vida como a
conhecemos relaciona-se a um processo de interaç...
36

A comunidade primitiva vivida pelos primeiros cristãos foi e sempre será um
grande exemplo para todos que queiram vive...
37

5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise das concepções de natureza no decorrer da evolução do
pensamento geográfico,  pass...
38

REFERÊNCIAS

AQUINO,  Rubim Santos Leão de.  História das sociedades:  das sociedades
modernas às sociedades atuais.  ...
39

GAARDER,  Jostein e HELLERN,  Victor e NOTAKER,  Henry.  O livro das religiões. 
São Paulo:  Companhia das Letras,  20...
40

VALDÉS,  Ariel Álvares.  Que sabemos sobre a bíblia?  Il.  Aparecida,  SP:  Santuário, 
1997.
ANEXO
A ÁGUIA E A GALINHA,  UMA METÁFORA DA CONDIÇÃO HUMANA

Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássa...
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  1. 1. ' 5 I *I P* UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARAÍBA *j CENTRO DE HUMANIDADES - CAMPUS | || Ã, 4 DEPARTAMENTO DE GEO-HISTORIA _DE »I r 7 CURSO DE GEOGRAFIA Itâvgfgñlágày '_ 14-- t I -R '_ . -. ' “I V . Fra 3?; a 3 . . ' . ' ' I' . k' 'JT t” I. . 4') u'. t . .x44 'I A I 05' I . CF I , _'›~. , . _ . _ Ia . -. J . v ILLÚJÀIÁAAÉV', _Í _ _ 'm'- “ ASÍCO N C E PÇQÊSIQÊINJÊLIIIIJLRÊÀAÁ EMI P E RS, P ECÍII IVAOSIQÉQÊBÊLEJCÀAQ ' | ' . . f, 'j_'iv›. í;. lc / . WH_ _ _A ' L 0'; __ _ 'DANIEL' DE ¡LMEIDA SILVA . _ › : Lift t e» . ir ' = A I *ITIÍV ¡àw ¡fá -" .1 ~ _~. -JM _. GUARABIRA-PB 2009 . .In ~= r-= r --›I. I:~ - _ -w _O
  2. 2. DANIEL DE ALMEIDA SILVA AS CONCEPÇÕES DE NATUREZA EM PERSPECTIVAS GEOGRÁFICAS GUARABIRA-PB 2009
  3. 3. DANIEL DE ALMEIDA SILVA AS CONCEPÇÕES DE NATUREZA EM PERSPECTIVAS GEOGRÁFICAS Monografia apresentada como requisito para obtenção do título de Licenciatura Plena em Geografia da Universidade Estadual da Paraíba. Orientação: Prof. Dr. Belarmino Mariano Neto Co-orientação: Profa. Ms. Maria Aletheia S. Belizário GUARABIRA-PB 2009
  4. 4. FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA SETORIAL DE GUARABIRA/ UEPB S586c Silva, Daniel de Almeida As concepções da natureza em perspectivas geográficas / Daniel de Almeida Silva. - Guarabira: UEPB, 2009. 42f. Monografia (Trabalho Acadêmico Orientado - TAO) - Universidade Estadual da Paraíba. "Orientação Prof. Dr. Belarmino Mariano Neto Co-orientação Profa Ms. Ma Alethéia S. Belizário". 1. Geografia 2. Natureza l. Título. 22.ed. CDD 910
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  6. 6. À memória de José Adelino Pequeno (1914-2000).
  7. 7. AGRADECIMENTOS Eternas gratidões aos meus pais, Manoel e Irene, que saíram da sua terra e atravessaram o Brasil para assegurar aos seus filhos aquilo que julgavam com grande certeza muito importante, os estudos, que lhes fora negado. A todos os meus professores, em especial a minha primeira professora Rosângela. Ao Instituto Mon Serrat, pela confiança depositada. Aos amigos professores José Cezar, Tiago Teodósio e Rodolfo Ramalho, e amigos de turma Ivanildo, Filipe, Joab, Jailton, Niedson e . Jalice. Aos alunos Erik, Joana, Julianny, Michael, Ramon e Shirleny, pelo aprendizado da geografia juntos durante o ensino fundamental e médio. Em especial para Rosineide, Celina e Gabriel, família que não me deixa só. E a Deus, o princípio e o fim, a base concreta da minha existência.
  8. 8. Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. (Antoine de Sanit Exupéry)
  9. 9. 043 - Geografia Título: As concepções de natureza em perspectivas geográficas Autor: Daniel de Almeida Silva Orientador: Dr. Belarmino Mariano Neto Membros da banca: Ms. Maria Aletheia Stedile Belizário Esp. Antonio Sérgio Ribeiro de Souza RESUMO Concebida pelo homem como sagrada, as concepções de natureza tem sua origem nas mitologias onde natureza e homem são frutos de um Deus/ Criador. Estas concepções são de uma natureza repleta de significados sagrados, as mitologias judaico/ cristão, sioux e hindu são uma tentativa de comprovação da essência divina da natureza pela mitologia. A natureza independente do homem, encontraria na ciência moderna e na revolução industrial sua marginalização e transformação em mercadoria. As necessidades industriais desencadearam guerras como a franco- prussiana que se apoiava na recém nascida ciência geográfica do final do século XIX. Moldados pelos estímulos que recebemos, as concepções que definem a importância da natureza para o homem, são gerados pelas necessidades que geram novas formas de percepção sobre a natureza, que agregam ou retiram valores de acordo com as conveniências. Distanciado da natureza e engrandecido pelas suas conquistas tecnológicas o homem transforma-se em geocida e ecocida comprometendo o equilíbrio do planeta. Amparado pela confusão dos seus ideais, passa despercebido pelo gigante e frágil organismo que é o planeta Terra. Seqüestrado de si pelas suas ambições e confuso, tem que encontrar um caminho de re-Iigação entre ele mesmo e a natureza. Palavras-chave: Sagrado. Geograña. Percepções. Concepções de natureza.
  10. 10. ABSTRACT Become pregnant by the man as sacred, the nature conceptions have your origin in the mythologies where nature and man are fruits of a God/ Creator. These conceptions are of a replete nature of sacred meanings, the mythologies Jewish/ Christian, sioux and Hindu are an attempt of proof of the divine essence of the nature for the mythology. The man's independent nature, would find in the modern science and in the industrial revolution its marginal and transformation in merchandise. The industrial needs unchained wars as the franc-Prussian that leaned on in the newly born geographical science of the end of the century XIX. Moulded for the incentives that we received, the conceptions that define the importance of the nature for the man, they are generated by the needs that generate new perception forms on the nature, that join or remove values in agreement with the conveniences. Distanced of the nature and increased by your technological conquests the man becomes geocida and ecocida committing the balance of the planet. Aided by the confusion of your ideals, it passes unperceived for the giant and fragile organism that it is the planet Earth. Kidnapped of himself for his ambitions and confused, has to find a re-connection road among him same and the nature. Word-key: Sacred. Geography. Perceptions. Nature conceptions.
  11. 11. LISTA DE FIGURAS Figura 01 - Esquema do espaço sagrado e do espaço profano . ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 17 Figura 02 - A ilusão vertical-horizontal . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 27 Figura 03 - Figura ambígua . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 28 Figura 04 - Uma pirâmide . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 28 Box 01 - Carta do chefe indígena ao presidente dos Estados Unidos . ... ... ... ... ... ... .. 18
  12. 12. SUMÁRIO 1 -INTRODUÇÃO . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 11 1.1 - Descrição dos capítulos . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 12 2 - A NATUREZA E O SAGRADO 2.1 - Natureza e mitologia . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 13 2.2 - Do sagrado ao marginalizado . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 16 3 - A NATUREZA UM BEM CAPITALIZADO 3.1 - Para que serve a natureza? .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 22 3.2 - Como percebemos a natureza . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 26 4 - A NATUREZA: UMA NECESSIDADE HUMANA 4.1 - Sapiens ou demens? .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 31 4.2 - Natureza e fragilidade . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 34 5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 37 REFERÊNCIAS . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 38 AN EXO . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 40
  13. 13. 11 1 -INTRODUÇÃO Este trabalho monográfico busca levantar reflexões sobre as concepções de natureza dentro das necessidades humanas criadas no decorrer da evolução do pensamento do homem com relação a natureza que o cerca e a construção do pensamento geográfico. Foram utilizados como subsídios para a realização deste trabalho levantamentos bibliográticos que permitiram a delimitação do tema a cerca da pesquisa na geografia cultural enfocando as concepções de natureza em perspectivas geográficas. Esta monografia objetiva analisar as concepções de natureza. Estas foram geradas de acordo com os interesses do homem, e moldadas através da sua história, gerando conflitos entre o homem e a natureza. A natureza observada pelo homem como um elemento sagrado tem sua origem nas mitologias, onde natureza e homem são frutos de um Deus/ Criador que se revela na criação dando aos elementos criados uma essência divina. Essa concepção era a de uma natureza repleta de significados sagrados "a morada de Deus" entre outras. Foram selecionados três mitos: judaico/ cristão, sioux e hindu para comprovar através desses textos a essência divina da natureza pelos mitos. A natureza que sempre encontrou abrigo nos seus mecanismos, que se fazia e refazia através de sua dinâmica de uma forma independente do homem encontraria na ciência moderna seu destino BIERLEIN (2003). O estudo da natureza pela ciência é uma consequência da revolução industrial iniciada na Inglaterra, um evento que gerou grandes necessidades em relação aos recursos naturais, que se tornaram justificativas para as explorações LENCIONE (2003). As necessidades geradas pela indústria desencadearam guerras como a franco-prussiana, que fundamentou-se na elaboração de uma estratégia geográfica, esta foi a justificativa da derrota da França. A ciência geográfica torna-se desde seu nascimento como um conhecimento estratégico para os países em seus projetos dominadores. Estes projetos dominadores são moldados pelos estímulos que recebemos, estes estímulos geram concepções que definem a importância da natureza para o
  14. 14. 12 homem, novos estímulos gerados pelas necessidades industriais geram novas formas de perceber a natureza. Estas percepções são construídas a partir dos significados das coisas que nos cercam, que agregam ou retiram valores. As concepções de natureza dependem da motivação e dos valores que dirigem energias para os objetivos, a mesma imagem pode apresentar significados diferentes TUAN (1980). A percepção do homem distanciada do seu elo com a natureza o engrandece e pelas suas gigantescas conquistas tecnológicas o transformam em homo sapiens, que vive em meio ao engrandecimento de si mesmo, sapiens sapiens. As contradições que surgem da relação do homem com as verdades deste momento justificam a verdadeira denominação do homem em homo demens, que se transforma em geocida e ecocida BOFF (2002). Estas são as contradições do homo demens dia-bólico, que não se importa com a fragilidade do planeta, e apoiado na confusão dos seus ideais passa desapercebido pelo gigante organismo que é sua casa. Esta confusão e fruto da ambição do homo demens e será desfeita pela busca de um caminho sim-bólico entre homem e natureza. 1.1 - Descrição dos capítulos O capítulo 1 trata da introdução, onde são apresentados, o tema, a área da pesquisa e os objetivos. No capítulo 2 a natureza é tratada como elemento sagrado que é uma consequência dos questionamentos feitos pelo homem através dos mitos, sendo estes comprometidos pela revolução científica. O capítulo 3 trata da capitalização da natureza pela atividade industrial, pelo comércio entre os países e a construção do pensamento geográfico. No capítulo 4 é apresentado a exaltação do homem que o isola em relação a natureza comprometendo sua própria existência. E no capítulo 5 são tratados as considerações finais do trabalho.
  15. 15. 13 2 - A NATUREZA E O SAGRADO Observando a grandiosidade da natureza e sendo submisso a ela, o homem buscou nela as respostas para as questões fundamentais da sua existência através dos mitos. Os mitos judaico/ cristão, sioux e hindu foram selecionados com o objetivo de revelar que homem e natureza são frutos de um Deus/ criador que pela sua perfeição os colocou no centro da criação. Mas com a revolução científica a natureza sai do centro da criação e é transformada em mercadoria pelo capitalismo. 2.1 - Natureza e mitologia Para (FERREIRA, 2001, p. 481) natureza é a "força ativa que estabeleceu e conserva a ordem natural de tudo quanto existe". Isto é, o conjunto do tudo que foi produzido no Universo e está organizada de uma forma que não houve a necessidade da interferência consciente ou inconsciente do homem. Antes do conhecimento científico/ empírico, o homem primitivo estava submetido aos fenômenos da natureza sendo um elemento passivo na relação com a natureza. Buscando as respostas para as questões fundamentais da existência do homem e tendo "a crença de que a natureza é povoada de espíritos" (GAARDER e HELLERN e NOTAKER, 2005, p. 24) o homem procurou na natureza as respostas para as questões fundamentais que caracterizam o percurso da existência humana: Quem sou eu? Donde venho e para onde vou? (. ..) Estas perguntas encontram-se nos escritos sagrados de Israel, mas aparecem também nos Vedas e no Avestá; achamo-Ias tanto nos escritos de Confúcio e Lao-Tze, como na pregação de Tirtankara e de Buda; e assomam ainda quer nos poemas de Homero e nas tragédias de Eurípides e Sófocles, quer nos tratados filosóficos de Platão e Aristóteles. São questões que têm a sua fonte comum naquela exigência de sentido que, desde sempre, urge no coração do homem (PAULO II, 1998, Carta encíclica FIDES ET RATIO). Por estar submetido a natureza o homem buscou as respostas para as questões essenciais que norteiam a humanidade e a criação na observação da
  16. 16. 14 natureza, pois a grandiosidade dos fenômenos da natureza revelavam-se diante do homem como uma força independente das ações humanas. Utilizando o mito com a finalidade da explicação da existência, o homem se inseriu na grandiosidade da natureza, e se entrelaçou com a natureza apoiando-se na ideia de que homem e natureza participavam de um ponto em comum, ambos são obras do mesmo Deus/ Criador. O mito tem como finalidade explicar algo, diferenciando-se da lenda e dos contos folclóricos que não procuram explicar as questões fundamentais da existência do homem GAARDER e HELLERN e NOTAKER (2005). Dessa forma o mito se propõe como "um espelho eterno no qual vemos a nós mesmos. O mito tem algo a dizer a todos, e tem algo a dizer sobre todos: ele está em toda parte, e só precisamos reconhece-Io" (BIERLEIN, 2003, p. 13). os mitos elucidam algo que aconteceu no princípio dos tempos, quando o mundo ainda era jovem. Por exemplo, a maioria das religiões tem seus mitos de criação, que explicam como o mundo surgiu. O objetivo principal deles não é revelar fatos históricos. A essência do mito é oferecer às pessoas uma explicação geral da existência (GAARDER e HELLERN e NOTAKER, 2005, p. 22). Na primeira história da criação judaico/ cristã chamada de versão "eloística" da criação, Deus está no princípio, e tudo é criado por Ele a partir de suas palavras. Toda criação dessa obra arquitetônica com estrelas, sol, lua, plantas, aves, etc e feita em seis dias, e como coroação de toda a criação Ele cria o homem a sua imagem e semelhança. Decidindo descansar, da o domínio ao homem sobre toda a criação, pois havia criado alguém que podia continuar sua tarefa. Na segunda versão chamada "javista" Deus novamente põe-se a trabalhar, mas de uma forma muito diferente do relato anterior. Torna a criar o homem não utilizando o mandato de sua palavra, mas modelando o homem do pó soprando em suas narinas dando-lhe vida seguindo-se da criação de animais e vegetais. Deus faz o homem dormir e durante esse sono retira uma costela que é utilizada para modelar a mulher. E os pôs no meio do jardim do Éden onde Deus contempla toda a sua criação, e dá-Ihe a responsabilidade de nomear toda a criação VALDÉS (1997). No mito da criação sioux o Grande Espírito, pegou um pedaço de argila para jogar na serpente que se arrastava até um ninho para comer seus ovos. Esse pedaço de argila foi moldado na forma de um homem, que foi fixado ao chão como
  17. 17. 15 uma árvore, onde permaneceu por muitas eras até se formar outra árvore, quando uma serpente comeu suas raízes tornaram-se livres e dos dois nasceram as pessoas BIERLEIN (2003). Para os hindus toda a criação, natureza e homem são frutos de Brahma, que criou e recriou o mundo várias vezes, e nos estados transitórios retornava a um caos aquoso. Durante a meditação de Brahma nasceram seres de sua mente. Assumindo um corpo de escuridão, saiu do seu reto um vento nesse instante nasceram os demônios. Quando descartou esse corpo de escuridão ele se transformou em noite. Assumindo outro corpo feito de bondade e luz saiu de sua boca deuses brilhantes, que quando foi descartado transformou-se em dia. Do seu terceiro corpo feito de satva (bondade) surgiram os espíritos ancestrais durante a imaginação de pensamentos ternos sobre pais e filhos. Ao assumir o quarto corpo feito de energia da sua mente, sem se desfazer do terceiro corpo, foram criados os seres humanos. Então esse corpo ao ser descartado se transformou em Lua. Quando assumiu um quinto corpo feito de energia e escuridão teve um pensamento muito estranho, e dele surgiram os ogros, que queriam devorar o mar primordial. Esta última criação fez seus cabelos caírem e se transformarem em criaturas que rastejam sobre o ventre. Ainda estava perturbado com os ogros que criou os demônios que devoram cadáveres. Recuperando a compostura, os pensamentos agradáveis retornaram e nesse momento de felicidade os pássaros foram criados, e muitos outros também surgiram: mamíferos, plantas, etc. As qualidades de todos os seres são um fruto dos pensamentos de Brahma, e essas características estarão presentes em quanto durar este mundo atual BIERLEIN (2003). Nos textos sagrados judaico/ cristão, a natureza está unificada com a ideia de sagrado, isto é, a natureza e o sagrado encontram-se úmidos por um elo em sua gênese, um Deus Criador/ Pai que torna a natureza um elemento sagrado pela sua manifestação nela. E nos textos indígena sioux a natureza é sacralizada pela própria presença de Deus nela, isto é, a natureza é o próprio Deus.
  18. 18. 16 2.2 - Do sagrado ao marginalizado Sendo a natureza e o homem criações de Deus, havia uma harmonia entre suas relações por haverem um ponto em comum entre ambos. Essa harmonia tinha como fundamentação a ideia de que toda a criação de Deus é perfeita "Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom" (Gn 1, 31a). A natureza era colocada no centro da criação, essa era a base das concepções religiosas monoteístas que afirmavam que a Terra estava no centro do universo e não o sol. A afirmação judaico/ cristã baseava-se no relato do sexto livro bíblico do cânone católico, o livro de Josué. Josué falou ao Senhor no dia em que ele entregou os amorreus nas mãos dos filhos de Israel, e disse em presença dos israelitas: Sol, detém-te sobre Gabaon, e tu, ó lua, sobre o vale de Ajalon. E o sol parou, e a lua não se moveu até que o povo se vingou de seus inimigos. Isto acha-se escrito no Livro do . Justo. O sol parou no meio do céu, e não se apressou a pôr-se pelo espaço de quase um dia inteiro. Não houve, nem antes nem depois, um dia como aquele, em que o Senhor tenha obedecido à voz de um homem, porque o Senhor combatia por Israel (Josué 10,12-14). Josué parou o sol, isto é, o sol gira em torno da Terra. Essa é uma justificativa bíblica para a añrmação de que a Terra estava no centro do universo. Essa crença foi difundida e apoiada na teoria geocêntrica greco-romana de AristóteIes-Ptolomeu, "segundo a qual divide-se ele em esfera sub-lunar e supra-lunar cujo centro é a Terra" (MOREIRA, 2006, p.55). Como o pensamento geocêntrico era dominante entre os países europeus, esse pensamento foi difundido no mundo ocidental. A Terra está no centro da criação e os espíritos habitam a natureza, argumentos suficientes para acreditar que a natureza é onde Deus se revela, isto é, a natureza é sagrada. O sagrado se manifesta sob a forma de hierofania no espaço (ELIADE, 1959 e 1962), revela-se como um dom carismático que o objeto ou a pessoa possui (WEBER, 1964) e se impõe por ele mesmo (DUBKHEIM, 1968 e BERGER, 1985). Baseado nestas idéias, como também nas de TUAN (1978) e CLAVAL (1992), elaborou-se uma representação diagramática da dimensão espacial que o sagrado impõe ao lugar. Na figura 1 o espaço sagrado é o locus de uma hierofania, isto é, uma manifestação do sagrado, a qual permite que se defina um “ponto fixo", ponto de toda a orientação inicial, o "centro do mundo” (ROSENDAHL, 1997, p. 121).
  19. 19. 17 ® ES Espaço Sagrado e "Centro do Mundo" É EPDV Espaço Profano Diretamente Vinculado EPIV Espaço Profano Indiretamente Vinculado I' EPRv Espaço Profano Remotamente Vinculado à. Interações Figura 1 - Esquema do espaço sagrado e do espaço profano Fonte: ROSENDAHL, 1997, p. 123 Essa concepção também coloca a Terra como elemento sagrado, pois assim como na teoria geocêntrica, a Terra está no centro do mundo fazendo parte da manifestação do sagrado assim como o homem, no chamado "espaço sagrado" que gera uma relação de igualdade entre o homem e natureza. Segundo FERREIRA (2001) o sagrado é relativo às coisas divinas, o inviolável, profundamente respeitável, o que não deve ser tocado, infringido ou violado. A veneração ou respeito a criação não está ligada mais precisamente ao objeto mas a presença do sagrado que o reveste de uma nova concepção. "Alguém que adora uma pedra não está prestando homenagem à pedra em si. Venera a pedra porque esta é um hierofani, ou seja, ela aponta o caminho para algo que é mais do que uma simples pedra: é "o sagrado" (GAARDER e HELLERN e NOTAKER, 2005, p. 21). Louvado sejas, meu Senhor, /Com todas as tuas criaturas, /Especialmente o senhor irmão Sol, /Que clareia o dia/ E com sua luz nos alumia. /Louvado sejas, meu Senhor, /Pela irmã Água, /Que é muito útil e humilde/ E preciosa e casta. ../ Louvado sejas, meu Senhor, /Por nossa innã, a mãe Terra, /Que nos sustenta e governa, /E produz frutos diversos/ E coloridas flores e ervas. /Louva¡ e bendizei a meu Senhor, /E dai-lhe graças, /E servi-o com grande humildade (Francisco de Assis, IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA, 2000, p. 100-101).
  20. 20. 18 Ao contemplar a natureza São Francisco de Assis descobre a presença de Deus na natureza, e no cântico das criaturas manifesta uma relação fraternal com a natureza. Na visão teológica catóIico/ franciscana, a natureza é onde o homem encontra Deus e também é encontrado por Ele, a ideia de paraíso o jardim de Deus está vinculada ao lugar onde o homem participa de uma harmonia perfeita com o seu Deus/ Criador, homem e natureza são vistos como irmãos cabendo a ambos o cuidado mútuo. Na visão indígena americana esse sagrado ganha outros contextos (Box 1). Como é que se pode comprar ou vender o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-Ios? Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho. (m) Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho, Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro e o homem: todos pertencem à mesma família. Portanto, quando o grande chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós. (. ..) Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se vendennos nossa terra, vocês devem lembrar-se e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão. Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra para ele tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. (. ..) Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto. (. ..) O ar é preciso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro: o animal, a án/ ore, o homem, todos. (. ..) Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há dias, é insensível ao mau cheiro. (. ..) O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-Ia intacta e sagrada como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados. Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo nenhuma outra fonna de agir. (. ..) como que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos. O que é o homem sem os animais? (. ..) E sinem às suas crianças o que ensinamos às nossas, que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontece à terra acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo estão cuspindo em si mesmos. Isto sabemos: "a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra". (. ..) todas as coisas estão com o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo. Box 1 - Carta do chefe indígena Seattle, em resposta ao presidente dos Estados Unidos, que se propunha a comprar terras indígenas, em 1854 Fonte: <http: //wvvw. comitepaz. org. br/ chefe_seattIe. htm>
  21. 21. 19 Na carta do chefe indígena ao presidente dos Estados Unidos, a natureza também está em harmonia com o indígena como na teologia católico/ franciscana como um elemento sagrado isto é, uma hierofania. Na concepção indígena e religiosa monoteísta a natureza é a morada de um Deus/ Pai Criador, portanto não pode ser vendida, e/ ou profanada, pois trata-se de uma parte do próprio homem é um "espaço sagrado", sendo permitido apenas o sacrifício para a sobrevivência do homem. "O modo como hoje concebemos a natureza tem sua origem mais remota na revolução introduzida por Nicolau Copérnico (1473-1543)" (MOREIRA, 2006, p.54). A concepção de natureza anterior a proposta por Copérnico, colocava a natureza no centro da criação e era baseada nas concepções religiosas monoteístas que evidenciavam que a Terra estava no centro do universo e não o sol. o mundo era pensado à luz da concepção de Aristóteles (384-322), aperfeiçoada por Cláudio Ptolomeu (século ll), segundo a qual divide - se ele em esferas sub-lunar e supra-lunar e cujo centro é a Terra. O mundo sub-lunar é o mundo dos homens, por isso o mundo das coisas imperfeitas e corruptíveis (que mudam e desaparecem); já o mundo supra-lunar é o dos seres perfeitos, eternos e absolutos. Concepção que a Igreja traduzirá nos termos dos preceitos bíblicos: a Terra é o centro do Universo para que a partir dela os homens possam experimentar a onipresença, a onipotência e a onisciência e assim se orientar e se reencontrar com Deus. Desse modo, mais que o simples surgimento de uma nova Cosmologia, a revolução de Copérnico significa integral releitura da ordem geográfica do mundo. Com ela mudam as noções de estrutura e de localização das coisas do mundo. E nasce a ciência moderna. (. ..) A base da passagem da teoria geocêntrica para a teoria heliocêntrica, e da passagem desta para o âmbito do nascimento da ciência moderna, é a criação do método experimental por Francis Bacon (1561-1626) e Galileu Galilei (1564-1642). (. ..) Um primeiro passo vem com a descoberta, por Kepler (1571-1630), da forma elíptica da órbita dos astros, com a qual ele demole a noção aristotéIico-ptolomaica de um universo estruturado em esferas concêntricas, (. ..) Aplicando os novos conhecimentos ao mundo dos pequenos corpos da superfície terrestre, Galileu Galilei verifica que também estes se comportam conforme as mesmas leis mecânicas, assestando um golpe mortal na dicotomia sub e supra-lunar da concepção aristotélica e avançando os alicerces para unificar a compreensão de todo o universo com base nas leis mecânicas. O mundo dicotomicamente diferenciado de até então vai se tornando um só do ponto de vista da estrutura e do funcionamento em escala universal (MOREIRA, 2006, p. 55-56). Com a dessacralização da Terra, a natureza perde o status de sagrado e deixa de ser a morada de Deus, esta é uma consequência da teoria heliocêntrica de Copérnico, ratificada por Galileu Galilei, que ao retirar a Terra do centro do universo, também o faz com relação ao que a Terra é e ocupa na vida das pessoas, ela sai do centro da criação, onde ocupa um lugar que é considerada "espaço sagrado" e uma
  22. 22. 20 hierofania, e é deslocada para a periferia, espaço passível de profanação. Quando Galileu define a natureza como "qualidades primárias" isto é, aquilo que pode ser mensurável, surge a idéia de quantidade em relação a natureza. Galileu Galilei isola a natureza do homem dando a natureza uma "linguagem matemática". Descartes distingue o mundo do homem em res extensa, o mundo dos corpos externos, e res cogitans, o mundo do ser pensante. E organiza o mundo que nos rodeia (a coisa extensa) como um conjunto de corpos dispostos no espaço, distintos uns dos outros por suas formas e posição na extensão circundante. Esta formulação cartesiana do espaço é fundamental para a ciência nascente. Ao geometrizar a extensão do mundo, Descartes fornece a linguagem uniforme de uma concepção físico-matemática de mundo em gestação, e, ao criar a matemática moderna pela fusão de aritmética, álgebra e geometria, fornece aos cientistas a arma apropriada ao método experimental. Mas é com Isaac Newton (1642-1727), no século XVII, que o processo se completa, uma vez que a unidade físico-matemática de mundo agora se explicita, por intermédio do conteúdo de uma lei única regendo todos os corpos em todo o universo: a lei da gravidade. No século XVIII, esta nova concepção de mundo está consolidada, difundindo-se para se tornar a idéia de natureza e mundo de toda a cultura moderna do Ocidente. A visão gravitacional significa a dessacralização da natureza. E assim um conceito novo e inteiramente distinto daquele até então vigente. A natureza ganha moto próprio, regendo-se por uma lei natural e intrínseca a ela, não mais pela ação de impulsos externos e não mais povoada por nada que não seja de essência natural. A natureza deixa de ser a morada de Deus e passa a ser concebida como tudo que se expresse por um conteúdo físico- matemático. Uma divisão dos fenômenos em função do conteúdo físico- matemático assim se estabelece, separando a natureza do resto dos fenômenos do mundo. Tudo que se repete numa constância e regularidade matemática em seus movimentos é fenômeno da natureza, e tudo que não se repete e obedece a esta regularidade não o é. Uma grande revirada então se deu. O mundo-corpo-divino do espaço sagrado é substituído pelo mundo corpo-físico-matemático do espaço geométrico. O mundo-dos-acidentes-naturais com os quais Deus interferia no destino dos homens dá vez ao mundo-das-Ieis-físicas-regidas-peIa- matemática (MOREIRA, 2006, p. 56). Com Descartes o isolamento do homem em relação a natureza é mais acentuado, homem e natureza não estão mais unidos, o homem pensa e por esse motivo não deve estar no mesmo nível da natureza, o homem adquire uma visão de superioridade sobre a natureza, a visão de harmonia foi quebrada, apenas o homem permanece como obra prima da criação. Esse foi o comprometimento da ciência moderna, a marginalização da natureza. Ao ser distanciada do centro da criação, a natureza começa a perder seu significado sagrado, isto é, aquilo que é separado o que ocupa o lugar especial na criação, assim como a Terra na teoria geocêntrica, pois não está diretamente vinculado ao centro onde ocorre a hierofania, na periferia não ocorre a manifestação
  23. 23. 21 de Deus por isso pode ser profanado, pois Deus não se manifesta na periferia. "Sagrado indica algo que é separado e consagrado; profano denota aquilo que está em frente ou do lado de fora do templo" (GAARDER e HELLERN e NOTAKER, 2005, p. 20). Desde então, com o passar dos séculos, esse modelo de ciência vai criando uma relação de absoluta externalidade. Nesses séculos, muitas mudanças vão sendo incorporadas e dialeticamente difundirão esses ideais, padronizando na expansão capitalista um ideário de realidade que associa o mecanicismo à fragmentação e à imutabilidade natural e social, mesmo que empiricamente ambos não se comportem assim. Esse processo gera, assim, diferentes formas de conseqüências, como, por exemplo, o utilitarismo e o consumismo como base da reprodução do capital, a partir da exploração dos recursos naturais. Esse sintagma surge associado ao ideal iluminista e ao projeto positivista. O grande projeto iluminista em construir uma sociedade baseada na razão, o qual possuía como pilar a liberdade do pensamento e o progresso, estruturou-se na certeza matemática newtoniana (CAMARGO, 2005, p 42-43). A concepção proposta a natureza pela revolução científica é amplamente apoiada nas concepções capitalistas/ iluministas emergentes, que utilizam deste para subjugar a natureza transformando-a em mercadoria, que na trilha do projeto racional positivista transforma a natureza em fonte de recursos utilizando como justificativa o progresso, sendo está a solução burguesa para humanidade. “Horkheimer (1976) já observava que a história do homem em subjugar a natureza é a própria história da subjugação do homem pelo próprio homem" (CAMARGO, 2005, p. 43). Transformada pela revolução cientíñca, a natureza deixa de ser sagrada, isto é, deixa de ser o lugar onde o Deus/ criador se manifesta, é transformada em mercadoria e utilizada pelo homem como um meio ao seu enriquecimento, podendo ser profanada com o objetivo de promover o projeto dominador já em curso, essa é a consequência da revolução científica introduzida por Nicolau Copérnico e Galileu Galilei.
  24. 24. 22 3 - A NATUREZA UM BEM CAPITALIZADO Ao ser transformada em mercadoria pelo capitalismo, a natureza torna-se indispensável ao enriquecimento dos países. Com o advento da revolução industrial e a crescente necessidade comercial de exportar mais produtos o estudo dos lugares torna-se indispensável. A ciência geográfica torna-se um requisito essencial para a formação de uma grande potência. As necessidades industriais foram geradas pelas percepções que a natureza adquiriu do capitalismo, que introduziu novos significados a natureza e moldou as percepções pelos interesses emergentes. 3.1 - Para que serve a natureza? Não podemos negar que o estudo da natureza sempre chamou a atenção dos geógrafos, esse caráter é justificado pelo momento histórico em que as necessidades impostas pela grande indústria, nascida da Revolução Industrial, a crescente buscava por matérias-primas e a urgência de se conhecer os recursos naturais e econômicos nos quatro cantos do mundo valorizavam os estudos sobre os lugares" (LENCIONE, 2003, p.73). A natureza já era encarada como uma fonte de potencialidade ao enriquecimento dos Estados europeus, que buscavam nas colônias metais preciosos e matérias-primas para o enriquecimento dos Estados. O trecho da carta ao Rei D. Manoel é uma evidência dessa visão. Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta é toda praia. .. muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender os olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos - terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem Iha vimos. (. ..) Águas são muitas, infinitas. Em
  25. 25. 23 tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa da água que tem! (Carta a EI Rei D. Manuel). Com a exploração das colônias, ficava claro que os países europeus em especial Portugal nesse caso, buscava acumular matérias-primas e metais preciosos ouro e prata, que seriam de fundamental importância para seu fortalecimento frente a outros países, pois a acumulação desses metais era a base para o fortalecimento dos países e o desenvolvimento tecnológico em curso que asseguraria vantagens nas trocas comerciais dos países. A Espanha foi, no século XVI, talvez o mais rico e poderoso país do mundo. Quando os homens inteligentes de outros países perguntavam a razão disso, julgavam encontrar a resposta nos tesouros que ela recebia das colônias. Ouro e prata. Quanto mais tivesse, tanto mais rico o país seria - o que se aplicava às nações e também às pessoas. O que fazia as rodas do comércio e indústria girarem mais depressa? Ouro e prata. O que permitia ao monarca contratar um exército para combater os inimigos de seu país? Ouro e prata. O que comprava a madeira necessária para fazer navios, ou o cereal para as bocas famintas, ou a lã que vestia o povo? Ouro e prata. Que fatores tornavam um país bastante forte para conquistar um país inimigo - e eram os 'nen/ os da guerra? Ouro e prata. A posse de ouro e prata, portanto, o total de barras que um país possuísse, era o índice de sua riqueza e poder (HUBERMAN, 1986, p. 119). Segundo HUBERMAN (1986) a ideia de país rico se baseava na observação das cidades que haviam ao longo da sua história acumulado mais ouro e prata do que outras cidades. Como os governantes acreditavam que o acúmulo de ouro tornava um país rico, baixaram leis proibindo a saída de ouro e prata de seus territórios. Logo em seguida a medida foi tomada por vários países, era a chamada "lei contra a exportação de ouro e prata". Eis uma delas, na Inglaterra: "Ordena-se pela autoridade do Parlamento que ninguém leve, ou faça levar, para fora deste reino ou de Gales ou outra parte do mesmo, qualquer forma de dinheiro da moeda deste reino, ou de dinheiro e moedas de outros reinos, terras ou senhorias, nem bandejas, vasilhas, barras ou jóias de ouro guarnecidas ou não, ou de prata, sem a licença do rei. " (. ..) "Veneza, 13 de dezembro de 1596. O rei da Espanha ordenou severamente que nenhum ouro ou prata seja exportado do reino, ou usado com objetivos de comércio" (HUBERMAN, 1986, p. 120). Poucos países possuíam minas dentro de suas fronteiras, como Espanha e podiam aumentar suas reservas. Era comum que os países menos providos fizessem a pergunta, como podemos enriquecer se nossas reservas são limitadas?
  26. 26. 24 Para estes países, os mercantilistas apresentavam uma solução feliz. Uma "balança de comércio favorável" HUBERMAN (1986). A única maneira de fazer com que muito ouro seja trazido de outros reinos para o tesouro real é conseguir que grande quantidade de nossos produtos seja levada anualmente além dos mares e menor quantidade de seus produtos seja para cá transportada. Se isso puder ser feito, não será impossível nem improvável mandar para além-mar anualmente, em mercadorias, o valor de um milhão e cem mil libras, e receber de volta, em todos os tipos de mercadorias, apenas o valor de seiscentas mil libras. Não se segue necessariamente que receberíamos então as outras quinhentas mil libras, seja em ouro ou em moeda inglesa? (HUBERMAN, 1986, p. 120- 121). Os paises aumentariam suas reservas de ouro dedicando-se ao comercio exterior, porque a diferença no valor das exportações teria de ser paga em metal. A consequência de tudo isso é o estímulo ao comercio exterior, com uma venda cada vez maior para os outros países e a compra apenas do que era necessário. “Isso significa estimular a indústria por todos os meios possíveis, porque seus produtos valiam mais que os da agricultura, e portanto obteriam mais dinheiro nos mercados estrangeiros" (HUBERMAN, 1986, p. 122). A consequência de tudo isso era que possuir indústrias produzindo as coisas de que o povo necessitava equivalia a não ser necessário importá-las do estrangeiro. Estava no fortalecimento da atividade industrial a chave para o enriquecimento dos países. A vontade de poder e dominação é o projeto antropológico em vigor desde o neolítico. Ele ganha sua expressão clássica no antropocentrismo que marcou toda a trajetória cultural a partir de então. Assujeitar a Terra, aproveitar-se de seus recursos, ignorar a autonomia dos demais seres vivos e inertes, conquistar outros povos e submetê-los para construir a prosperidade: eis o sonho maior que mobilizou desde sempre aquela porção da humanidade, detentora dos meios de poder, ter e de saber (BOFF, 1998, p. 36). Assujeitar a Terra, se aproveitar de seus recursos, conquistar outros países são planos dos países que procuram se firmar como grandes potências. Nesse contexto a ciência geográfica é inaugurada durante a guerra franco-prussiana (1870- 1871), na qual a Alemanha saiu vitoriosa, ocorrendo a unificação alemã, primeiro passo para o surgimento de uma grande nação (II Reich). Como consequência da derrota, a França teve de entregar Alsácia-Lorena, cidades que naquele momento
  27. 27. 25 histórico eram importantes pela sua produção de carvão, a principal fonte de energia da primeira Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra, em meados do século XVIII. Para Ratzel, o Estado necessita de um equilíbrio entre sua população, e os recursos naturais disponíveis para suas necessidades, surgia a geopolítica ou a geografia do espaço vital. A geopolítica, por conseguinte, não é uma “ideologia alemã", mas a geografia oficial sem seu costumeiro disfarce. A geopolítica sob a forma exacerbada em que aparece no entre-guerras sen/ e inclusive para esconder o fato de que a geografia é sempre uma geopolítica, ou seja, um discurso que sempre está pondo sobre a mesa a questão do poder: dos homens sobre a natureza e dos homens sobre os outros homens. Eis o que esconde as academias e seus professores (MOREIRA, 1994, p. 41). Segundo CORRÊA (1987) o determinismo ambiental alemão afirmava que as condições naturais, especialmente as climáticas, determinam a conduta do homem. Uma concepção ideológica baseada nas teorias de Lamarck e Dan/ Vin. Essas teorias foram adotadas pela geograña idealizada por Ratzel, que via nas ciências naturais de Lamark e Darwin a possibilidade de explicar a sociedade através de mecanismos que ocorrem na natureza. Na verdade, o determinismo ambiental era a justificativa para o expansionismo alemão e a tentativa da Alemanha se tornar uma grande potência. Desde que os homens começaram a construir mapas e descrever o espaço físico, a Geografia tem servido como instrumentos de dominação aos príncipes, reis, chefes de estado, conselheiros de guerra, homens de negócios e todos aqueles cujos interesses ultrapassam os limites de um espaço territorial restrito e familiar (SEABRA, 1997, p. 81). A geografia tornava-se um instrumento de dominação indispensável para o crescimento e fortalecimento dos países que observavam na exploração de outros países, a possibilidade de continuarem sua dominação baseadas em um modelo industrial consumista que imaginava a infinidade dos recursos naturais do planeta, e apoiava-se em uma exploração desenfreada que muitas vezes mostrou um lado sombrio do conhecimento geográfico e como ele era utilizado. A guerra do Vietnã forneceu numerosas provas de que a geografia serve para fazer a guerra de maneira a mais global, a mais total. Um dos exemplos mais célebres e mais dramáticos foi a execução, em 1965, 1966, 1967 e sobretudo em 1972 de um plano de destruição sistemática da rede de diques que protegem as planícies densamente povoadas do Vietnã do
  28. 28. 26 Norte: elas são atravessadas por rios caudalosos, com terríveis cheias que escoam não por vales mas, ao contrário, sobre elevações, terraços, que são formados por seus aluviões. Esses diques cuja importância é, de fato, absolutamente vital, não poderiam ter sido objeto de bombardeamentos maciços, diretos e evidentes, pois a opinião publica internacional ali teria visto a prova da perpetração de um genocídio. Seria preciso, portanto, atacar essa rede de diques, de foma precisa e discreta, em certos locais essenciais para a proteção de alguns quinze milhões de homens que vivem nessas pequenas planícies cercadas por montanhas. Era necessário que esses diques se rompessem nos lugares em que a inundação teria as mais desastrosas consequência. A escolha dos locais que era preciso bombardear resulta de um raciocínio geográfico, comportando vários níveis de análise espacial (LACOSTE, 1997, p. 27). Para BOFF (1998) o projeto de poder-dominador já estava em percurso, as bases filosóficas já haviam sido construídas, e era ensinado que o ser humano deve ser "o mestre e o dono da natureza" e que a natureza deve ser coagida e torturada até que entregue todos os seus segredos. Segundo LACOSTE (1997) geografia é este instrumento e sua utilização é indispensável para a elaboração de estratégias que possibilitem o poder sobre uma determinada área. Um exemplo da função política ideológica da geografia foi a geopolítica hitleriana, que foi uma grande expressão do poder da geografia. Natureza, indústria e geograña três elementos essenciais para a ascensão e fortalecimento dos Estados-nação modernos, que baseiam-se na exploração da natureza.
  29. 29. 27 3.2 - Como percebemos a natureza O valor da natureza está associado as percepções e aos estímulos recebidos por cada sociedade e em um determinado momento histórico. As concepções de natureza "dependem do centro psicológico da motivação, dos valores e atitudes que dirigem as energias para os objetivos” (TUAN, 1980, p 1), a natureza adquire uma importância de acordo com as necessidades de cada grupo. Com a introdução de novos estímulos as necessidades mudam e junto com elas as concepções de natureza também mudam, pois os estímulos geram percepções diferentes e agregam ou retiram valores. Duas pessoas não vêem a mesma realidade. Nem dois grupos sociais fazem exatamente a mesma avaliação do meio ambiente. A própria visão científica está ligada à cultura - uma possível perspectiva entre muitas. (. ..) o fato de que, por mais diversas que sejam as nossas percepções do meio ambiente, como membros da mesma espécie, estamos limitados a ver as coisas de uma certa maneira (TUAN, 1980, p. 6). Figura 2 - A ilusão vertical-horizontal. Fonte: TUAN, 1980, p. 88. Para TUAN (1980) as pessoas que vivem em florestas úmidas e crescem em pequenos pátios cercados por grandes edifícios são menos vulneráveis a sofrerem com a ilusão vertical-horizontal porque o meio ambiente parece afetar o julgamento de uma pessoa sobre uma linha traçada horizontalmente ou na vertical. A ilusão vertical-horizontal é uma evidencia de como os estímulos recebidos são determinantes nas percepções sobre o que observamos.
  30. 30. 28 Os residentes em um clima frio vivem em um mundo mais carpintejado do que os residentes em um clima quente, por que o tempo frio obriga as pessoas a passar mais tempo em interiores de recintos. O julgamento perceptivo destes dois grupos pode variar da mesma forma que entre o povo da cidade e do campo. (TUAN, 1980, p. 87) O mundo em que vivemos está solidificado sob percepções, significados e significantes que conferem a nós segundo MELO (2008) um horizonte de sentido, e estes significados podem ter valores bem diferentes na vida das pessoas, de uma forma que para uma é fundamental e para outra é um simples detalhe. Figura 3 - Figura ambígua, que pode ser vista como um perfil humano ou um rato. Fonte: Day, 19?? , p. 88 Segundo DAY (19?? ) as conclusões ambíguas observadas por diferentes pessoas são um fruto dos estímulos que produzem percepções diferentes. Na figura acima, se forem apresentadas várias figuras de animais o observador identificará um rato, pois o estímulo o conduzirá a esta percepção. Porém se as figuras forem de perfis humanos o estímulo o conduzirá a percepção do perfil de um homem. Figura. 4 - Uma pirâmide projeta imagens quase idênticas nos olhos, quer vista de cima, com o vértice perto, quer vista de baixo, com o vértice distante. Fonte: Day, 19?? , p. 72
  31. 31. 29 A mesma imagem pode nos levar a conclusões diferentes quanto a localização do nosso ponto de observação. Se nos imaginarmos observando-a de cima, a pirâmide corresponderá a nossa percepção, está abaixo de nós. Se imaginarmos como ponto de observação o seu interior olhando para cima a percepção de que estamos em seu interior também será correspondida. Portanto o valor está em nós, nos nossos estímulos/ interesses, na nossa forma de olhar. As nossas concepções são formadas pelas ligações dos sentimentos que nos cercam, pois as nossas experiências estão inseridas em um contexto repleto de desejos, sentimentos, pensamentos e vontades que influenciam diretamente nossas conclusões sobre a natureza. Para CURY (2003) estas concepções são frutos de lembranças formadas pela nossa consciência/ inconsciência que foram produzidas pelas nossas relações, com os fatos passados, que sob condições de forte emoção registraram informações que se transformaram em convicções sobre as nossas relações com o mundo. "É a partir deste mundo que enxergamos o outro mundo, que não é somente nosso, mas também nosso, assim como o mirante proporciona ao observador a visão que só é possível a partir de sua posição geográfica" (MELO, 2008, p. 17). Assim o valor que a natureza adquire esta ligada aos estímulos recebidos, isto é, o valor da natureza não esta na natureza e sim nos olhos e valores dos que a observam de acordo com os estímulos recebidos, os interesses, os valores, as crenças e os significados que a transforma em essencial ou detalhe, morada de Deus ou uma fonte de recursos. Chamamos, anteriormente, a atenção para a tendência da mente humana em organizar os fenômenos em polos opostos como vida e morte, claridade e escuridão, céu e terra, sagrado e profano. Em algumas sociedades esta estrutura dualista permeia vários níveis do pensamento: afeta a organização social de um povo assim como a sua cosmologia, arte e religião. O próprio meio ambiente pode prestar-se a esta visão dualista: pode reforçar uma tendência, servindo como índice claramente visível de polaridade (TUAN, 1980, p. 95). O verdadeiro valor da natureza será descoberto por nos quando conseguirmos vê-Ia como ela verdadeiramente é, sem estímulos e simbologias ou polarizações que nos conduzam a conclusões equivocadas, a nossa visão está condicionada pelos estímulos que recebemos, todas as formas de observar são apenas "visões" de uma natureza cercada de valores e estímulos que nos conduz a
  32. 32. 30 conclusões obscurecidas por uma serie de significados que são introduzidas ou retirados do nosso meio de acordo com inúmeras conveniências e justificativas diversas.
  33. 33. 31 4.1 - A NATUREZA: UMA NECESSIDADE HUMANA Exaltado pelas suas conquistas, o homem vive as contradições entre os seus avanços tecnológicos, as doenças e a miséria. Essas contradições tornam o homem insensível a fragilidade e complexidade que é o planeta Terra, e apoiado nos ideais capitalistas vive no cativeiro que é produto de sua ambição que compromete a sua existência, sendo o caminho inverso o possível ao (re)encontro com a natureza recompondo a sua identificação. 4.1 - Sapiens ou demens? Segundo MELO (2008) a criação fundamentada na Teologia cristã assegura que o Deus criador continua sua obra na humanidade. Humanidade esta que "deriva do iluminismo, e exalta o homo sapiens, o homem inteligente e sábio" (BOFF, 2002, p.13). Essa continuidade é baseada na perfeição humana, pois o homem é a imagem de Deus. E segundo SANTOS (2004), exaltado pelas suas próprias convicções e diante de suas habilidades difundi instantaneamente as noticias, encurta as distâncias contraindo o espaço diminuindo o tempo. Globalizado quebra distâncias, barreiras torna o planeta homogêneo e acessível para todos, é a sabedoria elevada a ela mesma. Isto é, o homo sapiens não é apenas sapiens é sapiens sapiens, sábio- sábio. Da biografia da Terra sabemos das inimagináveis violências que ocorreram com exterminações em massa espantosas. Nos últimos 570 milhões de anos, após o aparecimento dos vertebrados, ocorreram cerca de 15 devastações biológicas em massa. Duas delas exterminaram cerca de 90% da vida das espécies. A primeira com a fratura da Pangéia (o continente único originário) e a conseqüente formação dos continentes. O fragor foi tão avassalador que a vida animal, terrestre e marinha quase desapareceu. Encerrava-se o paleozóico (BOFF, 2002, p.13). A exaltação do homem em sábio-sábio é indiferente a uma natureza que de uma forma extraordinária através de seus mecanismos transita livremente entre o
  34. 34. 32 caos e o cosmos, observando o homem apenas como mais um elemento nesse imenso mecanismo de destruição e (re)construção que é intercalado por explosões de vida, que não necessitam do homem, estes fatos elevam a natureza diante de um homem que se intitula sábio-sábio que vive uma exaltação de seus feitos mas que vive na verdade em meio aos efeitos de um fábula, a fábula sapiens sapiens. Aconteceram mudanças profundas nos climas e no nível das águas oceânicas. Associado a isso um asteróide rasante, do tamanho presumível de 9.6 quilômetros de diâmetro, teria colidido com a Terra. Ter-se-ia produzido uma hecatombe formidável de fogo, de maremotos, de detritos lançados ao ar, a ponto de provocar uma noite prolongada de anos, infestada de gases venenosos e assassinos. Pereceram os dinossauros depois de 130 milhões de anos de domínio soberano sobre todas as espécies e em todo o planeta. Desapareceu 50% da vida na Terra e 90% da vida no mar. Encerrou-se a era mesozóica. Eis a presença devastadora do dia-bólico na natureza e na Terra (BOFF, 2002, p.13-14). Estas devastações conduzidas pela própria natureza são muito diferentes da próxima devastação que já estão em andamento. A próxima devastação em massa já esta em curso a dois milhões de anos. Esta destruição chama-se homo sapiens sapiens, que assumiu a condição de homo demens diante da conclusão equivocada de que não faz parte deste processo biológico como um elemento integrante do processo, mas se faz a parte, rejeitando sua condição, assumindo um papel de destaque como o elemento desencadeador da “degradação da condição humana e ecológica mundial, (. ..) Estamos espantados com a possibilidade de o ser humano demens (. ..) se fazer ecocida e geocida, vale dizer, de eliminar ecossistemas e de acabar com a Terra" (BOFF, 2002, p.16). Para SANTOS (2004) na verdade a humanidade globalizada é uma grande fábrica de perversidades. O crescente desemprego, o aumento da pobreza, a queda no salário médio, a fome e o desabrigo comum a muitos em todos os cantos do mundo, as velhas e as novas doenças, os altos índices de mortalidade infantil, a educação de qualidade como privilégio cada vez mais de poucos, e os males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos e a corrupção. "Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo" (SANTOS, 2004, p.20). Essas contradições da humanidade demens e sapiens são objetivadas também das contradições que constroem o mundo a partir do caos e do cosmos, frutos de uma realidade que caminha da desordem para a ordem, do dia-bólico e do
  35. 35. 33 sim-bólico como elementos capazes de construir em nós percepções diferentes de natureza. Expliquemos, antes de mais nada, os termos sim-bólico e dia-bólico. Sua origem filológica se encontra no grego clássico. SímboIo/ sim-bólico provém de symbállein ou syrnbállesthai. Literalmente significa: lançar (bállein) junto (syn). O sentido é: lançar as coisas de tal forma que elas permaneçam juntas. Num processo complexo significa re-unir as realidades, congregá-las a partir de diferentes pontos fazer convergir diversas forças num único feixe (. ..) Dia-bólico provém de dia-bállein. Literalmente significa: lançar coisas para longe, de forma desagregada e sem direção; jogar fora de qualquer jeito. Dia-bólico, como se vê, é o oposto do sim-bólico. E tudo o que desconcerta, desune, separa e opõe (BOFF, 2002, p.11-12). A concepção de natureza dentro de perspectiva demens desconecta e separa a natureza do homem e eleva o homem a sábio-sábio e rebaixa a natureza criando assim as condições para retornarmos ao caos dia-bólico que se sustenta no homo demens ou homo extermínator no seu projeto dominador enriquecido pela fábula da globalização. Diferente do dia-bólico o sim-bólico devolve ao homem a condição essenciais para se inserir como parte e parcela da história da vida. Esta, por sua vez, é parte e parcela da história da Terra. A vida humana deve, pois, ser entendida na lógica que preside os processos da Terra, da natureza e do inteiro universo. Não pode ser tomada como uma província à parte, desarticulada do todo (BOFF, 2002, p.17). Paralelamente ao dia-bólico o sim-bólico nos remete a uma perspectiva que nos recompõe, leva-nos a uma concepção de natureza extraordinária e protagonista de sua história, dando ao homem a certeza de que é mais um nessa história. Porem as afirmativas do homem apontam para o caminho inverso, distanciando-se cada vez mais das concepções de natureza que harmonizam homem e natureza confirmando a Insensatez que nos revela a verdadeira tradução da atual denominação do gênero homo não apenas em homo demens mas homo demens demens.
  36. 36. 34 4.2 - Natureza e fragilidade Pouco a pouco o homem foi perdendo a percepção do seu verdadeiro lugar na natureza, isso foi um produto de sua capacidade tecnológica que o afastou do mundo natural. Segundo TUAN (1986) a natureza primitiva apresenta formas arredondadas, que se diferenciam das paisagens retangulares das cidades cheias de linhas retas e objetos retangulares, estas são ambientes de um mundo carpintejado cheio de linhas retas, ângulos e objetos retangulares. Por isso a intervenção do homem sobre a natureza e tão desastrosa, ele foi sequestrado de suas experiências naturais pelo desejo de poder, a consequência de tudo isso é uma cegueira que compromete o equilíbrio do planeta Terra. Depois disseram: "Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não sejamos dispersos pela face de toda a terra". Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos dos homens. “Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus empreendimentos. Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se compreendam um ao outro". Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e cessaram a construção da cidade. Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de toda a terra (Gêneses 11,4-9). A torre de Babel é um relato mitológico judaico/ cristão que revela a confusão entre os homens gerada pela sua ambição e pela busca da sua própria exaltação. Babel é a confirmação da perda do sentido comum entre os homens, a confusão das línguas é um indicativo do desentendimento do homem com ele mesmo, é a face carpintejada dia-bólica que distancia o homem da natureza e dele mesmo pondo-o em um cativeiro. O mundo carpintejado dia-bólico não é sensível as fragilidades da natureza, esse lado dia-bólico afasta-nos das concepções que elevam a Terra como lugar do homem e como um grande organismo vivo, segundo James Lovelock, a Terra é um organismo vivo auto-regulador. Esta idéia ressurgiu quando Lovelock (1990) buscava detectar vida em Marte e por analogia compreendeu que se os gases que compõem a nossa atmosfera estivessem em equilíbrio químico, como viu em suas experiências, nossa atmosfera apresentaria uma outra composição (Sheldrake, 1991).
  37. 37. 35 Lovelock (1990) acreditava que o equilíbrio que permite a vida como a conhecemos relaciona-se a um processo de interação que envolve todos os elementos vivos e não vivos e o próprio planeta em sua dinâmica, fazendo com que a vida seja moldada às condições da Terra. Nesse sentido, essa interação otimiza as condições contemporâneas da biosfera, ou Gaia, que seria uma entidade auto-reguladora com capacidade de manter o nosso equilíbrio e a vida atual como a conhecemos graças ao seu autocontrole do meio ambiente físico e químico. Uma das suas atividades sería a de manter a temperatura do planeta dentro dos limites aceitáveis à nossa existência, mesmo que ela sofra constantes bombardeios de CO2. Para Lovelock, essa interconectividade incluiria também a própria manutenção da vida atual no planeta, que, dentro de uma relação de troca, também interferiria no equilíbrio do todo (Lovelock, 1990; Sheldrake, 1991; Simmons, 1993). (CAMARGO, 2005, p 197-198). Entender a grandiosidade desse gigante organismo é também reconhecer nele sua fragilidade, a interferência cega do homo demens compromete o seu equilíbrio e nos conduz para um caminho desastroso. E preciso que o homem seja resgatado do cativeiro dia-bólico e vença as suas ambições pessoais desfazendo as torres que o distanciam da natureza, a confusão das línguas de Babel pode ser recuperada por um outro caminho, um caminho sim-bólico como o de Pentecostes. o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem. Achavam-se então em Jerusalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo do céu. Ouvindo aquele ruído, reuniu-se muita gente e maraviIhava-se de que cada um os ouvia falar na sua própria língua. Profundamente impressionados, manifestavam a sua admiração: Não são, porventura, galileus todos estes que falam? Como então todos nós os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Partos, medos, elamitas; os que habitam a Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frígia, a Panfília, o Egito e as províncias da Líbia próximas a Cirene; peregrinos romanos, judeus ou prosélitos, cretenses e árabes; ouvimo-Ios publicar em nossas línguas as maravilhas de Deus! Estavam, pois, todos atônitos e, sem saber o que pensar, perguntavam uns aos outros: Que significam estas coisas? Outros, porém, escarnecendo, diziam: Estão todos embriagados de vinho doce (Atos dos apóstolos 2,1-13). No dia de Pentecostes os apóstolos estavam amedrontados porque tinham perdido seu mestre, estavam reunidos por um ideal comum, haviam incertezas mas todos tinham em seu coração as mesmas aspirações, destruir as torres de Babel de suas vidas, saírem dos cativeiros propostos pelos ideais dia-bólicos, se permitiram ao mundo sim-bólico. E por esse comprometimento ouviram todos falarem em sua voz materna, contraria a confusão de Babel em Pentecostes todos se entendem.
  38. 38. 36 A comunidade primitiva vivida pelos primeiros cristãos foi e sempre será um grande exemplo para todos que queiram viver em um mundo desprovido de ganâncias dia-bólicas como os exploradores portugueses e espanhóis que destruíram e exterminaram diversas civilizações com seus projetos dominadores, as civilizações colonizadas perderam pela força, mas as lições de algumas comunidades dos Andes podem nos ensinar muito. Em algumas comunidades dos Andes, descendentes dos antigos incas, costuma-se fazer, de tempos em tempos, um ritual de rica significação simbólica. Numa espécie de arena, amarra-se um condor, a águia dos Andes, ao dorso de um touro bravio. Trava-se então, diante da multidão, uma luta feroz e dramática que dura horas. O touro é resistente e o condor conta somente com o bico e as garras. Sempre que o touro está em vantagem, os indígenas interferem em favor do condor que bica e apunhala o animal até extenuá-Io completamente. A vitória do condor sobre o touro é celebrada com esfuziante festa popular. Pois o espetáculo vivido pelos indígenas configura uma metáfora: a luta entre o colonizador espanhol representado pelo touro e a cultura do altiplano andino, simbolizada pelo condor (BOFF, 2002, p.165). Com o ritual da luta entre o condor e o touro pelos descendentes dos incas faz-se uma inversão sim-bólica das conquistas dia-bólicas do colonizador e do colonizado de outrora. "O sonho de liberdade, sempre frustrado, finalmente triunfa. Pelo menos no nível do símbolo" (BOFF, 2002, p. 166). O colonizador espanhol, vencedor de antigamente representado pelo touro, é agora derrotado, e o vencido de outrora os descendentes dos incas simbolicamente representados pelo condor agora são vitoriosos, demonstrando que o caminho a ser feito pelo homem tem início nos significados que o cercam gerando um horizonte de sentidos repleto de significados que podem restaurar sua identidade.
  39. 39. 37 5 - CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise das concepções de natureza no decorrer da evolução do pensamento geográfico, passa pelas histórias marcadas por significados sagrados moldadas pelas mitologias, a mitologia e uma forma de oferecer às pessoas uma explicação geral da existência, e não esta relacionada ao contexto histórico. Com o desenvolvimento da ciência e da indústria a concepção de natureza é transformada, ela deixa de ser sagrada e pode ser violada pelo homem, a justificativa é encontrada na ciência moderna que retirou a natureza do seu contexto sagrado. A revolução científica e industrial e o surgimento da ciência geográfica foram de grande influência na transformação das concepções de natureza, que apoiado em novos significados, como a formação de grandes nações que se baseavam na acumulação de metais preciosos, constitui novas formas de perceber a natureza. Distanciado da natureza pelas suas percepções materialistas e pelos avanços tecnológicos, o homem rompe o equilíbrio do planeta distancia-se cada vez mais da natureza e compromete a sua própria existência transformando-se em seu próprio agente de destruição. As ambições e os pretextos individuais são a origem da forma de conceber a natureza hoje, é preciso (re)encontrar a concepção de natureza fundamentada em ensinamentos como os de São Francisco de Assis e do chefe indígena Seatle, estes e outros são formas de nos aproximar da verdade que nos é negada pelos ideais capitalistas que são bombardeados em nos durante toda a nossa vida.
  40. 40. 38 REFERÊNCIAS AQUINO, Rubim Santos Leão de. História das sociedades: das sociedades modernas às sociedades atuais. 32a ed. Rio de Janeiro: Ao livro Técnico, 1995. BÍBLIA SAGRADA. 14a ed. São Paulo: Ave Maria, 1998. BIERLEIN, J. F. Mitos paralelos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. BOF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. 17a ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002. CAMARGO, Luís Henrique Ramos de. A ruptura do meio ambiente: conhecendo as mudanças ambientais do planeta através de uma nova percepção da ciência: a geografia da complexidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005 Carta a EI Rei D. Manuel. Disponível em: <http: //wvvw. cce. ufsc. br/ ~nupill/ Iiteratura/ carta. htmI>. Acesso em: 19 jun. 2008. Carta encíclica FIDES ET RATIO, sobre as relações entre fé e razão. Disponível em: <http: //www. vatican. va/ hoIy_father/ john_pauI_ii/ encyclicaIs/ documents/ hf_jp- ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po. htm| >. Acesso em 29 de set. 2009. Carta do chefe indígena Seattle, em resposta ao presidente dos Estados Unidos, que se propunha a comprar terras indígenas, em 1854. Disponível em: <http: //www. comitepaz. org. br/ chefe_seattIe. htm>. Acesso em 29 de set. de 2009. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. 2a ed. São Paulo: Ática, 1987. CURY, Augusto Jorge. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. DAY, R. H. Psicologia da percepção. São Paulo: José Olympio Editora, n/ c. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. O mini dicionário da língua portuguesa/ Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. 4a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
  41. 41. 39 GAARDER, Jostein e HELLERN, Victor e NOTAKER, Henry. O livro das religiões. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 HUBERMAN, Leo. História da riqueza do homem. 21a ed. São Paulo: LTC, 1986. IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA. Catecismo da Igreja Católica. 10a ed. São Paulo: Loyola, 2000. LACOSTE, Yves. A geografia isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. 4a ed. Campinas: Papirus, 1997. LENCIONE, Sandra. Região e Geografia. São Paulo: Edusp, 2003. MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas. 10a ed. São Paulo: Atlas, 2008. MELO, Fábio de. Quem me roubou de mim? : o seqüestro da subjetividade e o desafio de ser pessoa. São Paulo: Canção Nova, 2008. MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? : por uma epistemologia crítica. São Paulo: Contexto, 2006. . O que é geografia. 14a ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. ROSENDAHL, Zeny. O Sagrado e o Espaço, CASTRO, Iná, GOMES, Paulo, CORRÊA, Roberto. (organizadores) Explorações geográficas: percursos no fim do Século. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, pp. 119-153. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 11a ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. SEABRA, Giovanni. Fundamentos e perspectivas da geografia. João Pessoa: Universitária, UFPB, 1997. TUAN, Yi-fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: DIFEL, 1980.
  42. 42. 40 VALDÉS, Ariel Álvares. Que sabemos sobre a bíblia? Il. Aparecida, SP: Santuário, 1997.
  43. 43. ANEXO
  44. 44. A ÁGUIA E A GALINHA, UMA METÁFORA DA CONDIÇÃO HUMANA Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-Io cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/ a rainha de todos os pássaros. Depois de 5 anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista: - Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia. - De fato - disse o camponês. É águia. Mas eu criei-a como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de envergadura. - Não - retrucou o naturalista. Ela é e será sempre urna águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas. - Não, não _insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia. Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse: - Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe! A águia ficou sentada sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. O camponês comentou: - Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha! - Não tornou a insistis o naturalista. Ela é uma águia. É uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no telhado da casa. Sussurrou- lhe: - Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe! Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas. O camponês sorriu e voltou à carga: - Eu lhe havia dito, ela virou galinha! - Não - respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. Amanhã a farei voar. No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram-na para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe: - Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe! A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do Sol, para que seus olhos pudessem encher- se da claridade solar e da vastidão do horizonte. Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez para mais alto. Voou. ., voou. .., até confundir-se com o azul do firmamento. .. Fonte: BOF, Leonardo. O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade. p.40-42, 2002.

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