60 Momentos em Meia-Fase

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60 Momentos em Meia-Fase

  1. 1. Página 1 de 61
  2. 2. CONFISSÃO SE UM SER PERTURBADODaniel Paixão Fontes – 13/12/2004As luzes se deformam sem um motivoAs noites chegam sem um por queO inverno cai dos céus sem avisoE a morte clama sem você verSou um tolo, tentando marcarNo tempo e nas coisas quem eu souNão quero morrer sem celebrarUma festa a quem eu nunca fuiSou tão tolo e débil criançaDestemido, sem segurançaIrritado e sem vingançaCom a mente cheia de insegurançaDas cobranças que me fazem não quero lembrarDas dores e tramas que me arrastam para a morteSe quero distância para sonegar a sorteSórdido caminho é o de se negar até o fimSem demora eu me vou ao alémSem querer me valer do desdémQue se aflora por minha vidaSem demora me devora Página 2 de 61
  3. 3. Sob a ChuvaDaniel Paixão Fontes – 18/12/2004Às vezes eu só quero cair no chãoDeixando a dor me matar sem perdãoLutar para que se eu já sei que não vou vencer?Sinto tanto a sua falta e não vou mentirNão quero esta dor que acompanha o amorNem quero entender os solução que ecoam no arSeria certo, sob esta chuva de sofrimentoErguer a voz e gritar por um momentoToda a fúria deste pobre sarnento?Não vou me enxugar desta chuva sem fimNão vou dizer o que interessa só a mimDas nossas vestes a mais bela é o penarSofrer é o destino dos que querem amar?Tão frio e escuro é o meu coraçãoTão distante o dia seguinte parece estarNem sequer sei se consigo à Deus orarPedindo sem fé o que não mereço euReclama do castigo o sentenciadoReclama em vão pois seu julgo é merecido Página 3 de 61
  4. 4. AlémDaniel Paixão Fontes – 19/12/2004Descalços estão os pés dos que choramOs olhos já cansados se entreabrem para a visãoE moída está a alma do que busca por perdãoClareia-me o pensamento vislumbrar-te tão distanteObjetivo inalcançável, paraíso alienanteClamo por ti em meio à flores fúnebresDistancia, além das minhas forçasSonolência, já não consigo mais andarO que resta é apenas me sentarObservo-te como alguém que se torturaEnsandecida mente, deseja sem saberQue o desejo morre sem regá-lo com esperançaE a esperança é o que busco em meio às ruínas da minha vidaEm meio aos fragmentos daquilo que um dia fuiNos restos daquilo que eu julgava ser meu coração Página 4 de 61
  5. 5. Enfrentando MedosDaniel Paixão Fontes – 20/12/2004Solitariamente envio-me ao destino incerto das reflexõesOstracismo insólito, me torturo em busca de meras soluçõesCaminhando em meio ao ébano das incertezas e desilusõesBalbuciando desafetos, desânimos e insatisfaçõesConfuso, sou apenas uma névoa sem vidaVagando sem rumo por estradas escurasUma criatura de sentimentos desprovidaMas ainda assim capaz de sofrer censurasTriste, recolho-me de volta ao breuDeitando-me ao relento das tragédiasEntregando-me aos lobos da misériaEnfrentei meus medos e perdi meu coraçãoEm um ato sem sentido, me afundei em desilusãoE agora só me resta esperar, e esperar em vão Página 5 de 61
  6. 6. ABAIXODaniel Paixão Fontes – 21/12/2004Maldita obrigação e enfado são meus diasMorram os sonhos dele! - são as vozes à orarQue viva ele para satisfazer as nossas filhasQue morra ele sem nada para si realizarAbaixo de mim mesmo está meu outro serQue aspira e sustenta esperanças vaziasQue sonha com aquilo que não pode terQue se mata pouco a pouco, sem se entenderDo que adianta a vida desta formaDo que valem os dias desta maneiraSe de puro engôdo a vida se adornaSe todos desejam à mim a cegueiraQuerem meu sonho morto e sepultadoPara que eu viva os seus sonhos entãoSerá que de egoísmo não declaradoTodos os humanos feitos são? Página 6 de 61
  7. 7. FOBIADaniel Paixão Fontes – 22/12/2004Todo o meu medoSe resumem em um pesadeloQue desperto tenho vividoMas que em sonho eu não permitoArrastando-se por entre o póEstá aquilo que me aterrorizaUm problema, eterno nóQue desatar eu tanto queriaNão controlo o tempo e nem o espaçoNão posso enfrentar a minha fobiaNão quero causar nenhum estardalhaçoE para este crime não há anistiaDe olhos fundos e boca monstruosaEstá o medo que tanto me apavoraQue com sua boca me devoraE com suas patas me controlaEstou nas mãos de meu algozO que posso eu fazer?Triste fico sem poder usar a vozPara gritar e o mundo estremecerNão suporto estas desventurasMeu coração está morrendoMinha alma quer ir às alturasMas na verdade estou em meio ao excremento Página 7 de 61
  8. 8. INCONTROLÁVELDaniel Paixão Fontes23/12/2004Insanidade é o que corre em minhas veiasLoucura de viver preso à cadeiasQue flagelam o que na verdade souE que a mim mesmo matouLágrimas no escuro caemDe meus olhos vermelhos elas saemLonge de tudo e de todosDaqueles que me julgam toloCrenças, descrenças, mentiras e verdadesHá soluços sob esta falsa irmandadeIncontrolável, insuportávelMeu coração é totalmente insaciávelQuero e não quero, sentir tamanho dorSinto muito por tão terrível amorO drama instala-se horripilantementeVentos e relâmpagos me castigam fortementeImpuro e imperfeito, qual sentido hei de encontrarPara a insegurança e vertigem que me fazem vomitar?Paz, tão desejada musa que me inspiraAonde estás, minha eterna querida? Página 8 de 61
  9. 9. NEBLINADaniel Paixão Fontes – 25/12/2004Quase tátil era-me a visãoDe tamanha e inverossímil situaçãoA luz por entre os obstáculos apareciaRevelando-me o que eu apenas sentiaNão é tarde, muito menos cedoÉ apenas certo viver sem medoCalando os gritos abaixo da peleImpedindo que este mal me flageleEntendendo que a neblina que paira sobre mimTem, afinal, o seu próprio fimEscurece a vista e até estremece a féMas revela a luz que põe fim a esta maréCansado, aflito e com doresDeitado em meio à floresVejo claramente na dor a me matarUm motivo simples para alguém vir me salvar Página 9 de 61
  10. 10. VÍCIODaniel Paixão Fontes - 27/12/2004As mãos tremulam em hesitaçãoNão quero me renderMas não suporto mais a excitaçãoDe com isso me entreterSoluços de mentiraLágrimas de ilusãoO vício de mim retiraToda esta afliçãoGritos de socorro não pude libertarDe azuis senhoras me faço acompanharMe entregando à própria morteUm pouco mais, e à própria sorte Página 10 de 61
  11. 11. PÉS DESCALÇOSDaniel Paixão Fontes – 28/12/2004Sem preocupações quanto ao meu futuroSem lágrimas quanto ao meu estadoSó por hoje vou descer do muroSem me lamentar de meu passadoPassar um dia inteiroDe pés descalços é o que queroSentir a terra por entre os dedosE ser forjado como o ferroDescansar à beira de um lagoSer um nada por um momentoAdmirar enquanto divagoSobre o que estou isentoMeus pés tocam a água friaSorrio sem me culparA noite já me acariciaPara em paz me embalar Página 11 de 61
  12. 12. LAMENTO AO SOLDaniel Paixão Fontes – 30/12/2004Quero acreditar que um dia posso vir a serAlgo mais do que este pobre maldito a sofrerAlguém a quem você possa olhar sem chorarAlguém que seja forte e não lhe possa machucarMorte, que ventos a trazem até mim?Que sono é este que o sol me faz sentir?Que medo insano é este que me tenta coibirAquilo tudo o que eu tenho que definir?As sombras são pura lamúria e tentaçãoDas formas ocultas que eu mesmo não sei verDas tristes marcas que carrego em meu coraçãoE me deformam sem perceberNão quero me entregar à dor de te fazer sofrerNão quero aceitar que vou me perderPor entre os dias da minha vidaPor entre os rumos tortos da minha trilhaSei que não sou feito para temerMas sob o sol lamento sem me entreterNão quero mais ser arauto de tristezaPois de mim mesmo quero ter certeza Página 12 de 61
  13. 13. QUEDASDaniel Paixão Fontes – 03/01/2005O remorso amarga-me inteiroDestila veneno, instiga terrorControla-me como titereiroDesfaz-me do que é o amorOlhos nos olhos, vejo-te assimNão quero mais você em mimMaltrata-me a alma sonhar sem sentirNão quero mais ter de mentirMeus dias passados, distantes momentosNão os lembro sem seus sofrimentosFeridas da alma, chagas no coraçãoSempre movido à paixãoSinto por não mais sentido fazerSem que saiba ao certo o que dizerVou-me assim como o pó ao ventoSem mais alongar este momentoSacudo meu corpo, levanto-me do chãoOlho as estrelas, nego-me o nãoCaminho confuso até novamente cairSe vou levantar é algo para refletir Página 13 de 61
  14. 14. RESGATEDaniel Paixão Fontes - 10/01/2005Caído em desespero, na escuridão a lamentarUm pobre eu, já cansado de tanto esperarOutrora reto e manso servo fervorosoAgora um pobre, nú e cego rancorosoMuda-me o coração, faz-me a ti refletirLimpa a minha alma do inicio ao fimMe alimenta o espírito, faz-me como a DaviQue tudo o que queria era um coração segundo a tiRecordo-me dos dias em que contigo conversavaMe lembro das horas em que a ti me atiravaAgora, porém, só tenho lágrimas que não mais se contémResgate-me de mim mesmo, salva-me da minha insanidadeLivra-me de meus desejos, esmague minha maldadeResgata em mim aquele amor, amor sem fim Página 14 de 61
  15. 15. DIAS FRIOSDaniel Paixão Fontes - 11/01/2005Dias tristes me apaziguam a almaFrios e chuvosos dias de calmaDias em que o que eu mais queriaEra ver o que eu nunca veriaDias frios de outono sublimeDias bons em que nada me oprimeDias como estes não voltam maisDias frios como nunca haverá jamaisChuva tranqüila, que cai sem pararInunda-me a vista, e faz-me sonharPor horas e horas e horas e horasCom tudo o que há lá foraBom em dias frios é abrigo e calorBom em dias quentes é ao vento se exporDia escuro, nublado e aterradorAté mesmo tu me levarás ao Senhor Página 15 de 61
  16. 16. MEMÓRIAS EM SÉPIADaniel Paixão Fontes - 12/01/2005Lembro-me de tardes mornas e amenasE de dias em que a noite tardava a cairLembro-me de pessoas mais serenasNão tão propensas à mentirA insanidade não morava tão pertoNem a perdição batia à portaÉ verdade que o destino já era incertoMas minha mente não jazia mortaA chuva caía e eu me abrigavaE durante a noite uma vela me iluminavaO frio vinha e eu me aqueciaA dor surgia e eu me entretinhaÉpoca de ilusões e memórias em sépiaDias repletos de emoções paupérrimasRecantos vazios de sofrimento e glóriaNo hoje jazem em minha própria história Página 16 de 61
  17. 17. AINDA QUEDaniel Paixão Fontes - 18/01/2005Ainda que não sobre mais vontadeNão lamentarei em busca de piedadePois a vida, amarga como venenoEsvai-se em um momento muito pequenoAinda que teus olhos não demonstrem paixãoNão serei um reles faminto implorando atençãoE ainda que tua boca confesse amoresTeus olhos me confessam horroresAinda que a busca fosse vaziaE ainda que a Terra se transforme em nadaDe nada se infla a minha alegriaE na alegria falsa se escora a minha agoniaAinda que as lágrimas sejam escassasAinda que as alegrias sejam esparsasNão vou me desaventurar em insanidadesTão pouco quero me atirar à vaidadesAinda que os dias cheguem ao seu finalE ainda que a tempestade seja mortalLutarei em prol daquilo em que acreditoAinda que isso lhe deixe aflito Página 17 de 61
  18. 18. FURIADaniel Paixão Fontes - 20/01/2005Lascinante instinto de meu âmagoGenuíno à um verdadeiro vândaloForça motriz por trás de revoluçõesAtitude da qual não se tira conclusõesA fúria inflama os instintosFaz a mente se entorpecerTransforma covardes em assassinosFaz o sangue fartamente escorrerFúria assassina, demagógica e suicidaFúria de criança de rua, já esquecidaFúria de povo abandonado, revoltadoFúria de ser humano, assassinadoMotivos? Quem se importa com eles?Argumentos? Quem se incomoda com estes?Soluções? Quem as busca ardentemente?Vergonha? Que líder ainda a sente?Soluços na escuridão ecoam pelo mundoMas o dia da batalha virá a qualquer segundoA fúria vive sob a pele dos injustiçadosRompe-la-á em busca dos culpadosCom braços em guarda e punhos fechadosA fúria instiga até seres aladosÀ peleja que irá retirar esta amarguraDesta fúria morta que causa á alma secura*escrito enquanto ouvia Heavy Metal Página 18 de 61
  19. 19. DEFINIÇÃO DO MOMENTO IDaniel Paixão Fontes - 21/01/2004Todos os dias acordo assustadoCom coisas que não posso explicarSinto saudades de algo bizarroQue não existe e ninguém vai criarAssisto aos céus deitado no chãoComo um filme de eterna duraçãoFico tão triste de não lá estarVoando sem me preocuparMas posso dizer que não sou mais daquiSó quero sentir que não sei mais mentirUm dia virá em que a dor terá fimTambém é assim com as flores do meu jardimO sol já se põe sem se despedirJá tardou o raiar do luar à me cobrirTão só me engano quanto me abominoSou todo ouvidos ao teu prantearMas busco o incerto em prol da visãoQue tive ainda menino em meio à sequidãoDa minha infância perdida em memórias puerisEm meu coração jorravam idéias como um chafarizRasuras apagadas em papel de pãoEram meus planos de açãoFogo ateei às planícies em mimNão posso prever o que vai ocorrer assim Página 19 de 61
  20. 20. DESEMBAINHARDaniel Paixão Fontes - 27/01/2005Triste e faminto estou de Ti, ó Deus da minha salvaçãoMinhas pernas tremulam quando penso em teu juízo e em minha perdiçãoMeus olhos se ferem diante do brilho da tua benignidadeE tentam se me desviar de sua santa verdadeQuebranta ó Senhor a minha ânsia e meus desejosEsmague por entre os dedos de tua mão os meus anseiosPois à miséria e à perdição eles me levarãoE morte é o destino das saídas do meu coraçãoMuda meus pensamentos, limpa-me de meus tropeçosCura minhas feridas, apiede-se de meus maus intentosDeus meu, extirpa de mim o mal com tua espadaDesembainhe-a contra mim, salve-me pela tua palavraSanto de Israel, Deus do impossível, Senhor da existência e inexistênciaCura do mal meu coração, refine minha mente, lave-me com insistênciaPois sem teu amor, ai de mim, que sou injusto, vil e de má tendênciaSeu teu perdão por Cristo, ai de mim, que tanto careço de benevolência Página 20 de 61
  21. 21. RECONHECIMENTODaniel Paixão Fontes - 31/01/2005Todos os dias eu acordo sem despertarDesta vida em que você me amouMeu passos guia-me a qualquer lugarSem saber exatamente para onde vouPrefiro morrer à crer que vou perderQuero explicar aos que querem entenderDas tuas palavras não me farto em aprenderQue morto estou, sem de mim me arrependerNão quero mais saciar-me em meus víciosTão pouco espero que me deixem em pazSei que terei que fazer sacrifíciosMas por Ti vencerei, pois eu não sou capazE a noite eu me deito cansadoPensado em como fui tão ingratoPor que não fiz o que Tu querFaz-me fazer o que o Senhor me disserTão pouco de mim eu lhe doeiPois com um palco vazio me encanteiOnde peças ocultas eram encenadasE onde a vida se esvaia para o nadaTeus olhos me fitam sem que eu possa pensarTua mente me imagina sem que eu possa duvidarTua boca me declama sem que eu precise falarE Teu amor me conclama sem que eu possa recusar Página 21 de 61
  22. 22. MÁ VONTADEDaniel Paixão Fontes - 10/02/3005Quantas vezes hei de dizer em vãs argumentaçõesQue em todas as minhas fraquezas me limito?Que todos os meus vícios são prisões?Que no mesmo erro ainda insisto?Quando vencerei minha limitação?Quando me livrarei desta prisão?Limítrofe és tu, domínio próprioPois caí em mais uma armadilha, é óbvio!Debaixo de minha pele, no meio de meus ossosMisturado à minha medula, minando os meus esforçosHabita uma má vontade, incontrolável e bastardaAlgo que deixa minha própria alma totalmente amarguradaSinto tanto pela dor que me aflijoSinto muito pela brecha ao inimigoSabendo bem o que faço e deixo de fazerMe desespero sem a mim mesmo entender Página 22 de 61
  23. 23. FRAGMENTO DA VISÃO DO AMORDaniel Paixão Fontes - 21/02/2005De tão imensa que era a minha ilusãoMe submeti à mais humilhante submissãoEm busca de apoio e de amor me entregueiMas como tecido antigo no final me rasgueiDores de chagas antigas que nunca cessaramAnseios de vozes partidas que não se calaramAngústias se homens vazios que não se completamLuzes tão frias que do alto nos velamVai, sai em busca do teu quererDesafia-te em riscos sem se abaterSujeita-te ao infortúnio da febre da vidaE volta-te ao amor com sabedoriaDa infelicidade o amor se engrandeceE na dificuldade ele se fortaleceDo impossível sua esperança o inflamaE no seu ápice nada estranha Página 23 de 61
  24. 24. O SILÊNCIO DA ESCRITADaniel Paixão Fontes - 22/02/2005Minhas histórias ninguém nunca ouviuE minhas rimas, ninguém as sentiuOs meus ensaios ninguém criticouE dos meus contos ninguém se alegrouNão tenho mais o que aos outros falarNão tenho mais do que reclamarNão tenho sonhos e nem soluçõesNão tenho mais nada além de alucinaçõesNa gaveta escura estão meu soluçosEm linhas trêmulas expulsei meus abusosCurtindo ao sol apodrecem ilusõesDaquilo que julgava serem belas visõesTudo que busquei, tudo que sonheiNada disso enfim, um dia conquisteiSe algo me limitou, não puder relutarPois na verdade eu nunca pude me entregarSe devassidão pensei, se de morte me vestiSe de alegria eu totalmente me despiSe o perdão é a busca e paz é o prêmioSó me resta então o refletir no silêncio Página 24 de 61
  25. 25. VIDA EM SAÍDADaniel Paixão Fontes - 28/02/2005Se o acaso for-me como um rio a percorrerDe barco à vela as insanas águas sem saberQue outrora fui-me em devaneios a pensarQue a vida é engano e me basta sonharDe tratos finos e ingratos me farteiEm tristes dias me enchi e me banheiDe incertos sonhos eu não abdicareiE das amarras desta vida eu me livrareiO adeus é pra sempre um eterno sofrerMas a vida em saída se vai sem saberQue não há despedidas, apenas encontrosE que tudo é mentira, é puro afrontoMas não se vá para o lado de láNem queira buscar o que lá não háGaranto que se você me contarNão vou a ninguém o segredo revelarSim, quando você vier me visitarPor sua voz vou ansiar escutarMas por favor, venha sem avisarNão bata na porta, e a ninguém faças chorar Página 25 de 61
  26. 26. ESPARTILHO DE ARAME FARPADODaniel Paixão Fontes - 02/03/2005Dor e sono misturados em um compostoDesgosto e incapacidade me são como estofoForrando a mim mesmo de sensações desagradáveisMe levando a entender que meus desejos são abomináveisO que desejo insisto e erro sem titubearDo que me intero pensou eu em compartilharComo veneno minhas palavras são rejeitadasE como morte minhas idéias são destratadasCegos e surdos me cercam e encarceramFalam sem dizer e enxergam sem verBuscam alvos inexistentes e imprecisosNão ponderam, e de suas idéias não fazem juízoConfusão, distúrbio, ondas sobre as águasAtitudes total e completamente descontroladasTédio, ócio, despropósito em viverTodos julgam sua própria verdade conhecerUm espartilho de arame farpado é a vida deste mundoMais do que incômodo, é a besteira de um segundoOlhos dispersos contra lâminas de ferroNada é mais importante do que um simples berroDor, sangue e moscas compõe a verdade da tua menteUma verdade triste para não dizer indecenteNunca aceitará que estás erradoE simplesmente voltará a viver em pecado Página 26 de 61
  27. 27. DE 1 A 8 LINHAS DISSERTANDO SOBRE O VAGO Daniel Paixão Fontes - 09/03/2005Só Todas as noites me são gratas E todos os dias de mim dão risadasDeitado e descalço Mas de repente não entendo o que você querMe entendo em pedaços Se é amor me diga por favor Se é descrença cite a sentençaTira de mim este amargo sabor Se é loucura me leve às alturasEste sonho feito do mais puro terror Se é perdão apenas me dê a mãoE me livra da minha dor Já desisti de aceitar que não posso mais ficarMas, pobre de mim Me revoltei contra o que não posso desejarEm dias assim Se de batalhas me é dada a casa de meu reiNão sei bem dizer Não vou temer ferir ninguém, disso eu seiO que estou a querer Só vou errar quando te ter em minhas mãos Quando souber que não sou um cãoMais um pouco só, de amor e dó Quando entender que o vago é sofrerE estarei pronto a esperar você E que os meus dias são distúrbios do viverVá, e me diga loucuras de láE traga bobagens pra cáE me segure firme pois eu posso cairVou até minha morteEsperar sem ter sorteAs dores da vida e do amorMas não vou quererTe ver sofrerPor isso é que eu não vou ficar Página 27 de 61
  28. 28. GASTANDO TEMPODaniel Paixão Fontes - 14/03/2005Vinte e quatro horas serão dadas ao desperdícioSete dias serão destinadas ao sacrifícioSessenta minutos passam sem se verSessenta segundos se vão sem quererSol e lua cruzam os céus sem dançarInstantes de pouco ou nenhum pesarSombras da luz nascem e pela luz morremNão se deve contar os dias daqueles que sofremMais alguns minutos se foram caídos das erasInstantes que nunca voltarão à estas terrasFazem-se sangrias nos dias deste instanteAbomina-se o fato do tempo não ser constanteGuardo-me daquilo que outrora conheciAbomino a tudo aquilo que um dia viVasto instante de fadiga e confusãoMero momento de intriga e ilusãoÉ pois o dia da vingança daqueles que sonharam o tempoÉ então a morte que vai por dentro nos corroendoOlhos pesados de sono e mente torpe de insanidadeOlhos cheios de medo e mãos em busca de uma única finalidade Página 28 de 61
  29. 29. AMNÉSIA ETERNADaniel Paixão Fontes - 16/03/2005Nem sempre eu pude lhe dizer quem souNem mesmo tive a chance de dizer como estouMe sinto assim, um pouco opaco de se verNão é possível, desta forma, me entenderNão sou nada além do que penso serDe tanto pensar ainda vou me perderJá desisti de conhecer, basta me aceitarNão mais explicações vou procurarNão me recordo do que eu dia eu fugiNem me lembrarei das loucuras que já cometiAssim só posso com o presente me preocuparSem ter um passado, o meu futuro eu deixo estarSe eu chorar sem saber o motivoNão se preocupe se eu ficar assim, meio esquisitoNão há mais motivos para isso delongarNão quero mais com agonias lhe atormentarDeixa estar, uma hora passa este estadoAssim como gota de chuva escorrendo do telhadoEsvai-se a memória de mais um dia ruimRetendo apenas o que é bom, enfimDevaneios e alucinações de um passado sem rostoCentelhas desindexadas flutuando em minha menteBusco no presente o meu confortoE nas palavras em rima concretizo tal engodo Página 29 de 61
  30. 30. GUERRA DA TUA TRISTEZADaniel Paixão Fontes - 21/03/2005Não se afogue nas tristezas e dores do sofrimentoSe o mundo lhe castiga com a vida em tormentoEscora em mim teu rosto em lágrimasE desagua em mim estas dores trágicasBalbucia em meu ouvido a tua afliçãoPara que eu possa assim confortá-laMe deixe arrancar-lhe tanta dor e confusãoQueria poder disso tudo poder poupá-laDe sorrisos prazerosos quero te ver enfeitadaCom delírios de felicidade queria lhe presentearDe paz e alegria ei de te ver adornadaCom plenitude e maturidade te verei caminharSofrida e querida, me deixe ajudarSe só posso enfim tua mão segurarQue isso lhe seja sinal de amorCom isso eu afirmo, do seu lado estouDisposto e a postos, eu vou batalharAo teu lado a guerra da tua tristezaVou me ferir, mas não vou debandarTe quero feliz e por isso disposto estou a sangrar*escrito para a minha noiva, Cristiana Página 30 de 61
  31. 31. DELÍCIA DO ALÍVIODaniel Paixão Fontes - 24/03/2005Chegar em casa e ser recebido com carinhoEnquanto que lá fora a chuva vai caindo de mansinhoDeitar-se no sofá com os pés descalçosE tal aconchego te fazer esquecer de seus percalçosUm banho quente em um dia de invernoUm sorriso que se torna quase eternoUm beijo macio e um abraço amorosoEnquanto se ouve no rádio um sucesso estrondosoAcordar bem tarde em um dia acinzentadoOu no frio cortante se ver bem agasalhadoNa sede desesperadora sorver água puraE na necessidade lhe responderem com grande ternuraNos relacionamentos ser um bom amigoE na necessidade encontrar abrigoNa secura de alma regar-se com o sangue do cordeiroE em sua vida inteira apoiar-se no que é verdadeiroBrincar uma tarde inteira sem se preocuparDar risadas gostosas até chorarLivrar-se de um fardo e caminhar em liberdadeViver tranqüilamente como em uma eterna novidade Página 31 de 61
  32. 32. SÉQUITO DE INTENTOSDaniel Paixão Fontes - 30/03/2005De vultos esguios em meio à noite forram-se meus deleitesDe ações insensatas e flâmulas rubras agitam-se com enfeitesCorrendo em busca daquilo que persigo impiedosamenteChuva, fogo e terra me atrasarão, mas nunca completamenteDe adornos mórbidos decorarei o cadáver dos meus desejosEncerrados em um baluarte de servidão estarão meus anseiosRepletos de sacrifícios de amor estarão minhas açõesMeu séquito de intentos contagiará grandes multidõesDestilo em gotas o mal que me é tão naturalDesfaço-me do que um dia fui, mero animalSeparo em dias a embriaguez do meu egoísmoE luto batalhas sem me valer de sadismoA dor intensa me segura pela mãoE minha alma enfrenta uma doce ilusãoMas livre desta morte eu não me importo com quem souApenas me preocupo em agir de acordo com quem me amouMas estes intentos serão sonhos ou serão ações?Sinto o gosto da vertigem me ludibriando com cançõesSou tão pequeno que me pergunto se de fato estou aquiMas ouço os teus intentos e começo a sorrir Página 32 de 61
  33. 33. GRITO DE VINGANÇADaniel Paixão Fontes - 07/04/2005Tranqüilamente me retiro desta guerraEmbebido em sangueEntorpecido neste transeEste tempo enfim de encerraGlórias e desgraças se confundem em meu passadoNo final, é como se eu fosse um mero papel amassadoMomentos bons de violenta angustia em forma puraSe intercalam com instantes vagos de alucinação e amarguraTremor, ódio, explosão e nervosismoA tudo isso eu agora exorcizoEm lamúrias desgostosas de parca desenvolturaMe agito no movimento contra esta diabólica ditaduraEncerro em minha boca o grito de vingançaE à Deus destino o que me resta de esperançaBalbuciando comigo mesmo planos de vitóriaEscrevo assim mais um pouco da minha história Página 33 de 61
  34. 34. SOB AFAGOSDaniel Paixão Fontes - 15/04/2005Quando miro os teus olhos não posso me conterHá algo em você que me faz bemQuem sabe não seja o teu procederQue me dá certeza de que, como você, não há ninguém?Sob afagos de amor quero lhe cobrirCom pétalas de sonho quero lhe enfeitarDe alegrias puras quero te adornarE delicadamente lhe fazer sorrirSob afagos de luxúria hei de lhe terEm doces momentos do mais puro prazerEntregues estaremos à esta paixãoNo limite final da agonia da seduçãoSob afagos de compreensão lhe trarei alivioCom palavras e apoio tentarei ser corretoDe cuidados intensos te protegerei do frioE nos meus atos, serei bem discretoSob afagos de carinho quero lhe embalarPor bons caminhos quero contigo andarEm dias tristes, quero em ti me escorarE em noites frias, contigo me esquentarLá fora chove e venta arrediamenteMas contigo eu já me sinto contenteUm colo para repousar minha cabeça tão cansadaUma pessoa que merece a todo custo ser amada*Escrito para a minha noiva, Cristiana Página 34 de 61
  35. 35. RASCUNHO DE SAPIÊNCIA IDaniel Paixão Fontes - 28/04/2005Queria entender o que você dizSem que com isso eu comprometesseA sua poesia de ser felizOu seu sorriso eu estremecesseNão sou sábio para dizer o que é precisoTolo é aquele que se julga capazQue acredita ser concisoNaquilo que não lhe satisfazOutrora estranho e agora a pouco novidadeSem memória na escuridãoSem dizeres de verdadeVenho de encontro ao maldito e inverossímilContra o adereço da misériaE o destaque do invisívelSem que eu possa tocar-lhe a face uma vez maisBalanço a mão em sinal de adeus, em sinal de pazQuerendo voltar, me atirar no teu abraço e confortoMe libertar da masmorra, da saudade e do que me é mortoNão que isso possa de fato ser algo importanteMas os nossos dias são invólucros do mais puro inconstanteSedenta está a minha mente de conhecer o que me é caroSem pausas para descansar, sem brincar ou tirar sarroBusco cintilar o que em mim existeSejam idéias, Deus ou algo muito tristeSe não quero guardar para mim meu conteúdoVou prosseguir firmemente com este mesmo estatuto Página 35 de 61
  36. 36. LEVE DEPRESSÃO INEXPLICADADaniel Paixão Fontes - 09/05/2005Os sinos dobram ao longe do lado oesteRessoando lágrimas sem que tu soubesseDas desgraças secas dos que clamam em soluçosDas memórias falhas dos que já estão caducosSempre e desde outrora somos fartos de nós mesmosRenegados por cometer sempre os mesmos errosDestinados a ouvir e a lamentar em sonhos pardosOs momentos tristes dos que não são aladosEm ríspida rotina desmoronam minhas idéiasEm poucas palavras se desfazem em misériasTodavia embargou-se em mim a obra do meu entusiasmoSem avisou prévio demitiu-se sem nenhum sarcasmoTomado de assalto, sem entender o motivo dissoEstou triste e de tristeza estou imbuídoSem motivos ou razões, apenas a pouco aflitoComo se boiando no oceano, um oceano bastante esquisito Página 36 de 61
  37. 37. DEIXE O SOL ENTRARDaniel Paixão Fontes - 17/05/2005Saia de dentro de si mesmoJogue fora esta roupa feita do mais puro medoCaminhe pela praia com o sol iluminando o seu rostoMolhe os seus pés na água e esqueça todo este desgostoDeite-se na grama e fique de papo para o arCante baixinho algo bobo sem se preocuparAnde pelas ruas sem destino ou remetenteApenas caminhe por ai com um rosto sorridenteMantenha em sua mente um pensamento de alegriaPermita que ele se transforme em algo que contagiaBrinque sem culpa e respire bem fundo agoraVamos abrir então a nossa ultima portaVoltando para dentro de vocêÀ sua vida incerta, que está à sua mercêLeve consigo o sol, a cantiga e o sorrisoE exiba assim o teu lado mais bonito Página 37 de 61
  38. 38. ADEUS TARDIODaniel Paixão Fontes - 18/05/2005Não tivemos chance de nos despedirE eu nunca disse o queria falarNão entendi por que você teve que irMas vou ficar aqui e tentar não chorarSe não era assim a vida um amargo gostoVocê falou que tudo iria passarMostrou que o mundo não era tão toscoFicando ali só para me escutarMe deu conselhos e me fez rir do meu próprio jeitoMe fez pensar um pouco mais nos meus conceitosFez parte de um plano que Deus arquitetouPara me moldar naquilo que hoje eu sou*para a minha antiga dentista, Cristina, falecida recentementeque Deus a tenha recebido em seus braços Página 38 de 61
  39. 39. MISÉRIA DESTILADADaniel Paixão Fontes - 30/05/2005Sinto muito por não ser quem eu queriaMe desculpe por ser esta imensa porcariaMe perdoe por não ser alguém melhorTem muitas vezes que me julgo ser de todos o piorPelas esquinas eu contemplo o meu medoEm faces torpes eu me vejo em desesperoNos espelho vejo um rosto tão cansadoQue em miséria se abriga no descasoBondade sua em dizer que se preocupaMentir nem sempre de alguma forma ajudaSe nossos olhos não se cruzam maisO que fazer, se nada mais me satisfaz?A dor já não me fere mais com tensãoA vida já não me leva à contemplaçãoSe meus sonhos se afogaram dentro de mimNão vou chorar por eles, enfimSe sou patético em momentos como esteFalta-me refugio desse estado recorrenteDestilo em mim mesmo o veneno que me mataMiséria sem sentido, sem alegoria, uma só desgraça Página 39 de 61
  40. 40. PONTE ETÉREADaniel Paixão Fontes - 10/06/2005Não quero mais falar do que me ocupa o pensamentoSem compartilhar nas agonias o meu sofrimentoSe um dia quiser entender o que vai no meu serNão diga a si mesmo que não pode entenderSe sou estranho não posso me controlarJá que eu teria que de alguma forma me matarMas eu não vou desistir de mimNão vou me entregar assimBoa parte do que vê não passa de uma encenaçãoMeus dias são tão mornos que transbordam de afliçãoEu quero fugir...Eu só quero sumir...E eis que de repente algo surge no poenteComo uma ponte etérea que no ar se elevaIndescritível e em certo ponto intangívelMas firme e forte caminho vindo do norteE eis que a noite se acabaE de manhã eu vejo que só quero amá-laNão vou deixar que a dor me consumaNem que minha morte algum dia lhe confundaNão há mais doce sensação do que te segurar a mãoO dia mais negro do mundo ante ti se desfaz em um segundoNem minha própria aflição é capaz de me consumirSe você estiver bem aquiSei que um segundo se esvai sem perceberAssim como já se foi o meu sofrerNadando em lágrimas me via no passado abandonadoE hoje vejo em alegria vivendo com enorme maestria Página 40 de 61
  41. 41. FOLHA MORTA SOB O RIODaniel Paixão Fontes - 16/06/2005Achava que da minha vida eu cuidavaQue me guiava em direção ao meu quererSó mais tarde fui capaz de compreenderQue em nada eu me bastavaTal qual folha morta carregada por um rio caudalosoMinha vida se trilhou de maneira imprevisívelE intercalada com momentos de calmaria inverossímilTerríveis corredeiras me deixaram desgostosoA folha nasce, envelhece, morre e da madre se desprendeContra sua vontade e contra o seu querer deficienteCai no chão ou na água, e de alguma forma é arrastadaA folha morta é levada contra sua vontade humilhadaDe nada adianta debater-me em desespero e agoniaTudo o que me basta é entender esta sinfoniaAcalmar-me na correnteza é força e não fraquezaPois Deus comanda o rio, disso tenho bem certeza Página 41 de 61
  42. 42. ASAS DE TRANSIÇÃODaniel Paixão Fontes - 20/06/2005Olhos amargos me fitam sem que eu os entendaResta-me apenas a simples palavra de amorPerdoa-me por tão grandiosa contendaQue amena em um sublime terrorDas telhas caem lágrimas de solidãoNas ruas escorrem lágrimas de desolaçãoEm uUm dia de chuva é bom se guardarDa brisa tão fria que vem nos matarMais que um sussuro entre dentesÉ a forma de viver tão contenteAberto e incerto momento de dorEsvai-se em tenras contendas de amorBusco o que não posso ganharMas instantes de dúvida me fazem esperarAmeno e incerto encolho-me em mimMais disputas não quero assimEsvaziei-me de mim, e enchi-me de lágrimasMais do que medo e dor, são lembranças trágicasBusquei e busquei sem nada encontrarO que há em mim, não quero lembrarDoces torturas de insana loucuraAbate-se aqui a caça das caçasTransitei enfim em tuas enormes asasBastou-me enfim esta linguagem em figura Página 42 de 61
  43. 43. PERDEDORDaniel Paixão Fontes - 23/06/2005Quero chorar mas não sou mais capazDe expressar esta minha falta de pazSó o que sei é lamentar e cozerLentamente o meu quererBrinco com palavras sem me entreterE logo irá na minha vida anoitecerJá que não vou aguentar a escuridãoEspero por alguém que me segure a mãoSó um pouco mais, e poderei me despedirAdeus tardio sem sentimentos exprimirSei que não é algo bom de se pensarMas não quero mais isso tudo aguentarSem sorrir nem mentir, simplesmente me entregarNão tenho em mente esta luta continuarSei que sou um tolo e maldito perdedorMas não posso mais ser o que não sou Página 43 de 61
  44. 44. AURORA DOS DIAS PARDOSDaniel Paixão Fontes - 27/06/2005Pelo vidro da janela vejo o dia entristecido, acinzentando-se de formamelancólica. Percebo que a luz que tudo toca é azulada como o meu humor,quase uma manta de pudor, que revela ao mesmo tempo em que encobre aansiosa volúpia inerte em cada recanto disforme.Sem pudor, despiu-se em minha frente o corpo desta morte. De tal sorte queangustia tornou-se minha aflição, outrora solidão. Não mais verei os meusmedos sobre mim se derretendo em teias de conformidade, pois se me faltaseriedade para expurgar de mim mesmo o que me faz tão incorreto, o quedizer depois de afirmar que nada sou além de um homem indiscreto...E então, mais do que uma música, uma melodia de alegria insana semanifesta em claves e pautas majestosas, como se de ópio a realidade seentorpecesse e de satisfação a vida transbordasse. Surge a aurora dos diaspardos, fim das cadeias e início das virtudes, paz dos guerreiros, sono doscansados, porto dos navegantes, cama dos amantes, saber dos intelectuais,justiça dos oprimidos, alimento dos famintos.Nunca mais provarei do fel que me matava nem da morte que meespreitava. Os dias azuis de outrora foram-se agora. Embrenharei-me nocalor dos teus braços, satisfarei-me ao teu lado andar com pés descalços.Mais de mim mesmo habita neste corpo agora do que a meros instanteshabitava. Meticulosa arte de moldar a realidade, ilusionismo de pessoas semidoneidade. Página 44 de 61
  45. 45. MAR DE INCERTEZADaniel Paixão Fontes - 08/08/2005Entendo agora o que outrora não compreendiaDistante de mim mesmo segui à derivaIncerto destacamento de atos e concessõesFiguras prosaicas de pobres e débeis atuaçõesSintonizo o meu ser naquilo que me recuso a crerMas não há mais como negarSegui um caminho perigoso cujo fim foi desastrosoE agora resta-me o marSem vento e vela, ancorado em problema e medoIncerto tempo do mais terrível e frio desalentoMe atirei de encontro à morte e morriNada mais me resta, nem mesmo a tiTão frio é o momento da constataçãoDoente mente de pura invençãoFantasiou-se em armadilha de incompreensãoAbandonou-se na ilha da desilusãoFantasiei-me em ti sem ao menos pensarQue era um erro disso tudo tanto esperarFalhei em mim o próprio intento de me libertarMas ao contrário, aprisionei-me mais neste mar Página 45 de 61
  46. 46. IMPURODaniel Paixão Fontes – 07/11/2005Todos os segundos deste amargo minutoMe violentam pela mera existênciaDesta complexa e insana falênciaDesta dor e deste lugar imundoO grito se agita na jaula que há em mimAbandono as correntes e prisõesDisseco meus instintos e consideraçõesQue tolo eu fui, penso enfimMeu antigo eu que um dia foi criança e viu seu mundo se despedaçarAfundou-se em gritos surdos para a tudo poder negarSangue e moscas cobrem a tudo que eu vislumbroNada mais do que eu tenho pode ser chamado de puroForte e fraco moram sob o mesmo teto da minha menteAtos e pensamentos nunca me deixaram contenteQueria rir da desgraça que eu compreendi que souMas infelicidade é somente o que me restouTento me levantar, mas não sou capazTento me erguer, mas não consigoResta-me a dor, mas já não ligoEla é vestígio da minha falta de paz Página 46 de 61
  47. 47. A DORDaniel Paixão Fontes – 07/11/2005Nada mais faz sentido em meu sono bandidoJamais esperei pensar no que eu devia falarMas não sou só eu que está aquiSozinho e sentado esperando o sol raiarJanelas se abrem nos céus para a vida mostrarNa terra portas se fecham para a morte espalharJá eu não sei mais o que pensar de tudo issoNão quero mais sonhar pra depois me machucarMais o que é enfim a dor que sinto tão vulgar?Nada mais do que anseio por cavalgarTomando as rédeas do meu quererPara enfim balbuciar que não quero me perderAssim sou eu quem me derrota nas lutas do meu coraçãoTraindo a mim mesmo com ânsias de um falso verãoA dor, ah, essa dor...É só a minha própria ilusão Página 47 de 61
  48. 48. PERDIDO DE MIM MESMODaniel Paixão Fontes – 07/11/2005Dias a mais, para mim tanto fazDias atrás perdi-me de mimDescontrolei-me assimSem volta e sem pazNão consigo lembrar de quem costumava serNão gosto de mim e cansei de tentar me entenderMeus ossos estão fracos com todo este esforçoMeus olhos se fecham sozinhos por puro desgostoEu não vou mais cantar esta cançãoQue de tanto cantar me deixou em afliçãoNão vou mais falar do que me importa sonharPor que eu nunca mais vou me reencontrarDoce cinismo de fábulas hostisVá embora de dentro de mimLoucuras santas de um perdedorUma gravura de quem afinal hoje sou Página 48 de 61
  49. 49. DROGA DE MUNDODaniel Paixão Fontes – 09/11/2005Que droga de mundo em que as pessoas não se dãoMalditos idiotas que se julgam uma naçãoPobres bastardos, nunca vão compreenderSua fatídica ignorância que lhes vão fazer morrerQue droga de mundo em que a paz não de tem mais vezPreconceito e intolerância, do orgulho à embriaguezJá vejo aqui do alto um rio de sangue os levarAos confins da vida humana todos eles vão chegarQue droga de mundo em que a justiça é uma prostitutaVestida de lasciva e assumida vagabundaJá estou cansado de toda essa palhaçadaQuero que tudo suma sem ninguém pra dar risadaQue droga de mundo aonde a arrogância putrefou a almaEnterrada na discórdia a vida sofre uma ciladaNinguém é quem quer ser e muito menos quem deviaEscravos da estupidez, bonecos sem alegriaQue droga de mundo em que os sonhos já se foramPalavras se perpetuam sem que nunca morramEu não quero mais ligar para o que me cercaQuero que se danem todas as pessoas que estão “certas”Que droga de mundo sem sentido ou razãoNão tenho mais vontade de lhe estender a mãoNão quero mais saber das suas malditas singularidadesQuero me esquecer desta sua imensa e maldita falsidade Página 49 de 61
  50. 50. INSANIDADE PERIÓDICADaniel Paixão Fontes – 09/11/2005Boa noite minha insanidadeNão diga agora que a culpa é da dor que sentiSatisfaça só mais esta vontadeE me mostre que eu mentiDas tolices que julguei conhecerDa arrogância que já pratiqueiNas memórias que estupreiDas sorrisos que nunca vou verErrei aonde todos erram e acertei aonde Deus permitiuO meu outono ressecou demais a minha almaMe deixou sem calma e quase me matouEsse espinho tão afiado que encravado aqui estáParece inflamar meu sofrimento destiladoAdeus insanidade, adeus... Página 50 de 61
  51. 51. PRECISODaniel Paixão Fontes – 09/11/2005Preciso de um pouco de atenção bem medidaPreciso de um tanto de alegria não reprimidaPreciso de muita energia para a vidaPreciso de uma folga bem compridaPreciso de trabalho temperado com sentidoPreciso ter certeza do que não estou partindoPreciso de mil sonhos para ver aonde eu chegoPreciso de coragem para assumir o que almejoPreciso de mim mesmo para ser o que eu queroPreciso de você para entender o que não esperoPreciso de amigos para ter com quem brindarPreciso de um motivo para poder festejarPreciso de amor para poder viverPreciso de pessoas para conseguir entenderPreciso de problemas para poder perseverarPreciso de vitórias para me encorajarPreciso precisar para prestar ao que me prestoPreciso pensar para saber o que é certoPreciso parar de me sentir tão indiscretoPreciso me conhecer para não ser tão indigesto Página 51 de 61
  52. 52. ABANDONODaniel Paixão Fontes – 07/11/2005Assusto a quem me conheceAfasto a quem se aproximaQuem sou eu que não se merece?Que sou eu... quem sou seu?Já me perdi nas andanças dos meus olhosJá me cansei de nada serJá insisti em não perseverarJá me larguei sem me levantarAdeus, adeus, adeus, adeus...Nunca mais vai me torturarCom essa boca que de tanto falarMe matou de rancor e assim morreu Página 52 de 61
  53. 53. RASGADODaniel Paixão Fontes – 13/12/2005De um delírio nasce um pecadoE do pecado me vem essa dorDa dor me vem a agoniaE da agonia me nasceu a solidãoEstou rasgado por dentro, como papel velhoEstou amassado e queimado dentro de mimEstou arrasado por não ter o que precisoCapacidade de ser quem eu não souJá não mais me interesso pelo que faloNunca quis dizer o que faleiNão vou mais mentir a mim mesmoCom fábulas que nunca viverei Página 53 de 61
  54. 54. CONFISSÃODaniel Paixão Fontes – 14/12/2005Eu não quero estar aonde estouE não quero falar sobre quem souNão quero mais ter que explicar essa ilusãoDe afirmar que há remédio para o meu coraçãoVá, deixa estar que eu vou melhorarNão é preciso uma vez mais de preocuparNão serei eu quem vai achar a verdadeira lucidezDa utopia incerta que flerta com a morbidez Página 54 de 61
  55. 55. POR QUE VOCÊ NÃO MORRE?Daniel Paixão Fontes – 05/01/2006Sério! Por que você não morre?Mistério! Por que você não escolhe?Fugir dessa dor de andar sem se moverDestinar-se à essa insana vontade de sofrerAbandonar a sua glória de por nada padecerAbandone a tentativa de lutarDesista dessa besteira de sonharDo que vale a luta se ninguém se importaSer um suicida que desiste e se enforcaPor que você não morre, calando o grito surdo da tua menteDesintegrando sua alma, acorrentando-se solenementeAos grilhões pesados das besteiras que pensouE foram desossadas por gente que já matouBasta um suspiro de malícia para tudo destruirUma só palavra para tudo enfim ruirQuero ver a hora do final em minhas mãosA morte dos meus impulsos de criação Página 55 de 61
  56. 56. PRA QUEDaniel Paixão Fontes – 05/01/2006Que falta de amor é esse que sintoEm tão fraca e inata vertigem e delírioQuem é o vulto distorcido que vejo pela janelaDe braços abertos prontos para me esmagar?Eu não quero mais pensarNão quero mais lembrar do que me faz sofrerEu não quero mais matarMeu coração que só vejo há se contorcerPra que me esforçar se sei que não vão gostar?Pra que trabalhar se sei que vou morrer?Pra que me preocupar se ninguém vai se importar?Pra que tanto lutar se eu já sei que vou perder?Eu já não sou quem costumava serEU nunca fui quem pensei que eraNada quero, só adormecerE nos sonhos acordar no meu entender Página 56 de 61
  57. 57. POUCODaniel Paixão Fontes – 05/01/2006Tão pouco tenho em mim mesmo para lhe oferecerSó dor e um deserto imenso para em mim me recolherSem nada para explicar a voz que ecoa em minha menteUm nada que me faz pensar e tentar ser diferenteBarulho e silêncio se misturam até se extinguirConfuso e distante eu procuro me incluirMas pouco de mim mesmo existe para se verTão pouco que nem consigo mais me aborrecerNão quero mais ver os céus sem que as nuvens eu possa tocarNão aguento mais eu mesmo sem me rejeitarOdeio quem eu sou e disso não posso gostarDas idéias que sinto e vou me livrarQuero muito deixar de sentir este mal estarO que pretendo é me abandonarMe entregar à mediocridade em tudo o que souAquele que eu eu era enfim se acabou Página 57 de 61
  58. 58. O BARDaniel Paixão Fontes – 05/01/2006Lá no alto do meus quase trintaHouve em mim um tranco, uma trincaQue me levou a encostar no balcãoDo bar da loucura e da ilusãoAo garçom eu pedi um favorSó uma dose do seu licorE o que ele me deu de beberMe levou enfim a entenderQue na verdade nada importouE que dentro dentro de mim se entornouTudo de bom que eu podia serTodos os dias que eu devia terUm gosto amargo na boca ficouO garçom então me pegouE na rua me pôs a andarPara onde... ninguém saberá Página 58 de 61
  59. 59. PRISÃO DAS LETRASDaniel Paixão Fontes – 05/01/2006Assim que o dia morrer eu irei para foraSairei dessas linhas e irei à desforraContra todos que me criaramE ao nascer me encarceraramSou um eco, um grito, uma dorSou de todos o maior terrorSou loucura, violência e fascínioSou o que trará o declínioSou a frustração da alma de alguémAprisionado nestas letras com desdémNinguém entende quem sou ou sereiE a sanidade que um dia eu violeiSou desespero, olhos vidrados e mente alucinadaSou um estado de cólera enjauladaQuase pronto a romper as correntes dessa prisãoAnsioso para saber o que minhas capacidades farão Página 59 de 61
  60. 60. NADADaniel Paixão Fontes – 05/01/2006Não tenho nada em que me apoiarSó tenho uma dor que não consigo suportarEstranho medo de mim mesmoEstou perdido em mim, rumando à esmoNão tenho nada para me dedicarNão tenho forças para continuarNão tenho sonhos para me aplicarE nem histórias para contarNão há motivos para eu estar assimNão existem flores para colher em meu jardimNão tenho mais nada para ao mundo oferecerSó minha tristeza que não quer desaparecerNão tenho vontade de tentar mudarNem esperança de que alguém vá me salvarNão há mais nada para enfim falarNem mesmo adeus quero eu grafar Página 60 de 61
  61. 61. PERIÓDICODaniel Paixão Fontes – 05/01/2006A fúria uma vez mais se amansouComo um animal que se mancouMas eu não sei até quando vai durarEsta onda de nada pra se preocuparEu que eu sei é que um dia ela acordaráE com seus estragos eu vou ter de arcarSe vai durar eu não sei responderSó sei que periodioco é o meu sofrerMas se o sofrer ocorre de tempos em temposO bem estar também me traz bons momentosTudo o que sofri, passouTudo o que gostei, acabouNada dura, bom ou ruimTudo volta do não ao simTodo este mundo está imenso na incertezaE nisso reside essa bizarra e estranha beleza Página 61 de 61

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