Projeto contos de-artimanha_(revisado28julho2014)kl_brã¤kling (1) (1)

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Projeto contos de-artimanha_(revisado28julho2014)kl_brã¤kling (1) (1)

  1. 1. ARTE E MANHA NA ESCRITA DE AUTORIA Um Projeto de Produção de Final de Contos de Esperteza PROGRAMA LER E ESCREVER CEFAI – SEE DE SP Julho/2014
  2. 2. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página1 ARTE E MANHA NA ESCRITA DE AUTORIA Um Projeto de Produção de Contos de Esperteza Elaboração: Formadoras do Programa “Ler e Escrever” Kátia Lomba Bräkling (Supervisora de Língua Portuguesa) Supervisão Pedagógica do Programa Ler e Escrever: Telma Weisz CEFAI SEE DE SP JULHO/2014
  3. 3. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página2 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO GÊNERO CONTO DE ARTIMANHA (OU DE ESPERTEZA).............................................................................. 5 DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO........................................................ 7 1ª Etapa: Apresentação do Projeto de Escrita em Questão: Produção de Autoria de Partes Desconhecidas de Contos de Artimanha ........................... 7 2ª Etapa: Leitura Compartilhada e Análise do Conto de Artimanha “A Velhinha Inteligente”.................................................................................................... 13 3ª Etapa: Planejar Coletivamente Diferentes Finais para o Conto de Artimanha “O cego que não era bobo”........................................................................... 21 4ª Etapa: Produção Coletiva de um das Possibilidades de Finais Criados nas Atividades da Etapa Anterior ........................................................................ 25 5ª Etapa: Leitura Compartilhada para Estudo de Texto Focalizando seus Recursos Discursivos e Linguísticos............................................................. 31 6ª Etapa: Produção de Autoria, em duplas, do Final do Texto “O Bicho Folharal”........................................................................................................ 36 7ª Etapa: Revisão do Texto Produzido pelas Duplas................................... 43 8ª Etapa: Produção Individual de Final Desconhecido de Conto de Artimanha ...................................................................................................................... 59 9ª Etapa: Revisão do Final Produzido Individualmente................................ 61 10ª Etapa: Organização da Coletânea, Preparação da Vernissage e Avaliação do Trabalho Realizado.................................................................................. 63 ANEXOS .......................................................................................... 66 Pedro Malasartes e o Lamaçal Colossal....................................................... 66
  4. 4. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página3 A Velhinha Inteligente................................................................................... 73 Sapo com Medo de Água (versão 1) ............................................................ 75 Sapo com Medo D´Água (versão 2).............................................................. 76 O Sapo e o Coelho ....................................................................................... 78 O Rei da Folhagem....................................................................................... 79 O Bicho Folharal ........................................................................................... 81 O Cego que não era Bobo........................................................................... 83 A Onça e o Bode .......................................................................................... 84 O Leão e o Rato ........................................................................................... 85 A Árvore que dava Dinheiro.......................................................................... 86 A Dona Raposa e os Peixes ......................................................................... 87 De como o Malasartes fez o Urubu falar....................................................... 89 REFERÊNCIAS PARA LEITURA.............................................................. 92
  5. 5. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página4 ARTE E MANHA NA ESCRITA DE AUTORIA UM PROJETO DE PRODUÇÃO DE CONTOS DE ESPERTEZA Caro Professor, O projeto aqui apresentado tem a intenção de oferecer a você uma referência a respeito de como organizar um trabalho de produção de textos de autoria, ainda que preveja apenas a elaboração do final de um conto de artimanha. Neste material serão focalizados – fundamentalmente - os aspectos textuais e discursivos de um texto, aqueles aspectos essenciais para que este texto possa organizar-se de modo coerente e coeso, seja em relação ao gênero no qual se organizará, seja em relação à progressão das ideias e ao encadeamento das mesmas ao longo do texto. Além disso, as orientações oferecidas para o desenvolvimento do trabalho prevê a organização das atividades considerando as operações essencias do processo de produção de textos: definição do contexto de produção, criação e planejamento do conteúdo temático, elaboração de um plano para o texto que será escrito (planificação), redação do texto (textualização), revisão processual e revisão final. É importante considerar que a elaboração de um material dessa natureza deve prever um trabalho exaustivo com todos os diferentes aspectos envolvidos na realização do trabalho: por um lado, para garantir que haja referências relativas a todas as possíveis necessidades de aprendizagem dos alunos, relacionadas aos mais diferentes conteúdos envolvidos no processo. Por outro, porque, uma vez tendo oferecido essa referência, espera-se que você, professor, selecione as atividades que se relacionem não apenas com as necessidades de seus alunos reais, mas também com suas possibilidades de aprendizagem. Em outras palavras, a oferta é ampla, mas isso não significa que todos os aspectos tratados devam ser objeto de ensino na sua sala de aula; ou que todas as atividades indicadas devam ser realizadas. Cabe a você analisar a importância de cada atividade no que se refere ao conteúdo tratado e ao quanto este conteúdo determina a qualidade de um texto. Depois disso, cabe também a você decidir o que é necessário e possível ser trabalhado junto à sua classe, considerado suas possibilidades no momento. Afinal, você é o professor e cabe a você a adequação de qualquer proposta de trabalho à sua classe e aos seus alunos, de modo a oferecer-lhes as melhores oportunidades possíveis de aprender.
  6. 6. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página5 APRESENTAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO DO GÊNERO CONTO DE ARTIMANHA (OU DE ESPERTEZA) Nas séries iniciais do Ensino Fundamental, as crianças, em geral, têm um bom repertório de contos, principalmente os chamados contos de fadas ou contos de encantamento ou, ainda, as fábulas. Já estão familiarizadas com esses gêneros e já fizeram muitas atividades de leitura e escrita dessas histórias, apropriando-se gradativamente da sua organização interna, assim como da linguagem que costuma caracterizá-las, da definição de tempo e lugar dessas narrativas, assim como do narrador típico das mesmas. No entanto, há um vasto campo ainda pouco explorado na escola que também faz parte das chamadas narrativas de tradição oral, como as facéias, os contos de exemplo, religiosos, etiológicos, acumulativos, de adivinhação, de artimanha e tantos outros. Dentre esse vasto e riquíssimo material de nossa cultura, esse projeto priorizará os chamados contos de artimanha: narrativas, geralmente curtas, nas quais os personagens – humanos ou animais – utilizam-se de ardis (armadilhas ou disfarces), truques, malandragens, gambiarras e espertezas para garantir sua sobrevivência ou mesmo a vitória contra forças maiores que a sua. Essas histórias fundamentam-se em uma moral1 ingênua que vigora num mundo de injustiça onde impera a crueldade e cada um luta por si, contexto esse que justifica o uso da esperteza da qual lançam mão os protagonistas desses contos. Neles, coelhos ou raposas proibidos de beber água no riacho se disfarçam com folhas, sapos ameaçados de morte fingem ter medo de água, rabos de porcos são enterrados na lama para enganar o dono da fazenda e até mesmo a morte pode ser vencida. Em tais contos – de artimanha; ou de manhas e artimanhas; ou de astúcia, ou ainda, de esperteza, como costumam ser denominados – a trama é sempre organizada em torno 1 A moral é um conjunto de princípios e normas gerais que deve ser respeitado por todos: não mentir, não roubar, não matar, valorizar a busca da justiça, da imparcialidade, da impessoalidade, da isenção e da neutralidade. Esses princípios regulam nossas ações e garantem a ordem social. A moral é inseparável da atividade prática, pois as relações humanas acontecem sempre em uma determinada comunidade social. Por isso, esses princípios podem variar muito de uma sociedade para outra. A ética, diferentemente, é a teoria ou a ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Segundo VASQUEZ (1998), ela é "um conjunto sistemático de conhecimentos racionais e objetivos a respeito do comportamento humano moral" (pp. 12-13).
  7. 7. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página6 de um personagem que utiliza a esperteza para obter o que deseja, ludibriando outro – ou outros – personagem ingênuo ou, pelo menos, não tão esperto como o protagonista. Dessa maneira, os ardis são sempre inesperados e engenhosos, nunca havendo uso de estratégias usuais e previsíveis. Estes protagonistas - que podem ser pessoas ou animais – acabam por representar a possibilidade de ludibriar certos valores da sociedade que os segrega ou exclui, valores estes sintetizados na figura de seu antagonista. Assim, podem ser personagens que sofrem pela pobreza, o que lhes acarreta ausência de dinheiro, de comida e bens materiais; podem sofrer por problemas que se realizam no interior da família (ou de um casal, como a traição) que desafiam astuciosamente os valores morais vigentes; podem, ainda, ser alvo do autoritarismo de representantes de classes sociais hierarquicamente superiores. Conforme afirma Lopes (1982)2 , tais contos “reproduzem a imagem de uma sociedade estratificada onde a artimanha de [caráter] individualista se afirma como arma de legítima defesa” (p. 126). Os contos de artimanha são comumente organizados no eixo temporal, quer dizer, as ações narradas são apresentadas em uma ordem e sequência de tempo claramente indicadas. O tempo da narrativa costuma ser indefinido, mas o local pode ser especificado em alguns textos, já que se referem à tradição oral e, dessa forma, a sua origem histórica pode remeter a uma região específica3 . As relações de causalidade marcam a progressão temática no que se refere à relação existente entre os motivos do protagonista, a estratégia que desenvolve para resolver o problema colocado a ele e às consequências/resultados do plano executado. Nestes contos não há a presença do elemento mágico típico dos contos de fadas e de encantamento: a astúcia do protagonista o substitui. Tampouco há príncipes, reis e princesas: sendo assim, quando acontece a resolução do problema por meio do casamento, este acontece com a filha do patrão, por exemplo. 2 LOPES, Ana Cristina Macário. Contos de Manhas e artimanhas na Literatura Tradicional Portuguesa. Tese defendida na Universidade de Paris X – Nanterre, em novembro de 1982, sob a orientação do Professor Gerárd Genot. 3 O conto “A Velhinha Inteligente”, por exemplo, apresentado a seguir, refere-se à cidade de Carcassonne, localizada no sul da França (PAMPLONA, Rosana. Novas Histórias Antigas. São Paulo: Brinque-book.).
  8. 8. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página7 Do ponto de vista especificamente textual, a artimanha do protagonista costuma ser apresentada ao leitor – e comumente também aos seus antagonistas - no momento em que está sendo desenvolvida na história, e não de maneira antecipada. Quer dizer: em tais textos, não é usual que haja antecipação do plano do personagem esperto ao leitor; ao contrário, este toma conhecimento do plano na medida em que está sendo posto em ação, o que coloca suspense no texto, quase sempre surpreendendo, ao final, tanto personagens quanto leitores. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO As etapas apresentadas a seguir organizam o trabalho que está sendo proposto. 1ª Etapa: Apresentação do Projeto de Escrita em Questão: Produção de Autoria de Partes Desconhecidas de Contos de Artimanha Objetivo:  Conhecer um conto de artimanha e familiarizar-se com algumas das características desse tipo de conto.  Conhecer o projeto e o contexto da produção dos textos de autoria que produzirão.  Participar de um planejamento coletivo de uma produção de autoria. Planejamento:  Quando realizar as atividades?  Como organizar os alunos? A atividade é coletiva e os alunos devem acompanhar a leitura do texto feita pela professora através de uma cópia em papel ou pelo datashow.  Quais materiais são necessários? Cópias do conto escolhido para leitura e, sendo possível, o livro Histórias à Brasileira. Encaminhamentos: Leitura de um conto de artimanha pela professora Avise aos alunos que você lerá um conto de artimanha, chamado “Pedro Malasartes e o Lamaçal Colossal”4 , do livro “Histórias à Brasileira”. Antes da leitura, pergunte à 4 Em anexo.
  9. 9. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página8 classe: Vocês já ouviram falar em contos de artimanha? Que tipo de conto pode ser esse? Será que a palavra artimanha pode ajudar a entender do que se trata? Discuta as respostas, procurando referenciar-se sobretudo, na palavra artimanha, discutindo seu significado, comparando com sinônimos, por exemplo. Após a leitura proponha uma discussão sobre o texto lido, fazendo perguntas como: “Vocês já conheciam histórias parecidas com essa? Já tinham ouvido falar do Pedro Malasartes? Por que será que esse conto pode ser chamado de conto de artimanha? Quais as diferenças entre esse conto e, por exemplo, o conto “Branca de Neve e os Sete Anões?” Registre, em um cartaz, as primeiras conclusões a que chegaram sobre os contos de artimanha. Você poderá organizar um quadro como nomeado “O que é que esse conto tem?”, apresentado a seguir. O QUE É QUE ESSE CONTO TEM?5 Branca de Neve e os Sete Anões Pedro Malasartes Tem castelo e floresta. Tem príncipe, princesa, rei e rainha. Tem uma bruxa que faz maldades para a Branca. Tem os anões que cuidam da Branca. Tem o príncipe que salva a Branca. A Branca de Neve, a heroína da história, sofreu muito durante a história, mas acabou casando-se com o príncipe. (...) Acontece em uma fazenda. Tem patrão muito sovina, que explora o empregado. Tem um empregado – Pedro Malasartes - esperto, que consegue enganar o patrão explorador. Não tem bruxa e nem fada. (...) 5 No quadro são apresentadas possibilidades de respostas dadas pelos alunos. Não foram esgotadas as possibilidades: o quadro deve ser preenchido com os aspectos indicados pelos alunos. Ao professor cabe ter clareza dos aspectos que diferenciam um conto do outro, de forma a tematizá-los junto aos alunos, criando um espaço de elaboração do conceito do gênero focalizado na atividade.
  10. 10. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página9Leitura de um segundo conto de artimanha pela professora Leia o segundo conto para os alunos – “A Velhinha Inteligente”, apresentado nos anexos. Converse com os alunos sobre as diferenças e semelhanças entre os contos comparados na atividade anterior, realizando perguntas como: “Com qual dos contos que estudamos este que eu acabei de ler se parece mais: com Branca de Neve ou com Pedro Malasartes? Por que? O que é que eles têm em comum? E de diferente, o que têm? Vocês diriam que este conto é de artimanha, ou não? Por quê?” AMPLIANDO INFORMAÇÕES Pedro Malasartes De acordo com o pesquisador da cultura nacional Luís Câmara Cascudo, "Pedro Malasartes [ou Malazartes] é figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, como exemplo de burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes e de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos." A menção mais antiga feita ao personagem é na cantiga 1132 do Cancioneiro da Vaticana, datado do século XIII e XIV: "chegou Payo de Maas Artes com seu cerame de chartes… semelha-me busuardo viindo en ceramen pardo… log'ouve manto e tabardo". Há informações de que até mesmo o grande romancista, dramaturgo e poeta espanhol Miguel de Cervantes Saavedra, escreveu sobre este ícone em sua comédia PEDRO DE URDEMALAS, que compõe o livro Ocho comedias y ocho entremeses nuevos (1615). Outras versões deste personagem surgem em várias regiões da Europa, como Pedro Urdemales em Castela, Till Eulenspiegel na Alemanha e Pedro de Urdes Lamas na Andaluzia. Duas óperas brasileiras tem o personagem por protagonista: Malazarte de Oscar Lorenzo Fernández e Graça Aranha, e Pedro Malazarte, de Mozart Camargo Guarnieri e Mário de Andrade. Na literatura, vários autores usaram o personagem e nos cinemas o ele tomou corpo com As Aventuras de Pedro Malasartes, de 1960, com Mazzaropi no papel principal.” Fontes: http://www.ebc.com.br; Cancioneiro da Vaticana, Biblioteca Digital do Alentejo, p. 281; http://www.jangadabrasil.com.br.
  11. 11. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página10 Apresentação do projeto e dos contos que serão lidos Conte aos alunos que eles produzirão finais de contos de artimanha. Explique que, primeiro, farão uma produção coletiva para, depois, escreverem em duplas e individualmente. Diga a eles que terão a oportunidade de conhecer muitos contos de artimanha e estudá-los. Apresente a eles os títulos dos contos que farão parte da sequência: prepare um cartaz com esses títulos, com as imagens das capas dos livros de onde foram tirados e, se possível, com algumas ilustrações. Exponha em um lugar ao qual todos tenham acesso. Apresentação do contexto de produção do trabalho Explique aos alunos que o trabalho que realizarão será o seguinte: produção de finais de contos de artimanha, que serão organizados em um livro para a realização de sessões de leitura com alunos das séries iniciais. Ao apresentar o contexto de produção e mencionar o portador, é importante que as características desse portador sejam definidas também. Isso requer um estudo de outros portadores, para a constituição de referências. Sendo assim, procure levar exemplares que mostrem de que maneira um livro pode ser organizado, planejado, definido em função daquilo que vai conter. Considerando as condições colocadas e as atividades previstas nesta sequência didática, o livro terá um conto com final coletivo produzido pela classe; um conto com finais elaborados por duplas (em uma classe de 30, serão 15 finais, portanto); um conto IMPORTANTE SABER Estudar um portador não é um exercício de fazer uma lista das suas características, isoladamente; ao contrário, trata-se de realizar um estudo no qual analisamos todas as suas características e as articulamos entre si e com o tema do texto. Um bom projeto editorial não prescinde dessas articulações. Assim, as cores selecionadas para compor a obra, o tipo de letra, o tipo de ilustração, o tamanho e o formato de um livro, a localização das ilustrações na página e em relação ao texto, tudo isso constitui essa obra, como um todo.
  12. 12. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página11 com finais escritos individualmente (serão, portanto, na mesma classe, 30 finais para um único conto). Sendo assim, o livro precisará organizar-se de modo a: a) apresentar os três contos inteiros, com os finais originais; b) apresentar os diferentes finais elaborados nas diferentes etapas do trabalho. Isso remete à necessidade de organizar esse portador de modo a apresentar tudo isso ao leitor. Há diferentes modos de isso ser realizado. Por exemplo, à maneira da coleção “Enrola e Desenrola”, que apresenta possibilidades de o leitor seguir lendo o final que quiser. Nessa perspectiva, o livro a ser produzido poderá organizar-se da seguinte maneira: a) apresentar o primeiro conto, com o final coletivo da classe e, depois, o final original (ou o contrário também); b) apresentar o segundo conto, sem apresentar o final original e, na mesma página, indicar: “se você quer ler o final elaborado por Joana e Clara, vá para a página 05; se quiser ler o final escrito por Laura e Ana Maria, vá para a página 06”; e assim por diante; c) apresentar o final original depois das versões das duplas; d) apresentar o terceiro conto, sem apresentar o final original e proceder da mesma forma que no segundo; e) apresentar o final original do terceiro conto. Levante junto à classe algumas possibilidades de títulos para o livro. Nesse caso, poderia ser “Novos finais para contos antigos: as versões do 5º ano”; “Finais novos para antigas histórias"; “Não gostou? Então inventa!”, ou similares. Procure colaborar com os alunos na indicação de títulos, pois precisam ter referências para poder pensar a respeito e sugerir. Combine com os alunos a organização interna do livro e defina quem produzirá cada parte: capa, contracapa, apresentação, índice, ilustrações. Estude com os alunos tipos de ilustrações de outros livros para que os alunos se inspirem quando forem produzir as suas.
  13. 13. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página12 Combine se as ilustrações ocuparão página inteira ou não; se poderá sair das margens ou não; se serão colocadas antes do conto ou no final; entre outros aspectos. Defina se haverá uma paleta de cores definida, ou se será de coloração livre. Definir uma paleta faz sentido se as cores articularem-se tematicamente com o texto. O livro “Nuno descobre o Brasil”, de José Roberto Torero, por exemplo, é todo ele elaborado em um papel de tonalidade amarela, com ilustrações e texto verde e preto, apenas. Ao elaborarmos um livro de contos de detetive, é possível eleger cores relacionadas ao tema, como vermelho, preto e branco. Se forem histórias de mistério, e com vampiros, é possível escolher preto e violeta como cores predominantes. Se for um livro sobre a relação entre água e vida na terra, por exemplo, é possível que diferentes tonalidades de azul sejam o que predomina. As possibilidades são muitas; o importante é que haja uma intencionalidade na escolha, e que ela se relacione com essas intenções. Defina o formato do livro: retangular, quadrado, grande, médio, pequeno, comprido; se a capa será dura ou não; se será grampeado, ou encadernado com espirais; ou alinhavado, ou outro recurso qualquer que faça sentido para a proposta temática. Defina recursos que serão utilizados. Por exemplo: os finais podem ser produzidos em papéis avulsos e colocados dentro de envelopes colados, uma a um nas páginas. Nestas, a ilustração pode abranger a página toda e os envelopes ficarem “camuflados” na ilustração, compondo-a. É, as possibilidades são mesmo muitas, é só a gente começar a imaginar...! Depois dessa conversa e desse estudo, organize um quadro contendo as decisões tomadas conjuntamente, ainda que essas possam ser provisórias. Em seguida, organize outro quadro com um cronograma de trabalho, para que a classe possa organizar-se melhor no tempo. Deixe ambos os quadros – estes e os outros já mencionados – disponíveis para leitura da classe e para controle das atividades realizadas e em andamento.
  14. 14. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página13 2ª Etapa: Leitura Compartilhada e Análise do Conto de Artimanha “A Velhinha Inteligente” Objetivo  Ampliar – e aprofundar - conhecimentos sobre a linguagem e os recursos discursivos presentes nos textos apresentados para leitura. Planejamento  Quando realizar as atividades? Após a leitura pelo professor de um dos contos sugeridos.  Como organizar os alunos? A atividade é coletiva e os alunos devem ter o texto a ser lido em mãos.  Quais materiais são necessários? Cópias do conto escolhido para leitura (conto sugerido: “A Velhinha Inteligente”, em anexo). Encaminhamentos Estudo do conto e preparação da atividade Antes da leitura do conto com os alunos, analise o texto: a) selecionando trechos que se relacionem com as características fundamentais do gênero. No caso de um conto de artimanha, identifique trechos nos quais se esclareça: quem é o protagonista – personagem esperto que ludibria outro; quem é o ludibriado; quais os motivos que levaram o protagonista a enganar o antagonista; qual a estratégia/plano que o protagonista executa para conseguir o que pretendia. b) identificando recursos discursivos e linguísticos relevantes para que seja possível compreender da melhor maneira o texto lido. Trata-se, aqui, de selecionar recursos do texto, em si, que permitem compreender os aspectos apontados no item anterior. Elabore questões que sejam adequadas para a identificação dos aspectos indicados no primeiro encaminhamento, sublinhando, no seu texto de apoio, os trechos nos quais haja pistas a respeito dos aspectos focalizados nas questões.
  15. 15. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página14 Estudo do conto junto à classe. Retome o conto lido na etapa anterior e faça uma nova leitura com a classe, com o objetivo de que todos recuperem a história. Como os alunos já conhecem o conto, pode não haver qualquer problema de compreensão mais gera. Comece, então, o estudo do texto a partir de questões orientadoras. A intenção, nesse momento, é aprofundar a compreensão dos alunos e, ao mesmo tempo, estudar os recursos discursivos e linguísticos nele apresentados. Para o estudo do conto “A Velhinha Inteligente”, sugerimos as seguintes questões: a) Essa é uma história criada por um autor ou que vem sendo contada de boca em boca, ao longo do tempo? Como é possível saber isso? Onde encontramos pistas no texto a esse respeito? Comentários: Na discussão com os alunos, oriente para que procurem no texto o trecho que contém pistas sobre a resposta. Nesse caso, o primeiro parágrafo já indica que a história é antiga, conhecida de todos, e que vem se modificando ao longo do tempo. É importante remeter o aluno à fonte – caso eles não recorram a ela espontaneamente – para problematizar dois aspectos: o primeiro refere-se à presença da autoria que, nesse caso, relaciona-se com a reescrita, a elaboração PARA NÃO ESQUECER Quando se fala em estudar um texto por meio de questões, é preciso ter clareza de que as questões são apenas orientadoras da discussão. Elas não devem cumprir o clássico ritual pergunta-resposta, mas devem desencadear uma investigação de pistas apresentadas no texto que permitem compreender o aspecto focalizado. É preciso não perder de vista que o pressuposto do trabalho é que aprende-se por meio da reflexão e ação sobre o objeto, a partir da mediação do outro, nesse caso, o professor, mas também outros alunos. A metodologia de trabalho, portanto, é reflexiva.
  16. 16. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página15 de uma nova versão da história pelo escritor indicado; o segundo aspecto refere-se ao título da obra – Novas Histórias Antigas – que ratifica a ideia de que são histórias que já existem há muito tempo e que estão sendo recontadas pela autora. b) Em qual trecho inicial o leitor já tem uma pista de que pode se tratar de um conto de artimanha? Comentários: Pretende-se que os alunos recuperem uma das características fundamentais do conto de artimanha, que é a presença de um protagonista esperto, engenhoso. Logo no primeiro parágrafo há uma pista a respeito, quando se diz que “a cidade foi salva graças à esperteza de uma mulher”. c) É possível saber no início do conto qual era o plano da madame Carcas para salvar a cidade dos guerreiros inimigos? Comentários: Esta pergunta remete à uma estratégia discursiva e textual dos contos de artimanha que é a de não apresentar previamente o “plano” do protagonista para o leitor e demais personagens da história. Nestes contos, o estratagema do protagonista vai sendo conhecido à medida em que vai sendo desenvolvido. Isto provoca um suspense durante a narrativa e um final inusitado, não esperado, que surpreende a todos, resultado do ardil, da esperteza e da inteligência do protagonista. Nesse sentido, espera-se que os alunos percebam que – no texto - o plano não é anunciado e depois executado; ao contrário, ele só vai sendo conhecido quando posto em prática, aos poucos. A madame Carcas não conta à população da cidade o que vai fazer. Apenas vai dando ordens a todos, para providenciarem isso e aquilo. Só ao final é que se pode ter uma ideia de tudo o que ela engendrou para conseguir vencer o inimigo. Para responder a esta questão, os alunos precisarão ir identificando o modo pelo qual ficam sabendo – ao ler o texto – do plano da senhora Carcas. Isso remete à localização de informações em diferentes trechos do texto, e à articulação de todos eles para a totalização do plano, em si. Os diferentes trechos seriam relativos aos pedidos que a madame vai fazendo à população, os quais são fundamentados no conhecimento que ela tem dos moradores da cidade – já que ela é uma velhinha,
  17. 17. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página16 ou seja, antiga moradora e, dessa forma, conhecedora da população – e, além disso, no seu intento: enganar os inimigos, conhecendo também seu ponto fraco. Para responder a questão é preciso, antes de qualquer coisa, identificar o plano, o que remete à articulação das informações dos trechos e elaboração da ideia totalizadora do plano. Dito em outras palavras, só se compreende qual é o plano no final do texto, e não antes, depois de todas as etapas executadas. Sintetizando: o plano da Madame Carcas era induzir o inimigo a ir embora, fazendo-o acreditar que a cidade tinha condições de resistir muito tempo, mais do que eles, pois tinham alimentação suficiente para continuar resistindo ao cerco. Como ela faz isso? Mostrando aos soldados que tinham muitas provisões, o que é conseguido com a “fuga” da vaca. Na verdade, Madame Carcas antecipa a reação dos soldados, que estavam morrendo de fome: se a cidade deixasse “escapar” a vaca, bem alimentada, certamente os soldados a matariam para comer. Ao fazerem isso, veriam como estava bem alimentada. Concluiriam que a população tinha muitas provisões e, dessa forma, poderiam resistir ao cerco por muito mais tempo que eles. d) Por que todos acham um absurdo os pedidos que a Madame Carcas vai fazendo durante a história? Comentários: Para responder a essa questão os alunos precisarão analisar a reação dos moradores dentro da situação em que se encontravam: sitiados e com fome, por causa da escassez de alimentos. Os pedidos da Madame Carcas estavam levando a população a abrir mão dos últimos alimentos que tinham à disposição, o que – aparentemente - a colocava em desvantagem em relação ao inimigo. Nessa questão é importante que sejam analisados cada pedido feito e de que modo se relacionam com o plano urdido pela protagonista. Além disso, é preciso levar em conta quem era ela: uma antiga moradora que, dessa forma, conhecia muito bem todo mundo. Esse fato, por exemplo, possibilitou que ela inferisse que o avarento da cidade tivesse escondido uma vaca na sua casa. É importante articular a discussão dessa questão com o estudo feito na questão anterior. e) Por que o plano de Madame Carcas dá certo?
  18. 18. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página17 Comentários: Articule essa discussão com a das duas questões anteriores. Focalize que o plano dá certo por vários motivos: a) a velha senhora conhece as condições em que o inimigo está (com fome, também, e sem provisões); b) ela sabe que a saída é fazer com que os soldados desistam do cerco, pois a cidade não resistiria por muito tempo; c) Madame Carcas antecipa uma razão que poderia levar os soldados à desistência: imaginar que a cidade está mais forte; d) a velha senhora conhece muito bem a população, e sabe, inclusive que há um avarento que, provavelmente, estaria escondendo uma vaca na sua casa; e) Madame Carcas consegue antecipar a reação dos soldados e a conclusão a que chegaria o chefe deles. f) Algumas palavras e expressões usadas no texto indicam que ela tinha muita certeza que seu plano daria certo. Quais são elas? Comentários: Nesta questão pretende-se que os alunos estejam atentos para os recursos linguísticos empregados no texto, as palavras selecionadas para indicar a certeza da senhora. Isso é fundamental no texto porque ratifica uma característica da protagonista: ser inteligente e saber muito bem o que estava fazendo. g) De que forma o plano de Madame Carcas é revelado no texto? Comentários: A intenção, com essa pergunta, é deslizar da discussão do conteúdo semântico, em si, para a estratégia textual. Ou seja, é focalizar que o plano não foi apresentado para o leitor primeiro para, depois, fosse mostrado de que maneira foi desenvolvido e executado na cidade, junto à população. Nesse momento, é possível que você apresente para os alunos uma alternativa de redação, caso a estratégia textual não seja observável para eles.
  19. 19. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página18 A alternativa poderia ser a seguinte: pegue o conto lido e, depois do 4º parágrafo, que termina com “não faria mal escutá-la”, introduzam o seguinte trecho: “A velha senhora, então, revelou à população o que pretendia fazer:  Precisamos enganar os soldados fazendo com que eles pensem que podemos resistir mais do que eles. Vamos fazer com que pensem que temos provisões de sobra e que eles não aguentarão tanto tempo quanto nós. Meu plano, então, é o seguinte: pegamos uma vaca, damos de comer a ela com os alimentos que nos restam e deixamos que ela “escape” da cidade. Eles, famintos como estão, certamente vão tentar comer a vaca... Então, primeiro, tragam-me uma vaca – pediu ela.” Leia o texto com essa nova redação e, se possível, permitam que os alunos vejam o texto enquanto é lido (para isso, prepare-o antes com o recurso que você tiver disponível na escola). Leia um ou dois parágrafos seguintes e perguntem a eles que diferença faz escrever o texto dessa forma ou como no original. A ideia é que possam perceber que: a) contar antes tira o suspense da história e, portanto, a surpresa final; b) contar o plano antes não é tão interessante para o leitor quando se ele ficar sabendo só quando ele for executado; c) não seria possível conseguir tanta indignação dos moradores se eles já soubessem do plano, o que também contribui para a quebra do suspense e não prenderia tanto a atenção do leitor. PARA NÃO ESQUECER Estas perguntas são para você professor. Não é para fazê-las por escrito aos alunos e estes responderem. Dê espaço para que os alunos exponham suas observações e reconheçam quais recursos de linguagem foram utilizados pelo autor para escrever o texto. É importante evidenciar com os alunos as escolhas realizadas pelo autor para explicitar o plano de esperteza da personagem do conto, a forma de contar, o estilo do autor e outros recursos discursivos e textuais.
  20. 20. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página19 Comparação entre contos: continuando a investigação Depois desse estudo, retome o quadro “O que é que esse conto tem?” e acrescente a ele mais uma coluna. Será uma coluna destinada à caracterização do conto “A Velhinha Inteligente” e à realização da comparação entre as características de todos. Sendo assim, solicite aos alunos que digam tudo o que o conto tem para que possam completar a coluna. O QUE É QUE ESSE CONTO TEM? Branca de Neve Pedro Malasartes A Velhinha Inteligente Tem castelo e floresta. Tem príncipe, princesa, rei e rainha. Tem uma bruxa que faz maldades para a Branca. Tem os anões que cuidam da Branca. Tem um caçador que é mandado pela bruxa para matar a Branca, mas não mata. Tem um príncipe que salva a Branca. A Branca de Neve, a heroína da história, sofreu muito durante a história, mas acabou casando-se com o príncipe. (...) Acontece em uma fazenda. Tem patrão muito sovina e que explora o empregado. Tem um empregado – Pedro Malasartes - esperto, que resolve se vingar das maldades que o patrão faz a ele. Malasartes elabora um plano para enganar o patrão. Malasartes, com esperteza, consegue sair ganhando. Não tem bruxa e nem fada. O leitor só fica sabendo do plano do protagonista quando é executado. (...) Acontece em uma cidade da França. Tem uma cidade sitiada por soldados, que querem invadi-la. Tem um governador que quer se render. Tem uma velhinha inteligente que sabe como vencer os soldados. A velhinha é inteligente e esperta. As pessoas, no começo, parece não acreditarem nela. A velhinha consegue enganar os soldados e libertar a cidade. Não tem bruxa, nem fada, nem magia. O leitor só fica sabendo do plano do protagonista quando é executado. (...) Depois de completada a coluna, perguntem aos alunos com qual dos dois contos anteriores o da velhinha se parece mais: com o da Branca de Neve ou com o do Pedro Malasartes. Pergunte porque e espere as justificativas. Nesse processo, use o quadro e as características levantadas pelos alunos. Pergunte, a seguir aos alunos: então, qual dos dois contos são contos de artimanha?
  21. 21. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página20 Leitura de um terceiro conto: “O Coelho e o Sapo” Leia para a classe o conto “O Coelho e o Sapo”. Pergunte à classe se esse seria um conto de esperteza e por que. Espere que justifiquem. Ofereça o quadro “O que é que esse conto tem?” como referência. Depois disso, peça aos alunos para que, em trios, completem o enunciado a seguir, com base no quadro “O que é que esse conto tem?” e com base na discussão que acabou de ser realizada: Em seguida, peça para que cada trio apresente suas conclusões para a classe e vá registrando na lousa o que os alunos vão indicando. Registre apenas as características que não se repetirem. Comentário: Espera-se que os alunos completem o quadro com as seguintes informações: Todo conto de artimanha tem: a) um personagem esperto, que é o protagonista; b) um personagem que é o antagonista, o vilão, e que, de alguma forma, é maldoso com o protagonista; Todo conto de artimanha tem .............................................................. ............................................................................................................... ............................................................................................................... ............................................................................................................... ........................................................................................................... Um conto de artimanha nunca tem ..................................................... .............................................................................................................. ..............................................................................................................
  22. 22. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página21 c) um personagem esperto que “se vinga” do vilão, por meio de um plano engenhoso, bem bolado; d) um jeito de fazer com que o leitor conheça o plano à medida em que vai sendo realizado, e não antes. Um conto de artimanha nunca tem: a) fadas, bruxas e magia; b) princesas, príncipes, reis e rainhas. Depois, da discussão, peça que cada trio complete o seu quadro, se for necessário. Peça, ainda, que cada um dos alunos do trio registre em seu caderno as conclusões da classe. 3ª Etapa: Planejar Coletivamente Diferentes Finais para o Conto de Artimanha “O cego que não era bobo”. Objetivos  Conhecer um novo conto de artimanha “O cego que não era bobo”. IMPORTANTE SABER Estes últimos exercícios foram propostos para que os alunos possam organizar as suas ideias sobre as características do gênero conto de artimanha. Partimos do princípio de que conceitos são constituídos por meio de processos de comparação por estabelecimento de semelhanças e diferenças. Nesse sentido, um movimento indutivo é sempre bem-vindo, pois orienta o aluno para o que é focal no estudo e, além disso, para a generalização das características identificadas em cada momento que nesse caso, referem-se ao estudo de cada um dos contos. Para finalizar, é preciso considerar, ainda, que o registro organiza o estudo realizado e permite a sua retomada em momentos posteriores.
  23. 23. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página22  Participar de um planejamento coletivo da produção de autoria de um final de um conto.  Levantar diferentes sugestões para finalizar um conto de artimanha. Planejamento Quando realizar as atividades? Após a leitura e discussão da parte inicial do conto de artimanha “O cego que não era bobo”. Como organizar os alunos? A atividade é coletiva e as diferentes propostas para finalizar o conto devem estar acessível à todos os alunos; Quais materiais são necessários? Lousa e giz. Encaminhamentos Leia para os alunos o conto “O cego que não era bobo” (em anexo) até o terceiro parágrafo (“...para enganá-lo”) e proponha uma conversa com os alunos a partir de algumas questões que resgatem os fatos ocorridos até esse momento. Recupere junto aos alunos: vocês acham que esse conto é um conto de esperteza? Por que? Comentário: Nesse momento, recupere o registro feito anteriormente sobre o que tem e o que não tem um conto de artimanha e confira com os alunos, item a item, considerando que o conto está inacabado. Recuperar essas características vai contribuir para que o planejamento do conteúdo temático seja mais direcionado, focalizado e organizado. Proponha aos alunos: “Vamos levantar algumas sugestões para terminarmos esse conto. Antes disso, vamos recuperar algumas ideias. Quem é o protagonista esperto? Quem é o vilão? Qual a intenção do protagonista? Que plano seria possível para que o protagonista conseguisse o que quer?”. Registre na lousa as respostas, pois elas serão orientadoras do planejamento do conteúdo do final do texto. Depois disso, proponha aos alunos que deem suas sugestões de final. Registre-as na lousa, aproveitando para discutir se a sugestão dada é interessante ou não; se é engenhosa como deve ser em um conto de artimanha; se dá continuidade
  24. 24. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página23 adequada ao texto ou não; se possibilita que o cego consiga seu intento; se garante que o antagonista seja devidamente enganado; se há coerência entre o final dado e o contexto apresentado no início do texto. Registre na lousa todas as sugestões pensadas para o final do conto (ou elabore um cartaz, faça um PPT, quer dizer: utilize o recurso que tiver disponível na escola). Esse registro deve ser recuperado quando for acontecer a planificação do texto e a textualização. Comentário: Algumas sugestões de perguntas orientadoras do processo de criação de conteúdo do texto: a) Você concorda com o cego que o ladrão só poderia ser o vizinho? Por que? Quais são as pistas do texto que podem sustentar essa ideia? b) Qual era a intenção do cego? Prender/pegar o ladrão, recuperar o seu dinheiro ou ambas? (Considerar que há uma diferença entre as duas intenções e que essa diferença pode levar a planos diferentes.) c) Diante disso, qual poderia ser o plano do cego? Cuide para que as articulações entre todas as nuances da proposta de plano sejam coerentes com o trecho anterior e não desconsiderem que: a) o cego deve conseguir o seu intento, explicitado no texto; b) o plano deve mesmo prever uma artimanha esperta e inteligente da parte do cego, e não uma situação usual, que qualquer um planejaria (como, por exemplo, ligar para a polícia e dar queixa). Não esqueça de que primeiro é preciso levantar os aspectos que devem ser considerados para elaboração do final. Só depois disso é que se deve partir para a criação de diferentes finais. Registre na lousa os diferentes finais. Como se trata de uma produção coletiva, então é preciso selecionar uma das possibilidades levantadas pela classe, a qual será textualizada posteriormente. O registro pode ser realizado de várias maneiras: de modo esquemático ou não. O importante é se ter clareza de que não se trata, nesse momento, de textualizar, quer
  25. 25. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página24 dizer, de escrever como se já se estivesse elaborando o texto mesmo. Trata-se apenas de uma atividade na qual o registro vai funcionar como recurso mnemônico para ser retomado nas etapas posteriores: a de planificação e a de textualização. Algumas possibilidades de final: Possibilidade 1: Vizinho é desonesto, mas sem muita inteligência. Jeito de pegá-lo em uma armadilha: pensar que algo de ruim vai acontecer com ele por causa do dinheiro roubado e que a única maneira de resolver é devolvendo o dinheiro. Ele precisa acreditar que não será pego, senão, não devolve. Plano: Cego conta ao vizinho o que, para proteger o seu dinheiro de ladrões, deu um banho nele com uma poção de uma velha benzedeira e o enterrou no quintal. Diz que se uma pessoa tocar o dinheiro, em 3 dias começa a ficar vermelho no rosto; no 7º dia aparece uma coceira tão grande, que vai arrancar a pele de tanto coçar. No 10º dia, diz que a pessoa enlouquece com a coceira e precisa ir para o manicômio. Diz que o único jeito de quebrar o efeito da poção é recolocando o dinheiro onde estava, e cobrindo-o com as folhas do carvalho por três dias, que as folhas, junto com a terra tratada com outra poção, funcionam como uma espécie de antídoto, até para o corpo. Possibilidade 2: Vizinho é desonesto, mas sem muita inteligência. Jeito de pegá-lo em uma armadilha: pensar que ele ficará sem o dinheiro por algum motivo, e que recolocá-lo debaixo do carvalho é a única maneira de recuperá-lo Plano do Cego: O começo é o mesmo. Mas a poção tem efeito diferente: o dinheiro é que se desmancha em 7 dias. Para salvar o dinheiro só haveria uma maneira: enterrá- lo novamente, no mesmo lugar, cobrindo-o com as folhas do carvalho por três dias para que o efeito da poção passe. Possibilidade 3:
  26. 26. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página25 Vizinho é desonesto, mas sem muita inteligência, e muito ambicioso. Jeito de pegá-lo em uma armadilha: pensar que pode lucrar mais. Plano do Cego: diz ao vizinho que teve uma infelicidade, que havia guardado o dinheiro enterrado no quintal, mas que fazia tanto tempo que não valia mais nada. Diz que conseguiu encontrar um negociante que vai comprar as notas antigas e ainda vai pagar mais por elas. Diz que vai levar as notas no dia seguinte pela manhã. Mas que não vai deixar de enterrar o dinheiro no quintal, pois acha um lugar muito seguro. Defina com a classe qual será o final do texto coletivo, a ser elaborado na próxima etapa. 4ª Etapa: Produção Coletiva de um das Possibilidades de Finais Criados nas Atividades da Etapa Anterior Objetivos  Planificar o texto a ser escrito, considerando os estudos realizados nas etapas anteriores e a definição de possibilidade de final.  Redigir o final do texto, levando em conta todas as decisões tomadas nas etapas anteriores do trabalho: a definição do contexto de produção – incluindo-se aqui a caracterização do gênero; planejamento do conteúdo temático.  Vivenciar, procedimentos de escrita por meio da modelização do professor, para quem a classe ditará o texto: o retomar o contexto de produção definido e a planificação realizada antes e durante a escrita do texto, orientando-o; o antecipar o que será escrito, a partir da planificação, e organizar o texto em voz alta; o reler o que foi escrito para definir o que será escrito e qual a conexão a ser feita com o trecho seguinte. Planejamento Quando realizar as atividades? Após o planejamento de diferentes finais para o conto “O cego que não era bobo”. Como organizar os alunos? A atividade é coletiva e os diferentes planejamentos do texto devem estar acessíveis para todo o grupo.
  27. 27. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página26 Quais materiais são necessários? Quadro com as características do conto de artimanha; registro do contexto de produção definido; registro da possibilidade de final escolhida pela classe; registro da planificação do texto. Encaminhamentos Planificação do texto que será elaborado. Retome, com a classe, o conteúdo temático definido na etapa anterior. Explique aos alunos que, nesse momento, irão definir um esquema geral do texto que escreverão, indicando cada uma de suas partes. Esclareça que não se trata de redigir o texto, propriamente, mas apenas de decidir parte a parte o que será escrito e em que ordem. Se for preciso, inicie você a planificação, sugerindo sobre o que será primeira parte do final a ser escrita, dando continuidade ao trecho que se conhece. IMPORTANTE SABER No processo de produção de textos 5 operações estão implicadas: a) definir o contexto de produção do texto a ser produzido (para quem o texto será escrito; qual a finalidade desse texto; onde circulará; em que portador será publicado; em que gênero será organizado); b) planejar o conteúdo temático (no caso de textos organizados em gêneros da esfera ficcional, como os contos de artimanha, trata-se mesmo de inventar, de criar o conteúdo do texto); c) planificar o texto, ou seja, esquematizar o texto que será escrito considerando as duas operações anteriores; d) textualizar, ou seja, escrever o texto, propriamente, redigindo-o de acordo com as decisões tomadas anteriormente; e) revisar o texto, quer dizer, depois de uma primeira versão produzida, realizar os ajustes necessários para deixar o texto mais adequado ao contexto definido. Nesta etapa, a operação diretamente implicada foi o planejamento do conteúdo temático.
  28. 28. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página27 Comentário: Nesse momento, é preciso pensar na textualização, ainda que esta não vá ser realizada. A tarefa é planificar – ou planejar – o texto a ser escrito considerando o final decidido e preparando a textualização. Tomemos como exemplo a Possibilidade 3 de final. Nela está explicitado o conteúdo temático a ser redigido. Para iniciar a planificação – ou o planejamento do texto – releia o finalzinho do trecho conhecido do texto, para imaginar como a continuidade poderá ser. Oriente os alunos por meio de perguntas como: “Bom, o Cego elaborou um plano para recuperar o dinheiro, certo? Foi a última coisa dita no texto. O que pode vir em seguida? O que precisamos dizer? Vocês acham que ele planejaria algo imediatamente, assim, bem rápido, ou precisaria de um tempo pra repensar, maquinar, arquitetar revisar o plano para que fosse alguma coisa bem tramada, que não fizesse o vizinho desconfiar de nada? Quanto tempo? Como é que ele vai encontrar o vizinho para contar sobre o dinheiro? Onde? Como o cego vai envolver o vizinho pra ele não desconfiar? O que precisa dizer para garantir que o vizinho recoloque o dinheiro no lugar? Como vai estar o cego nessa conversa: apreensivo, confortável, cuidadoso? E o vizinho, como vai se sentir: desconfiado, achando-se muito esperto, feliz, achando que tirou a sorte grande?” O quadro a seguir pode esclarecer como poderia ficar a planificação do texto. DO PLANEJAMENTO DO CONTEÚDO À PLANIFICAÇÃO DO TEXTO Planejamento do Conteúdo Temático Planificação do Texto Vizinho é desonesto, mas sem muita inteligência, e muito ambicioso. Jeito de pegá-lo em uma armadilha: fazer ele pensar que pode lucrar mais. Plano do Cego: diz ao vizinho que teve uma infelicidade, que havia guardado o dinheiro enterrado no quintal, mas que fazia tanto tempo que não valia mais nada. Diz que conseguiu encontrar um negociante que vai comprar as notas antigas e ainda vai pagar mais por elas. Diz que vai levar as notas no dia seguinte pela manhã. Mas que não vai deixar de enterrar o dinheiro no quintal, pois acha um lugar muito seguro. Dizer:  que o cego foi para a cama pensativo, tentando encontrar uma solução;  que no dia seguinte, levantou com ela;  que ficou na varanda esperando ouvir a porta do vizinho de abrir;  cego finge que está voltando pra casa e que está feliz;  cego conta sobre o negociante;  cego avisa que vai levar o dinheiro e dá a dica do dia;  que o cego finge que confia no vizinho;  que o vizinho está muito curioso e nem desconfiou de nada;
  29. 29. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página28  que o vizinho pensa que vai levar vantagem;  que o vizinho devolve o dinheiro;  que o cego recupera o dinheiro. Terminar falando que o vizinho está até hoje esperando o dinheiro aparecer. Textualização da história Retome a planificação realizada anteriormente e explique para os alunos que, nesse momento, irão ditar o texto pra que você o escreva na lousa (ou no computador, desde que haja um datashow disponível; ou utilizando outro recurso qualquer que a escola possua). Retome também os registros dos estudos realizados nas etapas anteriores: contexto de produção, características do gênero, planejamento do conteúdo temático e planificação. Deixe-os visíveis para que os alunos possam consultar, se necessário, especialmente a planificação, que será o guia orientador do texto. Indique a primeira parte a ser escrita – identificando na planificação –, releia o texto que será continuado e pergunte: “Como podemos escrever isso no texto, agora?”. Caso os alunos tenham dificuldade, dê uma sugestão. Antes de iniciar a textualização, recupere com os alunos quem está narrando a história e em que tempo está acontecendo a narrativa. Explique que a continuação precisa respeitar a maneira como o texto começou. Durante a textualização, vá retomando o trecho anterior para redigir o seguinte; releia o que acabou de ser escrito para modelizar procedimento de escrita e de revisão processual (analisar se está adequada a redação - considerando-se o contexto de produção, conteúdo criado e a planificação – e se precisa de ajustes). Se for o caso, selecione trechos dos contos lidos até o momento – ou de outros contos de artimanha - que possam referenciar o aluno quanto a escolhas lexicais e recursos textuais mais próprios para o texto que está sendo elaborado como, por exemplo, adjetivos adequados para qualificar a ação e as emoções do Cego e seu vizinho. Você pode, ainda, realizar inventários de possibilidades de dizer, antes de solicitar que a classe decida o que seria mais adequado para o texto que está sendo elaborado (listas de adjetivos, de verbos possíveis, de articuladores textuais, por exemplo).
  30. 30. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página29 Comentário: Consulte o quadro apresentado a seguir para ver uma possibilidade de textualização para o conteúdo definido e a planificação realizada. DO PLANEJAMENTO DO CONTEÚDO À PLANIFICAÇÃO DO TEXTO E, FINALMENTE, À TEXTUALIZAÇÃO Planejamento do Conteúdo Temático Planificação do Texto Vizinho é desonesto, mas sem muita inteligência, e muito ambicioso. Jeito de pegá-lo em uma armadilha: fazer ele pensar que pode lucrar mais. Plano do Cego: diz ao vizinho que teve uma infelicidade, que havia guardado o dinheiro enterrado no quintal, mas que fazia tanto tempo que não valia mais nada. Diz que conseguiu encontrar um negociante que vai comprar as notas antigas e ainda vai pagar mais por elas. Diz que vai levar as notas no dia seguinte pela manhã. Mas que não vai deixar de enterrar o dinheiro no quintal, pois acha um lugar muito seguro. Dizer:  que o cego foi para a cama pensativo, tentando encontrar uma solução;  que no dia seguinte, levantou com ela;  que ficou na varanda esperando ouvir a porta do vizinho de abrir;  cego finge que está voltando pra casa e que está feliz;  cego conta sobre o negociante;  cego avisa que vai levar o dinheiro e dá a dica do dia;  que o cego finge que confia no vizinho;  que o vizinho está muito curioso e nem desconfiou de nada;  que o vizinho pensa que vai levar vantagem;  que o vizinho devolve o dinheiro;  que o cego recupera o dinheiro. Terminar falando que o vizinho está até hoje esperando o dinheiro aparecer. Textualização À noite, deitado em sua cama, ficou revisando o plano para que não houvesse falhas. Ficou pensando que não poderia deixar que o vizinho desconfiasse de nada. Precisaria encontrar uma maneira de fazer com que ele acreditasse que era da sua confiança. No dia seguinte levantou-se bem cedo, foi para a varanda e ficou esperando algum barulho que indicasse que o vizinho estava acordado. Assim que ouviu, abriu o portão e ficou na calçada, esperando-o sair.  Bom dia, vizinho! – disse o cego fingindo que estava chegando em casa naquele momento – Bom dia!
  31. 31. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página30  Bom dia! – respondeu o vizinho, ao avistar o cego - Nossa, quanta animação!  Você nem sabe o que me aconteceu, caro amigo, você nem sabe! ... Mas venha cá que vou te contar. Escute só! Sabe, eu sempre tive a mania de guardar meu dinheiro enterrado debaixo do carvalho que tenho no quintal, sabe como é? Sempre tive muito medo de ser roubado. Mas acontece, meu amigo, que eu deixei meu dinheiro muito tempo enterrado. Imagine o meu desespero ao saber que não valia mais nada, de tão velho... Mas hoje encontrei um negociante que me tranquilizou: meu dinheiro, exatamente por ser muito velho, tem, agora, outro valor. Ele me disse para levá-lo a sua loja que ele o trocará por moeda nova e até vai me pagar a mais! Amanhã bem cedo vou levar minhas economias para ele. Agora, sabe de uma coisa? Quando eu enterrar meu dinheiro de novo, vou marcar no calendário lá de casa... O que você acha?  Acho que é uma ideia muito boa! – disse o vizinho bem depressa, pensando em encorajar o cego a recolocar o dinheiro no quintal – Muito boa mesmo! Dito isto, o cego entrou em sua casa e ficou aguardando. O vizinho esperou anoitecer e devolveu o dinheiro ao pé do carvalho, ansioso por voltar e pegar a nova quantia que seria enterrada depois da negociação. O cego, no dia seguinte bem cedinho, foi até o quintal e recuperou o seu dinheiro. O vizinho? Está até hoje esperando que o dinheiro volte para o buraco... Depois de finalizado, coloque o texto em um espaço coletivo, como um mural externo, por exemplo. Caso outras professoras estejam desenvolvendo o mesmo trabalho, convide seus alunos a fazerem a leitura das produções de outras salas, comparando- as àquelas produzidas por sua turma. IMPORTANTE SABER Quando se escreve coletivamente um texto cujo conteúdo temático já foi definido e planejado anteriormente, a atividade de textualizar fica centrada na decisão sobre o ajuste da linguagem ao leitor, sobre a adequação das escolhas das palavras para se dizer o que se pretende, sobre o modo de organizar uma frase e/ou um período, sobre a pontuação e os efeitos de sentido que o uso de um ou outro sinal pode provocar, sobre a coerência entre o que se disse antes e o que se acaba de escrever, sobre a utilização de expressões adequadas para articular um trecho com outro. Ou seja, o trabalho a ser realizado junto da classe concentra-se nas questões textuais e discursivas, tornando-se muito produtivo nesse aspecto. Nessa perspectiva, o foco acaba, também, na revisão processual. Por isso a revisão final não foi solicitada neste momento, podendo ser realizada em momentos posteriores, quando houver maior distanciamento dos leitores em relação ao texto. Na ocasião, oriente-se pelas instruções da 7ª Etapa, considerando que terá apenas um texto para analisar.
  32. 32. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página31 5ª Etapa: Leitura Compartilhada para Estudo de Texto Focalizando seus Recursos Discursivos e Linguísticos. Objetivos  Compreender um conto de artimanha lido a partir dos elementos constitutivos da sua organização interna (ardis e truques para enganar o oponente; identificação do protagonista e do antagonista; identificação do plano do protagonista; identificação dos motivos do protagonista para ludibriar o vilão).  Identificar, a partir da mediação do professor, recursos linguístico-discursivos empregados em dois contos de artimanha e os efeitos de sentido que provocam. Planejamento Quando realizar as atividades? Após a leitura pelo professor dos contos sugeridos. Como organizar os alunos? A atividade é coletiva e os alunos devem ter o texto a ser lido em mãos. Quais materiais são necessários? Cópias das duas versões do conto “Sapo com medo d’água” para todos os alunos. Encaminhamentos Leitura das duas versões do conto “Sapo com medo d’água”. Nessa etapa, sugerimos que sejam lidas as versões do conto “Sapo com medo d'água”, de Ricardo Azevedo e Câmara Cascudo6 . Leia os textos em dias distintos e converse com as crianças sobre as semelhanças e diferenças entre as duas histórias, focalizando não apens aspectos semânticos, mas discursivos e textuais. Faça uma primeira leitura de um dos contos e converse com o grupo fazendo perguntas que ajudem a verificar se as crianças compreenderam o texto. Estas perguntas devem remeter-se às características fundamentais de um conto de artimanha, ou sejam, devem referir-se a: a) quem é o protagonista –personagem esperto, que vai enganar o vilão - nessa história?; b) como você sabe disso?; c) quem é o antagonista, o vilão?; d) como você sabe disso?; e) qual o plano do protagonista?; f) ele consegue enganar o vilão?; g) por que você acha que o protagonista quis enganar o vilão?; h) como você sabe disso? 6 Ambas disponibilizadas em anexo.
  33. 33. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página32 Em seguida, releia o conto analisando, junto com os alunos, os recursos discursivos e textuais empregados no textos e os efeitos de sentido que provocam. Considerem os comentários e as orientações apresentadas a seguir. Comentário: Na primeira versão, os seguintes aspectos podem ser discutidos com os alunos: a) O título do texto - “Sapo com medo d´água” – contraria tanto o possível repertório do aluno, quanto a lógica do conto de artimanha, no qual o protagonista é sempre esperto, inteligente, ardiloso: sapo não tem medo de água; o sapo não pode ser medroso, se é o protagonista. O título, enquanto recurso textual e discursivo que supõe redução de informação semântica do texto como um todo, costuma possibilitar ao leitor antecipar sentidos do texto. Nesse caso, pode, à primeira vista, apresentar uma contradição. No entanto, sabendo-se que sapo não tem medo de água, podemos considerar que o leitor já tem – a partir desse título - uma pista sobre quem será o esperto, quem estará enganando, qual a estratégia do protagonista. Nesse sentido, o título passa a ser um recurso provocativo; explicitador da estratégia do sapo. b) A primeira frase – “O sapo é esperto.” - embora contrarie o título, confirma a esperteza do sapo; ao mesmo tempo ativa a capacidade do leitor para estabelecer a relação entre o que ele sabe sobre o sapo, a contradição em relação ao título e quem será o protagonista do conto, considerando as características de textos desse gênero. É possível, inclusive, inferir qual será a estratégia do sapo para enganar seu antagonista. c) A organização do diálogo, foi elaborada quase sem a presença de verbos ‘discendi’ (verbos de dizer: aqueles que especificam a fala a ser apresentada em cada turno: disse, falou, respondeu, retrucou, perguntou, indagou, murmurou, entre outros); e quase sem referências à origem – ‘autor’ - da fala de cada turno. Esse recurso provoca um efeito de agilidade nas falas e, dessa forma, rapidez à ação da trama, pelo menos até a fala “Vamos botar o sapo na lagoa!”. Depois disso – quando o final se anuncia e a estratégia está para ser concretizada -, a diferença é visível: há, por duas vezes, o anúncio completo fala do sapo7 (‘Aí o 77 Nos exemplos a seguir, o que está com sublinhado simples é o sujeito que fala; o que foi escrito em negrito, é o verbo discendi; o que está escrito com sublinhado duplo é o modo como o sujeito que fala o fez.
  34. 34. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página33 sapo ficou triste começou a pedir, com voz de choro:’ e O sapo mergulhou, veio em cima da água fritando satisfeito:’); há, ainda, o apresentação da fala dos meninos, após a primeira fala do sapo (‘Vamos para a lagoa – gritaram os meninos’). É importante tematizar junto aos alunos as pistas que o texto oferece para que identifiquemos quem está falando o que. Algumas orientações:  na primeira fala, a referência ao sapo como objeto da ação do nós implícito em ‘vamos’ – os meninos - indica que não é ele quem fala; a 1ª pessoa do plural (referente aos meninos) indica quem fala;  na segunda fala, o verbo de dizer - ‘dizia’ - e a referência à fonte – o sapo – explicitam quem fala. Além disso, há a referência a “meu couro”, que é mais coerente com o personagem sapo, e a ideia de que não adiantaria jogá-lo nos espinhos – intenção dos meninos, apresentada na fala anterior;  na terceira fala, o verbo na primeira pessoa do plural – ‘vamos’ – já indica quem fala; além disso, há uma referência a ele – o sapo -, o que indica que não pode ser o sapo quem fala;  na quarta fala, como há uma alternância, e também pelo conteúdo semântico da fala (pois fogo pode matar sapo e, se alguém está dizendo que não, só poderia ser o sapo para salvar-se, o que é coerente com sua estratégia para enganar os meninos), fica fácil deduzir quem fala;  a quinta fala possui as mesmas características que a terceira;  a sexta fala é semelhante à quarta: há uma alternância de turno, e também o conteúdo semântico da fala denuncia o seu autor (pois pedra pode matar sapo e, se alguém está dizendo que não, só poderia ser o sapo para salvar-se, o que é coerente com sua estratégia para enganar os meninos);  na sétima fala, o verbo na 1ª pessoa do plural, identifica os falantes;  na oitava, vale a justificativa apresentada para a 4ª fala;  na nona fala, vale o exposto para a sétima.
  35. 35. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página34 d) A diferença na redação das sequências dialogais do texto – quando colocadas em comparação - provocam o efeito de sentido que confere rapidez à primeira parte – ‘bate-volta’ e ‘pingue-pongue’ -, e mais lentidão à segunda; e) O efeito de lentidão conferido à segunda parte é bastante adequado às intenções semânticas: necessidade de o sapo demonstrar medo para convencer mesmo os meninos de que ele deveria ser jogado na água; isso coloca a necessidade textual de explicar, qualificar a ação para que se tenha uma ideia mais clara da dramatização/encenação realizada pelo sapo, e com sucesso. Na segunda versão do conto “Sapo com Medo d’água” – a versão de Ricardo Azevedo – encontramos uma progressão organizada de maneira diferente e uma estratégia do protagonista também diferente. Nela, a estratégia do protagonista é manter-se tranquilo e calado enquanto os bandidos pensam em maneiras de fazer maldades ao animal que, de fato, poderiam prejudicá-lo. Quando os antagonistas tem a ideia de jogá-lo na lagoa é que ele se põe a falar, como se fosse a pior coisa que poderiam fazer com ele. A partir desse momento – com a fala IMPORTANTE SABER A organização do diálogo em si, supõe a alternância entre os enunciadores, conhecimento que o sujeito constituiu no exercício da linguagem oral. Na escuta da leitura – em uma atividade de leitura oral feita pelo professor, por exemplo -, pode até ser fácil para o ouvinte identificar os turnos de fala e, assim, identificar os eventuais autores, já que o que está em jogo é a busca da coerência do texto na recuperação dos seus sentidos, pois a ele não cabe decifrar o escrito. No entanto, quando o leitor iniciante lê por si mesmo, nem sempre conhece as marcas que indicam os turnos de fala utilizadas na escrita. Além disso, a fluência leitora está em franco processo de desenvolvimento, o que pode supor retomadas reiterativas de trechos que se leu para poder recuperar o sentido do escrito, requerendo muito esforço. Dessa forma, o estudo coletivo de textos como o que está sendo estudado é uma ferramenta fundamental. Além de todas as informações discursivas e linguísticas, oferece ao aluno referências sobre procedimentos que podem ser adotados em situações de leitura correlatas, modelizando-os.
  36. 36. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página35 “Tudo menos isso” – é que o diálogo fica rápido, com verbos de dizer escasseando progressivamente, assim como a indicação do falante. Depois da leitura dos dois textos, oriente um trabalho de comparação entre eles, focalizando os aspectos estudados em cada um. As perguntas a seguir podem orientar uma conversa sobre os textos: a) quem pega o sapo e por qual razão, em cada uma das versões?; b) quais ameaças são feitas ao sapo e como ele reage, em cada uma das versões?; c) qual o plano do sapo em cada um dos textos?; d) quais são os desfechos?; d) qual plano vocês acharam mais interessante? Por que?; e) de qual texto vocês mais gostaram? Por que?. Ao final do estudo comparativo, aproveite para conversar com seus alunos sobre o fato de que os contos de artimanha, assim como os contos de fadas, têm suas raízes na tradição oral, ou seja, são histórias muito antigas que foram transmitidas ao longo do tempo de geração a geração. Por isso, muitas delas têm diferentes versões, pois, cada pessoa, depois de ouvir a história, conta de seu jeito. PARA NÃO ESQUECER O estudo de textos, de sua organização interna considerando os recursos textuais e discursivos neles empregados é fundamental para a constituição da proficiência leitora dos alunos. Além disso, à medida em que o aluno vai se tornando competente para identiifcar esses recursos no processo de linguagem, pode ir se tornando apto a utilizá-los na produção de textos também. Dessa forma, é muito importante que o professor garanta na rotina escolar diária momentos de leitura de estudo de diferentes textos.
  37. 37. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página36 6ª Etapa: Produção de Autoria, em duplas, do Final do Texto “O Bicho Folharal” Objetivo  Planificar o trecho final do conto considerando o contexto definido pela parte conhecida do texto e as possibilidades de final levantadas.  Textualizar, em duplas, o final de conto de artimanha. Planejamento Quando realizar as atividades? Após o planejamento de diferentes finais para o conto “O Bicho Folharal” Como organizar os alunos? Estarão organizados em duplas e é importante que alunos não alfabéticos tenham como dupla um colega alfabético. Sendo alfabéticos os dois, pode-se pensar em alternar o ditante e o escriba; Quais materiais são necessários? Lápis e papel; texto reproduzido para os alunos para que possam acompanhar a leitura. Encaminhamentos: Leitura e estudo do texto “A Onça e o Bode” (Anexo 9). Leia o texto em voz alta para a classe, apresentando-o no datashow ou utilizando um outro recurso qualquer disponível na escola (como retroprojetor, por exemplo, ou um cartaz). Organize o estudo do texto, fazendo perguntas que remetam às características do conto de artimanha que, dessa forma, podem levar à uma boa compreensão do texto. Perguntas sugeridas: a) Quem é o esperto nesse conto? Onde é que, no texto, há indicações disso? b) Quem é que foi enganado? Onde é que, no texto, há indicações disso? c) Qual foi o estratagema do esperto? Onde é que, no texto, há indicações disso? d) Podemos dizer que a onça era malvada? Por que?
  38. 38. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página37 e) Podemos dizer que o bode era malvado? Por que? f) Então, por que será que um enganou o outro? Estabeleça uma comparação entre esse conto e os demais, lidos anteriormente. Pergunte aos alunos: a) Entre esse conto e aqueles que já lemos até agora, existe uma diferença muito importante. Quem poderia me dizer qual é? Procure focalizar que, nesse caso, apenas animais participam da história, não havendo a presença humana. Por causa disso, algumas especificidades se colocam em relação à trama, à relação existente entre os personagens principais e às motivações do protagonista para enganar o seu oponente. São elas: a) quando um conto de artimanha se desenvolve apenas no ‘reino dos animais’, a trama focaliza a subversão da lei de sobrevivência na natureza, que indica que quem sempre vence é o mais forte. Nesse caso, o protagonista vence o antagonista, que não é um vilão, mas o mais forte, o maior naturalmente, e que pode ser seu predador; b) isso coloca o vilão não como vilão, propriamente, mas como aquele que precisa ser enganado para que o mais fraco sobreviva. Esses dois aspectos são muito importantes para a elaboração do final do próximo conto – “O Bicho Folharal” -, pois o final deverá prever a vitória do mais fraco em força física, do menor em tamanho (e que, por isso seria o sobrevivente natural e até um predador do protagonista), mas mais esperto.
  39. 39. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página38 É importante também que os alunos compreendam que um conto de artimanha de animais é diferente de uma fábula. Sendo assim, você poderá ler uma fábula com eles e fazer a comparação. Por exemplo, leia a fábula “O leão e o ratinho”8 e compare: a) o mais forte é o leão, que é ajudado pelo ratinho; b) o mais fraco é o ratinho, que não engana o leão para sobreviver, ao contrário, o ajuda; c) o ratinho retribui a ajuda do leão, posteriormente; d) não há ruptura da lei do mais forte pela esperteza do mais fraco; 8 Disponível no Anexo 10. IMPORTANTE SABER Nos contos de artimanha a trama é conduzida sob a ótica de um herói malandro que troça de ricos, poderosos, de instituições, mas também de indivíduos comuns cujo comportamento destoa de um padrão convencional. Na trama, o protagonista costuma agir: a) para melhorar a sua situação ou a situação de um aliado, procurando obter recompensa, ou então explorando uma situação que possa lhe render algum benefício material; b) para proteger-se de uma ameaça ou agressão, vinda de alguém que o subestima, e/ou explora ou a um aliado; c) punir um oponente, vingando-se dele. Como ficam esses aspectos quando se trata de contos que envolvem apenas animais? Nesse caso, a esperteza e a astúcia são as únicas armas de que o animal de porte pequeno dispõe – com possibilidade de vitória - para enfrentar o inimigo mais forte. O antagonista é representado, portanto, por aquele que é superior ao esperto em relação à força física e tamanho. Isso se justifica considerando que na lógica da natureza, sobrevive quem é mais forte. O conto de esperteza mostra a possibilidade de subverter essa lógica por meio da esperteza.
  40. 40. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página39 e) o leão aprende a lição da retribuição de gentileza/favor: ele não é enganado pelo ratinho. Leitura e estudo do texto cujo final será elaborado pelas duplas. Leia em voz alta o texto “O Bicho Folharal”9 até o trecho “usando de uma astúcia qualquer”, apresentando-o à classe ou coletivamente - em datashow ou qualquer outro recurso disponível na escola que permita que os alunos acompanhem a leitura do texto – ou individualmente. Após a leitura, proponha um intercâmbio oral ouvindo os alunos sobre as impressões que tiveram até a parte lida. Nessa conversa, procure retomar os aspectos fundamentais de um conto de artimanha, os quais possibilitam verificar, perfeitamente, a compreensão que os alunos tiveram do que foi lido. Além disso, trata-se de uma versão de Câmara Cascudo, que conserva algumas expressões regionais que precisarão ser discutidas, caso não sejam compreendidas pela classe: furna, cacimba, curtiu tanta sede. 9 O texto completo encontra-se em anexo. IMPORTANTE SABER Na fábula, os animais representam as virtudes e defeitos humanos, segundo a visão do homem. Este é o critério de seleção dos mesmos para a composição da trama. Por exemplo: a raposa costuma representar a astúcia; o coelho, a rapidez, agilidade; o macaco, traquinagem e esperteza; a cegonha, a pureza, maternidade, bondade. A finalidade da fábula é mostrar ao homem a sua condição e regras morais que deveria respeitar. Assim sendo, a característica de cada animal é apenas servir ao propósito de ensinar ao homem por meio de uma comparação. As relações estabelecidas entre os animais das fábulas são, portanto, diferentes daquela estabelecida no conto de artimanha: nestes, o que vale é a possibilidade de subverter uma relação de predador-presa; uma ideia de que o maior e mais forte fisicamente sobrevive pela seleção natural. Nas fábulas isso não se coloca.
  41. 41. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página40 Utilize algumas perguntas elaboradas previamente para orientar a discussão. Sugestões: a) Quem parece ser o protagonista esperto desse conto? Por que você pensa assim? b) E o antagonista, aquele que vai ser enganado, quem parece ser? Por que você pensa assim? c) A Raposa disse que ia beber água usando de uma “astúcia qualquer”. Isso dá alguma pista sobre quem pode ser o personagem esperto? d) O título do texto é “O Bicho Folharal”. Você já viu algum bicho como esse? Vamos procurar no dicionário pra ver se tem algum bicho com esse nome? Vamos procurar em uma enciclopédia de animais? Por que será, então, que o texto tem esse título? O que será que tem a ver com a história? e) A Onça já foi enganada uma vez na história. Você acha que ela conseguirá pegar a Raposa, ou esta vai se safar? f) Este conto se parece mais com qual dos contos já lidos por nós? Por que? g) Como se chamavam a onça e a raposa dessa história? Por que vocês acham isso? Que diferença faz as palavras Onça e Raposa estarem escritas com letra maiúscula? Comentário: É muito importante nessa discussão, não perder de vista os seguintes aspectos: a) A Onça também tenta enganar a raposa utilizando-se de ardis; no entanto, na primeira vez, é enganada pela Raposa. b) Este é um conto de artimanha, e não uma fábula; portanto, a Raposa não precisa ‘aprender uma lição’, como na fábula “A Cegonha e a Raposa” (assim como o coelho, na segunda versão desse conto - intitulada “O Rei da Folhagem”10 -, não recebe uma lição, como na fábula ‘O coelho e a tartaruga’). Trata-se, aqui, de que quem é mais esperto vence quem é menos esperto. O conto, além disso, desenvolve-se no ‘reino dos animais’, e não no dos humanos, procurando focalizar a. São animais os envolvidos, não para representar virtudes e defeitos humanos – como na fábula – mas para serem como são (ou 10 Disponível em anexo.
  42. 42. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página41 para mostrarem as características que lhe atribuem os humanos), sem supostos ‘julgamentos de valor’. c) No conto lido, os nomes dos animais estão escritos com letra maiúscula. Isso confere a cada nome o status de ‘nome próprio’. Isso significa que o conto está falando da Onça e da Raposa, e não de uma onça e uma raposa, individualizadas. Isso significa que o conto fala da esperteza das raposas em geral, e da perseverança das onças, em geral. E de como as raposas podem ser mais espertas do que as onças. d) A análise dos itens b) e c) pode auxiliar os alunos na previsão do final que, à primeira vista pode parecer confuso, sobretudo se considerarmos que os textos lidos anteriormente apresentam o protagonista enganando aquele que lhe faz mal. A grande questão, aqui, é a mudança de cenário, que remete à relação colocada entre os animais no seu próprio universo, onde a lógica é a da sobrevivência do mais forte. No caso da elaboração do final desse conto é preciso focalizar a relação deste conto com o “A Onça e o Bode”, pois isso pode auxiliar os alunos a prever um final mais adequado ao gênero. Depois de toda essa discussão, faça um levantamento de aspectos que precisam ser considerados no planejamento do final. Tais aspectos referem-se a: a) é um conto de artimanha só de animais; portanto, deve haver na história uma tentativa de romper com a lei natural de que quem sobrevive é o mais forte; deve haver a ideia de que a presa pode vencer o predador; b) a onça é o animal mais forte, portanto, o predador; seguindo a lógica desse tipo de conto, será enganada pela raposa; c) a raposa é o animal mais fraco; portanto, assume o lugar da ‘presa’; seguindo a lógica desse tipo de conto enganará a onça; d) é comum que a estratégia de esperteza preveja recursos típicos do ambiente da narrativa; e) já foi definido no texto que: a. a raposa está com muita sede;
  43. 43. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página42 b. precisa ir beber água no único lugar possível; c. esse lugar está sendo vigiado pela onça; d. é preciso que seja feita referência ao “Bicho Folharal”, presente no título. Registre isso em um quadro e deixe disponível para que os alunos consultem a qualquer tempo. Depois disso, faça um levantamento coletivo de possibilidades de final, indicando o estratagema que permita que a raposa vença a onça. Avise que esse levantamento é apenas para servir de ‘inspiração’ para todos e que cada dupla escolherá o final de sua preferência; inclusive, pode ser diferente dos finais previstos coletivamente. Comentário: Vamos supor que um dos finais sugeridos pela classe seja o seguinte: “A Raposa vai pedir auxílio para o Macaco para apanhar um coco e jogar na cabeça Onça; assim ela pode chegar na cacimba e beber água e fugir, enganando sua inimiga.” Se analisarmos considerando os elementos que constam do registro acima, veremos que falta a presença do “Bicho Folharal”. Isso terá que ser tematizado junto à classe, e acrescentado na estratégia da Raposa. Esse aspecto é fundamental, pois a coerência seria rompida se o título não estabelecesse alguma relação com o texto. Oriente as duplas para que planejem o final do seu conto. Inicialmente, apenas inventando o final e anotando. Mas retome com eles as atividades anteriormente realizadas quando da produção do texto coletivo, retomando com os alunos o processo todo, parte a parte: a) inventar o final (planejamento do conteúdo temático); b) decidir quais serão as partes do texto, uma a uma, na sequência (planificação); c) escrever o texto considerando o conteúdo criado e a pré-organização do texto. Depois de retomar, – em uma outra aula, se for o mais adequado para a classe -, oriente- os a planificarem o texto.
  44. 44. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página43 Finalmente, proponha que redijam o texto em duplas, a partir da planificação realizada. 7ª Etapa: Revisão do Texto Produzido pelas Duplas Objetivos:  Identificar, com auxílio do professor, aspectos discursivos e textuais que precisam ser revisados no texto.  Revisar, com o auxílio do professor, questões relativas às principais dificuldades discursivas observadas nos textos produzidos anteriormente.  Revisar, em duplas, os textos produzidos anteriormente com base nas orientações do professor. PARA NÃO ESQUECER A produção de textos neste projeto é orientada de modo a que cada uma das operações seja realizada em separado, explicitando os procedimentos envolvidos em cada uma. A finalidade é oferecer referências aos alunos sobre como realizar cada uma das tarefas, já que são escritores iniciantes e sua proficiência pode não prever a devida agilidade para articulá-las todas, como o faria o escritor mais experiente. No entanto, você, ao avaliar as necessidades de aprendizagem da classe, pode considerar que é possível realizar operações concomitantemente, como planificar o texto e textualizá-lo ao mesmo tempo. Essa decisão é sua, e deve ser orientada pela sua avaliação das necessidades e possibilidades de aprendizagem da classe. Além disso, pense que as atividades devem articular-se no processo de produção; sendo assim, ao tentar redigir o texto é possível que a planificação inicial seja alterada, ou que aspectos do conteúdo temático previstos inicialmente sejam modificados. A produção resultante de cada operação de produção de textos não é rígida e imutável. Ao contrário, deve articular-se necessariamente, pois trata-se de um processo contínuo de elaboração de um mesmo e único produto. Ratificando: a mudança é possível – e, pode até ser bem-vinda -, embora possa nem sequer se colocar como necessária.
  45. 45. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página44 Planejamento Quando realizar? Após as duplas escreverem o final do conto “O Bicho Folharal” e depois do estudo das produções dos alunos pelo professor. Como organizar os alunos? A primeira etapa da atividade será feita coletivamente e a segunda, em duplas. Quais materiais são necessários? Textos dos alunos, previamente lidos e analisados pelo professor; material de apoio preparado para o trabalho com as questões priorizadas para estudo, de acordo com as necessidades de trabalho identificadas no estudo dos textos. Encaminhamentos: A Revisão de um Aspecto Discursivo Representativo das Dificuldades da Classe Preparação do Trabalho Analise os textos dos alunos do ponto de vista textual e discursivo. Investigue os seguintes aspectos: 1. o final prevê a elaboração de uma artimanha pela raposa (como é típico desse tipo de conto de artimanha, o animal menor e mais fraco fisicamente, ludibriará o mais forte)? 2. a artimanha vai sendo apresentada ao leitor à medida em que vai sendo realizada na narrativa? 3. a artimanha está relacionada com o fato de a raposa ter que matar a sede na cacimba ao pé da serra? 4. há referência – e a presença – do “Bicho Folharal”, anunciado no título do texto? 5. houve articulação entre o final elaborado e o começo do texto não havendo problemas de compreensão entre os dois trechos? 6. há coesão entre os trechos elaborados? 7. a pontuação está adequada (indicar tanto os recursos que não foram utilizados adequadamente, quanto os que foram)?
  46. 46. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página45 8. a escrita continua mantendo os nomes dos animais com letras maiúsculas? 9. a ortografia está correta (analisar quais aspectos precisam ser cuidados, porque demonstram dificuldades dos alunos)? Para obter uma visão geral da classe, você pode organizar uma tabela, como a seguinte:
  47. 47. TABELA 1 – PRODUÇÃO DE FINAL DESCONHECIDO DE UM CONTO DE ARTIMANHA ANÁLISE DOS TEXTOS DA CLASSE DUPLAS ASPECTOS ANALISADOS OBSERVAÇÕES1 2 3 4 5 6 7 8 9 SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO SIM NÃO Ana e Josélia Adauto e Mauro Rosário e Igor
  48. 48. Para conseguir uma visão de cada dupla (ou de cada aluno, desde que sejam realizas as devidas adaptações), a tabela pode ser como a que segue. ANÁLISE DE PRODUÇÃO EM DUPLAS DE FINAL DE CONTO DE ARTIMANHA Dupla: ........................................................................ Data: .................................... Classe: ............................. ASPECTOS SIM NÃO ÀS VEZES (com observações) O final prevê a elaboração de uma artimanha pela raposa (como é típico desse tipo de conto de artimanha, o animal menor e mais fraco fisicamente, ludibriará o mais forte)? A artimanha vai sendo apresentada ao leitor à medida em que vai sendo realizada na narrativa? A artimanha está relacionada com o fato de a raposa ter que matar a sede na cacimba ao pé da serra? Há referência – e a presença – do “Bicho Folharal”, anunciado no título do texto? Houve articulação entre o final elaborado e o começo do texto não havendo problemas de compreensão entre os dois trechos? (inserir os demais aspectos apontados acima) Depois de feito esse levantamento inicial, veja quais aspectos são mais recorrentes e selecione, dentre esses, um ou dois aspectos para serem trabalhados coletivamente. Prefira os aspectos discursivos – incluindo-se entre eles, a pontuação -, pois são os mais complexos e, assim, são aqueles que mais necessitam modelização. Escolha um texto da classe que contenha o problema priorizado. Estude possibilidades de ajuste do texto produzido pelos alunos, identificando o que precisa ser modificado. Selecione textos que possam funcionar como referência para o estudo que você realizará. Podem até ser trechos de textos elaborados por outras duplas, desde que estejam bem escritos e possam, dessa maneira, representar bons modelos11 . Você deverá ter em mãos: a) um texto da classe – Texto 1 -, que contenha o problema representativo das suas necessidades de aprendizagem; b) um texto (da classe ou não) – Texto 2 - que não contenha o problema priorizado; 11 Quando falamos em modelo, neste documento, referimo-nos à referências de textos bem escritos que podem ser apresentadas aos alunos no processo de estudo dos textos que eles mesmos produziram, de modo que tenham exemplos alternativos de organização textual e discursiva. Não nos referimos, em nenhum momento, a modelos a serem seguidos – copiados e/ou reproduzidos - de maneira não-reflexiva.
  49. 49. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página48 c) uma versão do Texto 2 – que chamaremos de Texto 3 -, modificado para conter o problema priorizado para trabalho. Comentário: Suponhamos que o aspecto mais recorrente nas produções das duplas tenha sido a não apresentação do plano do protagonista ao leitor na medida em que vai sendo realizado na história, mas na forma de anúncio do plano inteiro, sem que este seja narrado, passo a passo, ação realizada por ação realizada, à medida em que a raposa vai agindo para conseguir o seu intento. Este último procedimento não corresponde ao usual em um conto de artimanha. Então, você deverá selecionar um texto que represente essa necessidade. Um possível texto poderia ser o seguinte: Texto da Classe “A raposa, então, resolveu nocautear a onça, pedindo para o macaco jogar um coco na cabeça dela. Assim ela poderia ir beber água à vontade, sem se preocupar com ninguém. Foi isso que fez, enganando a onça direitinho, mais uma vez.” Você precisará fazer um contraponto a esse texto, mostrando aos alunos um trecho que seja organizado de modo mais coerente com o movimento textual típico desses textos, que já foi estudado. Para isso,você pode recorrer a um dos textos que já foi estudado em classe como, por exemplo, o conto “A Velhinha Inteligente”. Elabore dois cartazes (ou lâminas para retroprojetor, ou arquivos eletrônicos para datashow, dependendo do recurso que for utilizar na aula): um deve conter o texto na versão original, já conhecida de todos – chamaremos de Texto 1; o outro deve ser escrito como o original até a parte “ Todos riram dela, porém como já se consideravam perdidos, acharam que não faria mal escutá-la.”. Depois desse trecho, deve prosseguir como o que segue:
  50. 50. Projeto de Escrita: Arte e Manha na Escrita de Autoria. Um projeto de produção de finais de contos de esperteza. | Programa Ler e Escrever Página49 A Velhinha Inteligente [incluir o trecho inicial do texto]  Todos riram dela, porém como já se consideravam perdidos, acharam que não faria mal escutá-la. A velhinha, então, explicou que, o seu plano era enganar o inimigo fazendo com que acreditasse que a cidade tinha alimentos e que, dessa forma, poderia resistir ao cerco muito tempo, ao contrário deles, os soldados, que estavam com fome e que, por não terem mais provisões, acabariam morrendo. Para isso, ela disse que só precisava deixar uma vaca gorda sair pelo portão, que os soldados fariam o resto. Todos acharam a ideia inteligente. Fizeram o que a velhinha propôs, os soldados ficaram com medo e foram embora, A cidade venceu a batalha. Chamaremos a esse texto modificado de Texto 2. Você utilizará os dois cartazes para problematizar o aspecto textual em foco, por meio da comparação entre ambos. Só depois disso, recorrerá ao trecho do texto da dupla da classe. A seguir, no item relativo ao desenvolvimento da atividade, vamos sugerir um modo de encaminhar a discussão. Uma vez tendo definido qual aspecto será priorizado e quais serão os textos com os quais trabalhará, marque em cada texto produzido pelas duplas o trecho no qual você encontrou o problema priorizado. Pode ser, por exemplo, com um traço colorido vertical, à margem do trecho: a intenção é que o aluno identifique no seu texto o trecho que deverá ser revisado, reelaborado. Evidentemente, se o problema for como esse identificado acima, a reelaboração do trecho vai requerer que o aluno: a) apague o que escreveu; b) reelabore o trecho. A reelaboração vai demandar muito mais espaço do que o utilizado pela dupla. Por isso, ao invés de solicitar que ele apague o que escreveu e reelabore no mesmo espaço, entregue a eles uma folha de papel à parte (pode ser uma folhinha de linguagem, por exemplo) para que a escrita seja realizada nele. O aluno, dessa forma, não precisará

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