Medo, Memória e Pertença: O caso da favela do Poçoda Draga em Fortaleza (CE)Vancarder Brito Sousa        O objetivo desta ...
A líder comunitária, D. Rocilda, nos recebeu calorosamente e durantealguns bons minutos conversamos na varanda de sua casa...
marítima, rota privilegiada para o consumo de diversão e lazer na cidade.        Em sua rápida passagem de carro ou ônibus...
paisagem ambiental pouco pode dizer sobre o passado, por outro lado, paraos habitantes do lugar, em especial os do Poço da...
social, a inevitabilidade do tempo e a ameaça de que tudo seja reduzido aruínas ñ à morte. Mais do que isso, os próprios e...
diária e nos suportes da memória coletiva.RECONHECIMENTO ETNOGRÁFICO DO POÇO DA DRAGA        Após definir alguns sentidos ...
Para esta empreitada me lembrava daquela conversa que tive com D.Rocilda (residente há mais de 40 anos no local), quando d...
dos ìnão-moradoresî na favela do Catumbi no Rio de Janeiro, foi precisoìevocar um ëespíritoí para o bairro; a identificaçã...
uma nova tentativa e da reformulação da abordagem, alguém, se manifestou:ìa droga, o problema lá é droga!î. Alguns instant...
ficou no vazio.80 Considerada a maior favela de Fortaleza (zona Oeste) e uma das mais antigas. Conhecidatambém por estar s...
delas sobrepostas umas as outrasî (p. 20), numa realidade para qual sou umabsoluto estranho.       Assim, a sujeição do pe...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Medo, memória e pertença

618 visualizações

Publicada em

Publicada em: Turismo
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
618
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
13
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Medo, memória e pertença

  1. 1. Medo, Memória e Pertença: O caso da favela do Poçoda Draga em Fortaleza (CE)Vancarder Brito Sousa O objetivo desta apresentação é discutir as relações entre os medossociais, pertença e memória no Poço da Draga. O ponto de partida será adefinição de um método que possibilite a aproximação interpretativa douniverso simbólico particular deste grupo social, frente às demandas etransformações rápidas da metrópole. Parte assim, da possibilidade dotrabalho com as imagens narrativas através das quais os moradoresidentificam emocionalmente os lugares,pessoas e situações que ora secoadunam para construir afetivamente o espaço onde se vive, ora paraexprimir os medos, repulsas e angústias pela incerteza, pela insegurançadas mudanças no ambiente urbano. Neste recorte metodológico, em umambiente de pobreza, as narrativas destas pessoas se apresentam comoconstrutoras e construídas, de e por uma cidade ao mesmo tempo imagináriae real, enraizada em suas experiências e curvas de vida. Na proposta em andamento, o ato de rememoração é tomado comouma das estratégias de refundação da ordem frente a alguns dos temoresque rondam o imaginário social, a inevitabilidade do tempo e a ameaça deque tudo seja reduzido a ruínas. Desta forma, os depoimentos dosmoradores podem esclarecer o quanto do imaginário do lugar e das relaçõeslocais ali constituídas podem ser importantes para a construção dosprocessos de significação e pertença, frente às ameaças internas e externasde dissolução do espaço comum. Meu primeiro contato com o Poço da Draga se deu no de 1999,durante minha pesquisa de mestrado sobre o Centro Dragão do Mar de Artee Cultura (Sousa, 2000) deparo-me com uma realidade inusitada não só paramim pesquisador, como também para a maioria das pessoas de Fortaleza: aexistência de uma favela nas imediações do Centro Cultural. Mas como, uma favela ali, no lugar talvez mais elitizado da cidade?Não se pode ver nada ao percorrer a turística Praia de Iracema que indique asua presença. As pessoas não comentam, a TV não mostra nada sobre afavela, os jornais menos ainda, mesmo as manchetes padronizadas sobreviolência, dessas que costumam aparecer nos programas sensacionalistas,pareciam não ter um bom solo para vingar nas imediações do Poço daDraga. Apesar desta ausência das manchetes, algo que não acontece emoutras áreas pobres como Pirambu, Serviluz, Lagamar e outras, existe ummedo enraizado na cidade que aponta para a prudência de se afastar dasáreas menos movimentas e ou policiadas da Praia de Iracema. Naquele momento, começava a surgir o campo fértil para ainterrogação dos ìporquêsî daquela comunidade pobre, invisível para acidade, ainda que paradoxalmente instalada num lugar destinado a ser avitrine de Fortaleza para o mundo. E Numa manhã de domingo de 1999, com a ajuda de um amigo queconhecia a líder comunitária do Poço da Draga, ponho os pés pela primeiravez no que se poderia chamar, talvez, de um reverso simbólico do CentroDragão do Mar. Temeroso, pois envolvido pelas imagens comumenteassociadas aos lugares de moradia da pobreza nas grandes cidades:gangues, tráfico de dragas, violência, qual minha surpresa ao deparar-me, narua principal da favela, com um universo alegre, bem ordenado e... tranqüilo.
  2. 2. A líder comunitária, D. Rocilda, nos recebeu calorosamente e durantealguns bons minutos conversamos na varanda de sua casa sobre a história eos problemas do lugar: os movimentos anteriores contra as tentativas dedesalojamento da favela pela prefeitura e a eminência de receberem aCessão de Uso Real do Solo da União. Duas frases que disse me marcaram,ìaqui não é favela nãoî e ìo Poço da Draga é uma favela diferenteî. Umafavela diferente? Mas por que? Sem saber, começava a me deparar com oque intuo serem uma parte das estratégias de transformação dos medossocais em reorganizadores da ação social frente às ameaças urbanas.EXPERIÊNCIA SOCIAL E OS MEDOS NO POÇO DA DRAGA A afirmação de D. Rocilda naquela época de que o Poço da Draga erauma “favela diferente”, também se fundamenta em algumas característicasdo lugar, podem ser destacadas: ser uma favela instalada há 80 anos numaárea onde hoje se apresenta uma das maiores valorizações imobiliárias deFortaleza; seu pequeno tamanho, pois possui 1071 moradores em 263imóveis (SEINFRA, 2001); posse da Cessão de Uso Real da Área. Etambém, neste momento, a atenção diferenciada que está recebendo doGoverno do Estado em seu processo de remoção para uma área distanteapenas seiscentos metros do atual local para um condomínio de alto padrãoarquitetônico e condizente com as exigências de valorização do entorno.Atenção esta, marcada pelo assessoramento de diversos órgãos oficiais. O processo de remoção é motivado pelo projeto do CentroMultifuncional de Eventos e Feiras do Ceará (CMEFC), orçado em 150milhões de reais, e que ocupará, além da área do Poço da Draga, mais 19hectares de aterro marítimo, gerando desde já, profundas transformações navida das pessoas do Poço da Draga. Durante o percurso desta exposição uma pergunta se fará presente, ediz respeito aos desdobramentos destas transformações, não apenasurbanísticos. Mas sobretudo simbólicos, intuídas a partir da materializaçãoanterior do Centro Dragão do Mar e do futuro Centro Multifuncional deEventos e Feiras do Ceará, sentidos através da perspectiva dos moradoresda Favela do Poço da Draga. Como, e sobre que base se constitui a dimensão de pertença naComunidade do Poço da Draga como tensão à relação cosmopolita-moderno, representada pelo Centro Cultural e o discurso que lhe deuorigem? Neste sentido, o caminho dos medos urbanos parece ser bastanteprofícuo, podendo fornecer boas pistas para ajudar a definir a noção depertença em uma comunidade pobre urbana face aos pressupostos daracionalidade urbanística, rápidas transformações e mudanças designificados do espaço. A Praia de Iracema, primeira área portuária de Fortaleza, bairro ondese encontra a favela do Poço da Draga e o Centro Dragão do Mar, depois devários anos de esquecimento, encontra-se hoje plenamente integrada comas áreas a Leste da cidade, que se caracterizam por acolherem tanto a maiorparte dos investimentos públicos em urbanismo, quanto da iniciativa privadaem shoppings centers, turismo e equipamentos de lazer, ao mesmo tempo,em que lá se encontram as moradias mais ricas da cidade. A avenida Pessoa Anta, no seu sentido leste-oeste, passando nafrente da fachada do Centro Cultural voltada para o mar, funciona como umcorredor rápido de tráfego, as pessoas acessam de ônibus ou de carro seuslocais de trabalho no centro da cidade, na Aldeota ou na região da orla
  3. 3. marítima, rota privilegiada para o consumo de diversão e lazer na cidade. Em sua rápida passagem de carro ou ônibus, as pessoas poucopodem perceber das sutilezas que a memória dos antigos galpõesportuários, das ruas estreitas e sobrados comerciais datando da transição doséculo XIX para o século XX podem suscitar. Muito menos sobre a presençade uma comunidade que vive naquele entorno, direta herdeira daquele antigoporto, o Poço da Draga. Como o Dragão do Mar, a Favela Poço da Draga pode funcionartambém como símbolo da globalização, mas ligada a uma outratemporalidade, de um momento no qual o mundo chegava à Fortaleza apartir da Ponte Metálica, e os moradores podiam projetar para o oceano suasexpectativas de felicidade. Vinculada por outras mediações ao ritmo da metrópole, o tempoparece passar lento na principal rua do Poço da Draga, a Viaduto Moreira daRocha, as casas mantêm com freqüência as portas abertas, os vizinhosconversam tranqüilamente nas frentes das mesmas enquanto as criançasbrincam ao redor, nos vários botecos homens adultos sem camisasconversam em pé ao balcão do bar ou na rua ñ um tempo lento,provinciano... em uma aparente segurança, em alguma trama de amarrasque a dimensão comunitária parece garantir. Afirmo parecer garantir, porque considero a noção de comunidadeatravés da qual os moradores do Poço da Draga freqüentemente sedenominam, merecedora de olhar mais aproximado. Longe de poder sertomado em sentido puro, ou seja, um sentido que remeta a algumaorganicidade natural como sugerido por Tönnies (1995) , pretendo o uso dotermo comunidade mais de acordo com a proposta de Max Weber, quandoafirma que ìuma relação social denomina-se de ërelação comunitáriaí quando e na medida em que a atitude na ação social (...) repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer (afetiva ou tradicionalmente) ao mesmo grupoî. (Weber, 1994, p. 25). A partir da proposta de Weber, acredito a dimensão comunitária semostrar mais aberta a comportar tanto os interesses ligados a memóriacomum, a pertença, quanto os interesses momentâneos, circunstanciais emuitas vezes conflitivos que os grupamentos humanos suscitam. Os indivíduos, os grupos e a comunidade costuram a sociabilidadelocal, articulam acordos políticos, ao mesmo tempo em que rompem comoutros. No jogo social se sente antes de tudo que se pertence ao Poço daDraga, mas esta concordância parece se encontrar muito distante derepresentar uma acomodação dos interesses diversos. A observação dasmotivações de grupos heterogêneos que vão desde os evangélicos ao tráficode drogas, passando pela Associação de Moradores e outras, ajudarão aquia melhor definir as questões relativas às tensões vividas pela localidadeneste momento de sua história. Berço da ponte metálica, o Poço da Draga em sua ambiência marítimapode nos estimular a questionar o quanto daquele antigo porto ainda anima oespírito do lugar, um porto mais discreto e intimista que o representado peloCentro Dragão do Mar no seu intuito de conectar Fortaleza com o mundoglobalizado, pois voltado para destinos no tempo, na nostalgia do passado,menos que nas ameaças do presente e incertezas do futuro. Se para os moradores da cidade que por ali passam apressados esta
  4. 4. paisagem ambiental pouco pode dizer sobre o passado, por outro lado, paraos habitantes do lugar, em especial os do Poço da Draga, a relação com esteconjunto imagético e de memória pode sugerir pontos de referência seguros,em seus esforços de contínua transmutação de conceitos sociais negativossobre si mesmos, sobre a identidade do grupo e de apaziguamento dastensões internas. Visando uma aproximação deste universo próprio do lugar,relacionado aos sentidos específicos da experiência e da memória daspessoas do Poço da Draga, optei por trilhar os passos de uma etnografiaque, em forma de via de mão dupla entre os interesses do pesquisador e dosatores sociais em questão, suscitasse um quadro interpretativo dos medos,conflitos e angústias historicamente constituídos na comunidade. O caminhoescolhido por mim, então, se adequaria ao que Magnani chama de ìolhar deperto e de dentroî (Magnani, 2002, p. 17), já que, ìa natureza da explicação pela via etnográfica tem como base um insight que permite reorganizar dados percebidos como fragmentários, informações ainda dispersas, indícios soltos, num novo arranjo que não mais o arranjo nativo (mas que parte dele, leva-o em conta, foi suscitado por ele) nem aquele com o qual o pesquisador iniciou a pesquisaî. (Magnani, 2002, p. 17) A experiência da etnografia definida por esse ìolhar de perto e dentroîse contrapõe à visão do universo das grandes cidades como somatório únicode forças econômicas e políticas, das grandes estruturas administrativas einteresses internacionais, em favor dos atores sociais identificados com ocotidiano em suas ações e a interpretação de seu universo simbólico. Necessitando assim, um esforço de estranhamento do observador emrelação aos objetos nascidos da problematização da cidade e seus atores,que pela proximidade, podem parecer tão familiares. Apoiando a perspectiva de Magnani de uma metodologiacaracterizada por ìolhar de perto e dentroî, tomo emprestado deste autor umoutro conceito metodológico, o ìde passagemî (p .18),que parece se adequar bem a esse momento de reconhecimento eaproximação do universo pesquisado. Desta forma, a modalidade ìdepassagemî, ìconsiste em percorrer a cidade e seus meandros observando espaços, equipamentos e personagens (...) com seus hábitos, conflitos e expedientes, deixando-se imbuir pela fragmentação que a sucessão de imagens e situações produzî. (Magnani, p. 18); O resultado pretendido é um mapa representativo dos somatórios dasimpressões a respeito da experiência espacial e de seus sentidos dosmoradores daquela comunidade. Neste resultado suponho que a condiçãode enraizamento dos indivíduos, de criação de laços com o local, possamapontar para a possibilidade da formação de teias de sentido e sociabilidadepróprias, que possam ser reconhecidas por todos os moradores. Nesteesforço metodológico tive como referência o indicativo de MauriceHalbwachs de cruzamento entre espaço, tempo e memória, assim, para esteautor ìo grupo, no momento em que considera o seu passado, senteacertadamente que permanece o mesmo e toma consciência de suaidentidade através do tempoî (1990, p. 86). O ato de rememoração pode ser tomado como uma das estratégiasde refundação da ordem frente a um dos temores que rondam o imaginário
  5. 5. social, a inevitabilidade do tempo e a ameaça de que tudo seja reduzido aruínas ñ à morte. Mais do que isso, os próprios eventos oriundos dastransformações da cidade, do seu crescimento e da especulação imobiliária,ressaltariam esta característica de defesa contra o esquecimento e aaniquilação. A respeito da construção de um sistema simbólico capaz deestruturar o grupo, DaMatta (1997) afirma que, ìcada sociedade ordena aquele conjunto de vivências que é socialmente provado e deve ser sempre lembrado como parte e parcela do seu patrimônio ñ como mitos e narrativas ñ , daquelas experiências que não devem ser acionadas pela memória, mas que evidentemente coexistem com as outras de modo implícito, oculto, inconscientemente, exercendo também uma forma complexa de pressão sobre todo o sistema culturalî. (p. 37) A partir da reflexão de DaMatta, em que medida os atos derememoração ou esquecimento vivenciados coletivamente no Poço da Dragaresponderiam por estas estratégias de resignificação do medo, doperecimento? Quais seriam os processos locais de elaboração desse acervoimaginário e simbólico em vista a tais estratégias? Como se definiria odiálogo entre a ordem simbólica das ameaças externas e as expectativaspessoais e coletivas no interior da comunidade? Enfim, de que se tem medo,quando e como, por quem é composta esta emoção no tempo e no espaçosocial? E diante das evidências de que o medo é também uma forçamotivadora e não só castradora, como age, qual seu poder no local paraimpelir à ação? Os sujeitos com suas narrativas são personagens fundamentaisdestas estratégias. São responsáveis pela guarda de uma parcela dememória local, e esta, ao mesmo tempo em que emerge do grupo, define oslaços de sociabilidade fortalecendo a união, ou possibilidades desta. Como também, os caminhos sobre os quais trafegam as distensões econflitos entre os membros do grupo. Os depoimentos dos moradores podem esclarecer o quanto oimaginário do lugar e das relações locais ali constituídas, podem serimportantes para a construção dos processos de significação e pertença,frente às ameaças de dissolução do território comum, das incertezas, dastensões e ou conflitos internos ligados às mudanças da cidade. Sob a perspectiva analítica das emoções, das quais o medo pareceser um grande vetor de posicionamento dos atores frente ao mundo, comose constroem, naquela localidade, cartografias ligadas à experiência deconviver no cenário de intensas transformações e tensões que a cidadeexperimenta atualmente, e do qual o Centro Dragão do Mar se destaca comoo novo signo de modernidade e progresso? Diante desta atmosfera demodernidade do entorno capitaneado pelo Centro Dragão do Mar, de queforma o sentimento de pertença circunscrito nas tensões se estabelece, e deque maneira é compartilhado pelos que habitam o Poço da Draga? Como seconstituem na especificidade daquela comunidade as relações entre ascadeias da reminiscência enquanto conformadoras dos laços sociais? O caminho para compreensão destas questões parece se encontrarno entrelaçamento entre o presente e o passado, e do resultado destecruzamento, o surgimento do sentido de uma luta contra o aniquilamento epela permanência no lugar. Apoia-se também, na vivência e na relação dosindivíduos na construção de uma visão de cidade a partir desta experiência
  6. 6. diária e nos suportes da memória coletiva.RECONHECIMENTO ETNOGRÁFICO DO POÇO DA DRAGA Após definir alguns sentidos mais gerais do aparato descritivo,conceitual e metodológico sobre o trabalho que desenvolvo na Favela doPoço da Draga passo agora ao momento de apresenta-lo sob forma denarrativa etnográfica dos medos e conflitos, tomando a liberdade mesmo denomeá-la como uma aventura etnográfica, por se tratar de um esforço árduode posicionamento e de aproximação, em busca do esclarecimento do queGeertz chamou de ìuma gramática de significadosî (Geertz, 1989). Ou seja, areconstituição do universo simbólico através de um mergulho interpretativodas pistas oferecidas pelos atores sociais daquela localidade durante estaminha vivência de campo. É um sábado à tarde, por volta das 17 horas. A vida nas ruas do Poçoda Draga aparentemente transcorre na mais tranqüila rotina, mesmo comtodo o processo de preparação, debates acalorados e acompanhamentogovernamental que antecipa a transferência da comunidade para um outrosítio disto 600m de onde está localizada. Para quem visita o Poço da Dragapela primeira vez pode não achá-lo muito diferente da maioria dos bairrospobres ou favelas de Fortaleza. Após sair do estacionamento do Centro Dragão do Mar na avenidaPessoa Anta, por onde a vida da cidade (diurna e noturna) escorre frenética,entramos nessa temporalidade quase adormecida do Poço da Draga73. Escondida da Avenida atrás de um ìparedãoî de edificações é precisopercorrer um pedaço de rua para alcançá-la. Já no pequeno trecho (uns 15metros) da Rua Boris, espremido entre a Agência da Caixa EconômicaFederal e um prédio comercial de etiquetas metálicas (ALUPRINT), pelocontraste entre o dentro e fora, pelo ritmo, a impressão que tenho é de73 Além de mim o grupo compunha-se pela Profa. Linda Gondim do PPGS-UFC e pelaGraduanda em Ciências Sociais e sua orientanda Heloísa de Oliveira, que tambémdesenvolvem pesquisas sobre a área da praia de Iracema e o Poço da Draga. Faz-seimportante ressaltar que neste momento a Praia de Iracema e o Poço da Draga centralizama atenção de grande número de pesquisadores devido aos profundos e diversos sentidos demudança urbana que ensejam.chegada noutro mundo: a descoberta de uma outra cidade (pobre) nocoração da Fortaleza up to date. Um container de lixo remexido recebe atodos, simbolicamente demarcando os sentidos daquela territorialidade emrelação ao entorno sofisticado. Ultrapassado o container, chega-se ao trecho mais largo da ruaGerson Gradvoll, antes que esta se bifurque uns 100 metros à frente paraformar também a rua Viaduto Moreira da Rocha. O cenário que se abre écomposto por casas simples de alvenaria com reboco e pintadas, outrasmuitas, sem reboco e sem pintura, além de algumas poucas de madeira74.Aproveitando a menor intensidade do sol, muitas pessoas se encontram emfrente as suas casas, na sua maioria mulheres conversando em pé (aqui eacolá pode ser visto um homem ou um grupo deles). As crianças brincam narua, correm e jogam bola. Nada que chame muita atenção. Andando alinaquele momento sentia que chamava a atenção pelo simples fato de seruma pessoa estranha ao lugar, por onde passava era possível sentir, mesmosem virar o rosto, os olhares inquiridores sobre este visitante vespertino.
  7. 7. Para esta empreitada me lembrava daquela conversa que tive com D.Rocilda (residente há mais de 40 anos no local), quando dizia que a favelaìera um lugar de gente ordeira e trabalhadora, que lá não tinha violêncianãoî, e confusão, quando tinha, ìera provocado por gente de foraî. Buscava me lembrar daquela conversa também para me tranqüilizarinteriormente, para vencer meus receios de adentrar num universo para oqual eu era completamente estranho, e também, porque até pouco tempo, euconvivia com minhas próprias pré-noções sobre a insegurança na região. Também trazia em mente, as informações e entrevistas commoradores obtidas através dos jornais sob o calor do anúncio75 do projetodo Centro Multifuncional de Eventos e Feiras do Ceará. Bem como dasnotícias nos jornais desta época que chamavam a atenção para aumentorepentino da violência no entorno do Centro Dragão do Mar. Destaque aqui,para os furtos a automóveis e turistas, venda e consumo de drogas,prostituição infanto-juvenil e brigas. O que resultou em muitas reuniões deentidades da sociedade civil com representantes do Poder Público, além dainstalação de uma Delegacia especial em um prédio anexo ao Dragão Nas matérias jornalísticas que versavam sobre o projeto do CMEFC esuas conseqüências para o Poço da Draga, alguns moradores foram ouvidosmanifestando tanto receios quanto esperanças frente à proposta de remoçãoda comunidade para um novo lugar onde seria construído um condomíniopara abrigá-la.Nestes relatos se confundem traços de identificação com o lugar, com osreceios da mudança. O temor frente ao desconhecido tornado esperança queo projeto do CMEFC traga benefícios para a população em termos deocupação, renda e infra-estrutura. Como também, traços de posturas que oestímulo da nova ameaça de remoção provocam em termos de elaboraçãode estratégias de negociação com o poder público e a acomodação dainquietude interna entre os próprios membros da comunidade.74 Segundo Censo Habitacional realizado no Poço da Draga pela SEINFRA (imóveiscadastrados), são 242 casas de tijolo, 20 de madeira e 1 de outro tipo de material deconstrução. O material utilizado nos pisos: 219 de cimento, 23 de cerâmica, e 6 de areia oubarro. Existência de vaso sanitário: 203 possuem vaso sanitário, 60 não. (SEINFRA, 2001)75 Meados do ano de 2001. Assim, o senhor Edmar de Lima (65 anos), pintor, morador do local há54, afirma: ìsó acredito vendoî, se referindo à eminência da desapropriação,ressaltando que a transferência deverá demorar por ser o projeto do CMEFC,ìgrande e caroî, e que passou a vida ouvindo notícias que sairiam dali.Também ressalta que apesar das melhorias pelas quais passou o local aolongo dos anos, pois antes “era só areia e mato”, ainda falta segurança esaneamento. Dessa forma, para ele ìa segurança somos nós mesmosî. A afirmação da ausência do poder público para garantir a segurançana localidade, ressalta o aspecto da existência de alguns conflitos e tensõesinternas, que precisam ser constantemente equacionados, levantandodúvidas sobre uma pax comunitária plena, algo como D. Rocilda haviaafirmado. Abrindo margem para futuros questionamentos sobre esse campoda construção das relações entre os moradores, e entre estes e os estranhosao lugar ou ao espírito e valores comunitários, que seriam responsáveis porparte desta violência, como brigas e tensão associadas, por um lado, àvenda e consumo de drogas, e por outro, pela não colaboração, e atésabotagem, das ações de negociação com o Poder Público. Como afirma Dos Santos (1981), para distinguir os ìmoradores plenosî
  8. 8. dos ìnão-moradoresî na favela do Catumbi no Rio de Janeiro, foi precisoìevocar um ëespíritoí para o bairro; a identificação com uma série desímbolos, a adesão e o respeito a um conjunto de comportamentos quequalificariam o moradorî (Dos Santos, 1981, p. 200). Conceitualmente também, a experiência do Poço da Draga talvez seaproxime da realidade descrita por Elias & Scotson (2000) sobre aComunidade de Winston Parva, na qual se estabeleceram relações de poderque discriminavam os moradores que não possuíam raízes ligadas aosfundadores do grupo. E assim, por não se integrarem organicamente àcomunidade seriam sempre tomados como suspeitos pelos ìnatosî. Numa das primeiras visitas ao Poço da Draga, o grupo formado pormim e mais duas colegas foi abordado por um morador que nos interrogousobre nosso interesse no ìlocalî77. Mostrava-se bastante irritado com oprojeto e a postura tomada pela Associação dos Moradores frente a este. Para ele ìas pessoas estavam sendo enganadasî e que os ìnovosapartamentos eram uma pocilgaî. Ficava cada vez mais exaltado à medidaque falava do projeto, e atacou tanto a Associação quanto sua presidente, D.Rocilda, chamando-a de analfabeta e incompetente. Outros aspectos interessantes na fala do Sr. ª se referem à questãoda violência, quando indagado sobre o assunto, respondeu que não háviolência no Poço da Draga, e que lá você pode andar na rua à noite na horaque quiser que não existe perigo. E também, durante toda a sua fala não sereferiu em nenhum momento ao Poço da Draga como uma favela. Retomo então o argumento de que os personagens tendem a nãoassumir a condição sua própria condição conflitiva. Apontam sempre paraum outro, seja uma pessoa, grupo, situação ou interesse. Dessa forma talvezse resguardando emocionalmente e garantindo moralmente a salvaguardade sua pessoa? Uma representante da Associação dos Moradores, em um momentoposterior (dia 09/06/2002), quando indagada sobre as posições do Sr. A,afirmou que ele não tinha interesse na transferência da comunidade porquetinha envolvimento com o tráfico de drogas. E que, além disso, ele tinha fichana polícia, enfim, não era uma pessoa comprometida com os interesses dacoletividade, ou mesmo, um indivíduo desqualificado frente ao grupo. Essa diáspora entre interesses e pessoas no Poço da Draga tambémse destacou na Reunião de trabalho realizada por um dia inteiro em11/05/2002, no auditório central do Campus do Itaperi da UECE, a qualacompanhei78. No período da tarde me acompanhei as discussões noworkshop 76 PintorAcredita que o Projeto vai Demorar. Jornal O POVO, 22/02/2002. 77 Os moradores do PD às vezes se referem ao local como bairro. 78 Esta reunião serviu para apresentar e discutir com os moradores, através de workshps temáticos (Pertença, Violência e Cidadania, Memória, Cultura e Lazer, Ações Educacionais, Formação Profissional), os objetivos de cada projeto de atuação dos órgãos (SEINFRA, SEBRAE, SINE, SENAC, SETAS, IDT/PEQ) em função do Poço da Draga.Violência e Cidadania. Ouvindo os relatos dos moradores que participaramficou claro que a violência que mais identificam é a relacionada com o tráficode drogas e suas conseqüências. Após as apresentações dos técnicos e dos primeiros objetivosdaquele encontro, o professor da UECE que facilitava a reunião perguntou:ìQue tipo de violência existe no Poço da Draga?î. Durante alguns angustiantes minutos, o silêncio foi a resposta. Após
  9. 9. uma nova tentativa e da reformulação da abordagem, alguém, se manifestou:ìa droga, o problema lá é droga!î. Alguns instantes depois, um rapaz afirmou:ìo pessoal que assalta e consome drogas é de fora, mas isso não quer dizerque lá também não tenhaî79. Um morador antigo do Poço da Draga, Seu Ribamar Santos (67 anos)afirmou: ìé fácil identificar quem trafica, basta perguntar a quem não querpermanecer com os mesmos vizinhosî. E como solução, arrematou: ìsó temuma solução, tirar os elementos ruins pra outro lugar, o Pirambuî.80Os mapas imaginários relacionados às experiências do medo e da sujeiçãono Poço da Dragaalém de apresentarem ìmecanismosî eficientes deidentificação dos outsiders, para utilizar a expressão de Elias & Scotson(2000), também operam muito bem na significação e hierarquização espacialdo lugar. Desta forma, o Poço da Draga é representado pelos seusmoradores como dividido por duas grandes áreas: a Aldeota (alusão aobairro mais chique de Fortaleza) e o SERVILUZ (favela portuária deFortaleza atual zona de prostituição). Na primeira estariam as casas demelhor padrão construtivo, portanto mais caras do Poço da Draga(localizadas nas duas ruas principais). Na segunda, as casas mais pobres,periféricas ou em locais de difícil acesso como nos becos, entre outrascasas, ou nas áreas mais úmidas81. Estes mapas imaginários podem localizar as hierarquizações,relações de afeto e desafeto, tanto de origem internas à comunidade quantono exterior. Assim, localizadas, contribuem para estimular reações e atitudesfrente às sujeições simbólicas e materiais que afligem a vida destas pessoas,não só em relação só espaço, mas também em relação ao tempo. Através da constituição destes mapas simbólicos as emoções vãodando o tom das descrições dos momentos e dos lugares pelos moradores.As reações frente angústia e a sujeição se manifestam não apenas comodesespero e ira, mas com negociações simbólicas delicadas, objetivandodirimir os efeitos da sujeição, podem ser discernidas observando as ações efalas dos moradores. Como exemplo deste tipo de operação de requalificação pelosindivíduos, dos sentidos da opressão vividos naquele cotidiano (emmodulações de ação), podemos observar algumas narrativas referentes àsameaças simbólicas em curso e as passadas, neste caso a memória é quasesempre o seu veículo. Assim, a observação do atual processo detransferência da comunidade promovida pelo Governo do Estado e a formacomo a ele reagem os moradores pode apresentar boas pistas paraseguirmos. Antes do atual desassossego diante da eminente transferência, acomunidade convive desde muito tempo com um clima de tensão com umoutro vizinho de peso, a proprietária da Indústria Naval do Ceará ñ INACE,Elisa Gradvoll, que ocupou, com o aval da Marinha, parte costeira da área dafavela nos anos 60 para instalação de um estaleiro, obrigando muitosmoradores a se mudarem. Alguns permaneceram onde hoje é o atual Poço da Draga. Ao longodesse tempo a INACE vem 79 Este silêncio pode ser uma evidência das violências ali existentes, cotidianas einvisíveis, como em todo lugar,mais difíceis de serem assumidas: violência contra mulher, violência doméstica, contracrianças etc. e outras sofridasna rua ou no trabalho (ou na falta dele) diariamente. Uma adolescente até esboçou um ìachoque existe desrespeitocom as mulheresî, mas os homens, que eram maioria não deram atenção e sua observação
  10. 10. ficou no vazio.80 Considerada a maior favela de Fortaleza (zona Oeste) e uma das mais antigas. Conhecidatambém por estar semprena mídia como cenário de manchetes violentas.81 O Poço da Draga é cortado por um riacho e ainda possui uma pequena área de mangueremanescente. Até o iníciodos anos 90 (antes das obras de drenagem da praia de Iracema, elevação do nível epavimentação das ruas do Poçoda Draga) eram freqüentes inundações na favela, principalmente quando coincidia comfortes chuvas, maré cheia e asressacas. Na época ela ainda era considerada área de risco. Depois das obras da prefeituraa maioria das casas foielevada para o novo nível rua (quase 1 metro de diferença).avançando fisicamente sobre pequenas porções de terreno do Poço daDraga. Segundo uma moradora (37 anos), ìnascida e criada aquiî, como sedefine: ìD. Elisa não presta, ela quer mesmo é botar todo mundo pra fora daqui.Cercou aquele terreno ali [apontando] da continuação da Viaduto Moreirada Rocha, e agora cercou pra ela um terreno onde haviam umas casas queforam desapropriadas pela prefeitura por serem área de risco [ficavam àbeira-mar e sujeitas a ação das ressacas]. Ela não quer nem saber, botacerca, segurança e prontoî82.Em seguida, fala com carinho da época em que era criança e junto com osirmãos ia tomar banho na praia onde hoje é a INACE. Mostra-me uma foto doinício dos anos setenta (não consegue determinar a data) onde ela e seusirmãos, ainda crianças ou adolescentes, estão em roupas de banho,molhados e aparentemente muito alegres sobre o paredão Hawkshaw83 A partir das informações desta moradora, como de outros, estemomento parece marcado por uma sucessão de emoções na qual nostalgiae tensão se mesclam, apontando para um resultado emocionalaparentemente contraditório sobre os eventos atuais e o balanço de suasvidas naquele pedaço da Praia de Iracema. Parece inclusive haver umretorno constante de um certo tipo de ameaça mais evidente, a de remoção,e das conseqüências emocionais destas na vida dos moradores. Porém, estaameaça se apresenta sempre requalificada de acordo com os interessesenvolvidos e a conjuntura política de cada época, como também os são asformas de reação e negociação da comunidade a estes momentos. A nostalgia é uma outra emoção presente no Poço da Draga sobefeito da atmosfera da mudança. Na plenária final da reunião de trabalho entre Governo e osMoradores, na UECE em 11/05/2002, uma moradora, D. Iolanda narrouemocionada seu sofrimento pela perspectiva de perda de seu quintal, no qualrealiza reuniões, rezas e festas. Disse que é chamado pelos vizinhos deìpantanal da D. Antôniaî84., que não agüentaria viver sem suas plantas, quecultiva no ìpantanalî. Ao final de sua fala, perguntou ao Coordenador doprojeto se não haveria um lugar como seu quintal no novo condomínio, ondepudesse cultivar suas plantas e reunir seus familiares. Com a resposta deque haveria o jardim do prédio e o salão de recepções, D. Iolanda chorou.CONCLUSÃOEsta primeira investida no campo tornou claro para mim as dificuldades e asrecompensas de travar um contato tão aproximado com os atores sociaisque compõem o Poço da Draga, ou uma realidade semelhante. Dificuldadepor exemplo, em ser aceito. O desafio permanente de enfrentar, nas palavrasde Geertz, ìuma multiplicidade de estruturas conceituais complexas, muitas
  11. 11. delas sobrepostas umas as outrasî (p. 20), numa realidade para qual sou umabsoluto estranho. Assim, a sujeição do pesquisador não só ao acerto, mas sobretudo àsincertezas, escorregões e recomeços neste esforço interpretativo podemapontar para situações inusitadas que exigem ìpresença de espíritoî ou bomsenso, pois as surpresas acontecem a todo o momento e posturas eposições podem ser e são cobradas do observador. Uma dessas situaçõesdelicadas é de me82 Entrevista concedida ao autor em 15/06/2002.83 Construído na década de 1880 pelo engenheiro inglês John Hawkshaw, para abrigar oprimeiro porto de Fortalezae que fracassou devido à ação das correntes marinhas, o que levou a formar uma ìpiscinaîde águas protegidas.Abandonado o projeto, a praia serviu por muitos anos de atracadouro para jangadas ebanhos de mar dos moradorespobres da área.84 Provavelmente uma alusão à região úmida e baixa onde se encontram quase todos osquintais das casas da ruaViaduto Moreira da Rocha do lado do Poente.88encontrar as vezes no papel de confidente de posições políticas antagônicasno Poço da Draga, fato que começa a exigir cada vez mais ìjogo de cinturaîde minha parte, e que exige deixar claro que estou ali de passagem eportanto só ocupo o espaço social de suas vidas momentaneamente. Comecei a desenvolver a consciência neste processo deaproximação, que mesmo o sucesso vem a reboque das parcialidades,quando as mais firmes certezas são reduzidas rapidamente a pouco além deespeculações sem fundamento para, numa virada repentina, observaratravés dos novos contatos e, ou, dos novos sinais que a dinâmica social meapresenta a reabilitação daqueles insights que quase foram para o lixo.Processo de encontro e de perdas, este caminho etnográfico tem um começomais ou menos claro como o exposto no início deste texto, porém sujeito àsdúvidas das conclusões que trará ao final.

×