Imagos virtuais: imagem, morte e eternidade em plataformas ciberespaciais de relacionamento

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Artigo integrante da programação da 6ª Conferência Mídia, Religião e Cultura, promovida em 2008 pela Metodista. Disponível no CD-ROM dos anais do evento (ISBN 978-85-7814-048-99).Artigo integrante da programação da 6ª Conferência Mídia, Religião e Cultura, promovida em 2008 pela Metodista. Disponível no CD-ROM dos anais do evento (ISBN 978-85-7814-048-99).

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Imagos virtuais: imagem, morte e eternidade em plataformas ciberespaciais de relacionamento

  1. 1. IMAGOS VIRTUAIS: Imagem, morte e eternidade em plataformas ciberespaciais de relacionamento 1 Cíntia Dal Bello2 Resumo: Este artigo observa a situação sui generis de profiles (perfis em comunidades virtuais de relacionamento, como o Orkut) que permanecem online após a morte concreta de seus usuários, bem como o impacto do fenômeno no imaginário religioso dos demais internautas e as práticas culturais decorrentes. Para tanto, sinaliza a natureza fantasmagórica das imagens (de acordo com Debray, Kamper, Morin e Baitello Jr.) nos processos de espectralização da identidade no cyberspace (Virilio, Baudrillard, Trivinho, Dal Bello). A natureza fantasmagórica das imagens Ao mesmo tempo que se pretenderá imortal, o homem designar-se-á a si próprio como mortal. (MORIN, 1988, p. 26). O nascimento da imagem está envolvido com a morte. Mas se a imagem arcaica jorra dos túmulos é por recusar o nada e para prolongar a vida. (DEBRAY, 1994, p. 20). A consciência da morte está inextricavelmente ligada ao desabrochar da individualidade, razão pela qual se relaciona com o processo de humanização e civilização. Desperto do sono-natureza, o ser humano ergueu-se, paulatinamente, no contínuo empreendimento de domesticar a selvageria de seu entorno e a sua própria ferocidade, concentrando parte de seus interesses em lidar com o terror do nada-ser, ou do nunca-mais-ser, da morte. Para Morin (1988, p. 31), por trás da dor dos ritos funerários, do horror à decomposição do cadáver e da obsessão pela morte, encontra-se o medo primeiro: “a perda da individualidade”. Frente à carcaça de um animal ou de um inimigo, o ser humano pode enojar-se, mas não necessariamente se comover; entretanto, quando aquele que está morto é reconhecidamente um semelhante, com o qual há identificação, o horror se põe como antevisão da própria tragédia e a dor se faz maior sempre que o morto é sentido como único e insubstituível. 1 Artigo integrante da programação da 6ª Conferência Mídia, Religião e Cultura, promovida em 2008 pela Metodista. Disponível no CD-ROM dos anais do evento (ISBN 978-85-7814-048-99). 2 A autora é mestranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PEPGCOS-PUC/SP) e bolsista CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). Sua pesquisa é orientada pelo Prof. Dr. Eugênio Trivinho sob o título (provisório) de Cibercultura e subjetividade: uma investigação sobre a identidade em comunidades virtuais de relacionamento. E-mails: pubcintia@yahoo.com.br; cbello@uninove.br.
  2. 2. A individualidade que se revolta perante a morte é uma individualidade que se afirma sobre a morte. A prova experimental, tangível, desta afirmação é a réplica à putrefação, a imortalidade, que é a afirmação da individualidade para além da morte. (...) O caráter categórico, universal, da afirmação da imortalidade é da mesma craveira do caráter categórico, universal, da afirmação da individualidade. (MORIN, 1988, p. 34). A consciência de si implica o reconhecimento das fragilidades e limitações que concorrem diretamente com a preservação da própria vida. Nascimento e morte, contrapostos, constituem uma das mais importantes oposições binárias3 desde os primórdios da cultura humana, dualidade que marca a percepção e compõe valores polarizados e assimétricos, tais como luz e sombra, dia e noite, começo e fim, bem e mal (BYSTRINA, 1995, p. 7-8). Nesse sentido, Baitello Jr. (1997, p. 70) lembra que os mitos e os rituais mágicos, entre outros artefatos culturais, compõem estratégias de superação destas dualidades, reconfigurando as assimetrias. A morte, apesar se ser (e exatamente porque é) pólo negativo da vida, comparece simbolicamente instituída como ambivalente (mortalidade e imortalidade). Desde os vocabulários mais arcaicos é considerada como um sono, uma viagem, um nascimento, uma doença, um acidente, um malefício, uma entrada para a morada dos antepassados “e, o mais das vezes, [como] tudo isto ao mesmo tempo” (MORIN, 1988, p. 25). As práticas funerárias e o trato dos mortos, conforme demonstrado por Frazer (apud MORIN, 1988, p. 25), indicam a força, por que não dizer universalidade?, da crença na imortalidade, ou seja, “no prolongamento da vida por período indefinido, mas não necessariamente eterno”, já que a noção abstrata de eternidade é tardia. As imagens nascem nesse caldo paradoxal em que o ser vivo, mortal, aspira à imortalidade, obsessão que revela, muitas vezes em detrimento da própria vida, a aguda preocupação com a conservação da individualidade após a morte. As imagens surgem, de acordo com Kamper (2002, p. 9), contra o medo da morte e, por isso, a elas “se prendem os desejos de imortalidade”. Nascem como mortalhas que, exatamente por serem o que são, só podem fazer lembrar aquilo que pretendem esconder e fazer esquecer: se imagens são presenças de ausências, são o próprio retrato do vazio. Nesse sentido, Debray (1994, p. 29-30) assinala que, ante o traumatismo da visão do cadáver, presença/ausência inominável, restou ao ser humano a contramedida de recompor em imagem aquilo que 3 Os pares de opostos direita/esquerda (relativo ao próprio corpo) e masculino/feminino (relativo ao outro que complementa) também são significativas matrizes constitutivas do dualismo fundador da cultura.
  3. 3. se decompõe: ao fazer “um duplo do morto para mantê-lo vivo”, o ser humano deixa “de ver esse não-sei-o-quê em si”, “de ver a si mesmo como quase nada”. A natureza fantasmagórica das imagens e sua relação com o mito arcaico do duplo pode ser inferida a partir da etimologia. Imagem, do latim imago, refere-se primeiramente à máscara mortuária modelada em cera a partir do próprio rosto do morto, utilizada nos rituais funerários e guardada “em casa nos nichos do átrio, a salvo, na prateleira” (DEBRAY, 1994, p. 23). Simulacrum significa espectro e eídolon, a alma dos mortos. Só depois estas palavras passaram a significar imagem, retrato. O eídolon arcaico designa a alma do morto que sai do cadáver sob a forma de uma sombra imperceptível, seu duplo, cuja natureza tênue, mas ainda corporal, facilita a figuração plástica. A imagem é a sombra; ora, sombra é o nome comum do duplo. (DEBRAY, 1994, p. 23). Em seus estudos sobre fotografia, Morin (1997, 51-52) assinala a capacidade humana de inocular na imagem “o vírus da presença”, tornando-a objeto de adoração, de posse, de culto e de apropriação em rituais ocultistas. Como materialização ou cristalização de lembranças, a fotografia presta-se à prática da recordação, substituindo, nos lares, amuletos, estatuetas e outros objetos que poderiam constituir símbolos ou índices de lugares e momentos específicos; a troca de imagens entre os apaixonados, que beijam-nas quando saudosos e rasgam-nas quando a relação termina, “realiza magicamente essa troca de individualidades, em que cada um se torna não só ídolo como escravo, e que constitui o amor” (MORIN, 1997, p. 38); nas práticas magísticas, ocultistas e espíritas, opera-se à distância sobre a imagem fotográfica de uma pessoa com finalidades diversas: “Quer isto dizer que a fotografia é, no sentido estrito do termo, presença real da pessoa representada, que nela se pode ler a sua alma, a sua doença, o seu destino. E mais: que se torna possível agir por seu intermédio e sobre ela” (MORIN, 1997, p. 39). O que pensar, então, do curioso medo de que a câmera fotográfica aprisione a alma na materialidade da fotografia? O que parecem ser propriedades da fotografia são propriedades do nosso espírito, que nela se fixaram, e que ela nos devolve. Em vez de se procurar na coisa fotográfica a qualidade tão evidente e profundamente humana da fotografia, dever-se-á partir do homem... A riqueza da fotografia reside, de fato, no que nela não existe, mas que nela é projetado e fixado por nós. (MORIN, 1997, p. 41).
  4. 4. O estranhamento experimentado diante da própria imagem revela o paradoxo fundamental da complexidade humana: a não-identidade na identidade (MORIN, 2005), relativa ao saber-se idêntico à sua própria imagem e, ainda assim, não sentir-se representado completamente nela. Eis o que expressa o mito do duplo, sombra zombeteira ou maléfica que foge ao controle de seu senhor (como em Peter Pan), figuração que envelhece no lugar do original (como acontece com Dorian Gray), alma que se desgarra do corpo físico, durante o sono ou após a morte (o vampiro não tem reflexo porque já é o próprio duplo em sua eternidade amaldiçoada). Quando a fotografia, imagem material, parece revelar uma qualidade que o original não possui, revela em si sua natureza de duplo. Embora possa ser considerada ontologicamente inferior ao que representa (de acordo com os pressupostos platônicos), a realidade- fantástica do duplo é assustadoramente mágica. Mas, se o duplo é o reflexo, a sombra, o fantasma... ele também é a ausência. Ausência, sobretudo, do sujeito que, atônito, observa do lado de fora do espelho: até que ponto sou a minha própria imagem? Sartre diz que ‘a característica essencial da imagem mental é uma certa forma que o objeto tem de estar ausente na sua própria presença’. Acrescente-se, também, o recíproco: de estar presente na sua própria ausência. Como igualmente diz Sartre, ‘o original encarna- se, desce à imagem’. A imagem é uma presença vivida e uma ausência real, uma presença-ausência. (MORIN, 1997, p. 42). Wolff (2005, p. 30-31) sinaliza os três graus de ausência passíveis de representação pela imagem: (1) a acidental, quando aquele que está representado não se encontra presente mas pode fazê-lo a qualquer momento – neste caso, a imagem é um artefato de substituição e consolo; (2) a substancial, quando a ausência do que já esteve presente é irreversível e a consciência da falta soma-se a agonia da saudade – caso dos momentos passados, da infância distante e dos mortos queridos; e, por fim, (3) a absoluta, ou seja, aquilo que é, em essência, ausente deste mundo: os seres sobrenaturais ou transcendentais e os deuses; neste caso, a imagem engendra a ilusão de que emana diretamente do invisível que representa, “e não daquele que a fez. É como se os dois tipos de imagens, o retrato e o fantasma, se confundissem” (WOLFF, 2005, p. 32); é como se o próprio ausente pudesse se manifestar por meio da imagem. Entre a representação do acidentalmente ausente (apenas ocasionalmente invisível, razão pela qual a imagem consola) e do absolutamente ausente (portanto, “divinamente” invisível),
  5. 5. as imagens visíveis têm o poder de representar as coisas passadas ou os seres defuntos, que não são nem inteiramente visíveis nem inteiramente invisíveis. E é nesse nível que há concorrência entre dois tipos de imagens nas crenças populares: as verdadeiras imagens feitas pela mão do homem e que têm o verdadeiro poder de representar os mortos, e as imagens ilusórias, com as quais imaginamos que os mortos se apresentem. (WOLFF, 2005, p. 31). Em sua luta ancestral para vencer a morte e imortalizar o que não pode mais ser, o homem, ainda hoje, produz e consome imagens. Entretanto, a revolução tecnológica e a digitalização das informações, a comunicação em tempo real e o advento do cyberspace, a configuração de uma sociedade que se articula em rede e avança nos processos de espectralização da existência redimensionam, no macro contexto da era da visibilidade mediática (TRIVINHO, 2007, 2008), novas (velhas) práticas culturais. Para além de uma sociedade espetacular que se embevece diante do speculum (espelho) televisivo porque nele se reconhece em um pacto de fantasia coletiva, vive-se como imagem no próprio speculum cibertecnológico das comunidades virtuais de relacionamento: o que não são os perfis senão carcaças-sígnicas com as quais os usuários configuram sua mediática aparição-presença? Nesse sentido, Kamper (2002, p. 11) afirma que os homens de hoje vivem nas imagens do mundo, de si próprios e dos outros homens – uma permanência imaginária que conduz à condição de uma vida morta. Já que às imagens se prendem os desejos de imortalidade, fazer uma imagem do corpo humano “significa alinhá-lo na falange dos mortos-vivos, dos espectros e fantasmas”. Essa compreensão permite que se tome as representações do eu na virtualidade por espectros ciberculturais. Espectros do Orkut O cyberspace pode ser compreendido como arquitetura tecnológica cuja trama, em rede invisível, engendra mecanismos de vigilância e de controle, conforme os aportes crítico-teóricos de Virilio (2000) e Trivinho (2007). Dentre os diversos arranjamentos que interfaceiam o fluxo de informações e a comunicação em tempo real, as comunidades virtuais de relacionamento se destacam por constituírem refinados ambientes de visibilidade mediática; são espaços de exposição do eu que permitem aos sujeitos se circunscreverem no irrefreado fluxo informacional. Neste estudo, toma-se o Orkut como exemplar em virtude de ser, ainda hoje, a rede de contatos pessoais mais popular no Brasil.
  6. 6. Diferentemente dos chats públicos, onde a associação4 entre usuários é provisória por ocorrer apenas no momento em que os sujeitos, identificados por seus nicknames, estão conectados à sala para interagir, o Orkut sinaliza a possibilidade da permanência (mesmo que se desconecte da rede, o perfil do usuário ou as discussões encetadas nos fóruns comunitários permanecem disponíveis) e da atualização (sempre que está online, o sujeito pode reconfigurar o seu perfil, publicando textos, imagens e vídeos; ao percorrer outros perfis, participar dos fóruns e deixar recados em scrapbooks, colabora para atualizar o próprio ambiente). Além disso, o espectro formado pelas páginas-informações que identifica o sujeito e circunscreve suas fronteiras em relação ao outro também comporta a intersubjetividade: há introjeção do “nós” no “eu”, já que parte constitutiva do perfil é exatamente o conjunto de relações expresso sob a chancela de “meus amigos”. É assim que cada “eu” encontra-se multiplicado ao longo dos “nós” da rede de relacionamentos; a imagem de cada “amigo” é, na verdade, um hiper-ícone que remete ao universo subjetivo devidamente “perfilado”. Se para estar no Orkut é preciso projetar as imagens constitutivas de si mesmo em um arranjamento lúdico, dinâmico e espectral, ser no Orkut exige que se revista desse ruidoso conjunto para andarilhar, espiar, assombrar e deixar rastros. A permanência e ubiqüidade do perfil, a despeito do sujeito não estar sincronamente conectado, permite que se afirme que, no cyberspace, é possível estar sem ser. Em seus desdobramentos, o fenômeno da espectralização generalizada da existência em prol da teleexistência interativa implica não apenas a transformação do mundo em imagens ou da mediatização das relações pelas imagens; trata-se, também, da experimentação da própria vida na realidade hiperespetacular dos corpos tecno-fantásticos, estética- instrumental de individuação e marcação da identidade. Em trabalho anterior, investigou-se a constituição do espectro virtual de acordo com os parâmetros (ora antagônicos, ora complementares) da representação e da simulação (o duplo como reflexo e como sombra, respectivamente) para compreender a natureza das práticas relativas à alimentação do sistema informacional na composição de imagens do “eu” (DAL BELLO, 2007b). Parte das conseqüências desta alimentação gratuita e muitas vezes ingênua, levada a cabo como passatempo, também já foi aventada na denúncia de um regime avançado de indexação sígnica (DAL BELLO, 2007a). O presente estudo tem por objetivo registrar e refletir sobre os rituais que 4 A associação pode ocorrer por tema, faixa etária ou sexo, entre outras possibilidades de estratificação desses canais de conversação.
  7. 7. amalgamam, também no cyberspace, imagem, morte e eternidade: a imortalidade do perfil que permanece online após a morte do usuário-sujeito e seu contraponto, a morte da imagem-perfil, expressa como orkuticídio. A hiper-realidade dos perfis desencarnados O não abandono dos mortos implica a sua sobrevivência. (MORIN, 1988, p. 25). A comunidade Profiles de Gente Morta (PGM)5 , criada em dezembro de 2004, tem mais de 48 mil membros associados e nove comunidades relacionadas.6 O principal objetivo de seu fórum é pesquisar e divulgar a morte de usuários do Orkut. Aqui vemos como, de uma hora para a outra, nossa vida acaba e deixamos tudo para trás, inclusive banalidades como Orkut, Fotolog, MSN, etc... Banalidades essas que, por vez, podemos chamar de "rastros virtuais". Mas o que são esses rastros?? Seriam eles úteis?? Um conforto para quem fica?? Uma imortalidade virtual?? Bom, estamos aí para discutir... Queremos que vc poste o profile de algum conhecido seu que tenha falecido ou algum profile que vc conhece. Não é permitido brincadeiras de má intenção, bem como falta de respeito com os mortos. Deixo claro também que sou contra qualquer tipo de violência e jamais faço apologia a morte aqui nessa comunidade. Sem mais, desejo que todos descansem em paz... Ass.: Guilherme Dorta Tabela 1: Texto de apresentação da comunidade Profiles de Gente Morta (PGM) Para cada notícia de falecimento abre-se um tópico na lista do fórum; os títulos trazem os nomes dos mortos identificados entre cruzes (figura 1). Cada tópico contém, necessariamente, o hiperlink para acesso ao perfil do falecido; além disso, pode informar a causa7 do óbito. Conhecidos e, sobretudo, desconhecidos, manifestam seu pesar tanto no fórum quanto no scrapbook do perfil recém-desencarnado; nestes também ocorre o vandalismo virtual, expresso como mensagens difamatórias ou de baixo calão deixadas por perfis anônimos ou falsos (fake profiles). 5 Disponível em: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=993780. Acesso em: 01/06/2008. 6 Dados de junho de 2008. Comunidades relacionadas: Eu já chorei lendo a Profiles (1484 membros); Gente morta sem profile (1359 membros); Sou viciado na Profiles (876 membros); Eu adoro a PGM (775 membros); PGM – Investigações (741 membros); Se eu morrer, me enterre na PGM (557 membros); Eu sou um pegeêmico – PGM (215 membros); Não ao RIP e DEP nos profiles (135 membros); e A PGM não me deixa trabalhar (28 membros). 7 Na enquete da própria comunidade, 2205 usuários responderam a seguinte pergunta, formulada em agosto de 2007: que tipo de morte mais aparece aqui na PGM? Resultado: suicídio (29%), acidente de carro (28%), acidente de moto (14%) e homicídio (14%).
  8. 8. Figura 2: Fórum da PGM, imagem capturada em junho de 2008. Em novembro de 2007, um tópico divulgou o suicídio de G8 . Cerca de 500 mensagens, além de condolências, passaram a especular as razões que a levaram a esse ato extremo. No trabalho coletivo de “investigação”, após analisarem fotos e mensagens dos perfis de parentes e amigos da falecida, os internautas chegaram à possível conclusão de que G. havia se matado por não suportar a ausência ou indiferença de seu filho, cujo comportamento aparentemente era motivado pelo pai, ex-marido de G. O mais inusitado, entretanto, era o álbum do perfil da própria G. No conjunto, imagens e legendas formavam uma hiperespetacular carta suicida endereçada ao filho e aos pais: “Nossa senhora cubra meu filho com seu manto de amor. Guarda-o na paz desse olhar...”; “Meu filho, minha vida, mainha te ama muito, viu!!! Serás um grande homem, em nom...”; “Saudades eternas... Meus Paizinhos, sempre os amarei, sempre estarão em meu coraç...”. G. também se preocupou em postar imagens artísticas em preto e branco que simbolizam a sensualidade feminina, a tristeza (lágrima) e a angústia (prostração), respectivamente (ver figura 2). 8 Embora o Orkut seja um publicador de perfis, ou seja, aquele que entra na rede tem ciência de que o conteúdo gerado será público, optou-se em preservar a identidade de G., abreviação do apelido registrado em seu perfil.
  9. 9. Figura 2: Álbum de G., imagem capturada em novembro de 2007. O trabalho de atualizar o álbum (escolha das imagens e composição das legendas) e tratar a sua própria imagem (a chamada “foto do perfil”), conferindo-lhe um aspecto aéreo, espectral, permite supor que G., embora se dirija apenas ao filho e aos pais, tinha interesse em assegurar e legitimar, na visibilidade ciberespacial, o quanto os amava, de forma que seu suicídio não fosse compreendido como ausência de amor. Esta preocupação sobrepôs-se à necessidade de justificar sua atitude e expressa, de forma indireta, um cuidado com sua imagem pós-morte. Seu perfil é sua imago, sua máscara mortuária virtual, sua última imagem – a imagem que postulará o quanto era sublime seu amor de mãe, apesar de suicida. Para Debray (1994, p. 25-26), “a transposição em imagem (...) é o melhor que acontece ao homem do Ocidente porque sua imagem é a sua melhor parte: seu ego imunizado, colocado em lugar seguro”. O perfil mumifica a vida do duplo não em seu último suspiro, mas em sua última atualização, para assim permanecer em um presente eternizado e receber as mensagens rest in peace de amigos e desconhecidos. Se a própria morte é premeditada, o perfil pode ossificar para a eternidade a imagem que se deseja que os demais guardem de si. Convertido em
  10. 10. “santinho” interativo, o perfil vira ponto de romaria; transforma-se também em curiosa aberração. Embora o caso de G. seja exponencial, o desejo de que o perfil seja mantido online após a morte foi manifestado por 47% dos 527 membros da PGM que responderam em enquete da própria comunidade a seguinte pergunta: você gostaria que seu profile fosse deletado após a sua morte? (formulada em abril de 2007). 22% disseram não se importar e 13% disseram que, dependendo do tipo de morte, é melhor que o perfil seja apagado pelos familiares. Apenas 16% não desejam que o perfil seja mantido. Alguns comentários9 deixados pelos respondentes permitem que se compreenda a congruência entre perfil e identidade para além de índice ou ícone da subjetividade; o desejo de permanência do perfil corresponde, portanto, ao desejo de sobrevivência da individualidade. Tassia: naum gostaria pq,sei lá...seria minha única marca antes de morrer.minhas últimas palavras e talz... seria minha lembrança mais viva e eu naum gostaria q ela fosse apagada. Gabriela Meg: Gostaria que as pessoas se lembrassem de mim, de alguma forma. Provar que fiz algo na minha vida, mesmo que fosse somente um profile no orkut. e quanto as mensagens que receberia, a morte não é um fim, apenas um começo... Antonio Marcos: Quando eu não mais estiver nesse mundo, quero que as pessoas que ficaram, saibam que eu fui, das coisas que eu gostava, assim como as que não. Tabela 2: Enquete PGM - comentários em resposta à pergunta Você gostaria que seu profile fosse deletado após a sua morte? (abril de 2007). De acordo com Renard (2001, p. 56-71, apud LEGROS et al, 2007, p. 231), “as técnicas modernas acolhem voluntariamente o sobrenatural: fotos espíritas, vozes de defuntos, calculadoras astrológicas”. Na intangibilidade desmaterializada e fugaz do ecrã, os fantasmagóricos perfis desencarnados (porque absolutamente livres de uma corporeidade à qual deva representar) tornam-se hiper-reais10 , simulacros epicurianos desgarrados da realidade concreta que fomentam o imaginário tecno-religioso11 a partir 9 Os comentários não foram reproduzidos necessariamente na ordem em que aparecem postados. As fotos do perfil (que acompanham cada mensagem) foram dispensadas. Além disso, para facilitar a leitura, caracteres especiais e textos em caixa alta foram modificados sem alteração do conteúdo. No mais, a transcrição é literal. Os comentários, nas enquetes, não são datados. 10 Aquilo que é mais real do que o real liquida os seus referenciais e deixa de representá-los, obliterando a diferença entre verdadeiro e falso, real e imaginário (BAUDRILLARD, 1991, p. 7-14). 11 Para Legros et al (2007, p. 218), “religião e imaginário, por terem em comum uma característica fundamental – a atividade simbólica -, são dois domínios que se aproximaram, assimilando-se mutuamente”.
  11. 11. da possibilidade de sobrevida por meio da imagem, como pode ser observado nos seguintes comentários: Dra Kittie: Após d morta quero ficar viva... nem q seja virtualmente Paula: Eu queria que não fosse deletado já pedi a minha família que me post aqui e não delete meu orkut, já que eu vou morrer dexa eu aqui plisss Pinn: se excluirem meu orkut o que eu vo faze no ceu ou inferno? Bruno: naum uai vai q la no ceu tenha lan house u.u* Deep: Não gostaria de ficar recebendo scraps me chingando mesmo após minha morte Tabela 3: Enquete PGM - comentários em resposta à pergunta Você gostaria que seu profile fosse deletado após a sua morte? (abril de 2007). Permanência e atualização de conteúdos no Orkut corroboram para o embaralhamento de postulados demarcados tais como vida e morte. Sete meses depois, ainda online, o perfil de G. pode ser localizado; houve um trabalho de atualização do conteúdo (provavelmente feito por alguém que teve acesso à senha): as mensagens ofensivas postadas à época do falecimento foram apagadas, bem como as mensagens de sua mãe, respondendo às condolências virtuais de familiares e amigos; o álbum de fotos foi modificado, reduzindo-se a uma única imagem. Mas, os muitos recados que chegam, sucessivamente, não são deletados. Acumulam-se saudações, poesias e mensagens de otimismo absolutamente impessoais; cartões animados (slideshow) por ocasião de datas festivas; divulgações de comunidades, sites, festas, produtos e serviços. Nas poucas mensagens dirigidas especificamente à G., são recorrentes imagens bíblicas ou de paisagens banhadas em luz; G. é chamada de “eterna amiga”, “G. de luz”, “meu anjinho”. Curiosamente, em maio de 2008, G. recebeu mais de 20 mensagens de congratulação por seu aniversário como se ainda estivesse viva, a ponto de um dos usuários ter de intervir diretamente: (Usuário não existe mais): Gente!!!!!!!!! Tenho certeza que vcs não sabem!!! Mas G. faleceu o ano passado... Que Deus a tenha em seu reino... Que tenha misericórdia e lhe perdoe. (29/05/2008) Tabela 4: Mensagem retirada do scrapbook do perfil de G.
  12. 12. O embaralhamento12 chega a tal ponto que alguns internautas manifestam o seu aturdimento: fato ou boato? Verdade ou mentira? Viva, morta ou... ressuscitada? Representação do vivo, imago-efígie ou fantasma?13 Afinal, representado quer dizer “presente na imagem (e não na realidade) e tornado presente pela imagem” (WOLFF, 2005, p. 21). Mas a que tipo de presença o perfil de G. se refere? Graça: Recebi o recado de vcs amigos de G. dizendo do falecimento.... porem o profile de vcs não recebe recados... só envia, achei muito estranho!!! Coloque o recado na pagina dela... avisando do falecimento!! Obrigada (19/05/2008) Everaldo: porque vc tah tão sumida??? (19/05/2008) Graça: G. vc ressucitou??/ Pois a notica que correu na rede é que vc havia se suicidado. Por favor alguém pode me responder? (15/05/2008) Graça: Atenção familiares da G.!!!!! Se ela faleceu porque continuar com o orkut dela.... vcs não acham que é mais sofrimento??? Gostaria de ter uma explicação plausível pra continuar com este orkut!!! A G. não faleceu!???? Está parecendo coisa meio enrolada...... A quem vcs querem enganar pois ta tudo muito estranho!!! Porque vcs querem prolongar este sofrimento familiar... A não ser que a familia seja masoquista.... (25/03/2008) Jonathan: vc morreu ou não? (21/01/2008) Graça: O que aconteceu com vc??? Estes boatos do orkut que vc suicidou é verdade... Por favor alguém responda!!!! Que loucura foi esta???? (07/01/2008) Graça: Que recados são estes a respeito de seu suicídio?? Será vírus?? Alguém me de noticias por favor pois adoro muito você e estou preocupada com esta noticia!!! (12/12/2008) Tabela 4: Mensagem retirada do scrapbook do perfil de G. A análise do scrapbook de G. revela, em meio à saturação informacional cuja obesidade se deve ao “delírio de estocar tudo e tudo memorizar” (BAUDRILLARD, 1996, p. 25), um grande vazio: o que se pode extrair de verdadeiramente substancial? Muito pouco. Quem sabia ou queria realmente saber de G.? Poucos. Mesmo as mensagens de aniversário se transformam em pseudo-afronta, pois não constituem uma lembrança legítima: a plataforma indexa os “amigos” aniversariantes do dia, aos quais se podem enviar os devidos “parabéns”. O envio massificado de mensagens indiferenciadas presta-se antes a tornar- se visível no scrapbook daqueles que estão vinculados como “amigos” que 12 Na hiper-realidade (BAUDRILLARD, 1991, 1996), as dicotomias implodem e causam a estranheza do embaralhamento. 13 Para Wolff (2005, p. 32), “as imagens dão novamente vida aos mortos (está aí seu poder), isso porque a vida dos mortos é a das imagens (aí está a ilusão). (...) Ela tem o poder de representar o ausente. Ela pode também criar a ilusão de que é o próprio ausente que se apresenta”.
  13. 13. propriamente entabular uma conversação, um vínculo efetivo, comportamento condizente com a cultura narcisista vigente (LASCH, 1983, 1990). Mensagens como “pensei em você” ou “tenha um ótimo final de semana” publicizam o eu e multiplicam seus pontos de acesso, já que, ao lado de cada mensagem, segue-se o composto imagem/nome “hiperlinkado” ao perfil. E estas seguem, inclusive, aos “amigos” falecidos, atualizando seus scrapbooks. Esta supermultiplicação conduz ao êxtase, “essa qualidade própria a todos os corpos que giram sobre si mesmos até a perda de consciência e que resplandecem então em suas formas puras e vazias” (BAUDRILLARD, 1996, p. 9). Orkuticídio: assassinato ou suicídio do espectro virtual? O contraponto dos perfis sem corpos são os corpos sem perfis, sujeitos que optaram por encerrar sua conta no Orkut e assim, cometeram orkuticídio, assassinato- suicídio do espectro virtual. A prática, de caráter ambivalente, constitui assassinato quando se toma o espectro como “eu mesmo-outro”; mas também é suicídio porque só é possível atentar contra o espectro sendo este próprio espectro. No Orkut, há pelo menos 46 comunidades relativas; a maior, com 6419 membros, chama-se Já pensei em fazer orkuticídio14 . As justificativas freqüentes dadas por quem já pensou ou de fato cometeu (mas voltou, criando um novo perfil) denunciam, no conjunto, que esse espaço de visibilidade fomenta práticas correlatas: o controle, a vigilância, a especulação e o roubo de identidade. Se, por um lado, novas ferramentas buscam assegurar maior privacidade no Orkut, por outro, acabam com parte da essência da plataforma. Nela, tudo parece perfeito e, exatamente por isso, absolutamente irreal. Adriele: Pq tudo aqui e "perfeito"... todos são lindos, interessantes e cultos! AHHH e sem contar que aqui todo mundo s ama, mas quando lhe v na rua nem olha para a sua cara! Tabela 5: Enquete da comunidade Já pensei em fazer orkuticídio - comentário em resposta à pergunta Você já cometeu orkuticídio? (abril de 2007). Enquanto alguns usuários relatam o desejo de sair para evitar fofocas, brigas e preservar sua privacidade, outros dizem que o Orkut perdeu a graça com essas novas ferramentas: Bezinha: to morrendo de ódio do orkut com esses cadeadinhos desgraçados 14 Disponível em: http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=3618861. Acesso em 01/06/2008.
  14. 14. Tabela 6: Enquete da comunidade Já pensei em fazer orkuticídio - comentário em resposta à pergunta Você já cometeu orkuticídio? (abril de 2007). Há quem já saiu simplesmente para testar se seus amigos sentiriam sua falta no Orkut. Dos 432 membros que responderam à enquete Você já cometeu orkuticídio? (pergunta postada em maio de 2007), apenas 35% disseram que sim, e mais de uma vez, tornando a criar um novo perfil. Aqueles que não cometeram, mas já pensaram no assunto, dizem não fazerem por medo de se arrepender depois, já que é trabalhoso construir o perfil e reunir os “amigos”. Há uma constante referência ao sentimento de que viver no Orkut constitui um “vício”. Será esse um dos efeitos do feitiço da imagem, ser e viver na imagem? Henrique Martins: Fala pra mim... O que eu iria fazer na Internet todos os dias sem que eu tivesse orkut ? O que tem de INTERESSANTE na Internet, por emquanto, melhor que o orkut ? Tem coisa mais divertida que conversar e conhecer pessoas pelo orkut ? Quando alguem inventar coisa melhor eu deleto o meu. Tabela 7: Enquete da comunidade Já pensei em fazer orkuticídio - comentário em resposta à pergunta Você já cometeu orkuticídio? (abril de 2007). Referências BAITELLO Jr., Norval. O animal que parou os relógios. São Paulo: Annablume, 1997. BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. São Paulo: Relógio D´Água, 1991. ________. As estratégias fatais. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. BYSTRINA, Ivan. Tópicos da semiótica da cultura. São Paulo: Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, PUC-SP, 1995. Cópia reprográfica. 40 f. DAL BELLO, Cíntia. A espectralização da existência: indexação sígnica em comunidades virtuais de relacionamento. In: IX SEMINÁRIO INTERNACIONAL DA COMUNICAÇÃO, 9., 2007, Porto Alegre. Simulacros e (dis)simulações na sociedade hiperespetacular. Porto Alegre: PUCRS, 2007. P. 47 – 64. Disponível em: <http://www.pucrs.br/eventos/sicom/textos/gt03.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2007(a). ________. Espectros virtuais: a construção de corpos-sígnicos em comunidades virtuais de relacionamento. E-Compós. Brasília: Compós, v. 10, dez-2007(b). ________. Espectros virtuais: as dimensões do “apareser” em comunidades virtuais de relacionamento. Cadernos de Semiótica Aplicada. Araraquara: FCLAR-UNESP, v.6, n.1, 2008.
  15. 15. DEBRAY, Regis. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1994. KAMPER, Dietmar. Imagem. 2002. Disponível em: <http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/imagemkamper.pdf>. Acesso em: 10 set. 2006. LASCH, Christopher. Cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago, 1983. __________. O mínimo eu: sobrevivência psíquica em dias difíceis. São Paulo: Brasiliense, 1990. LEGROS, Patrick et al. Sociologia do imaginário. Porto Alegre: Sulina, 2007. MORIN, Edgar. O homem e a morte. Mem Martins, Portugal, 1988. ________. O cinema ou o homem imaginário. Tradução: António-Pedro Vasconcelos. São Paulo: Relógio d´Água, 1997. ________. O método 5: a humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina, 2005. TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007. ________. Visibilidade mediática e violência transpolítica na cibercultura: condição atual da repercussão social-histórica do fenômeno glocal na civilização mediática avançada. In: XVII Encontro Nacional da COMPÓS, 17., 2008, São Paulo. Disponível em: www.compos.org.br/data/biblioteca_287.pdf. Acesso em: 25 jun. 2008. VIRILIO, Paul. Cibermundo: a política do pior. Lisboa: Teorema, 2000. WOLFF, Francis. Por trás do espetáculo: o poder das imagens. In: NOVAES, Adauto (Org). Muito além do espetáculo. São Paulo: Senac, 2005.

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