Cláudio da Silva
“Houve um tempo em que tudo me destruía,                         tudo que me era dado...                ... cada desejo, c...
_____________________________________                    Copyright © 2009 by Cláudio da Silva                             ...
Este livro é dedicadoA todas as pessoas que ajudaram a construir     este pedacinho da minha história,em especial aquelas ...
T ransições
I would rather not go                    rather                 Eu preferiria não voltar           back to the old house  ...
minha personalidade.        A escola, portanto, nunca foi um porto seguro ou um local que meagradasse, muito pelo contrári...
A ntecedentes
“O que sinto muitas vezes                                                              Faz sentido e outras vezes         ...
enfatizava o quanto penou para se adaptar. Graças ao meu pai, todos nós somosbastante prendados. Eu particularmente adoro ...
Minha irmã teve grande participação nos momentos mais importantes daminha vida, principalmente nos meus estudos e na minha...
após uma semana ficou doente e acabou morrendo. Eu fiquei desolado e acabeiaté adoecendo. Meu pai preocupado, às pressas, ...
pescaria com um pedaço de barbante amarrado num cabo de vassoura, mas semanzol. Alguns destes barbantes acabavam por cair ...
Dias de luta3                                                         “Tudo que me vem à mente,                           ...
Nesta época teve Copa do Mundo na Argentina. A casa virava uma festanos dias que o Brasil jogava. Eu nunca gostei muito de...
a se transformar num bicho papão.         Nas reuniões de pais, tia Marli enfatizava que eu tinha que decorarurgentemente ...
Da Lama ao Caos                             7Everyone is just walking away from me                          “Todos estão s...
esta empresa.        O Maylasky tinha ares de escola particular devido ao alto investimentooriundo da FEPASA, mas era uma ...
dependendo do caso, ter que voltar para casa.        Ainda me lembro de algumas estrofes do Hino da escola que tínhamosque...
semblante amedrontador fosse na linguagem corporal trazida dos subúrbios, ounas atitudes durante as brigas, do lado de for...
completando minha coleção em meados de 1982. Não cheguei a aprender muito,pois a coleção não era projetada para crianças d...
Meu Abrigo                                                       “De tudo, ficaram três coisas...                         ...
Minhas primas, Jaqueline e Joelma, apesar de morarem longe da minhacasa sempre vinham me visitar. Nós tínhamos idades pare...
ondas traziam e levavam repentinamente.       Eu tinha ainda, uma galera animada no bairro. Meus melhores amigoseram a Van...
não perdia um capítulo e no cinema um filme que se tornaria um dos meusfavoritos: “ET o Extraterrestre. Esta obra de Steve...
Mudança de comportamento15                                                      “Num mundo que se faz deserto,            ...
destas matérias eram os que mais me desagradavam, fosse pela forma tradicionalcomo ensinavam, utilizando cópias extensas d...
Eu, na verdade, não me interessava muito pela escola, não gostava deobedecer a regras, estudando para as provas, realizand...
ampla coleção e desenvolvi um mostruário de madeira, utilizando uma caixaonde minha irmã guardava seus materiais de corte ...
Eu havia descoberto a minha gangue!       Foi nesta época que fomos apresentados ao primeiro livro que seriamuito importan...
onde tomava notas das observações que fazia do céu. Eles estão repletos dedesenhos de constelações, nebulosas, galáxias e ...
interessar de uma forma mais intensa, pois agora eu já sabia como poderiaproceder para estudá-los mais a fundo. O Douglas,...
uma toalha molhada que desequilibrava o ágil bichinho, que caía no chão.Depois era só coletá-lo com as mãos.        Após o...
sangrasse muito e morresse em poucos minutos.        Mesmo assim, decidimos levar o projeto adiante e no dia daapresentaçã...
Em Barra Bonita(SP), com o pessoal   do MatheusMaylasky, durante    viagem deformatura da oitava  (Foto: Douglas     Farah).
O lugar mais animal da cidade!21                                                                              “Ei, quero-q...
que havia recebido do meu pai de uma forma mais folclórica, pois ao contráriodo que ele me dissera, a jibóia não era peçon...
minha adaptação nos primeiros meses, pois eu não conseguia me aproximar efazer amizade com os outros. Pensei até em desist...
Sempre apareciam por lá profissionais de outros países para conhecer o trabalhodesenvolvido naquela instituição, ou para r...
A partir desse dia, eu comecei a ter mais acesso aos “gringos” quevisitavam o Zôo, e numa ocasião passei uma tarde toda ac...
campanha que teve participação do Zoológico e outras entidades chamada“Asfaltar para Matar”. Foi nesse período que visitam...
coleção de seu pai. Eu gostava de música eletrônica e rock, ela gostava de tudoisso e também de MPB e cinema alternativo. ...
Logotipo do Clube Infantil de Observadores de Aves(fonte: arquivo do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de              ...
Sampa no Walkman                                                       “Este sou eu parado na esquina                     ...
Eu tinha aquelas lembranças da minha infância, quando então, minha tia Helenavoltava de São Paulo, me trazendo presentes e...
“…E caiu o dia,Que antes, embora vazio,Não ousava estar distanteDe minhas mãos”25              Bairro da Liberdade – São P...
O Aprendiz                                      “Nunca te é concedido um desejo sem          que te seja concedida também ...
utilizando como recursos didáticos: slides, material taxidermizado (peles, ossos,ovos, penas, etc.), além de animais vivos...
A paciência era, de longe, a parte mais importante desta frase, repetida aexaustão por ele. Muitas vezes, eu tive raiva po...
que as minhas. Achava que este era o caminho para que elas gostassem mais danatureza e passassem a entender seu delicado e...
Sonhos que podemos ter29                                 “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena                   ...
nuclear iria acabar com o planeta, fosse através da guerra ou por meio de váriosacidentes nas usinas espalhadas pelo mundo...
"Sonhos que Podemos Ter" - Minhas Memórias de Estudante
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  • Claudio, sua história, seus sonhos, me trazem lembraças da minha infância também!! Só não tive a sorte de ter uma irmã que pudesse me dar o apoio que voce recebeu, mas tenho uma família maravilhosa e pais (in memórian) que deixaram-me o maior legado da vida; ensinaram- me valores, que é a maior herança que eu poderia receber. mas não posso me queixar da sorte , pois hoje tenho uma boa formação conquistada com muita luta, no que sou agradecida àquele que me possibilitou tal conquista, o meu Grandioso Deus.
    Muito gratificante ler sobre suas conquista e como voce valoriza sua família. Hoje, valores bastante esquecidos. Deus o abençoe!!
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"Sonhos que Podemos Ter" - Minhas Memórias de Estudante

  1. 1. Cláudio da Silva
  2. 2. “Houve um tempo em que tudo me destruía, tudo que me era dado... ... cada desejo, cada sentimento, enfim TUDO era entornado ao chão, tudo se perdeu, sem nenhuma razãoSim! Eu estava desenganado, desiludido, cansado, Sim! Eu fui atormentado, estive abandonado, Mas... Nada acaba assim! “Nada pode ser tão facilmente destruído” Cláudio da Silva – 1991
  3. 3. _____________________________________ Copyright © 2009 by Cláudio da Silva Capa: Arara-azul Cláudio da Silva “Colagens com origamis e pintura com giz pastel oleoso”Contra-capa: Em um parque na cidade de Yaotsu, província de Gifu no Japão. Foto: Marcelo Fuidio Hiriart Outras ilustrações e fotos feitas pelo autor, exceto quando indicadas _____________________________________ Este livro foi elaborado durante o curso Pedagogia a Distância da Universidade Federal do Mato Grosso – UFMT para a disciplina: Estudar a Distância: Uma viagem Acadêmica Cláudio da Silva clau.smith@gmail.com www.claudio-da-silva.com Dezembro de 2009 Toyota, Japão
  4. 4. Este livro é dedicadoA todas as pessoas que ajudaram a construir este pedacinho da minha história,em especial aquelas que a tornaram possível à trinta e oito anos atrás. Meus Pais, Avelino e Maria
  5. 5. T ransições
  6. 6. I would rather not go rather Eu preferiria não voltar back to the old house para a velha casa I would rather not go Eu preferiria não voltar back to the old house para a velha casa theres too many Existem tantas bad memories there... there... más recordações lá... (Morrissey)1E screver sobre minhas memórias, significa revisitar alguns momentos da minha infância e adolescência que eu preferiria manter escondido e enterrado em algum pedaço inacessível do meu cérebro. Não tenhomuitas boas recordações do período escolar, principalmente do Ensino Infantil edo Fundamental. Vários fatores contribuíram para isso, o que torna esta tarefaainda mais difícil. Os momentos agradáveis dos quais me lembro, durante essa época,sempre foram do lado de fora dos muros escolares onde eu tinha amigos econheci pessoas que realmente se importavam comigo. Foi também fora da escola que encontrei os professores brilhantes queme ajudaram na escolha da profissão, os quais presto homenagem nas páginasque se seguem, contando como eles me acolheram, inspiraram e moldaram1 Este é um trecho da música “Back to the old house” do grupo inglês THE SMITHS.Esta banda foi e continua sendo uma das minhas preferidas. As letras repletas delirismo poético, de teor ácido e irônico de Morrissey (vocalista), casadas com amelodia perfeita das guitarras de Jhonny Marr, me conquistaram em 1988, um anoapós a banda se separar. Na época eles eram um sucesso tremendo na Europa e jácontagiavam o Brasil, mas eu não gostava daquelas músicas que tocavaminsistentemente nas rádios. Só fui me interessar após ler uma resenha sobre a bandana revista de música Bizz e perceber que as letras eram muito profundas, muitoparecidas com o que eu sentia a respeito do mundo. Ainda guardo a edição da revistae me recordo de ter comprado meu primeiro LP deles na véspera do dia de Finadosdaquele ano. Era o compacto que continha a música Panic no lado A e BigmouthStrikes Again no lado B. Ouvi repetidamente, nem me lembro de quantas vezes boteiaquele disco para tocar... Meu pai ficou uma arara de bravo, pois nos Finados temos atradição de não ouvir músicas ou assistir TV... É um dia reservado para se respeitaros mortos. Quase apanhei, pois estava tão entretido com aquele som que tocava noúltimo volume. Ainda hoje ouço todos os álbuns e a cada dia me surpreendo mais coma qualidade artística das canções.
  7. 7. minha personalidade. A escola, portanto, nunca foi um porto seguro ou um local que meagradasse, muito pelo contrário, era um fardo freqüentá-la diariamente. Isso tudosó foi mudar quando deixei o Ensino Fundamental e fui freqüentar o EnsinoMédio e a Universidade... Durante o período em que me dediquei em escrever estas páginas domeu passado, pude reviver a minha história como ator e também comotelespectador, dos anos alegres e tristes que vivi. Foi difícil confrontar aexplosão de sentimentos desencadeados nesta estranha viagem em busca doautoconhecimento, de esmiuçar aqueles momentos que me machucaram nainfância, ou de rever aqueles alegres dos quais sinto tantas saudades. Foi difícil, portanto, descobrir a forma de contar a minha história.Comecei até mesmo a ponderar se esta que escolhi, era realmente a melhor paraapresentar meu relato, se deveria deixar claro o quanto o período escolar me eradesagradável. Impelido por estas dúvidas, cheguei até a amassar o papel diversasvezes e recomeçar tudo de novo, mas, a cada vez que dava início aos escritostudo soava falso, previsível e vazio. Os inícios das transições que constantemente experimentamos emnossas vidas sempre são complicados, não queremos nos desprender do velho edar início a uma nova experiência. Temos medo dos inícios, pois eles carregam aincerteza, uma estrada a ser trilhada onde tudo pode acontecer. Estas memóriasestão impregnadas destes começos traumáticos, assim como ela própria sinalizao momento de uma nova transição para mim. Decidi então que, se fosse escrever sobre algo pessoal, sobre o passadoque moldou a minha personalidade, deveria ser sincero e acima de tudo soarverdadeiro. Então, a partir de agora, nas páginas seguintes, retorno ao papelamassado, retorno a minha verdadeira história tentando finalizar mais um ciclo.
  8. 8. A ntecedentes
  9. 9. “O que sinto muitas vezes Faz sentido e outras vezes Não descubro um motivo Que me explique porque é Que não consigo ver sentido No que sinto que procuro O que desejo e o que faz parte Do meu mundo...” (Renato Russo)2E u venho de uma família bem simples, do interior do estado de São Paulo. Meus pais, Avelino e Maria, vieram de cidades pequenas. Meu pai é de Capivari e minha mãe de Porto Feliz. Devido à vida dura que elesenfrentaram na infância e juventude, foram obrigados a trabalharem cedo e,portanto tiveram que abdicar dos estudos, não concluindo nem o Ensino Infantil. Meu pai foi Bóia Fria durante boa parte de sua juventude, até queconseguiu vir trabalhar numa fábrica de tecelagem na cidade de Sorocaba.Aqueles eram tempos de desenvolvimento econômico para o Brasil, graças aogoverno de Juscelino Kubitschek que, com sua política econômica, permitira oflorescimento do setor industrial. Empolgado com as notícias de possibilidade deemprego na cidade grande, ele abandonou a pequena Capivari para vir morar emSorocaba. Veio com a cara e a coragem; morou em pensões e aprendeu na marraos macetes de um ambiente que até então lhe era desconhecido. Trabalhou duropara comprar um terreno e construir a pequena casa que foi meu lar durante 25anos da minha vida. Devido a esta dolorosa experiência, ele sempre exigiu de mim e dosmeus irmãos que aprendêssemos a cozinhar, lavar e passar roupas, costurar e atémesmo a fazer pequenos reparos em estruturas danificadas da casa. Ele sempredizia que, um dia poderíamos nos encontrar numa situação parecida com a dele e2 Trecho da música “Eu era umlobisomemjuvenil” do grupo de rock brasileiro, “Legião Urbana”. Eu adoro amelodia desta música e tambémsua letra enigmática. Ela está presente no álbum“ Quatro Estações”, de Aslonge o meu preferido.
  10. 10. enfatizava o quanto penou para se adaptar. Graças ao meu pai, todos nós somosbastante prendados. Eu particularmente adoro cozinhar. As coisas não foram diferentes para minha mãe que, morando na regiãorural, trabalhou colhendo algodão e café. Vindo de uma grande família de 11irmãos, ela vivia em um sítio arrendado num bairro conhecido como Palmital.Após meu pai ter se estabelecido em Sorocaba, parte da família da minha mãetambém veio morar na cidade e desta forma, eu podia sempre visitar tios, tias emeus avós maternos. Entre as tias, tenho um carinho muito especial pela Helena,carinhosamente chamada de Tia Lena. Quando jovem, ela morou alguns anos nacidade de São Paulo, onde foi empregada doméstica na casa do político EduardoSuplicy e da então sexóloga Marta Suplicy que, na época, participava doprograma TV Mulher, exibido na Rede Globo, fazendo comentários sobresexualidade. Sempre que vinha a Sorocaba, minha tia trazia um monte dechocolates e doces e me presenteava. Minha mãe ficava uma arara de brava, poiseu comia até passar mal. Ela foi a primeira pessoa a possuir algo de especial queme chamava atenção... Ela parecia desfrutar de uma imensa liberdade e moravaem São Paulo, um lugar que comecei a querer conhecer mais. Tenho dois irmãos: Clélia, a mais velha, e Nivaldo, o do meio. Adiferença de idade entre nós é de 13 e 12 anos respectivamente. Pela diferença etária fica claro que eu sou o caçula, o filho “temporão”.Minha mãe não estava esperando pela minha vinda, foi uma surpresa quando elaengravidou aos 39 anos. Devido a este fato, eu acabei tendo mais oportunidadesque meus irmãos entre as quais, a possibilidade de seguir com os estudos e podercursar uma Universidade. Meus irmãos tiveram que trabalhar cedo para ajudar no orçamentoapertado da casa. Assim, minha irmã teve que encerrar os estudos na 6ª. série.Meu irmão resistiu um pouco mais. Cheio de sonhos, ele finalizou o EnsinoFundamental e deu início ao Médio, mas o trabalho passou a exigir mais do seutempo e sem muitas esperanças de concretizar suas ambições, ele abandonou osestudos no segundo ano. Comigo foi diferente. Meus pais queriam que eu finalizasse oFundamental e arranjasse um emprego, mas a minha irmã tinha outros planos.Ela queria que eu tivesse algo que lhe foi tolhido, a possibilidade de poder fazerescolhas...
  11. 11. Minha irmã teve grande participação nos momentos mais importantes daminha vida, principalmente nos meus estudos e na minha formação profissional. Apaixonada por crianças, de certa forma ela me adotou como filho. Elajá tinha 13 anos quando eu nasci e juntamente com meus pais, ajudou a tomarconta de mim. Foi ela quem sugeriu meu nome. Quando ela conversava com suas amigas, sempre se referia a mim comosendo o seu “irmãozinho mais novo” o que, com o passar dos anos, passou a sermuito engraçado, pois eu cheguei aos meus 1,89 metros de altura e ela não saiudos seus 1,60. Lembro-me do espanto de uma de suas colegas de trabalho ao meconhecer, lá pelos meus 18 anos. Ela me olhou e disse: — Nossa Clélia! Esse aí é que é o seu “irmãozinho”? Ele me parecebem grandinho. Ela ajudava a comprar meu material escolar e uniforme, me davapresentes no Natal e também broncas quando eu não fazia as tarefas escolares.Reclamava da minha letra e vivia insistindo para melhorá-la e, de certa formaconseguiu. Eu tenho grande carinho por ela, pois do jeito que ela me tratava eume sentia protegido. Era como ter o carinho de duas mães. Recordar minhas origens escrevendo sobre minha família,especialmente sobre meu Pai, não estaria completo se não contasse um pouco daminha paixão pelos animais. Esta relação com os seres vivos começou desdecedo e acabou culminando na escolha da minha atual profissão e sem dúvida, foio momento mais gostoso da minha infância e adolescência. Eu sempre gostei de animais e devo isso ao meu pai que, devido a suavivência no meio rural, possuía grande conhecimento dos bichos. Ele eraapaixonado por história natural e pela organização dos seres vivos na natureza.Exímio observador e um professor fantástico, meu pai procurava, do seu jeitomeio matuto, me explicar sobre tudo relacionado ao ambiente natural. Assim, aprendi a não temer os animais, mas sim a gostar deles. Vivia noquintal levantando pedras e tijolos a cata de insetos e outros seres pequeninos,carregando filhotes de pardais que caiam dos ninhos do telhado para dentro decasa, pegando peixinhos e girinos nos córregos e destruindo a entrada da casa dasabelhinhas “jataí” no muro do quintal e observando, intrigado comopacientemente elas construíam tudo de novo. Lembro que, aos cinco anos de idade, ganhei uma cadela vira-lata que
  12. 12. após uma semana ficou doente e acabou morrendo. Eu fiquei desolado e acabeiaté adoecendo. Meu pai preocupado, às pressas, tratou logo de conseguir umasubstituta. Quando ele chegou em casa com uma nova cadelinha eu me enchi dealegria. Era tão pequenina, pelos marrons clarinhos e se movimentava com muitadificuldade. Era algo tão frágil que me ganhou de imediato. Batizei-a de Bolinhae durante os anos seguintes ela seria minha grande companheira. Eu ainda teriaoutros dois cachorros: o Toquinho e o Fofinho, ambos filhos da Bolinha. Lembro-me também que, quando eu já tinha uns seis ou sete anos deidade, meu irmão vivia indo pescar e quando voltava trazia uma caixa de isoporcheia de peixes, muitos ainda vivos. Eu corria para a cozinha, enchia a pia deágua e soltava os moribundos lá dentro, numa tentativa desesperada de salvá-los.Tinham várias espécies: lambaris, bagres, tilápias, entre tantos outros. Eu ficava então, pacientemente, observando-os nadar. Era um momentomágico... Quando chegava a hora de matá-los, pois a pia não podia sertransformada num aquário permanente, eu chorava e protestava. Meu pai ficavabravo com meu irmão por conta disso e dizia para na próxima vez trazer ospeixes já mortos, acrescentando: —... Depois o menino fica aí desse jeito! Foi numa dessas idas e vindas, que veio um cascudo que meu pai logotratou de me explicar detalhes sobre seus hábitos alimentares e habitat – ele diziaque o cascudo se alimentava do limo que crescia nas pedras e que por isso tinha aboca voltada para baixo. Ele me disse que podíamos criá-lo num tambor de ferroque tínhamos no quintal. Fomos coletar pedras, lavamos o tambor, enchemos deágua e soltamos o peixe lá dentro. Era legal saber que eu tinha um peixemorando no quintal de casa, mas um tanto frustrante em não poder vê-lo, pois otambor escuro me impedia de enxergá-lo mesmo durante o dia. Eu sempre ficavaimaginando se ainda estava vivo. Vez em quando, meu pai esvaziava o tamborpara limpá-lo e colocava o cascudo numa bacia de alumínio. Eu ficava brincandocom ele, levantando sua barbatana. Dizia que era o meu tubarão de estimação.Tambor limpo era hora de tornar o peixe invisível novamente e ficar aguardando,ansioso, pela próxima faxina. Acho que este cascudo ficou conosco por uns doisanos até que, movido pela minha curiosidade de criança, comecei a colocarobjetos no tambor, numa tentativa de interagir com o peixe. Eu brincava de
  13. 13. pescaria com um pedaço de barbante amarrado num cabo de vassoura, mas semanzol. Alguns destes barbantes acabavam por cair dentro do recipiente. Ele seenroscou nestas tralhas toda e morreu. Quando fomos limpar o tambor lá estava oseu esqueleto. Foi algo terrível, que me marcou profundamente... Outro fato interessante da minha infância, relacionado a animais, foiquando criávamos galinhas. Tínhamos um grande quintal com bananeiras, um péde laranja e de limão, além de uma pequena horta. Havia uma galinha emespecial, que era muito mansa e me deixava fazer carinho. Eu a chamava deCocó. Todos em casa sabiam da minha admiração por este animal, pois eu vivialevando migalhas de pão ou resto de comida para alimentá-la. Um dia, fui aoquintal e não vi a Cocó. Perguntei a minha mãe e ela disse que não sabia dagalinha e minha irmã se manteve calada. No jantar, galinha assada... Eu não comi,chorei muito e dizia aos berros que aquela era a Cocó enquanto minha mãemantinha a mentira. Fiquei muito triste e nos dias seguintes mudo. Preocupadose talvez arrependidos, minha irmã e minha mãe me procuraram para esclarecer oocorrido. Disseram que a Cocó havia se ferido na tela do galinheiro e por issoteve que ser sacrificada. A mentira não colou muito, mas, de certa forma, eu osperdoei.
  14. 14. Dias de luta3 “Tudo que me vem à mente, Tudo que me corrói a alma, Queres mesmo saber, Tudo que tenho a dizer? Não digo, para não te obedecer, Não digo para não te ofender, Guardo comigo”4N as minhas memórias, o Jardim de Infância é o único período que eu vivi intensamente. Quando me recordo dos meus cinco e seis anos, sempre me vem algo bastante colorido. Não consigo lembrar-me dosamigos ou dos professores, mas se fecho os olhos, ainda hoje posso ver a piscinae os brinquedos do parquinho. Eu adorava brincar com tinta e procurar animaisnos arbustos e sob as pedras. Foi um período muito gostoso. Após dois anos no Jardim de Infância, meus pais me matricularam naescola SESI5. Nesta época eu não tinha muitos amigos na rua, meu pai nãopermitia que eu ficasse perambulando sozinho pelo bairro e, portanto, euparticipava mais de atividades em casa com a família. Assistia muitos filmes e Telenovelas com meus irmãos, mesmo sementender muito do enredo. Assim, eu acompanhei quase todos os capítulos deEscrava Isaura, extremamente emocionado por não compreender muito bem aquestão do preconceito entre raças.3 Título de uma música do grupo de rock paulista Ira!4 Trecho da poesia “ Afago”, escrita pelo próprio autor em março de 1988.5 Serviço Social da Indústria (SESI), uma instituição privada brasileira, sem fins lucrativos e deatuação emâmbito nacional.
  15. 15. Nesta época teve Copa do Mundo na Argentina. A casa virava uma festanos dias que o Brasil jogava. Eu nunca gostei muito de futebol, mas devido aestas reuniões emocionantes para os jogos do mundial, eu acabei nos anosseguintes me tornando fã incondicional da Seleção Canarinho. Em 78 o Brasilnão ganhou, amargou um terceiro lugar. Meu pai ficou transtornado e a famíliatoda se entristeceu. A partir daquele ano eu fiquei a imaginar se, alguma vezcomemoraria uma vitória daqueles garotos trajando amarelo. A minha nova escola era meio longe de casa e eu tinha que ir a pé; noinício acompanhado do meu pai e mais tarde sozinho ou com amigos. Havia outras duas escolas estaduais bem próximas de onde eu morava,mas meus pais não gostavam da idéia de me verem estudando nelas. Eramescolas de subúrbio, onde sempre ocorriam problemas de depredação, furtos ebrigas. Neste sentido, o SESI surgia como a melhor escolha visto que, naquelaépoca, ela desfrutava de certo status dentro da comunidade. Era também um localbastante tradicional, cheio de regras e um tanto chato. Minhas recordações são poucas, mas algo marcante é que não vejo maisaquele mundo multicolorido do Jardim de Infância, apenas um imenso vazio.Hoje, recordando aquela época, vejo a escola extremamente clean, mais próximode um hospital que de uma instituição de ensino. Alguns colegas do bairro estudavam lá também e antes de começar aescrever este texto, achei que não iria conseguir me lembrar de ninguém, mas aospoucos surgiram alguns nomes: Sílvio, Flávio, Ovídio, Jefferson e a Marinalva.Com exceção do Jefferson, todos eram excelentes alunos. O Ovídio tinha uma letra linda, bem diferente dos meus garranchosquase ilegíveis na época. A professora, tia Marli, vivia dizendo ao meu paidurante as reuniões periódicas, que eu precisava melhorar minha escrita. Elacerta vez chegou a fazer isso mostrando o Caderno do Ovídio. Meu pai começoua martelar isso na minha cabeça e a exigir que minha letra melhorasse. Meu pai tinha um jeito bem tradicional , um tanto rústico, de educar e asameaças de castigos, que muitas vezes deixavam de serem apenas ameaças, eramseveras. Eu tinha muito medo e comecei a odiar o Ovídio por causa disso. Mas a minha letra era de longe o menor dos meus problemas. Já nasegunda série começou a ficar evidente o meu problema com os números. Amatemática ainda hoje me atormenta, mas foi bem nessa época que ela começou
  16. 16. a se transformar num bicho papão. Nas reuniões de pais, tia Marli enfatizava que eu tinha que decorarurgentemente a tabuada, algo que até hoje não entendo porque não conseguia.Meu pai, apesar de suas limitações escolares, era muito bom com cálculos epassou além da letra a exigir também as benditas tabuadas. Além da escola, nesta época eu comecei a freqüentar o catecismo e ia àsmissas todos os domingos de manhã. Minha família sempre foi muito religiosa emeu pai fazia questão que todos nós participássemos das atividades da igrejacatólica do bairro. Além das missas, eu acompanhava meu pai e minha mãe nasreuniões dos Vicentinos, grupo que ajudava as pessoas mais necessitadas e namanutenção de um asilo da minha cidade. Quando o Papa João Paulo II visitou o Brasil em 1980, minha irmã foivê-lo realizar uma missa em São Paulo e retornou de lá radiante por terconseguido chegar perto do Santo Homem. Eu não entendia muito daimportância do Papa ou o porquê dos rituais nas igrejas. Eu também não gostavamuito das missas, elas eram muito demoradas e o Padre dizia um monte decoisas que não pareciam fazer muito sentido. A igreja sempre me foi um localenigmático... Apesar de eu não ter reprovado nenhum ano (o Jefferson reprovou aquarta-série), eu deixei o Ensino Infantil com a sensação de algo inacabado, dealgo não resolvido. Eu não estava pronto para enfrentar o Fundamental, nãohavia sido devidamente preparado. Desta época, a tia Marli fica como algo extremamente negativo pelassuas reclamações e seu jeito pouco didático e ortodoxo de fazê-lo. Mas o piorainda estava por vir... “E antes de tudo, Antes mesmo que o amor se acabe, Quanto mais da dor... É preciso para adormecer um coração?”66 Trecho do poema “Antes que o amor se acabe”, escrito pelo próprio autor emdata desconhecida.
  17. 17. Da Lama ao Caos 7Everyone is just walking away from me “Todos estão se distanciando de mim Am I really that nasty Eu sou mesmo tão terrível All the dust and dirt affects my skin? Todo o pó e a sujeira afetaram aEveryone is just turning away from me minha pele? Am I really that filthy? Todos estão dando as costas para mim It’s dark and cold, so let me in Eu sou mesmo tão vulgar? Está escuro e frio, então me deixe (Martin Rossiter) 8 entrar”Q uando finalizei a quarta-série do Ensino Infantil, chegou a hora de uma nova mudança na minha vida. Deixei o SESI para fazer o Ensino Fundamental numa nova escola (O SESI só possuía o Ensino Infantilnaquela época). Mais uma vez, meus pais se reuniram para determinar o meu futuro,discussão esta da qual não pude participar. Eu queria estudar nas escolas quemeus amigos de rua estudavam, nos colégios públicos próximos da minha casa,mas a resposta era sempre a mesma: Não! Meu irmão trabalhava na FEPASA9 e sugeriu me matricular na escolaMatheus Maylasky, uma instituição bastante conhecida na cidade que pertencia a7 Título de uma música do grupo de rock alternativo pernambucano “Chico Science & Nação Zumbi”.8 Trecho da música “For the Dead” do grupo inglês “Gene”, a banda que eu ouvia exaustivamente no períodoque morei emEmbu das Artes (SP), em1997. As letras são fantásticas, cortesia do vocalista MartimRossiter.9 Ferrovia Paulista SA. Empresa de estradas de ferro brasileira que pertencia ao Estado de São Paulo. Foiextinta em1998.
  18. 18. esta empresa. O Maylasky tinha ares de escola particular devido ao alto investimentooriundo da FEPASA, mas era uma escola com ensino gratuito. A década de 80foi, talvez, o apogeu desta instituição. Ela possuía a melhor Fanfarra dentre asescolas sorocabanas (inclusive entre as particulares) e todos os anos, ganhavaprêmios nos desfiles de Sete de Setembro. Eu mesmo toquei repique e flauta doce,mas isso só foi acontecer lá pela sexta-série. Por estes motivos, muitas pessoastentavam conseguir uma vaga no local, porém somente filhos dos funcionários daestrada de ferro podiam estudar lá. A escola, portanto, era um tanto elitizada, bem diferente dos ambientesordinários que meus colegas de bairro estavam freqüentando. Até hoje não seicomo conseguiram me matricular lá. O local era, a primeira vista, muito estranho. Um prédio antigo e muito,muito grande. Era a primeira vez que iria estudar num local assim, pois o SESIera uma escola bem pequena com poucas salas de aula. Eu tive muito medo, pois o ambiente era amedrontador, visivelmentetradicional e desmotivador, ao menos na minha visão. Estas lembranças estãobastante vívidas nas minhas memórias. Lembro que chorei calado, já do lado dedentro dos portões, no primeiro dia de aula, longe do meu pai. Se ele me vissechorando seria bem capaz de brigar comigo por causa disso. Tudo soava esquisito pra mim. Os professores eram bastante formais, aDiretora tinha aquele estereótipo “meio bruxa”, de cara fechada, voz firme numtom intimidador. Todos tinham medo dela e nunca a contestavam. O sinal deaviso das trocas de aulas e intervalos era executado num sino de ferro, expostono pátio da escola e tocado manualmente pelos funcionários. Ele ficava aoalcance das mãos de qualquer aluno, mas nunca vi alguém tocá-lo sem ordem dadireção. O uniforme, algo que odiei já desde o início, era uma camisa brancacom o símbolo da escola que deveria ser usada, por dentro das calças de tergalazul-marinho, acompanhados de um cinto, meias pretas e um horroroso sapatocolegial. Todos os dias passávamos, enfileirados, em direção as salas de aula,sendo observados de perto pela Diretora e outros funcionários. Se alguémestivesse com o uniforme sujo, abarrotado ou usando qualquer outra peça quenão fosse a padrão, era encaminhado diretamente à diretoria podendo,
  19. 19. dependendo do caso, ter que voltar para casa. Ainda me lembro de algumas estrofes do Hino da escola que tínhamosque cantar no pátio, durante os eventos cívicos, após o Hino Nacional: “Na oficina labutam nossos pais, Trabalhando com fé e muito amor... ... Matheus Maylasky, teu vulto já está na história, Esta escola que traz o teu nome, Também se cobrirá de glória...” Uma triste recordação... É claro que toda esta disciplina era reflexo do sistema político, no qual oBrasil estava inserido naquela época, a Ditadura Militar representada pelo entãoPresidente João Figueiredo. As disciplinas OSPB (Organização Social e PolíticaBrasileira) e EMC (Educação Moral e Cívica) ainda eram lecionadas,transmitindo a ideologia daquele regime autoritário que exaltava o nacionalismoe o civismo dos alunos. Eu não estava nem um pouco feliz com o novo sistema, mas o ano letivocomeçou assim mesmo, independente das minhas emoções. Algo que começou a me incomodar bastante foram meus novos colegasde escola. Eles eram muito diferentes dos meus amigos de rua ou dos meusprimos. Havia algo neles que eu não gostava, fossem nas suas atitudes ou nocomportamento. Os negros presentes na escola, naquela época, podiam facilmente sercontados nos dedos: o Washington, o Vitor, outras duas irmãs de quem não merecordo dos nomes e eu. Foi aí que começaram a aparecer os apelidos preconceituosos que eutanto odiava. Ao invés de impor respeito e brigar pela minha privacidade eupreferi me calar e ficar acuado. A educação que herdei do lar me tornava apáticoe tímido, nunca fui de brigas ou de discussões calorosas o que, no decorrer dosanos no Maylasky, foi me tornando ainda mais introspectivo. O Washington, por exemplo, tinha o respeito de todos, pois, exibia um
  20. 20. semblante amedrontador fosse na linguagem corporal trazida dos subúrbios, ounas atitudes durante as brigas, do lado de fora da escola, onde ninguém tinhacoragem de enfrentá-lo. Havia poucas pessoas com quem eu conversava ou em quem confiava.Na sala de aula eu ficava apenas esperando o momento de ir pra casa, para poderir à rua e brincar com meus verdadeiros amigos que, apesar de não serem negros,eram simples e me aceitavam no grupo. Lá eu liderava e sugeria brincadeiras eatividades coletivas. Lá eu era respeitado. Foi neste mesmo ano que eu decidi que iria aprender inglês. Eu queriaentender o que os cantores diziam nas músicas, queria poder fazer como ostradutores dos eventos do Oscar e Miss Universo, traduzindo ao vivo aquelalíngua estranha. Eu disse isso ao meu pai e ele não deu muita atenção, afinalescolas de inglês eram bem caras e não havia muita lógica em se estudar umalíngua estrangeira sendo negro em uma família de classe baixa. Na televisão, o ator Luiz Carlos Miele aparecia numa propagandadivulgando um curso de Inglês da editora Abril Cultural, o “Fale Inglês”,vendido em formato de fascículos semanais nas bancas de revista. Eu insisti parao meu pai comprar, mas ele se recusou. Foi aí que algo muito engraçadoaconteceu, como se o destino conspirasse ao meu favor. Eu havia ido ao dentista extrair um dos meus dentes e acordei no diaseguinte com uma baita hemorragia. O travesseiro estava todo vermelho e eucuspia sangue o tempo todo. Minha mãe entrou em pânico e eu estava apenasirritado com o gosto horrível que começava a me dar náuseas. Correram comigopara o hospital, mas quando chegamos à hemorragia já tinha cessado. O médico, após me examinar, receitou uns comprimidos e exigiurepouso. Sentindo que todos estavam fragilizados com aquele evento, que paramim não passava de um exagero, aproveitei-me da situação e pedi o “FaleInglês” novamente e meu pai manteve o não, porém minha mãe interveio e eleacabou concordando. Como eu tinha que ficar repousando na cama, meu irmão teve que ir atéa banca mais próxima buscar o tão sonhado fascículo. Foi à maior alegria. Passeitodos os dias a ouvir as fitas K-7 que acompanhavam a coleção, num gravadorvelho da minha irmã e a repetir as palavras em voz alta. Todos diziam que aquilo não iria vingar, que logo eu desistiria daquelabesteira, porém eu passei o ano de 1981 inteiro estudando inglês sozinho em casa,
  21. 21. completando minha coleção em meados de 1982. Não cheguei a aprender muito,pois a coleção não era projetada para crianças de 10 anos e sim para adultos,porém ela me ajudaria a formar uma base da língua a qual eu iria melhorar nofuturo.“... Eu vislumbrei a ruína,Vagando inconformado, desiludido,Me afogando, me perdendo nestas trilhas.Enquanto o vento perseguia meu rosto,O frio congelava minhas mãos.Lágrimas encharcavam minha boca,com seu gosto amargo deabandono sem razão...”1010 Trecho da poesia “Meu caminho semvocê”, escrito pelo próprio autor em1999.
  22. 22. Meu Abrigo “De tudo, ficaram três coisas... A certeza de que estamos começando... A certeza de que é preciso continuar... A certeza de que podemos ser interrompidos Antes de terminar... Façamos da interrupção um caminho novo... Da queda, um passo de dança... Do medo, uma escada... Do sonho uma ponte... Da procura, um encontro!” (Fernando Sabino)11O meu primeiro ano no Maylasky terminou e eu fui reprovado na quinta série. Fiquei chocado quando recebi a notícia e com medo da reação dos meus pais. Para meu espanto, minha irmã me consolou e meu paiapenas disse que já esperava por aquilo. Eu estava tão desligado de tudo, vivendo somente o momento fora daescola que não percebi que nas reuniões de pais, já haviam alertado para meufraco rendimento. Para mim foi um grande tombo, foi como perder o chão sobmeus pés. Mas eu tinha outro mundo onde podia me refugiar, onde podia curar asferidas do tormento da escola e esse meu mundo era a rua onde eu morava.11 Trecho do livro “O encontro marcado” de Fernando Sabino. Eu li este livro quando ainda tinha uns 10 ou11 anos, não entendi muito mas gostei do enredo. Meu irmão possuía umexemplar que estava guardado naestante da sala e movido pela curiosidade, passei a folhear suas páginas. Mais tarde, aos vinte e poucos anos,voltei lê-lo, compreendi mais a história e acabei colocando-o na minha lista de favoritos.
  23. 23. Minhas primas, Jaqueline e Joelma, apesar de morarem longe da minhacasa sempre vinham me visitar. Nós tínhamos idades parecidas, só a Jaquelineera um ano mais velha. Eu e a Joelma costumávamos dizer que, por ela ser maisvelha, iria morrer primeiro; uma destas estúpidas e nada inocentes brincadeirasde criança. Havia também o Alexandre, um primo distante, que morava perto dacasa delas. Eu quase não o via, a não ser quando as visitava. Nós nutríamos umaadoração especial pelo Michael Jackson que, naquela época, estava vendendomilhões de cópias do seu álbum Thriller. Devido ao sucesso mundial, a TVexibiu vários especiais e como nossos pais não compravam o LP para ouvirmos,nós não perdíamos nenhum. Certo dia tive uma idéia, a de usar o gravador velho da minha irmã,aquele mesmo das aulas de inglês, para gravar as músicas do Michael direto daTV. Gravei todo o especial da Globo e junto com meus primos, vivíamosensaiando os passos de Billie Jean e Thriller. Até hoje eu sei fazer oMoonwalker12, estilo de dança que ficou imortalizado durante as performancesdo Rei do Pop. Foi uma época bem legal. Junto com Michael Jackson veio a onda do “Break” e com alguns doscolegas da rua, comecei a ensaiar alguns passos para exibirmos nas matines doclube “Circulo” 13 da cidade. Estes bailes, organizados para a garotada,aconteciam nas tardes de domingo e íamos sempre trajando a moda da época:calças bags, com camisetas de cores cítricas e eu ainda tinha uma boina brancano melhor estilo Jackson. Minhas primas ainda participavam de outras atividades da família comoquando visitávamos o Sítio do meu tio em Itararé (interior de São Paulo) eviajávamos á praia de Mongaguá no litoral paulista. Em Itararé eu podia interagir de forma intensa com a natureza,observando os animais que meus tios criavam, participando de colheitas,andando a cavalo, passeando na floresta, etc. À noite, podia ainda freqüentar asrodas de contos e lendas folclóricas que no inverno, aconteciam ao redor defogueiras ou de um montinho de brasas colocadas sobre uma folha de zinco nochão. Na praia, enquanto todos se divertiam na água, eu estava maispreocupado em encontrar formas de vida na areia e coletar peixinhos que as12 Passo de dança criado e batizado décadas antes pelo dançarino Bill Baileycomo "Moonwalk" (algo como"passo da lua"), imortalizado por Michael Jackson durante o período da era Thriller.13 Círculo Ítalo Brasileiro Gabriele D´Annunzio, clube da cidade de Sorocaba.
  24. 24. ondas traziam e levavam repentinamente. Eu tinha ainda, uma galera animada no bairro. Meus melhores amigoseram a Vanderci, o Vinícius, a Iara, o Peterson, a Kátia e a Lucimara. Juntosorganizávamos atividades diversas: brincávamos de esconde-esconde,bandeirinha, garrafão, mãe-da-rua, soltávamos pipas, confeccionávamos balões,carrinhos de rolimã, etc. Era o início da adolescência para muitos de nós ecomeçamos a fazer bailes em plena época da onda “New Wave” que tomou contado início dos anos 80. As festinhas eram geralmente na casa do Vinícius, poishavia uma área grande onde podíamos organizar uma pista de dança. Batizamosestas festas de “Baile da Geleca” e todos os convidados deviam trazer um pratode gelatina e um refrigerante. Tudo era feito sem a participação dos adultos,organizávamos tudo sozinhos com tarefas divididas entre todos os participantes.Eu sempre ficava encarregado do som, devido às inúmeras fitas que eu tinha commúsicas gravadas da rádio. Comprar discos foi um luxo que passei a ter, somentequando comecei a trabalhar anos mais tarde. Ouvir música era meu passatempo predileto, eu gostava de muitoscantores da época como Carly Simon, Rod Stewart, Tina Turner, e da então ondade Rock Brasileiro que começava a despontar e contaminar as rádios da época.Eu tinha uma seleção com o melhor do Ultraje a Rigor, Ira!, Biquíni Cavadão,Plebe Rude, Blitz, Lobão, Titãs, Paralamas do Sucesso, entre outros. Minha irmã sempre se impressionou com nosso senso deresponsabilidade em organizar estes pequenos eventos. Lembro que fizemos atéuma festa junina na casa da Iara e convidamos os adultos, nossos pais e parentes.Teve até uma quadrilha que ensaiamos secretamente. Foi um sucesso. Em 1982 teve outra Copa do Mundo, desta vez no México, e mais umavez a família se reuniu para torcer para aquela que se tornaria uma das maiscarismáticas equipes brasileiras deste mundial. A equipe do técnico Telê Santanatrazia Falcão, Zico e Sócrates só para citar alguns dos nomes mais importantes.Eu tinha certeza que, naquele ano, veria o Brasil tetracampeão, mas a Itáliadestruiu esta possibilidade, eliminando o Brasil que nem mesmo chegou a ir àfinal. Foi muito triste, ainda mais porque eu e meus amigos havíamos pintado umtrecho da rua com as palavras: “Brasil Campeão!”. Na televisão mais uma telenovela de sucesso: “Elas por Elas”, que eu
  25. 25. não perdia um capítulo e no cinema um filme que se tornaria um dos meusfavoritos: “ET o Extraterrestre. Esta obra de Steven Spielberg era carregada deemoção e feita sob encomenda para crianças. Ainda hoje me lembro das minhasreações durante a seção: primeiro eu tive medo e nojo do ET, mais ao final dofilme eu não conseguia conter as lágrimas. Em 2002 o filme foi relançado noscinemas em edição especial comemorativa com cenas extras. Eu corri novamentepara os cinemas e levei comigo minha irmã e minha sobrinha. Ao final da seçãoeu estava novamente me debulhando em lágrimas. “... E se... de alguma forma, tudo lhe for negado: Um beijo, uma paixão, a própria vida? Seriam nossas almas confusas, nossas realidades divididas?... ... Você desistiria de procurar seu coração?...”1414 Trechos do poema “Para quando quiseres respostas”, escrito pelo próprio autor emagosto de 2001.
  26. 26. Mudança de comportamento15 “Num mundo que se faz deserto, Temos sede de encontrar um amigo” (Antoine de Saint-Exupéry )16A pós a reprovação na quinta série, era o momento de levantar a cabeça e seguir em frente. Resolvi que deveria melhorar nos estudos e comecei aquele ano mais entusiasmado e determinado. Na escola nada havia mudado. Encontrei as mesmas pessoas de narizempinado ou que me atormentavam, os mesmos professores apáticos e a escolaque eu não gostava. Eu detestava algumas disciplinas e não tinha a menor vontade deestudá-las. Fazia as lições vez em quando, tirava notas baixas que depois tratavade recuperar durantes os “exames”, provas que contemplavam a matéria de todoo ano. O sistema de avaliação desta escola utilizava notas de zero a dez,considerando sete a nota mínima para aprovação. Caso a soma das notas de todosos bimestres do ano não contabilizassem 28, o aluno era obrigado a fazer oexame e, se por acaso ainda não obtivesse um rendimento mínimo, deveriarealizar a temida recuperação final. Nunca fiquei para recuperação, sempreestudava para os exames e conseguia uma média satisfatória para ser aprovado. No ano em que reprovei a quinta série, minhas notas foram tão baixasque eu não tive pontos suficientes nem para realizar a recuperação. Reproveidireto. Todos os anos, portanto, eu freqüentava os “exames” e geralmente eramnas disciplinas de Geografia, Matemática, História e Português. Os professores15 Título de uma música do conjunto de rock paulista Ira!16 Frase retirada do Livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry. Não consigo me lembrar dequantas vezes eu li este pequeno livro, mas me recordo bemde como fiquei encantado na primeira vez.
  27. 27. destas matérias eram os que mais me desagradavam, fosse pela forma tradicionalcomo ensinavam, utilizando cópias extensas de textos no quadro negro, fossepela forma severa com a qual exigiam o respeito e a disciplina da sala de aula. O professor de matemática, José Carlos, apesar da sua baixa estatura(ele não devia ter mais de 1,60m de altura), tinha um tom ameaçador. Falavabaixo, aos soluços e apenas se preocupava em explicar a matéria em um tommonótono e barbitúrico. Toda a semana conferia os exercícios solicitados, dandopontos negativos aqueles alunos que não cumpriam as tarefas. Eu geralmente erapremiado com muitos deles, muitas vezes porque não conseguia fazê-los... Pois é,Matemática, ao menos para mim, era um bicho de 700 cabeças. Geografia era outro tormento. A professora Mariclara gritava para exigirsilêncio e despejava uma profusão de perguntas para respondermos em nossoscadernos; os malditos questionários. Eu sempre gostei de Geografia, mas só fuidescobrir isso quando já estava a caminho da Universidade. Desde criançasempre fui apaixonado por mapas. Eu tinha um Atlas antigo, herança dos temposescolares dos meus irmão, que ficava manuseando durante horas a fio numaviagem imaginária pelos continentes. Meu pai aguçava ainda mais a minhacuriosidade quando dividia comigo, alguns de seus conhecimentos sobre omundo. Foi ele quem ajudou a tornar o Japão um sonho de infância quando, nasua simplicidade, me explicou sobre o trem mais rápido do mundo - o TremBala; ou das diferenças de fuso horário dizendo que quando no Brasil era dia noJapão já estavam todos dormindo. A minha irmã sempre conta cenas bemhilariantes, como quando eu, nos meus quatro ou cinco anos, cavava buracos nochão do quintal e ficava olhando dentro deles. Quando me perguntavam o que euestava fazendo eu apenas dizia: “estou olhando os japoneses do outro lado domundo” Apesar dessa minha curiosidade pelo mundo, a minha relação com osprofessores de Geografia sempre foram desastrosas e com certeza a Mariclaranão despertou meu interesse em aprendê-la na escola. Mas, meus maiores problemas ainda eram Língua Portuguesa e aMatemática. A minha escola anterior não havia me preparado devidamente paraum Ensino Fundamental numa instituição como o Maylasky e, como eu nuncafui um aluno dedicado, o problema foi ano a ano se tornado uma bola de neveque continuou trazendo infelicidades por todo meu período escolar.
  28. 28. Eu, na verdade, não me interessava muito pela escola, não gostava deobedecer a regras, estudando para as provas, realizando as tarefas que me eramdelegadas. Isso tudo soava para mim, como desperdiçar parte do meu tempo comalgo inútil. Eu queria aproveitar esse tempo com algo que me fosse prazeroso,algo que eu achasse importante. Assim, aos poucos, fui desenvolvendoadmiração por dois assuntos: Ciências e Inglês, disciplinas estas que teriamgrande peso na minha caminhada à idade adulta. Ciência já me era algo familiar, era algo que tinha contato desde ainfância. Poder ver nos livros fotos dos animais e informações mais profundas doque aquelas aprendidas com meu pai era no mínimo fantástico. Uma professora, ainda na quinta-série, conquistou minha admiração:Dona Eunice, a nossa professora de Ciências. Eu adorava Ciências e sempre consumia o livro antes das explicações.Quando Dona Eunice começava uma nova matéria eu já sabia do assunto etratava de responder prontamente suas perguntas. Ela ficava impressionada. Eladespertou meu interesse, pois foi uma das poucas a me elogiar pelos meustrabalhos escolares. Sempre que a procurávamos, após as aulas, para discutiralgum assunto dos livros ou de algo que havíamos visto na TV, eladisponibilizava tempo e paciência para nos ouvir e dar sugestões e opiniões. Na minha classe tinha um garoto bastante popular entre os estudantes.Ele era um dos melhores alunos da sala e até hoje o tenho como uma pessoaextremamente inteligente e muito especial; seu nome era Douglas, mas todos oconheciam mais pelo seu sobrenome: Farah. Ele vivia criando coisas paraapresentar aos professores da escola. Lembro que uma vez ele construiu umventilador utilizando um motor retirado de um gravador de fitas K-7 e o acoploua sua carteira. Todos ficaram encantados com aquilo. Eu alimentava uma mistura de admiração e inveja dele, pois ele tinha orespeito de todos na escola e não tinha medo algum de se exibir, bem diferentedo meu comportamento introspectivo e bastante tímido. Certa vez, a professora Eunice sugeriu que elaborássemos um trabalhosobre rochas. Eu adorei o tema e mergulhei tanto na produção que visitava abiblioteca municipal da cidade várias vezes durante a semana. Eu buscava noslivros informações, fotografias, enfim tudo que pudesse me ajudar a montar umacoleção de rochas com suas respectivas classificações científicas. Montei uma
  29. 29. ampla coleção e desenvolvi um mostruário de madeira, utilizando uma caixaonde minha irmã guardava seus materiais de corte e costura. A minha coleçãoficou muito bonita. Dona Eunice gostou tanto que até pediu emprestado paramostrar nas outras salas. Não me lembro como foi o trabalho do Farah, mas omeu foi eleito um dos melhores da classe e premiado com um 10. A partir daquele momento o Douglas passou a conversar bastantecomigo e descobriu que tínhamos interesses parecidos, ambos gostávamos deCiências. Além dele outro excelente aluno da classe, o Murilo, se juntou ao grupo.Mais extrovertido e brincalhão que o Farah, que era mais sério, Murilo acaboutrazendo um pouco mais de molecagem para o grupo. Era o início de uma grandeamizade. Andávamos sempre juntos na escola, sempre trocávamos livros erevistas sobre assuntos que não eram para garotos de 11 anos. Líamos muitosobre astronomia, biologia e eletrônica. Murilo ainda me ensinou a jogar Xadrez,jogo este que ele dominava e freqüentemente ficava entre os primeiros lugaresnos campeonatos da escola. Eu não cheguei a tanto, muito pelo contrário, sofriapara não receber um cheque-mate logo no início. Lembro-me, que uma vez elequeria jogar e eu disse que não estava a fim, pois eu sempre perdia. Ele insistiu eacabamos jogando algumas partidas, onde cheguei a ganhar dele. Fiquei superempolgado, eu havia superado o mestre. Naquele ano teve campeonato na escolae eu me inscrevi. Fui eliminado na terceira rodada, enquanto ele caminhava paraas finais. Inconformado, eu o procurei e disse: — Eu não entendo, eu consegui ganhar de você! Ele então sorriu e respondeu: — Pois é, mas eu deixei! Os outros alunos não se aproximavam muito da gente, pois nossasconversas eram um tanto estranhas e impregnadas de expressões que eles nãocompreendiam. Tínhamos um lema que vivíamos bradando com os braçosdireitos esticados: “A Ciência Marcha”... Algo estúpido que ficou gravado naminha memória... Como éramos inseparáveis, nos apelidaram de “Três Marias17”, maisisso não nos incomodava, pois dizíamos: “Estas são as estrelas da constelação deOrion18 e como elas, nós um dia iremos brilhar”.17 Estrelas Almitak, Almilame Mintaka, que compõemo “cinturão do caçador”, a constelação de Orion.18 Constelação que possui estrelas bembrilhantes, conhecida popularmente como o “Caçador”, localizadapróxima as constelações de Gêmeos e Touro.
  30. 30. Eu havia descoberto a minha gangue! Foi nesta época que fomos apresentados ao primeiro livro que seriamuito importante para minha formação intelectual: “Eram os Deuses osAstronautas” de Erich von Däniken. Douglas, sempre muito bem informado,apareceu com uma cópia desta obra. Ficamos intrigados com a idéia de nossosantepassados terem sido alienígenas, além da ampla discussão religiosa dentrodaquele pequeno livro. Por causa dele eu fui querer saber mais sobre as antigascivilizações Maia, Asteca e Inca, além dos Egípcios e outros povos antigos. Apartir daí, a empolgação foi tanta que começamos a elaborar nossas própriasteorias sobre o assunto. Aliás, a astronomia após Däniken, passou a exercer um grande fascíniosobre nós. Já estávamos em 1985 e, portanto, o Cometa Halley se aproximava donosso planeta. Eu não tinha a mínima idéia do que era um cometa até aquele momento.Passamos a estudar e compreender não só sobre cometas, mas também sobreoutros astros e num piscar de olhos, palavras e expressões científicascomplicadas como: magnitude de estrelas, supernova, anã negra, pulsares,nebulosas, buracos negros, espectrografia espacial, etc. passaram a ser parte donosso vocabulário diário. Na época, houve grande divulgação do evento na mídia e para nossaalegria, foram lançadas duas coleções sobre o assunto nas bancas de revista:Cometas os vagabundos do espaço e Astronomia, além de várias outras revistas.Estas coleções foram vendidas na forma de fascículos semanais e eu insisti tantoque meus pais passaram a comprá-los para mim. A leitura da coleção Astronomia era bastante densa e complicada peloteor científico, mas o que não entendíamos, vivíamos perguntando a professorese amigos. Na maioria das vezes, acabávamos ficando sem respostas. Foi aí que,analisando a contracapa de uma revista sobre o Cometa Halley que haviacomprado, vi o endereço de vários clubes amadores de Astronomia e deObservatórios Oficiais de todo o Brasil. Passamos a escrever para estasinstituições que, impressionados com o nosso interesse pelo assunto e pelo teordas perguntas, nos respondiam prontamente e até mandavam presentes comoapostilas coloridas e pôsteres. Ainda guardo dezenas destas cartas, bem comominhas coleções de revistas e fascículos, além de dois cadernos de cartografia
  31. 31. onde tomava notas das observações que fazia do céu. Eles estão repletos dedesenhos de constelações, nebulosas, galáxias e anotações sobre crateras lunarese alguns planetas que consegui visualizar. Observávamos o céu com auxílio de uma luneta caseira, confeccionadacom lentes conseguidas em óticas, acopladas a um tubo de PVC. Foram váriastentativas e muitas óticas visitadas para conseguirmos as lentes ideais.Finalmente, a solução de um instrumento com boa capacidade ótica, veio com autilização de uma objetiva de um microscópio velho, de brinquedo, que haviaganhado de presente de Natal da minha irmã. Elaboramos um tripé de madeira,ao qual o Douglas acoplou um complicado sistema mecânico para girá-la eestabilizá-la. Cada dia ela ficava na casa de um de nós. No meu bairro, meuscolegas de rua ficavam admirados com o instrumento e com minhas explicaçõessobre o espaço. Ela aumentava tão bem que conseguíamos ver claramente ascrateras lunares. Acompanhamos o cometa durante semanas e anotamos tudo emnossos cadernos. Naquela época, dizíamos que seríamos cientistas e quem sabe atétrabalharíamos em algum observatório astronômico. Criamos um clube, o UAAalfa E (União Astronômica Amadora Alfa Escorpion19) – nome que escolhemosdevido ao nosso fascínio pela estrela mais brilhante da constelação de Escorpião,a gigante vermelha Antares. Começamos a produzir boletins sobre dicas deobservações astronômicas, curiosidades sobre os astros, entre outras informações.Naquela época, não tínhamos computadores para editarmos estas publicações emuito menos dinheiro para produzirmos fotocópias. A solução encontrada foiredigir os textos a mão, utilizando a minha letra que agora, diferente de anosatrás, era bonita e bastante legível. A mãe do Douglas era professora e possuíaum mimeografo, o qual ela gentilmente cedeu para que pudéssemos produzir ascópias, para em seguida distribuí-las a amigos e colegas. Apesar de todo oempenho e dedicação, o clube não deu muito certo e chegamos a confeccionarapenas duas edições do UAA alfa E. A experiência, no entanto foi bastantepositiva, pois começou a me mostrar que era possível sonhar e seguir nossossonhos. Após a passagem do Halley meu interesse por astronomia passou adiminuir e eu começava a voltar as minhas origens. Os animais começaram a me19 Na astronomia, as estrelas de uma constelação são identificadas pelas letras do alfabeto Grego. As estrelas“alfas” são sempre as de maior magnitude no grupo, ou seja, as mais brilhantes.
  32. 32. interessar de uma forma mais intensa, pois agora eu já sabia como poderiaproceder para estudá-los mais a fundo. O Douglas, apesar de gostar de seresvivos, não me acompanhou nesta minha “outra viagem” rumo a novasdescobertas. Eu iria, a partir daquele momento, aumentar ainda mais meu círculode amigos só que, novamente, fora do meio escolar. Na escola, a professora de Ciências anunciou que haveria umaFeira Científica já no primeiro semestre. Entusiasmados, mais que depressacomeçamos a procurar um projeto para apresentar. O Douglas sugeriu algumtema sobre astronomia, mas já havíamos apresentado nossas observações docometa Halley no ano anterior e apesar do interesse da professora, aquele projetonão tinha chamado a atenção dos nossos colegas de classe. Acabou sendo algomeio nerd, extremamente elaborado e... bem chato. Todos olhavam aquelesmapas esquisitos, mas quase ninguém fez perguntas sobre o que aquilo tudosignificava. Eu queria que, desta vez, fosse algo inovador e que atraísse aatenção do público. Como eu estava entretido com meus livros sobre animais, eu propusrealizarmos um experimento com algo vivo. Naquela época, eu tinha um livroantigo de Ciências do meu irmão, que mostrava como abrir baratas e minhocas,expondo seus órgãos. Aquilo parecia interessante, mais ainda soava um tantosem graça para uma Feira de Ciências. Foi aí que o Douglas sugeriu um sapo,pois encontrou um livro contendo todos os detalhes e procedimentos daexperiência que permitiria, entre outras coisas, poder observar os órgãos doanimal em funcionamento. Nós abriríamos um sapo vivo. Aquilo a princípio me pareceu errado, mas a curiosidade foi maior e nosdias que se seguiram passamos a preparar nossa apresentação. Como ainda nãotínhamos um sapo para testar o projeto, utilizaríamos uma lagartixa como cobaia,mas nem tudo seria fácil ou sairia como o planejado. A idéia de usar uma lagartixa foi minha e, apesar de ser um bicho maisacessível, afinal de contas qualquer casa possui pelo menos um par delas, nósnão tínhamos a mínima idéia de como capturá-las. Foram várias tentativas, mas opequeno réptil sempre dava um jeito de escapar. Não sei como, mas através datentativa e erro, surgiu uma metodologia que não falhava a da “toalha molhada”.O método era bem simples: primeiro deveríamos tirar o animal do seu habitatpreferido, o qual o tornava inacessível para nós – a parede. Assim, lançávamos
  33. 33. uma toalha molhada que desequilibrava o ágil bichinho, que caía no chão.Depois era só coletá-lo com as mãos. Após o sucesso na captura do nosso objeto de estudo, passamos aosprocedimentos. O livro dizia que o animal deveria ser anestesiado comClorofórmio ou Éter, mas como não tínhamos aqueles produtos em casa,procuramos um substituto e até hoje, não sei por que escolhemos o Álcool. Conseguimos uma lagartixa enorme e prendemos a coitadinha numpedaço de madeira, com fita adesiva. Então, com um pedaço de algodãoembebido em álcool, nos pusemos a sedá-la, direcionando o algodão em suasnarinas durante alguns minutos. Ela ficou desesperada, porém repentinamente,parou de se debater e então, friamente com a ajuda de uma lâmina de barbear, eufiz uma incisão no seu abdômen. Ficamos admirados ao ver o interior do animal,o coração pulsava... Era incrível, o experimento estava sendo um sucesso.Ficamos tomados pela euforia até que o animal começou a se debater, se livroudas fitas adesivas e pôs se a correr pelo chão. Nós ficamos em choque,observando aquela lagartixa correr com a barriga aberta. Eu não sabia o que fazer,mas o Douglas rapidamente pegou o animal e o atirou dentro do vidro cheio deálcool, numa tentativa desesperadora de encerrar com o seu sofrimento. Ela se debateu por alguns instantes e depois morreu. Nós aindapermaneceríamos mudos, sentados no chão, tentando nos recuperar do susto eentender aquela cena bizarra que mais parecia ter saltado de um pequeno filmede horror. Naquele dia descobrimos que o álcool não possuia efeito anestésico eque os répteis podem fingir-se de mortos para despistar seus predadores. Maneiramais estúpida de se aprender... Agora sabíamos que, se fossemos utilizar um sapo precisaríamosconseguir um pouco de Clorofórmio ou Éter, porém o problema maior ainda era:onde conseguiríamos um sapo vivo. Eu me lembrei de um brejo que havia perto da casa da minha irmã e,numa noite, munidos de lanternas, formos até lá e conseguimos dois animais.Um deles nós abrimos na casa de um amigo nosso, o Alexandre, que mais tardefaria parte do nosso grupo científico. A experiência teste foi um fracasso total, mas desta vez sem o show dehorrores protagonizado pela lagartixa, pois tínhamos Clorofórmio. Durante oprocesso, o Alexandre cortou por engano, uma veia que fez com que o animal
  34. 34. sangrasse muito e morresse em poucos minutos. Mesmo assim, decidimos levar o projeto adiante e no dia daapresentação, informamos à classe que iríamos mostrar o funcionamento dosórgãos internos de um ser vivo. Em seguida, anestesiamos o sapo edesenvolvemos todos os passos da atividade que desta vez aconteceu semincidentes. A professora adorou a apresentação e nossos colegas nunca mais seesqueceram daquilo. Hoje, quando avalio este momento da minha vida, e outros que nãorelatei nestas páginas como quando eu caçava borboletas para espetá-las emalfinetes ou ainda, quando retirava animais da natureza para mantê-los cativos nomeu quintal, ainda tento entender como eu podia ser capaz de tais atrocidades. Era como se eu quisesse os animais por perto, mas sem me importarmuito com o que sentiam ou se sentiam alguma coisa. Pois é, crianças possuem esse lado curioso e cheio de maldade queprecisa ser lapidado. Naquele mesmo ano eu daria início a um curso promovidopelo Zoológico da minha cidade, que me ajudaria a começar a desenvolver umaboa relação com a natureza. Alguns membros da equipe do Zoológico Municipal “Quinzinho deBarros”, visitaram minha escola divulgando um curso chamado: “Curso deEcologia por Correspondência”. Eu me cadastrei nesta atividade, que era gratuitae mensalmente, recebia um envelope enorme, com o meu nome, contendo umfascículo com um texto falando sobre meio ambiente. A cada fascículo um temadiferente: animais, plantas, ecossistemas brasileiros, ameaças a fauna silvestre,poluição, entre outros. Eu adorava aquele curso. Anexado a este material sempretinha uma folha de exercícios que, depois de desenvolvido, deveria ser devolvidoao zoológico pelo correio. Semanas depois, recebíamos a folha corrigida e commensagens de incentivo. Este Curso me colocaria em contato com aquela instituição que, maistarde acabaria fazendo parte do melhor momento da minha vida. “...Eu – vivendo em meu pequeno mundo caótico”2020 Frase retirada do poema “Mundo Caótico”, escrito pelo próprio autor em1990.
  35. 35. Em Barra Bonita(SP), com o pessoal do MatheusMaylasky, durante viagem deformatura da oitava (Foto: Douglas Farah).
  36. 36. O lugar mais animal da cidade!21 “Ei, quero-quero Oi, tico-tico Anum, pardal, chapim Xô, cotovia Xô, ave-fria Xô, pescador-martim (Chico Buarque de Holanda)22E m 1985, quando então eu já cursava a sétima série, nossa professora de Ciências, por motivos que não me recordo, foi substituída durante alguns meses por um outro professor. O Tito, como ele gostava de serchamado, era muito diferente dos professores da escola. Era brincalhão, meiomoleque e vivia trazendo objetos e experiências para realizarmos em sala de aula.Era também exigente com a disciplina, mas em troca nos brindava com aulassuper animadas, divertidas, onde tínhamos ampla participação. Naquela época, quando estudávamos os animais, ele agendou umaatividade no Parque Zoológico Municipal “Quinzinho de Barros”, uma aulasobre cobras e aranhas. Tito conhecia a Maria Cornélia Mergulhão, a Neli,bióloga do Zoológico e responsável pelo Departamento de Educação Ambiental elevou a classe toda para interagir com animais vivos, numa atividade bemhumorada e pra lá de interessante. Nós tocamos jibóias, vimos escorpiões epudemos até acompanhar, estarrecidos, a bióloga deixar uma aranhacaranguejeira caminhar sobre seu braço. Naquele dia, reaprendi muitos conceitos21 Slogan adotado durante os anos 90, pelo Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, da cidade deSorocaba – SP.22 Trecho da música “Passaredo” do Chico Buarque de Holanda.
  37. 37. que havia recebido do meu pai de uma forma mais folclórica, pois ao contráriodo que ele me dissera, a jibóia não era peçonhenta ou perigosa, muito menos aaranha caranguejeira. Ao final da atividade, Neli disse que estaria sempre a disposição noZoológico, para eventuais perguntas e dúvidas; que poderíamos procurá-lasempre que quiséssemos. A partir daquele dia eu comecei a ir ao Zoológico quasetodos os finais de semana para passear pelo local e, apesar de algumas vezes tervisto a Bióloga por lá, a minha timidez nunca me permitiu arriscar uma conversa. Mas isso iria mudar... Neste mesmo ano apareceu no jornal da cidade, uma reportagem sobreuma atividade para crianças que seria realizada no zoológico, o CIOA - ClubeInfantil de Observadores de Aves. Este seria um grupo permanente de estudo,composto por crianças com faixa etária de oito a 14 anos. Imediatamente fuiatrás de informações sobre como poderia participar e fiz minha inscrição. As primeiras reuniões aconteceram no próprio zoológico, porém depoisde algumas semanas, elas seriam transferidas para outro parque da cidade, oParque da Biquinha. O lema do CIOA era “Troque seu Estilingue por umBinóculo”. Todos os sábados de manhã, lá se reuniam cerca de 20 crianças epré-adolescentes para ouvirem explicações sobre meio ambiente, planejarviagens e fazer observações de aves. Nestas ocasiões, nós assistíamosapresentações de slides sobre os hábitos dos animais, participávamos de aulascom material biológico taxidermizado do acervo do zoológico, além de jogos,dinâmicas e gincanas sobre temas ambientais. Esta forma diferente de ensinarsobre a natureza faria do “Quinzinho de Barros” um Zoológico pioneiro emEducação Ambiental no Brasil, tornando-se referência para implantação deatividades semelhantes em outras instituições em todo território tupiniquim. ANeli, mais tarde nos anos 90, defenderia sua dissertação de mestrado mostrando aimportância que estas atividades tiveram na formação intelectual e profissionalde seus participantes. A maioria dos integrantes do CIOA já se conhecia de outros programaseducativos do Zoológico, como o TRANZOO (Transando o Zoológico), umcurso semanal que acontecia nos meses de férias. Eu nunca tinha participado doTRANZOO e, diferente dos outros participantes do Clube, não estava integradoao grupo, eu era apenas um visitante que poucos dispensavam atenção. Foi difícil
  38. 38. minha adaptação nos primeiros meses, pois eu não conseguia me aproximar efazer amizade com os outros. Pensei até em desistir, mas a Neli levava tantascoisas legais para aquelas reuniões que decidi enfrentar a indiferença dos colegase permanecer no grupo. Apesar dos objetivos propostos para o CIOA, ele funcionava mais comoum ponto de encontro entre crianças e adolescentes, do que como um grupo deintensa discussão ecológica. Nas viagens, muitas das quais pernoitávamos emfazendas e parques ecológicos, experimentávamos várias aventuras e isso tornavaaquele grupo muito especial. Assim, ninguém estava muito interessado emaprender nomes de passarinhos... Mas contrariando a todos eu comecei a meinteressar em aprender mais sobre as aves... Acho que foi em 1986 ou 1987 quando a Neli descobriu que, oDepartamento de Parques e áreas Verdes da cidade de São Paulo (DEPAVE),estava organizando um Curso de Observação de Aves. Ela inscreveu todos osintegrantes do Clube e durante alguns dias fomos até São Paulo aprender comoidentificar esses animais na natureza, fazer anotações das observações econsultar literatura específica como ferramenta de pesquisa. Eu adorei o Curso,principalmente pela forma que um dos palestrantes se comunicava o grupopresente. Seu nome era Maria Martha e ela falava das aves como uma paixão quecomeçou a despertar em mim interesse em saber mais. Mais tarde, eu passariatambém a observar estes animais na natureza e entraria em contato com a Marthapedindo auxílio nesta minha nova descoberta. Além da Neli, havia outros profissionais do Zoológico com quem eutinha bastante contato como o Veterinário e Diretor do local, o Roni, além daGeógrafa Lélia e da Professora Teonila. O pessoal do Zôo me ensinou muitas coisas: conseguiram corrigir meuportuguês sofrível (eu vivia trocando os “Ls” pelos “Rs” e formando frases semnenhuma concordância gramatical. Isto tornava meu jeito de falar bastante feio einadequado para um ambiente, no qual freqüentavam pessoas com níveluniversitário. Meu conhecimento sobre as aves só aumentava, conforme osmeses se passavam, e eles queriam estimular esse dom que eu possuía, mas antesuns acertos nos parafusos eram necessários. Foi o Zôo também, que reascendeu meu interesse em aprender inglês.
  39. 39. Sempre apareciam por lá profissionais de outros países para conhecer o trabalhodesenvolvido naquela instituição, ou para realizarem trabalhos conjuntos. Euficava admirado vendo a Neli, o veterinário Adauto ou a Bióloga Cecíliaconversando em Inglês com esse pessoal. Quando estes ilustres visitantesapareciam, eu sempre dava um jeito de ficar por perto, para tentar entenderalguma palavra. Pedi então ao meu pai, para me matricular numa escola de Inglês. Eledemorou em concordar, mas como minha irmã disse que ajudaria a pagar,naquele ano eu comecei a estudar no Fisk. Fiquei quase dois anos nesta escola, mas novamente não aprendi quasenada. As salas possuíam grupos de aproximadamente 10 alunos, todos bem maisvelhos do que eu, alguns adultos inclusive. Eu tinha feito um teste, pois jápossuía alguma noção do idioma, devido as minhas tentativas solitárias do curso“Fale Inglês” e fui parar direto no segundo livro do Básico. Os alunos eram maisfluentes e desinibidos, enquanto eu ficava sempre calado e envergonhado. Foimuito desestimulador e quando deixei a escola Fisk, coloquei na minha cabeçaque eu não poderia aprender inglês, não por que não tivera chances, mas simporque não tinha capacidade para tanto. Comecei a achar que o problema era eu. Paralelo a tudo isso, eu começava a me apaixonar por música,principalmente por música eletrônica, que era o som que tocava na danceteria doSorocaba Club, um clube da cidade que freqüentava todos os domingos à noite.Lá eu me encontrava com colegas de escola e do CIOA. Eu ouvia muitoPet-Shop-Boys, New Order e Depeche Mode, comprava os seus LPs e cantava asmúsicas prediletas, acompanhando as letras nos encartes. Passei com o tempo acomprar uma revista chamada Bizz, da editora Abril Cultural, que trazianovidades sobre as bandas e curiosidades sobre os cantores. A Abril lançavaainda, todos os meses, outra revista intitulada Bizz – Letras Traduzidas, quetrazia os maiores sucessos do momento. Assim eu comecei a entender o quemeus cantores prediletos estavam dizendo, comecei a conhecer as músicas maisprofundamente e inconscientemente continuava estudando inglês e aprendendo. Lá no Zoológico, ninguém sabia deste meu desejo em aprender inglês efoi somente a partir de um evento estúpido que a Neli descobriu isso. Aconteceunuma festa de aniversário de um dos colegas do Clube, onde eu bebi demais ecomecei a falar algumas frases em inglês. A Neli ficou impressionada com o meuvocabulário.
  40. 40. A partir desse dia, eu comecei a ter mais acesso aos “gringos” quevisitavam o Zôo, e numa ocasião passei uma tarde toda acompanhando doisamericanos. Eles queriam observar as aves do Zoológico e queriam alguém paraguiá-los. Os técnicos estavam bastante ocupados e então me perguntaram se eunão poderia fazer isso. No começo, fiquei com medo de não conseguir mecomunicar, mas conforme o tempo foi passando, percebi que o Inglês que eusabia já era o suficiente para manter uma conversa básica e as palavras que tinhaabsorvido das músicas me ajudavam a elaborar perguntas e respostas maisrefinadas... Eu estava começando a realizar meu sonho de infância. Certa vez, um canal de TV foi ao parque da Biquinha realizar umamatéria sobre algo relacionado a beija-flores. Eles queriam entrevistar ascrianças do clubinho e a bióloga Neli me escolheu para essa entrevista. Foi umdesastre, pois apesar do meu conhecimento sobre o tema eu dizia “crube”, “mataatrântica” além de, é claro, me apresentar como “Cráudio”. Daquele dia em diante, meus colegas do CIOA passaram a recitar aseguinte frase “O crube do cráudio foi passear na mata atrântica”. Isso meincomodou bastante, mas foi só a partir daí que tudo começou a mudar... Eu adorava ler livros sobre animais e a equipe de Educação Ambientaldo Zôo me estimulava nesse passatempo, me emprestando vários volumes paralevar para casa. Eu retirava da biblioteca do Zoológico diversas publicaçõescientíficas sobre aves. A linguagem no início me parecia estranha, mas com opassar do tempo tornou-se bastante familiar. Com o Clube nós chegamos a discutir e participar de coisas sérias,como:- Integramos a um movimento feito por grupos ecológicos da cidade contra aenergia nuclear. O governo estava naquela época instalando uma usina deenriquecimento de urânio nos limites da cidade e com as notícias do acidentecom o Césio 137 em Goiânia, passamos a nos interessar pelo assunto e nosdeclararmos contra a energia nuclear.- Nos posicionamos contra a proposta de asfaltamento da estrada que corta oParque Estadual de Carlos Botelho, no estado de São Paulo, durante uma
  41. 41. campanha que teve participação do Zoológico e outras entidades chamada“Asfaltar para Matar”. Foi nesse período que visitamos o parque diversas vezes,um local que se tornou bastante especial para mim, devido a sua beleza eriqueza natural.- Defendemos a Lagoa de Jundiaquara, no município de Araçoiaba da Serra,importante sítio de alto valor histórico ligado ao tropeirismo da cidade deSorocaba e região, que estava em vias de ser drenada. O grupo visitou o local erealizou observações das aves que se encontravam na área e arredores da Lagoa,elaborando um relatório que foi encaminhado a Prefeitura da cidade. Graças aesta iniciativa, a mídia começou a publicar reportagens sobre a Lagoaameaçada e de certa forma, pressionada pela opinião pública, a lagoa foimantida. No final da década de 80, a maioria dos participantes do CIOA já tinhamais de 12 anos e não queriam mais estar associado à palavra “infantil”, presenteno nome do clube. Foi então que este grupo acabou fundando o COAS, Clube deObservadores de Aves de Sorocaba, que daria continuidade aos encontros bemhumorados aos sábados de manhã e as atividades de ecologia. O grupo ainda,entraria em contato com o Clube de Observadores de Aves Nacional, tornando-seum dos vários núcleos oficiais espalhados pelo Brasil, desta renomada entidadede pesquisa no campo da ornitologia. Eu também fiz grandes amigos neste período que freqüentei asatividades do Zoológico, entre os quais se destacam a Maria Cláudia, o André e oHumberto. No início, eu e a Maria Cláudia éramos inimigos mortais. Vivíamosbrigando, não conseguíamos entrar em acordo em relação a nenhum assunto. Aamizade só viria a tomar contornos, quando descobrimos que gostávamos dosmesmos grupos musicais. Eu vivia comprando discos e quando organizávamosfestas, ela pedia para que eu os levasse para animar o evento. Com o passar dotempo eu comecei a freqüentar a sua casa para ouvirmos música juntos egravarmos fitinhas K-7. Ela teve uma grande importância na minha formação intelectual. Filhade um dos jornalistas mais conceituados e respeitados da cidade, GeraldoBonadio, ela tinha acesso a uma vasta literatura além de discos antigos da
  42. 42. coleção de seu pai. Eu gostava de música eletrônica e rock, ela gostava de tudoisso e também de MPB e cinema alternativo. Ainda tenho uma fita k-7, onde elagravou músicas do Chico Buarque, Caetano e Gilberto Gil para mim, emresposta a uma frase que havia dito: “eu odeio esse negócio de MPB!”. Hojetenho Chico Buarque como um dos meus maiores ídolos, mas tudo começou comesta fita lá pelos idos de 1988... Já o André e o Humberto, eram companheiros de atividades de campo.Sempre íamos acampar para observar aves e ficar em contato com a natureza. Tercompanhia facilitava a organização destas atividades e tornava-as mais divertidase produtivas. Estes seriam amigos que eu carregaria comigo para a vida adulta e de umaforma ou outra, estaríamos sempre em contato. “Quando você quer alguma coisa, Todo o Universo conspira para que você realize O seu desejo” (Paulo Coelho)2323 Frase retirada do Livro “O Alquimista” do Paulo Coelho. Este eu li quando tinha 18 anos, por indicaçãoda Neli e da Bia, biólog do Zôo de Sorocaba. Eu estava angustiado e preocupado como meu futuro e durante asuma conversa comas duas, elas me disserampara procurar por este livro. . Apesar de eu não ser fã das obras doPaulo Coelho, este livro me ajudou a lutar pelas coisas que eu acreditava... me ajudou seguir emfrente.
  43. 43. Logotipo do Clube Infantil de Observadores de Aves(fonte: arquivo do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros) Logotipo do Clube de Observadores de Aves de Sorocaba (fonte: arquivo do Parque Zoológico Municipal Quinzinho de Barros)
  44. 44. Sampa no Walkman “Este sou eu parado na esquina A mesma esquina em outra canção É a verdade A-ver-a-cidade Alguma coisa acontece no meu coração. Esta São Paulo São tantas cidades Nunca tantas quantas gostaria de ser”24 (Humberto Gessinger)F oi ainda aos 14 anos que, escondido dos meus pais, me dirigi à rodoviária da minha cidade e peguei um ônibus rumo a São Paulo. Eu nunca tinha ido a capital sozinho e quando o fizera, sempre fora paravisitar algum lugar específico com a turma da escola. Nestas viagens, não haviatempo, nem liberdade para explorar o ambiente. Eu, portanto, tinha uma imensacuriosidade sobre aquela cidade gigante. Meu pai sempre dizia que São Paulo eraum lugar perigoso, um campo de batalha, sempre me botava medo, mas elepróprio só havia ido umas duas vezes, para visitar amigos em bairros afastadosdo centro. O que ele poderia saber?24 (Sampa no Walkman) Título e versos, retirados de uma música da banda de rock porto-alegrense“Engenheiros do Haw aii”. Este foi o somda minha adolescência, juntamente como Ira!, Lobão, Ultraje aRigor, Legião Urbana, RPM, entre tantas outras bandas do movimento roqueiro da década de 80. Mas osEngenheiros tinhamumcharme especial nas letras, tinhamumar bemadolescente cheio de chavões e frases deefeito. Eu e alguns amigos passávamos madrug adas ouvindo suas músicas, cantando e tentando desvendar o quehavia por trás de músicas como “ revolta dos Dandis”, “Piano Bar” ou “Infinita Highway”. Ainda hoje me Aemociono comfrases como: Que a chuva caia como uma luva, um dilúvio um delírio, que achuva traga alívio imediato; que a noite caia, de repente caia tão demente quanto umraio, que a noite traga alívio imediato... da música Alívio Imediato.
  45. 45. Eu tinha aquelas lembranças da minha infância, quando então, minha tia Helenavoltava de São Paulo, me trazendo presentes e transpirando liberdade. Natelevisão da época, com transmissão direta de São Paulo, pois Sorocaba aindanão possuía sua sede própria, passavam vários comerciais mostrando lojas elugares que não havia na minha cidade. O Mcdonalds, por exemplo, era o tempotodo divulgado na TV, mas naquela época não havia nenhum em Sorocaba, eununca tinha ido, eu queria tanto ir... Nesta primeira aventura, limitei-me a andar pelos arredores do TerminalRodoviário do Tietê. Com o tempo, em outras visitas, passaria a explorar mais acidade dos meus sonhos, visitando a Avenida Paulista e a região central,especialmente a da Liberdade e República. Na primeira eu alimentava minhacuriosidade sobre a cultura oriental, especialmente sobre o Japão. Visitava lojas enas feiras populares, experimentava a comida da qual sempre gostei. NaRepública, o meu endereço preferido era o da Galeria do Rock. Passeava pelassuas lojas, maravilhado com a quantidade de discos expostos, muitos delesimportados e que nunca haviam sido lançados no Brasil. Era um sonho deconsumo, mas era muito caro, proibitivo, não era para mim... Conhecendo a cidade de perto, passei a entender mais dos sentimentospor trás dos versos de “Sampa” do Caetano Veloso e da melancolia contida nasletras do grupo Ira! “Tarde vazia”, por exemplo, abre com os versos:“Da janela vejo fumaça, vejo pessoasNa rua os carros, no céu o sol e a chuva...” São Paulo, para mim, era sinônimo de modernidade, uma massa deconcreto onde culturas se mesclavam, onde era possível encontrar tudo e de tudo.Eu me apaixonei tanto pela capital que comecei a sonhar com a possibilidade demorar lá um dia. Sorocaba me era ingrata, eu não gostava dos clubes, bares e docomportamento das pessoas de lá. O meu fascínio por cidades grandes sempre foi algo que nunca entendi.Como era possível, alguém que gostava tanto de estar em contato com a natureza,pudesse gostar tanto de concreto, fumaça e do caos de um centro urbano. Nestaépoca eu prometi que um dia deixaria a Sorocaba para nunca mais voltar, umapromessa que cumpriria no futuro e da qual não me arrependeria.
  46. 46. “…E caiu o dia,Que antes, embora vazio,Não ousava estar distanteDe minhas mãos”25 Bairro da Liberdade – São Paulo (Foto: Craig Alan Volker)25 Trecho do poema “Fim... Início... Fim, escrito pelo próprio autor em1992.
  47. 47. O Aprendiz “Nunca te é concedido um desejo sem que te seja concedida também a facilidade de torná-lo realidade. Entretanto, é possível que tenhas que lutar por ele.” (Richard Bach)26O final dos anos 80 e início dos anos 90 foram muito importante para a expansão e sedimentação dos projetos de Educação Ambiental do Zôo de Sorocaba. A instituição conseguiu, através de projetos com entidadesinternacionais, financiamento para suas atividades de educação ambiental e destaforma, pode contratar mais funcionários para integrar a equipe, além daaquisição de equipamentos para expandir o seu Centro de Educação Ambiental. Quando ainda cursava a oitava série, fui convidado pela Neli para serestagiário remunerado no Parque. Fiquei radiante, pois era uma grandeoportunidade de estar em contato direto com aquele ambiente. Foi também umamaneira de aos 14 anos, conseguir alguns trocados que me permitisse uma maiorindependência dos meus pais. No início, o contrato era de apenas quatro horasdiárias e o meu salário, e de outros três estagiários, vinha de um projeto com aWWF27 dos Estados Unidos. Durante este período que freqüentei o parque, eudesenvolvia visitas monitoradas com escolas, explicando sobre os hábitos dosanimais, visitava escolas ministrando pequenas aulas e atividades práticas26 Frase retirada do livro “Ilusões” de Richard Bach. Este é de longe o meu livro favorito. Outra obra quevivia abandonada na estante da sala que tambémpertencia ao meu irmão. Acho que o li umas cinco vezes, aúltima pouco antes de começar a escrever estas minhas memórias. Foi a partir dele que tive a idéia de citar trechosde livros, músicas e poesias durante a abertura e fechamento dos capítulos destes meus escritos. A frase aí acima,a princípio, deveria abrir este livrinho, mas acabei escolhendo este capítulo por achar que ela, de certa forma,ajudaria a explicar a explosão de sentimentos que o dia-a-dia no zoológico me proporcionava. Era purafelicidade, mas tambémera algo que eu havia lutado para conquistar...27 World Wildlife Found, org anização não governamental semfins lucrativos, de âmbito internacional, muitoconhecida. O símbolo da WWF é umurso panda.
  48. 48. utilizando como recursos didáticos: slides, material taxidermizado (peles, ossos,ovos, penas, etc.), além de animais vivos (cobras, aranhas, sapos, etc.). Após um ano, a verba destinada ao projeto acabou e tivemos que serdispensados. Eu fiquei arrasado, pois eu adorava aquilo. Para mim, estar nozoológico não era um trabalho, mas um hobby, o meu passatempo favorito. Naquela época, o diretor do Zoológico, o Roni, havia acabado deinaugurar o seu zoológico particular na cidade vizinha de Votorantim, o ParqueEcológico do Matão. O Matão era um projeto ousado, um zoológico pequeno, incrustado numfragmento de mata nativa da cidade, expondo apenas animais de médio epequeno porte. A idéia era valorizar nas exposições os detalhes, a beleza e ocolorido destes seres vivos. O parque possuía uma fantástica coleção de faisões,pavões, além de recintos quase sem grades. Os macacos, por exemplo, podiamser contemplados em um recinto que fazia uso de uma cerca elétrica para impedira fuga destes animais. Uma ponte foi cuidadosamente projetada para cortar aárea do recinto, de onde se podia observar todo o ambiente e os macacos, sem apresença de telas ou grades. Este parque era um projeto particular do Roni e nascia totalmenteintegrado com a questão educativa. Este, aliás, foi desde o início a ideologia quedirecionou a construção do Matão. Desempregado do Zôo de Sorocaba passei a receber convites do Ronipara realizar monitorias, atendendo escolas no Parque do Matão. Com o passardo tempo, elas começariam a ficar mais freqüentes e eu seria contratado paratrabalhar no local. Desta vez, eu tive muito contato com os animais, além deagendar, criar e desenvolver diversas atividades com alunos de escolas domunicípio e de outras cidades. Eu comecei, entre outras coisas, a ajudar a ambientar recintos, prepararalimentos e até auxiliar na enfermagem dos que adoeciam, trabalhando emconjunto com o Roni. Era como ser biólogo sem diploma. Enigmático, de poucaspalavras e com um vocabulário repleto de provérbios, Roni muitas vezes nãoexplicava, ele deixava que aprendêssemos pela tentativa e erro. Um de seusprovérbios que eu nunca me esqueci foi:“Na vida é preciso aprender a fazer três coisas:Rezar, jejuar e ter paciência”
  49. 49. A paciência era, de longe, a parte mais importante desta frase, repetida aexaustão por ele. Muitas vezes, eu tive raiva por ele não me alertar que algopoderia ser feito de forma eficiente se outro método fosse utilizado. Ele detinhagrande conhecimento sobre a natureza (animais, plantas, ecologia...) e não seimportava em dedicar parte do seu tempo para responder minhas perguntas, queeram muitas. Lembro-me, que uma vez ele me perguntou: — Cláudio, o que você sabe sobre os avestruzes? Eu prontamente respondi que eram aves do continente africano quepodiam atingir até 2,10 metros de altura, dentre outras curiosidades. Aí ele meperguntou: — Você já viu um, alguma vez? E eu respondi: — Não nunca. Ele então me deu as costas e foi embora. Na semana seguinte, cheguei como de costume no parque as 08h00 damanhã. Ele me olhou e disse: — Hoje nós vamos buscar uns animais num criadouro em que douassistência veterinária. Vou precisar de ajuda para manejar algumas espécies evocê vai comigo. O caminho todo foi bastante quieto, ele quase não conversou. Chegandoao criadouro, ele me informou que teria que conversar com o proprietário e melevou até um dos recintos e disse: — Ali estão seus avestruzes. Divirta-se! Eu fiquei mudo. Não sei como colocar em palavras o que senti naquelemomento. Eu já havia visto fotos, assistido filmes e documentários sobre oanimal, mas ver um casal, a menos de dois metros de mim, foi incrível. Otamanho do corpo, comprimento das pernas, os movimentos, tudo era lindo. Toda vez que me lembro do Roni, me vem à lembrança deste momento.Aquilo era prova de que ele me queria muito bem, mas eu já o tinha como ídolo,um profissional brilhante e alguém de grande coração. O contato com o Parque do Matão foi muito importante para mim, memostrou, por exemplo, que apesar de gostar de animais, eu preferia ensinar sobreeles a trabalhar diretamente com eles. Eu gostava de colocar as pessoas emcontato com animais, para que elas pudessem experimentar as mesmas sensações
  50. 50. que as minhas. Achava que este era o caminho para que elas gostassem mais danatureza e passassem a entender seu delicado equilíbrio, passassem a preservá-la.Eu queria educar pelo coração e pela emoção. Permaneci no Matão quase dois anos antes que o Zôo de Sorocabaconseguisse, junto a Prefeitura, um acordo para poder contratar alunos de cursostécnicos como monitores. A idéia era conseguir estudantes de magistério, mas aNeli conseguiu minha contratação também, pois, eu era aluno do Curso deTecnologia de Alimentos. Nesta nova fase, minha carga horária passou a ser deseis horas diária e eu ficaria no Zoológico por mais dois anos, até finalizar oEnsino Médio e ser dispensado novamente, mas eu receberia outro convite doRoni para retornar ao Parque Ecológico do Matão. Eu também já começava a me preparar para a Universidade...“Você é levado em sua vida pela criatura viva interior, o ser espiritualbrincalhão que é o seu ser verdadeiro.Não dê as costas a possíveis futuros antes de ter certeza de que nãotem nada a aprender com eles.Você está sempre livre para mudar de idéia e escolher um futuro, ouum passado diferente.”(Richard Bach) 2828 Frase retirada do livro “Ilusões” de Richard Bach.
  51. 51. Sonhos que podemos ter29 “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena Acreditar no sonho que se tem Ou que seus planos nunca vão dar certo Ou que você nunca vai ser alguém Tem gente que machuca os outros Tem gente que não sabe amar Mas eu sei que um dia a gente aprende Se você quiser alguém em quem confiar Confie em si mesmo Quem acredita sempre alcança!” (Renato Russo)30O ano de 1986 foi palco de tristes acontecimentos, que ainda hoje me lembro com pesar. Teve a Explosão do ônibus espacial americano Challenger, que a TV ficou massivamente noticiando emostrando imagens do acidente. Eu fiquei chocado. Mas o pior mesmo foiquando chegaram às notícias de que Chernobyl havia sido assolada por umdesastre nuclear. O medo tomou conta. No ano seguinte, aconteceria ainda o maior acidente com materialradioativo em área urbana no mundo, quando em Goiânia uma cápsula de césio136, foi encontrada e aberta por dois catadores de sucata. Na escola, na rua ou no Zoológico, todo mundo só falava destesacontecimentos. Foi um período marcante, onde pensávamos que a energia29 Frase da música “Somos quempodemos ser” do grupo de rock porto-alegrense “Engenheiros do Haw aii”30 Trecho da música “Mais uma vez”, interpretada pela banda 14 Bis. Eu adorava a Legião Urbana e nemsabia que o Renato Russo havia feito esta música junto como 14 BIS. Foi umgrande amigo “japonês”, o Celso,que me apresentou emuma gravação emK-7. Adorei a letra e a melodia.
  52. 52. nuclear iria acabar com o planeta, fosse através da guerra ou por meio de váriosacidentes nas usinas espalhadas pelo mundo. Neste período eu estava cursando a oitava série no Maylasky e, de certaforma, desfrutando um dos meus anos mais gostosos naquela instituição. Lembro-me por exemplo, quando os professores pediram para que todosos alunos preparassem algo para mostrar na Semana da Criança, em outubrodaquele ano. Eu não tinha nenhum dom artístico e para piorar era péssimo ematividades esportivas. Mas eu tinha um amigo na mesma situação, o Farah, quesugeriu: “vamos fazer um teatro”. Aquilo me soou estúpido, pois eu eraextremamente fechado e tímido, como eu poderia enfrentar uma multidão? Passamos, nos dias que se seguiram, a bolar um roteiro e o cenário dapeça. O título da apresentação era “A máquina do Cientista Louco”. No script,um cientista (eu), tentando criar uma máquina de sucos acaba, por acidente,inventando uma máquina do tempo trazendo diversos personagens históricos einteragindo com eles. O cientista precisava de um ajudante corcunda, chamadoIgor. Foi fácil encontrar alguém para o papel, pois um amigo nosso, o Denis,também estava perdido sem saber o que iria apresentar. Os personagenshistóricos: Um gladiador da Idade Média, Einstein e Nero, foram todosdesenvolvidos pelo Douglas, que saía da máquina já devidamente caracterizado. A construção do cenário, a tal máquina, foi extremamente divertida.Guardamos segredo da produção até o dia da apresentação, construindo tudo noquintal da casa do Douglas. Ela consistia de uma embalagem de papelão degeladeira, a qual pintamos e forramos com cartolinas coloridas. Numa daslaterais, fizemos uma porta e o Douglas ainda instalou uns equipamentos, que elepróprio construiu, contendo uma campainha, luzes e uma hélice, que funcionavaa pilha. Assim, a máquina ganhou vida e surpreendeu a todos durante aapresentação. A minha parte na peça era densa, pois eu tinha que preparar campo paraa entrada dos personagens e posteriormente interagir com eles. Nós ensaiamosexaustivamente, mas no dia eu esqueci boa parte das minhas falas e tive queimprovisar e mesmo assim foi um sucesso. Se por um lado, eu descobrira que tinha algum talento artístico, omesmo não podia ser dito em relação aos números. Eu penei para finalizar aqueleano, quase reprovei em Matemática. O professor da época, Pedro, visivelmente

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