O professor fora da lei

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O professor fora da lei

  1. 1. O professor, o estado e ranço Cláudio Bertode 1 “O professor é tão forte que é capaz de agir de forma positiva ou negativa no futuro dasociedade. Um agente capaz de interferir e transformar o espaço do qual faz parte; até mesmoconstruir ou reconstruir o próprio Estado Nacional”. Bem que esta frase poderia ser uma síntese dealgumas questões que tocam o pensamento de Paulo Freire. Alguém poderia argumentar que não sepode sintetizar desta forma posições filosóficas e políticas de um grande ideólogo que vão muito alémde uma simples frase. Isto seria uma ação redutora deste pensamento, argumentará esta voz. Mas averdade é que não dissemos que era o possível resumo, mas simples nota de um leitor. Apenas queesta frase toca alguma essência das palavras do bom educador. Uma essência bonita que conquistoumuitos jovens idealistas do país. A educação chegou a se transformar no refúgio da resistência contraa Ditadura militar. Freire abriu caminhos para se pensar e para encarar a educação de um outro prisma, porémcontribuiu, mesmo sem querer, (será?) para o grande abismo entre professores e o estado brasileiro.Por trazer idéias tão novas para sua época e por ser comunista; tornou-se um belo subversivo e foium fora da lei por natureza e por opção. Para este incrível pensador o estado devia ser transformadopela educação; para o Brasil ditatorial a educação não era mais que ferramenta para dominar e paracriar o cidadão que foi predefinido nas mesas das reuniões ministeriais. É bem provável que o regimetinha em mente um cidadão a ser criado nas salas de aula. Não diremos que isso deva ser visto comomais um erro daquele estado, afinal elogia-se que os militares sanguinários tinham um projeto decidadão. Cabe lembrar que todo estado deve preconizar tal projeto, mesmo os estados autoritários.Pena que no estado atual, essa democracia tão sonhada pela nação, nele não se manifeste este tipode projeto. Tanto Paulo Freire, quanto outros educadores da época, foram perseguidos. Muitos forampresos e torturados por subverterem a ordem preestabelecida pelo regime militar. O professor se tornou um problema, virou o porta voz da sublevação e o ser capaz de incutirnos jovens alunos os sonhos comunistas, se transformou no elemento fora de controle. Com isso foipreciso o governo criar mecanismos de desvalorização desta peça tão importante na sociedade. Emqualquer sociedade, é impossível negar a importância da figura do educador. Este que se recusava aser um instrumento positivo ao serviço público estatal do regime, precisava ser detido; nem que paraisso a educação pública fosse perdendo direitos e espaços. Perdendo visibilidade e qualidade. Com adesvalorização, muitos dos profissionais deixaram as salas de aula e foram para outros ramos. Omagistério deixa de ser exercido pelas classes médias e altas, pois esta profissão não tinha mais omesmo prestígio nem era mais rentável, futuramente este profissional passa a surgir das própriasclasses desvalorizadas.b A educação passa a ser exercida por pessoas muitas vezes desqualificadas1 Cláudio Bertode é professor da Rede de Ensino Público e Privado do Estado de Goiás
  2. 2. ou por seres alheios a um curso na área. Por exemplo, engenheiros, advogados e outros. Estesencararam a profissão como “um bico”, algo que exerciam nas horas de ócio, nas horas sem ter oque fazer nas suas profissões. Outro tipo de profissional foi aquele sem curso superior, masprecisava de um emprego e seria até capaz de “entrar” em uma sala de aula pelo menos o tempo deconseguir um emprego melhor. Chegou mesmo, com o aumento do número de escolas, de mais deoitenta por cento dos professores não terem curso superior de licenciatura ou não terem cursonenhum. Os bons professores foram para as universidades, que aceitavam educadores com umasimples licenciatura, outros foram para a rede privada, uma vez que esta começou a pagar melhorque a rede pública. Os filhos dos ricos, a elite, vão estudar na rede privada; com isso, o professor queali trabalha conserva certo ar de “status”. Essa pequena elite continua com o projeto de ter uma boaeducação para entrar em uma Universidade Federal. A escola pública fica a míngua e só com a velhaideologia freiriana, com a esperança de que melhor que entrar em uma Universidade era pelo menossaber ler e escrever, saber atravessar a rua, jogar o lixo na lata, ler o jornal que vem nos embrulhosdo pão (e daí se não tem dinheiro para assinar um jornal diário?); um avanço em relação aos paisdestas crianças que não tiveram oportunidade nenhuma. Passa então o governo a pregar que agorahavia igualdade de oportunidades. Tanto o filho do mais rico deputado, que estuda nas escolas dealtas mensalidades e de ideologia elitista, quanto a escola da periferia davam a oportunidade de ojovem pleitear uma vaga na Universidade, ao final. “Mas será que igualdade de oportunidades é omesmo que igualdade de condições?”. Essa pergunta já circulou a mesa de reuniões e de muitosseminários sobre educação. Inclusive o nosso bom educador e pesquisador Libâneo já a proferiumuitas vezes. Engana-se quem pensa ou prega que o ensino privado só trabalha com números. Averdade é que continuam preparando os líderes de nossa sociedade. Da mesma forma, engana-sequem disser que o ensino público prepara o cidadão crítico e qualifica para exercer direitos e deveres.Engana-se quem pensa que o estado não se preocupa com números muito mais do que a redeprivada, esta, ao menos, tem a desculpa de estar em busca de novos e ricos clientes. O governoatravés de sua secretaria de educação pressiona suas escolas para que aprove seus alunos. A metasilenciosa, mas não secreta e muitas vezes gritada de maneira implícita é que o aluno passe pelaescola de Ensino Fundamental e Médio o mais rápido o possível para baixar os custos. “Sabe quantocusta um aluno, por ano, para o estado?”, já nos foi perguntado certa vez por uma sub-coordenadorada secretaria de educação do estado. A ordem silenciosa é acelerar, aprovar, passar, promover,elevar os números. As escolas que tentam aliar qualidade com quantidade, ficam mal vistas e malavaliadas pelas subsecretarias. A autonomia comemorada pelas escolas e educadores é umaautonomia vigiada e falseada na leitura dos números. É elogiada a escola que cria mecanismos paraos números positivos, independente de qualidade. Embora isto não fique claro, “bastam poucaschibatadas na carga para que o burro saiba que é hora de romper o passo”.
  3. 3. No Brasil do pós-militarismo cria este movimento inverso. O professor novamente começa aassumir seu papel de pensador. A maioria novamente tem curso superior e boa parte tem pós-graduação e cursos de aperfeiçoamento na área da educação. Um problema é que continua o saláriopouco atrativo e que obriga o professor a se sobrecarregar para se sustentar. Isso quando osmelhores não migram para outros setores do serviço público através de concursos ou“apadrinhamento”. Com isso, quem tenta sobreviver de educação tem de morrer um pouquinho pordia. Perde o tempo para preparar boas aulas e para seu crescimento enquanto pensador e ideólogoda sociedade. Sobram para o advento do magistério ou os poetas idealistas e messiânicos ou os quenão são bons o bastante para irem para outra área. Chega ao cúmulo do paradoxo de o professorcobrar dos alunos para que leiam um pouco mais, e ele próprio não abrir outro livro que não seja odidático. Resultado é que não houve ainda uma trégua na queda de braço entre governo e educador. Oestado ainda deixa escapar o ranço contra o educador e este ainda não confia no estado que orebaixou a uma subcategoria dentro do serviço público e dentro da sociedade. O governo prega oavanço dos números, o aumento da quantidade de escolas, a quantidade de aprovações ao final decada ano, o número alto de matrículas (mesmo a custo de bolsa escola, e outros incentivos), mas oprofessor continua trabalhando como um clandestino, um subversivo silencioso pronto a transformara sociedade se assim pudesse e transformar o estado em estado verdadeiramente democrático eigualitário. O governo finge que respeita o papel do professor, que se solidariza, que compactua asmesmas idéias, mas basta falar em salário e outros direitos como plano de carreira, que novamente oprofessor é visto como o velho fora da lei. Em Brasília o governador chegou ao disparate deempunhar uma campanha na tevê para desmoralizar perante a opinião pública as reivindicações doseducadores. Estamos longe de uma boa educação pública no país. Temos muitos discursos, muitadisposição, muita fé, mas enquanto não desfizermos o mal entendido gerado entre estado eeducadores não vamos ter uma verdadeira transformação do ensino brasileiro.

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