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   É um desdobramento do Realismo.
   Romance cientificista – “de tese”.
   Influência do positivismo, determinismo, do
    darwinismo.
   Proposta de revelar “patologias sociais”.
    Sexo, prostituição, adultério, homossexualidade,
    violência, assassinatos, vícios, etc.
   Zoomorfização do homem.
   Análise de camadas sociais mais baixas.
• Obra-prima do Naturalismo brasileiro.

• Personagem principal: o próprio Cortiço.

• Cortiço: um organismo vivo.

• Romance social: cortiço x sobrado.
    Em primeiro plano, está a história do português
    João Romão, que, em sua ambição desmedida,
    ascende socialmente de vendeiro amante de uma
    escrava a dono de um “Império” (o Cortiço), futuro
    Visconde e respeitado marido da filha do Barão.

   Paralelamente, são apresentadas histórias dos
    miseráveis moradores do Cortiço, que têm suas
    vidas condicionadas pelo ambiente em que vivem,
    pela natureza brasileira, pelas raças a que
    pertencem...
1- (Unifap-AP)

"E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e
lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma
coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo,
daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
Após análise do texto acima, fragmento do romance O Cortiço de
Aluísio Azevedo, e da ilustração que representa um espaço urbano de
Macapá, responda:

a)O que o texto tem em comum com a ilustração?

b) No romance, a ligação entre as personagens e o meio procura
demonstrar um dos grandes princípios do Naturalismo. Que princípio
é esse?

c) Justifique esse princípio.
    O ambiente social e a natureza impõem-se
    sobre o indivíduo, ao gosto dos deterministas.
   O cortiço e a natureza tropical são tratados
    como organismos vivos.
   Personagens planas (sem profundidade
    psicológica) – interessa o fatalismo
    determinista.
   Personagens, constantemente, animalizadas
   Dos treze aos vinte e cinco anos trabalha como empregado
    de um patrício.
   Movido pela ambição capitalista.
   A falta de escrúpulos é parte “natural” de sua
    personalidade, é consequência da patologia de que sofre
    (“moléstia nervosa, febre de enriquecer”).
   Comporta-se de acordo com sua própria moral, segundo a
    qual tudo se justifica em nome dos seus interesses.
   O fato de ser um explorador dos seus semelhantes faz parte
    da ordem natural das coisas: é um animal vencedor
    impondo sua força na selva da vida.
   Deseja ascender economicamente, mas, depois, também
    socialmente (busca status).
    No início da narrativa, é uma crioula de cerca de trinta anos,
    quitandeira afamada, escrava de ganho (que pagava aluguel por
    sua liberdade) de um velho cego do interior.
   A união com João Romão não altera sua natureza e muito menos
    seus hábitos de escrava, pelo contrário: passa a carregar (de bom
    grado, é verdade, pois agora está “livre”) três fardos de uma só
    vez – torna-se caixeira e criada (trabalhando como burro de carga
    para enriquecer o amante-patrão) e amante (servindo de fêmea
    ao seu homem):
   “(...) Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem
    dia santo”.
   Apenas em um momento da narrativa Bertoleza tem voz ativa:
    quando se recusa a ser encostada por João Romão como um traste
    qualquer: tem consciência do quanto é responsável pela ascensão
    do amante e quer tratamento à altura de sua importância na vida
    dele.
    “Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só
    com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem
    coragem para recomeçar a vida, depois de se haver
    habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de
    português rico que já não tem pátria na Europa.”
   Enquanto João Romão vence pela capacidade de trabalho,
    pela habilidade natural para negociar e explorar e pela falta
    de escrúpulos, Miranda vence pela capacidade de dobrar-
    se às conveniências sociais: é humilhado pela mulher, com
    quem se casou para enriquecer, e sente inveja da força e
    esperteza do vizinho vendeiro, mas consegue o
    reconhecimento e a admiração dos homens ao fazer fortuna
    com a herança de Estela e conquistar o título de Barão.
   Busca uma identidade social que só consegue vergando-se
    às conveniências.
   Seu nome vem do latim “miror” – admirar – e indica seu
    papel em relação a João Romão.
    É a personagem que melhor representa a hipocrisia social
    na narrativa.
   É uma caricatura naturalista típica: só tem defeitos: manias (a
    proteção ao Valentim, a fixação com a beleza), taras (a
    insaciabilidade sexual).
   “Dona Estela, coitada! é que se precipitava, a passos de
    granadeiro, para a velhice, a despeito da resistência com
    que se rendia; tinha já dois dentes postiços, pintava o
    cabelo, e dos cantos da boca duas rugas serpenteavam-lhe
    pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça
    maliciosa dos lábios; ainda assim, porém, conservava o
    pescoço branco, liso e grosso, e os seus braços não
    desmereciam dos antigos créditos.”
   A relação entre Miranda e Estela, baseada apenas em
    convenções sociais, revela uma crítica (comum na literatura
    realista e naturalista) aos casamentos arranjados, baseados
    em interesses ou conveniências.
“— Você quer saber? afirmava ela, eu bem percebo
quanto aquele traste do senhor meu marido me
detesta, mas isso tanto se me dá como a primeira
camisa que vesti! Desgraçadamente para nós,
mulheres de sociedade, não podemos viver sem
esposo, quando somos casadas; de forma que tenho
de aturar o que me caiu em sorte, quer goste dele
quer não goste! Juro-lhe, porém, que, se consinto que
o Miranda se chegue às vezes para mim, é porque
entendo que paga mais à pena ceder do que puxar
discussão com uma besta daquela ordem!.”
   De início, quando se mudou para o cortiço para trabalhar na pedreira, o
    cavouqueiro “era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era
    como homem. (...)
   Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo,
    barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por
    debaixo de um chapéu de feltro ordinário: pescoço de touro e cara de
    Hércules, na qual os olhos, todavia, humildes como os olhos de um boi de
    canga, exprimiam tranquila bondade”.
   Destacava-se não só pela “força de touro que o tornava respeitado e temido
    por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e, talvez, principalmente, a
    grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era
    homem de uma honestidade a toda prova e de uma primitiva simplicidade no
    seu modo de viver”.
   Ele é a figura acabada do indivíduo dobrado pelo meio: toda a força física e
    retidão de caráter de Jerônimo não resistiram à força do sol tropical, e o
    contacto com Rita Baiana (símbolo da tropicalidade) transformou-o
    completamente; fazendo aflorar sua sensualidade, minando sua resistência
    física e transformando também sua personalidade, tornando-o preguiçoso,
    gastador, beberrão e desavergonhado:
• “O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso,
amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora-
se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a
esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade
de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela, e mais
ninguém”.
• Sua trajetória – de animal vencido – é oposta à de João Romão – o
animal vencedor que domina e transforma o meio de acordo com
seus interesses.
• A descrição de Jerônimo como um Hércules é apropriada: assim
como o herói da mitologia greco-romana, ele era muito forte, e
assim como Hércules definhou antes da morte envenenado por
vestir um robe, enviado por sua mulher Dejanira, que (sem que ela
soubesse) continha o veneno da Hidra, Jerônimo morre
“envenenado” por “vestir a pele” de um brasileiro ao apaixonar-se
por Rita Baiana.
   Símbolo da força sensual da natureza tropical
    brasileira.
   Rita é o centro irradiador de alegria e sensualidade
    no cortiço: “E toda ela respirava o asseio das
    brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas
    aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo
    quadril baiano, (...) pondo à mostra um fio de dentes
    claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia
    com um realce fascinador”.
   Descrita por meio de metáforas ou comparações a
    elementos da flora e da fauna brasileira, Rita resume
    o fascínio e o poder da terra brasileira sobre o
    estrangeiro (particularizado em Jerônimo),
    entorpecendo e enfeitiçando-lhe as sensações:
“Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que
ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o
calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das
baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e
esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o
açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju,
que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e
traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito
tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe
as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias,
para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha
daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de
prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da
Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.”

        “desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a
        com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o
        sangue da mestiça reclamou os seus direitos de
        apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça
        superior”.
    É uma caricatura do marginal malandro
    e valente. Mas sua agilidade e esperteza
    não foram suficientes para vencer
    Jerônimo, o “Hércules” europeu.
    “teria trinta anos, boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes
    de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas sólidos e perfeitos,
    cara cheia, fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona,
    desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simpática
    expressão de honestidade simples e natural”. “Piedade merecia
    bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, bem
    acomodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e
    dando sempre tão boas contas da obrigação, que os seus
    fregueses de roupa, apesar daquela mudança para Botafogo, não a
    deixaram quase todos“.
•REVOLTA CONTRA A NATUREZA BRASILEIRA: “sem se conformar
com a ausência do marido, chorava o seu abandono e ia também
agora se transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo
de chumbo, uma dura desesperança, a que nem as lágrimas
bastavam para adoçar as agruras; (...) começou a afundar sem
resistência na lama do seu desgosto, covardemente, sem forças para
iludir-se com uma esperança fátua, abandonando-se ao abandono,
desistindo dos seus princípios, do seu próprio caráter, sem se ter já
neste mundo na conta de alguma coisa e continuando a viver
somente porque a vida era teimosa e não queria deixá-la ir
apodrecer lá embaixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no
serviço; as suas freguesas de roupa começaram a reclamar; foi-lhe
fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e moleirona (...).”

• Por fim, entrega-se completamente à bebida, torna-se passiva aos
abusos dos homens, é expulsa da Avenida São Romão e refugia-se no
Cabeça-de-Gato.
   Leandra, a Machona.
   Leocádia e Bruno.
   Augusta Carne-Mole e Alexandre.
   Albino.
   Paula, Bruxa.
   Marciana e Florinda.
   Pombinha.
   Léonie.
   Juju.
   Senhorinha.
   Zulmira.
   Henriquinho.
   Botelho.
    O romance apresenta, como é comum na
    narrativa naturalista, um narrador
    onisciente, que tudo observa, relata,
    investiga.
    É comum o movimento narrativo que parte
    de um quadro geral ou vista panorâmica do
    ambiente para a enumeração e ou
    descrição exaustiva de seus detalhes
    (objetos, personagens, ações),
   capacidade extraordinária para fixar os
    movimentos das cenas.
   Tempo compreendido entre os anos de
    1872 e 1880 (em determinada passagem
    o velho Botelho fala da lei do ventre livre
    em 1871).
   O autor naturalista olha para o seu
    tempo.
    Rio de Janeiro – bairro do Botafogo
    (o cortiço e o sobrado de Miranda)

   O CORTIÇO, A VENDA, O PÁTIO, A
    PEDREIRA – locais onde trabalhava e se
    divertia o povo.

    O sol: elemento que condiciona o
    relacionamento entre os que ali vivem.
• Linguagem precisa, sóbria e objetiva empregada pelo narrador.

• Registro da linguagem falada do Brasil e de Portugal .

•Gírias, jargões, ditos populares e xingamentos agressivos.

• Valorização dos estímulos visuais – CROMATISMO.

• Mistura da percepção de diferentes sentidos – SINESTESIA.

• Prosa sonora – aliterações, assonâncias e onomatopéias.

• Comparações e metáforas – presença marcante de animais.

• Pontuação emotiva – exagero de exclamações e reticências.
Gabarito do Exercício

1- a) O texto descreve um ambiente miserável, em que as pessoas
vivem em condições de vida subumanas. O mesmo ocorre na
ilustração.
b) O princípio do Determinismo do meio.
c) Segundo os naturalistas, baseados nas teorias deterministas, o
homem é produto do meio, age em função das influências que este
exerce sobre sua história, sua configuração biológica e sua
personalidade.

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O determinismo naturalista em O Cortiço

  • 1.
  • 2. É um desdobramento do Realismo.  Romance cientificista – “de tese”.  Influência do positivismo, determinismo, do darwinismo.  Proposta de revelar “patologias sociais”.  Sexo, prostituição, adultério, homossexualidade, violência, assassinatos, vícios, etc.  Zoomorfização do homem.  Análise de camadas sociais mais baixas.
  • 3. • Obra-prima do Naturalismo brasileiro. • Personagem principal: o próprio Cortiço. • Cortiço: um organismo vivo. • Romance social: cortiço x sobrado.
  • 4. Em primeiro plano, está a história do português João Romão, que, em sua ambição desmedida, ascende socialmente de vendeiro amante de uma escrava a dono de um “Império” (o Cortiço), futuro Visconde e respeitado marido da filha do Barão.  Paralelamente, são apresentadas histórias dos miseráveis moradores do Cortiço, que têm suas vidas condicionadas pelo ambiente em que vivem, pela natureza brasileira, pelas raças a que pertencem...
  • 5. 1- (Unifap-AP) "E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.”
  • 6. Após análise do texto acima, fragmento do romance O Cortiço de Aluísio Azevedo, e da ilustração que representa um espaço urbano de Macapá, responda: a)O que o texto tem em comum com a ilustração? b) No romance, a ligação entre as personagens e o meio procura demonstrar um dos grandes princípios do Naturalismo. Que princípio é esse? c) Justifique esse princípio.
  • 7. O ambiente social e a natureza impõem-se sobre o indivíduo, ao gosto dos deterministas.  O cortiço e a natureza tropical são tratados como organismos vivos.  Personagens planas (sem profundidade psicológica) – interessa o fatalismo determinista.  Personagens, constantemente, animalizadas
  • 8. Dos treze aos vinte e cinco anos trabalha como empregado de um patrício.  Movido pela ambição capitalista.  A falta de escrúpulos é parte “natural” de sua personalidade, é consequência da patologia de que sofre (“moléstia nervosa, febre de enriquecer”).  Comporta-se de acordo com sua própria moral, segundo a qual tudo se justifica em nome dos seus interesses.  O fato de ser um explorador dos seus semelhantes faz parte da ordem natural das coisas: é um animal vencedor impondo sua força na selva da vida.  Deseja ascender economicamente, mas, depois, também socialmente (busca status).
  • 9. No início da narrativa, é uma crioula de cerca de trinta anos, quitandeira afamada, escrava de ganho (que pagava aluguel por sua liberdade) de um velho cego do interior.  A união com João Romão não altera sua natureza e muito menos seus hábitos de escrava, pelo contrário: passa a carregar (de bom grado, é verdade, pois agora está “livre”) três fardos de uma só vez – torna-se caixeira e criada (trabalhando como burro de carga para enriquecer o amante-patrão) e amante (servindo de fêmea ao seu homem):  “(...) Bertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo”.  Apenas em um momento da narrativa Bertoleza tem voz ativa: quando se recusa a ser encostada por João Romão como um traste qualquer: tem consciência do quanto é responsável pela ascensão do amante e quer tratamento à altura de sua importância na vida dele.
  • 10. “Prezava, acima de tudo, a sua posição social e tremia só com a ideia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem coragem para recomeçar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas regalias e afeito à hombridade de português rico que já não tem pátria na Europa.”  Enquanto João Romão vence pela capacidade de trabalho, pela habilidade natural para negociar e explorar e pela falta de escrúpulos, Miranda vence pela capacidade de dobrar- se às conveniências sociais: é humilhado pela mulher, com quem se casou para enriquecer, e sente inveja da força e esperteza do vizinho vendeiro, mas consegue o reconhecimento e a admiração dos homens ao fazer fortuna com a herança de Estela e conquistar o título de Barão.  Busca uma identidade social que só consegue vergando-se às conveniências.  Seu nome vem do latim “miror” – admirar – e indica seu papel em relação a João Romão.
  • 11. É a personagem que melhor representa a hipocrisia social na narrativa.  É uma caricatura naturalista típica: só tem defeitos: manias (a proteção ao Valentim, a fixação com a beleza), taras (a insaciabilidade sexual).  “Dona Estela, coitada! é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a despeito da resistência com que se rendia; tinha já dois dentes postiços, pintava o cabelo, e dos cantos da boca duas rugas serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça maliciosa dos lábios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco, liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos créditos.”  A relação entre Miranda e Estela, baseada apenas em convenções sociais, revela uma crítica (comum na literatura realista e naturalista) aos casamentos arranjados, baseados em interesses ou conveniências.
  • 12. “— Você quer saber? afirmava ela, eu bem percebo quanto aquele traste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres de sociedade, não podemos viver sem esposo, quando somos casadas; de forma que tenho de aturar o que me caiu em sorte, quer goste dele quer não goste! Juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda se chegue às vezes para mim, é porque entendo que paga mais à pena ceder do que puxar discussão com uma besta daquela ordem!.”
  • 13. De início, quando se mudou para o cortiço para trabalhar na pedreira, o cavouqueiro “era tão metódico e tão bom como trabalhador quanto o era como homem. (...)  Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo, barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário: pescoço de touro e cara de Hércules, na qual os olhos, todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranquila bondade”.  Destacava-se não só pela “força de touro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores, como ainda, e, talvez, principalmente, a grande seriedade do seu caráter e a pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda prova e de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver”.  Ele é a figura acabada do indivíduo dobrado pelo meio: toda a força física e retidão de caráter de Jerônimo não resistiram à força do sol tropical, e o contacto com Rita Baiana (símbolo da tropicalidade) transformou-o completamente; fazendo aflorar sua sensualidade, minando sua resistência física e transformando também sua personalidade, tornando-o preguiçoso, gastador, beberrão e desavergonhado:
  • 14. • “O português abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fora- se-lhe de vez o espírito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, à felicidade de possuir a mulata e ser possuído só por ela, só ela, e mais ninguém”. • Sua trajetória – de animal vencido – é oposta à de João Romão – o animal vencedor que domina e transforma o meio de acordo com seus interesses. • A descrição de Jerônimo como um Hércules é apropriada: assim como o herói da mitologia greco-romana, ele era muito forte, e assim como Hércules definhou antes da morte envenenado por vestir um robe, enviado por sua mulher Dejanira, que (sem que ela soubesse) continha o veneno da Hidra, Jerônimo morre “envenenado” por “vestir a pele” de um brasileiro ao apaixonar-se por Rita Baiana.
  • 15. Símbolo da força sensual da natureza tropical brasileira.  Rita é o centro irradiador de alegria e sensualidade no cortiço: “E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, (...) pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador”.  Descrita por meio de metáforas ou comparações a elementos da flora e da fauna brasileira, Rita resume o fascínio e o poder da terra brasileira sobre o estrangeiro (particularizado em Jerônimo), entorpecendo e enfeitiçando-lhe as sensações:
  • 16. “Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso; era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, a muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade da terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana e espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca.” “desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior”.
  • 17. É uma caricatura do marginal malandro e valente. Mas sua agilidade e esperteza não foram suficientes para vencer Jerônimo, o “Hércules” europeu.
  • 18. “teria trinta anos, boa estatura, carne ampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas sólidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simpática expressão de honestidade simples e natural”. “Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta, forte, bem acomodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando sempre tão boas contas da obrigação, que os seus fregueses de roupa, apesar daquela mudança para Botafogo, não a deixaram quase todos“.
  • 19. •REVOLTA CONTRA A NATUREZA BRASILEIRA: “sem se conformar com a ausência do marido, chorava o seu abandono e ia também agora se transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a que nem as lágrimas bastavam para adoçar as agruras; (...) começou a afundar sem resistência na lama do seu desgosto, covardemente, sem forças para iludir-se com uma esperança fátua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus princípios, do seu próprio caráter, sem se ter já neste mundo na conta de alguma coisa e continuando a viver somente porque a vida era teimosa e não queria deixá-la ir apodrecer lá embaixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguesas de roupa começaram a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e moleirona (...).” • Por fim, entrega-se completamente à bebida, torna-se passiva aos abusos dos homens, é expulsa da Avenida São Romão e refugia-se no Cabeça-de-Gato.
  • 20. Leandra, a Machona.  Leocádia e Bruno.  Augusta Carne-Mole e Alexandre.  Albino.  Paula, Bruxa.  Marciana e Florinda.  Pombinha.  Léonie.  Juju.  Senhorinha.  Zulmira.  Henriquinho.  Botelho.
  • 21. O romance apresenta, como é comum na narrativa naturalista, um narrador onisciente, que tudo observa, relata, investiga.  É comum o movimento narrativo que parte de um quadro geral ou vista panorâmica do ambiente para a enumeração e ou descrição exaustiva de seus detalhes (objetos, personagens, ações),  capacidade extraordinária para fixar os movimentos das cenas.
  • 22. Tempo compreendido entre os anos de 1872 e 1880 (em determinada passagem o velho Botelho fala da lei do ventre livre em 1871).  O autor naturalista olha para o seu tempo.
  • 23. Rio de Janeiro – bairro do Botafogo (o cortiço e o sobrado de Miranda)  O CORTIÇO, A VENDA, O PÁTIO, A PEDREIRA – locais onde trabalhava e se divertia o povo.  O sol: elemento que condiciona o relacionamento entre os que ali vivem.
  • 24. • Linguagem precisa, sóbria e objetiva empregada pelo narrador. • Registro da linguagem falada do Brasil e de Portugal . •Gírias, jargões, ditos populares e xingamentos agressivos. • Valorização dos estímulos visuais – CROMATISMO. • Mistura da percepção de diferentes sentidos – SINESTESIA. • Prosa sonora – aliterações, assonâncias e onomatopéias. • Comparações e metáforas – presença marcante de animais. • Pontuação emotiva – exagero de exclamações e reticências.
  • 25. Gabarito do Exercício 1- a) O texto descreve um ambiente miserável, em que as pessoas vivem em condições de vida subumanas. O mesmo ocorre na ilustração. b) O princípio do Determinismo do meio. c) Segundo os naturalistas, baseados nas teorias deterministas, o homem é produto do meio, age em função das influências que este exerce sobre sua história, sua configuração biológica e sua personalidade.