A tropicália

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A tropicália

  1. 1. A TROPICÁLIA “A retomada da linha evolutiva da tradição da música brasileira” (Caetano Veloso) Desde meu primeiro texto veiculado neste blog, tenho tentado estruturar umconjunto de fatos e idéia musicais que mostrem a existência de um senso de unicidadena alma brasileira quanto ao sentir e produzir música, ainda que manifestadamentemúltipla e diversa. Nesse sentido, falei sobre samba, sobre bossa nova, sobre Rapsempre tentando mostrar que esta alma brasileira tem o impulso para a pluralidade eabertura para outras culturas como declarou Gilberto Gil. Então essa alma não éexclusivamente do samba, nem da bossa, nem do rock, mas da renovação constante doemaranhamento de sensações. O movimento tropicalista ou a tropicália, talvez tenha sido o momento dediálogo musical mais aberto e franco tanto com as tendências internacionais quanto coma realidade vivida internamente no País. Embora sua existência tenha sido efêmera(efetivamente entre setembro de 1967 e dezembro de 1969), o Tropicalismo deixoumarcas profundas na nossa cultura musical ao ser influenciado e ao influenciar aprodução artística de várias linguagens com sua postura sincrética, inovadora, aberta eincorporadora, alterando o comportamento de toda uma geração com o dedo apontadopara o futuro, para desdobramentos desconhecidos. Para entender melhor, olhemos o contexto daquela década. A Guerra Fria, os conflitos na América Latina e o golpe militar que deu início aoperíodo da Ditadura Militar no País, a revolução cubana, o Cinema Novo, TeatroOficina, a introdução da guitarra como elemento inovador na música brasileira, pelomenos para alguns, pois curiosamente em 1965 foi realizada uma passeata contra acontra a guitarra. Essa manifestação contou com a participação de artistas como EduLobo, Jair Rodrigues, Elis Regina e até Gilberto Gil, por entenderem a guitarra comosímbolo do imperialismo americano. Ainda tínhamos, as manifestações estudantis naEuropa e no Brasil, com o aumento progressivo da repressão policial, as grevesoperárias, a ação efetiva de guerrilhas urbanas e rurais, a grande produção de gruposteatrais como o Arena e Opinião e o Brasil começava a exportar referências nas ArtesVisuais com os trabalhos de concretistas e neoconcretistas, como Hélio Oiticica(imagem abaixo), as experimentações de Lígia Clark, Lígia Pape e por fim a realizaçãodos grandes festivais da canção brasileira que mobilizava multidões. Estes e tantosoutros fatos mostram a efervescência daqueles anos.
  2. 2. Seja marginal, seja herói, sem data, Pintura sobre pano, 97x115cm É nesse cenário de posicionamentos acalorados que assistiremos aoenfrentamento entre os músicos nacionalistas, os de esquerda que defendiam umaproposta musical de resgate das raízes latino-americanas, a bossa-nova com suaproposta de sofisticação da música brasileira e conseqüente afastamento do cenáriopopular e os vanguardistas da Tropicália. Segundo Jairo Severiano, no livro Uma história da música popular brasileira,foi no terceiro festival da Record, em outubro de 1967 com o lançamento dascomposições, Alegria, alegria do primeiro disco solo de Caetano Veloso e Domingo noParque, de Gilberto Gil, que foram lançadas as bases para o Tropicalismo. Em 1968 o LP Tropicália ou Panis et Circenses, com participação de Gal Costa, Tom Zé, Capinam, o regente Rogério Duprat, responsável pelos arranjos e Os Mutantes. Esse disco pode ser considerado como o manifesto do movimento tropicalista. Escutemos então as músicas Panis et Circenses e Geléia Geral. Como minha intenção aqui não é explicar a obra, mas apresentá-la ao leitor para que ele exerça a sua leitura, chamo atenção apenas para a utilização de elementos da música erudita (orquestra) no contexto damúsica popular como elemento inovador. Escutemos ainda, na voz de Caetano Veloso com arranjo de Rogério Duprat, amúsica Tropicália. Esta música oferece uma visão crítica e sintética do momento vividopelo Brasil por meio de colagem de palavras, imagens e citações absurdas misturadasnum aparente caos, com traços da poesia de Oswald de Andrade (embora Caetanoafirme desconhecer a poesia de Oswald, naquele momento) e na música, o predomíniode repetições e as dissonâncias. A apresentação da música, Proibido Proibir, em 1967, repleta de guitarras setransformou num verdadeiro happening de Caetano Veloso que enfrenta as vaias dopúblico com um discurso exasperado. Essa cena de enfrentamento, tinha como origemas escandalosas e controvertidas performances visuais feitas dentro da TV como aparticipação no programa “Discoteca do Chacrinha”, na gafieira paulistana Som de
  3. 3. Cristal, em 23 de agosto de 1968, assistido por 2 mil pessoas e depois transmitido pelaTV Globo e no pequeno palco da boate Sucata, no Rio de Janeiro. E para enriquecer esse olhar, vejamos/escutemos a fala deliciosa de Tom Zédefendendo uma ampliação da fala de Caetano Veloso, pedindo o reconhecimento deantecedentes ancestrais que teriam plantado a semente que deu origem ao impulso detransformação dos referenciais da música brasileira. Além das contribuições já mencionadas, acredito que outra grande contribuiçãoda Tropicália, foi o fato de ter reunido tantos representantes das mais diferentes áreas demanifestação artísticas que naquele momento entendiam que havia a necessidade detransformar valores e gostos tanto na música quanto nos campos da política, da moral edo comportamento. Quanto ao fato do movimento tropicalista dialogar com os pressupostos daSemana de Arte Moderna de 1922, havemos de pensar melhor esta questão uma vez quea poesia de Oswald de Andrade não era conhecida por Caetano e Gil. A contracultura foi outra grande referência assimilada pelos tropicalistas com aadoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamentecoloridas à maneira dos Hyppies. Essa mistura de erudito e popular foi mais uma maneira de mostrar que, nossaalma não se quer exclusivamente do samba, nem da bossa, nem do rock, ou de qualqueroutra denominação, seria apenas e simplesmente a alma brasileira. Para saber mais sobre o Tropicalismo, sugiro a visita ao sitehttp://tropicalia.com.br/ e o livro “Verdade Tropical”, de Caetano Veloso.

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