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Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela.E oculta mão colora alguém em mim.Pus a alma no nexo de perdê-la.E o meu princípio...
Prefácio – Liane       Em um país embrutecido por um processo de emburrecimento que pareceirreversível, talvez seja difíci...
rara: Liane escreve porque tem o que dizer.      Liane viveu uma vida como poucas, conhecendo de um lado luxosinimaginávei...
Prólogo       É a última vez que Mariana se hospeda no Plaza de Nova York. É marçode 2005, tremendamente frio, mesmo para ...
como artista, eram fundamentais para a descoberta de novos artistas etendências, não estavam conseguindo sobreviver e morr...
Mariana estava convencida de que, quando não era possível encontrar umasolução para um problema, no mínimo seria necessári...
1Mariana está com oito anos de idade e sua casa está em chamas.Dentro dela, algumas de suas melhores amigas, algumas das s...
O ano era 1954 e Antônio, o pai de Mariana, já era na época um dos maisimportantes empresários do país, dono de um dos trê...
2A justificativa de Lígia para deixar Mariana passando fome era acostumá-la coma pobreza.A fome provoca um sofrimento insu...
que a mãe o privilegiava e tratou de levar o máximo de vantagem daquelasituação.JR percebeu que a irmã era um membro de se...
3Antônio nasceu na primeira década do século XX, o segundo dos seis filhos deFelipe, um imigrante libanês e que, aos 19 an...
situação social, mas voluntariamente pelo sadismo de uma mulher perturbada aponto de torturar a própria filha.Mariana cedo...
Para o excluído, não importa se a exclusão é baseada em suas característicaspositivas ou negativas. O resultado é o mesmo:...
4O mundo de Marisa era cercado de reis e rainhas, presidentes, artistas deHollywood. Não importava o fato de ela nunca ter...
Nesta sede por uma legitimidade artificial, Lígia e Marisa acabaram inventandouma personagem para JR desde seus primeiros ...
dinheiro, não trariam nenhum negócio para eles nem para o Brasil. Quandoconvidados por um executivo do grupo a se unirem à...
Eles fizeram algumas poucas perguntas, disseram que tinham gostado daaparência e da localização do edifício e perguntaram ...
celular. Imaginando que o telefone estivesse sendo clonado, ligou para o númeroem busca de esclarecimentos.Atendeu uma voz...
em rara consonância e mandaram a moto para o canalha.Cristina, maltratada pela vida, acabou morrendo precocemente e a famí...
5Com o tempo as torturas que Lígia infligia à filha se deslocaram do terrenofísico para o emocional. É bastante comum que,...
menos Lígia, que se alheava à alegria coletiva, ensimesmada em seuspensamentos mórbidos.Joana era a mais sensível, artista...
Tiago vinha de uma família na qual o refinamento freqüentemente se confundiacom a hipocrisia. Era uma família desacostumad...
dentro,para susto de todos mostrou uns 180 colchões;era, o saldo daquelahistória. Mariana e seus filhos muito sem graça ,s...
última hora – um Karman Ghia vermelho ano 63.o qual nem a sobrinha podiadirigir pois tinha apenas 17 anos,mas para alegria...
Mariana começou a se acomodar com aquilo que ela imaginava seria sua vidasentimental: uma relação sem grandes arrebatament...
Esta situação a expôs não apenas como artista, mas também como mulher.Finalmente madura - afetiva, sexual e artisticamente...
6Mesmo reconhecendo as limitações afetivas dos laços que a ligavam a Tiago,Mariana sabia que o casamento era um abrigo seg...
crueldade do filho, que não o poupavam e criavam tratamentos inúteis e sofridospara “o seu bem”, relembrando Mariana das n...
minimamente bem-vinda em sua própria casa era um impacto ainda maior doque ele podia antecipar em seus piores pesadelos.De...
7Mariana costumava pensar que nossa sensibilidade e astúcia sempre sedesenvolvem na direta proporção dos desafios que enfr...
O problema da esposa-troféu é que ela deve ser admirada - mas sempresuperficialmente. Mariana se espantava com o fato de p...
irmão está cada dia mais linda” era a frase-chave de sua relação com a mãe,especialmente em momentos de maior depressão.)C...
Movido por seu senso de honra old fashion e não querendo ser um fator dediscórdia no início da vida de casado se seu filho...
nenhum deles ignorava o tamanho das despesas. O que eles queriam era secontaminar mutuamente, ainda que por um breve minut...
seus contornos, hipnotizada por aquele universo emoldurado que a transportavapara aquele outro mundo paralelo.Certa vez su...
Mariana estava feliz - desde que dentro dos rigorosos padrões decomportamento de uma moça de boa família da época.Esse era...
EUA, no Museum of Art de Orlando.Mariana estava ansiosa e intimidada pela fama de severidade dos curadores domuseu. Ao che...
encaminhados de volta para o Brasil, já que a alfândega local é extremamenterigorosa com trabalhos de arte e os taxa sever...
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Tribuna das Mulheres

Estou abrindo um novo espaço em meu blog para todas as Irmãs que como eu foram Roubadas por seus Irmãos, espero estar ajudando com minha experiência e esta tribuna que a Justiça Brasileira seja Justa para com as Mulheres.

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  1. 1. 1
  2. 2. Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela.E oculta mão colora alguém em mim.Pus a alma no nexo de perdê-la.E o meu princípio floresceu em Fim.Que importa o tédio que dentro de mim gela,E o leve Outono, e as galas, e o marfim,E a congruência da alma que se velaCom os sonhados pálios de cetim?Disperso... E a hora como um leque fecha-se...Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-seE, abrindo as asas sobre Renovar,A erma sombra do vôo começadoPestaneja no campo abandonadoFernando Pessoa 2
  3. 3. Prefácio – Liane Em um país embrutecido por um processo de emburrecimento que pareceirreversível, talvez seja difícil notar a maior qualidade de Liane Chammas: Seurefinamento. Um refinamento sem afetação, que a fez sentir-se à vontade com artistas,políticos, intelectuais, empregadas domésticas, garçons e motoristas de táxi, semnunca deixar de ser ela mesma. Um refinamento clássico, em nada parecido com a vulgaridade dascelebridades que imploram por atenção enquanto mostram suas roupas de camanas sempre ridículas revistas de celebridades – e que para parte da populaçãotornou-se o paradigma de “ser chique”. Liane vem de outra estirpe. Não espere vê-la posando na banheira em artigos da “Caras”. É impossívelimaginá-la dando entrevistas para colunistas eletrônicos em festinhas desociedade. Liane está muito acima disso. Além deste refinamento, convém lembrar que Liane é uma mulher bonita,culta, bem humorada, dona de um invejável par de pernas, capaz de discutirfilosofia alemã e arte renascentista, viajada, uma artista plástica que conquistou- mais do que o reconhecimento do público e o aplauso da crítica – algo maisimportante e difícil: a admiração de seus pares artistas. Liane é filha de um dos maiores empresários do planeta, um homem quesaiu do nada e tornou-se dono daquele que ainda hoje é o maior moinho de trigodo mundo. Já expôs sua arte personalíssima nos EUA e na Itália, está catalogada emtodos os anuários importantes de pintores. A pergunta que fica é: Se Liane não precisa da atenção da mídia que é aobsessão da maior parte das pessoas com um background parecido com o dela,por que abandonar por um tempo os pincéis e se arriscar em uma nova forma dearte, escrevendo um livro? A resposta é absurdamente simples – mas mesmo assim extremamente 3
  4. 4. rara: Liane escreve porque tem o que dizer. Liane viveu uma vida como poucas, conhecendo de um lado luxosinimagináveis para a maior parte das pessoas (quantas pessoas você conheceque já tiveram Louis Armstrong cantando em seu salão de festas?) e doresabsurdas. No meio destes dois extremos, encontrou um caminho próprio e aprendeulições que generosamente divide conosco em seu primeiro livro. Faça um grande favor para você mesmo: Leia suas palavras. Com certeza, poucas vezes você teve um interlocutor tão refinado.Renzo Mora 4
  5. 5. Prólogo É a última vez que Mariana se hospeda no Plaza de Nova York. É marçode 2005, tremendamente frio, mesmo para os padrões nova-iorquinos, e o hotelestá prestes a fechar para se tornar um condomínio de luxo. Mesmo com a nostalgia de outras Novas Yorks que, de alguma forma,conheceram diferentes Marianas, ela está especialmente feliz. A cidade está recebendo pela primeira vez três gerações da família – elaprópria, seus filhos, seus netos. A primeira visita de Mariana à cidade ocorrera quando ela tinha 17 anos,em sua lua-de-mel. Riu consigo mesma ao lembrar que sua impressão tinha sidoa pior possível. Recém-saída de uma Miami paradisíaca, cercada pelos hotéis luxuosos daorla, vizinha ao Fountainbleu, Nova York parecia hostil, gelada, perigosa. Erauma época na qual a Times Square era dominada por traficantes, viciados,prostitutas e assaltantes. Em suas primeiras ligações para o Brasil, seu sentimento, compartilhadopor amigos e familiares, era de que tinha chegado ao inferno e conhecido umacidade para a qual nunca mais pretendia voltar. Na segunda visita, quando seus filhos já estavam na pré-adolescência,decidiu dar uma nova chance à cidade para visitar uma exposição de Picasso noMoMa. Foi então que uma nova Mariana encontrou uma nova Nova York , quea conquistou definitivamente. Havia uma vida, uma efervescência cultural na cidade que de algumaforma se escondera na primeira vez – ou talvez ela, mais madura, estivessefinalmente pronta para desvendá-la – e ficou imensamente feliz em dividiraquela experiência com os filhos, até como contraponto da felicidade plastificadada Disney, de onde tinham acabado de chegar. Desde então, Nova York entrou no seu roteiro – e em seu coração. Decidida a celebrar na plenitude a presença dos netos na cidade, Marianausufruiu sem culpa de todas as extravagâncias: breakfasts no The Pierre’s, omelhor da gastronomia, dos museus.,dos shows dos teatros e inclusive das lojasde brinquedos. Era impossível não perceber que o entristecimento pós 11 de Setembrotinha se infiltrado no coração da cidade. Ela estava nos EUA na época doatentado e tinha assistido com admiração ao modo como a cidade respondeu aoepisódio. Mas Mariana sabia por experiência própria que as grandes tragédiascobram preços altos – ela própria sobrevivera a provas extremas e conheciabem o resultado: não se sai incólume delas. Os prédios estavam perdendo seus habitantes e se transformavam emmeras vitrines das mega-corporações, nem as galerias do SoHo que, para ela 5
  6. 6. como artista, eram fundamentais para a descoberta de novos artistas etendências, não estavam conseguindo sobreviver e morriam aos poucos.Elaperguntava-se como aquela cidade que a conquistara em um processo lento nãoestava experimentando sua decadência final, na qual sua criatividade, seussabores, sua inventividade não seriam substituídos por hordas de turistasincultos e executivos indiferentes. Nisto pensava Mariana quando eles se viram diante de uma manifestaçãoimensa de pessoas André, seu filho, que morava em Orlando, perguntou aoenorme guarda com estilo de “South Dakota” o quê estava havendo e elerespondeu que era uma manifestação contra a guerra. Seu neto Totô, com apenas 5 anos de idade, mais do que depressa,sentiu-se no direito de somar sua opinião à dos manifestantes e começou agritar “No More Bush!!”, “No More Bush!!” Surpresa com o ímpeto do neto, mas ao mesmo tempo achando graça emsua precocidade, Mariana pensou que ele tinha mesmo puxado a ela.Inconformista, sem medo de expressar sua opinião, decidido.....Na verdade ela conseguia se enxergar em pequenos detalhes de cada um dosnetos, em Maria, em Totô, em Bebé – e a forma como estes traços tinham seliberado e encontrado em cada um deles caminhos próprios a enternecia. Foi neste momento que Mariana parou para pensar no caminho que atinha levado até aquela cidade e no preço alto que pagara para manter juntosos filhos e os netos amados. Dos relacionamentos aos quais não se acomodou, evoluindo a cadaromance, que viveu fugindo da mediocridade como só o fazem aqueles que têmpor meta viver um grande amor. Dos conflitos dos quais não fugiu, das injustiças que enfrentou, e do maiordesafio de todos, o que resgatou sua filha da escuridão, e que foi sua maior emais desgastante batalha – porém a que mais a recompensou. E de que osmomentos como aquele, nos quais se cercava das cores que enfeitavam suavida, faziam tudo ganhar sentido. Mariana pensou que havia três pilares que sustentaram sua vida atéaquele momento – a luta pela filha, a batalha contra as muitas injustiças de quetinha sido vítima ao longo da vida – e que pretendia corrigir (como dizia KahlilGibran, “para conhecer uma pessoa não olhe para o que ela já conquistou – maspara o que ela aspira” e se havia algo que definia Mariana era sua busca porjustiça. Mariana não queria justiça. Ela PRECISAVA de justiça, não para mudarsua vida, mas para restabelecer o que acreditava ser certo) – e, last but not least(por fim, mas não por último, como ela traduzia a velha frase dos ingleses), aforça redentora do bom humor, o mais poderoso bálsamo que conhecia. O filósofo Francis Bacon o definiu melhor do que ninguém quando disseque, enquanto a imaginação tinha sido dada ao homem para compensá-lo poraquilo que ele não é, o senso de humor servia para consolá-lo por aquilo que eleé. 6
  7. 7. Mariana estava convencida de que, quando não era possível encontrar umasolução para um problema, no mínimo seria necessário encontrar alguma graçanele. E em meio a tudo isso, sua arte não apenas a arte que tinha feito delauma pintora respeitada pelos críticos e premiada em exposições internacionais,mas principalmente a arte de viver ! A arte não de tirar leite das pedras, como dizia o antigo clichê, mas deencontrar luz nas trevas, esperança no desânimo, abrigo no desamparo e forçana fragilidade. Picasso, um de seus pintores favoritos (e, de alguma forma, o artista cujaobra a levara de volta para aquela cidade) costumava dizer que o papel da arteera o de tirar a poeira que a rotina acumula em nossas almas. “Não é só a rotina que deixa nossa alma empoeirada” ela costumaresponder silenciosamente sempre que lembrava daquela frase. “A tristeza podeaté tirar um pedaço de nossa alma – e a arte é a única ginástica possível para oespírito” Enquanto se afastavam daquela manifestação que tinha inflamado seuneto, seus olhos também se perderam ao longe.E, como não fazia há muito tempo, Mariana relembrou sua história, sem sepoupar nem mesmo das memórias mais difíceis, aquelas às quais era impossívelretornar sem que os olhos se enchessem de lágrimas, como a de uma casapegando fogo. 7
  8. 8. 1Mariana está com oito anos de idade e sua casa está em chamas.Dentro dela, algumas de suas melhores amigas, algumas das suas melhoreslembranças.Seu irmão JR, três anos mais novo, tinha iniciado propositalmente um incêndio,com a complacência de Lígia, a mãe de ambos, e que o fazia gargalhar com odesespero da irmã.A visão do fogo que consumia a casa fez com que Mariana, pela primeira vez,rompesse a passividade habitual e partisse aos tapas para cima dele, com toda araiva, até ser contida por Lígia,que como de hábito se colocou ao lado do filho.A casa incendiada era perfeita – bem diferente da casa onde Mariana vivia. Tinha cortinas, móveis, na cozinha um fogão rústico que enchia de calor oambiente, uma luz suave e aconchegante - de alguma forma, era dentro delaque Mariana se refugiava do terror imposto pelo elo de perversidade formadopor Lígia e seu filho predileto.Mariana tinha recebido a casa de presente de um amigo de seu pai e em toda asua vida jamais veria outra casa de bonecas tão perfeita quanto a que sedesfazia diante de seus olhos.A destruição da casa começou tão logo Lígia e JR perceberam o encantamentode Mariana por ela. O primeiro passo foi dado por Lígia, transformando a casinhaem depósito de jornais velhos e esta profanação do espaço da filha foi o sinalverde para que JR exercitasse as ações iniciais da maldade psicótica que iriamarcá-lo para o resto da vida, culminando com o reveillon no qual, anos maistarde, ele apontaria um revólver para a têmpora de sua única irmã, ameaçandomatá-la.Os jornais de Lígia foram lentamente tomando todo o espaço das bonecas einiciando o processo de desintegração de seu brinquedo favorito.Mariana, para o resto da vida, ficaria intrigada com a força daquele momento – ecomo, mesmo durante o permanente processo de erosão de sua auto-estimadesenvolvido por sua mãe e por seu irmão – e que incluiria perversidades muitomaiores - aquela casa de bonecas pegando fogo permaneceria como alembrança mais dolorida.Olhando para trás, é bem possível que Mariana projetasse naquele lar de mentiratudo o que o verdadeiro lhe negava – e que esta projeção fosse tão óbvia quetenha inspirado tanto a sua destruição gradual por sua mãe quanto o golpe finalpor seu irmão. 8
  9. 9. O ano era 1954 e Antônio, o pai de Mariana, já era na época um dos maisimportantes empresários do país, dono de um dos três maiores gruposeconômicos do Brasil, além de um sem número de terras e propriedades. Trêsanos antes, o presidente Getúlio Vargas autorizara sua família a construir umadas maiores indústrias de alimento do mundo, coroando uma vida de trabalhopesado,que se por um lado era extremamente bem sucedida, por outro oroubava do convívio familiar e deixava sua filha mais velha à mercê da crueldadeda aliança entre mãe e filho.Uma das torturas que Lígia impunha à filha era fazê-la passar fome. Na décadade cinqüenta, os médicos ainda estavam engatinhando na tipificação dasviolências que os pais ,independentemente de classe social, praticam contra osfilhos.A violência psicológica, uma das mais comuns, que inclui a segregação e adiscriminação entre irmãos e os castigos excessivos, ainda era um tabu, vistacomo assunto privativo das famílias. Bem mais tarde, tentando compreender suavida e seu relacionamento com a mãe, Mariana aprenderia que ela estava longede ser a única vítima e que os abusos contra crianças eram muito mais comunsdo que imaginava e incluíam variantes ainda mais cruéis, como as síndromes dobebê sacudido, a de Münchausen por procuração e mesmo a de Polle, nas quaisos maus tratos físicos infligidos pelos pais - geralmente pela mãe - levam acriança a um estado permanente de prostração, risco de morte e uma maratonainfindável por médicos e hospitais.Hoje é sabido que este tipo de violência é praticado com maior freqüência pelasmães contra seus filhos biológicos e que os fatores que as levam a agredir físicaou psicologicamente seus filhos são a baixa auto-estima, problemas psicológicose psiquiátricos possivelmente herdados de sua infância, desarmonia conjugal,alcoolismo e o uso de outras drogas, miséria, desemprego, frustrações derealização pessoal que são descarregadas em forma de ira e violência contraseus familiares.Mariana estudou, compreendeu, mas sabe que existe uma distância enormeentre entender e aceitar.Nestas situações de violência contra crianças, os pais, mesmo queinvoluntariamente, tendem a ficar ao lado das esposas e a não acreditar nasqueixas dos filhos, o que abre as portas para a continuidade dos abusos.Este tipo de maus-tratos, principalmente o físico, ocorre com mais freqüência atéos oito anos de idade, mas no caso de Mariana haveria um desdobramentodramático que a afetaria para o resto da vida: a diferença de tratamento entreos irmãos viciaria JR em privilégios que ele julgava naturais e forjaria umapersonalidade patológica e amoral. 9
  10. 10. 2A justificativa de Lígia para deixar Mariana passando fome era acostumá-la coma pobreza.A fome provoca um sofrimento insuportável. O corpo alerta para a falta dealimento das formas mais dolorosas possíveis. O estômago se revira, acusando ovazio. A cabeça lateja e parece querer expulsar os olhos das órbitas. A tonturafaz tudo girar. Surgem delírios.Foram muitas as noites em que Mariana experimentaria aquela horrívelcombinação de sensações, quando a mãe a mandava para cama sem jantar.Lígia dizia que aquilo era para seu bem. Estava preparando a filha para oinevitável dia em que seu pai perderia tudo e eles passariam fome de qualquermaneira.Mesmo aos oito anos, e em meio aos efeitos terríveis daquele jejum forçado,Mariana percebia que havia algo errado nesta proximidade da ruína total poissua família era praticamente dona de cidades como Jaú, Tatuí ,Itapuí e SantoAndré,. No entanto este sentimento não era páreo para a autoridade absoluta eaterrorizante de sua mãe. : se ela queria que a filha aprendesse a viver semcomida, Mariana não iria contestá-la.Mesmo no recreio escolar, esta inferioridade de Mariana se manifestava.Enquanto as outras crianças recebiam lanches apetitosos e guloseimas, Marianatinha que se conformar com lanches pobres, “naturais” como a mãe gostava dechamá-los.Quando o pai dava algum dinheiro a Mariana, ela decidia economizá-lo erepassar à mãe, em parte para se preparar para os “inevitáveis” dia de misériafutura, em parte para tentar “comprar" um mínimo de carinho e solidariedade damãe e, principalmente, do irmão: Como ele não era submetido ao mesmotratamento, havia uma percepção de que aquela derrocada financeira de algumaforma o preservaria. “Será que eu sou a única que vou ficar pobre na família?”Mariana costumava se perguntar nas longas noites em que a fome não a deixavadormir, enquanto buscava em vão uma posição menos dolorida para dormir.Com a sucessão de maus-tratos recebidos pela irmã, JR rapidamente entendeu 10
  11. 11. que a mãe o privilegiava e tratou de levar o máximo de vantagem daquelasituação.JR percebeu que a irmã era um membro de segunda classe daquela família eque a melhor forma de garantir sua condição de favorito era estimular ocomportamento de Lígia em relação a Mariana.Com isso, JR foi crescendo com a noção de que qualquer solidariedade emrelação à irmã seria um sinal de fraqueza e de ingratidão para com a clarapreferência de sua mãe.Aquela situação absurda moldou uma miniatura de monstro ainda mais cruel quesua autora, livre de qualquer freio moral e que quase vinte anos mais tarde iriapor meio de um golpe, desamparar todos os familiares.Naqueles dias, Mariana seguia fazendo um regime forçado conforme o humor damãe e esperando dia após dia pelo momento em que seu pai adoeceriagravemente e perderia tudo.Não que perder tudo fosse mudá-lo.Mesmo que isso acontecesse, Antônio seguramente continuaria a ser umtrabalhador incansável, para quem a educação precária não tinha sido obstáculo,O mesmo filho de imigrantes libaneses cujo pai um dia fora expulso de umafazenda na qual fora mascatear e que diante desta humilhação decidiu compraraquela mesma propriedade como resposta à esta dor imposta ao pai.Um homem simples, muito mais preocupado em ganhar dinheiro do que emusufruir dele, cuja prioridade era oferecer segurança para a família e que nuncapercebeu que, pelo menos para sua filha mais velha, a grande ameaça estavado lado de dentro da casa e que tudo o que ele tinha conquistado era inútil paraoferecer a ela qualquer defesa.E para Mariana, esta ruína financeira não faria tanta diferença – afinal, ela jávivia como pobre, mesmo dentro de uma das mais imponentes mansões dacidade. 11
  12. 12. 3Antônio nasceu na primeira década do século XX, o segundo dos seis filhos deFelipe, um imigrante libanês e que, aos 19 anos, se tornaria o arrimo da famíliacom a morte de seu pai; responsável por levar adiante o pequeno armarinhoque sustentava a todos.Com o apoio dos irmãos, aquele pequeno comércio, iniciado com o trabalho demascate de ,Felipe seu pai, se transformaria em um dos maioresempreendimentos do país.Já em sua curva ascendente, Antônio encontrou Lígia, sua futura esposa e mãede seus dois únicos filhos, uma mulher 12 anos mais jovem, mais envernizada erefinada do que ele.O namoro se transformou em casamento na década de 40 – ele aos 37 anos, elacom 25. Mariana nasceu um ano depois e JR três anos mais tarde.Quando Mariana completou quatro anos de idade, Antônio obteve do governoVargas a autorização para seu projeto mais ambicioso: a construção de umaindústria de processamento de alimentos, o flagship das empresas da família,cujo enorme sucesso asseguraria a compra de mais fazendas, tecelagens, terrase outros negócios.Era em meio a este cenário de enorme sucesso que a filha de um dos homensmais poderosos do país ia dormir sem comer. Já adulta, ainda tentando seconciliar com sua infância, Mariana compreendeu que viveu uma situação muitosemelhante à de milhões de outros brasileiros e por isso não devia se ver comouma vítima especial.Ela sabia que no preciso momento em que tentava administrar seu passado,milhares de crianças tentavam, como ela mesma, pegar no sono assombradaspela dor desesperadora que a miséria traz, Mariana entretanto não podia deixar de pensar que havia uma diferençafundamental entre o caso dela e o da maior parte destas crianças: ao lado damaior parte dessas crianças famintas havia um pai ou uma mãe na mesmasituação – e cujo desespero se agravava por ver sua prole naquela situação.O grande diferencial no caso de Mariana foi ter esta fome imposta não pela 12
  13. 13. situação social, mas voluntariamente pelo sadismo de uma mulher perturbada aponto de torturar a própria filha.Mariana cedo percebeu como era falsa a noção de que crianças abusadas esubmetidas a maus-tratos fosse uma exclusividade de famílias mais pobres oudesestruturadas pelo álcool ou pelas drogas. Pelo contrário – o dinheiro – comseus acobertamentos, cumplicidades compradas ou impostas, intimidações,advogados – permite o perpetuamento de alguns desses abusos , até pormais tempo do que em famílias mais simples, nas quais a observação devizinhos e professores muitas vezes interrompe esse ciclo.Olhando para trás, Mariana não consegue lembrar se nasceu alegre ou triste.Tem a impressão de que a tristeza foi se impondo gradualmente, na medida emque enfrentava as situações que a situação familiar lhe impunha.O que ficou muito forte daquelas primeiras experiências foi uma ansiedade deseparação, que tornaria qualquer despedida um episódio extremamentedoloroso, por menor que fosse - ir à escola, ir à casa de amigos e dormir lá,viajar com seus tios e avós nas férias e mesmo deixar seus pais. A pior dordaquela época era sempre ver seu pai partir. Antônio era para Mariana, em seusoito anos de idade, a única referência de aceitação, de afeto, de importância.Ele ia sempre ao Rio de Janeiro, voando pela Real Aerovias Brasil – e, se por umlado, ela sabia que cada volta seria recompensada por pacotes de Mentex emalas de roupas da Casa Boneca (o que dava a desculpa ideal para que Lígiaignorasse suas necessidades de vestiário), cada embarque era acompanhado porum terror profundo – a possibilidade de um dia não haver uma volta.As roupas trazidas por seu pai faziam de Mariana uma personagem estranha –uma triste menina pobre vestida de princesa, mas que tinha dentro de si abeleza das cores que já começavam a enfeitar o seu caminho.Sua figura, sua delicadeza, bondade, somadas à posição social, sempredespertaram muita inveja entre os menos privilegiados, suas colegas eprincipalmente JR, que era muito feio e sem brilho.Embora nunca adotasse uma atitude soberba - pelo contrário, sua simplicidadeera absoluta –mesmo assim suas colegas nunca perdiam uma oportunidade deformar grupinhos para criticá-la, principalmente quando tirava as melhores notasou se chegasse ao Sacré Coeur num lindo carro rabo de peixe.Era o carro da família e sua dedicação fervorosa aos estudos era levada por suacuriosidade. Nada era feito para humilhar suas colegas...Um belo rabo de cavalo preso por uma fivela já era motivo para despertar a iradas colegas, assim como uma roupa bonita podia também levar JR a fazer usode sua tesoura e picá-la toda.Embora muito se fale sobre o bullying na fase escolar, uma prática na qualvalentões abusam física e psicologicamente das crianças mais fracas, poucos sedão conta de que o bullying é uma estratégia de exclusão do diferente – quetanto pode atingir o mais feio, mais pobre, o menos inteligente quantojustamente o oposto. 13
  14. 14. Para o excluído, não importa se a exclusão é baseada em suas característicaspositivas ou negativas. O resultado é o mesmo: um sentimento de rejeição, denão pertencer ao grupo, de não ser querido.A grande diferença é que o bullying praticado contra o mais bonito, o mais rico,o mais inteligente ou o mais esforçado desperta ainda menos simpatia noseducadores, mobilizando-os muito menos em sua defesa. Este tipo de bullyingcria o pior tipo de vítima: aquele que não atrai simpatia, não desperta pena – epor isso mesmo é deixada muito mais isolada.Para Mariana, que já sofria a rejeição da própria mãe, o acréscimo de não serintegrada as colegas de escola resultava em uma insegurança muito forte, umsentimento de inadequação que a fazia voltar-se cada vez mais para seu mundointerior.Dentro de casa, o martírio de Mariana continuava. Antes de cada viagem de seupai, Lígia torturava a filha com seus “péssimos pressentimentos” queantecipavam a morte de Antônio e pedia que ela falasse com o pai para evitar“aquela” viagem em especial, que com certeza seria a última.Como é claro Antônio não ia deixar de viajar por causa das advertências da filha,a culpa de vê-lo subir as escadas dos aviões era avassaladora – sentia-se comose o estivesse mandando para uma morte certa em troca de balas e vestidos.Mariana mais tarde veio a compreender que estava no centro de um processo decompetição que a mãe tinha estabelecido com o pai – afinal, ela era asofisticada, a bem educada, a mulher refinada – ele, por sua vez, era o homempouco letrado – mesmo que tivesse uma elegância natural de fazer inveja . aqualquer aristocrata.Que mesmo não se comportando de acordo com os padrõesartificiais da sociedade , era ele quem estava promovendo a ascensão da família.Ainda que os frutos futuros desta ascensão fossem compartilhados por todos,Lígia se sentia incomodada pelo fato de que sua classe e refinamento psicóticosfossem superados pelo pragmatismo rústico de seu marido, embora estapostura se traduzisse em um carisma ímpar e natural que Lígia falhava emreconhecer, dominada pelos padrões afetados de sua irmã Marisa. 14
  15. 15. 4O mundo de Marisa era cercado de reis e rainhas, presidentes, artistas deHollywood. Não importava o fato de ela nunca ter encontrado com nenhumdeles: em seu universo, construído com filmes , revistas e colunas sociais, eracomo se cada um fosse seu íntimo.Marisa abraçou um mundo inventado, cosmopolita, refinado - mas nunca teveiniciativa suficiente para persegui-lo em sua vida real. Ao invés disso, optou pelocaminho mais fácil: usar o casamento de Lígia, sua irmã, como trampolim para aprojeção que sonhava.Marisa era a segunda de seis irmãs,mulheres ,das quais Lígia era a mais velha,seguida de Daisy, Cristina, Silvana e Leila. Dentre todas, Marisa se destacava nãoapenas pelos delírios megalomaníacos como também pela grande capacidade demanipulação, da qual a principal vítima foi a irmã Daisy, que até a morte deMarisa tornou-se uma espécie de escrava pessoal – e porta voz das malucasexigências de Marisa,Foi por isso impedida por Marisa de incluir quem quer quefosse em sua vida. Qualquer namorado estava “abaixo” dela, toda amiga erainteresseira, todo contato era devidamente rebaixado e enxotado pela força deMarisa.Curiosamente, Daisy, que durante toda a vida de Marisa tinha sido uma mulherexcepcionalmente doce com todos, com a morte de Marisa ,viria a ocupar seulugar de megera de plantão, assumindo o pior da personalidade da irmã que adominava.Na batalha que logo se instalou entre o lado mais simples da família de Antônio eo refinamento frívolo e afetado representado da família de Lígia, Marisa cedo sedestacou como uma eminência parda no centro do conflito que dividia o casal.Para elas, não bastava que ele fosse um vencedor e acumulasse sucessos evitórias. Tinha que se adequar ao padrão fantasioso de Marisa, corrigir seuportuguês, buscar amizades interesseiras, freqüentadoras de frivolidades sociais,afastar-se de seus irmãos e origens - vistos como cafonas e grosseiros pelo ladode sua esposa. 15
  16. 16. Nesta sede por uma legitimidade artificial, Lígia e Marisa acabaram inventandouma personagem para JR desde seus primeiros dias. Em seus planos, JRdeveria ser educado para usar a fortuna acumulada por seu pai de forma a isolarseu ramo da família da simplicidade de Antônio e de seus irmãos, para valorizartoda a artificialidade e superficialidade que eles ignoravam.Seria ele “el vingador”das fracassadas.Não ocorria a elas que por trás desta aparente ingenuidade caipira de Antônio,com seu pragmatismo e objetividade, escondia-se o motor que tinha promovidoseu sucesso – nem que a adesão cega a estes padrões destruiria a família e seupatrimônio.Antônio e seu irmão Affonso dividiam o mundo em duas partes: Os “amigos denóis” e o resto. Aos amigos de nóis, tudo era permitido. Eram eles os parceirosque geravam negócios. Os amigos de nóis não precisavam ser chiques,sofisticados, educados ou intelectuais. Tinham que gostar de nóis como nóssomos. Tinham que ficar ao nosso lado.Os amigos de nóis entendiam o complicado código de mentiras da família. Comoestímulo, o lado paterno da família de Mariana adotava o que os americanoscostumam chamar de White Lies, as mentiras inocentes que buscavam comomotivar uns aos outros.Nos longos e fartos cafés da manhã que reuniam Antônio e seus irmãos, aspequenas mentiras inocentes preparavam uns aos outros para as lutas do dia.eos grandes momentos de dificuldade de qualquer espécie.“Fulana disse que você está mais magra”.que você era a mais bonita da festa...“Sicrana disse que você estava linda no Domingo”.e que seu ex namorado nãotirava os olhos de você.“Beltrano disse que andam falando que você vai ser homenageado comoempresário do ano”. Tenho certeza que este mês vamos faturar o dobro do mêspassado...isto sem olhar a contabilidade só para alegrar o outro irmãoTodos os irmãos participavam, fingiam acreditar e contavam suas própriasmentiras, já que um elogio pedia outro correspondente.Dos amigos de nóis era esperada a cumplicidade silenciosa e absoluta para cadauma destas mentiras massageadoras de ego. Os amigos de nóis eram quemcompravam seus produtos e alimentavam o patrimônio que financiava arealização dos sonhos de Lígia e Marisa.Os amigos de nóis eram os quechoravam com nóis nas horas díficeis e riam com nóis nas alegriasPessoas que, como Antônio, valorizavam a amizade, a confiança, a honra, quedesconfiavam da frieza bem educada e do desprezo dissimulado de gente comoMarisa.Não importava a origem ou a cultura dos amigos de nóis. Um exemplo claroocorreu quando um grupo de representantes da Arábia Saudita foi convidadopara um jantar com a família, na sede das empresas que era o grande salão defestas de seu tempo até mesmo as festas oficiais.Antônio e seus irmãos logo perceberam que os enviados, embora nadando em 16
  17. 17. dinheiro, não trariam nenhum negócio para eles nem para o Brasil. Quandoconvidados por um executivo do grupo a se unirem à mesa principal, Antôniorespondeu “Fica lá com eles pela gente que nóis vai ficá aqui com o prefeito queé amigo de nóis”Foi escolhendo ao longo do caminho quem era qualificado para ser “amigo denóis” que Antônio se tornou um vencedor. Como estas escolhas não coincidiamcom as personagens que povoavam os delírios de grandeza de Marisa, ela eLígia forjaram o vingador. E, de alguma forma, ao inventarem um papel para JR,criaram, por contraste, também um papel para Mariana.E neste processo, Mariana teve que procurar um refúgio para aportar suasensibilidade, sua simpatia pelos valores autênticos ampliada pela rejeição doramo sofisticado da família. O mesmo processo de criação que fez de JR oexecutivo implacável e mafioso fez de Mariana uma artista.Mesmo com esta aparente simplicidade, os irmãos Antônio e Affonso se vestiammuito bem – alternando seus ternos de casimira inglesa com os de tropicalAntônio também apreciava as camisas de palha de seda com abotoaduras deouro e sapatos de cromo alemão, impecavelmente engraxados.Exagerava um pouco no uso de seu lenço sempre perfumado e colocado nobolsinho superior de seus paletós, fazendo disso uma marca que o identificavade longe. Os irmãos não dispensavam ternos de linho 120 no verão,habilidosamente costurados pelos melhores alfaiates da cidade.Quando foi possível comprar o primeiro carro, optaram por um Cadillac 50 econtrataram um motorista para servir à família. Depois foram comprados carrospara a família toda - e tudo o que era comprado para um, democraticamente eracomprado para todos.Podia ser um conjunto de apartamentos no litoral paulista, as jóias para asesposas ou mesmo a série de mansões no bairro dos Jardins – a primeira para amãe, depois para as irmãs e a última para o pai de Mariana, que morou em casade aluguel até ela completar seus 15 anosQuem conhecia Antônio não o esquecia jamais. O modo simples que irritavaMarisa e Lígia era inesquecível para quem cruzava seu caminho – qualquer quefosse o ambiente, impunha respeito tanto às pessoas mais simples quanto àsautoridades e aos intelectuais, respeito conquistado não tanto pela capacidadede fazer fortuna, mas pela óbvia aura de sagacidade e sabedoria, que fizeramdele confidente e conselheiro de pessoas dos mais diversos estratos sociais.Muitos anos depois da morte do pai, Mariana encontrou um corretor de imóveisem um sofisticado clube de São Paulo. Quando soube quem era seu pai, contoua seguinte história: num certo domingo de verão estava de plantão para venderos apartamentos de um prédio na Avenida Rebouças. Estava desolado porque jáeram sete horas (da noite? É bom esclarecer) e não havia vendido nada,quando chegaram os irmãos Antônio e Affonso,displicentemente O corretor,cansado e aborrecido, bem na hora em que ia encerrar o plantão, imaginou quealém de não vender nada, ia perder tempo com um par de curiosos. 17
  18. 18. Eles fizeram algumas poucas perguntas, disseram que tinham gostado daaparência e da localização do edifício e perguntaram quanto custava.cadaapartamento. O corretor informou o preço. Eles perguntaram quantas unidadesestavam disponíveis. O corretor disse que não havia vendido nada e que em casode interesse eles podiam escolher qualquer umr. Os irmãos cochicharam entreeles e disseram a frase que quase infartou o corretor de imóveis: Pode passaramanhã no escritório que a gente vai ficar com o prédio inteiro. Tudo o que ocorretor conseguiu dizer foi: “Sim, senhores”.Lígia não era exatamente o tipo de mãe que perderia tempo em contar históriaspara qualquer criança nem mesmo para uma filha, mas Mariana encontrou emseus avós maternos - o avô George, um príncipe segundo ela, e sua avó Flor –contadores entusiasmados de histórias envolventes.De suas bocas brotavam histórias que remetiam a terras maravilhosas, quelevavam Mariana para um Líbano parte real, parte recriado pela saudade;sempre usando o superlativo, diziam o Libano onde o ar estava impregnado dosmais doces perfumes, as frutas que nasciam de suas árvores transpiravam mel,as águas dos rios eram capazes de gelar uma melancia em poucos minutos, aponto de rompê-la,uma cereja tinha o tamanho de um melão e por aí aforaMariana viajava naquelas histórias, embalada pela voz melódica de seu avô, queainda enfeitava cada narrativa com canções típicas.Mariana teve três primos do lado materno : Paulo, filho de sua tia Cristina, Carlose Renata, filhos de Silvana. Como havia muita diferença de idade entre Mariana eseus primos, ela os tratava como irmãozinhos menores, sempre lhes dandomuito carinho, levando-os a viajar juntos nas férias, nos finais de semana esempre lhes lascava um beijo gostoso como mais tarde faria com os própriosfilhos.Renata tem todos os predicados de anjo: com o sorriso sincero e a fraternidadesempre estampados no lindo rosto, parece que nunca diz “não” e está deprontidão para responder com palavras doces a quem lhe conta um problema.É tão íntima de Mariana que elas se tratam por apelidos engraçados, Marianachama Renata de “My Star” e Renata trata Mariana de “minha chéfala”,lembrança do tempo em que trabalharam juntas. A proximidade entre as duas étão grande que Renata é capaz de imitar não só a voz de Mariana como tambémantecipar o que ela tem a dizer sobre diversos assuntos. Renata desenvolveuesta técnica a um nível tal de perfeição que consegue passar trotes nos própriosfilhos de Mariana.Carlinhos, irmão de Renata, a quem Mariana também dedica muito amor, é seucúmplice nas críticas, que não poupam ninguém e sempre são repletas dereferências eruditas e bem humoradas. Quando estão filosofando, seus cônjugesprecisam se afastar para não tirar a liberdade de eles voarem.Os dois primam um pouco pela distração quando estão em processo de criação.Certa vez Mariana recebeu sua conta com uma chamada de 57 minutos para um 18
  19. 19. celular. Imaginando que o telefone estivesse sendo clonado, ligou para o númeroem busca de esclarecimentos.Atendeu uma voz de homem e Mariana lhe pediu que se identificasse. O outroficou furioso e exigiu que ela se identificasse primeiro ,parece que os paulistasestão a tal ponto neuróticos com os golpes e assalto que têm medo até de darseu nome ,e assim ficaram um tempo discutindo para saber quem era quem atéque Mariana se adiantou e disse: “meu nome é Mariana e quero informá-lhe quejá descobri que o senhor clonou meu celular e eu estou pagando altas contastelefônicas de ligações que o senhor tem feito”Do outro lado, a voz respondeu: “Oi, Mariana, sou eu, Carlinhos”.O constrangimento deu lugar às gargalhadas e a história se incorporou aofolclore que une os primos.Paulinho, seu outro primo, a quem Mariana amava muito e era por ela mimadoem todos os sentidos, mesmo quando adulto e com mestrado em Boston, é umanota triste em sua história. Paulinho era filho de sua tia Cristina, mulher depersonalidade fraca e cuja vida foi sempre um mar de tristezas.Ela se casou por amor e teve este único filho. Certo dia, sem nenhum aviso, seumarido foi embora de casa enquanto ela estava num chá, sem sequer sedespedir, para nunca mais voltar. Paulinho tinha 14 anos.O sofrimento de Cristina foi mortal, pois ela adorava o marido - que por sinal eraquerido pela família toda porque era uma excelente companhia, engraçado ebem disposto. O choque foi geral, todos compartilhavam a dor de Cristina ePaulinho, menos Marisa que sem a menor generosidade criticava a irmã por tersido abandonada pelo marido.Paulinho cedo começou a trabalhar. Formou-se na Fundação Getúlio Vargas(FGV) e logo já se responsabilizou pela mãe, que era muito despreparada tantopara o trabalho quanto para as adversdidades da vida. O pai nunca mais voltouou deu noticias, mas souberam que ele tinha se casado de novo e tivera outrosfilhos.Paulinho, que fez mestrado, era muito bonito, tinha cabelos dourados e umasimpatia imbatível. Com muito esforço e trabalho conseguiu juntar um razoávelpatrimônio. Aos 33 anos reencontrou o pai, que começou a extorquir seudinheiro.a quem Carlinhos também não negou seu perdão e nem asnecessidades do pai.No auge da vida e da carreira, assediado por lindas garotas, comprou umamoto. A pedido da família resolveu vendê-la e saiu para dar uma ultima volta ese despedir da moto. Foi a ultima volta de sua vida também, pois sofreu umgrave acidente e morreu uma semana depois.A dor foi cruel como foi cruel a vida para Cristina.Para Mariana, foi como se um pedaço dela mesma tivesse ido embora, não haviacomo consolar Cristina. Todos os sobrinhos se desdobraram em lhe dar carinho,mas jamais conseguiriam apagar sua dor.Além disso, o ex-marido apareceu para pleitear sua parte na herança e até amoto em que o filho tinha morrido. Nesta hora Mariana e seu irmão JR agiram 19
  20. 20. em rara consonância e mandaram a moto para o canalha.Cristina, maltratada pela vida, acabou morrendo precocemente e a família foiunânime em pensar que com a morte ela estaria num lugar lindo ao lado dofilho.Ligia era profundamente má e especialista em magoar ainda mais quem jáestava ferido. Cristina, sua irmã e mãe de Paulinho, sempre foi extremamentesensível. Com as dores pelas quais passou, primeiro com o abandono domarido depois com a dor incurável da perda de um filho, só lhe restava se apoiarnos braços das irmãs e sobrinhos e até mesmo em Lígia, que cobrava qualquertipo de solidariedade com a maior crueldade possível. Tinha uma forte memóriavoltada para o mal e o passado na ponta da língua para jogar sobre qualquerpessoa a qualquer hora – só poupando a JR ,seu filho idolatradoVárias vezes dizia a Cristina que a havia a ajudado financeiramente, quandoseu marido a abandonara. A mais cruel cobrança, no entanto, era sobre opagamento do enterro de Paulinho, pois como ele trabalhava na firmaadministrada por JR, aparentemente por praxe ou direito o enterro é pago pelaempresa, assim como as providencias funerárias. Pois Lígia tinha a coragem derepetir para Cristina: “Coitado do meu filho - até o enterro do seu foi ele quepagou”. Cristina era incapaz de responder qualquer coisa, pois no fundo tinhamedo até de perder uma irmã malvada como esta.Mariana nunca deixou passar batido esta colocação da mãe, chegava a gritarmesmo com ela, brigar e tentar incutir um mínimo de humanidade naquelamulher. A cada vez que presenciava esta cena horrorosa, sentia além de tudomuita saudade de Paulinho e, o pior ,sua completa impotência para fazer suamãe ter um pouco de compaixãoContudo, a vida é irônica e quando Lígia morreu – sem ter seu amado filho porperto – as despesas do funeral foram imediatamente assumidas por Luís, filhode Mariana, já que a empresa de JR estava sem caixa e o valor pago pelo netonunca foi revelado a ninguém . 20
  21. 21. 5Com o tempo as torturas que Lígia infligia à filha se deslocaram do terrenofísico para o emocional. É bastante comum que, tão logo as crianças submetidasa esse tipo de tratamentos ganhem a capacidade de denunciar os maus-tratos,ou mesmo de reagir, os abusos ganhem contornos mais sutis.Foi o que aconteceu na relação de Mariana com sua mãe. Ela já não podia fazera filha passar fome como aos oito anos de idade, mas ainda podia fazê-la sesentir um estorvo naquela mansão, indesejada, inadequada, longe do modelo deperfeição que Lígia via no filho mais novo e que conspirava para que ele setornasse progressivamente menos preparado para a vida, reagindo comagressividade à menor contrariedade.O consolo era recorrer às mães alternativas: o carinho das tias, principalmentedas irmãs de Antônio – Leta, Joana e DorôTia Leta era o porto seguro, mulher solidária, bondosa e forte. Tia Dorô semprefoi vizinha de Mariana e seus quatro filhos herdaram dela a simpatia e a arte doacolhimento. O filho mais velho de Dorô, Wilson, mal podia esperar pelo final dojantar para atravessar a rua e encontrar o tio Antônio, a quem divertia comdeliciosas histórias, que enfeitava a exaustão. Wilson se tornou um respeitadomédico, construindo uma carreira respeitável e honrando o carinho e a amizadeque Antônio lhe dedicava, um amor quase paternal e totalmente correspondido.Era como se Antônio projetasse nele o filho ideal que nunca conseguiu encontrarem JR.Por serem vizinhos muito próximos e morarem em um ambiente repleto demúsica, calor humano e alegria, era comum que suas portas estivessem sempreabertas para a prima. As trocas de visitas eram constantes e sempre deliciosas,especialmente aos domingos à noite, quando o marido de tia Dorô,tio Michel,preparava pessoalmente sua deliciosa receita de Kabab, que era desfrutada portodos. Ele próprio era o responsável por enrolar a carne assada no pão sírio elevar até cada membro da família, que nunca conseguia parar no primeiro, umarefeição cheia de sabor, risos, temperos e histórias e que envolvia a todos, 21
  22. 22. menos Lígia, que se alheava à alegria coletiva, ensimesmada em seuspensamentos mórbidos.Joana era a mais sensível, artista. Foi através da convivência com Joana queMariana encontrou o mais poderoso bálsamo para amainar a dor da rejeiçãomaterna: Descobriu que com lápis e papel podia desenhar mundos alternativos.Percebeu que tinha a habilidade de traçar paisagens, pessoas, animais e queaquele presente não podia ser tirado dela. Ao contrário de uma casa de bonecas,que podia ser incendiada, a arte se reforçava a cada mau-trato, a cada gesto deindiferença. Era o seu escudo, devolvendo beleza a cada agressão, respondendocom graça a cada insulto.Mas a arte, mesmo sendo um apoio poderoso, tinha um limite para protegerMariana. Ela precisava se afastar de tudo aquilo, conquistar sua vida,materializar as esperanças e a liberdade que inventava com seus pincéis. Oúnico caminho para uma menina recém-saída da adolescência naqueles anosconservadores era o casamento.Mariana tinha se apaixonado pela primeira vez aos doze anos de idade. Estavacom Daizy em uma sorveteria e seus olhos cruzaram rapidamente com Júlio, umjovem pouco mais velho do que ela e membro de uma respeitada família dacomunidade. Voltou para a casa com o coração sobressaltado – o que só piorouquando Júlio ligou para a casa dela.Morta de medo da reação do pai, pediu que ele não ligasse mais e pouco tempodepois o viu namorando uma garota mais velha.Foi assim que Mariana descobriu a reviravolta no estômago e o coraçãodisparado que acompanham uma paixão. E foi ao não sentir nenhuma destascoisas que ela descobriu que Tiago não era a paixão de sua vida.Não que houvesse algo de errado com ele. Tiago era fino, bonito, alto,sofisticado. Mas faltava nele algo que provocasse o descompasso que Marianatinha descoberto naquela primeira paixão de menina.Ainda assim, Tiago era um caminho para escapar da casa onde nunca tinha sidobem-vinda. E, com o sentimento de baixa estima incutido pelo tratamento damãe, Mariana nem se sentia digna de um amor como aquele da sorveteria, comoela se lembraria daquele fugaz encontro com Júlio.O casamento de Mariana teve tudo digno de um conto de fadas – festas,recepções, lua de mel internacional... Como nem tudo é perfeito, faltou apenas o“foram felizes para sempre...”Mariana se casou aos dezessete anos, sem conhecer nada da vida, isolada domundo tanto pela rigidez do pai quanto pelo sentimento de inadequaçãometiculosamente cultivado pela mãe. Nestas condições, Tiago parecia a melhoralternativa para fugir de um lar opressivo e se descobrir como indivíduo,escapando das garras de sua mãe e de seu irmão.O fato de perceber que estava “usando” Tiago como passaporte para a liberdadecriou um sentimento de culpa que a transformou na mais devotada das esposas,um esforço compensatório. 22
  23. 23. Tiago vinha de uma família na qual o refinamento freqüentemente se confundiacom a hipocrisia. Era uma família desacostumada com demonstrações deafetividade, onde tudo era tratado em voz baixa, os problemas nunca eramabordados de frente e os conflitos, ao invés de serem resolvidos, eramabafados.O casamento, que já partiu de um sentimento morno, não iria melhorar com otempo.A festa, entretanto, contrastando com a falta de emoção, foi excepcionalmentesuntuosa; afinal, era um acontecimento o enlace dos filhos de duas das maisrespeitadas famílias da comunidade, que reuniu a elite financeira e políticanacional, já que o pai de Mariana estava no meio de seu mandato comodeputado federal e contava com o respeito de quem exercia o poder do país.A família de Tiago representava o lado fino da comunidade, uma família comares imperiais, para a qual a finesse morava na fronteira da frieza. A de Mariana,por sua vez, representava a força do trabalho, a força do capital. A dupla comemoração De tempos em tempos, Mariana recebia presentes muito caros de pessoas quenem ela nem a mãe conseguiam identificar.Só na festa, ao recepcionar os convidados, elas entenderam que Antônio e tioAffonso haviam “falsificado” convites para mandar para os “Amigos de nóis”,parceiros de negócios afluentes e fora do radar da lista VIP elaborada pela alamaterna da família. Estes convidados, pessoas simples que tinham progredidocom esforço e ao lado das quais Antônio se sentia muito mais à vontade,contribuíram muito para injetar vida na festa. Foi mais uma das muitas peças que Antônio e o irmão Affonso costumavamaprontar em absoluta cumplicidade e silêncio. Houve outros episódios, que seincorporaram ao folclore familiar.O “causo dos colchões” foi um deles. Anos atrás, quando administravam sua lojade armarinhos em uma cidade com 5000 habitantes, os irmãos receberam cercade 200 colchões como pagamento de uma dívida.Sem ter o que fazer com este elefante branco, Antônio atravessou a rua eofereceu os colchões para o Seu Renato, dono de uma loja concorrente. SeuRenato respondeu que vendia no máximo um ou dois colchões por ano – e quenão tinha nenhum interesse em adquirir 200 unidades.Foi quando a dupla Antônio e Affonso se reuniu para arquitetar um plano demarketing. Pediram aos amigos para parar na loja do Seu Renato e perguntar seele tinha colchões para vender. O esquema durou alguns dias ,e finalmenteAntônio voltou à loja de Seu Renato para repetir a oferta.Impressionado com o súbito aumento de demanda, Seu Renato concordou emarrematar o lote.Muitos anos depois, Mariana voltaria à loja do Seu Renato,na pequena cidade jácom seus filhos . Ele a reconheceu e recebeu com todo carinho, brincou comsuas crianças e convidou a todos para o acompanharem até o sótão. Lá 23
  24. 24. dentro,para susto de todos mostrou uns 180 colchões;era, o saldo daquelahistória. Mariana e seus filhos muito sem graça ,sairam segurando os risos eacabaram dando gargalhadas na praça em frente. Aquela estratégia ingênua,mas muito sagaz , bem armada pelo pai e pelo tio que jamais frequentaram umaescola de marketing. era mesmo digna de muita admiração,e a graça era afeição patética de seu Renato que já convivia com aquela montanha de colchõeshá mais de 30 anos.Voltando para casa, os filhos de Mariana cercaram o avô, que os presenteou comdetalhes da operação “colchões” e outras divertidas histórias, que tornavam seuslaços ainda mais estreitos e carinhosos. Outra história clássica dos irmãos, muito parecida com a do casamento deMariana, foi a recepção a um grupo de empresários estrangeiros em visita àsempresas do grupo. Como era hábito, encomendou-se ao buffett umaquantidade enorme de comida, um exército de garçons – quando finalmenteperceberam que o grupo convidado era muito pequeno.Sem que ninguém soubesse, os irmãos decidiram que não ia faltar gente nafesta: foram até à rádio local, onde tinham muitos amigos, e inventaram umafesta comemorativa para a qual toda a população estava convidada. Em poucotempo, as imediações da indústria estavam lotadas de pessoas simples, usandoas melhores roupas que tinham em seus armários.Subitamente, o problema de falta de convidados transformou-se em outro, aindapior: como alimentar o que parecia ser metade da cidade. A solução veio maisuma vez da inventividade dos irmãos: a entrada foi servida para um grupo maisseleto, o prato principal para os convidados ao centro e as sobremesas paramatar a fome dos convidados de última hora. Todos foram servidos ao mesmotempo graças a estratégia dos garçons e maîtres e os convidados meio confusosnem ousaram imaginar o quê se passara achando isto sim que aquele jeito deservir era a mais moderna e extravagante do momentoComo a festa foi muito bonita, contando com um luxuoso show de um dos maisfamosos empresários da noite e a presença de uma miss em via de se tornaruma das mais importantes atrizes do país, tudo acabou virando festa e risos. – eAntônio e Affonso quietinhos num canto como dois moleques travessos fingiramnão saber de nada,mas para a familia que sempre esperava qualquer coisa dosirmãos imprevisíveis reconheceram em suas expressões a peça que haviamaprontado.Felizmente, no casamento de Mariana os convidados inesperados não foramproblema nenhum. Um dos irmãos de Antônio, Alfredo, afetado por problemasde alcoolismo, mas extremamente doce, saiu de manhã, já um pouco alto eeufórico com o pedido da sobrinha para ser seu padrinho de casamento,Ele erahabitualmente convidado para padrinho de casamentos no interior de ondenunca saiu,seus presentes sempre foram carneiros,porcos peru bem a moda daroça. Inesperadamente voltou mais tarde trazendo um carro 0Km como presente de 24
  25. 25. última hora – um Karman Ghia vermelho ano 63.o qual nem a sobrinha podiadirigir pois tinha apenas 17 anos,mas para alegria de todos o belo carro ficou aliestacionado na frente da casa alimentando o orgulho de tio Alfredo que pelaprimeira vez deixou de presentear alguém com os porcos e carneiros da fazfazendasUm dos aspectos mais constrangedores para Mariana – mas que infelizmenteeram parte da tradição – foi a exposição dos presentes de casamento –numa alada casa dedicada a exibir os presentes recebidos pelos noivos, incluindo muitasjóias.pratarias,objetos de arte e os Grandes presentes dos amigos de nós quesempre eram maiores no tamanho e nos valores.O constrangimento de Mariana com aquele museu dos presentes foraultrapassado apenas por um evento anterior: a exposição do enxoval completo,incluindo a “camisola do dia”, em um chá oferecido para a fina flor das mulheresda sociedade, que se enchiam de quitutes diante do espetáculo da intimidadedevassada da noiva embaraçada – calcinhas combinando com lençóiscombinando com toalhas de banho combinando com fronhas, em uma sucessãoinfindável, em meio aos mordomos uniformizados servindo doces e bebidasquentes nas mais finas louças e pratarias.A patrocinadora deste evento foi tiaDorô que não concebia deixar por menos aquilo que a primeira sobrinha que secasava levava na sua grande bagagem de futura esposa.Tia Dorô também eramuito leve e este gosto era mais criativo do que protocolar.Era difícil para Mariana imaginar, mesmo nas tribos mais primitivas, algum ritode passagem que exibisse, com toda pompa e circunstância, o traje com o qualuma de suas virgens seria iniciada, mas aparentemente, desde que a camisolafosse da grife de uma grande bordadeira, a sociedade da época considerava aexposição normal.Mariana já começava a manifestar a rebeldia que o tratamento maternoalimentara e que a tornaria cada vez mais avessa às formalidades sociaisconvencionais; aquela exposição, devassando sua privacidade, embora habitual,já lhe provocava mais estranheza do que o orgulho comum às noivas de seucírculo social.A principal lembrança que Mariana guardaria da lua de mel foi do tempo em queficou chorando escondida de Tiago.por ter assumido uma responsabilidade tãogrande com sua tenra idade Para ele,ao contrário que vinha de uma família respeitada, mas sem a mesmacondição econômica tão grande como a de Mariana, colocar seu sobrenome nafilha mais velha de Antônio era um feito considerável. Com o casamento,rompeu-se a discrição imposta pelo código de sua família e vieram a visibilidade,a possibilidade de gastar seu dinheiro com aquilo que quisesse, o acesso àsfestas de alta sociedade – que Mariana apenas tolerava – e mesmo um cargo dedestaque na empresa. 25
  26. 26. Mariana começou a se acomodar com aquilo que ela imaginava seria sua vidasentimental: uma relação sem grandes arrebatamentos afetivos ou sexuais, semgrandes emoções, estável e vagamente chata.Vieram os três filhos – Cássia, Luís e André – que deram a Mariana todas asrazões para achar que seu casamento tinha valido a pena. Paralelamente, suacarreira como artista plástica começava a decolar. A arte de Mariana nunca teveum propósito claramente comercial, era, antes e acima de tudo, um meio deexpressão de suas convicções e estéticaFoi neste processo que seus trabalhos foram descobertos meio queacidentalmente . Ela estava decorando sua casa com um grupo de arquitetos doRio de Janeiro. Um deles viu, vários quadros encostados na paredeacanhadamente e logo quis saber de quem era a autoria daquelas obras.Mariana assumiu a maternidade dos quadros. Rapidamente este grupo, com grande visibilidade e trânsito no meio cultural doRio, provocou sua primeira exposição individual de destaque.No dia da abertura da exposição, Mariana tentava chegar ao espaço davernissage e intuiu que seria um fracasso: a rua em Ipanema onde ficava agaleria estava intransitável e ela imaginou que ninguém enfrentaria aqueletrânsito para ver os quadros de uma artista desconhecida.Quando finalmente entrou na galeria, assustou-se ao perceber que o trânsitotinha sido provocado por ela mesma: eram as pessoas interessadas em seutrabalho que estavam congestionando a rua que dava acesso à galeria.O trabalho de relações públicas, desenvolvido por seus descobridores, resultaraem uma nota dos mais influentes colunistas sociais da cidade, bem como umaboa acolhida dos críticos de arte, provocando assim um enorme interesse porsua obra ; conseqüência ; uma galeria lotada.pela charmosa sociedade carioca.Antônio, na época já doente e impossibilitado de ir ao Rio para a vernissage,atuou nos bastidores e, sem que ela soubesse, estimulou alguns dos amigos denóis a comprar seus trabalhos, dando um impulso comercial importante para suacarreira.Neste processo, por meio de sua arte – e não das realizações de sua família –Mariana começou a se tornar mais conhecida na mídia. Tiago percebeu, mesmocom a projeção que o casamento lhe proporcionara, que ainda havia novasesferas sociais a serem conquistadas e as pinturas de sua esposa eram umanova carta de trânsito.De repente, Mariana e Tiago foram convidados para festas, recepções,cruzavam com figuras do meio artístico, rostos que até então só tinham visto emcolunas sociais. Era um mundo do qual Mariana podia ter desfrutado desdesempre, mas pelo qual nunca tinha se interessado, e que agora corria atrás delaem função da visibilidade de sua arte, cobrando sua presença.Seu deslumbramento com aquilo era nenhum – estava feliz com oreconhecimento de seu trabalho, mas nunca tinha perdido a perspectiva do fatode que ela permanecia sua mais rigorosa crítica – e a opinião positiva dos outrosera, no limite, um reforço agradável. 26
  27. 27. Esta situação a expôs não apenas como artista, mas também como mulher.Finalmente madura - afetiva, sexual e artisticamente - Mariana mais do quenunca começava a atrair outras pessoas. Uma dessas pessoas foi um jornalistacontatado para dar em São Paulo o mesmo impulso que os jornais cariocastinham dado a sua carreira no Rio.Este jornalista, bastante influente, começou a assediá-la mais agressivamente.Não que ele fosse especialmente atraente, principalmente comparado à belezaclássica de um homem como Tiago. Mas, como alguns homens que sabem nãoserem especialmente bonitos, ele tinha desenvolvido um charme excepcional,uma capacidade de dizer exatamente o que uma mulher quer ouvir, de elogiarexatamente o que uma mulher quer ver valorizado. Enfim – um profissional dasedução, cuja prova mais evidente era a beleza excepcional de sua esposa.O cerco a Mariana começou de forma sutil: alguns elogios, um abraço um poucomais apertado do que o normal, gestos que ficavam em uma zona nebulosaentre a corte e a gentileza. Progressivamente a sutileza foi deixada de lado e asintenções do jornalista começaram a se tornar mais óbvias. Gracejos sussurradosno ouvido. Uma mão boba em um jantar com a presença dos cônjuges deambos. Telefonemas no meio da tarde.A reação inicial de Mariana foi de medo: tão logo o jornalista se mostrou maisagressivo, ela imediatamente dividiu com Tiago o que estava acontecendo.AfinalTiago foi praticamente seu primeiro namorado e ela não tinha a menorexperiência em se desvencilhar deste tipo de situaçãoFoi quando Mariana percebeu o poder que a maternidade tem de dessexualizaruma mulher. Tiago desdenhou daquele flerte, interpretando-o como parte dojogo de cena social – aos seus olhos, era como se fosse impossível alguém seinteressar por uma dona de casa como a mulher dele.Em outras palavras, ele já tinha perdido a capacidade de ver nela um sersexuado, atraente – Mariana, embora no auge de seu poder de atração, era paraele apenas a mãe de seus três filhos e ele não estava disposto a abrir mão dapresença nas festinhas da sociedade em função deste assédio que ela vinhasofrendo, nem sequer abdicar da companhia do jornalista que, afinal, era aprincipal fonte de convites para estas festas.Subitamente, a culpa que a amarrava ao casamento começou a se desintegrar ese transformar em indignação. Todo o empenho que ela tinha colocado para setornar a esposa perfeita tinha de alguma forma conspirado para criar um cenárionelson-rodrigueano, aquele no qual parece uma tara desejar sexualmente a mãedos próprios filhos.Mariana resistiu ao assédio insistente do jornalista – e de outros que vieram nocaminho. Mas entendeu que seu casamento tinha morrido. 27
  28. 28. 6Mesmo reconhecendo as limitações afetivas dos laços que a ligavam a Tiago,Mariana sabia que o casamento era um abrigo seguro para o jogo insano quesua mãe e seu irmão continuavam mantendo. O fato de Tiago ter sido escolhidopara um alto cargo executivo na empresa familiar realimentava sua proximidadecom a banda doentia da família.A precariedade da saúde de Antônio, sempre uma carta certa para abalarMariana – e que Lígia tinha aprendido a colocar na mesa desde cedo -continuava a ser usada como um elemento opressor.Todos sabiam que Antônio era cardiopata e diabético – e aquilo, nas palavras deLígia, eram razões para que ele trabalhasse menos – não para se preservar, maspara minar sua escalada.E Mariana era chantageada para levar até ele estes apelos de redução do ritmode trabalho – arcando ainda com o ônus de não ser ouvida e, ao fracassar, sercúmplice no programa de suicídio que ele, na visão de Lígia, estava envolvido.Quando solteira, Mariana chegava a passar horas ao seu lado, observando suarespiração ritmada, desesperada com a perspectiva de que a qualquer momentoela poderia testemunhar seu último suspiro.Antônio era levado aos mais diferentes médicos que se contradiziam entre siimpondo sofridas restrições que comprometiam sua alegria de viver.Pão, sal, doces, frutas. Tudo o que era prazeroso ,era cortado da vida dele. Como endosso dos médicos, Lígia se fortalecia como dona da situação etransformava sua casa em um campo de concentração.Mariana, sem voz ativa, agia às escondidas, contrabandeando alimentosgostosos para o pai, contando suas mentirinhas, lendo o jornal e cercando-o deatenção e carinho toda vez que a mãe saía de casa.Tio Affonso também eradiabético;,tudo que o pai e o tio gostavam Mariana lhes oferecia,era cética sobreas opiniões médicas assim como desacreditava em Lígia e JR e suas boasintenções.Ela sempre soube que seus mimos ao pai e tio queridos eram dadoscom tanto amor que não interfeririam na glicose de ambos.Ela acreditava queera o amor que curava .Antônio, fragilizado pela doença, ficava à mercê da tirania da esposa e da 28
  29. 29. crueldade do filho, que não o poupavam e criavam tratamentos inúteis e sofridospara “o seu bem”, relembrando Mariana das noites em que passava fome,também para “o seu bem”.Um dos pequenos consolos de Mariana ao ver o pai naquele estado era saberque ela podia, de vez em quando, levar escondido um bom arroz doce, seu doce predileto, sabendo que não era esse pequeno prazer queia piorar seu estado.Com a pressão psicológica de Lígia, Mariana passou seus 32 primeiros anos devida esperando pela morte de Antônio e tendo que enfrentar a possibilidade daperda brutal de seu único norte. Os efeitos da atitude repressora de Lígia sobre a filha eram tão fortes queMariana não se lembra de ter gargalhado até a idade de 30 anos. Conversandocom um divertido grupo de amigos cariocas, ela se surpreendeu gargalhandogostosamente para então se dar conta de que até então suas manifestações dealegria eram os sorrisos contidos e envergonhados típicos de uma mulherreprimida.Aquela noite quente no Rio foi mais um marco inesquecível em suavida Às vezes, durante os últimos anos de vida de Antônio, Mariana se surpreendiapedindo a Deus que acabasse logo com aquela angústia – e que já que erainevitável que ela tivesse que encarar o enorme vazio deixado pela falta de seupai, que fosse logo, que esperar pelo pior era sofrer em câmera lenta e que seriamelhor mergulhar logo no abismo, poupando seu pai querido de tantosofrimento. A morte, que Lígia sadicamente gostava de antecipar para Mariana,acabou acontecendo em 1978, quando Antônio tinha 70 anos.Mariana dependia profundamente do amor de Antônio para ancorar um mínimode auto-estima. Era o amor dele que fazia com que ela encontrasse algum valorna sua vida, o contraponto para a rejeição de Lígia. Por isso, Mariana tentava sepreparar para o momento da despedida, que sabia inevitável, da melhor formaque pudesse.O coração de Antônio resistia, mas estava cansado. Mariana se lembraria parasempre de uma de suas últimas conversas com o pai, quando ele tomou as mãosdela nas suas e confessou: “Seu irmão está me matando”.foram palavras que elanão compreendeu naquele momento.As crises histéricas, a violência e a prepotência de JR seguramente deixavamsuas marcas não apenas no pai, mas em toda a família. A única a não acusar ogolpe era Lígia – afinal, o filho estava apenas cumprindo o papel para o qual elao preparara a vida inteira.Quando finalmente chegou a hora da despedida para a qual Mariana tinha sepreparado sua vida inteira, percebeu que suas precárias medidas para aquelemomento não tinham servido para nada. A dor real era ainda pior do que a dorque a mãe a fizera imaginar desde criança.A visão do pai morto, do herói que a fazia se sentir aceita, amada e 29
  30. 30. minimamente bem-vinda em sua própria casa era um impacto ainda maior doque ele podia antecipar em seus piores pesadelos.Desta vez não haveria Mentex, não haveria mala com vestidos rosas.Desta vez não haveria volta. O maior engano de Mariana foi o de pensar que aquela seria a pior dor que elairia viver .Dos três filhos que constituíram o saldo mais positivo de seu casamento comTiago, um deles iria cobrar o preço emocional mais alto com que ela teria quearcar em sua vida.Mas isso ocorreria muitos anos mais tarde e naquele momento parecia, paraMariana, que nunca haveria nenhuma outra experiência capaz de reprisar asufocante e devastadora emoção daquele momento.Antônio foi um homem admirado, mas também amado – dois adjetivos queraramente se encontram. Seus amigos, seus funcionários, seus irmãos, seuseleitores – foram muitos os que choraram a morte de um homem simples semser simplório, determinado sem ser impiedoso, vitorioso sem ser indiferente.A cerimônia foi coberta de pompa e de honras, como era de se esperar noenterro de um grande homem. Mas havia uma corrente subterrânea de dorlegítima, de perda real que contagiava todos os presentes.Mas ninguém choraria por tanto tempo quanto Mariana, que experimentavauma solidão avassaladora ao lado da sepultura do pai. Nem mesmo a lembrançadas coisas positivas deixadas por seu pai – como o grande legado da aberturado crédito feminino através de seu banco, um passo histórico na luta pelaemancipação feminina – servia como consolo.Desamparada, aquela jovem formada no Sacré Coeur de Marie, educada emfrancês para sempre agir com feminilidade, finesse e savoir faire, teria queabdicar daquele padrão ultrapassado de comportamento frágil para enfrentar defrente a truculência dos que imaginavam dominá-la, dos que pensavam queaquele recolhimento podia ser confundido com conformismo. 30
  31. 31. 7Mariana costumava pensar que nossa sensibilidade e astúcia sempre sedesenvolvem na direta proporção dos desafios que enfrentamos. Os americanoscostumam dizer “It’s always something ...” - há sempre alguma coisa, quandonão é saúde é dinheiro, quando não é dinheiro é a vida afetiva. Certamente, otamanho dos desafios e a qualidade das respostas que damos a eles variamenormemente, mas o que Mariana tinha aprendido ao longo da vida é que nãohá fórmula para se preservar da inventividade do destino em nos oferecerreviravoltas.Alguns parecem querer contornar os problemas, adiar seu enfrentamento, comose isto os preservasse de reencontrá-los no futuro. Mariana, marcada peloconfronto com a crueldade da mãe, não tinha tido opção senão a de encarar osproblemas e, sempre que possível, encontrar uma forma de manter o senso dehumor, sempre a melhor vingança.Quando seu pai morreu, o relacionamento com o irmão JR já estava longe de serperfeito. Mariana sabia que ele tinha um gênio péssimo, uma predisposiçãonatural para a crueldade e para a violência, mas curiosamente nunca tinhadesconfiado de sua honestidade.Seu narcisismo e sua relação edipiana nunca resolvida com a mãe só seconfirmaram com a mulher que ele escolheu para casar. A esposa de JR,Rogéria, era uma mulher lindíssima, a típica esposa-troféu que um herdeiro eempreendedor como ele deveria exibir para a sociedade. Mulher ambiciosa,exibicionista e, como muitas na sociedade, capaz de listar todas as casas de alta-costura de Paris e nenhum livro que tivesse lido ao longo da vida.Havia uma humilhação sutil (e talvez involuntária) no fato de ela – mesmoaltíssima – sempre usar saltos altos que a deixavam muito maior que JR, masaparentemente Mariana era a única a perceber. 31
  32. 32. O problema da esposa-troféu é que ela deve ser admirada - mas sempresuperficialmente. Mariana se espantava com o fato de parecer faltar nelasjustamente a substância capaz de alimentar as grandes paixões, o elementohumano que torna um ser humano capaz de encantar em outro nível que não omeramente físico e externoMariana, com o distanciamento auto-imposto das cerimônias sociais, via comuma perspectiva privilegiada como esta falta de “alma” destas esposas-troféutípicas cria um padrão de comportamento recorrente na sociedade: osagrupamentos de machos-alfa com suas fêmeas ocas, núcleos extremamenteunidos e resistentes a “misturas”, quase impermeáveis, com direito asseguradoaos machos a flertes com fêmeas de padrão “inferior” – secretárias, assistentesetc - e mesmo as ocasionais prostitutas de luxo.Este comportamento permissivo faz deles seres doentiamente possessivos eciumentos com seus troféus, talvez pelo temor de que elas em algum momentoos desafiem com o mesmo tipo de atitude. A possibilidade de ser traído,alimentada pela negligência contumaz dos deveres conjugais, domésticos só émenos pior do que a de perder dinheiro.É óbvio que mesmo entre estes grupinhos de machos-alfa existe uma disputapara ver quem é o maior – e os parâmetros da disputa devem ser os maisóbvios, superficiais e mensuráveis possíveis – Quem viaja mais, quem moramelhor, quem tem o maior iate, quem gasta mais para adornar a esposa-troféu,quem tem mais amantes, quem saiu com a capa da Playboy naquele mês.Mariana observava divertida como, para alguns homens, a disputa para verquem tem o maior pênis nunca acaba nos vestiários do pré-primário e estarelação doentia, ao invés de repugná-los com sua infantilidade, cria uma relaçãode co-dependência que os aprisiona em um universo de artificialidade ebrinquedos caros e inúteis.Os critérios de amizade são sempre subordinados às regras inflexíveis deste jogo– ao contrário das amizades verdadeiras, construídas com base na solidariedade,nos interesses comuns e nas compatibilidades, estas são embasadasexclusivamente no “jogo”. Existe uma ânsia secreta em ver o outro cair – equalquer ajuda neste momento é vista como crédito extra (“além de ter o maiorjatinho, ainda dei uma grana para o fulaninho, que perdeu tudo” pode se gabaro macho-alfa na reunião seguinte, enquanto sorri para o colunista social).Mariana, mesmo pertencendo àquela classe social, lembrava-se dos livros deScott Fitzgerald nos quais tinha lido que os muito ricos são diferentes do resto.Um antropólogo talvez se encantasse com as particularidades desta tribo. Lígiareconhecia em Rogéria, esposa de JR, justamente o modelo de brinquedo queele deveria ter “comprado” para perpetuar sua prole.Mais de uma vez, enquanto JR usava o dinheiro que tinha roubado de Marianapara decorar seu troféu com griffes e jóias – além das plásticas e personaltrainers ocasionais que evitavam a deterioração de seu investimento – sua mãesugeria que Mariana a usasse como referência!!! (“Veja como a mulher do seu 32
  33. 33. irmão está cada dia mais linda” era a frase-chave de sua relação com a mãe,especialmente em momentos de maior depressão.)Como este jogo aprisiona seus participantes, qualquer atitude – roubar, jogar,mentir, destruir vidas – tudo é aceitável. O único demérito é perder.O filósofo alemão Arthur Schopenhauer dizia que a compaixão era a base detoda a moralidade. Talvez sua mãe, ao subtrair desde cedo de JR a possibilidadedo aprendizado de qualquer nível de empatia, tivesse selado para sempre odestino de sua noção de moral.8Rogéria ,a cunhada de Mariana nasceu em uma família rica que perdeu tudo. Opai, Cezar, era um jogador compulsivo e a mãe, Irene, talvez estabelecendo oscritérios que orientaram a formação de uma nova geração de autênticasesposas-troféu, tinha abandonado o marido e as duas filhas para morar com ummédico no interior de São Paulo, OtavioQuando Otavio decidiu se mudar para São Paulo, todos passaram a morar namesma casa – as duas filhas do primeiro casamento, o ex-marido, o novo maridoe Irene, dona da última casa que tinha restado como patrimônio familiar.No jogo da alta roda, perder ou ganhar posição é comum e um fenômeno queMariana observou foi que, com freqüência, a perda de dinheiro torna as pessoasainda mais esnobes – como se elas se agarrassem, desesperadas, ao último elodo universo que habitavam. A família pouco usual de Rogéria, esposa de JR, nãoera exceção à regra.Mesmo que aquele lar com duas figuras paternas não fosse exatamente um lartradicional, nem por isso eles deixavam de olhar para seus pares com umaatitude superior, que não poupava nem mesmo Antônio, seu bilhete de primeiraclasse de volta para o status econômico perdido.Contra a vontade de seu pai, JR casou com seu troféu e Mariana foi aencarregada de organizar a festa. O presente do lado da noiva veio em etapas:todas as contas relativas à roupa da noiva, da mãe da noiva, da irmã mais nova,da mãe do pai do padastro etc.A família de Rogéria se esmerou – em um prazo recorde – em gastar o máximopossível, quase que se vingando do período de privação que tinhamexperimentado. O casamento foi a desculpa ideal para repor em seus guarda-roupas os trabalhos dos costureiros famosos que antes pareciam tãoinacessíveis, as jóias que tinham desaparecido do cofre em tempos difíceis. 33
  34. 34. Movido por seu senso de honra old fashion e não querendo ser um fator dediscórdia no início da vida de casado se seu filho, Antônio se calou e assumiutodas as despesas dos novos agregados.Durante os encontros familiares, era quase cômico ver como aquelas pessoas,ainda que vestindo as roupas compradas por Antônio, se esforçavam paradisfarçar o desprezo por sua simplicidade caipira.Já para Lígia estava tudo bem. Se o dinheiro da família tinha que ser usado parapatrocinar uma princesa para seu filho, não havia problema. JR tinha encontradouma mulher bonita o suficiente para seu status social – e vazia o suficiente paranão ameaçar sua posição de domínio do filho. Era o que bastava para ela.Para Antônio, entretanto, a conta da festa seria apenas a primeira parcela daescolha excepcionalmente cara de seu filho. JR, que com seu destemperohabitual, obrigou o pai a comprar a casa de um famoso empresário do ramo dascomunicações para substituir a já luxuosa mansão com a qual ele o tinhapresenteado.Infelizmente, se JR não tinha herdado a simplicidade e modéstia de Antônio,também não herdou sua habilidade para os negócios – e a maior parte dosterrenos agregados à propriedade foram mais tarde penhorados por bancos.Apesar de todas os indícios acumulados ao longo de sua vida, que vinham desdeantes do incêndio de sua casa de bonecas, Mariana ingenuamente nãodesconfiava da honestidade de JREle foi o padrinho de sua filha Cássia e mesmo depois do rompimento definitivoentre os irmãos, esta foi uma função da qual ele nunca abdicou, exercendo-ocom surpreendentes carinho e responsabilidade.Antônio, seu pai, enquanto vivo parecia funcionar como um freio moral para JR eas famílias dos dois irmãos mantinham uma certa funcionabilidade, o que incluíaprogramas comuns, viagens em grupo, festas...O principal ponto de discórdia era o papel de Tiago na empresa, que por suaposição,era permanentemente confrontado por Jr e até pelo estilo de seu pai.Tiago se via como a força capaz de renovar o estilo administrativo da empresa,um ponto de equilíbrio entre a administração “antiga” de Antônio e aimpetuosidade suicida de JR.Esta visão de “talento administrativo” não era compartilhada por mais ninguémna empresa, nem dentro nem fora da família, e Tiago seguia pregando nodeserto suas idéias salvadoras. Um dos problemas com Tiago era suaincapacidade de penetrar no código das mentiras brancas de Antônio e seusirmãos.Era típico, nos momentos de desânimo, Affonso aparecer na sala do irmão comum papel na mão e anunciar vitorioso “Ô, Antônio, hoje a gente tem 2 milhãopara receber...” Tiago imediatamente entrava com o balde de água fria “É,pessoal, mas a folha de pagamento é de 2,3 milhões...”“Você tinha que lembrar isso” reclamava Affonso com um muxoxo. É óbvio que 34
  35. 35. nenhum deles ignorava o tamanho das despesas. O que eles queriam era secontaminar mutuamente, ainda que por um breve minuto, com o lado positivodos negócios – benefício que Tiago estava sempre disposto a negar, talvez emum esforço para valorizar suas sempre ignoradas idéias para a administração.A morte de Antônio liberou Mariana para encerrar um casamento sem amor noqual tinha entrado principalmente para usá-lo como passaporte para a liberdade.Mas a morte do pai também serviu para que JR pudesse liberar seu lado negrocom maior desenvoltura.Livre da sombra do pai, JR agora podia abraçar o poder que, Lígia lhe ensinaradesde criança,que era apenas seu – não importa quem tivesse que seratropelado por causa disso.9Quando , Mariana se sentiu finalmente livre para se tornar dona de sua vida e seseparar ,não que ela quisesse buscar outra pessoa para sua vida – ela apenasentendia que cumprira um ciclo – conseguira sair da casa dos pais, encontrarrespeito como artista plástica e tinha três filhos crescidos que amava, frutodaquele casamento.todavia não via mais sentido em amarrar Tiago a umarelação sem amor e decidiu aprofundar sua independência e usar o tempo livrepara trabalhar ainda mais a sua arte e para respirar.Neste processo de solidão, Vera, uma amiga, insistiu para que Marianaintegrasse o seu grupo para sair de casa, ir a restaurantes. Sempre inimiga defrivolidades, em um primeiro momento não estava disposta a sair de seu bunker.Queria mais, era usar todo o tempo livre para mergulhar em si mesma, sedescobrir como pessoa – já que estava sozinha pela primeira vez e podiadesfrutar de uma embriagadora sensação de liberdade.Neste tempo, mais do que nunca, sua grande companheira e amante foi suaarte. Mariana costuma dizer que não vive da arte, mas para a arte. Isto éverdadeiro em sua vida desde que começou a pintar em um pedaço de gangorraquebrada em seu jardim.aos 7 anos de idadeDesde bem pequena, Mariana acompanhava tia Joana aos estúdios de arte, deescultura de cerâmica e exposições. Tinha menos de 6 anos e estes já eram seusmelhores momentos de infância.Mariana acompanhou na mais tenrra idade, com atenção de adulta, todas astransações da doação que seu pai fez ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) deum quadro de Cèzanne. Ela ia e vinha com seu pai para ver o quadro, suachegada, sua colocação e, quando ninguém olhava, passava as mãozinhas nos 35
  36. 36. seus contornos, hipnotizada por aquele universo emoldurado que a transportavapara aquele outro mundo paralelo.Certa vez sua mãe recebeu como propaganda do perfume Fleur de Rocaille deMarcel Rochas um cartão de papel poroso perfumado com o perfume divino eimpresso nele um quadro de Renoir com bailarinas. O cartão caiu em suas mãose passou a fazer parte de sua vida, o cartão se combinando com aquele perfumedelicioso e com as bailarinas de Renoir, tinha um efeito inebriante. Ele foicolocado em seu diário – e transportado para cada uma de suas novas versõesaté o perfume desaparecer e as figuras desbotarem.Tudo que poderia afastá-la de seu caminho artístico foi severamente rejeitado:festinhas, literatura fútil e mesmo as matinês dos sábados à tarde com asamigas – e agora, tinha todo o tempo e liberdade do mundo para mergulhar emtelas e pincéis.Como sua mãe sempre se colocava contra qualquer coisa que lhe desse ummínimo de alegria na vida, também assim foi com a pintura. Achava que eladevia se ocupar de coisas mais “sérias”, como economia, para ajudar nosnegócios de família – os mesmos negócios que anos mais tarde ela ajudaria acolocar exclusivamente nas mãos do filho.Mas o chamado da arte foi mais forte que as objeções da mãe e Mariana cadavez mais se envolvia com o mundo que ela criava nas telas. Proibida pela mãede pintar em casa, Mariana descobriu uma professora de pintura que seprontificou a ensiná-la aos sábados, fora de seu horário habitual.Mariana se lembra com emoção da primeira visita a uma loja de artigos parapintura no centro de São Paulo ;de como entrou lá sem saber muito bem o quedeveria comprar; de como as vendedoras a apoiaram, recomendando telas,pincéis e tintas, além de sua pioneira caixa de pintura, caixa esta que ela iria“sujar” com grande orgulho; e por fim que cada mancha de tinta seria um troféuadicional em sua escalada de artista.Seus primeiros trabalhos, totalmente abstratos, não demoraram a aparecer e,mesmo com a falta de apoio da mãe, Mariana decidiu dividir com ela osprimeiros resultados de sua arte. Lígia reagiu com desdém ao trabalho da filha ereforçou a proibição, desta vez baseada na recente morte de sua tia Joana, aoutra artista da família , fonte de inspiração para Mariana, cujo diagnóstico dacausa mortis tinha sido intoxicação por tinta.Mariana também ficou traumatizada com o episódio até que sua professoraalemã sugeriu que ela trocasse a tinta a óleo pela aquarela. Não era bem o queela queria – afinal, os grandes pintores trabalhavam com óleo – mas entre aaquarela e se afastar da arte, a primeira alternativa era a menos ruim.Enquanto Lígia pensava que a filha seguia o caminho tradicional da juventude desua geração – um cinema à tarde na Rua Augusta, seguido de um hot dog e umhot fudge nut – Mariana estava escondida com sua professora, descobrindocores e traços.O dinheiro para pagar as aulas Mariana arrumava com seu pai ou com o tioAffonso, sem precisar dar nenhuma explicação – para eles, bastava saber que 36
  37. 37. Mariana estava feliz - desde que dentro dos rigorosos padrões decomportamento de uma moça de boa família da época.Esse era um lado do pai com o qual ela tinha de conviver – de um lado o políticoliberal, o banqueiro responsável pelo pioneiro crédito para as mulheres, de outroo pai de família arquiconservador.Já tio Affonso era mais liberal e, portanto, confidente de Mariana, fazendo o filtrodo que deveria ou não chegar até os ouvidos do pai.Mariana, já com treze anos, se realizava com os primeiros passos de sua artequando surgiu um conflito com sua professora. Ela estava trabalhando em umquadro de orquídeas rotineiro, um exercício que nem de longe estava exigindo omelhor dela.A pintura ficou incompleta e, uma semana depois, quando Mariana voltou para aaula, sua professora tinha uma surpresa: terminara o trabalho por ela.Mariana se encheu de brios e disse para a professora que jamais se toca notrabalho de outro artista. Isto dito, passou a mão em seu trabalho e nunca maisvoltou para as aulas.A partir daí, surgiu a precoce autodidata, disposta a percorrer com totalliberdade os caminhos da criação e que agora, sozinha pela primeira vez em suavida, voltava a explorar com alegria juvenil.Como toda artista Mariana tinha suas crises. Volta e meia se deparava comdúvidas sobre seu trabalho. Ser artista implica em criar,pintar e criar mais e seexpressar mais ,se distanciar um pouco dos deveres maternais,além de ficar àmercê da boa vontade dos críticos e especialistas ,além dos marchandsConsolava-a a história de Van Gogh, o atormentado artista que nunca vendeuuma obra sequer durante a vida. Ou a reação de Picasso, quando um críticodisse que qualquer criança poderia pintar seus quadros e ele respondeuorgulhosamente, dizendo que tinha levado a vida inteira para aprenderjustamente a pintar como uma criança.Enfim – ser artista consiste em se blindar contra a rejeição e tolerar os eventuaisatentados à auto-estima. Mas, mesmo nos seus momentos de maiorinsegurança, surgiam coincidências que a colocavam de novo na rota.Como a vez em que um colunável, dono de uma faculdade, comparecera a umade suas exposições e comprado um quadro. Quando a obra foi entregue, ogrosseiro milionário disse que não tinha comprado nada e mandou devolver,Tinha feito aquela compra fictícia apenas para registrar sua presença naqueleambiente sofisticado.Mariana ficou arrasada com a reação e colocou-o de volta na exposiçãoPouco tempo depois, uma deliciosa visita do professor Bardi ,responsável pelomelhor museu de arte do Brasil o MASP, se encantou com o mesmo quadrorejeitado por aquele bossal e decidiu incorporá-lo ao acervo do museu , ondeestá exposto orgulhosamente ao lado de alguns dos mestres da pintura mundial.Outra coincidência aconteceu quando de sua primeira exposição individual nos 37
  38. 38. EUA, no Museum of Art de Orlando.Mariana estava ansiosa e intimidada pela fama de severidade dos curadores domuseu. Ao chegar,para a primeira entrevista sua amiga Sol apresentou-a à umamoça que estava na recepção, Sol foi logo falando ela é carioca!. Tímida ecompenetrada, Mariana cumprimentou a compatriota e aguardou a chamada doboard da instituição.Com eles, passou por um crivo meticuloso que resultou em um convite para umasérie de exposições. Aliviada e feliz com a reação dos curadores, Mariana saiu eatendeu ao pedido da recepcionista para ver seu arquivo fotográfico detrabalhos.A moça passava os olhos pelos trabalhos e fazia elogios gentis, até queparalisou-se diante de um trabalho. Com lágrimas nos olhos, a moça virou-separa Mariana e disse: “Esta é minha mãe”.Mariana não entendeu o que estava havendo e foi ver do que ela estava falando.A imagem que a tinha comovido era uma colagem tipicamente carioca, pintadaem seu apartamento em frente ao Bar Garota de Ipanema, toda azuladatrazendo ao fundo o Pão de Açúcar e recortes de jornal repintados com camadasde velaturas brancas.Um dos recortes era da coluna do Zózimo no JB, para Mariana a essência do Rio.Neste recorte a menina reconheceu a foto da mãe, uma das locomotivas dasociedade carioca, morta havia dois anos.Foi uma emoção muito forte, levar para tão longe uma lembrança daquela mãeausente, e uma coincidência que reforçava o poder de comoção de sua obra.Mariana ainda em dúvida precisou usar uma lupa para ler melhor o nomedaquela bela mulher ,Maria Inês Piano como dissera Taís.Comovida mandou fazer uma grande gravura do quadro e presenteou a novaamiga.Isto as uniu bastante a ponto de passarem juntas as comemoraçõesnatalinas ,Thanks Given e aniversáriosOutra história envolvendo sua arte teve como palco a cidade de Paris.Entre os árabes e seus descendentes existe uma comunhão imediata que os uneem qualquer parte do mundo. A hospitalidade dos árabes é célebre e umacaracterística que passa de pai para filho há gerações.Quando um árabe convida outro para visitá-lo em sua casa, ele logo diz AH LAUSALA. Em uma tradução mais simples, quer dizer “bem-vindo”. Mas a frase temum caráter muito mais abrangente – significa que o visitante deve se sentir comose estivesse em sua própria casa, que será recebido como se estivesse no seiode sua própria família, com todo carinho e fartura dignos de um filho querido.Este sentido de comunhão e aceitação foi fundamental quando os primeirosimigrantes chegaram ao Brasil e foram acolhidos pelos pioneiros com o mesmoAH LAU SALA que ouviam em sua terra natal. Na década de 1990, Mariana estava participando de uma exposição coletiva degravuras em Paris. Como é comum em coletivas, parte dos trabalhos não foivendida. Mariana pediu ao marchand que os trabalhos não vendidos não fossem 38
  39. 39. encaminhados de volta para o Brasil, já que a alfândega local é extremamenterigorosa com trabalhos de arte e os taxa severamente – o que é irônico quandose pensa que o país assume que qualquer obra de arte realizada por umbrasileiro é patrimônio nacional.Mariana decidiu passar no marchand para recolher ela própria suas obras e nãotinham sido vendidas. Na mesma época, na Rive Gauche, ao lado da Sorbone,estava sendo aberto Le Musée du Monde Arabe, uma construção suntuosa queabrigava todas as grandes contribuições dos árabes para a cultura mundial –mapas, poemas, quadros, músicas...Mariana passou na galeria, abraçou o marchand e colocou seus trabalhos em umtubo de transporte. Era outono e fazia um frio violento, o céu estava cinza e aspessoas vestidas com muito charme. Um cheirinho gostoso de pão quente aenvolveu e a levou até uma barraquinha tipicamente parisiense que vendiasanduíches na baguete acompanhados com copos de vinho tinto.Enquanto comia as delícias oferecidas por aquela barraca ao ar livre, um francêscomeçou a puxar conversa. Perguntou o que Mariana levava naquele tubo, elacontou que era uma artista plástica brasileira de descendência árabe edescobriu que seu interlocutor também era artista plástico e descendente deárabes.Entre os dois instalou-se imediatamente um clima de AH LAU SALA e ele contoua ela que no recém inaugurado museu do mundo árabe estava se realizandouma exposição com obras de descendentes de libaneses radicados na Françacom o tema” Pela Paz.” Ele a incentivou a ir até lá mostrar as gravuras quetinha em suas mãos e se apresentar ao curador como artista e tentar participarda exposição.O diretor ficou emocionado com sua adesão e como era brasileira, foi colocadaem uma categoria Hors Concours. Deu a ela o endereço de um amigo paraenquadrar as gravuras em caráter de emergência, de forma que as obras foramincorporadas à exposição no mesmo dia.A vernissage estava repleta de pessoas muito bem vestidas, algumas comvestidos longos adamascados e muitas jóias. Foi também servido um delicioso jantar, com música ao fundo, porque onde háuma comemoração entre árabes não faltam a música e a dança, típica que podeser a belly dance ou um dabque, uma popular dança folclórica em grupo semprepuxada por um homem com um lenço branco na mão incentivando os animadosmovimentos.Voltando ao hotel, Mariana recebeu uma ligação de sua mãe. Ligia estavacobrando a visita da filha ao novo museu sobre o qual ela tinha lido nos jornaisbrasileiros. Mariana respondeu que não apenas já conhecia o museu comoquatro de suas obras já estavam exposta lá.Mariana é uma artista que não foge ao padrão daqueles que criam arte. Amesma sensibilidade que os atrai para a arte os faz constantemente duvidar daqualidade de seu trabalho. Leonardo da Vinci, quase ao final da vida, costumavadizer ”Ofendi a Deus e à humanidade porque meu trabalho não alcançou o nível 39

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