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A narrativa épica
=A epopeia =
A. Génese da epopeia
O género épico remonta à Antiguidade grega e latina
Homero, Odisseia (Ulisses)
Ilíada (Aquiles)
Virgílio, A Eneida (Eneias)
modelo de Os Lusíadas
B. Definição
Trata-se de um género narrativo, em verso, destinado a celebrar feitos grandiosos, heroicos, fora do
comum, reais ou lendários, em estilo elevado (fundo histórico poetizado). O herói é tomado como o
representante de todo um povo
Características da narrativa: estrutura narrativa
 presença de uma ação
 desempenhada por personagens
 praticada num tempo e
 num espaço
 contada por um narrador
Característica próprias do género épico:
 estrutura interna
o proposição
o invocação
o dedicatória
o início da narração “in medias res”, com a subsequente analepse
o presença de profecias
o uso da mitologia greco-latina
 estrutura externa
o divisão em cantos, estrofes (oitavas)
C. Génese do poema épico de Camões
Porque é que em certa altura se justifica o aparecimento do género épico na literatura
portuguesa?
(durante a Idade Média existiam romances de cavalaria e canções de gesta)
“Os Lusíadas” enquadram-se no movimento geral do Renascimento e surgem da confluência de
duas linhas:
A. necessidade de se fazer renascer o género épico, género nobre da literatura clássica;
B. necessidade de glorificar, nessa forma, os feitos valorosos dos portugueses, desde a sua
origem até ao presente em que os descobrimentos assumem lugar de destaque, ações
susceptíveis de vencer a fama da Grécia e de Roma.
D. Provas da necessidade da imitação do género épico:
 tentativas de poesia de conteúdo histórico no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516);
 apelo de Garcia de Resende no Prólogo do Cancioneiro Geral;
 apelos de António Ferreira nas sua composições.
“E porque, Senhor, as outras cousas são em si tão grandes
que por sua grandeza não devo de tocar nelas”, dizia, esperava que outros o fizessem:
“para os que mais sabem se espertarem a folgar d’escrever e trazer à memória
os outros grandes feitos, nos quais não sou digno de meter a mão”.
Garcia de Resende Prólogo do Cancioneiro Geral
"(...)
Dos Céus ao novo canto
Heróico e generoso,
Nunca ouvido dos nossos antepassados
Neste sejam cantados
Altos Reis, altos feitos.
(...)”
António Ferreira, Ode I
“Quando será que eu veja a clara história
Do nome português por ti entoada.
Que vença da alta Roma a grã memória?”
Carta a António de Castilho
“O Português Império, que assim toma
Senhorio por mar de tanta gente,
Tanto bárbaro ensina, vence e doma;
Porque assim ficará tão baixamente
Sem Musas, sem esprito, que, cantando,
O vá do Tejo seu, ao seu Oriente?”
Carta a Pero Andrade de Caminha
Um facto heroico tinha logo reflexo na literatura. Mas trata-se de composições de âmbito
restritamente nacional, o que os classifica mais como poemas heroicos do que como poemas épicos.
Pelo contrário, Os Lusíadas alargam a atmosfera épica, pois aí está em causa não só um facto histórico
- a viagem - mas também todo o destino de um povo, contado por Vasco da Gama ao Rei de Melinde.
Na lírica, Camões manifesta a intenção de escrever uma epopeia primeiro a louvar os Noronhas,
havendo depois uma amplitude do tema.
O nascimento de D. Sebastião, depois da angustiante morte do pai, impulsionará Camões a escrever a
sua epopeia. Tem 30 anos e tinha atingido a plenitude da capacidade criativa.
Camões estava em condições de corresponder a este apelo devido à sua excepcionalidade humana,
cultural e artística.
E. A estrutura narrativa
1. O processo narrativo: as unidades do texto narrativo
2. A estrutura externa (influência clássica) e a estrutura interna
Estrutura
Externa
 10 cantos
 1102 estrofes
 estrofes de oito versos - oitavas
 versos decassílabos heroicos (acento rítmico na 6ª e 10ª sílabas)
 estrofes rimadas segundo o esquema : abababcc (cruzada e emparelhada)
Estrutura
interna
(regras do
género épico)
 Proposição (I, 1-3) - indicação da matéria do poema: história heroica do povo
lusíada, particularmente a empresa expancionista (viagem de Vasco da Gama
à Índia, que contribuiu para a unificação do mundo e para o progresso -
universalidade;
 Invocação (I, 4-5) - invocação das musas inspiradoras (Tágides)
 Dedicatória (I, 6-18) - dirigida a D. Sebastião
 Narração (I, 19- X, 156) - da ação central do poema:
o a viagem de Vasco da Gama à Índia;
o iniciada “in medias res” (a meio do seu curso - navegadores colocados
no “largo oceano”, na zona do canal de Moçambique).
o Viagem Belém-Moçambique narrada por V. da Gama num processo
de retrospectiva ou analepse
Estrutura
interna
Planos
narrativos
 Plano da Viagem (realidade) - C. I, II, V, VI, VII, VIII
 Plano dos Deuses (maravilhoso) - C. I, II, VI, IX,X
 Plano da História de Portugal - C. III, IV, VIII
 Plano das considerações do Poeta - finais dos cantos
Os planos são indissociáveis na obra desde o início da Narração
 a ação central d’Os Lusíadas é constituída pela associação de
dois planos narrativos: o da viagem e o dos deuses
Unidades
narrativas
menores
Episódios  Batalha do Salado e Inês de Castro (C. III)
 Batalha de Aljubarrota e Velho do Restelo (C. IV)
 Fernão Veloso e Adamastor (C. V)
 Os doze de Inglaterra (C. VI)
 S. Tomé (C. X)
Narrações
maravilhosas
 Consílio dos Deuses no Olimpo (C. I)
 Consílio dos Deuses no mar (C. VI)
 A Ilha dos Amores (C. IX e X)
Factores
de
unidade
1. Intriga dos Deuses, sempre presentes e num plano paralelo e
simultâneo da ação dos humanos
2. Processo dramático (ação com um objectivo: chegar à Índia)
3. Ação colectiva (herói colectivo: os portugueses)
F. A substância lírica, épica e trágica
Substância lírica
Embora a obra Os Lusíadas se caracterize como um poema épico, integrado no texto narrativo, perpassam ao
longo do texto aspetos com carácter lírico acentuado, nomeadamente:
1 - lirismo pessoal
2 - lirismo amoroso
3 - lirismo psicológico
4 - lirismo naturalista
1 - Lirismo pessoal – O poeta fala de si mesmo na 1ª pessoa
Confidência
de
sentimentos
 fraqueza de ser humano que sem a ajuda da musa não teria força para levar a cabo
a empresa épica (C. III, 1);
 nobreza e coragem das suas intenções;
 desgosto de ver que canta para gente surda ou endurecida (C. X, 145 / C. VII, 81)
 Camões inclui-se entre as personagens de “Os Lusíadas” (C. X, 155)
2 - Linha vectorial
do AMOR (visto
como um
DESTINO, muitas
vezes trágico, que
se impõe aos
homens)
AMOR
SUBLIME
. amor da Pátria
. elevado, que nobilita
. redentora ascensão
do espírito através do
corpo
. amor de Vénus pelos portugueses
(C. II, 33-41)
. amor de Maria pela Espanha cristã
(C. III, 102-106)
. fusão da Mitologia com a História na
Ilha dos Amores (C. IX, 52-84) -
espiritualização do amor corporal
AMOR
MISTO
. nobre integração do
corpo no amor
. Inês de Castro (C. III, 118-135)
BAIXO AMOR
“os fortes
enfraquece”
. degradante
submissão do amor ao
corpo
. Adamastor (C. V, 37-66)
. D. Fernando (C. III, 139) - amores ilícitos
3. Estudo
psicológico
. perfis femininos . Vénus (amante)
. Maria (esposa)
. Inês de Castro (mártir)
. atitude de súplica
. meiguice
. actividade
. abnegação
. episódio de Fernão
Veloso (V, 31-35)
. linha vectorial da aventura e do humor
. crítica à fanfarronice
4. Descrição de cenários naturais
. culto da Natureza
. valorização da observação
. episódio do Fogo de Santelmo - fenómeno meteorológico
. episódio da Tromba Marítima - fenómeno marítimo
(V, 18, 23)
. tempestade no Índico (VI, 70-84)
. Ilha dos Amores - descrição das belezas naturais da ilha: fauna
e flora (IX, 52-84)
Substância épica
1. FACTOS
GRANDIOSOS
. EMPRESA
DESCOBRIDORA
- linha vectorial
da VIAGEM
- pontos
geográficos
(mapa)
BELÉM
(Lisboa)
- narração de V. da Gama (1ª pessoa)
. despedida das naus
. episódio do Velho do Restelo (IV, 94-104)
. dificuldades
. contactos com fenómenos e povos novos
. episódio do Adamastor (V, 37-60)
MELINDE
(África
Oriental)
- narração da viagem desde a costa de Moçambique a
Melinde por Camões (3ª pessoa)
. intervenções dos deuses (traições, ciladas
preparadas)
. Melinde como porto de paz e segurança sugerido
por Júpiter
CALECUT
(Índia)
- porto de chegada
- descrição dos costumes e civilização da Índia
- diligências de V. da Gama junto às autoridades locais
- últimas traições de Baco
- regresso (VI, VII, VIII)
. GUERRA SANTA - episódio da Batalha de Aljubarrota
2. HERÓIS . guerreiros
. reis
. chefes
. descobridores
. apresentados por Paulo da Gama ao Catual
(D. Afonso Henriques, D. Nuno A. Pereira)
. Os Doze de Inglaterra (episódio narrado por Fernão Veloso
aos seus companheiros)
. os que se distinguiram no Oriente, exaltados
profeticamente por Tétis (Duarte Pacheco, D. Francisco de
Almeida, D. Afonso de Albuquerque)
. feitos dos
portugueses
- no mar - descobrimentos (Neptuno)
- na terra - guerra (Marte)
3. ELEMENTOS
DE EPOPEIA
Real -
Grandioso
. Mundo material
. Mundo moral
. realidade histórica
. realidade natural
. realidade política e moral
. vida interior dos heróis
Irreal -
Mítico
. Maravilhoso
pagão
-presença da
mitologia pagã
VÉNUS - encarna as forças
benignas, a proteção aos
portugueses (pedido a Júpiter,
livra as naus de perigo)
- símbolo da civilização
ocidental
BACO - incarna as forças
malignas, a oposição à viagem -
símbolo da civilização oriental
3. ELEMENTOS
DA EPOPEIA
Irreal -
Mítico
. Maravilhoso
pagão
- Funções . representação das forças naturais
e desconhecidas do homem
. função estética (adorno do
poema)
. engrandecimento da ação
(profecias)
. profetização e contemplação do
sistema planetário (função
simbólica)
. obedecer a uma regra do género
(o maravilhoso)
. assegurar a unidade interna da
ação
. Maravilhoso
cristão
cf. episódio da
tempestade;
chegada à Índia
- formação católica do poeta:
. exaltação da fé
. invocação da proteção divina pelo poeta e
pelos heróis da epopeia
. empresa descobridora vista como a realização
na Terra da obra de redenção de Cristo.
cf. “É Deus, mas o que é Deus, ninguém o
entende, que a tanto o engenho humano não se
estende...”
. Maravilhoso pagão (ficção mitológica) e realidade histórica
- Planos sobrepostos
MILAGRE (fusão do transcendente com o contingente - X, 82)
ESTILO GRANDILOQUENTE, SOLENE
Substância trágica
- conflito do Homem dominado pela força das paixões e do DESTINO
- luta do Homem contra os elementos e consequente triunfo sobre ele
LINHA DA OPOSIÇÃO (oposição da Natureza)
. cf. episódio da tempestade no Índico (VI, 70-79)
. cf. episódio do Adamastor - profecia dos males (V, 37-60)
. cf. episódio de Inês de Castro (III, 110-135)
G. A ideologia
1. Oposição passado / futuro  Passado - representado pelo Velho do Restelo
 Futuro - espírito de aventura dos portugueses
o observação de fenómenos naturais (curiosidade
científica)
2. Transcendência da viagem VIAGEM - universalidade / eternidade
 símbolo do progresso
3. Antropocentrismo
(conciliado com a Filosofia
cristã)
 a empresa humana com o núcleo do poema
 luta entre o Homem a e Natureza - Homem é vencedor
 Homem visto na sua unidade de ALMA e CORPO - importância
do corpo:
o episódio da Ilha dos Amores
o episódio do Adamastor ( transformação do corpo em
pedra)
o divinização do HOMEM, consagração heroica no episódio
da Ilha dos Amores (recompensas: amor e a
contemplação da máquina do mundo)
4. Lusitaneidade  glorificação épica do povo português
 unificação do povo português (empresa descobridora)
5. Aspectos medievais  intervenção do maravilhoso cristão (fé católica)
 exaltação do espírito de cruzada
 ideal cavaleiresco
 exaltação do HOMEM VELHO (D. Nuno Álvares Pereira)
6. Aspetos renascentistas  exaltação do HOMEM NOVO (o que luta contra os elementos,
que se imortaliza, que observa e experimenta)
 o Homem como cidadão universal
 condenação da guerra (excepto a “guerra santa”)
 intervenção do maravilhoso pagão
 valorização da beleza corpórea
 valorização da observação e experiência no conhecimento
humano
 estrutura e estética clássicas
H. Episódio da Ilha dos Amores, (C.X, 52, ...)
 importância na economia
narrativa
 fecho do poema – viagem de regresso a Portugal (C. IX e X)
 chave do poema – simbologia e ideologia
SIGNIFICADO
SIMBÓLICO E
ALEGÓRICO
 a Ilha dos Amores como prémio, a recompensa para os feitos valorosos e os
esforços realizados pelos nautas portugueses
1. os prazeres físicos (doces manjares, perfumes raros, frutos
suculentos, atos amorosos) - cf. est. 83
2. o conhecimento do mundo - cf. est. 88-89
3. o domínio pleno do planeta - cf. est. 86
 a Ilha dos Amores como o símbolo do conhecimento do amor perfeito, ideal,
princípio e centro da harmonia do mundo
 a Ilha dos Amores como o símbolo do progresso cultural e científico do
“conhecimento superior que vem da transformação do apetite em razão” -
LINHA DO SABER
o o conhecimento do futuro e a contemplação direta da unidade da Terra,
da “Máquina do mundo” representam o desenvolvimento cultural e
científico que advieram da empresa expansionista
 a Ilha dos Amores como o símbolo da dignificação épica dos heróis, da
divinização do Homem, da “consagração e transfiguração mítica dos heróis”
(Jorge de Sena) - o amor diviniza os Homens, dá-lhe os atributos da
divindade: domínio do tempo, da ciência e do espaço
 fusão do plano humano (nautas) com o plano divino (deusas) - simbolizada
no casamento entre os portugueses e as ninfas
DIVINIZAÇÃO – IMORTALIZAÇÃO
(Proposição: “E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando”)
I. Episódios d’Os Lusíadas
que são
quais existem no poema
finalidade
bélicos líricos simbólicos naturalistas mitológicos
pequenas
narrativas
de factos
reais ou
imaginários
. Batalha de
Ourique (III,
42-54)
. Batalha do
Salado (III,
107-117)
. Batalha de
Aljubarrota
(IV, 28-44)
. Formo-
síssima
Maria (III,
101-106)
. Morte de
Inês de
Castro (III,
118-135)
. Sonho
profético de
D. Manuel
(IV, 67-75)
. Velho do
Restelo (IV,
94-104)
. Adamastor
(V, 37-60)
. Fogo de
Santelmo (V,
18)
. Tromba
d’água (V,
19-22)
. A tempes-
tade (VI, 70-
91)
. Consílio dos
deuses no
Olimpo (I,
20-41)
. Consílio dos
deuses
marinhos (VI,
19-35)
. etc.
- embelezam a
ação, realçando as
características dos
portugueses
- conferem
variedade à ação,
quebrando a
monotonia
- tornando a leitura
do poema mais
agradável
J. Resumo dos cantos de Os Lusíadas
Canto I
Na abertura do poema, Camões propõe-se cantar “as armas e os barões” que “por mares nunca
dantes navegados / passaram ainda além da Taprobana” e os “reis que foram dilatando / a Fé, o
Império, e as terras viciosas / de África e de Ásia andaram devastando” além de quantos por “obras
valerosas / se vão da lei da morte libertando”. Dedica a sua obra a D. Sebastião depois de invocar
as Tágides e pedir-lhes que lhe deem “um estilo grandiloco e corrente”.
Diz ao rei que o seu poema supera todos os da Antiguidade, pois vai conseguir, com realidades e
verdades, aquilo que nenhum poeta antigo fora capaz de sonhar.
Entra na narração já quando os marinheiros, com ventos favoráveis, cortavam as ondas do Canal
de Moçambique. Entretanto, os deuses reunidos no “Olimpo luminoso” deliberam acerca do
destino dos arrojados lusos: Júpiter, Vénus e Marte declaram-se a favor da empresa; Baco é-lhes
hostil. Este, tomando a figura de um mouro, aconselha o régulo de Moçambique a destruir a frota
lusíada. Vencidos os mouros, ainda é tentada nova traição por meio de um piloto que lhes é
fornecido, traição de que nada resulta.
Canto II
Segue a armada para Mombaça e nova cilada esperava os portugueses. O rei daquela cidade
convida Vasco da Gama a desembarcar no porto. Dois condenados portugueses são encarregados
de colherem informações e deparam com Baco na figura de sacerdote cristão, convencendo-se
assim de que se encontravam em terra amiga. São salvos por Vénus e pelas nereidas que opõem “o
brando peito ao madeiro duro” da nau capitaina, salvando-a de triste fim. O Gama, ao ver o
milagre, agradece à Divina Providência.
A protetora da gente lusa vai, como uma seta, ao sexto céu e roga a Júpiter proteção para o seu
povo. O pai dos deuses vaticina, acalmando-a, os altos feitos dos lusitanos nas partes do Oriente e
logo manda Mercúrio a preparar a gente melindana para receber condignamente a armada.
Chegados à cidade de Melinde, o rei desta terra pede ao “ilustre Gama” que lhe narre a história do
seu povo.
Canto III
Vasco da Gama inicia a história de Portugal depois de traçar a situação geográfica do seu pequeno
país que, “dilatando a Fé”, deu “novos mundos ao mundo”: Luso, Viriato, Conde D. Henrique, D.
Teresa, D. Afonso Henriques, recontro de Valdevez, cerco de Guimarães, lealdade de Egas Moniz,
batalha de Ourique, origem das Quinas, várias conquistas de cidades aos mouros, vitórias de D.
Sancho I, D. Afonso II, destronamento deste, D. Sancho II, conquista do Algarve por D. Afonso III, D.
Dinis, D. Afonso IV e a batalha do Salado com a intervenção de Dona Maria de Portugal, morte de
Inês de Castro, D. Pedro, o Justiceiro, e D. Fernando, o Brando, cuja fraqueza o épico desculpa.
Canto IV
A História de Portugal continua: Vasco da Gama fala do Mestre de Avis e da batalha de Aljubarrota.
Surge-nos a figura de Nun’Álvares Pereira, o salvador da Pátria; Valverde; conquista de Ceuta; D.
Duarte e o cativeiro de D. Fernando, o Infante Santo; D. Afonso V toma algumas praças africanas;
D. João II organiza várias expedições por terra até às longínquas paragens do Oriente; o Indo e o
Ganges aparecem, em sonhos, a D. Manuel e mandam-no descobrir e conquistar a Índia; conselhos
em Montemor-o-Novo para uma decisão definitiva; preparativos da viagem; os adeuses em Belém
e a voz do velho do Restelo, “de aspeito venerando” a discordar de tal empresa - topos humanista
da saudade da idade de oiro com o horror da guerra aventurosa, o símbolo da política de fixação
defendida por alguns retrógrados daquele tempo e de todos os tempos ou ainda, se quisermos, a
sátira ao nosso tradicional pessimismo, à nossa arreigada e ainda atual propensão de dar sentenças
e de espalhar boatarias.
Canto V
Descreve a viagem pelo “líquido elemento” rumo ao Oriente com várias desgraças que a ele e aos
companheiros sucederam: Fogo de Santelmo; Tromba marítima; o mito do Adamastor a simbolizar
todos os horrores e perigos que os navegadores suportariam através do Tenebroso, esse gigante
metamorfoseado no Cabo da Boa Esperança (antes chamado das Tormentas), que vociferou
ameaças de vingança contra os que primeiro lhe devastassem os domínios; naufrágio de
Sepúlveda; escorbuto e, a contrastar com tudo isto, o episódio de Fernão Veloso que personifica a
alegria e a graça portuguesa no meio de tantos perigos e trabalhos “esforçados”.
Canto VI
Vasco da Gama termina a narração da História de Portugal ao rei de Melinde que, encantado, não
sabia que fazer-lhe. Segue rumo a Calecut, mas Baco prepara nova traição: desce ao palácio de
Neptuno a fim de incitar os deuses marinhos e provoca uma pavorosa tempestade que surgiu no
momento em que Veloso, para distrair o espírito de seus colegas, terminava de narrar o episódio
cavaleiresco dos Doze de Inglaterra. Mais uma vez o Gama pediu a proteção da “Divina Guarda” e
Vénus novamente conseguiu dominar os ventos. Calecut está à vista.
Canto VII
Camões louva a Nação Portuguesa pelo muito que fizera em prol da Cristandade e compara-a com
outras Nações, censurando-as; descreve a Índia e fala-nos de Moçaide que tão útil se mostrou aos
portugueses; o Gama visita o Samorim e o Catual visita a armada; Paulo da Gama descreve a este
as figuras dos heróis nacionais desenhadas nas bandeiras de seda.
Canto VIII
Camões continua a narrar a História de Portugal, servindo-se daquelas figuras heroicas: Luso,
Viriato, Conde D. Henrique, o primeiro Afonso, Egas Moniz, D. Fuas Roupinho e tantos outros. Mais
uma vez, e será a última, Baco, tomando a forma de Mafoma, aparece em sonhos a um “devoto
sacerdote” mouro e inspira-lhe ódio contra os lusitanos.
O sacerdote, apenas acordou, faz saber que os Portugueses são grandes inimigos, “sem rei, sem
leis humanas e divinas”. O Catual prepara-se para novas vinganças e, depois de prender o Gama e
soltá-lo em troca de mercadorias que este mandou vir das naus, pensa destruí-las.
Canto IX
E, para isso, retém dois feitores portugueses na cidade, até que cheguem umas turcas que
afundem as do Gama. Este, por sua vez, aprisiona alguns negociantes de pedrarias que tinham ido
às naus. A notícia desta prisão propala-se e o Samorim manda soltar os dois feitores. Vasco da
Gama regressa à Pátria e, no caminho, ele e os companheiros vão ter o prémio de tantos trabalhos
e fadigas: a Ilha dos Amores. Era justo que os portugueses, após feitos tão valorosos, fossem
transformados em semideuses e com as deusas se divertissem. Aqui reside a abóbada d’Os
Lusíadas e também aqui Camões desforra-se da Fortuna e suas contrariedades, apresentando-a
vencida pelo Amor.
Cantos IX e X
Levados pela deusa do Amor a um palácio, Tétis oferece-lhes um banquete. Uma ninfa profetiza
altos feitos que a gente lusa haveria de realizar por aquelas e outras paragens. Tétis, por sua vez,
conduz o Gama ao alto de um monte e descreve-lhe o Universo, segundo o sistema de Ptolomeu, e
nele os lugares onde os portugueses hão de realizar feitos heroicos. Despede-se e aqueles
embarcam para a Pátria. Chegada a Portugal.
Camões termina o seu poema, desanimado, e exorta D. Sebastião a que não ceda às
influências funestas de que está cercado, mas procure rodear-se de bons conselheiros,
prometendo voltar a pegar na pena para celebrar os seus altos feitos em terras do Norte de África.

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  • 1. A narrativa épica =A epopeia = A. Génese da epopeia O género épico remonta à Antiguidade grega e latina Homero, Odisseia (Ulisses) Ilíada (Aquiles) Virgílio, A Eneida (Eneias) modelo de Os Lusíadas B. Definição Trata-se de um género narrativo, em verso, destinado a celebrar feitos grandiosos, heroicos, fora do comum, reais ou lendários, em estilo elevado (fundo histórico poetizado). O herói é tomado como o representante de todo um povo Características da narrativa: estrutura narrativa  presença de uma ação  desempenhada por personagens  praticada num tempo e  num espaço  contada por um narrador Característica próprias do género épico:  estrutura interna o proposição o invocação o dedicatória o início da narração “in medias res”, com a subsequente analepse o presença de profecias o uso da mitologia greco-latina  estrutura externa o divisão em cantos, estrofes (oitavas) C. Génese do poema épico de Camões Porque é que em certa altura se justifica o aparecimento do género épico na literatura portuguesa? (durante a Idade Média existiam romances de cavalaria e canções de gesta) “Os Lusíadas” enquadram-se no movimento geral do Renascimento e surgem da confluência de duas linhas: A. necessidade de se fazer renascer o género épico, género nobre da literatura clássica; B. necessidade de glorificar, nessa forma, os feitos valorosos dos portugueses, desde a sua origem até ao presente em que os descobrimentos assumem lugar de destaque, ações susceptíveis de vencer a fama da Grécia e de Roma.
  • 2. D. Provas da necessidade da imitação do género épico:  tentativas de poesia de conteúdo histórico no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516);  apelo de Garcia de Resende no Prólogo do Cancioneiro Geral;  apelos de António Ferreira nas sua composições. “E porque, Senhor, as outras cousas são em si tão grandes que por sua grandeza não devo de tocar nelas”, dizia, esperava que outros o fizessem: “para os que mais sabem se espertarem a folgar d’escrever e trazer à memória os outros grandes feitos, nos quais não sou digno de meter a mão”. Garcia de Resende Prólogo do Cancioneiro Geral "(...) Dos Céus ao novo canto Heróico e generoso, Nunca ouvido dos nossos antepassados Neste sejam cantados Altos Reis, altos feitos. (...)” António Ferreira, Ode I “Quando será que eu veja a clara história Do nome português por ti entoada. Que vença da alta Roma a grã memória?” Carta a António de Castilho “O Português Império, que assim toma Senhorio por mar de tanta gente, Tanto bárbaro ensina, vence e doma; Porque assim ficará tão baixamente Sem Musas, sem esprito, que, cantando, O vá do Tejo seu, ao seu Oriente?” Carta a Pero Andrade de Caminha Um facto heroico tinha logo reflexo na literatura. Mas trata-se de composições de âmbito restritamente nacional, o que os classifica mais como poemas heroicos do que como poemas épicos. Pelo contrário, Os Lusíadas alargam a atmosfera épica, pois aí está em causa não só um facto histórico - a viagem - mas também todo o destino de um povo, contado por Vasco da Gama ao Rei de Melinde. Na lírica, Camões manifesta a intenção de escrever uma epopeia primeiro a louvar os Noronhas, havendo depois uma amplitude do tema. O nascimento de D. Sebastião, depois da angustiante morte do pai, impulsionará Camões a escrever a sua epopeia. Tem 30 anos e tinha atingido a plenitude da capacidade criativa. Camões estava em condições de corresponder a este apelo devido à sua excepcionalidade humana, cultural e artística.
  • 3. E. A estrutura narrativa 1. O processo narrativo: as unidades do texto narrativo 2. A estrutura externa (influência clássica) e a estrutura interna Estrutura Externa  10 cantos  1102 estrofes  estrofes de oito versos - oitavas  versos decassílabos heroicos (acento rítmico na 6ª e 10ª sílabas)  estrofes rimadas segundo o esquema : abababcc (cruzada e emparelhada) Estrutura interna (regras do género épico)  Proposição (I, 1-3) - indicação da matéria do poema: história heroica do povo lusíada, particularmente a empresa expancionista (viagem de Vasco da Gama à Índia, que contribuiu para a unificação do mundo e para o progresso - universalidade;  Invocação (I, 4-5) - invocação das musas inspiradoras (Tágides)  Dedicatória (I, 6-18) - dirigida a D. Sebastião  Narração (I, 19- X, 156) - da ação central do poema: o a viagem de Vasco da Gama à Índia; o iniciada “in medias res” (a meio do seu curso - navegadores colocados no “largo oceano”, na zona do canal de Moçambique). o Viagem Belém-Moçambique narrada por V. da Gama num processo de retrospectiva ou analepse Estrutura interna Planos narrativos  Plano da Viagem (realidade) - C. I, II, V, VI, VII, VIII  Plano dos Deuses (maravilhoso) - C. I, II, VI, IX,X  Plano da História de Portugal - C. III, IV, VIII  Plano das considerações do Poeta - finais dos cantos Os planos são indissociáveis na obra desde o início da Narração  a ação central d’Os Lusíadas é constituída pela associação de dois planos narrativos: o da viagem e o dos deuses Unidades narrativas menores Episódios  Batalha do Salado e Inês de Castro (C. III)  Batalha de Aljubarrota e Velho do Restelo (C. IV)  Fernão Veloso e Adamastor (C. V)  Os doze de Inglaterra (C. VI)  S. Tomé (C. X) Narrações maravilhosas  Consílio dos Deuses no Olimpo (C. I)  Consílio dos Deuses no mar (C. VI)  A Ilha dos Amores (C. IX e X) Factores de unidade 1. Intriga dos Deuses, sempre presentes e num plano paralelo e simultâneo da ação dos humanos 2. Processo dramático (ação com um objectivo: chegar à Índia) 3. Ação colectiva (herói colectivo: os portugueses)
  • 4. F. A substância lírica, épica e trágica Substância lírica Embora a obra Os Lusíadas se caracterize como um poema épico, integrado no texto narrativo, perpassam ao longo do texto aspetos com carácter lírico acentuado, nomeadamente: 1 - lirismo pessoal 2 - lirismo amoroso 3 - lirismo psicológico 4 - lirismo naturalista 1 - Lirismo pessoal – O poeta fala de si mesmo na 1ª pessoa Confidência de sentimentos  fraqueza de ser humano que sem a ajuda da musa não teria força para levar a cabo a empresa épica (C. III, 1);  nobreza e coragem das suas intenções;  desgosto de ver que canta para gente surda ou endurecida (C. X, 145 / C. VII, 81)  Camões inclui-se entre as personagens de “Os Lusíadas” (C. X, 155) 2 - Linha vectorial do AMOR (visto como um DESTINO, muitas vezes trágico, que se impõe aos homens) AMOR SUBLIME . amor da Pátria . elevado, que nobilita . redentora ascensão do espírito através do corpo . amor de Vénus pelos portugueses (C. II, 33-41) . amor de Maria pela Espanha cristã (C. III, 102-106) . fusão da Mitologia com a História na Ilha dos Amores (C. IX, 52-84) - espiritualização do amor corporal AMOR MISTO . nobre integração do corpo no amor . Inês de Castro (C. III, 118-135) BAIXO AMOR “os fortes enfraquece” . degradante submissão do amor ao corpo . Adamastor (C. V, 37-66) . D. Fernando (C. III, 139) - amores ilícitos 3. Estudo psicológico . perfis femininos . Vénus (amante) . Maria (esposa) . Inês de Castro (mártir) . atitude de súplica . meiguice . actividade . abnegação . episódio de Fernão Veloso (V, 31-35) . linha vectorial da aventura e do humor . crítica à fanfarronice 4. Descrição de cenários naturais . culto da Natureza . valorização da observação . episódio do Fogo de Santelmo - fenómeno meteorológico . episódio da Tromba Marítima - fenómeno marítimo (V, 18, 23) . tempestade no Índico (VI, 70-84) . Ilha dos Amores - descrição das belezas naturais da ilha: fauna e flora (IX, 52-84)
  • 5. Substância épica 1. FACTOS GRANDIOSOS . EMPRESA DESCOBRIDORA - linha vectorial da VIAGEM - pontos geográficos (mapa) BELÉM (Lisboa) - narração de V. da Gama (1ª pessoa) . despedida das naus . episódio do Velho do Restelo (IV, 94-104) . dificuldades . contactos com fenómenos e povos novos . episódio do Adamastor (V, 37-60) MELINDE (África Oriental) - narração da viagem desde a costa de Moçambique a Melinde por Camões (3ª pessoa) . intervenções dos deuses (traições, ciladas preparadas) . Melinde como porto de paz e segurança sugerido por Júpiter CALECUT (Índia) - porto de chegada - descrição dos costumes e civilização da Índia - diligências de V. da Gama junto às autoridades locais - últimas traições de Baco - regresso (VI, VII, VIII) . GUERRA SANTA - episódio da Batalha de Aljubarrota 2. HERÓIS . guerreiros . reis . chefes . descobridores . apresentados por Paulo da Gama ao Catual (D. Afonso Henriques, D. Nuno A. Pereira) . Os Doze de Inglaterra (episódio narrado por Fernão Veloso aos seus companheiros) . os que se distinguiram no Oriente, exaltados profeticamente por Tétis (Duarte Pacheco, D. Francisco de Almeida, D. Afonso de Albuquerque) . feitos dos portugueses - no mar - descobrimentos (Neptuno) - na terra - guerra (Marte) 3. ELEMENTOS DE EPOPEIA Real - Grandioso . Mundo material . Mundo moral . realidade histórica . realidade natural . realidade política e moral . vida interior dos heróis Irreal - Mítico . Maravilhoso pagão -presença da mitologia pagã VÉNUS - encarna as forças benignas, a proteção aos portugueses (pedido a Júpiter, livra as naus de perigo) - símbolo da civilização ocidental BACO - incarna as forças malignas, a oposição à viagem - símbolo da civilização oriental
  • 6. 3. ELEMENTOS DA EPOPEIA Irreal - Mítico . Maravilhoso pagão - Funções . representação das forças naturais e desconhecidas do homem . função estética (adorno do poema) . engrandecimento da ação (profecias) . profetização e contemplação do sistema planetário (função simbólica) . obedecer a uma regra do género (o maravilhoso) . assegurar a unidade interna da ação . Maravilhoso cristão cf. episódio da tempestade; chegada à Índia - formação católica do poeta: . exaltação da fé . invocação da proteção divina pelo poeta e pelos heróis da epopeia . empresa descobridora vista como a realização na Terra da obra de redenção de Cristo. cf. “É Deus, mas o que é Deus, ninguém o entende, que a tanto o engenho humano não se estende...” . Maravilhoso pagão (ficção mitológica) e realidade histórica - Planos sobrepostos MILAGRE (fusão do transcendente com o contingente - X, 82) ESTILO GRANDILOQUENTE, SOLENE Substância trágica - conflito do Homem dominado pela força das paixões e do DESTINO - luta do Homem contra os elementos e consequente triunfo sobre ele LINHA DA OPOSIÇÃO (oposição da Natureza) . cf. episódio da tempestade no Índico (VI, 70-79) . cf. episódio do Adamastor - profecia dos males (V, 37-60) . cf. episódio de Inês de Castro (III, 110-135)
  • 7. G. A ideologia 1. Oposição passado / futuro  Passado - representado pelo Velho do Restelo  Futuro - espírito de aventura dos portugueses o observação de fenómenos naturais (curiosidade científica) 2. Transcendência da viagem VIAGEM - universalidade / eternidade  símbolo do progresso 3. Antropocentrismo (conciliado com a Filosofia cristã)  a empresa humana com o núcleo do poema  luta entre o Homem a e Natureza - Homem é vencedor  Homem visto na sua unidade de ALMA e CORPO - importância do corpo: o episódio da Ilha dos Amores o episódio do Adamastor ( transformação do corpo em pedra) o divinização do HOMEM, consagração heroica no episódio da Ilha dos Amores (recompensas: amor e a contemplação da máquina do mundo) 4. Lusitaneidade  glorificação épica do povo português  unificação do povo português (empresa descobridora) 5. Aspectos medievais  intervenção do maravilhoso cristão (fé católica)  exaltação do espírito de cruzada  ideal cavaleiresco  exaltação do HOMEM VELHO (D. Nuno Álvares Pereira) 6. Aspetos renascentistas  exaltação do HOMEM NOVO (o que luta contra os elementos, que se imortaliza, que observa e experimenta)  o Homem como cidadão universal  condenação da guerra (excepto a “guerra santa”)  intervenção do maravilhoso pagão  valorização da beleza corpórea  valorização da observação e experiência no conhecimento humano  estrutura e estética clássicas
  • 8. H. Episódio da Ilha dos Amores, (C.X, 52, ...)  importância na economia narrativa  fecho do poema – viagem de regresso a Portugal (C. IX e X)  chave do poema – simbologia e ideologia SIGNIFICADO SIMBÓLICO E ALEGÓRICO  a Ilha dos Amores como prémio, a recompensa para os feitos valorosos e os esforços realizados pelos nautas portugueses 1. os prazeres físicos (doces manjares, perfumes raros, frutos suculentos, atos amorosos) - cf. est. 83 2. o conhecimento do mundo - cf. est. 88-89 3. o domínio pleno do planeta - cf. est. 86  a Ilha dos Amores como o símbolo do conhecimento do amor perfeito, ideal, princípio e centro da harmonia do mundo  a Ilha dos Amores como o símbolo do progresso cultural e científico do “conhecimento superior que vem da transformação do apetite em razão” - LINHA DO SABER o o conhecimento do futuro e a contemplação direta da unidade da Terra, da “Máquina do mundo” representam o desenvolvimento cultural e científico que advieram da empresa expansionista  a Ilha dos Amores como o símbolo da dignificação épica dos heróis, da divinização do Homem, da “consagração e transfiguração mítica dos heróis” (Jorge de Sena) - o amor diviniza os Homens, dá-lhe os atributos da divindade: domínio do tempo, da ciência e do espaço  fusão do plano humano (nautas) com o plano divino (deusas) - simbolizada no casamento entre os portugueses e as ninfas DIVINIZAÇÃO – IMORTALIZAÇÃO (Proposição: “E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando”) I. Episódios d’Os Lusíadas que são quais existem no poema finalidade bélicos líricos simbólicos naturalistas mitológicos pequenas narrativas de factos reais ou imaginários . Batalha de Ourique (III, 42-54) . Batalha do Salado (III, 107-117) . Batalha de Aljubarrota (IV, 28-44) . Formo- síssima Maria (III, 101-106) . Morte de Inês de Castro (III, 118-135) . Sonho profético de D. Manuel (IV, 67-75) . Velho do Restelo (IV, 94-104) . Adamastor (V, 37-60) . Fogo de Santelmo (V, 18) . Tromba d’água (V, 19-22) . A tempes- tade (VI, 70- 91) . Consílio dos deuses no Olimpo (I, 20-41) . Consílio dos deuses marinhos (VI, 19-35) . etc. - embelezam a ação, realçando as características dos portugueses - conferem variedade à ação, quebrando a monotonia - tornando a leitura do poema mais agradável
  • 9. J. Resumo dos cantos de Os Lusíadas Canto I Na abertura do poema, Camões propõe-se cantar “as armas e os barões” que “por mares nunca dantes navegados / passaram ainda além da Taprobana” e os “reis que foram dilatando / a Fé, o Império, e as terras viciosas / de África e de Ásia andaram devastando” além de quantos por “obras valerosas / se vão da lei da morte libertando”. Dedica a sua obra a D. Sebastião depois de invocar as Tágides e pedir-lhes que lhe deem “um estilo grandiloco e corrente”. Diz ao rei que o seu poema supera todos os da Antiguidade, pois vai conseguir, com realidades e verdades, aquilo que nenhum poeta antigo fora capaz de sonhar. Entra na narração já quando os marinheiros, com ventos favoráveis, cortavam as ondas do Canal de Moçambique. Entretanto, os deuses reunidos no “Olimpo luminoso” deliberam acerca do destino dos arrojados lusos: Júpiter, Vénus e Marte declaram-se a favor da empresa; Baco é-lhes hostil. Este, tomando a figura de um mouro, aconselha o régulo de Moçambique a destruir a frota lusíada. Vencidos os mouros, ainda é tentada nova traição por meio de um piloto que lhes é fornecido, traição de que nada resulta. Canto II Segue a armada para Mombaça e nova cilada esperava os portugueses. O rei daquela cidade convida Vasco da Gama a desembarcar no porto. Dois condenados portugueses são encarregados de colherem informações e deparam com Baco na figura de sacerdote cristão, convencendo-se assim de que se encontravam em terra amiga. São salvos por Vénus e pelas nereidas que opõem “o brando peito ao madeiro duro” da nau capitaina, salvando-a de triste fim. O Gama, ao ver o milagre, agradece à Divina Providência. A protetora da gente lusa vai, como uma seta, ao sexto céu e roga a Júpiter proteção para o seu povo. O pai dos deuses vaticina, acalmando-a, os altos feitos dos lusitanos nas partes do Oriente e logo manda Mercúrio a preparar a gente melindana para receber condignamente a armada. Chegados à cidade de Melinde, o rei desta terra pede ao “ilustre Gama” que lhe narre a história do seu povo. Canto III Vasco da Gama inicia a história de Portugal depois de traçar a situação geográfica do seu pequeno país que, “dilatando a Fé”, deu “novos mundos ao mundo”: Luso, Viriato, Conde D. Henrique, D. Teresa, D. Afonso Henriques, recontro de Valdevez, cerco de Guimarães, lealdade de Egas Moniz, batalha de Ourique, origem das Quinas, várias conquistas de cidades aos mouros, vitórias de D. Sancho I, D. Afonso II, destronamento deste, D. Sancho II, conquista do Algarve por D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso IV e a batalha do Salado com a intervenção de Dona Maria de Portugal, morte de Inês de Castro, D. Pedro, o Justiceiro, e D. Fernando, o Brando, cuja fraqueza o épico desculpa. Canto IV A História de Portugal continua: Vasco da Gama fala do Mestre de Avis e da batalha de Aljubarrota. Surge-nos a figura de Nun’Álvares Pereira, o salvador da Pátria; Valverde; conquista de Ceuta; D. Duarte e o cativeiro de D. Fernando, o Infante Santo; D. Afonso V toma algumas praças africanas; D. João II organiza várias expedições por terra até às longínquas paragens do Oriente; o Indo e o Ganges aparecem, em sonhos, a D. Manuel e mandam-no descobrir e conquistar a Índia; conselhos em Montemor-o-Novo para uma decisão definitiva; preparativos da viagem; os adeuses em Belém e a voz do velho do Restelo, “de aspeito venerando” a discordar de tal empresa - topos humanista da saudade da idade de oiro com o horror da guerra aventurosa, o símbolo da política de fixação defendida por alguns retrógrados daquele tempo e de todos os tempos ou ainda, se quisermos, a sátira ao nosso tradicional pessimismo, à nossa arreigada e ainda atual propensão de dar sentenças e de espalhar boatarias. Canto V Descreve a viagem pelo “líquido elemento” rumo ao Oriente com várias desgraças que a ele e aos companheiros sucederam: Fogo de Santelmo; Tromba marítima; o mito do Adamastor a simbolizar todos os horrores e perigos que os navegadores suportariam através do Tenebroso, esse gigante metamorfoseado no Cabo da Boa Esperança (antes chamado das Tormentas), que vociferou ameaças de vingança contra os que primeiro lhe devastassem os domínios; naufrágio de Sepúlveda; escorbuto e, a contrastar com tudo isto, o episódio de Fernão Veloso que personifica a alegria e a graça portuguesa no meio de tantos perigos e trabalhos “esforçados”.
  • 10. Canto VI Vasco da Gama termina a narração da História de Portugal ao rei de Melinde que, encantado, não sabia que fazer-lhe. Segue rumo a Calecut, mas Baco prepara nova traição: desce ao palácio de Neptuno a fim de incitar os deuses marinhos e provoca uma pavorosa tempestade que surgiu no momento em que Veloso, para distrair o espírito de seus colegas, terminava de narrar o episódio cavaleiresco dos Doze de Inglaterra. Mais uma vez o Gama pediu a proteção da “Divina Guarda” e Vénus novamente conseguiu dominar os ventos. Calecut está à vista. Canto VII Camões louva a Nação Portuguesa pelo muito que fizera em prol da Cristandade e compara-a com outras Nações, censurando-as; descreve a Índia e fala-nos de Moçaide que tão útil se mostrou aos portugueses; o Gama visita o Samorim e o Catual visita a armada; Paulo da Gama descreve a este as figuras dos heróis nacionais desenhadas nas bandeiras de seda. Canto VIII Camões continua a narrar a História de Portugal, servindo-se daquelas figuras heroicas: Luso, Viriato, Conde D. Henrique, o primeiro Afonso, Egas Moniz, D. Fuas Roupinho e tantos outros. Mais uma vez, e será a última, Baco, tomando a forma de Mafoma, aparece em sonhos a um “devoto sacerdote” mouro e inspira-lhe ódio contra os lusitanos. O sacerdote, apenas acordou, faz saber que os Portugueses são grandes inimigos, “sem rei, sem leis humanas e divinas”. O Catual prepara-se para novas vinganças e, depois de prender o Gama e soltá-lo em troca de mercadorias que este mandou vir das naus, pensa destruí-las. Canto IX E, para isso, retém dois feitores portugueses na cidade, até que cheguem umas turcas que afundem as do Gama. Este, por sua vez, aprisiona alguns negociantes de pedrarias que tinham ido às naus. A notícia desta prisão propala-se e o Samorim manda soltar os dois feitores. Vasco da Gama regressa à Pátria e, no caminho, ele e os companheiros vão ter o prémio de tantos trabalhos e fadigas: a Ilha dos Amores. Era justo que os portugueses, após feitos tão valorosos, fossem transformados em semideuses e com as deusas se divertissem. Aqui reside a abóbada d’Os Lusíadas e também aqui Camões desforra-se da Fortuna e suas contrariedades, apresentando-a vencida pelo Amor. Cantos IX e X Levados pela deusa do Amor a um palácio, Tétis oferece-lhes um banquete. Uma ninfa profetiza altos feitos que a gente lusa haveria de realizar por aquelas e outras paragens. Tétis, por sua vez, conduz o Gama ao alto de um monte e descreve-lhe o Universo, segundo o sistema de Ptolomeu, e nele os lugares onde os portugueses hão de realizar feitos heroicos. Despede-se e aqueles embarcam para a Pátria. Chegada a Portugal. Camões termina o seu poema, desanimado, e exorta D. Sebastião a que não ceda às influências funestas de que está cercado, mas procure rodear-se de bons conselheiros, prometendo voltar a pegar na pena para celebrar os seus altos feitos em terras do Norte de África.