Webdoc_UmaCasaOutra Vida

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  1. 1. Camila Rodrigues Graziele Storani Guilherme Ribas Juliana Olivieri Rafael Martini MEMORIAL DE PROJETO EXPERIMENTAL Web-documentário Uma Casa, Outra Vida UMESP - Universidade Metodista de São Paulo FAC – Faculdade de Comunicação Curso de Jornalismo São Bernardo do Campo, 2009
  2. 2. Camila Rodrigues Graziele Storani Guilherme Ribas Juliana Olivieri Rafael Martini MEMORIAL DE PROJETO EXPERIMENTAL Web-documentário Uma Casa, Outra Vida UMESP - Universidade Metodista de São Paulo FAC – Faculdade de Comunicação Curso de Jornalismo São Bernardo do Campo, 2009 Memorial de Projeto Experimental apresentado em cumprimento parcial às exigências do Curso de Jornalismo da Faculdade de Jornalismo e Relações Públicas da Universidade Metodista de São Paulo, para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social Habilitação Jornalismo. Orientador(a) do Projeto Experimental: Prof. Alexandre Carvalho Coordenadora dos PE’s: Profa. Dra. Verónica Aravena Cortes
  3. 3. DEDICATÓRIA Dedico este trabalho a meu pai Carlos Alberto Rodrigues e minha mãe Genelice da Silva Lima Rodrigues, por me darem todo o apoio necessário, seja emocionalmente ou financeiramente, durante os quatro anos de curso. Agradeço pela educação que recebi que me fez sensível para tratar todos de forma igual, e me ensinou a questionar a injustiça, buscando sempre a verdade. Camila da Silva Lima Rodrigues A escolha do jornalismo me afastou de casa e me aproximou da realidade. Finalizar o curso com a conclusão de um documentário social corresponde à realização do meu maior sonho profissional. Devo isso aos grandes motivadores da minha vida. Aqueles que entenderam minha ausência e driblaram a preocupação com confiança e apoio. Obrigada mãe, obrigada pai. Obrigada por me darem força, esperança e a dose certa de loucura para lutar por um mundo menos desigual. Graziele Storani Agradeço, acima de tudo, a Deus por ter me dado a oportunidade de chegar até aqui. Em segundo lugar, à minha família, por todo o apoio durante os anos de estudo. Às pessoas que me cercam e também me deram apoio e compreensão. Por fim, aos meus amigos feitos durante o curso, imprescindíveis para a minha formação. Guilherme Ribas Cezar Obrigada ao grupo pela competência e sinceridade durante esses meses de inspiração e muito trabalho. Já sinto saudade das ideias tecnológicas da Camis, da liderança da Grazi, da tranquilidade do Gui e, claro, das discussões com o Rafa. Obrigada à minha família pelo apoio diário e incondicional, sem ele não seria possível acreditar que vale a pena lutar. Se eu pudesse, faria tudo de novo. Juliana Thomaz Olivieri Dedico, primeiramente, este trabalho aos quatro amigos que fizeram das tardes "perdidas" de sol um aprendizado pro resto da vida.Não menos importante, quero agradecer aos meus pais que moram do outro lado do mundo, mas que vivem para mim e para o meu irmão. Rafael Martini
  4. 4. EPÍGRAFE “Repórter: historiador que escreve sobre o dia de hoje, na esperança de contribuir para um amanhã melhor”. Jornalista Ricardo Kotscho "Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver”. Amyr Klink "Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras" Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos
  5. 5. AGRADECIMENTOS Agradecemos a Deus, por ter nos dado força. Aos nossos familiares, que nos momentos de ausência dedicados ao estudo, sempre entenderam que a dedicação de hoje irá contribuir para um futuro melhor. Aos nossos colegas, professores, chefes e amigos, por apostarem em nós com paciência, dando apoio, carinho e compreensão. À uma lista incontável de pessoas. Todos aqueles que de alguma maneira fizeram parte da longa trajetória que nos trouxe até este início. A finalização de um curso é também o passo que nos dá asas para voar. Agradecemos aos sonhadores por nos incentivarem a olhar o mundo sob uma nova perspectiva. Ao jornalismo pelo qual somos apaixonados, que nos tornou sensíveis diante da realidade. Ao nosso querido orientador Alexandre Carvalho, por aguentar nossas brigas, ouvir nossas angústias, lembrar-se do projeto em alguns finais de semana, tirar nossas dúvidas, dar soluções e pelos inúmeros puxões de orelha que acabavam com nosso dia, mas nos faziam repensar o papel do jornalismo e dos jornalistas. Em especial, agradecemos a todos os moradores da Cidade Tiradentes que, ao colaborarem com o projeto, abriram suas casas e suas vidas em momentos tão delicados. Por fim, agradecemos uns aos outros, pois nos tornamos verdadeiros amigos no decorrer deste período.
  6. 6. SUMÁRIO Apresentação ......................................................................... 7 Tema ...................................................................................... 8 O espaço ................................................................................ 10 Objetivos ................................................................................ 12 Debates Questões éticas e responsabilidade social ................... 13 Trajetória de Pesquisa e de Realização do TCC Os percursos metodológicos ......................................... 18 As dificuldades encontradas ......................................... 19 Histórias da Cidade Tiradentes ..................................... 21 Linguagens ............................................................................ 25 Desenvolvimento Público alvo .................................................................... 27 Projeto Editorial .............................................................. 27 Descrição do Produto ..................................................... 28 Circulação e Lançamento ............................................... 28 Fontes e Entrevistados ................................................... 28 Custos do Projeto ........................................................... 29 Equipamentos utilizados ................................................. 30 Atividades Desenvolvidas ............................................... 30 Despesas do TCC .......................................................... 31 Avaliação Geral ....................................................................... 32 Referências Bibliográficas ...................................................... 34 Anexos Roteiro ............................................................................ 35
  7. 7. APRESENTAÇÃO Caminhar alguns metros além do limite de asfalto da Cidade Tiradentes fez com que o grupo de cinco estudantes de jornalismo em busca de uma análise do modo como a mídia representa a periferia mudasse, de imediato, a direção da câmera. Ao dobrar uma esquina do Distrito, que leva o título de maior conjunto habitacional da América Latina, a lente da câmera encontrou barro, barracos e esgoto a céu aberto. O lugar era o mesmo, a equipe não tinha ultrapassado os 15km² do território da Cidade Tiradentes. A impressão, no entanto, é de que pisávamos em outro mundo. Trinta e cinco quilômetros separam a Cidade Tiradentes do centro da cidade São Paulo. Muito maior, contudo, é a distância entre os moradores do asfalto e os habitantes do barro, separados geograficamente por menos de 100 metros. Qualquer ideia anterior de temática para o produto foi abandonada naquele instante. A diferença entre os muitos mundos de um mesmo Distrito ocupou as mentes, as reuniões do grupo e logo recebeu um nome – casa. A diferença básica que separava não apenas uma esquina da outra, mas, principalmente, uma qualidade de vida da outra, era o fato de ter ou não uma casa. Habitação foi o tema abordado. A partir daí, essa equipe passou a dedicar-se de corpo e alma na tentativa de aplicar o conteúdo que absorveu na Universidade para apresentar a diferença que faz, na vida de uma pessoa, ter uma casa para morar. Com o objetivo de retratar as principais questões afetadas pela falta de uma moradia regular, o documentário foi dividido em cinco capítulos. Saúde, segurança, educação, trabalho e autoestima são as páginas de um documentário que pretende, através de suas personagens, colocar o dedo em uma ferida conhecida, mas ignorada – o déficit de 7 milhões de moradias no território brasileiro.
  8. 8. TEMA Ter uma casa para morar, um espaço para estudar, para se divertir, para comer. Condições mínimas de saneamento básico. Fatores como esses são colocados na ponta do lápis quando uma pessoa procura um local para se estabelecer. Entretanto, há aqueles que sequer recebem um salário mensal. Para estes, a busca é apenas por um teto para se abrigar, nem que ele seja sustentado por madeiras velhas. O problema habitacional é uma questão tão antiga quanto a edificação das primeiras grandes cidades, e no Brasil, esse problema ganha ênfase e se agrava por conta do forte êxodo rural ocorrido no século passado, da estagnação do mercado imobiliário na década de 70 e da ausência de eficientes políticas públicas habitacionais. São muitos aqueles que lutam durante anos para conquistar a casa própria, para deixar de viver sob um teto de madeira, que mal suporta a chuva. Uma casa que recebe a visita constante do esgoto, que está à céu aberto do outro lado do barraco. A falta de privacidade também afeta as relações dos moradores das comunidades e o desenvolvimento social de quem ainda está formando sua personalidade. Em História da Vida Privada, 1987, Antonie Prost e Gérard Vincent retratam a forma de vida dos mais pobres no século XIX. “Pais e filhos viviam todos os atos da vida cotidiana às claras. A toalete se fazia necessariamente sob as vistas dos próximos, que desviavam o olhar quando a ocasião pudesse chocar o pudor”. A cena se repete na primeira década dos anos 2000 na maior cidade do Brasil. Segundo o IBGE, as favelas são aglomerados de moradias estruturalmente inadequadas, localizadas em morros, fundos de vales, em faixas de córregos, mangues, regiões alagadiças, ou em condições topográficas de difícil aproveitamento. São construídos com madeira velha, zinco, plástico e papelão ou, mais recentemente, em alvenaria, em meio às áreas públicas ou particulares, sem regulamentação e não apresentam infraestrutura adequada. Em 1970, apenas 1% da população da Grande São Paulo vivia em favelas. Em 2001, ela havia dado um salto, para nada menos de 20%.
  9. 9. Para essas pessoas, o dia em que conseguem a chave da casa própria não representa simplesmente a aquisição de um imóvel, mas a possibilidade de não conviver mais com a imundície, ou a inacessibilidade, por exemplo, para ambulâncias e caminhões de distribuição de água. Para Pierre Bourdieu em Gostos de classe e estilos de vida, 1994, a relação entre educação, linguagem e acesso a bens materiais, se une e forma um conjunto de noções que influenciam e determinam os indivíduos de um mesmo espaço social. Ao caminhar por um bairro periférico da cidade de São Paulo, percebe-se que no mesmo território coexistem ao menos dois grupos que vivem em condições bem distintas: moradores de conjuntos habitacionais, criados com iniciativa pública, e os que vivem nas favelas (ou comunidades) - os “subnormais”, como define o IBGE. Pierre Bourdieu em seu livro La Distinción, 1999, faz uma análise sobre a lógica da diferença baseada nos estilos de vida. Segundo o pensador, as diferenças entre os estilos de vida se evidenciam no momento em que as necessidades relativas às classes sociais se impõem, ou seja, este princípio envolveria os indivíduos também quanto às suas aspirações, fazendo com que seus ideais de alcance e posse de bens e “status” sejam sempre projetados para os padrões da classe social “acima” da sua, o que faz com que considerem insuficiente sua capacidade de aquisição. Viver em um local que não foi invadido deixa o indivíduo mais tranquilo, sabendo que dessa forma, ele não pode ser despejado a qualquer momento sem ter para onde ir. Ter um endereço é imprescindível na hora de preencher a ficha de inscrição para uma vaga de emprego. Ter um espaço para uma mesa dentro de casa, onde uma criança possa estudar, incentiva na mesma intensidade que desanima ser obrigado a ler um livro sujo de barro colocado sobre um pedaço de madeira, no meio da rua. Essas e outras percepções nortearam a pesquisa e desenvolvimento deste projeto. A periferia precisa ser vista e seus problemas ressaltados e discutidos para que haja mudança. Questionar o problema habitacional e enfatizar a necessidade de morar, ter uma casa, além de ressaltar o desafio das políticas públicas e a necessidade do acesso à moradia adequada à população e entender a subjetividade de ter uma casa são os alicerces que sustentam a proposta deste web-documentário.
  10. 10. O ESPAÇO A Cidade Tiradentes é um distrito de 15 km², que corresponde a cerca de 5% do território da cidade de São Paulo. Está localizada no extremo leste da capital, a 35 quilômetros da Praça da Sé - marco zero da cidade. Faz divisa ao norte com Guaianases, ao sul com São Mateus, a leste com Itaquera e a oeste com o município de Ferraz de Vasconcelos. Antes da Lei nº 13.399, de 1 de agosto de 2002, na qual foi criada a Subprefeitura Cidade Tiradentes, o Distrito pertencia à Administração Regional de Guaianases. Segundo informações da subprefeitura local, a Cidade Tiradentes abriga o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina, com cerca de 40 mil unidades. A maior parte foi construída na década de 1980 pela COHAB (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo), CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) e por grandes empreiteiras, com o apoio do extinto BNH (Banco Nacional de Desenvolvimento). O bairro foi planejado como um grande conjunto periférico e monofuncional do tipo “bairro dormitório” para deslocamento de populações atingidas pelas obras públicas, assim como ocorreu com a Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. No final da década de 1970, o poder público iniciou o processo de aquisição de uma gleba de terras situada na região, que era conhecida como Fazenda Santa Etelvina, então formada por eucaliptos e trechos da Mata Atlântica. Prédios residenciais começaram a ser construídos, modificando a paisagem. O local começou a ser habitado por enormes contingentes de famílias, que aguardavam na “fila” da casa própria. Além da vastidão de conjuntos habitacionais, que formam a chamada “Cidade Formal”, existe também a “Cidade Informal”, constituída por favelas e loteamentos habitacionais clandestinos e irregulares. As áreas ocupadas pela população da “Cidade Informal” são lacunas deixadas na construção dos prédios dos conjuntos populares; ocupações nas bordas dos conjuntos e também de expansão da mancha urbana. A subprefeitura estima que 25% da área do bairro é ocupada de forma irregular; 5% ficam por conta das favelas.
  11. 11. Segundo levantamento feito pelo Estado, com base no banco de dados da Secretaria Municipal da Habitação (Sehab), existe 1636 favelas na Capital, o que soma o número de 1,3 milhões de pessoas. A estimativa é que o número de pessoas que vivem nas comunidades cresce 3,7% ao ano. A Cidade Tiradentes possui uma população de aproximadamente 360 mil habitantes, de acordo com o último levantamento feito pela subprefeitura do distrito, em 2009. este número pode ser maior, ao passo que somam-se aos conjuntos habitacionais 12 favelas. “Tio Pac”, forma como o líder comunitário Cláudio é conhecido na região, calcula que a população local chegue a 1 milhão de pessoas. A identidade dos moradores está diretamente ligada ao processo de constituição do bairro, feita sem um planejamento pré-estabelecido, que levasse em conta necessidades básicas. Muitos foram para a Cidade Tiradentes em busca da realização do sonho da casa própria, embora boa parte tenha se deslocado a contragosto, na ausência de outra opção de moradia. Francisca Alves, uma das moradoras da região, fala da dificuldade ao migrar do nordeste para cá. “As pessoas acham que vindo pra cá vão ter uma vida melhor, mas acabam sendo ridicularizados pelos outros”, lamenta. Ela reclama também do assistencialismo dos políticos, que só demonstram interesse pelos problemas locais em períodos de eleição. O fato de não terem encontrado no local uma infraestrutura adequada às suas necessidades e da região oferecer escassas oportunidades de trabalho fez com que passassem a ter Cidade Tiradentes como bairro dormitório. O cadeirante Galdino mora na região desde o início do crescimento do bairro, e já chegou a morar na parte sem asfalto. A dificuldade de se locomover em meio à lama que se formava em dias de chuva é a lembrança mais marcante para ele. “Ter um espaço onde você sabe que suas coisas não vão molhar, que a água não vai passar pelo papelão, é muito bom”, afirma o morador do bairro, que hoje vive em uma casa de alvenaria.
  12. 12. OBJETIVOS Objetivo Geral O presente projeto de web-documentário se dispõe, contudo, a gerar um produto que retrate algumas das diversas influências causadas na vida de um indivíduo pelo fato de ter uma habitação própria ou morar em um barraco construído em terreno invadido, cercado pela falta de saneamento básico, higiene e outras mazelas. Objetivos Específicos - Mostrar, através de histórias de moradores da periferia de São Paulo, que o tipo de habitação de um indivíduo influencia questões como conquista de um emprego, condições de estudo, segurança e saúde e até na auto-estima; - Provocar no público a reflexão sobre todos esses valores que estão embutidos em se possuir um endereço - fatores que para tantos são corriqueiro e acabam passando despercebidos; - Através do formato multimidiático, dar voz para que também pessoas ligadas diretamente à população que vive em favelas discorram sobre o tema.
  13. 13. DEBATES Questões éticas e responsabilidade social Apesar de ser um direito reconhecido como essencial na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal do Brasil, a habitação segue como um fator preocupante no país, um “buraco” que contribui para o aumento da exclusão social e da pobreza. Nós imaginávamos o que encontraríamos na Cidade Tiradentes, mas certamente cada um teve de despir-se dos próprios “pré-conceitos” para conseguir olhar e enxergar as particularidades daquele lugar e dessa forma conseguir transmiti-las através de um documentário. Não é apenas na Cidade Tiradentes que poucos metros separam moradores de barracos e moradores de casas e apartamentos. O problema da habitação é latente em todo o país. Segundo o arquiteto urbanista Kazuo Nakano, que entrevistamos no decorrer do projeto, atualmente o Brasil apresenta um déficit habitacional de sete milhões de moradias. Quando decidimos que nosso objeto de pesquisa seria a Cidade Tiradentes, ouvimos de parentes e amigos que estávamos loucos. Ao perceberem que não desistiríamos, mesmo frente a problemas como distância, dificuldades de deslocamentos com equipamentos e profissionais da universidade e muitos finais de semana reservados para gravações, nos deram um conselho: “cuidado”. Tínhamos um frio na barriga ao pensar que, entrando em favelas, poderíamos encontrar traficantes e assaltantes. Lidar com a ética é um exercício inerente a toda profissão e não seria diferente com o jornalismo. Desde o início fomos alertados por líderes comunitários sobre o possível aval que precisaríamos receber por parte dos traficantes para entrar e sair com a câmera da favela. O documentário nunca teve como objetivo falar, mostrar ou questionar o tráfico de drogas, portanto, acreditávamos que bater de frente com os “donos” do lugar seria evitado. De fato, não tivemos sérios problemas. As conversas com os traficantes marcaram algumas de nossas idas à Cidade Tiradentes, e, em especial à favela Jardim Maravilha, a maior das treze favelas que encontramos no distrito.
  14. 14. Muitas vezes, tivemos de deixar claro o que estávamos fazendo ali, pedindo, nas entrelinhas das conversas, uma sutil autorização ao nosso interlocutor – traficante ou qualquer outro morador que se aproximasse questionando a presença de cinco jovens universitários equipados com seus aparatos de gravação. A maior aproximação com os traficantes não foi das mais fáceis. Depois de sermos olhados e termos nossos passos medidos por eles, resolvemos nos aproximar. Pedimos informações gerais a eles com a intenção de dar espaço para que perguntassem o que quisessem. E eles perguntaram. Fomos questionados sobre o trabalho nas entrelinhas da conversa e não tivemos problemas depois de explicar que se tratava de um trabalho de conclusão de curso sobre moradia na Cidade Tiradentes. Submeter nossa atividade no local ao gosto dos donos do tráfico foi algo que por instantes nos deu a impressão de ter nossa liberdade de imprensa roubada. Embora fosse um limite diferente do imposto pelo DPI (Departamento de Imprensa e Propaganda) de Getúlio Vargas, representava um limite discreto, um limite sutil, mas que sabíamos não poder ultrapassar. Não era o nosso objetivo falar sobre o tráfico local e, por exemplo, o quanto ele compromete o futuro das crianças da favela, que desde cedo deixam a escola para se envolver com o negócio que mais os aproxima da possibilidade de ser reconhecido e admirado. No entanto, a sensação de ter uma linha limite a partir da qual não podíamos apontar nossa câmera foi algo marcante. A sensação de excluir uma parte da realidade causou, com freqüência, o desconforto de estar escondendo algo de nosso receptor. Tivemos, por vezes, a incômoda impressão de ferir a ética ao apagar uma parte da realidade antes de apresentá-la a nosso telespectador. A solução para acabar com o conflito foi encarar a nossa própria limitação. Estávamos em uma encruzilhada. Ou enfrentávamos o tráfico e corríamos o risco de não transmitir nenhuma parte da realidade ao público ou nos submetíamos à condição imposta e focávamos em levar parte da realidade (as mazelas da habitação que são, ao nosso modo de ver, de interesse público). Tratar de uma questão essencial como a moradia é uma forma de responsabilidade social e, como jornalistas em formação, acreditamos que
  15. 15. podemos contribuir de forma efetiva nesse debate através de nosso web- documentário. Talvez, qualquer pessoa consiga perceber que há diferenças entre quem mora num barraco e quem mora numa casa. Entretanto, compreender essas diferenças, esmiuçá-las, entender as consequências da falta de saneamento básico, da dificuldade no alcance de um emprego, na segurança do dia a dia, na rotina de uma criança que chega suja à escola, na auto-estima de um morador que por mais que limpe sua casa tem de conviver com cheiro de esgoto é uma abordagem que ainda não vimos retratada. Esse projeto foi pensado desde o início como uma causa social. Prova disso é que o grupo não é formado por alunos que trabalharam juntos durante os anos de faculdade, mas sim por uma equipe que se encontrou num objetivo em comum - gravar um documentário que despertasse o debate de uma questão social. Apesar de não termos nos formado ainda, sabemos que, como jornalistas, iremos, no decorrer da vida, desenvolver nosso trabalho dentro de uma empresa privada, mas nem por isso precisamos deixar de lado nossa atividade social, que visa um bem público e de interesse público - a melhoria da sociedade como um todo. Para colocar, através de nosso documentário, o público mais próximo da chocante realidade da habitação brasileira tivemos, sim, que seguir as ordens do tráfico e restringir nossa abordagem de segurança à boca dos personagens, que se propunham a falar um pouco sobre o sistema, a crise de segurança que o tráfico cria para os moradores. Mesmo sem nossa vontade, éramos intrusos e, portanto, tivemos que respeitar as regras. Ao longo dos dias de gravação, as próprias fontes, moradores do local, se incumbiam de alertar a equipe sobre a proximidade dos becos e “bocas” do tráfico, estava ali o modo de transmitir a outra parte da realidade que tivemos de deixar de lado. O pedido de “por favor, desligue a câmera, não quero falar aqui” se repetiu na boca de mais de um entrevistado que, deixava transparecer nos olhos o medo de que “os donos” pensassem que ele estava envolvido em algum tipo de denúncia do comércio paralelo que se faz ali. Ali estava a nossa linguagem, o nosso modo de dizer que aquelas pessoas sentem medo, que aquelas pessoas não dormem à noite com medo que o filho se envolva com o tráfico. Pessoas como a personagem Carla que ao contar seus medos, dribla
  16. 16. os vigias que observam a entrevista e conta “eu tenho medo de rato, mas também tenho medo de morrer porque aqui, se você fala demais, você morre”. Intimidade e certo sentido de cumplicidade foram criados com algumas fontes que tinham a liberdade, como Carla teve, de em um dia de filmagens pedir para que parássemos de gravar, pois o namorado dela era “bandido” e “estava de olho”. Momentos como esse nos fizeram parar para analisar até que ponto o envolvimento com as fontes ia ao encontro de uma conduta ética. Mais do que nos importar com a fonte, nós estávamos ali desesperados com o fato de que algo acontecesse com Carla por nossa culpa, por nosso documentário. O envolvimento com Bruno, um garotinho de quatro anos, também foi forte. Nos envolvemos além da conta com o menininho que passa as tardes brincando no córrego de esgoto que passa atrás do barraco onde mora. Se há, de certo, um tema em que nossa conduta ética se tornou questionável foi na relação com as fontes. Não conseguimos tratar a fonte como a teoria ética indica – fonte de informação – eles se tornaram parte de nossos dias, de nossas lembranças quando chegamos em casa depois de um dia passado entre as vielas da favela. Mais do que pessoas que entrevistamos a fim de representar a triste realidade de parte da população brasileira, eles foram para nós indivíduos repletos de particularidades, carências, personalidade. Não se encaixaram em nenhuma metonímia, não conseguimos somente utilizar a parte para representar o todo. Acreditamos que ao assistir ao nosso documentário, o telespectador terá a noção do todo, do problema geral de habitação, mas as lembranças do banho que a mãe Rose deu no menino Bruno, no tanque que a família tem do lado de fora do barraco, jamais sairão de nossas cabeças. Por momentos pensamos e pensaremos, como nossos receptores, nos muitos Brunos espalhados pelos becos de todas as favelas brasileiras, mas Bruno, o nosso Bruno, jamais deixará de ser o Bruno para cada um de nós. O que pudemos constatar nas mais de quinze vezes que fomos à Cidade Tiradentes, colocar em prática o jornalismo que aprendemos em sala de aula é que muito da ética discutida na teoria sofre algumas distorções com o dia a dia da profissão. Pedimos permissão a traficantes para poder gravar, nos apegamos a nossas fontes, nos envolvemos demasiadamente com a realidade que pretendíamos apenas retratar. Acreditamos, no entanto, que se alguma de
  17. 17. nossas atitudes for considerada antiética, ela foi tomada com a intenção de cumprir o papel a que nos propomos ao escolher este curso – levar ao público informações que lhes são de interesse.
  18. 18. TRAJETÓRIA DE PESQUISA E DE REALIZAÇÃO DO TCC Os percursos metodológicos Até alcançar o porto da habitação, o barco do nosso grupo passou por algumas tempestades e contratempos. A ideia inicial era falar sobre pessoas que recuperam suas vidas através do trabalho com o lixo, um tema que nos comoveu e envolveu por alguns dias. Menos de uma semana depois, a ideia se desenvolveu e chegamos à dignidade. Esse seria o tema. Falaríamos então sobre a recuperação da dignidade através do trabalho, o trabalho no lixo. Falar de dignidade era algo inovador e gostávamos disso, mas os professores não. Com a montagem do pré-projeto de tcc, sentimos o tamanho da dificuldade de representar um tema subjetivo como dignidade. O artigo 5º da Constituição garante a “dignidade da pessoa humana”, mas não especifica o que seria a tal dignidade. E ninguém sabia especificar. Falávamos em alimentação, saúde, educação etc. Mas não era o caminho. Pessoas com déficit em tudo isso poderiam ainda sentir-se dignas. Deixamos então o cais da dignidade, ele era fundo demais e corríamos o risco de cometer enganos. Foi nesse momento que decidimos tratar da realidade. Depois de uma palestra sobre Mídia e Violência, o grupo estabeleceu contato com um líder comunitário e fundador de uma ONG no bairro Cidade Tiradentes, o Tio Pac. Praticamente no momento de entrega da primeira versão do pré-projeto, nós tínhamos um tema definido. Era o que pensávamos. Na verdade, a única coisa certa que tínhamos era o lugar. O que procuraríamos lá, de início, era uma crítica. Uma crítica dos moradores da periferia sobre o modo como a mídia os representava. Queríamos dar espaço para que eles contassem como se representariam. O primeiro semestre foi, em grande medida, recheado por essa discussão. Assim como a conclusão de nosso pré-projeto – “Periferia - o olhar de quem vive e não de quem assiste”. Reuniões com o nosso orientador nas férias foram decisivas, mas faltava algo. Quando voltamos à Cidade Tiradentes, em meados de agosto ficou claro o que faltava. Estamos fazendo o caminho contrário. Estávamos saindo de
  19. 19. nossas reuniões com uma forma e tentando encaixar os moradores da CT em nosso molde, quando, na verdade, eles tinham um formato próprio e o que nos cabe, como jornalistas, é mostrar isso. Nesse momento, de olhos abertos e sem pré-planos, nos despimos de nossos pré-conceitos, e pudemos nos deparar com “a diferença”. Uma diferença que esteve ali todo o tempo, mas simplesmente nós não tínhamos permitido olhar porque estávamos preocupados em pré-definir, em pré-planejar e deixamos de olhar. “A diferença” era gritante quando atravessávamos uma rua e saímos dos prédios da COHAB e CDHU, entrando em uma das 13 favelas que a Cidade Tiradentes tem. Essa diferença finalmente nos chamou a atenção e compreendemos que o “morar” é o fator que mais contribui para que exista a diferença. Ter um endereço, ter acesso a saneamento básico, ter autoestima e amor pelo lugar onde se mora tem muito a ver com a possibilidade de chamar o local onde se vive de “casa” e não de “barraco”. Foi assim que chegamos ao tema habitação. Mais do que colocar o dedo na ferida da moradia em nosso país, queremos mostrar a total diferença que faz para uma pessoa ter onde morar. Longe de ser ideal, os conjuntos habitacionais do governo, básicos como são, promovem um estilo de vida diferenciado para as famílias. A partir da definição do tema nossas vidas seriam modificadas e ainda nem sabíamos. Frequentar favelas, estabelecer contato com traficantes, segurar o choro diante de uma criança que, em suas maos, segurava a nossa máquina fotográfica, e se desculpava por nao encontrar nada bonito em sua casa para fotografar, foram fatos que modificaram mais do que a vida acadêmica dos cinco estudantes de jornalismo que passaram a ser chamados pelos professores e pela turma da sala de “grupo da periferia”. As dificuldades encontradas Antes de sermos encontrados pelo tema habitação, a principal dificuldade do grupo foi enxergar a temática, sentir o que queríamos falar e nos permitir retratar. Desde que abraçamos o tema habitação e passamos a ocupar
  20. 20. nossos finais de semana com visitas aos prédios e favelas da Cidade Tiradentes, nossa dificuldade mudou de perfil. A dificuldade agora era olhar para a realidade. Era sentir a dor de ver uma criança brincando de jogar pedra no córrego infestado de esgoto que passa atrás do barraco onde vive. Era lidar com o medo de perder. Medo de perder fontes que falaram demais ao revelar a dura realidade da lei paralela que governa as favelas. Pequenos conflitos e medos permearam também nossa rotina na Cidade Tiradentes. O maior deles e que nos chamou a atenção foi o medo do tráfico e a revolta de ter de nos explicar e pedir permissão aos “donos” do lugar, provando sempre que estávamos falando de habitação e não do comércio paralelo desenvolvido por eles. Tínhamos de deixar escapar, pelas entrelinhas da conversa, com quem nos procurava para questionar nossa presença ali, que nosso foco era a moradia e os moradores. Não tivemos grandes problemas, mas o frio na barriga e a sensação de ser vigiado acompanhavam o grupo em cada passo dado pelas vielas e becos do Jardim Maravilha. Apesar da insegurança e medo de representar ameaça aos traficantes, nossas dificuldades foram além dos desafios de gravação, o que engloba a presença do tráfico. As adversidades superaram o fato do nosso objeto de estudo se localizar a 30 km de nossa universidade, era mais que isso. A dificuldade já não era mais deixar de passar os finais de semana com a família e os amigos. A dificuldade foi além do fato de termos assumido o papel de cinegrafistas, já que nossos horários de gravação não competiam com o cronograma da equipe disponibilizada pela faculdade. A dificuldade foi voltar para casa depois de passar um dia assistindo a cenas como as descritas acima e notar que não podíamos resolver a vida daquelas pessoas. A dificuldade maior foi saber que um problema de tamanhas dimensões como é o da habitação é tratado como banalizado e não merece destaque nas pautas diárias dos jornais assim como não ganha espaço no Congresso Nacional. A dificuldade foi nos manter na posição de jornalistas, de historiadores, da realidade. “Repórter é o historiador que escreve sobre o dia de hoje, na esperança de contribuir para um amanhã melhor”, definiu Ricardo Kotscho. Tivemos problemas para entender que o máximo que podíamos era escrever,
  21. 21. retratar, capturar a realidade daquelas pessoas e levar para os receptores de nosso documentário. Para aceitar isso, nos agarramos à ideia de que chamando a atenção das pessoas para as precariedades da habitação, contribuímos de certo modo para aumentar as chances das autoridades darem a atenção que o assunto merece. Histórias da Cidade Tiradentes A idéia do grupo inicialmente era determinar datas e horários regulares para as gravações que, por questões profissionais de todos, deveriam aconteceram aos finais de semana. Nem tudo saiu como planejado, nossa surpresa foi encontrar personagens inesperados literalmente “no meio do caminho”, como o morador da comunidade, Jorge da Silva. No último dia de gravação na Cidade Tiradentes, logo ao entrar na favela para gravar algumas imagens que faltavam, escutamos um homem gritar: “Vocês estão gravando documentário?”. Fomos caminhando em direção a ele e alguém respondeu positivamente. O homem continuou “Sobre o que?”. “Habitação”, respondeu uma integrante do grupo, e continuou “Queremos mostrar as dificuldades em vários aspectos de quem tem uma moradia numa comunidade”. E o homem respondeu: “Isso é muito importante, pois aqui vivemos um impasse sem saber até quando poderemos voltar pra casa em paz e encontrar nossa moradia, que mesmo não tendo as melhores condições, é nossa”. A partir daí Jorge já era nosso mais novo personagem. Uma conversa rápida, três minutos depois a câmera ligada e em instantes estávamos no quintal dele, entrando na vida de mais um morador do Jardim Maravilha. Algumas foram as discussões até decidirmos que seríamos nós mesmos os cinegrafistas, já que a identidade que conseguiríamos passar a quem assistisse poderia ser mais relacionada à nossa percepção, ao nosso olhar. Essa decisão foi norteada também pelo fato de estarmos dentro de uma comunidade, pois além dos cinco integrantes precisaríamos levar um cinegrafista e um assistente, o que chamaria a atenção demasiadamente. Além disso, teríamos horários mais restritos saindo com a equipe da universidade e
  22. 22. naquele momento estávamos mais tendenciosos à liberdade do que a regras e horários. Estar com a câmera na mão foi, por algumas vezes, um exercício de paciência (por falta de prática) e uma aprendizagem de controle emocional, quando, por exemplo, durante uma entrevista, a mãe de quarto filhos Cristiane Ferreira, começou a chorar dizendo que “nenhuma mãe quer ver os filhos morando nessas condições, claro que eu quero dar uma vida melhor pra eles”. O nó na garganta foi imediato para todos, acreditamos que esse foi um dos momentos mais marcantes das gravações, pois não sabíamos o quanto estávamos invadindo a história de vida dela e até que ponto nosso documentário poderia ajudá-la, abrindo caminhos de pensamentos sobre o problema da habitação no país. Na primeira vez que vimos os filhos de Rose de Oliveira brincando no esgoto a céu aberto, chegamos em casa e choramos. No momento da gravação tínhamos que engolir a tristeza e pensar no melhor ângulo, na produção do espaço, nas perguntas que resultariam sonoras interessantes. Essa contradição superou qualquer resultado positivo ou negativo de uma banca de TCC. Nos sentimos jornalistas. Contando histórias. Outro momento chocante foi presenciar o banho de Bruno, um dos filhos de Rose, do lado de fora do barraco. E o garotinho gritava “tá fria, mãe, tá fria”, sobre a água que a mãe jogava em cima dele com uma caneca. Uma cena absurda, grotesca, quase animal. E quantos seres humanos não passam por elas todos os dias? E a câmera focando o melhor ângulo, o close, o enquadramento. Um texto sobre esse episódio foi postado no nosso blog, intitulado “O banho mais difícil”: “Depois de passar boa parte do dia caminhando a passos, ora largos ora curtos, para escapar das poças de lama e fezes, tomar um banho parece ser o melhor que se pode pedir. Parece. Azulejos, pia, espelho, chuveiro. Quanta diferença! Hoje assisti a Rose dando banho em seu filho Bruno. Eles não me convidaram para entrar na casa da família e assistir, da porta do banheiro, ao banho do menino de quatro anos. Bruno toma banho fora de casa e foi da frente do barraco onde a família mora, que vi a cena.
  23. 23. Meu chuveiro tem três temperaturas, o de Bruno, a mistura da água que a mãe esquenta no fogão com a água que sai da torneira do tanque que fica do lado de fora do barraco. Depois de passar o dia brincando no córrego infestado pelo esgoto que passa atrás de sua casa, Bruno toma banho na frente dos vizinhos e vai pra cama, que divide com os outros seis irmãos. Culpa. Abrir meu chuveiro e olhar para a prateleira de produtos para corpo e cabelo fez desse banho o mais difícil da minha vida. Enquanto a água caía eu lembrava de Carla. “Tomara que vocês me encontrem viva, quando voltarem”. Hoje Carla parou nosso grupo para contar sua vida. “Não gosto de morar na favela.Tenho medo de viver aqui”. Entre uma olhada e outra dos “vigias da viela”, Carla se permitia contar um pouco do sistema em que vive. “Aqui tem uma lei própria. Se o cara de cima diz que pode matar, você morre!” Quando os vigias se aproximavam, Carla se concentrava em disfarçar contando das dificuldades de saneamento básico. Sim, ela falou demais. Queriamos saber mais e Carla falou. Consegui tomar meu banho. Pude chorar o que segurei durante o dia enquanto olhava para crianças que dividiam, com um cachorro, a brincadeira de jogar pedras no esgoto. Desliguei o chuveiro. Jantar, cama limpa, abrigo. Minha vida continua. Sujeira, fome, ratos, medo. A vida na favela Jardim Maravilha também continua. Carla, espero que você esteja bem.” Não deveríamos ter a intenção de mostrar o quanto esse projeto mexeu com a gente, mas é inevitável. O último dia de gravação foi um alívio e ao mesmo tempo um peso, pois entramos na vida das pessoas e agora simplesmente não conseguimos sair e esquecer. Nos sentimos responsáveis, pois nossas vidas continuam e a deles continua também, com o mesmo cheiro ruim, o ambiente péssimo, as ruas de barro, os colchões molhados. Sem emprego, sem esperança, com medo. E todas as vezes nos receberam com um sorriso no rosto. Esperamos ter pensado e articulado o documentário de uma forma que quem assista consiga se prender tanto no conteúdo jornalístico quanto no drama das histórias que encontramos. E como muitas dessas histórias se relacionavam a problemas semelhantes, como condições de saúde e segurança, emprego, educação dos
  24. 24. filhos, entre outros, fomos atrás de especialistas dessas áreas que pudessem passar um pouco desses cenários, através da experiência que eles têm. A idéia de colocar as entrevistas dos especialistas apenas como áudio durante o documentário foi um acordo entre todos para que os personagens da Cidade Tiradentes realmente tivessem o destaque que merecem, através das histórias que contam. Aproveitar imagens das paredes dos barracos da comunidade como “pano de fundo” para as falas dos especialistas foi uma forma de integrar o ponto de vista deles com a realidade sobre a qual discorrem.
  25. 25. LINGUAGENS A televisão é um dos veículos de comunicação mais completo e complexo, pois demanda um texto bem escrito, sonoras com bons personagens e imagens com qualidade. Além disso, para criar uma narrativa interessante perante os olhos do telespectador, é necessário conhecer as informações e dados importantes para criar junto com um bom trabalho de edição, uma história envolvente. Em O Texto na TV, Manual de Telejornalismo, Vera Iris Paternostro ressalta a importância da imagem para quem recebe uma nova informação. “Em jornalismo, muitas vezes o rádio ainda está à frente, tem a vantagem do imediatismo da notícia. (...) Mas se o rádio consegue dar a notícia “em primeira mão”, não há dúvida de que a TV surge com a sua arma poderosa e infalível: a informação visual, a imagem em movimento”. Entretanto, a autora considera ainda breve a mensagem que a televisão transmite ao telespectador. “Se a televisão se impõe através da informação visual, é ainda limitada quanto à análise da mensagem que emite. (...) O que se considera desvantagem da TV (superficialidade) aliada a uma vantagem (imagem) gera um momento peculiar dentro do processo global de informação. A TV estimula e provoca o interesse e a necessidade de se ampliar o conhecimento dos fatos: acreditamos no poder motivador da TV enquanto meio de informação”. Embora atualmente a televisão seja o veículo de comunicação com maior alcance nacional, pode-se dizer que é um dos meios mais restritos, no qual estão os valores mais caros de publicidade. A publicidade é a forma através da qual as empresas de comunicação lucram para conseguir manter- se. Apesar de ser uma concessão pública, a busca pelo lucro faz com que a publicidade ganhe espaço, diminuindo assim a possibilidade de veiculação de documentários que discutam e tratem os problemas sociais. Heródoto Barbeiro, em Você na Telinha – Mídia Training na televisão, expõe o impasse que o trabalho jornalístico na televisão enfrenta por ser um meio de comunicação em massa: por um lado precisa de índices de audiência elevados, por outro é acusado de sensacionalismo. Para o jornalista, é imprescindível tentar separar espetáculo de informação, mesmo com os
  26. 26. obstáculos. “De uma forma ou de outra, a tevê é o meio de maior penetração na sociedade, e é ela quem recebe a maior parte da verba publicitária disponível. Ela sozinha abiscoita 57 por cento de tudo o que se investe em anúncio no Brasil. A tevê representa um fenômeno de massa de grande impacto na vida das pessoas, é um dispositivo audiovisual através do qual a sociedade divulga seus sonhos, feitos, crenças e anseios”. A internet (meio digital) avança cada vez mais em busca da integração entre as várias linguagens da comunicação, como o som, a imagem, o vídeo e o texto. O avanço da tecnologia conquista diversos seguidores que encontram na plataforma online uma maneira segura e rápida de se informar, além da possibilidade de troca de experiências, que permite o aumento gradativo da confiabilidade da rede. Por isso, a realização desse projeto se concretiza em um web- documentário interativo, que significa disponibilizar conteúdos inéditos e diferentes, em formato de textos, imagens e áudios através do ambiente virtual, permitindo um maior alcance a fim de contribuir com discussões e debates que envolvam os temas sociais habitação e moradia. Atualmente, os filmes exibidos pela internet no Brasil recebem mais de 30 mil internautas-telespectadores por semana. Com o crescimento do mercado de entretenimento, os documentários feitos especialmente para web surgem como forma alternativa para obras audiovisuais, possibilitando um retorno e um reconhecimento mais rápido, com a possibilidade da utilização de menos recursos. Nesse formato de documentário interativo, duas produções ganham destaque. A primeira, “Nação Palmares”, que conta a história e as dificuldades atuais dos quilombolas, e a segunda, “Crônica de uma catástrofe ambiental”, sobre o derramamento de agrotóxico no rio Paraíba do Sul. “Nação Palmares” exibe ícones auxiliares durante a narrativa, deixando ao internauta- telespectador a decisão de abri-los e se aprofundar no conteúdo. Ambas as produções disponibilizam todo o conteúdo do documentário na íntegra em formato de áudio, vídeo e transcrição, através da licença Creative Commons, da qual nosso web-documentário também fará uso.
  27. 27. DESENVOLVIMENTO Público alvo Não há um público alvo específico. A intenção do web-documentário é colocar o assunto em pauta e mostrar a relevância da discussão sobre a moradia já que, no Brasil, o déficit habitacional é de cerca de sete milhões de moradias, de acordo com o Ministério das Cidades.* Abordar o tema é a oportunidade de tornar nosso documentário uma força expressiva pela mudança e reavaliação dos preceitos e encaminhamentos sociais brasileiros, a fim de sensibilizar o espectador com o intuito de criar uma discussão permanente em relação ao assunto. *Os últimos dados sobre o tema são de 2006 e têm como base a Pnad (pesquisa nacional por amostra de domicílios) realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com números daquele mesmo ano. Projeto Editorial Web-documentário baseado em entrevistas de personagens que vivem no distrito Cidade Tiradentes, em São Paulo. Pessoas com perfis e condições diferentes. Demonstrar a relação antagônica que existe entre moradores dos conjuntos habitacionais (COHAB e CDHU) e moradores da favela. O web- documentário se baseia na linguagem telejornalística, estruturado em texto, offs, sonoras e músicas. A escolha pela plataforma web tem como justificativa dois fatores primordiais. Primeiramente, disponibilizar o material no ambiente pelo qual cada vez mais as pessoas convergem suas necessidades. Em segundo lugar, a oportunidade de exibir materiais de diferentes maneiras no mesmo destinatário. Em nosso site, além do acesso ao documentário, será possível encontrar fotos, textos e vídeos que tornarão nosso projeto mais inovador, completo, democrático e cativante.
  28. 28. Descrição do Produto O web-documentário “Uma Casa, Outra Vida” tem duração de 32 minutos e 12 segundos e é dividido em cinco blocos. O vídeo será fixado numa plataforma interativa de web que permitirá, devido ao sistema digital, exibir um conjunto de materiais editados, como fotos, textos e vídeos, de maneira que permita uma maior compreensão da história e do tema tratado. Circulação e Lançamento O documentário estará disponível em um site-reportagem, numa mesma plataforma, que unirá vídeos, textos e fotos, com a ideia de criar uma relação interativa entre o internauta e o produto. O conjunto da obra estará licenciado pelo Creative Commons que permite liberdade de reprodução. O web- documentário será disponibilizado para download, dando assim, maior visibilidade ao tema. Fontes e Entrevistados O primeiro contato do grupo com a Cidade Tiradentes foi feito através de Cláudio Nunes, representante comunitário do distrito, durante o seminário internacional Mídia e Violência, ocorrido em março de 2009 na Universidade Metodista. A partir de então, os contatos com os moradores do local foram inicialmente feitos com o intermédio de Cláudio. Marilze Santos foi a primeira moradora do bairro com quem conversamos; através dela, fomos apresentados a Marina e Nivaldo, seus pais, e Marinilda, a irmã, Joyce e Marcos Vinicius, os filhos. Foi Marilze quem nos apresentou a favela Jardim Maravilha, dentro da Cidade Tiradentes, na qual fomos conhecendo os diversos entrevistados do documentário durante as visitas. Foi assim que pudemos contar com a colaboração de Simone Lopes, Verônica Oliveira, Cleidson Ferreira, Alessandro Souza, Edelci da Silva, Evelyn Ferreira, Francisca Alves, Cristiane Ferreira, Bruno Oliveira, Gabriela Santos, Galdino dos Santos, Cristian Oliveira, Jorge da Silva, Marcos Silva, Carla
  29. 29. Rocha e Bruno Ferreira. Todos moradores da mesma comunidade; nem todos se conheciam, mas as histórias de vida muitas vezes se assemelhavam. Nancy Cárdia, especialista em violência que colaborou com o nosso trabalho, foi localizada através do Núcleo de Estudos sobre Violência da USP.. Pelo Instituto Polis, que lida com questões da moradia nas cidades, conhecemos o arquiteto urbanista Kazuo Nakano, graduado pela USP. Maria Isabel Leão foi recomendada pelo núcleo de comunicação da Universidade de São Paulo. Todas as informações que compõe o nosso trabalho, dados e pesquisas acessados e textos e livros consultados foram acompanhados com o apoio dos professores orientadores e também das fontes entrevistadas. O livro “História da Vida Privada”, de Antonie Prost e Gérard Vincent, foi um dos sugeridos por um dos professores e serviu de grande valia para comparar a situação dos moradores de comunidades do nosso século com os de três séculos atrás, que inclusive tinham condições semelhantes de dificuldades. “Gostos de classe e estilos de vida”, de Pierre Bourdieu, também teve a mesma valia para o embasamento do grupo e foi sugerido por um docente orientador. Fontes oficiais como o IBGE, Prefeitura e Subprefeitura também foram imprescindíveis para obtermos dados específicos sobre o nosso objeto de estudo. Institutos como FGV, IPEA e outras organizações especificas sobre o tema, como o Instituto Polis e núcleos de moradia, violência e saúde das universidades UNESP e USP contribuíram imensamente para tal aprofundamento sobre o tema. Custos do Projeto • Transporte: Doze externas para entrevistar as personagens. Passagem de ida e volta para o bairro República para entrevistar um arquiteto urbanista. Além das externas, fomos mais doze vezes à Metodista para retirar equipamentos e vinte e seis vezes para decupar e editar. Valor: R$ 280,00 de gasolina – 1200 km rodados - R$ 50,00 de transporte público
  30. 30. • Material utilizado: 12 fitas Mini DV’s - Valor: R$ 96,00 / 30 DVD-R – Valor: R$ 30,00 / 30 portas DVD – Valor: R$ 18,00 • Xerox de materiais: Valor: R$ 40,00 • Impressão e encadernação do memorial: Valor: R$ 100,00 • Impressão da capa do DVD: Valor: R$ 126,00 • Pilhas: 16 pilhas: Valor: R$ 32,00 • Web Design: R$ 300,00 • Hospedagem site: R$ 30,00 • Passagem das fitas: R$150,00 TOTAL: R$ 1252,00 Equipamentos utilizados Imagens captadas em formato mini-DV com as câmeras: Sony HDR; Panasonic AG-DVC20P; JVC GY-DV500. Edição não-linear em Final Cut Pro 5.1. Os equipamentos de externa e edição foram fornecidos pela universidade. As fotos foram tiradas com uma Sony Cyber-shot 7.2 Mega Pixels. Atividades Desenvolvidas O grupo desenvolveu as seguintes atividades: • Pesquisa de dados: livros, internet, reportagens especiais TV e documentários. • Levantamento de personagens com pesquisa de campo. • Captação de imagens. • Entrevistas: foram entrevistadas 26 pessoas, mas só utilizamos o depoimento de 23 entrevistados para o vídeo. • Direção das gravações.
  31. 31. • Decupagem: aproximadamente doze horas por dia, durante sete dias, resultando em 84 horas de decupagem. • Roteiro. • Redação de textos. • Edição. • Idealização da arte do layout do site interativo. Atividades realizadas por outros profissionais e colegas de universidade • Operação da edição não-linear. • Arte do layout do site interativo. Despesas do TCC Despesas Valor da Unidade em Reais Total em Reais Material de Consumo 16 pilhas 2,00 32,00 12 fitas Mini DV 8,00 96,00 30 DVD-R 1,00 30,00 Impressão capa do DVD 126,00 126,00 30 Capa DVD 0,60 18,00 Impressão e encadernação do memorial 100,00 100,00 Serviços de Terceiros Web Design 300,00 300,00 Hospedagem site 30,00 30,00 Passagem das fitas 150,00 150,00 Xerox de materiais 40,00 40,00 Despesas com Transportes 330,00 330,00 Carro 280,00 280,00 Transporte Público 50,00 50,00 Total 1252,00
  32. 32. AVALIAÇÃO GERAL Um problema que não tem a atenção merecida. É essa a situação da moradia no Brasil. Um tema discutido com pouca profundidade. Embora seja um problema que afeta a população desde o início dos altos índices de urbanização, em 1950, a moradia só ganhou espaço na legislação do país doze anos depois da atual Constituição estar em vigência. A Constituição Federal, de 1988, teve estampado em suas páginas o direito à habitação apenas em 2000, através da Emenda Constitucional de número 26, aprovada no dia 14 de fevereiro. O fato de uma bela frase incluir a moradia entre os itens que são “direitos sociais” do artigo 6º da Constituição parece não ter trazido muitas alterações na efetiva carência que chega hoje ao déficit de sete milhões de casas no território brasileiro. Ao lado de outras palavras de impacto e de pouca eficácia, quando apenas escritas, ficou o direito à moradia que ganhou como vizinhos o direito à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à segurança, à proteção à maternidade e à infância, à assistência aos desamparados. Palavras de impacto esquecida pelos executores da lei, pelos jornalistas e por grande parte da sociedade. Acreditamos que a função do jornalista é contar histórias que precisam ser contadas. A partir de personagens que vivem diariamente as dificuldades de não ter uma casa para morar, foi possível sentir a informação, inicialmente, teórica: o parecer técnico de que o Brasil sofre com um déficit de sete milhões de habitações pôde ser sentido in loco ao entrarmos na Cidade Tiradentes. Não apenas retratar, mas cutucar essa ferida é o objetivo desse grupo que tem o sonho de alcançar transformações e mudanças a partir de reflexões e ações concretas por parte de grupos de discussões, imprensa, opinião pública e autoridades. Se antes de começar a desenvolver esse projeto ainda existia algum resquício de desconfiança de que o jornalista precisa, de fato, ir até a notícia, ele foi eliminado. Nada vai conseguir apagar da nossa memória todas as histórias de amor, medo, culpa, sofrimento, solidão e alegria que ouvimos, presenciamos e sentimos durante a realização do documentário. Certamente ver de perto a vida numa favela dá mais trabalho, leva mais tempo, mais
  33. 33. suporte emocional, mais questionamentos pessoais. Por outro lado, se deixar levar apenas por dados de pesquisas obtidos numa tela de computador gera mais insatisfação, mais preguiça, mais distância, mais burrice. E menos jornalismo. O crescimento técnico, como não poderia deixar de ser, foi grande ao longo da produção, gravação e edição desse projeto. Aprendemos muito com a chance de estar em campo e ter de resolver nossos próprios problemas. Nos vimos sozinhos com equipamentos que não fomos ensinados a usar e aprendemos. Estávamos sozinhos diante de traficantes que questionaram nosso trabalho e resolvemos. Lidamos com a distância, com o tempo, com o medo, com a angústia de não saber como retratar as histórias da maneira como nossas personagens mereciam. Enfrentamos nossas inseguranças, nossos defeitos, nossas dificuldades. Aprendemos um com o outro e mais do que tudo, com nossos próprios limites testados como nunca. Lutar contra o tempo e contra a falta de equipe técnica foram desafios que cumpriram a função de transformar esse projeto em algo que nos engrandecesse profissionalmente. O maior aprendizado, contudo, ficou por conta do que não fizemos. Ficou a cargo daquilo que fizeram por nós. Produzir um web-documentário sobre o problema da habitação interferiu, como não podia deixar de ser, na formação de caráter de cada um de nós. Podemos afirmar, sem medo de exagerar, que somos outras pessoas ao apertar o play de nosso vídeo pronto. A interferência da vida daquelas personagens em nosso dia a dia foi um ingrediente que formou jornalistas melhores. Pudemos através dele ter a dimensão da responsabilidade que demanda ser jornalista. Entramos nas casas e nas vidas daquelas pessoas e passamos a ter responsabilidade sobre as histórias que nos foram entregues em meio a lágrimas, sorrisos e confissões. Jovens universitários, que, nas primeiras reuniões de pautas tinham respostas para tudo foram substituídos por questionadores apaixonados pela realidade e pelo sonho de melhorá-la. Hoje, ao contrário de respostas, temos perguntas. “Uma casa, outra vida” também para cada um de nós.
  34. 34. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBEIRO, Heródoto. Você na telinha – Mídia training na televisão. Futura, 2002. BOURDIEU, Pierre. Gostos de classe e estilos de vida. In: Ortiz, Renato (org.) Ática, São Paulo: 1983. BOURDIEU, Pierre. La Distinción. Madrid: Taurus, 1999. DEAK, André. FEHLAUER, Paulo. Crônica de uma catástrofe ambiental. [Documentário interativo]. Realização de André Deak e Paulo Fehlauer. Brasil. DEAK Andre, NUNES, Juliana, SAVAZONI, Rodrigo, PIMENTEL, Spency. Documentário Interativo “Nação Palmares”. Licenciado sob Creative Commons 2.5. 11 min. Disponível em <http://www.agenciabrasil.gov.br/grandes- reportagens/2007/10/16/grande_reportagem.2007-10-16.3152825702 PATERNOSTRO, Vera Iris. O Texto na TV – Manual de Telejornalismo. 13. ed. Campus, 1999. PROST, Antonie. VINCENT, Gérard. História da Vida Privada. Companhia das Letras, 1987.
  35. 35. ANEXO(S) Roteiro IMAGEM – Vinheta Menu GC: ⇒ Iniciar ⇒ Capítulos ⇒ Fotos ⇒ Web-documentário 00’00” Tela preta Clip animação casinha CG: Uma Casa, Outra Vida (FADE OUT CASA) 53’’ SONORA Marilze SONORA Nivaldo *** Música menu **** *** Música abertura **** *** Desce som do BG *** ABERTURA “Então nós estamos no mesmo lugar, na Cidade Tiradentes, a maior Cohab da América Latina. Então todos são iguais, independente da casa”. “O bairro que eu moro é um nome muito lindo – Cidade Tiradentes. É uma cidade mesmo. Aqui todo mundo é gente boa, todo mundo gente linda”.
  36. 36. SONORA Verônica 01’19” IMAGEM Tela fotos CG: Cidade Tiradentes. Distrito localizado a 35 Km do centro de Sao Paulo. 01’23” SONORA Marina IMAGEM Tela fotos CG: Do outro lado da rua, a mesma Cidade Tiradentes com treze favelas. 01’38” SONORA Carla “Quando tem tiroteio na Cidade Tiradentes, eu e minha família, a gente se abaixa dentro do barraco”. ***Desce som Sonora/ Sobe som música “Gente Humilde” *** “…SEM NEM TER COM QUEM CONTAR..” ** Desce som música” “Nossa, quando eu coloquei a chave na fechadura, que eu entrei dentro de casa, que eu vi que era meu mesmo, eu pulei que eu pus a mão no teto”. *** Desce som Sonora/ Sobe som música “Gente Humilde” *** “…COM A CHAVE ESCRITO EM CIMA QUE É UM LAR...” ** Desce som música” “Vou ser básica. Vou começar lá de baixo. Eu tenho medo de rato, mas eu tenho medo de
  37. 37. 01’47” IMAGEM Tela fotos CG: 40 mil unidades habitacionais (COHAB, CDHU e antigo BNH) 01’53” SONORA Francisca 02’03” IMAGEM Tela fotos CG: Jardim Maravilha. A maior favela do distrito. Seis mil familias vivendo em moradias informais. 02’11” SONORA Cristiane morrer. Porque aqui, se você fala demais, você morre”. *** Desce som sonora/ sobe som música “Gente Humilde” *** “…E NÃO TEM ONDE ENCOSTAR…” ** Desce som música” “Eu estou morando aqui há três anos. Nesse prédio na Rua dos Têxteis, 3667, 11B. E lá eu morei oito anos e sete meses” *** Desce som Sonora/ Sobe som música ”Gente Humilde” *** “…COMO LUTAR…E EU QUE NÃO CREIO PEÇO A DEUS…” ** Desce som música” “Porque eu tava conversando com o carteiro, pra ver umas correspondências e eu falei pra
  38. 38. 02’20” IMAGEM Tela fotos CG: 35 milhoes de brasileiros vivem em moradias irregulares. 02’24” SONORA Gabriela 02’38” IMAGEM Tela fotos CG: As favelas de São Paulo crescem 3,7% ao ano. Cerca de 1,3 milhão de pessoas vivem em comunidades na Capital. 02’46” SONORA Simone ele se ele me trazia uma correspondência e ele falou “mas aí não tem nem cadastro na prefeitura”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “Gente Humilde” *** “…QUE VONTADE DE CHORAR…” ** Desce som música” “Tem uma amiga na minha escola, que ela mora na favela e os outros ficam caçoando dela. Ficam chamando ela de fedida, de cabelo bagunçado”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “Gente Humilde” *** ** Desce som música” “A gente somos discriminadas pra muitas pessoas, né? A gente não pode arrumar um emprego porque mora numa favela”.
  39. 39. 02’55” 02’59” SONORA GC: TRABALHO DANIELA BETTINI – Gerente de RH 03’44” *** Desce som sonora/ Sobe som música “Periferia é Periferia” *** *** Desce som música*** “O endereço regular, eu acredito que impacte, sim, para colocação desses profissionais no mercado de trabalho. O que a gente vê normalmente de profissionais assim, que residem em favelas, são pessoas, por exemplo, que trabalham como empregados domésticos, que trabalham na construção civil, que trabalham, às vezes, em lojas. Podem se colocar, mas aí é num outro nível de qualificação, num outro nível de empresa ou de ambiente profissional que elas vão estar colocadas. Dificilmente a gente vai acabar encontrando, numa empresa, alguém que resida num local como esse. Não é só se ela tem ou não endereço, mas é o ambiente onde ela reside. Vamos pensar que é de uma forma mais ampla, né? Aí vem o preconceito da própria questão da favela, marginalidade que gira em torno desse assunto”. *** Desce som sonora/ sobe som música “Periferia é Periferia” ***
  40. 40. 03’49” SONORA - Francisca CG: Francisca Alves – Moradora de Conj. Habitacional SONORA - Nivaldo CG: Nivaldo Dias – Morador de Conj. Habitacional *** Desce som música *** “Eu não sou daqui, eu sou nordestina, sou piauiense. Vim há algum tempo pra SP, morando na Penha e aí por causa da dificuldade de emprego, só o meu marido trabalhava, ele teve que comprar um pedaço de chão ali na favelinha que chama Comunidade Jardim Maravilha, e aí a gente veio morar lá. Aí resolvemos, vamos procurar emprego. E uma vez meu filho Anderson foi procurar emprego no Brás. Quando chegou lá, a moça, que era dona da empresa, falou pra ele...que ele trabalhou o dia inteiro e, no final do dia, foi fazer a entrevista para confirmar o emprego dele. Quando ele disse o endereço, era esse da comunidade, ela rodou na cadeira e disse “tira esse ladrão daqui, porque eu não quero ladrão na minha firma, da Zona Leste”, principalmente do lugar que ele falou que morava, né, uma favela da Cidade Tiradentes?”. “Sem endereço muitos problemas ficam complicados. A pessoa, o cidadão a cidadona, que tem sua moradia, sempre tudo mais fácil pra conseguir o que procura. Você é da onde? Eu sou do bairro tal e tal, sou de São Paulo, tenho minha moradia, meu CPF tá aqui, meu RG tá aqui. É tudo declarado rapidinho”.
  41. 41. SONORA Cristiane SONORA Francisca 06’20” 06’28” “O nome da viela aqui é viela beija-flor, mas só tem o nome mesmo. Quando eu vou fazer um currículo para mandar, eu mando no endereço da casa do meu irmão. Porque onde eu moro não é cadastrado na prefeitura e o nome da viela foi os moradores mesmo daqui que colocaram”. “Aí a gente achou por bem vender nossa casinha lá e vir pra cá. Vim morar de aluguel né, nesse prédio, e aqui encontrei esse apartamento que Deus preparou pra mim, e a gente comprou e aqui a gente mora. Aqui a gente não tem dificuldade de endereço, porque lá eles falavam porque era favelado, tinha aquela má impressão de que todo favelado é ladrão, e não é isso. Lá tem pessoas que vieram do nordeste e que não tem onde morar e é o lugar mais apropriado pra morar, e é mais fácil, porque lá também não tá fácil no nordeste. A pessoa corre pra cá achando que aqui tem vida melhor e, chega aqui, é ridicularizado”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “A Casa Amarela” *** *** Desce som música ***
  42. 42. SONORA CG: SAÚDE Edelci da Silva – Mestre em Saúde Ambiental - USP 06’55” 06’58” SONORA Cristiane GC: Cristiane Ferreira – Moradora de favela. “Em dados da favela, a gente vê que as internações, por exemplo, por doenças ligadas ao impactos atmosféricos, asmas, bronquites, elas são maiores do que nas áreas de nao favela. Outras doenças também, como diarréia e verminoses, ligadas ao saneamento básico, tambem são mais altas em áreas de favelas do que em áreas de não favelas”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “A Casa Amarela” *** *** Desce som música *** “Nesses buracos, saem um rato bem grande e as crianças dormem no chão que aqui é bem pequenininho. Aí, eu fico com medo. Tem vez que eu coloco um em cima do outro porque os ratos aqui fazem a festa mesmo. Eu já morei em casa, mas depois que eu tive meus filhos eu sofri muito pela rua, sem lugar pra morar com eles, já morei em casa de um, de outros. Hoje, assim pra mim não importa onde eu moro. É um barraco de madeira, mas eu tenho um lugar onde meus filhos possam ficar. O ruim quando chove, é a lama, a água que fica parade ai até secar né? Só Deus pra ter misericórdia. Esse córrego… quando chove, eu fico olhando esse córrego. Eu fico aqui olhando. Nem tranco a porta, né? Porque, se alagar, eu pego meus filhos e
  43. 43. SONORA Simone GC: Simone Lopes – Moradora de favela. SONORA Cristian GC: Cristian de Oliveira – Morador de favela. SONORA Verônica GC: Verônica de Oliveira – Moradora de favela. SONORA Cristiane corro. Por que eu tenho medo, eu morro de medo. Quando tá chovendo, eu abro aqui ó e fico, aqui da janela, olhando. Ai meu Deus! Vai chover...vai subir o córrego, né?. “Devido a gente morar ali na comunidade, céu aberto, não tem esgoto, não tem nada né, ao esgoto céu aberto, geralmente meus filhos vira e mexe fica doente né, vive no posto. É coceira, alergia, mancha no rosto, mancha na pele, vire e mexe tem isso aí as crianças. Direto meus filhos vivem com problema de saúde”. “Quando nós tava dormindo, e aí choveu, e aí encheu de água lá, na porta do colchão onde a gente tava dormindo. E aí entrou água lá dentro, e aí depois minha mãe tinha que acordar, tirar o colchão, acordar rápido, tirar o colchão de lá, jogar fora, e pegar outro”. “Na minha casa não tem móveis, uma cama decente pra mim não dormir mais no chão. Porque sempre quando nós dorme no chão, tem enchente. Aí molha tudo o colchão, molha tudo as coisa, e é muito ruim pra nós”. “Nós não temos chuveiro, nosso chão é de barro ainda que nós não conseguimos cimentar. Só tem mesmo é o vaso sanitário. Banho a gente toma na casa do meu irmão.
  44. 44. SONORA Verônica 10’23” Imagens Bruno tomando banho 10’35” SONORA Bruno GC: Bruno de Oliveira – Morador de favela Todos os dias a gente sobe pra lá pra poder tomar banho. E tem dia, mesmo assim. As crianças eu do banho de só quando ta calor. Na água fria, e com a mangueira, eu encho a caixa , dou banho, mas só quando ta calor. Porque eu não me sinto bem de tá todo dia lá incomodando eles pra poder tomar banho, Quando eu vou pra igreja, eu vou ate lá tomar banho, mas quando eu não vou, eu durmo sem tomar banho mesmo. E o nosso banheiro também não tem descarga. Nós deixa o balde cheio de água ali pra quando usar o banheiro, jogar a água”. “A gente cata a água gelada, coloca no fogo, e, na hora que tá fervendo, quente, aí a gente coloca dentro do balde. A gente cata água gelada, mistura. Aí ela fica morna. Aí a gente pega e toma banho”. ******SOBE SOM BANHO BRUNO**** ***Desce som banho, sobe som sonora*** “Meu sonho? Meu sonho é quando o trovão faz barulho, ai nós leva um susto, e ai abriu a porta e encheu cheio de agua na casa da vizinha… E veio a água, a agua… de suja”.
  45. 45. SONORA Carla GC: Carla Rocha – Moradora de favela 11’37 11’45” SONORA CG: EDUCAÇÃO Maria Izabel Leão – Núcleo de Comunicação e Educação da USP. “Então, saneamento básico não tem, não existe saneamento. As pessoas convivem com isso. O meu filho, cheguei do hospital agora, vou levar ele de novo. Porque virose, provavelmente é disso. Porque ele não estava acostumado com esse tipo de vida. Até então, há um mês, eu morava lá em cima e lá em cima tem saneamento básico. Lá em cima, na rua principal, a gente chama de principal, ele não ficava doente. Aqui embaixo, ele fica porque os anticorpos dele não é suficiente. Mas, detalhe, ele vai acostumar porque ele tem que acostumar. Ele vai acostumar com esse ritmo de vida. Ele vai gerar anticorpos pra expulsar tudo isso, porque ele não vai mudar de vida. Ele não vai”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “O Povo da Periferia” *** *** Desce som música *** “A moradia, o espaço que você ocupa e que você pode chegar todo dia e ter um lugar pra fazer sua tarefa, onde se alimentar e receber atenção, que no caso seria uma casa, é muito importante pra sua identidade. Quando você não tem esse espaco, quem é você? Que espaco que voce ocupa na sociedade, né?
  46. 46. 12’32” 12’34” SONORA Marcos GC: Marcos Alves – Morador de Conj. Habitacional SONORA Marilze GC: Marilze Santos – Moradora de Conj. Habitacional Acho que é muito complicado, para a criança e para o processo de aprendizagem acontecer. Um espaço adequado, com boa iluminação, boa ventilação, uma mesa pra voce poder estudar, que não seja barulhenta. Um espaco, um quarto pra 20 pessoas morarem que é cozinha, que é quarto, que é sala, que é banheiro, dificil né? É querer muito de uma pessoa pequena que ainda não tem muito conhecimento da vida. *** Desce som sonora/ sobe som música “O Povo da Periferia”*** *** Desce som música *** “A diferença é que eu chegava na escola todo sujo de barro, falavam que eu morava na favela e tudo, e quando eu moro aqui eu posso falar que eu moro num apartamento que ninguém zoa comigo. E, se perguntam onde eu morava, eu não falo porque tenho vergonha”. “Fui professora de alfabetização em 2004 e 2005. A diferença entre os alunos que moram na Cidade Tiradentes para a comunidade que também se habitua na Cidade Tiradentes é enorme né? Eles moram num lugar totalmente que não tem nenhuma noção de
  47. 47. SONORA Marcos SONORA Marilze SONORA Marcos sobrevivência, saneamento básico. Eles chegavam com fome na sala de aula. Um dos meus alunos chegava cheirando fumaça porque eles tinham que cozinhar no fogão de lenha, uma coisa assim meio aparecida. A dificuldade deles, uma que eles não têm água encanada, eles, principalmente na época que eu tava dando aula pra esses daí que moram lá embaixo, tinha dificuldade quando chovia, porque eles chegavam todo cheio de barro, às vezes eles caiam, chegavam sujos”. “Lá não tinha computador, aqui eu tenho, tenho um espaço pra estudar, uma mesa, um quarto. Antes eu não tinha computador, não tinha mesa pra estudar, não tinha espaço, o cheiro era mau, agora tenho espaço, posso respirar bem, tem muitas árvores, tem computador”. “Por eles não ter uma casa infraestruturada, influencia bastante nos estudos, no crescimento, na educação né? Que isso abrange bastante porque a diferença entre você dormir bem, você ter um cobertor quentinho, limpinho, uma casa arrumadinha, comida no horário certo. Isso influencia bastante pra quem mora na comunidade”. “Quando eu morava na comunidade eu nem
  48. 48. SONORA Marilze SONORA Marilze 15’38” 15’42” pensava em sonho e agora, quando eu moro aqui, eu sonho em fazer aeronáutica”. “A diferença entre eles fazerem o dever de casa, com a dificuldade que eles tinham na casa dele começava com os cadernos que chegava muito sujo. Sujo de barro, o irmãozinho pegou, jogou lá fora, tava chovendo, não tinha lápis. Às vezes, então, muitas vezes, até achar um lápis com aquela confusão que é algumas casas (nem todas) na comunidade prejudicava bastante a atividade deles”. “Todos meus filhos estão na escola. É pré escola né? E a dificuldade de estudar, eles vão, dia a dia eles tão indo pra escola. Às vezes, tem dia que não dá nem pra passar de lá da comunidade porque tá cheio de polícia. Tem dia que dá pra estudar. Tem dia que só pela misericórdia de Deus, pra passar em dia de chuva. Aquelas crianças vai toda suja pra escola e é assim”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “Herança Negra” *** *** Desce som música ***
  49. 49. SONORA CG: SEGURANCA Nancy Cardia – Instituto São Paulo contra a violência. 16’16” 16’21” SONORA Simone “Hoje, as pessoas se sentem excluídas da segurança pública. Porque o território que elas habitam, a polícia tacitamente não entra, elas não podem se sentir seguras, não é? Quer dizer, se ela tem quase certeza que, se ela ligar pra polícia, no caso de uma necessidade, de uma emergência, a polícia não vai responder, como é que ela pode se sentir segura? A polícia não vai lá por quê? Porque ela tem medo? Ela não vai lá por quê? Porque ela está recebendo dinheiro dos traficantes? Então não dá pra população se sentir segura nessas condições. Seria delírio ela se sentir segura”. *** Desce som sonora/ sobe som música “O Povo da Periferia” *** *** Desce som música *** “É dificil morar ali porque, devido os policiais, eles não respeitam porque a gente é favela. Eles invadem a casa da gent, eles acham que tem autoridade pra entrar sem mandado nem nada né. Às vezes aponta a arma até pra uma criança de sete anos e fala se as crianças já viram aquela arma e oferece até doce pras crianças. E devido disso às vezes tem até tiroteio a ponto de uma criança levar uma bala perdida. A dificuldade dali é muito grande”.
  50. 50. SONORA Marina GC: Marina Dias – Moradora de Conj.Habitacional SONORA Carla SONORA Marina SONORA Carla “Tem que ter uma autorização pra entrar. Inclusive aqui onde que eu moro. Aqui tem a placa ‘proibido entrar’, que nem, o meu neto mora aqui comigo, a vó dele deu o maior trabalho pra entrar aqui. Precisou pedir, falar, a mulher perguntou aonde que ela ia”. “Meu maior sonho? Ah hoje? Pode ser pessoal? Que meu marido morra, fora casa, um novo guarda-roupa. O meu filho eu vou conseguir concretizar, que ele saia daqui, porque aqui ele fala em drogas, ele tem cinco anos, ele fala em droga, ele já pega cigarro e dá trago, ele tem cinco anos. Então pra mim é tirar ele daqui, agora”. “Porque aqui nós também tem câmera lá de segurança. Aqui a gente vê lá embaixo tudinho. Temos a maior segurançaa aqui, graças a Deus. O que dá segurança é onde você mora, aonde você mora, que sabe que aqui graças a Deus, que eu saiba eu nao conheço nenhum bandido, nem nada”. “Na favela você beija um cara você deve a sua vida a ele. Se você sai pra comprar um pão, quando você volta te aponta uma arma, e aqui o marido pode até matar a mulher. Porque é mulher dele e pronto”.
  51. 51. SONORA Simone SONORA Carla “Uma vez eu tava dormindo na minha casa né e eu acordei pensando que era as crianças, e quando eu levantei o policial tava dentro da minha casa, dentro da minha cozinha, mexendo no armário, revendo tudo, os alimentos, tudo. E eu perguntei pra ele porque ele não tinha autoridade de entrar dentro da minha casa. Aí ele falou assim: ah mais isso aqui é favela. Aí eu disse a gente é favela, mas a gente somos cidadão, a gente somos igual vocês que tão fazendo seu trabalho. Então devido isso eu falei vocês têm que ter repeito, tem que ter mandado. E ele me respondeu assim que quem mandava ali era eles”. “Por condições financeiras tive que “me jogar”, aqui a gente fala “se jogar”. Porque há um mês atrás eu morava no asfalto e hoje eu tô aqui embaixo. Eu não gosto. Eu tive que mudar meu ritmo pra me igualar às pessoas pra não morrer. Eu arrumei um namorido por medo, por medo, medo de ficar sozinha na favela. Porque eu não morava na favela. A realidade das outras pessoas pode ser diferente, mas a minha foi por medo. Eu morava lá em cima, perdi o apartamento, problemas financeiros, e eu desci. Eu fui roubada lá em cima e eu achei que se eu descendo, se eu arrumasse um traficante eu
  52. 52. SONORA Simone SONORA Carla 21’00” ficaria bem e não foi isso que aconteceu. Eu fiquei pior ainda, então eu tenho um namorido”. “Medo a gente tem sim de viver ali. Porque você pode tá dormindo, os policias pode tá invadindo a sua casa sem respeito. Porque a gente acharia até os ladrão entrar na nossa casa, invadir, e é o contrário, quem invade a nossa casa é os próprios policia, ameaça, aponta, que já apontou pro meu filho e perguntava pra ele se ele já viu aquela arma ali naquele lugar e o policia já falou pra mim assim que você mora aqui você tá passando pano pros vagabundos, devido eu trabalhando, fazendo meus bicos, nem sabendo de nada e ele achou autoridade de querer mandar dentro da minha casa”. “Tenho, tenho medo da polícia, claro que eu tenho, tenho medo, eu não sei se eu posso falar isso, eu não sei se eu posso falar. Aqui é lei daqui, cada país tem uma lei diferente, aqui tem uma lei daqui, aqui é só a gente. Aqui se você apronta aqui embaixo, outras favelas, não só aqui, tem pessoas que te dá aval se você pode viver ou não”. *** Desce som Sonora/ Sobe som música “Direito à Moradia” ***
  53. 53. 21’06 SONORA GC: AUTOESTIMA Patricia Velloso – Psicóloga e Pesquisadora - UNIFESP. 21’57 22’03” SONORA Verônica *** Desce som música*** “Na verdade o que é autoestima? Ela é o reflexo da auto-confianca, do auto-respeito, então a partir daí a pessoa consegue enfrentar os desafios, ir atrás dos interesses. Então a habitação ela acaba sendo como uma segurança pra pessoa. Então não só uma segurança física, mas também psíquica, então é o lar da pessoa. É o que traz acolhimento, a segurança. Então a pessoa que não tem isso né, que mora na favela, ela tem uma insegurança muito grande, e que vai influenciar diretamente na autoestima. Na verdade, uma decepção, uma rejeição, frustação. Quando a pessoa consegue conquistar isso né, a realização de um sonho, de uma conquista, então tá intimamente ligado na autoestima”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “O Povo da Periferia” *** *** Desce som música *** “Eu não gosto quando eu tô indo pra igreja, eu tô indo pra algum compromisso, e quando chove e também quando não chove, eu encho
  54. 54. meu pé cheio de barro. Como agora a gente tava saindo, meu pé tá cheio de barro, tudo sujo, e a vergonha que eu vou passar na igreja? O que eu menos gosto na minha casa? Ah de tudo, acho tudo ruim. Eu já morei em uma casa, ah era feliz, várias amigas minhas vinham em casa, aí elas falavam: nossa Veronica como a sua casa era bonita, elas falava bastante coisa. Eu já morei numa casa decente, que eu tive móveis decente, eu tive uma casa que toda menina de uma favela sempre quer. Aí eu consegui realizar esse sonho, mas foi por pouco tempo. Eu não recebo as amiguinhas na minha casa, teve umas vezes que a menina falou assim pra mim, falou assim: ah Veronica, você mora na favela, eu nunca vou na sua casa. Aí eu peguei e fiquei triste. Aí eu perguntei por que, aí ela disse assim pra mim: Porque eu não vou em casa de favela. Aí eu peguei e não gostei. Aí minha mãe não quer que eu faça amizade, pra elas ficar me humilhando, minha mãe falou assim: Não, então não faz amizade. E eu tô com outra roupa aqui dentro na mochila, que eu vou com um tamanco e um vestido pra nao sujar, pra ficar mais bonita lá na festa. É um vestido preto cheio de brilhante e um tamanco desse tamanco que tem um saltinho assim”.
  55. 55. SONORA Marina SONORA Cristiane “Ai Jesus é meu, oh meu Deus amado. Eu fui assinar os papel, o moço falou assim pra mim: assina dona que é teu. Mas uma emoção, oh meu Deus, parecia que eu ia morrer naquela hora de tanta emoção. Aí então graças a Deus, Deus me deu essa casa. Porque a gente vinha pra cá, aí meu esposo tinha feito a inscrição desse apartamento. Nós cheguemo lá, ela falou: ixii, já saiu. Aí a gente veio visitar aqui, a gente vinha de todos os domingos fazer piquenique, ficava ali embaixo ali no jardim, passava na feira, comprava laranja, comprava banana, aqui tava tudo deserto. Não tinha luz, nao tinha água, não tinha nada. Aí conseguimos o papel da casa graças a Deus. Nós fomos na COHAB, liberou a chave pra nós, e aí no mesmo dia a gente mudou pra cá. Olha, eu realmente gosto da minha casa toda , mas sempre tem um lugarzinho que a gente gosta mais, o meu quarto, a minha sala, às vezes quando eu arrumo meu banheiro, a minha cozinha. Mas orgulho né, por causa que naquela época a gente não tinha condiçõe, era dos outros, a gente não podia fazer nada né? A gente não podia mexer porque era sempre dos outros. Mas quando é seu você pode fazer o que vc quiser, pintar, despintar, arrumar”. “Ah, eu queria uma casa com um quarto, uma cozinha. Queria um quarto pra eles, um pra
  56. 56. mim, uma sala, uma cozinha e uma lavanderia, né? É, quando eu tiver um banheiro, eu quero um banheiro com boxe, ah e quero, cerâmica, azulejo, tudo, chuveiro, pia, porque aqui até tem pia, mas não tem torneira, então é a mesma coisa de nada. O dia que eu tiver um banheiro eu vou cuidar melhor né, porque o meu eu já cuido, aí quando eu tiver um melhor eu vou cuidar melhor. Uma casa com quatro cômodos, a minha cozinha branca, um armário todo branco, entendeu? A sala eu queria ter um jogo de sofá amarelo, um tapete vermelho bem bonito no chão, um desenho que se relacione às coisas de Deus na parede da sala, um criado-mudo cor de marfim no meio. E o quarto deles uma cama azul para os meninos e uma rosa para ela e no meu quarto eu queria cor de vinho sabe? É às vezes eu fico pensando assim. Eu na minha casa assim, limpando as minhas coisas. Às vezes igual aqui assim, eu, a gente somo humilde, mas eu gosto das coisas bem organizadas né? Ter um emprego né? Pra mim cuidar deles. Porque eu não tenho emprego. Eu pego reciclagem né. Eu queria uma vida melhor pros meus meus filhos. Porque às vezes eu falo pra Deus, ai Senhor, por que eu tenho que sofrer tanto aqui com meus filhos nesse lugar. Porque eu tenho mó medo desse córrego, dos ratos. Eu tenho mó medo dos
  57. 57. SONORA Simone meus filhos pegarem uma doença grave. Ah eu queria ter um lugar melhor né? Mas eu não sei porque a situação da gente também não dá né? Mas sei lá, eu tenho fé em Deus que um dia, um dia a vida vai melhorar né? Eu creio em Deus, que um dia, um dia tudo isso aqui vai acabar. É, isso que eu queria ter uma vida melhor pros meus filhos né? Poder dar uma roupa melhor pra eles, um calçado. Uma vida melhor, uma vida digna. Não que a nossa não seja. Mas um lugar assim não seria muito bom pra eles”. “Hoje eu vim aqui na casa da minha amiga né, vim fazer uma visita pra ela, e hoje a gente tava conversando que o meu sonho, o meu e dos meus filhos é ter uma casa, um apartamento, que Deus proverá né? Meu sonho é um dia ter uma casa, sair da comunidade onde eu moro, na invasão no Jardim Maravilhas, é o sonho de todas as mães que elas quer e sair daquele lugar, pra gente ter um ambiente melhor, uma casa melhor, um estudo melhor. Ah, a casa ideal, uma casa assim que a gente teria condições de pagar, aonde nossos filhos podiam sentar, aonde ele ia ter uma sala pra poder estudar, um quarto pra deitar, uma cozinha pra você poder pegar um copo d´água e beber, de tá ali, uma casa que você hoje poderia falar
  58. 58. SONORA Nivaldo SONORA Simone SONORA Bruno SONORA Verônica assim: ah aqui é minha casa. Porque a gente mora ali, a gente tem bastante dificuldade, hoje eu acabei de sair do desemprego, mas ali a gente já passamo fome, já passamo sede pra poder sobreviver. E o meu sonho, meu objetivo meu e dos meus filhos é de ter uma casa, um lar. Uma restauração, uma vida nova”. “A coisa mais linda do mundo é você ter sua casinha. Não interessa o acabamento dela, interessa que é sua”. “Muitos queria ter uma casa, um apartamento hoje pra deitar e dormir, de você não ter gente correndo pelo beco morrendo, ou tiroteio, ou alguém usando droga na frente dos seus filho, ninguém quer isso, nenhum ser humano queremos isso pra nossos filhos na comunidade, ninguém quer ver seus filhos drogado ou se drogando, ou se prostituindo, ou tá numa biqueira ali trabalhando pra poder sobreviver, ninguém quer isso”. “Meu sonho, meu sonho é ter uma casinha”. “Eu queria ter um banheiro pra mim tomar banho todo dia. Um vaso, que é grudado e
  59. 59. SONORA Marina 30’19 CLIP IMAGENS Contraste - FAVELA/CDHU 30’43 – CLIP Animação Casinha que não solta. Um chuveiro, comum, igual todo mundo tem. E uma banheira de hidromassagem”. “Às vezes a gente sofre, mas o sofrimento a gente tem que deixar tudo pra trás, jogar tudo pra trás, o que já passou, coisa ruim, tem que jogar tudo pra trás. E prosseguir. Pra mim não tem palavra, é uma coisa muito importante, muito importante na vida da gente é ter uma casa”. *** Desce som sonora/ Sobe som música “Gente Humilde” ***

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