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CADERNO DE PAUTA
N A T A L / R N , 0 9 d e M a i o d e 2 0 1 6 . A N O 1 - E D I Ç Ã O 0 0 5
Caderno de Pauta cadernodepauta www. cadernodepauta.blogspot.com.br
Grupo Permantente de Estudo da Entrevista / Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Por Clércio Rodrigues e Thayane Guimarães
Imagem http://lanyy.jusbrasil.com.br/artigos/212899233/
LINCHAMENTOS
A JUSTIÇA DOS INCONFORMADOS
	 Há mais ou menos um
mês na capital potiguar, um ocor-
rido chamou a atenção da popu-
lação. Para alguns, um ato super-
democrático de justiça que mostra
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ens suspeitos de praticar crimes
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Center de Natal aconteceu na noite
do dia 11 de abril e desde então, ba-
seou ilustres debates que dividem
opiniões a respeito do papel e con-
ceito de cidadania.
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linchados, tiveram as roupas reti-
radas, foram obrigados a correr
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de Igapó, na Zona Norte de Natal,
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ca que assusta. O Núcleo de Estu-
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mou Jacques Noronha, estudante
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Um dos pontos mais explorados a
partir do ponto de vista dos direitos
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em circulação da cidade, não houve
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Humanos. A marginalização dess-
es Direitos contribui na construção
de uma naturalização da violência
na sociedade. Todavia, a psicóloga
alerta que para compreender
Grupo Permantente de Estudo da Entrevista / Universidade Federal do Rio Grande do Norte
N A T A L / R N , 0 9 d e M a i o d e 2 0 1 6 . A N O 1 - E D I Ç Ã O 0 0 5
EXPEDIENTE Participaram desta edição: Sebastião Albano - coordenador; Thayane Guimarães - programação visual;
Clércio Rodrigues, Isabela Maia e Thayane Guimarães - Reportagem
EXPEDIENTE
Caderno de Pauta cadernodepauta www. cadernodepauta.blogspot.com.br
Veja mais conteúdo exclu-
sivo sobre linchamentos e
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essa situação é necessário analisar
o contexto no qual nossa sociedade
está inserida: uma sociedade de
consumo, extremamente individ-
ualista – onde para um sujeito, os
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	 Outro detalhe no caso dos
suspeitos que foram obrigados
a pular da ponte de Igapó, é que
ambos os envolvidos eram meno-
res de idade. Não é surpresa para
ninguém que a realidade do crime
recruta novos atuantes desde as
primeiras fases da juventude, e
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enciamos casos envolvendo crim-
inosos menores de idade. Consid-
erando não apenas a influência da
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discussão a respeito da maioridade
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volvem “menores infratores” a
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ou aclamar a justiça. Esse tipo de
caso, porém, foi muito importante
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ga Daniela afirma que a grande
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tos ao cumprimento desta e aque-
les que devem ser sujeitados a ela”
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justiceiros, escancarado em fóruns
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mais diretas para ajudar a polícia a
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USP, em seu livro “Linchamentos:
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dos que atualmente concentram
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rem no país, e mais de um milhão
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do tipo nos últimos 60 anos.
	 Em entrevista ao Uol, o
sociólogo diz “Aparentemente, o
justiçamento no lugar da justiça
tem como fator principal a insegu-
rança, o medo e a falta de confiança
nas instituições responsáveis pela
garantia de que crimes serão apu-
rados e os criminosos punidos. No
linchamento não há nada de justo
nem de legítimo. Não há qualquer
argumento válido para defender
linchamentos. Todo linchamen-
to é um ato irracional de violên-
cia coletiva, retrógrado.” finaliza o
acadêmico.
	 De maneira geral, a dis-
cussão sobre linchamentos e jus-
ticeiros permeia as mais diversas
esferas, porém, como afirma o
professor José “A sociedade mal
tem consciência de que é grande
o número de linchamentos que
pratica. Nem os condena, nem os
legitima”. Grande parte do prob-
lema está na efemeridade dos ca-
sos: como uma bomba, estouram
e movimentam a discussão sobre
crimes assim. Porém quando a poe-
ira baixa, são esquecidos até que
uma nova onda de linchamentos
aconteça. Cabe a todos a consciên-
cia de caso, para que uma solução
seja alcançada e mais linchamentos
não ocorram. Pois afinal, não é cul-
pa somente da população inconfor-
mada, do poder público ineficiente,
ou das vítimas-bandidos injustiça-
das. É um contexto complexo que
precisa de espaço na esfera públi-
ca, e começamos com isso abrindo
a discussão em jornais acadêmicos
como este Caderno de Pauta.
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  • 2. Grupo Permantente de Estudo da Entrevista / Universidade Federal do Rio Grande do Norte N A T A L / R N , 0 9 d e M a i o d e 2 0 1 6 . A N O 1 - E D I Ç Ã O 0 0 5 EXPEDIENTE Participaram desta edição: Sebastião Albano - coordenador; Thayane Guimarães - programação visual; Clércio Rodrigues, Isabela Maia e Thayane Guimarães - Reportagem EXPEDIENTE Caderno de Pauta cadernodepauta www. cadernodepauta.blogspot.com.br Veja mais conteúdo exclu- sivo sobre linchamentos e reportagens especiais no nosso blog! essa situação é necessário analisar o contexto no qual nossa sociedade está inserida: uma sociedade de consumo, extremamente individ- ualista – onde para um sujeito, os outros são irrelevantes. Outro detalhe no caso dos suspeitos que foram obrigados a pular da ponte de Igapó, é que ambos os envolvidos eram meno- res de idade. Não é surpresa para ninguém que a realidade do crime recruta novos atuantes desde as primeiras fases da juventude, e naturalmente, cada vez mais pres- enciamos casos envolvendo crim- inosos menores de idade. Consid- erando não apenas a influência da mídia, mas também a gigantesca discussão a respeito da maioridade penal – que também é alimentada por movimentos iniciados em pro- gramas policias, por exemplo – é necessário entender o que muda quando este fator entra em jogo. No geral quando casos en- volvem “menores infratores” a população tende apenas a ignorar ou aclamar a justiça. Esse tipo de caso, porém, foi muito importante para revelar que o perigo não está apenas no estereotipado suspeito de crime, mas também no “cidadão de bem”, que justifica sua violên- cia contra o outro na necessidade de assegurar a “paz social”. Mais ainda, revela uma população total- mente alheia à existência e suposta validade da Declaração dos Dire- itos Humanos no país. A psicólo- ga Daniela afirma que a grande questão presente nesse ponto, é que “nós vivemos em uma sociedade de classes, e desta forma, as classes afetam tudo. Assim, a justiça não consegue ser igualitária e seleciona quem é o alvo das leis e para quais classes sociais elas funcionam. Os adolescentes considerados em con- flito com a lei, são somente os elei- tos ao cumprimento desta e aque- les que devem ser sujeitados a ela” O principal argumento dos justiceiros, escancarado em fóruns e em grupos sobre a crescente criminalidade nas redes sociais, é de que o poder público não detém mais o domínio sobre a situação da segurança das comunidades, e em vez de ficarem trancafiados em suas próprias casas com medo do convívio social, sustentam que a população deve sim tomar atitudes mais diretas para ajudar a polícia a sanar o problema. De acordo com o sociólogo José de Souza Martins, professor titular aposentado da USP, em seu livro “Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil”, casos como este são antigos no país: o mais antigo data de 1585, registra- do em Salvador, na Bahia. Com base em dados le- vantados pelo professor, os esta- dos que atualmente concentram o maior número desses crimes de linchamento são São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e o Pará. Das víti- mas, 10,2% são menores de idade, 43,8%, jovens de até 25 anos, 44,6%, adultos, e 1,4%, idosos. A cada dia, quatro linchamentos ou tentativas de linchamentos ocor- rem no país, e mais de um milhão de brasileiros participou de ações do tipo nos últimos 60 anos. Em entrevista ao Uol, o sociólogo diz “Aparentemente, o justiçamento no lugar da justiça tem como fator principal a insegu- rança, o medo e a falta de confiança nas instituições responsáveis pela garantia de que crimes serão apu- rados e os criminosos punidos. No linchamento não há nada de justo nem de legítimo. Não há qualquer argumento válido para defender linchamentos. Todo linchamen- to é um ato irracional de violên- cia coletiva, retrógrado.” finaliza o acadêmico. De maneira geral, a dis- cussão sobre linchamentos e jus- ticeiros permeia as mais diversas esferas, porém, como afirma o professor José “A sociedade mal tem consciência de que é grande o número de linchamentos que pratica. Nem os condena, nem os legitima”. Grande parte do prob- lema está na efemeridade dos ca- sos: como uma bomba, estouram e movimentam a discussão sobre crimes assim. Porém quando a poe- ira baixa, são esquecidos até que uma nova onda de linchamentos aconteça. Cabe a todos a consciên- cia de caso, para que uma solução seja alcançada e mais linchamentos não ocorram. Pois afinal, não é cul- pa somente da população inconfor- mada, do poder público ineficiente, ou das vítimas-bandidos injustiça- das. É um contexto complexo que precisa de espaço na esfera públi- ca, e começamos com isso abrindo a discussão em jornais acadêmicos como este Caderno de Pauta. Entre em contato conosco: Mande perguntas e sug- estões no email grupertufrn@gmail.com Perdeu alguma edição do CP? Acesse nossa Hemero- teca Digital e encontre todas as versões impressas do jor- nal do nosso Grupert Fechamos o mês de Abri/2016 com 1.013 visu- alizações no Blog. Total de 3.230 até o mês de Maio