Psicologia das Cores

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Psicologia das Cores

  1. 1. 54 reportagem 55 Psicologia das Marcas definem temáticas de suas coleções traduzindo as tendências e o conceito de seus negócios através das matizes POR Kairne Brandt fotos: © firstVIEW e divulgação Já imaginou um mundo preto e branco? Parece chato e sem vida. É aí que as cores entram, não apenas para colorir, mas também para dar vida e significado tanto para as pessoas quanto para peças, produtos e locais. Elas expressam sentimentos, passam informações, definem estilos, influenciam o ser humano de forma fisiológica e psicológica, produzem impressões, sensações e reflexos sensoriais. Mas, principalmente, são a essência da moda. Nesta reportagem, entrevistamos a distribuidora da Pantone, Blanca Liane, que nos contou sobre as pesquisas da empresa, além de marcas e estilistas que revelaram suas preferências em tonalidades que definem seus conceitos e produtos. Acompanhe:
  2. 2. 56 reportagem 57 A teoria das cores é complexa assim como sua história é antiga. E desde sua “descoberta” passou por transformações, ditando tendências no comportamento das pessoas. Em cada década, tons reinaram, em sincronia com o contexto histórico que influenciaram e movimentaram a cultura da época. A primeira notícia que se tem sobre cores é do filósofo grego Aristóteles, que concluiu que elas eram uma propriedade dos objetos, classificando-as em seis, o vermelho, o verde, azul, amarelo, preto e branco. De lá para cá, teorias foram formuladas para explicar o que é cor e como ela é formada. A cor não tem existência material, é apenas a sensação provocada pela luz sobre a visão. Portanto, só existe em função de dois elementos: luz (como estímulo) e olho (como receptor). Formada por ondas e raios eletromagnéticos, ela se torna visível ao nosso olho devido às ondas de luz visíveis que estimulam a retina, através das 130 milhões de células que transmitem para o centro visual. A infinidade de tons e suas diferenças pouco perceptíveis a um olhar leigo torna o estudo dessa arte ainda mais desafiadora. Segundo a expert em cores, fundadora da Lexus Groupe e distribuidora da Pantone no Brasil, Blanca Liane, o número de nuances que podem ser recriadas em diversas técnicas é infinito. “O sistema Pantone Moda+Casa apresenta 2.100 cores reproduzidas em algodão e com versão em papel também, sendo este número bem próximo do máximo de cores que podem ser produzidas com real diferença entre elas, a partir do olho humano comum. Em laboratório, as cores podem ser diferentes, mas o olho humano leigo capta diferenciações mais acentuadas e para tanto as cores tem que ser realmente diferentes sob condições de luz diferentes também”. As matizes que já existem na natureza precisam de padrões técnicos específicos para reprodução da mesma e, dessa forma consolidar sua existência. “Os tons mais sombreados, açucarados ou aguados são elaborados de acordo com o modo de uma época, pois são variáveis de uma cor já consolidada. A identificação de novas cores e sua entrada no sistema Pantone é um processo muito longo que envolve primeiramente a comprovação que esta será utilizada no mercado.” Frida Kahlo (1907-1954) Foi uma famosa pintora mexicana que até hoje, através de seu estilo e suas obras, influencia coleções de diversas marcas na área de vestuário e design. Enquanto as demais pessoas usavam roupas produzidas na Europa, Frida comprava tecidos exóticos da China, renda da Europa e adereços coloridos do México. E sob sua orientação, a costureira produzia as peças inventadas pela artista. O seu lar, conhecido como Casa Azul de Frida, também refletia essa abundância de cores. Atualmente, a casa é um museu, que preserva o local do mesmo jeito quando a pintora vivia ali. Para o verão 2014/15, a coleção de Rebecca Minkoff foi inspirada por fortes mulheres latino-americanas como Frida Kahlo As cores estavam tão presentes na sua vida, que em seu famoso diário Frida relatou os significados delas em suas obras e casa. Para ela, verde representava boa luz quente; o amarelo loucura, doença, medo, mas também parte do sol e da alegria, e o azul-cobalto a eletricidade, pureza e amor. A importância e a evolução das cores A utilização simbólica das cores esteve presente no cotidiano de todas as civilizações, numa ordem mítica ou religiosa, desde a antiguidade. Mas, foi com o fim da Segunda Guerra Mundial e do racionamento de tecidos, que a mulher a partir dos anos 1950, tornou-se mais feminina e diferentes tipos de tons começaram a surgir. Nos anos 1960, com a revolução social reinaram as cores psicodélicas; em 1970, com a recessão e a época de ouro da Disco comandaram as cores terrosas; nos anos 1980, com a retomada da economia e o surgimento da MTV predominaram as cores vibrantes; nos anos 1990, meios tons em contrapartida ao grunge e grafite, e nos anos 2000, com a revolução tecnológica, globalização e o minimalismo x individualismo se destacam as cores expressivas. Desde que a importância da cor dentro e fora do mercado fashion foi reconhecida, ela se tornou objeto de estudo de muitos pesquisadores. Para a professora do curso de Moda da Universidade Feevale e de especialização em Moda, Mídia e Inovação na Senac em Porto Alegre, Marina Seibert Cezar, “as cores são a essência para pensar na criação de qualquer produto, não só de moda como um vestuário, calçado ou acessório, mas essa preocupação se mostra desde gastronomia até o universo automobilístico”. Blanca complementa que a cor é a primeira coisa que notamos em qualquer situação e é a última que esquecemos. “A cor tem tanta importância, pois imprime em nós uma sensação emocional, física e espiritual que é absorvida pela memória e passa a ter significado interno e pessoal. No mercado da moda, a sedução se dá inicialmente pela cor e esta tem o papel de marcar uma estação e até mesmo uma época, que por sua vez transmite uma mensagem e deixa um imprint na história do ser humano.” Desde a criação de o visual merchandising de uma vitrine ao desenvolvimento de uma nova coleção, a cor está presente. E para definir qual será a nuance do ano, ou os tons que vão marcar a estação, profissionais de diversas áreas como os cool hunters fazem pesquisas profundas e detalhadas para chegar a um denominador comum. “Ainda que possa parecer tarefa fácil ou mesmo aleatória, os escritórios de estilo internacionais buscam inúmeras referências para edificar as escolhas de matizes das estações, na intenção de conseguirem representar de uma forma visual, os anseios das pessoas. Esses estudos visam compreender a moda como um fenômeno social que necessita de um entendimento cultural. Em momentos de restrições, por exemplo, os cidadãos naturalmente priorizam as tonalidades mais escuras, tanto como um indício de um espírito de tempo, quanto de funcionalidade. Esses pesquisadores identificam com até dois anos de antecedência qual será a cartela de cores da temporada”, explica a professora Marina. Essas pesquisas envolvem questões econômicas e políticas de cada nação, envolvendo a preferência de cores em várias áreas como a cosmética, automobilística, artes, cinema entre outros. “O cruzamento de dados de pesquisa como o uso de determinados tons em certas épocas e ou mercados também é levado em consideração. Ou seja, é uma cesta de fatores, mas o fator humano é o mais importante”, complementa Blanca.
  3. 3. 58 reportagem 59 Verde Sugere calma, tranquilidade, frescor, natureza, esperança, liberdade, juventude, além de bem-estar e saúde. Verde é a cor da esperança, da força, da longevidade, assim como da imortalidade. Fontes: “A cor como informação: a construção biofísica, linguística e cultural da simbologia das cores”, autor Luciano Guimarães. E “Psicodinâmica das cores” dos autores Modesto Farina, Clotide Perez e Dorinho Bastos. Vermelho O vermelho lembra sangue, pecado e proibição, mas também significa atenção, paixão e amor, e transmite dinamismo, força, energia e excitação. Amarelo É a cor que sugere espontaneidade, ação, dinamismo, ansiedade, impaciência, irracionalidade, além de ter conexões com prosperidade e riqueza. Verde Sugere calma, tranquilidade, frescor, natureza, esperança, liberdade, juventude, além de bem-estar e saúde. Verde é a cor da esperança, da força, da longevidade, assim como da imortalidade. Azul O azul é considerado a cor do divino, do eterno, da espiritualidade e, por isso, simboliza solenidade, relaxamento, tranquilidade, confiança, seriedade, leveza, inteligência, frieza e falta de emoção. Violeta Em tons escuros, o violeta está ligado às ideias de saudade, ciúme, angústia e melancolia, tornando-se deprimente, além de violência, engano, mistério, misticismo e profundidade. Em tons claros, é alegre, calmo, lembra autocontrole, fantasia, misticismo, delicadeza e leveza. Rosa É considerada uma cor tipicamente feminina, pois simboliza encanto, carinho, jovialidade, amabilidade, além de remeter à inocência, doçura, intimidade e suavidade. Marrom Remete ao outono, terra, sujeira, humildade, mas também ao calor, aconchego, sensualidade, fecundidade, resistência, confiabilidade e vigor. Branco Indica paz (no Ocidente), luz, neutralidade, pureza, castidade, inocência, liberdade, criatividade, limpeza, mas também indica vazio, carência, solidão, o nada, o fim e a morte (no Oriente). A cor como uma fonte de inspiração O que começou como uma brincadeira entre amigas, hoje se tornou um site que é referência em diversas áreas que abordam a questão das cores. Follow the Colours, criado pela publicitária Carol T. More, está no ar desde 2009, e conta com diversos colaboradores de conteúdo. “Para mim, é também uma forma de estudo, de conhecer coisas novas, ideias bacanas e pessoas interessantes que tem a mesma afinidade pelos assuntos abordados”. A paixão pelas cores iniciou na infância e desde então Carol repara em tudo ao seu redor e, segundo ela, o blog foi uma forma de expressar o interesse pelo assunto. “Estou sempre de olho em sites e blogs que tenho como referência. Entro, pesquiso, saio, entro em outro, pesquiso, até achar algo bacana para postar. Acho que acabei virando uma curadora de conteúdo mesmo. Quando eu saio para a rua, viajo, observo sempre as pessoas, estou sempre pensando em o que viraria uma matéria legal para postar. O que era uma seleção pessoal acabou caindo no gosto dos leitores do blog, que curtem design, cores, arte e boas inspirações”. Para Carol, cada cor tem um significado, sendo que ela influencia diretamente no humor e também na cartela de uma coleção de roupas ou de um ambiente. “Se hoje você vê uma pessoa com uma blusa azul na rua, saiba que nada é por acaso. Há uma equipe que trabalhou em cima de tendências e momentos em que o mundo está vivendo. O que está por trás de algo, muitas vezes não tem sentido para a maioria do público”, frisa. A escolha de um determinado tom é resultado de muitas pesquisas, que envolvem tendências, comportamento, análises e uma série de outros fatores, que são traduzidos em uma infinidade de cores, influenciando o dia o dia das pessoas. As cores pelas marcas Deixar o gosto pessoal de lado e estar atualizado são apenas alguns dos cuidados básicos que se deve ter na hora da definição da cartela cromática. “A paleta de cores para uma coleção precisa ser coerente entre si e possuir uma clareza sobre o que se quer expressar. Vale lembrar também que o criador, além de estar sempre atualizado, precisa ter um cuidado cultural para saber respeitar os costumes e crenças locais”, aconselha a professora Marina. Para a estilista da marca de camisas TricTric, Simone Beckel, é preciso também estar atento as tendências de cores e estampas apresentadas pelo mercado a cada estação. “Ao mesmo tempo, como consumidor ou estilista, acho que não devemos deixar de lado nossas individualidades, nossas referências próprias e apostar na personalidade”. Em algumas marcas, as cores são definidas de acordo com a temática da coleção. “Influi, quando escolho uma cor, imagino logo um vestido, uma blusa, uma ocasião, um look. Como aquela cor se comporta na modelagem do produto, e no corpo da mulher, passam mil coisas na cabeça e vai desde os primeiros desenhos até o produto acabado na loja pronto para venda”, conta a coordenadora de estilo da marca Enjoy, Adriana Assunção. Um exemplo dessa influência é a coleção de verão 2014 da marca infantil Forrozinho de Gala, que tem como tema Jardim. Na produção das peças, foi usado tonalidades vivas como verde, azul, vermelha e estampas de flores, folhas e joaninhas. “No nosso trabalho, as cores adequadas podem definir o sucesso ou o fracasso comercial de uma coleção”, afirma a sócia da marca Patrícia Fagundes. Os estudos de cartelas cromáticas oferecidas em vários bureaus de moda e os desfiles internacionais servem de fontes para as marcas. “Deles extraímos o que mais se parece com nossa marca, depois à ela vamos acrescentando cores que amamos, que têm a ver com o tema da coleção, por exemplo. Também não podemos esquecer nunca das cores (ou ausência delas) que independem de moda e que sempre vendem em bijus, como marfim, preto, marrom, vermelho, etc”, frisa a designer de joias Mary Figueiredo Arantes. A marca de calçados Keds estrutura suas coleções com um ano de antecedência. “O perfil do consumidor que queremos seduzir interfere diretamente na escolha das cores, por isso é importante observar comportamentos, tendências de consumo e para onde esse público está indo”, destaca Janete Reis Silva, gerente de produto da BlendSport. A cultura bem particular do Brasil é outra Tênis Keds Vestido Forrozinho de Gala aposta de muitas marcas na hora de desenvolver uma coleção. “A minha tem como referência a brasilidade, nosso sol e nosso colorido imenso! Ela é totalmente movida à cor. Na minha vida pessoal, tenho uma forma de vestir muito própria, amo estampa, cor e bordado, minhas roupas têm sempre muita informação. Percebo também que minha casa é um resultado disso, desse amor pela arte e artesanato brasileiro, do que me influencia como pessoa e estilista. Uma das coisas que acho perceptível no mercado é o gosto do brasileiro pelas cores. No inverno, por exemplo, em que determinadas regiões do país, ele nem acontece, nem pensar em fazer uma cartela sombria. Ser brasileiro significa ser pessoa colorida”, conta Mary. As cores têm papel de protagonistas nas coleções, traduzindo as tendências de uma estação e o conceito de cada marca. “São elas que dão vida às formas, conceitos e traduzem o enredo da coleção, e nos ajudam também a atualizar modelos clássicos do guarda-roupa com uma nova cor, fazendo uma releitura ou até mesmo criando algo novo”, argumentou Adriana Assunção, que escolhe suas roupas de acordo com seu estado de espírito. Para a Keds, as matizes são o ponto de partida da coleção que auxilia também na identificação de seu público-alvo. “Cada gama tem uma vibração diferente e graças a variação delas conseguimos contar histórias diferentes a cada estação. Sem elas, fica impossível mostrar a força dos temas, sua origem e, principalmente, despertar sentimentos nos consumidores. A influência das composições cromáticas são fundamentais nas nossas coleções, pois despertam emoções, memórias e sentimentos que tem relação direta com nosso público”, salienta Janete. Pulseira May Design Camisa TricTric Vestido Enjoy Laranja É uma cor terciária, tem característica luminosa, e transmite sensação de euforia, energia, prazer, senso de humor, além de fertilidade, generosidade e força.

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