2015
BE da ESA
Corpus Literário
06-02-2015
VIII Tertúlia Literária
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
1
1 - Carolina Marques
Boa e inesperável oportunidade para fazer uma diabrura – e das gra...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
2
Elogio ao amor
Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma
co...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
3
compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto
pode como não p...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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Era uma vez uma linda moça que perguntou a um lindo rapaz:
- Você quer casar comigo?
El...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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Ganho o Norte
Ganho a vida
Ganho um samba de cordão
Tenho a noite já vencida
Na palma d...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
6
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Trê...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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O Banheiro
Não é o lar o último recesso do homem civilizado, sua última fuga, o
derrade...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
8
constante num mundo encharcado de instabilidade. É nesse mesmo
banheiro que o filho de ...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
9
Xantipa, que diabo, me joga essa toalha!
Millôr Fernandes, Crónicas
7 - Rodrigo e Sérgi...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
10
Depus a Máscara
Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
11
Era uma vez
Era uma vez... numa terra muito distante... uma princesa linda,
independen...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
12
É hora, é hora
É hora de roda
Jogo a vida, jogo a tarde
Jogo a faca e a razão
Jogo o m...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
13
Carolina Marques, Gabriel Algarve, Mariana Cardoso, Rodrigo
Mendes, Sérgio Silva
A los...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
14
13 - Ana Paula Teixeira, Miguel Assis
O homem trocado
O homem acorda da anestesia e ol...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram
felizes.
- Por ...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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14 – Adelaide Simões
Restos do carnaval
Não, não deste último carnaval. Mas não sei po...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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baixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se
derretesse pe...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim
e, numa mistura...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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16 - Miguel Assis
Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que ...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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17 – Bartolomeu Dutra
Música
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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Diseur Autor
1 – Carolina Marques Mário Zambujal
2- José Jacinto Miguel Esteves Cardos...
Tertúlia VIII «Tempo de máscara»
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Corpus Literário da VIII Tertúlia literária «Tempo de Máscara»

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Textos e diseurs da VIII Tertúlia Literária «Tempo de Máscara», que decorreu no Pavilhão Desportivo do Alto do Moinho, dia 6.02.2015, integrada no VIII Encontro Intercultural de saberes e Sabores

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Corpus Literário da VIII Tertúlia literária «Tempo de Máscara»

  1. 1. 2015 BE da ESA Corpus Literário 06-02-2015 VIII Tertúlia Literária
  2. 2. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 1 1 - Carolina Marques Boa e inesperável oportunidade para fazer uma diabrura – e das grandes! A Sesinanda partiu para o Algarve serrano por motivo do falecimento de familiar próximo. É lugar-comum mas sábio, “os males de uns são a sorte de outros”. Hoje posso meter cá em casa quem eu quiser. Em casa? Na minha cama, se me der na veneta! Convoco o Bento? Chegaria aqui num relâmpago. Mas, calma, para já nada de planos. Mário Zambujal, O diário oculto de Nora Rute (Pode anteceder o texto de Miguel Esteves Cardoso, Elogio ao amor) 2 - José Jacinto
  3. 3. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 2 Elogio ao amor Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível (…). Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. (…) Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. (…) O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos
  4. 4. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 3 compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. (…) A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também." Elogio ao amor - Miguel Esteves Cardoso - Expresso 3 - Mariana Cardoso
  5. 5. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 4 Era uma vez uma linda moça que perguntou a um lindo rapaz: - Você quer casar comigo? Ele respondeu: - NÃO! E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, fez compras, conheceu muitos outros rapazes, visitou muitos lugares, foi morar na praia, comprou outro carro, mobiliou sua casa, sempre estava sorrindo e de bom humor, nunca lhe faltava nada, bebia cerveja com as amigas sempre que estava com vontade e ninguém mandava nela. O rapaz ficou barrigudo, careca, o pinto caiu, a bunda murchou, ficou sozinho e pobre, pois não se constrói nada sem uma MULHER. Luis Fernando Veríssimo 4 - Carolina Marques, Gabriel Algarve, Mariana Cardoso, Rodrigo, Sérgio Silva
  6. 6. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 5 Ganho o Norte Ganho a vida Ganho um samba de cordão Tenho a noite já vencida Na palma da minha mão 5 - Simão Cadete
  7. 7. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 6 Pachos na testa, terço na mão, Uma botija, chá de limão, Zaragatoas, vinho com mel, Três aspirinas, creme na pele Grito de medo, chamo a mulher. Ai Lurdes que vou morrer. Mede-me a febre, olha-me a goela, Cala os miúdos, fecha a janela, Não quero canja, nem a salada, Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada. Se tu sonhasses como me sinto, Já vejo a morte nunca te minto, Já vejo o inferno, chamas, diabos, Anjos estranhos, cornos e rabos, Vejo demónios nas suas danças Tigres sem listras, bodes sem tranças Choros de coruja, risos de grilo Ai Lurdes, Lurdes fica comigo Não é o pingo de uma torneira, Põe-me a Santinha à cabeceira, Compõe-me a colcha, Fala ao prior, Pousa o Jesus no cobertor. Chama o Doutor, passa a chamada, Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada. Faz-me tisana e pão de ló, Não te levantes que fico só, Aqui sozinho a apodrecer, Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer António Lobo Antunes - (Sátira aos HOMENS quando estão com gripe) 6 - Miguel Rodrigues
  8. 8. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 7 O Banheiro Não é o lar o último recesso do homem civilizado, sua última fuga, o derradeiro recanto em que pode esconder suas mágoas e dores. Não é o lar o castelo do homem. O castelo do homem é seu banheiro. Num mundo atribulado, numa época convulsa, numa sociedade desgovernada, numa família dissolvida ou dissoluta só o banheiro é um recanto livre, só essa dependência da casa e do mundo dá ao homem um hausto de tranquilidade. É ali que ele sonha suas derradeiras filosofias e seus moribundos cálculos de paz e sossego. Outrora, em outras eras do mundo, havia jardins livres, particulares e públicos, onde o homem podia se entregar à sua meditação e à sua prece. Desapareceram os jardins particulares, pois o homem passou a viver montado em lajes, tendo como ilusão de floresta duas ou três plantas enlatadas que não são bastante grandes para ocultar seu corpo da fúria destrutiva da proximidade forçada de outros homens. Não encontrando mais as imensidões das praças romanas que lhe davam um sentido de solidão, não tendo mais os desertos, hoje saneados, irrigados e povoados, faltando-lhe as grutas dos companheiros de Chico de Assis, onde era possível refletir e ponderar, concluir e amadurecer, o homem foi recuando, desesperou e só obteve um instante de calma no dia em que de novo descobriu seu santuário dentro de sua própria casa — o banheiro. Se não lhe batem à porta outros homens (pois um lar por definição é composto de mulher, marido, filho, filha e um outro parente, próximo ou remoto, todos com suas necessidades físicas e morais) ele, ali e só ali, por alguns instantes, se oculta, se introspecciona, se reflete, se calcula e julga. Está só consigo mesmo, tudo é segredo, ninguém o interroga, pressiona, compele, tenta, sugere, assalta, Aqui é que o chefe da casa, à altura dos quarenta anos, olha os cabelos grisalhos, os claros da fronte, e reflete, sem testemunhas nem cúmplices, sobre os objetivos negativos da existência que o estão conduzindo — embora altamente bem sucedido na vida prática — a essa lenta degradação física. Examina com calma sua fisionomia, põe-se de perfil, verifica o grau de sua obesidade, reflete sobre vãs glórias passadas e decide encerrar definitivamente suas pretensões sentimentais, ânsia cada vez maior e mais
  9. 9. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 8 constante num mundo encharcado de instabilidade. É nesse mesmo banheiro que o filho de vinte anos examina a vaidade de seus músculos, vê que deve trabalhar um pouco mais seus peitorais, ensaia seu sorriso de canto de boca, fica com um olhar sério e profundo que pretende usar mais tarde naquela senhora mais velha do que ele mas ainda cheia de encantos e promessas. É aqui que a filha de 17 anos vem ler a carta secreta que recebeu do primo, cujos sentimentos são insuspeitados pelo resto da família. Já leu a carta antes, em vários lugares, mas aqui tem o tempo e a solidão necessários para degustá-la e suspirá-la. É aqui também que ela vem verificar certo detalhe físico que foi comentado na rua, quando passava por um grupo de operários de obras, comentário que na hora ela ouviu com um misto de horror e desprezo. É aqui que a dona de casa, a mãe de família, um tanto consumida pelos anos, vem chorar silenciosamente, no dia em que descobre ou suspeita de uma infidelidade, erro ou intenção insensata da parte do marido, filho, filha, irmãos. Aqui ninguém a surpreenderá, pode amargurar-se até aos soluços e sair, depois de alguns momentos, pronta e tranqüila, com a alma lavada e o rosto idem, para enfrentar sorridente os outros misteriosos e distantes seres que vivem no mesmo lar. Não há, em suma, quem não tenha jamais feito uma careta equívoca no espelho do banheiro nem existe ninguém que nunca tenha tido um pensamento genial ao sentir sobre seu corpo o primeiro jato de água fria. Aqui temos a paz para a autocrítica, a nudez necessária para o frustrado sentimento de que nossos corpos não foram feitos para a ambição de nossas almas, aqui entramos sujos e saímos limpos, aqui nos melhoramos o pouco que nos é dado melhorar, saímos mais frescos, mais puros, mais bem dispostos. O banheiro é o que resta de indevassável para a alma e o corpo do homem e queira Deus que Le Corbusier ou Niemeyer não pensem em fazê-lo também de vidro, numa adaptação total ao espírito de uma humanidade cada vez mais gregária, sem o necessário e apaixonante sentimento de solidão ocasional. Aqui, neste palco em que somos os únicos atores e espectadores, neste templo que serve ao mesmo tempo ao deus do narcisismo e ao da humildade, é que a civilização hodierna encontrará sua máxima expressão, seu último espelho — que é o propriamente dito.
  10. 10. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 9 Xantipa, que diabo, me joga essa toalha! Millôr Fernandes, Crónicas 7 - Rodrigo e Sérgio Silva
  11. 11. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 10 Depus a Máscara Depus a máscara e vi-me ao espelho. — Era a criança de há quantos anos. Não tinha mudado nada... É essa a vantagem de saber tirar a máscara. É-se sempre a criança, O passado que foi A criança. Depus a máscara, e tornei a pô-la. Assim é melhor, Assim sem a máscara. E volto à personalidade como a um términus de linha. Álvaro de Campos, in "Poemas" 9 - Ana Paula Teixeira
  12. 12. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 11 Era uma vez Era uma vez... numa terra muito distante... uma princesa linda, independente e cheia de autoestima. Ela se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo era relaxante e ecológico... Então, a rã pulou para o seu colo e disse: linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Uma bruxa má lançou-me um encanto e transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo. A tua mãe poderia vir morar connosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavar as minhas roupas, criar os nossos filhos e seríamos felizes para sempre... Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria, pensando consigo mesma: - Eu, hein?... nem morta! Luís Fernando Veríssimo 11 - Carolina Marques, Mariana Cardoso
  13. 13. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 12 É hora, é hora É hora de roda Jogo a vida, jogo a tarde Jogo a faca e a razão Jogo o mundo à sua sorte E a mentira eu jogo ao chão. 12 -
  14. 14. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 13 Carolina Marques, Gabriel Algarve, Mariana Cardoso, Rodrigo Mendes, Sérgio Silva A los toros, A los toros, A los toros, Adolfito mata-mouros. (bis) Adolfito bigodinho era um toureiro, Que dizia que vencia o mundo inteiro, E num touro que morava em certa ilha, Quis espetar sua bandarilha. Mas o touro não gostou da patuscada, Pregou-lhe uma chifrada. Tadinho do rapaz! E agora o Adolfito, caracoles, Soprado pelos foles, Perdeu o seu cartaz.
  15. 15. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 14 13 - Ana Paula Teixeira, Miguel Assis O homem trocado O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem. - Tudo perfeito - diz a enfermeira, sorrindo. - Eu estava com medo desta operação... - Por quê? Não havia risco nenhum. - Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos... E conta que os enganos começaram com seu nascimento. Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês. - E o meu nome? Outro engano. - Seu nome não é Lírio? - Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e... Os enganos se sucediam. Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista. - Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil. - O senhor não faz chamadas interurbanas? - Eu não tenho telefone!
  16. 16. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 15 Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. - Por quê? - Ela me enganava. Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: - O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. - Se você diz que a operação foi bem... A enfermeira parou de sorrir. - Apendicite? - perguntou, hesitante. - É. A operação era para tirar o apêndice. - Não era para trocar de sexo? Luis Fernando Veríssimo
  17. 17. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 16 14 – Adelaide Simões Restos do carnaval Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. Não me mascaravam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira. Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma. Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, em
  18. 18. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 17 baixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho, que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola. Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa. Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava. Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria. Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para
  19. 19. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 18 mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa. Restos do carnaval, de Clarice Lispector
  20. 20. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 19 16 - Miguel Assis Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo. Luis Fernando Veríssimo
  21. 21. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 20 17 – Bartolomeu Dutra Música
  22. 22. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 21 Diseur Autor 1 – Carolina Marques Mário Zambujal 2- José Jacinto Miguel Esteves Cardoso 3 – Mariana Cardoso Luis Fernando Veríssimo 4 – Gabriel, Rodrigo, Sérgio, Mariana, Carolina José Carlos Jobim 5 – Simão Cadete António Lobo Antunes 6 – Miguel Rodrigues Millôr Fernandes 7 – Sérgio, Rodrigo Álvaro de Campos 8 - Bartolomeu Dutra Música 9 - Paulinha Luis Fernando Veríssimo 10 – Miguel Assis Luis Fernando Veríssimo 11 – Mariana, Carolina José Carlos Jobim 12 - Gabriel, Rodrigo, Sérgio, Mariana, Carolina José Carlos Jobim 13 - Miguel Assis, Paulinha Luis Fernando Veríssimo 14 - Fernanda Bucho Clarice Lispector 15 – Isabel Tavares Carlos Lyra e Vinicius de Moraes 16 – Miguel Assis Luis Fernando Veríssimo 17 – Bartolomeu Dutra Música
  23. 23. Tertúlia VIII «Tempo de máscara» 22

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