Queimadas e os impactos da guerra contra belo monte

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Queimadas e os impactos da guerra contra belo monte

  1. 1. UNEB – UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Campus XIV – Departamento de Educação Curso de Licenciatura em História José da Silva AraújoQUEIMADAS E OS IMPACTOS DA GUERRA CONTRA O BELO MONTE Conceição do Coité/BA 2011
  2. 2. José da Silva AraújoQUEIMADAS E OS IMPACTOS DA GUERRA CONTRA O BELO MONTE Monografia apresentada ao Colegiado do Curso de História, como requisito básico para a obtenção do grau de Licenciatura Plena. Orientadora: Professora Mrs. Iris Verena Santos de Oliveira. Conceição do Coité/BA 2011
  3. 3. TERMO DE APROVAÇÃO José da Silva Araújo QUEIMADAS E OS IMPACTOS DA GUERRA CONTRA O BELO MONTE__________________________________________________________ Orientadora: Professora Mrs. Iris Verena Santos de Oliveira UNEB – UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA__________________________________________________________ Professor Mrs. José Plínio de Oliveira__________________________________________________________ Professor Mrs. Eduardo BorgesData da aprovação _____/_____/_______ Conceição do Coité/BA 2011
  4. 4. DEDICATÓRIAS À Joede, Hítalo, Anísia, Ezequiel, Landy, Nólia e Giovanna Vitória, integrantesda família que tanto me apóiam. À Emanuel Lírio (Nel), Marcos Murilo, Mário César (Cesinha), Paulo Amador(Paulinho), Paulo Taciano (Cinho), Floriano Esteves (Estevinho), Professora CelesteSilva, Kelly, Luziene, Robson Ribeiro, Raimundinho, Marco Sales, Consuelo , JoséRenato, José Miguel, Vera Góes, James, Rarichel e Jane Varjão. Entusiastas ebrilhantes educadores (as) que não apenas conhecem, mas têm orgulho da históriade Queimadas. Ao colega luzense Renato Pereira, permanente interlocutor das coisas de ummundo espetacular e prazeroso denominado Sertão.
  5. 5. AGRADECIMENTOS Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Bendito seja Deus pelo dom da vida e pela força na lida. Não fosse a atuaçãode algumas pessoas o presente trabalho não existiria. Agradeço especialmente aminha orientadora, Professora Iris Verena pelas sábias e consistentes orientaçõesproporcionadas. Em todos os momentos que recorri à mesma fui correspondido eatendido com o máximo de atenção. Com ela aprendi, dentre muitas outras coisas, aadmirar e valorizar a vida, os dramas e as vivências das classes populares da Bahiae do Brasil. Além do que, é imperioso salientar acerca do apoio irrestrito que recebino que concerne à temática da pesquisa, pois em momento algum Professora Irisfez objeção, colocou empecilhos, tentou “mudar o meu foco”, ou desencorajar-meem meu intento. Agradeço também ao Professor Plínio Oliveira. A despeito de sua vastíssimaerudição, de ser um dos maiores conhecedores do fenômeno social constituído pelafundação/destruição da comunidade de Belo Monte, nunca se esquivou em trocarideias com um neófito, apontando sendas de análise e interpretação, partilhandoseus inúmeros saberes, suas vivências construídas a partir de múltiplas leituras,mas, sobretudo de suas constantes andanças no sertão de Canudos, participandodas tradições culturais, dos ritos e festividades, praticados por seus habitantes, emgrande medida herdados dos seguidores do Conselheiro. Digna de meus agradecimentos também é a Mrs. Professora AdrianaBoudoux que, com uma sensibilidade peculiar, me auxiliou sobremaneira e enxergoucerta qualidade na confecção de minha escrita — grande incentivo para a realizaçãodesta pesquisa.
  6. 6. SUMÁRIOApresentação ........................................................................................................ 07Introdução ............................................................................................................. 08Capítulo I: Santo Antônio das Queimadas no Século XIX.1.1 Os fatores do povoamento .............................................................................. 141.2 A evolução político-administrativa de Queimadas ......................................... 201.3 Queimadas no alvorecer da República ........................................................... 24Capítulo II: A guerra empreendida contra o Belo Monte e seus impactosmateriais em Santo Antônio das Queimadas.2.1 A fragilidade dos motivos da guerra contra o Belo Monte .............................. 282.2 O estopim do conflito contra o Belo Monte ..................................................... 372.3 Os impactos materiais que o município de Queimadas sofreu advindosdo conflito contra o Belo Monte............................................................................. 40Capítulo III: Os impactos subjetivos da guerra contra Belo Monte ocorridosno município de Santo Antônio das Queimadas.3.1 Os impactos psicológicos ............................................................................... 483.2 Os impactos políticos e ideológicos ................................................................ 543.3 Queimadas: as visões dos forasteiros ........................................................... 58Considerações finais .............................................................................................61Lista de fontes .......................................................................................................63Referências bibliográficas ..................................................................................... 66Anexos .................................................................................................................. 69
  7. 7. 7 APRESENTAÇÃO A historiadora Maria Saenz Leme afirmou no prefácio da obra AntônioConselheiro: a fronteira entre a civilização e a barbárie (2001), que contar a históriado Brasil é contar a história do sertão. Este mesmo sertão nordestino que, não raro,é caracterizado a partir de visões estereotipadas construídas por escritores,cineastas, artistas plásticos, escultores, entre outros, é, no entanto, habitado porhomens e mulheres briosos (as), capazes de engendrar autênticas expressõesculturais, de desenvolver estratégias criativas de resistência às injustiças sociais,com vistas a superar os entraves que lhes foram impostos pelo meio natural ougerado por espertalhões de plantão que tiram proveito da miséria alheia, cujosexemplos mais eloqüentes são “os famigerados empresários da indústria da seca”. O Sertão concebido aqui aparece na perspectiva de um território nãosubserviente aos ditames das classes dominantes, como “território de revolta”, decontestação às práticas autoritárias tão bem realizada pelos sertanejos de Canudosao defenderem indomitamente seus lares violados, invadidos por milhares demilitares. Esta comunidade heróica que não se rendeu, tão discutida eproblematizada por diferentes trabalhos inspirou a confecção de mais um. Destafeita para demonstrar que a guerra contra Belo Monte também foi nefasta para oshabitantes de Queimadas. Este trabalho empreende algumas reflexões relativas aos impactos que omunicípio de Queimadas sofreu na condição de base de operações durante boaparte da guerra contra o Belo Monte. O primeiro capítulo discute os fatores quecontribuíram para o povoamento do território e, por conseguinte, para a evoluçãopolítico-administrativa da localidade. A parte final analisa o contexto histórico daProclamação da República, bem como a receptividade dos queimadenses comrelação ao novo regime de governo. O segundo capítulo versa sobre os motivosengendrados por latifundiários, membros da elite letrada e do clero, políticos, entreoutros, que foram decisivos para a eclosão da guerra. Aqui também são discutidosos impactos materiais do conflito vivenciados pelos habitantes de Queimadas. O terceiro e último capítulo trata dos impactos subjetivos (com destaque parao medo) sofrido pelas autoridades e munícipes, causados pelas mais diferentesformas, na configuração das relações dos militares com os habitantes locais.
  8. 8. 8 INTRODUÇÃO Em 1º de dezembro de 2010, o município de Queimadas/BA recebeu a visitade vários militares. É que na manhã do mesmo dia duas agências bancárias dacidade foram assaltadas por 15 homens fortemente armados. Daí a presença devários militares naquele território tentando capturar os meliantes que haviam deixadoboa parte da população em pânico, pois além de dispararem suas armas váriasvezes “para cima”, assassinaram um pai de família, servidor público municipal.Contudo, não fora a primeira vez que militares em serviço penetraram nas terrasqueimadenses, quebrando a monotonia marcante da vida sertaneja naquelesrincões. Isso porque, há 114 anos milhares de soldados, das forças estaduais e,sobretudo, federais, estiveram em Queimadas com o fito de destruir o arraial deCanudos, exterminar todos os seus moradores (estimados em cerca de 20.000) esalvar a República do risco iminente de ser solapada por um reduto de facínoras,adeptos da Monarquia há pouco derrubada. Estes eram pontos de vistacompartilhados por muitas autoridades, jornalistas e intelectuais brasileiros daépoca. Nos idos de 1893, o peregrino Antônio Vicente Mendes Maciel, maisconhecido por Antônio Conselheiro, escolheu um lugarejo obscuro e abandonado, àsmargens do rio Vaza-Barris para fixar residência, juntamente com seus seguidores,após mais de vinte anos de peregrinação pelo interior do Nordeste. A sociedade quesurgia na “fazenda velha”, também conhecida como Canudos, era composta por umuniverso heterogêneo de pessoas: camponeses pobres, ex-escravos, fazendeiros,comerciantes, beatos devotos, entre outros. A maioria esmagadora dos moradoresde Canudos ou de Belo Monte — como era denominada pela maioria das pessoasque lá residiam — era constituída por homens e mulheres sem perspectivas na vida,alijados das condições básicas de sobrevivência e excluídos das políticas públicasque eram implementadas no período em outras porções do país. Em Canudosencontravam uma sociedade menos injusta e mais fraterna que aquela a que dantespertenciam. Ali tinham acesso a terras para plantar, para criar seus animais e, destemodo, garantir o sustento de si e da própria família, sem serem exploradoseconomicamente ou injustiçados pelos fazendeiros do Sertão, pelos coronéis doNordeste. Este fato tornou-se conhecido em muitos lugares nordestinos. Assim
  9. 9. 9sendo, famílias de diferentes partes da Bahia, Sergipe, Pernambuco, entre outros,decidiam vender seus pertences e caminhar dias seguidos demandando acomunidade de Canudos para também integrá-la. Sobre este assunto, o Barão deJeremoabo1 assim se expressou: “Alguns lugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe, ficaram desabitados, tal a aluvião de famílias que subiam para os Canudos [...]. Causava dó verem-se expostos à venda nas feiras, extraordinária quantidade de gado cavalar, vacum, caprino, etc., além de outros objetos, por preços de nonada, como terrenos, casas, etc. O anelo extremo era vender, apurar algum dinheiro e ir reparti-lo com o Santo Conselheiro” (MARTINS apud CUNHA, 2003, p. 186). O discurso do Barão de Jeremoabo denota o grande poder de atração que acidadela de Canudos passou a exercer, sobretudo a partir de 1894, sobre pessoasde distintos lugares. Além do que, outros escritos explicitam a preocupação dasclasses dominantes do meio rural, que circundava Canudos, com relação aocrescimento da comunidade, pois preconizavam que os habitantes canudensespraticavam o saque, o roubo nas propriedades vizinhas e outros diversos delitos.Desmentindo estas afirmativas a historiadora Isaura Queiroz em sua obra Omessianismo no Brasil e no mundo salientou: Assim, havendo uma estrutura e organização interna do povoado, o controle era exercido de acordo com os preceitos do chefe. Desde a fase errante, os testemunhos “são todos acordes em confessar que à população que o seguia jamais consentiu ou patrocinou desmandos ou atentados contra a propriedade ou contra pessoas” sendo raríssimos os crimes e as disputas; exigia dos adeptos um comportamento inteiramente conforme a sua noção de moral, “combatia o roubo, a mentira, o homicídio, não admitindo também “que vivessem juntos casais não casados na Igreja”, pois não tolerava o amor livre de modo que as meretrizes eram, infalivelmente, expulsas do povoado (QUEIROZ, 2003, p. 235). Considerando a citação da historiadora depreende-se que Canudos não eraum ajuntamento de farândolas, de criminosos foragidos da justiça como apregoavam1 Trata-se de Cícero Dantas Martins. Nasceu em 28 de junho de 1838 na fazenda Caritá, municípiode Jeremoabo. Tornou-se Bacharel pela Faculdade de Direito de Recife, iniciou-se nas atividadespolíticas ainda estudante e, embora ao longo de sua vida haja desenvolvido múltiplas atividades, foiessencialmente, um homem político. Foi proprietário de 61 fazendas, algumas das quais na região deCanudos. Faleceu em 1903 (SAMPAIO, Consuelo Novais. Canudos: cartas para o Barão. — 2. ed.— São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2001, p. 17 – 18).
  10. 10. 10determinados membros das elites agrárias e diversos intelectuais brasileiros doperíodo. Pelo contrário, a comunidade canudense era organizada, liderada por umchefe austero que coibia os crimes e tolhia as desordens – Antônio Conselheiro.Dessa maneira, até fins de 1896 a comunidade crescia com paz e harmonia entre sie com as povoações circunvizinhas. A partir de novembro de 1896 a sociedade canudense seria vítima daconspiração de um juiz de Direito da cidade de Juazeiro,2 de alguns políticosbaianos, de fazendeiros sertanejos que estavam perdendo mão de obra paraCanudos, entre outros. Em conjunto passaram a reclamar às autoridades estaduaise, posteriormente, às federais, com destaque para o Presidente da RepúblicaPrudente de Morais que aniquilassem Canudos urgentemente. Entretanto, acomunidade resistiu heroicamente, a quatro expedições militares, até que o Estadoreforçou a IV expedição e conseguiu exterminar completamente os pobressertanejos de Canudos. Após os insucessos da primeira expedição em Uauá (novembro de 1896), orecém-criado município de Queimadas (instalado em 1887) ganhou posição dedestaque na sangrenta e infundada guerra que os governos estadual e federalrealizaram contra o povo de Canudos. Dessa maneira, entre fins de novembro de1896 e outubro de 1897 a cidade de Queimadas constituiu a primeira base deoperações na guerra canudense. Em Queimadas ficavam sediados o “hospital desangue”, armazéns de víveres, materiais bélicos, rações e forragens para os bois deabate e os animais de montaria. Entretanto, todos estes empreendimentos oficiaisalteraram o modo de vida e a dinâmica existencial dos habitantes em geral e dasautoridades do município. Isso porque, a grande concentração de soldados, aindaque por pouco tempo, na sede de um município recém-emancipado e que dispunhade parcos recursos econômicos, com arrecadação de verbas públicas totalmenteinsuficientes para cobrir os gastos da municipalidade, causavam despesasacentuadas com alimentação, compras e/ou aluguéis de animais de tração,carroças, aquisição de medicamentos, esparadrapos etc. Em outras palavras, os2 Dr. Arlindo Leoni. O mesmo, na ocasião, estava sendo juiz em Juazeiro. Contudo já havia sidomagistrado na comarca de Bom Conselho, quando em 1893, Antônio Conselheiro e seus seguidoresqueimaram os editais de cobrança de impostos. O juiz fugiu às pressas temendo ser morto. Tornou-se um eterno desafeto do conselheiro e passou a reivindicar a destruição de Canudos com todos osseus moradores (CUNHA, 2003, p. 226).
  11. 11. 11recursos públicos que deveriam ser empregados para a melhoria da qualidade devida de uma população que habitava uma das regiões mais pobres do estado,“foram destinados a prover parte das necessidades básicas de três expediçõesmilitares com destino ao arraial de Canudos” (CUNHA, 2003, p. 361). A condição de base de operações desestruturou a vida econômica domunicípio. O comércio tornou-se decadente, reduzido a poucas casas comerciais eque ainda assim vendiam pouquíssimos produtos; o medo coletivo se apoderou daquase totalidade da população, levando-a a abandonarem os serviços agrícolas e serefugiarem na casa de parentes ou amigos que viviam em outros lugares. Atitudeque se justifica devido às notícias que circulavam a respeito dos feitos passados dealguns oficiais, com destaque para o Coronel Moreira César ou ainda pelas ações deindelicadezas praticadas pelos militares entre si e/ou contra os habitantesqueimadenses. Aqueles que preferiram ficar na cidade sofreram pressõespsicológicas diversas: eram testemunhas oculares de cenas fortes, observavam achegada de militares aterrorizados, tomados de pavor, chegar da região conflagrada,dilacerados por diversos espinhos, mutilados, ensangüentados; outros carregadosem padiolas, mortos. Na quarta expedição, por exemplo, as tropas permaneceram na cidade pormais de dois meses. Sendo assim, realizavam exercícios militares diversos, tocavambandas de músicas marciais, ou como afirmou o escritor Euclides da Cunha, em suaobra Os Sertões (2003), “os dias começaram a escoar-se monotonamente emevoluções e manobras, ou exercícios de fogo, numa linha de tiro improvisada numsulco aberto na caatinga próxima”. Todas estas ações militares incomodavam osossego, o descanso da população, causavam irritação em vários moradores. Osmais abastados tinham que estar sempre de prontidão para fazer favores, concederbenesses às tropas: bois, carneiros, galinhas, feijão, farinha eram requisitados paraa alimentação. Muitos tiveram que “ceder” seus cavalos, suas melhores montariaspara diversos oficiais e, não obstante isso, foram acusados por várias autoridadespolíticas e militares de serem adeptos da Monarquia e fiéis colaboradores de AntônioConselheiro, como foi o caso do Intendente3 de Queimadas Cel. José Martins Leitão. Dentro desse contexto, constituem objetivos deste trabalho:3 Nos primeiros tempos da República o chefe do Executivo Municipal era denominado Intendente,posteriormente é que fora alterado para prefeito.
  12. 12. 12 — Analisar os fatores que propiciaram o povoamento do territórioqueimadense; — Contextualizar historicamente a evolução político-administrativa deQueimadas; — Discorrer acerca dos fatores que contribuíram para a eclosão da guerracontra o Belo Monte; — Discutir os principais impactos da guerra contra o Belo Monte ocasionadosno município de Queimadas. A construção do texto a seguir pautou-se nas seguintes fontes:(bibliográficas): Os Sertões, Diário de uma expedição e Descrição de uma viagemà Canudos; (jornalísticas), Jornais: Gazeta de Notícias, Jornal do Comércio, Diárioda Bahia, Jornal de Notícias e A Bahia, de 1897, documentos manuscritos do séculoXIX e filmes. No primeiro capítulo foi necessário abordar a respeito do binômioescravidão/abolição, bem como sobre o contexto sócio-histórico da Proclamação daRepública no Brasil, temas que à primeira vista não têm relação com o objeto deanálise desta pesquisa. Entretanto, estão intimamente relacionados com o conflitodeflagrado contra o Belo Monte. As condições de vida dos cativos que eram assazinsalubres e indignas durante o período escravocrata, pouco ou nada mudaram coma abolição. Desta maneira, impulsionados pela falta de perspectivas, deoportunidades na vida, muitos ex-escravos se dirigiram a Canudos para integraraquela singular sociedade. É o povo “13 de Maio” de que nos fala ConsueloSampaio (2001, p. 42) e Roberto Dantas (2009, p. 49) a encontrar em Canudos umaalternativa de sobrevivência, negada pelo Estado de forma explícita. Analisar omomento em que ocorre a instauração da República implica trazer à tona ospropagados ideais de progresso típicos da Belle Époque4, incorporados pelodiscurso republicano como proposta de desenvolvimento nacional. Cumpre destacarainda que a maneira pela qual políticos, militares e intelectuais concebiam aRepública – frágil, vulnerável e instável – influenciou, até certo ponto, na destruiçãototal do Belo Monte. Para muitos, ali era um baluarte da monarquia que pretendiasolapar o governo da República.4 Período de tempo compreendido entre 1871 – 1914. É a época em que surgem o avião, o telefone,o cinema. Paris, na França, com suas livrarias, bibliotecas, cafés-concertos, é o centro cultural domundo.
  13. 13. 13 Algumas vezes usamos as primitivas denominações do município, a saber:Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas ou Santo Antônio das Queimadas.Todavia, a nomenclatura preponderante no decorrer do texto é “Queimadas”, por seraquela que predomina nas fontes que fazem alusão ao citado município,relacionando-o com os acontecimentos belicosos de Belo Monte.
  14. 14. 14 CAPÍTULO I SANTO ANTÔNIO DAS QUEIMADAS5 NO SÉCULO XIX1.1 Os fatores do povoamento A evolução político-administrativa do município de Santo Antônio dasQueimadas perdurou por boa parte do século XIX e, obviamente, se insere nocontexto das transformações políticas, econômicas e sociais que a província daBahia estava experimentando no período6. No quadro econômico destaca-se aexpansão das atividades agrícolas, sobretudo a pecuária bovina que era cada vezmais praticada no sertão baiano. Dentro deste contexto, a abundância de pastagens,nas terras das margens direita, e de água do rio Itapicuru-açu7 continuampropiciando a atividade de criação de gado no território queimadense, atividade estaque fora iniciada ainda no século XVII pela família Guedes de Brito8. Mesmo nãoabsorvendo muita mão de obra, a pecuária bovina também contribuiu para que apopulação local tivesse um notável crescimento – considerando-se os padrões daépoca. O naturalista alemão, Von Martius, numa de suas viagens de estudos pelointerior da América Portuguesa em 1819, “ao passar pela povoação de SantoAntônio das Queimadas registrou em seu diário que naquela paragem residia cercade 600 pessoas, muitas das quais imigrantes portugueses” (MARQUES, 1984, p.16).5 Desde sua criação em 1884 até 1915, o município era denominado ora de Vila Bela de SantoAntônio das Queimadas, ora apenas de Santo Antônio das Queimadas. Em 1915 um decretoestadual abreviou-lhe o nome para Queimadas (MARQUES, 1984, p. 14).6 A historiadora Maria José Andrade assinala: a Independência do Brasil em 1822, a Abdicação dePedro I em 1831, as revoltas do período das Regências, sobretudo a Sabinada (1837), a Revolta dosMalês (1835), e ascensão de Pedro II ao trono (1840). No aspecto econômico, destacam-se asalternâncias de prosperidades e crises, desencadeadas por fatores internos e externos. No planosocial, salienta o dinamismo de uma sociedade complexa, essencialmente marcada pelo escravismo(ANDRADE, 1988, p. 40 - 47).7 O Rio Itapicuru é um rio brasileiro que banha o estado da Bahia. Ele nasce no Piemonte daChapada Diamantina (região norte da Chapada Diamantina), próximo à cidade de Jacobina. Foichamado de Rio São Jerônimo no período colonial.Seu curso segue no sentido Oeste-Leste, de forma praticamente perene durante o ano todo, fatorelativamente raro nesta região. Passa pelas estâncias hidrominerais de Caldas do Jorro e Caldas deCipó. Atravessa todo o município de Queimadas e mais diversos municípios (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rio_Itapicuru. Acesso em 29 de Janeiro de 2011).8 O chefe da família era Antônio Guedes de Brito, sargento-mor, regente do São Francisco, queconseguiu a posse de enormes porções de terras na Bahia, conforme declaração que fez em 1676,ao Desembargador Sebastião Cardoso Sampaio, incumbido pela Coroa Portuguesa de verificar asituação das sesmarias que até então havia sido concedidas (MARQUES, 1984, p. 14).
  15. 15. 15 No entanto, cumpre salientar que peculiaridades de natureza geográficascontribuíram, sobremaneira, para o povoamento queimadense. Para efeito deentendimento torna-se necessário destacar a principal delas, a saber: a região queestamos discutindo localiza-se no sertão baiano, de clima semi-árido onde a água éum bem valiosíssimo, pois as precipitações pluviométricas são irregulares.Entretanto, o povoamento é facilitado graças ao curso do rio Itapicuru-açu. É que ohomem sertanejo, martirizado pelas tormentas das secas constantes em outrasterras, quando passava por aquelas plagas, às vezes fugindo das estiagens,demandando outros lugares, constatava a importância da localidade por ser providapelas águas de um rio perene e, por isso mesmo, decidia fixar-se ali com sua família.E isto era viável, pois a senhora dona das terras pertencentes à fazendadenominada “As Queimadas”, Isabel Guedes de Brito, possibilitava que muitasfamílias fixassem residência na localidade que seria o embrião do futuro povoado. Outro fator que fomentou a ocupação do território é de caráter religioso.Consoante a tradição oral, na década de 1810 aparecera, misteriosamente, sob umaárvore frondosa, a imagem de Santo Antônio. A proprietária daquelas terras, D.Isabel Guedes de Brito, achara a relíquia e recolhera-a a seu oratório. Todavia, oSanto desapareceu do nicho e surgiu novamente debaixo da mesma árvore. Então,a caridosa senhora não teve dúvida, era ali que o Santo deveria permanecer. Emais: era necessário erguer um santuário para o Santo Antônio. Sendo assim, comodispunha de muitos recursos, construíra uma igreja9, sendo esta inaugurada commuita pompa e a presença de inúmeros fiéis em 13 de junho de 1815. Esta notíciamilagrosa e inolvidável se disseminou pelo mundo sertanejo e “chegou até osouvidos” dos católicos fervorosos e devotos de Santo Antônio. Dessa maneira, devárias partes da Bahia partiram famílias com destino ao arraial de Santo Antônio dasQueimadas para adorar e reverenciar o seu santo predileto, muitas das quaisdecidiram se fixar na localidade, começando assim uma nova vida. É importante destacar que a narrativa sobre o aparecimento misterioso desantos faz parte da história da religião católica no Brasil, sobretudo do catolicismopopular. A mesma constitui uma forma da sociedade atribuir, a seu modo, umcomponente sobrenatural e milagroso aos santos já consagrados. Da mesma formaque a tradição oral relata concernente ao surgimento extraordinário do Santo Para maiores informações, ver: MARQUES, Antônio Nonato: Santo Antônio das Queimadas –9Salvador: Bureal, 1984, p. 11.
  16. 16. 16Antônio, sucedeu com Nossa Senhora de Fátima em Portugal, bem como comNossa Senhora de Aparecida, padroeira do Brasil. No caso de Santo Antônio, nota-se que a sociedade de Queimadas elaborou uma importante estratégia paralegitimá-lo como padroeiro da comunidade. Além disto, o advento do Santo, quereside fortemente no imaginário popular queimadense, insere-se no contexto do mitofundador de que trata à filósofa e escritora Marilena Chauí, em sua obra Mitofundador e sociedade autoritária. Segundo a autora: O mito fundador oferece um repertório inicial de representações da realidade e, em cada momento da formação histórica, esses elementos são reorganizados tanto do ponto de vista de sua hierarquia interna (isto é, qual o elemento principal que comanda os outros) como da ampliação de seu sentido (isto é, novos elementos vêm se acrescentar ao significado primitivo). Assim, as ideologias, que necessariamente acompanham o movimento histórico da formação, alimentam-se das representações produzidas pela fundação, atualizando-as para adequá-los à nova quadra histórica (CHAUÍ, 2001, p. 06). A colocação da pensadora possibilita a percepção do mito como elementodinâmico, passível de mudanças para ajustar-se a um determinado momentohistórico, assim como para atender as demandas da sociedade que o (re) criou. Ocomponente mítico que a sociedade atribui a Santo Antônio é uma maneira que boaparte dos queimadenses10 forjou para explicar as origens da comunidade e suafundação sob o prisma do sagrado. A escritora Martha Abreu, em sua obra o império do Divino: festas religiosas ecultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900, analisando a concepção que o escritorMoraes Filho tinha acerca da “Festa do Divino”, colocou: Mas não se tratava simplesmente de uma união idealizada e harmônica. Entre o “povo”, o grande agente das festas, é possível considerar que Moraes Filho percebesse a existência de identidades culturais e hierarquias sociais específicas, representadas pelos costumes dos escravos/africanos e dos senhores. Concomitantemente, sem dúvida, o “povo” revelava-se em variadas e híbridas doses de etnia, cultura e encontro, que produziam, por um lado, o mestiço, e, por outro, ritmos, gostos e danças partilhadas por todos os participantes, o constante exercício, na perspectiva do autor, de uma nacionalidade festiva e musical (ABREU, 1999, p. 152).10 Excetuam-se os evangélicos e praticantes de todas as outras religiões que não cultuam os santos.
  17. 17. 17 O pensamento da escritora viabiliza o entendimento de que nas expressõesculturais exercidas por uma determinada população local ocorre também a formaçãoe reconfiguração das identidades individuais e coletivas. Já na década de 1880, outro acontecimento contribuiu para o povoamento emcurso. Trata-se do prolongamento da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco,ligando a vila de Alagoinhas11 até a Fazenda Santa Luzia12, então pertencente aorecém-criado município de Santo Antônio das Queimadas. A proposta de construirferrovias no território brasileiro teve início no governo do regente Diogo Antônio Feijóem 1835. De fato, a mesma tinha fundamento, pois um país de dimensõescontinentais como o Brasil não podia prescindir de modernizar seu sistema detransporte (calcado nos animais de tração: cavalos, muares, asininos), aderindo àsinovações tecnológicas que estavam surgindo no período – século XIX. Até mesmoo escritor Machado de Assis, refletindo de forma irônica o espírito do seu tempo,afirmou: “Eu comparo o Brasil a uma criança que está engatinhando; só começará aandar quando estiver cortado por estradas de ferro” 13. O historiador Robério Santos em seu trabalho do curso de mestrado intituladoExperiências de trabalhadores nos caminhos de ferro da Bahia: trabalho,solidariedade e conflitos (1892 – 1909), apresentado no Departamento do Institutode Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (2007),observou que a província da Bahia também procurou aderir ao sistema de transporteferroviário. Entretanto, o projeto de construir uma linha férrea ligando a capital com avila de Juazeiro às margens do Rio São Francisco só ganhou força em 1855. Nomesmo ano, foram colocadas à venda na Bolsa de Londres, as ações da empresaque construiria a estrada férrea, a saber: Bahia and san Francisco RailwayCompany. O fato de uma empresa britânica ser incumbida pelo governo da Bahiapara construir a estrada de ferro se justifica por dois motivos. Primeiro porque aInglaterra foi o país que inventou a locomotiva (1825) o que conferia as suasempresas do setor um amplo domínio dessa tecnologia. Segundo por ser a Grã-Bretanha, no momento, o país mais rico do mundo, desempenhando assim um papel11 A vila deu origem ao próspero município baiano de Alagoinhas, criado em 07/06/1880 (FONTES,1996, p.6).12 Atualmente é o município de Santa Luz/BA, emancipado em 18 de julho de 1935 (ENCICLOPÉDIABRASILEIRA DOS MUNICÍPIOS).13 ASSIS, José Maria Machado de. Relíquias de Casa Velha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira;Brasília: INL; 1975, (in SANTOS, Robério, 2007).
  18. 18. 18hegemônico dentro do sistema capitalista internacional, possibilitando às suas firmasenorme influência e poder de barganha em várias partes do mundo. No período de 1858 a 1896, a ferrovia denominada Estrada de Ferro do SãoFrancisco foi concluída. Na verdade, a iniciativa dos Presidentes da Província daBahia (a partir de 1891, Estado da Bahia), com destaque para João Wanderley eBarão de São Lourenço, em integrar a capital e distintas localidades do interior temsustentação, na medida em que objetivava possibilitar as trocas comerciais. Alémdisso, é importante acrescentar que a Cidade do Salvador – habitada em fins doséculo XIX por cerca de 200 mil habitantes – produzia gêneros agrícolas muitoaquém do consumo de sua população, o que implicava em recorrer a outros centrosprodutores de alimentos e demandava das autoridades competentes a viabilizaçãode ações que solucionassem a problemática do abastecimento que rondava ocotidiano dos soteropolitanos14. Vejamos um mapa da Estrada de Ferro da Bahia aoSão Francisco: Mapa - Estrada de ferro saindo de Salvador (Bahia) em busca do Rio São Francisco Fonte: MESQUITA, Elpídio. Viação férrea da Bahia. 1910. Acervo: FCM. (apud SANTOS, 2007, p. 38). Ver: SANTOS, Mário Augusto da Silva. A República do povo: sobrevivência e tensão. Salvador:14EDUFBA, 2001.
  19. 19. 19 O pesquisador Robério Santos colocou ainda que em épocas de intempériesnaturais, tão freqüentes no sertão baiano, os trens conduziram alimentos e água deSalvador e regiões do Recôncavo com destino aos lugares flagelados do interior.Destoando destas ações benéficas, entre 1896 e 1897 a Estrada de Ferro do SãoFrancisco foi empregada com o fito de conduzir soldados e oficiais para destruírem acomunidade solidária de Canudos e assassinar os paupérrimos brasileiros que láhabitavam. Logo após a construção da estação férrea de Santa Luzia (1884) é erguido,nos arredores da mesma, um bom número de casas de residências, pois a famíliaLopes facilitava a aquisição dos terrenos para a construção à todos aqueles quetivessem pretensões de se fixar na localidade. “Devido ao crescimento do lugarejofoi criado o distrito policial queimadense, pelo ato estadual de 28 de julho de 1890 aser sediado no arraial de Santa Luzia, o que denota a prosperidade e o crescimentodo mesmo” (FONTES, 1996, p.70). Dessa maneira, os trens transformaram a percepção que o homem e a mulhersertanejos (as) tinham do espaço, já que encurtaram, consideravelmente, asdistâncias, permitiu-lhes viajar de uma parte à outra, conhecer lugares longínquos,visitar parentes distantes, consultar um médico na capital ou em outras cidades noscríticos momentos, quando as doenças atingiram algum membro da família. Além doque, o transporte ferroviário possibilitava que as famílias mais abastadascomprassem artigos de luxo em Salvador e, não raro, encomendassem-nos noexterior, e assim desfrutassem de certas benesses garantidas pela riqueza quepossuíam. Pelo trem os bem sucedidos enviavam os filhos para estudarem nascidades desenvolvidas do Brasil e, não raro, da Europa, para cursarem Medicina,Direito, se graduarem em outras ciências e se tornarem os (as) doutores (as) de fato,ainda que não de direito para atenderem e concederem favores às populaçõespobres das vilas e dos municípios do interior, “contribuindo assim, para amanutenção do prestígio e do poder políticos dos chefes locais, dos coronéis, quequase sempre eram seus pais ou parentes bem próximos” (LEAL, 1975, p. 96). Não bastasse a facilidade de locomoção que o transporte ferroviárioproporcionou às pessoas, o mesmo ainda contribuiu com a economia sertaneja, naépoca tão combalida pelos efeitos das longas estiagens e pela ausência quasecompleta das políticas públicas. A contribuição aconteceu na medida em que emtorno das estações, e nesse caso específico da de Santa Luzia (inaugurada em
  20. 20. 201884) e de Santo Antônio das Queimadas (inaugurada em 1886), irão surgirpequenos estabelecimentos comerciais, para vender lanches, gêneros alimentícios,remédios, bebidas aos passageiros e funcionários da Estrada de Ferro, bem comoaos moradores locais. Acresce-se a esta atividade econômica a venda de lenha –fonte de energia então usada pelas locomotivas. Evidentemente, muitas pessoasganhavam “algum dinheiro” nestas atividades e garantiam a subsistência familiar.Desse modo, a linha férrea proporcionou substanciais melhorias à vida de parte dapopulação do nordeste baiano no término do século XIX, contribuindo, até certoponto, para o crescimento da que habitava em uma porção considerável do territórioqueimadense. 1.2 A evolução político-administrativa de Queimadas Contudo, muito antes do transporte ferroviário chegar ao territórioqueimadense, já era observado um notável crescimento da população, o queimplicava em mudanças institucionais a serem realizadas, obviamente, pelospoderes constituídos. A primeira dessas mudanças ocorreu em 19 de maio de 1842,criado a Freguesia15 de Santo Antônio das Queimadas e desmembrando-a daFreguesia de Sant’Ana do Tucano. Vejamos um fragmento do texto documentalresponsável por esta criação: LEI DE 19 DE MAIO DE 1842 Nº 168 Joaquim José Pinheiro de Vasconcelos, Presidente da Província da Bahia. Faço saber á todos os seus habitantes, que a Assembléia Provincial Decretou, e eu Sanccionei a Lei seguinte:15 A denominação de freguesia deve ser entendida no quadro complexo da administração portuguesada época. A freguesia representava o centro de muitas atividades. Além de núcleos de atividadesreligiosas, possuía funções políticas nas reuniões de comissões para compor as listas dequalificações de eleitores, e uma função econômica, desde quando cabia ao pároco de cada umadelas registrar em livro as terras, fazendas, sítios, roças, engenhos, situadas nos seus limites. Tinhamainda as freguesias importante função social, realizando, a partir dos seus núcleos, festas religiosascapazes de reunir as diversas categorias sociais; organizando e sediando irmandades religiosas, querepresentavam importante papel como aliviadoras de tensões sociais; promovendo casamentos,enterros, batismos, que, além de atos religiosos tiveram enorme significação na sociedade baiana doséculo XIX. (ANDRADE, Maria José Souza de. A mão de obra escrava em Salvador, 1811-1860 –São Paulo: Corrupio; [Brasília, DF]: CNPq, 1988, p. 59).
  21. 21. 21 Art. 1º – Fica erecta em Matriz a Capella de Santo Antônio das Queimadas, filial de Sanct Anna do Tucano, de que se desmembra. Art. 2º – Esta nova Freguesia, que fica pertencendo a Villa Nova da Rainha, terá por limites, inclusive as seguintes fazendas: com a Freguesia do Tucano, as Fazendas Genipapo e Lagõa Escura; com a de Sancta Anna de Serrinha, Imbuzeiro e Matto Grosso; com a do santíssimo coração de Jesus do Riachão, Rosário e Passagem do Imbuzeiro; com a de Nossa Senhora da Saúde, Urtigas e Pastos; com a do Senhor do Bonfim da Villa Nova, Boa Vista e Olho d’água; e com a do Santíssimo Coração de Jesus de Monte Santo, Conceição, Cansanção, Lagoa das Pedras, Matto Verde, Carahiba e Piacuarassá á margem do rio deste nome. Joaquim José Pinheiro de Vasconcellos. N’esta secretaria do Governo da Província da Bahia foi Publicada a presente Lei em 20 de maio de 1842. João José D’Almeida Couto. Registrada a f. 95 do liv. 2 de Leis e Resoluções d’Assembléia Legislativa Provincial. Secretaria do Governo da Bahia 21 de maio de 1842 (VASCONCELLOS apud MARQUES, 1984, p. 17). O fragmento do documento oficial explicita a estruturação geográfica da novafreguesia, bem como a eficiente organização da mesma no sentido de estabelecer anova ordem para os habitantes locais e, sobretudo, de evitar eventuais litígiosenvolvendo esta e as freguesias circunvizinhas. A formação desta instituiçãogeográfico-religiosa possibilita o entendimento de que, durante muito tempo, noBrasil as esferas políticas e religiosas se mesclavam, eram interdependentes eintrinsecamente relacionadas. Por outro lado, denota a grande importância da vidareligiosa brasileira naquilo que diz respeito a organizar a comunidade, tendo papelcrucial no seu desenvolvimento político e administrativo. Daí encontrarmos na“história-pátria” figuras da Igreja (padres, bispos etc.) militando pela evolução políticade diversas sociedades do interior do Brasil, pleiteando junto às autoridadesconstituídas, o progresso institucional dos “núcleos populacionais” — a exemplo dopovoado de Santo Antônio das Queimadas — espalhados pelo âmago do Brasil,muitos dos quais hoje constituem prósperos municípios. Entretanto, após alguns anos da criação da freguesia (1842), o arraial passoupor graves problemas climáticos: secas periódicas, enchentes devastadoras do rioItapicuru-açu, entre outras. Estes fenômenos meteorológicos afetaram,sobremaneira, a economia local e constituíram sérios entraves para os habitantes dorincão, além de não atrair moradores de outros lugares no que concerne a mudar-se
  22. 22. 22para ali. Sendo assim, durante muitos anos o crescimento populacional foi assazpequeno. Porém, em 1884 a comunidade vivenciou outra evolução político-administrativa, a saber: a Freguesia foi transformada em Vila. Um trecho dodocumento oficial que fundamentou legalmente a criação da vila reza o seguinte: RESOLUÇÃO DE 20 DE JUNHO DE 1884 Nº 2.454 João Rodrigues Chaves, desembargador da Relação de S. Salvador, presidente da província da Bahia, etc. Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléia Legislativa Provincial decretou e eu sanccionei a resolução seguinte. Art. 1º – A freguesia de Santo Antônio das Queimadas fica elevada à cathegoria de Villa com a denominação de Villa Bela de Santo Antônio das Queimadas. § único – O seu município comprehenderá a mesma freguezia e a de Itiuba. Art. 2º – Revogão-se as disposições em contrario. Registrada à fl. 45 v. do livro 11 de Leis e Resoluções da Assembléia Legislativa Provincial (CHAVES apud MARQUES, 1984, p. 22). Com o fragmento do texto documental da criação da vila (Vila Bela de SantoAntônio das Queimadas)16, o Presidente da Província da Bahia deixa claro quais sãosuas unidades territoriais constitutivas, bem como recomenda às autoridades ocumprimento da decisão política e institucional, além de solicitar que tornem públicae respeitada tal iniciativa. Evidentemente, para os habitantes da localidade, este foium acontecimento importante e muito comemorado, já que a formação dacomunidade começara ainda no século XVIII. A criação da Vila Bela de SantoAntônio das Queimadas faz deste um dos municípios mais antigos de todo o sertãobaiano. O novo município se desmembrara de Vila Nova da Rainha – atual municípiode Senhor do Bonfim/BA – e incluía em seus limites, além da própria freguesia, a deSão Gonçalo do Amarante da Itiúba17.16 Primitiva denominação do município. Foi usada até o início do século XX.17 Corresponde atualmente ao município de Itiúba/BA, que possui uma área territorial de 1.737,8 km²e dista cerca de 330 km de Salvador. É de clima semi-árido e totalmente incluído na zonadenominada Polígono das Secas (http://www.ibge.gov.br, 01 de julho de 2008. Acesso em 15 denovembro de 2010).
  23. 23. 23 A consolidação da criação da municipalidade, no entanto, só iria acontecerem 20 de julho de 1887, após três anos da promulgação do decreto que instituiu afundação do ente municipal queimadense. Adversidades de ordem financeira, deinstalações físicas para os órgãos da administração pública (Câmara, cadeia,açougue, entre outras) e mesmo de pessoal qualificado para atuar na gestãomunicipal podem ter colaborado para o retardamento da instalação do município emtrês anos. Coloco estes fatores hipoteticamente, pois os materiais de pesquisa quetive acesso são evasivos e omissos quanto a esta questão. Uma vez instalado o município, fora formada a Câmara de Vereadores,integrada pelos seguintes vereadores: Capitão Pedro Barreto d’Araújo, Presidente; Tenente João Antônio da Silva; Felippe Gomes da Silva; Tenente-Coronel José Félix Barreto. (MARQUES, 1984, p. 26) De acordo com a Constituição Política do Império do Brasil, de 25 de marçode 1824, às Câmaras competia o governo econômico e municipal em todas ascidades e vilas existentes e nas que no futuro fossem criadas. (Título VII, capítulo II,artigo 167) Desta maneira, a Câmara do novo município de Vila Bela de Santo Antôniodas Queimadas tinha, além da incumbência legislativa, o papel de caráter executivo,de promover melhorias para os munícipes, a exemplo da construção e reforma deobras públicas, de cobrar impostos, de ordenar e organizar a vida da sociedade,enfim, de promover o desenvolvimento da localidade. Atividades estas quecontinuaram sendo executadas até o ocaso do Império, em 15 de novembro de1889.
  24. 24. 24 1.3 Queimadas no alvorecer da República As três últimas décadas que antecederam a Proclamação da República noBrasil (1889) foram marcadas por grandes mudanças que agitaram a vida social e ocotidiano de milhares de pessoas. No campo político houve a receptividade dealgumas ideologias europeias, a exemplo do Liberalismo e do Positivismoinfluenciando importantes segmentos da sociedade brasileira. Após a Guerra doParaguai (1864 – 1870), os militares vitoriosos no conflito, e que desde algum temporeclamavam dos baixos soldos e da posição marginal que ocupavam dentro doGoverno Imperial, estão em sua maioria, cada vez mais convictos de que nãoencontrarão espaços na tomada de decisões pelo atual governo. A crise envolvendoparte do Exército e o Governo Imperial recrudesce com a punição dos coronéis SenaMadureira e Cunha Matos. Os militares eram proibidos de fazer declarações àimprensa contra os atos de seus superiores. Sena Madureira e Cunha Matos, noentanto, procederam desta forma e foram punidos pelo Imperador. “Em resposta, oMarechal Deodoro da Fonseca foi à imprensa, declarou seu apoio aos militares eassinou manifestos em favor deles dirigidos a Pedro II” (CARDOSO, 2006, p. 183).A situação chegou a um ponto em que era quase impossível (re) estabelecer umarelação harmoniosa entre uma parte significativa do Exército e o Governo Imperial. Neste período ainda acontece importantes mudanças de atitudes e namentalidade de grandes parcelas da população relativamente ao sistema escravista.A partir de 1860 começa a se esboçar estratégias populares e jurídicas de protestos,contrários ao trabalho escravo. Em 1871 é sancionada a Lei do Ventre Livre; em1885 é a vez da Saraiva - Cotegipe, também chamada de Lei dos Sexagenários,concedendo liberdade aos escravos com mais de 65 anos de idade.Indubitavelmente, as leis eram restritas e concediam autonomia superficial aosescravos. Entretanto, após 1880, a sociedade brasileira, que por mais de 300 anosapoiou a instituição escravocrata, insurgiu-se contra ela. Cresceu consideravelmenteo movimento abolicionista liderado por Joaquim Nabuco, Luis Gama e José doPatrocínio. São fundados clubes abolicionistas, a exemplo do Clube Saveirista deCachoeira/BA. No Congresso, a Abolição ganha à centralidade nos debates. Emoutras palavras, ocorreu o que historiador baiano João José Reis denominou quebrado paradigma ideológico colonial. Entretanto, é preciso salientar que a sociedade sóabraçou a causa abolicionista após diversas lutas empreendidas pelos escravos.
  25. 25. 25Dentro desse contexto, o historiador João José Reis afirmou que os mesmosdesenvolveram diferentes estratégias de resistências e de contestação ao sistemaescravista, a exemplo de construírem acordos com seus senhores no processo deprodução do açúcar (as ameaças de sabotagens na produção deixavam ossenhores apavorados); das fugas reivindicatórias – solicitando a supressão dedeterminadas arbitrariedades, a exemplo de separação forçada de casais decônjuges ou namorados, ou a recuperação de uma função laboral menos árdua, quefora perdida, dentre outras. Um pouco menos recorrente que as fugas reivindicatórias, Reis afirma que osescravos realizaram também as fugas-rompimento. Os maus tratos físicos epsicológicos sofridos durante anos dos proprietários e seus prepostos motivavam oscativos a evadirem-se em definitivo dos seus lugares de trabalho. Estas ações serãomais intensas a partir de 1885. No período ocorre a formação do quilombo deJabaquara no município de Santos/SP, reunindo cerca de 200.000 escravos. Emoutras palavras, os cativos foram protagonistas no processo de conquistaemancipatório que culminou em 1888 e suas lutas incansáveis sensibilizaram parteda opinião pública da época para apoiarem o evento abolicionista desencadeado poraqueles que mais sofriam com o espectro famigerado da escravidão. Pronto. Estavaroto o tecido que abrigava o sistema de trabalho escravo. Seria enterrado de vez portodas em 13 de maio de 1888, com a promulgação da Lei Áurea18. Com apromulgação, muitos cafeicultores fluminenses e do Vale do Paraíba paulista, antesadeptos da monarquia, Transformaram-se em republicanos da última hora, pois nãoreceberam indenizações do governo pela liberdade de “suas propriedadeshumanas”, o que “ocasionou prejuízos” para os chamados republicanos do 14 demaio. Ruiu uma das principais bases de sustentação política do Império. Estavapreparado o terreno para a instauração de uma nova forma de governo. Dessemodo: No mesmo ano em que os holofotes da Exposição Universal de 1889 fizeram resplandecer em Paris a torre de 300 metros de altura construída por Gustave Eiffel, um golpe militar, a princípio destinado apenas a provocar a derrocada do gabinete Ouro Preto, terminou por derrubar a monarquia, expulsar o velho18 Para maiores informações consultar: SILVA, Eduardo; REIS, João José. Negociação e conflito: aresistência negra no Brasil escravista — São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 13 – 78.FRAGA, Walter. Encruzilhadas da liberdade: histórias de escravos e libertos na Bahia (1870-1910) — Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006, p. 102 – 118.
  26. 26. 26 imperador e sua família e instaurar a República (SOUZA NEVES in FERREIRA, 2008, p. 25). A autora do fragmento do texto acima relaciona o evento da Proclamação daRepública com a construção da Torre Eiffel. Na verdade este e outros importantesacontecimentos políticos das últimas décadas do século XIX se inserem numcontexto histórico de inúmeras invenções técnico-científicas, de transformaçõeseconômicas e sociais. Vários inventos do período, a exemplo do automóvel e dofogão a gás, alteraram as rotinas públicas e privadas de milhares de brasileiros.Coloco “milhares” porque, obviamente, apenas os membros das elites podiamusufruir das benesses criadas pelo progresso. Os outros, que eram milhõesdeveriam resignar-se com a condição de pobres e “sujeitar-se a ordem natural dascoisas”. Contudo as inovações materiais e/ou culturais19 da época alteraram a vidacotidiana, a percepção que homens e mulheres tinham do tempo, do espaço e dasrelações sociais. Vivia-se a denominada Belle Époque com as elites brasileirasimitando ou tentando copiar os usos e costumes dos franceses, considerados entãoos mais bem elaborados da época. Sendo assim, mesmo as vilas mais remotaspossuíam habitantes com recursos financeiros suficientes para consumir produtose/ou serviços que estavam surgindo naquele momento. Em meio a este contexto de inovações na vida material (para as classesdominantes) fora proclamada a República no país. Evidentemente, com aProclamação da República, em 15 de novembro de 1889, as províncias e osmunicípios tiveram que se ajustar às leis e normas do novo regime político recém-instalado no Brasil. Em sua obra Uma porta para Canudos o escritor Nonato Marques salienta amaneira pela qual a nova forma de governo fora recebida pelas autoridades e pelapopulação queimadenses. Na mesma ele observa: Assim é que, a 24 de novembro – em obediência a nova ordem institucional – a Câmara Municipal da Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas de mãos dadas com o povo – em sessão solene aderiu oficialmente à República, lavrando-se do ocorrido à ata que a seguir transcrevemos, respeitada a ortografia original.19 No período surgem os parques urbanos, a exemplo do Central Park de Nova York, parques dediversões, os Cafés-concertos, proliferaram-se o número de livrarias, bibliotecas, teatros, etc.(NEVES, Margarida de Souza. Os cenários da República. O Brasil na virada do século XIX para oséculo XX.(In Ferreira, Jorge; DELGADO, Lucília. O Brasil Republicano – 3. ed. — Rio de Janeiro:Civilização Brasileira, 2008, p. 15 – 41).
  27. 27. 27 “Aos vinte e quatro dias do mês de novembro de mil e oitocentos e oitenta e nove, reunidos o Presidente Capitão Pedro Barreto de Araújo e os Vereadores Coronel José Felix Barreto, Felippe Gomes da Silva, Luiz Ferreira França e Capitão Tiburcio Simões Villas-Boas, o senhor Presidente declarou aberta a sessão e disse que achando-se gravemente enfermo o secretário desta Câmara Municipal, Vieira de Barros propunha para ser nomeado interinamente o cidadão Francisco Lantyer de Araújo cajahyba, o que sendo approvado tomou posse o nomeado depois de prestar o juramento de estylo”. “Em seguida o Senhor Presidente declarou que achando-se proclamada a República no Brasil e constituído Governo Provisório propunha que esta Municipalidade, interpretando os justos sentimentos dos seus Munícipes, prestasse franca adesão ao novo Governo, do qual o povo brasileiro confiadamente espera reais serviços a Pátria. Sendo a proposta do Senhor Presidente unanimemente approvada, calorosamente aplaudida pela população desta Villa, que assistia a esta sessão” [...].(MARQUES, 1997, p. 21-22). A ata da histórica sessão legislativa explicita a decisão deliberada dosvereadores e do povo presentes no que tange a sujeitarem-se, a adequarem-se ànova ordem política que entrou em vigência suscitando nos queimadenses aperspectiva de um futuro melhor. Daí o entusiasmo com que fora recebido o regimerepublicano. Dentro de oito anos Queimadas ocuparia um papel importante, maislamentável no “massacre de Canudos” ajudando a “salvar a República20”. Oentusiasmo transformou-se em ônus, em perturbação na rotina de muitos habitantesde Queimadas. É o que discutiremos nos próximos capítulos.20 A Guerra de Canudos (1896 – 1897) deixou um saldo de 20.000 sertanejos mortos. Todos aquelesque se entregaram, com a promessa do General da IV Expedição, Arthur Oscar de que seriampoupados, foram degolados. (HORCADES, Alvim Martins. Descrição de uma viagem a Canudos. —Salvador: EGBA/EDUFBA, 1996).Tentando legitimar a guerra, algumas autoridades brasileiras da época afirmavam que Canudos eraum reduto de monarquistas, de cruéis adversários da República.
  28. 28. 28 CAPÍTULO II A GUERRA EMPREENDIDA CONTRA O BELO MONTE21 ESEUS IMPACTOS MATERIAIS EM SANTO ANTÔNIO DASQUEIMADAS.2.1 A fragilidade dos motivos da guerra contra o Belo Monte O cientificismo oriundo da Europa, na segunda metade do século XIX, comdestaque para o Positivismo e o Darwinismo Social fascinou segmentos expressivosda sociedade brasileira da época, sobretudo aqueles integrados pelaintelectualidade, por cientistas e estudiosos de diferentes campos do saber quetomavam os moldes europeus de cultura, ciência, política e religião como perfeitos,como os únicos capazes de promover a civilização entre os povos. Desse modo, asformas de ser, de viver e perceber o mundo que se afastavam dos modeloseurocêntricos eram consideradas arcaicas, repugnantes, porque simbolizavam oatraso e a barbárie. Vivia-se “a exacerbação da razão iluminista”. No Brasil dotérmino do século XIX, certas ideias racistas, contidas no bojo do “avanço científico”de outrora, contribuíram para a criação de estereótipos e paradigmas diversos,alguns de cunho geográfico bem acentuado. Por exemplo: o litoral aparecia comosinônimo de progresso, área de receptividade da cultura e dos valores europeus,catalisador em potencial dos elementos típicos modernidade. O interior, maisespecificamente o Sertão, “constituía o atraso, um espaço habitado por homens emulheres avessos (as) às tradições seculares” (CUNHA, 2003, p. 105). Por isso, os sertanejos foram considerados por alguns intelectuais, a exemplode Euclides da Cunha como “retardatários” fadados a desaparecerem, casocontinuassem relutando em adentrar os espaços solenes da civilização litorânea,branca e europeia. A visão euclidiana acerca do sertanejo denota a opressão dasclasses dominantes para com as dominadas, além do racismo explícito e aintolerância étnico-cultural. Este ideário excludente constituía a maneira pela qualmembros importantes das elites políticas e/ou agrárias concebiam as classes Belo Monte era a denominação empregada por Conselheiro e seus liderados para se referirem à21comunidade por eles fundada em junho de 1893 no sertão baiano.
  29. 29. 29populares do sertão. Daí muitos considerarem os sertanejos “como afeitos aoscrimes, as desordens de toda sorte” (CUNHA, 2003, p. 198). Por isso o sertão erapercebido como uma “terra perigosa”, o homizio para afamados farândolas quetinham pendências com a justiça. A partir de 1893, ano em que a comunidade deCanudos fora fundada pelo evangelizador cearense Antônio Vicente Mendes Maciele seus seguidores, Canudos sintetiza, para alguns fazendeiros, políticos e demaispoderosos da época, todas as desordens, todas as delinqüências do mundosertanejo. É como se todos os seus cerca de vinte mil habitantes fossem criminososhediondos – massa homogênea, a ameaçar a integridade física e patrimonial daselites nordestinas. Sobre este assunto o professor e historiador Rogério Silva, emsua obra Antônio Conselheiro: a fronteira entre a civilização e a barbárie, observou: Uma ameaça mais imaginária do que concreta. Emprego o termo “imaginária” porque o potencial de perigo, representado por Antônio e sentido pelos que o temiam, era fruto de um estranhamento com sua imagem e com seu discurso celeste [...] Não há uma só linha, entre os documentos conhecidos que tratam da vida de Antônio Conselheiro, que indique uma postura contrária ao establishment vigente (SILVA, 2001, p. 54). Na verdade o que “tirou o sono” dos detentores do poder foi o fato de milharesde sertanejos abandonarem as fazendas – locais onde eram explorados com baixosganhos e humilhados de várias maneiras – e migrarem para Canudos com o fito decomeçarem uma nova vida, de integrarem uma sociedade, até certo ponto,alternativa e igualitária, onde não vigorava o mando e as ordens arrogantes doscoronéis latifundiários do sertão. No momento em que estes homens ricos einfluentes da região adjacente a Canudos constatam que a mão de obraindispensável para a viabilização de seus negócios agrários está a cada dia ficandoescassa e/ou subindo de preço compreendem o grande poder de atraçãopopulacional que Canudos passou a exercer no interior do Nordeste. Por issopassaram a inquietar-se com o crescimento da comunidade sertaneja. Dentro destecontexto, o Barão de Jeremoabo, abastado proprietário de terras na região deCanudos e contemporâneo dos acontecimentos, assim se expressou: “Algunslugares desta comarca e de outras circunvizinhas, e até do Estado de Sergipe,ficaram desabitados, tal a aluvião de famílias que subiam para os Canudos, lugar
  30. 30. 30escolhido por Antônio Conselheiro para o centro de suas operações” 22. A colocaçãodo Barão (expoente político renomado no nordeste da Bahia e representante daselites agrárias nos círculos de poder), além de demonstrar a preocupação com oêxodo de vários lugares circunvizinhos ao Belo Monte, evidencia que o beato estavacontribuindo para a formação: De um núcleo populacional, surgido, às margens das instituições, era considerada uma ação inconstitucional, pois a criação de novos núcleos populacionais era um atributo do Estado, como demonstra a Constituição do Estado da Bahia: “[...] o governo municipal terá sua sede nas cidades e vilas ora existentes, e naquelas que se criarem, contanto que o município tenha 23 mais que quinze mil habitantes (artigo 102)” . Um amigo e missivista do círculo do Barão de Jeremoabo, Marcelino Pereirade Miranda, “personagem influente” e Intendente Municipal da vila de Tucano/BA,em uma de suas cartas, informou ao Barão que “saíram tantas famílias de Tucanocom destino a Canudos que parte dos serviços públicos estava abandonada, porfalta de quem os realizassem” (SAMPAIO, 2001, p. 103-104). As mesmas pessoasque migravam de uma cidade ou vila ocasionando vacância nos quadros doexercício do serviço público iriam engrossar o contingente populacional de umacidade que, conforme a citação anterior fora formada ignorando a legislaçãoestadual em vigor que disciplinava o surgimento, bem como os status das vilas emunicipalidades. Obviamente, isto constituía uma dupla afronta para os poderesconstituídos que, fomentados por determinados membros das classes dominantes,passaram a enxergar Canudos como uma cidadela subversiva, desafiadora para o“evolucionismo científico”, assim como para a ordem legal vigente no Brasil daépoca. O fato de fundar uma cidade sem o beneplácito do governo estadualprovocou despeito em determinados setores políticos alinhados com o governadorbaiano da época, o Sr. Rodrigues Lima e também trouxe à tona o debate sobre osconceitos de público e privado no Brasil.22 MARTINS apud CUNHA, 2003, p. 186.23 Leis e resoluções do Estado da Bahia do ano de 1893 – sob os nº 31 a 51. Tipografia eencadernação do Correio de Notícias, p. 21 (apud Silva, 2001, p. 81).
  31. 31. 31 Acerca desta temática, o Professor Rogério Souza Silva salientou: A cidade do Conselheiro, enquanto fenômeno urbano insere-se num contexto de fundação de cidades. Essas fundações e reformas urbanas resultaram da privatização da esfera pública na estruturação do espaço da cidade no Brasil. Conselheiro era um homem de ação privada que, para seu azar, não tinha uma legitimidade oficial (SILVA, 2001, p. 155). A iniciativa privada do Conselheiro e seus seguidores em fundar uma cidade –espaço público que necessita do crivo dos poderes constituídos para ser legitimado– sem usufruir do apoio do governador, bem como dos demais políticos influentes doperíodo, pode ser identificada como uma ação fora da lei, portanto, como um motivopara que políticos, fazendeiros (que perderam muita mão de obra para Canudos) eintelectuais paladinos da ideologia das classes dominantes, reivindicassem adestruição da cidadela. Contudo, esta é uma tese que não encontra sustentação,pois inúmeras cidades do Brasil surgiram de propriedades privadas e/ou de núcleosfamiliares, religiosos, dentre outros. Em outras palavras, nenhum crime reside nofato de um grupo de pessoas decidirem criar uma comunidade. Ainda é o Silva quenos informa: “três meses antes da destruição da cidade rebelde (Canudos), Jequiétransformava-se em município, com todo o beneplácito do governo baiano” 24 (2001,p.155). O reclamo de membros das classes dominantes do nordeste baiano, muitosdos quais grandes proprietários de terras no sentido de solicitar e mesmo pressionaras autoridades baianas e, posteriormente, as da União para desencadear umaintervenção policial na comunidade de Canudos (foram necessárias quatro degrandes proporções para a vergonhosa destruição da cidadela) se enquadra nasestratégias de invenção de notícias fantasiosas, de boatos de toda espécie,objetivando estereotipar negativamente a comunidade do Belo Monte. Ocorrespondente de guerra,25 enviando pelo jornal O Estado de São Paulo, em seutexto Os Sertões, pautado nestas notícias inverídicas, colocou:24 A lei estadual 180, de 10 de julho de 1897, criou o município de Jequié, desmembrando-o do deMaracás. Urbano de Souza Brito Gordim, o primeiro Intendente do município, foi escolhido no pleitomunicipal de outubro do mesmo ano (FERREIRA, 1958, p.368).25 Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha. Foi enviado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 1897,para cobrir a guerra de canudos. Autor de Os sertões, obra precursora para o desenvolvimento dasciências sociais (Antônio Cândido). Foi membro da Academia Brasileira de Letras e do InstitutoHistórico e Geográfico (GALVÃO, Walnice Nogueira, (Org.) Diário de uma Expedição. São Paulo:Companhia das Letras, 2000, p. 39-40).
  32. 32. 32 Canudos era o homizio de famigerados facínoras. Ali chegavam de permeio com os matutos crédulos e vaqueiros iludidos, sinistros heróis da faca e da garrucha [...]. Eram, por um contraste natural, os seus melhores discípulos [...]. A seita esdrúxula tinha os seus naturais representantes nos batistas truculentos, capazes de carregar os bacamartes homicidas com os contos dos rosários (CUNHA, 2003, p.195). Desconstruindo a ideia central da colocação de Euclides da Cunha,defendendo a tese de que a maioria da população canudense era de criminosos eainda que estes eram os que tinham todo o apoio do Conselheiro, a historiadoraMaria Isaura Pereira de Queiroz, em sua obra denominada O messianismo no Brasile no mundo, assinalou: Assim, havendo uma estrutura e organização interna do povoado, o controle era exercido de acordo com os preceitos do chefe. Desde a fase errante, os testemunhos “São todos acordes em confessar que à população que o seguia jamais consentiu ou patrocinou desmandos ou atentados contra a propriedade ou contra pessoas” (QUEIROZ, 2003, p. 235). A colocação da historiadora reforça a ideia de que muito daquilo que foi faladoou escrito sobre o peregrino e seus seguidores não passou de mentiras forjadas edisseminadas por aqueles que se sentiam incomodados com seu poder carismático,pois não é tarefa fácil granjear a antipatia de fortes potentados locais e, nãoobstante, aglutinar em torno de si cerca de vinte mil sertanejos de diferentesprocedências, de distintas camadas sociais, evidenciando assim o enorme prestígioque consolidou perante seus liderados e simpatizantes. Outro pesquisador que trataa respeito destas construções de informações falsas, por parte daqueles quedetinham os poderes políticos e econômicos, no sentido de desqualificarem a figurado Conselheiro, assim como a sociedade por ele organizada, é o carioca EdmundoMoniz de Aragão. Em sua obra intitulada Canudos: a luta pela terra, o mesmorealçou: “a mentira foi a nota constante da campanha contra Antônio Conselheiro.Aliás, não se conhece nenhum crime cometido por ele ou por seus adeptos duranteos vinte anos de peregrinação pelo interior do Nordeste” (2001, p. 37). Aliado a invenção das mentiras aparece outro elemento que fomentou aeclosão da guerra contra o Belo Monte, a saber: o medo. Fruto da desinformação,do preconceito e também forjado por representantes das classes dominantes doperíodo. Dentro deste contexto é importante salientar que o medo esteve presenteem diversos eventos históricos. A historiadora baiana Consuelo Novais Sampaio,
  33. 33. 33autora do ensaio Canudos – Cartas para o Barão preconizou: “são bem conhecidoso estudo de George Lefèvre em torno do “grande medo” que cobriu de sangue aRevolução Francesa e o de Jean Delumeau, sobre o medo que atravessou a históriado Ocidente no período de 1300 a 1800”26. Os sertanejos enfrentavam de tempos emtempos alguns medos: de secas prolongadas, da fome, de doenças, dasarbitrariedades das forças policiais, de punições da Igreja Católica, entre outros.Estes, a autora denomina “medos costumeiros”, pois já estavam incorporados aocotidiano de boa parte da população sertaneja. Segundo Consuelo Sampaio outraespécie de medo colaborou para destruição de Canudos. Ela observou que: O medo que destruiu Canudos foi um medo diferente. Em contraste com esses medos, foi um medo construído, não só pelas facções políticas em luta, mas principalmente, pela Igreja Católica e pelo Exército. A imprensa (grande e pequena) encarregou-se de recriar e de espalhar esse medo que, de boca em boca, foi impregnando os brasileiros, até atingir o paroxismo da perversidade, após a fragorosa derrota da terceira expedição militar (SAMPAIO, 2001, p. 32). Como vimos no fragmento de texto acima, diferentes instituições brasileirascontribuíram para disseminar o pavor, apresentando Canudos como uma sociedadecapaz de criar todas as adversidades, de entravar o progresso nacional. Uma destasinstituições em particular teve um papel preponderante na campanha de espalhar opânico, “o temor de Canudos”, a saber: a imprensa. Os jornalistas, a serviço doprincipais jornais de Salvador, Rio e São Paulo escreviam artigos elegendo Canudose sua gente como responsáveis por um período conturbado e instável, que na óticados mesmos fragilizava a República recém-fundada. Desses homens de imprensa,disseminadores do “medo canudense”, dois merecem destaque, a saber: Euclidesda cunha, jornalista correspondente do jornal O Estado de São Paulo e FávilaNunes, correspondente do Gazeta de Notícias. O político baiano César Zama, autorda obra o Libelo republicano (1899) afirmou que Fávila qualificou os habitantes deCanudos como bandidos. Recriminando esta colocação, Zama observou: “ A Históriadirá mais tarde, com a imparcialidade e justiça, que são seu apanágio, quais osbandidos – se os degolados ou os degoladores, se os incendiados ou osincendiários” (ZAMA, 1899, p. 51). O político baiano adepto da República, diga-se de26 DELUMEAU, Jean. A História do Medo no Ocidente, 1300 – 1800. São Paulo: Companhia dasLetras, 1996.
  34. 34. 34passagem, não compartilha a ideia de que os moradores de Canudos praticavam obanditismo como preconizou o jornalista do Gazeta de Notícias e, indo além, deixasubentendido, que criminosos foram os militares da quarta expedição, liderados peloGeneral Arthur Oscar, quando degolaram e queimaram todos os canudenses que seentregaram, sob a promessa de terem suas vidas poupadas. Euclides da Cunha, a despeito de ter erigido uma obra monumental acerca domassacre de Canudos, Os sertões (1902), que, até certo ponto, não permitiu que omesmo caísse no esquecimento ou fosse pouco estudado, como a Revolta doContestado, por exemplo, via na comunidade sertaneja um ajuntamento decriminosos. Reiterando o medo, que fora construído por potentados e fazendeiros donordeste baiano, ele afirmou sem explicitar a(s) fonte(s): “em dilatado raio em tornode Canudos talavam-se fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-secidades” (CUNHA, 2001, p. 198). Os mesmos jagunços que na ótica euclidianaroubavam fazendas, abandonavam os despojos da terceira expedição. SegundoEuclides: “por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos defardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras,capotes, mantas, cantis e mochilas”... (CUNHA, 2001, p. 343-344). A contradiçãofica explícita no discurso euclidiano, não evidenciando o banditismo da sociedadecanudense, tão apregoado pela imprensa e que fora usado pelas autoridades parajustificar o massacre empreendido pelo Estado contra os sertanejos de canudos. O medo construído contaminou em cheio um de seus autores, o Coronel JoséAmérico Camelo de Souza Velho, proprietário de terras na região conflagrada. Já nodesenrolar da quarta expedição, José Américo, temendo que os conselheristasatentassem contra suas propriedades rurais, contra sua vida e de sua família,migrou as pressas de sua fazenda no Rosário para a cidade de Serrinha/BA.Contudo, não houve nenhuma ação dos canudenses contra os bens de SouzaVelho. Paradoxalmente, aqueles que causaram prejuízos ao Coronel José Américo ea outros que compartilhavam do mesmo medo, foram os soldados e oficiais.“Apoderados pela fome, invadiram suas fazendas, roubando quantas resesencontravam” (SAMPAIO, 2001, p. 69-79). Outra tese difundida no período curtíssimo de tempo em que durou acomunidade de Belo Monte (pouco mais de quatro anos), refere-se ao carátermonárquico do beato, assim como de doutrinar seus milhares de seguidores nosentido de repudiarem a República. Não faltaram arautos para popularizar nos meios
  35. 35. 35políticos, na imprensa e nos “papos de botequins” a essência monarquista do rincãosertanejo. Entre os homens eminentes que afirmaram ser Conselheiro e seusseguidores cruéis adversários da República e favoráveis a reimplantação daMonarquia no Brasil, encontra-se, o já tantas vezes mencionado neste texto,Euclides Rodrigues da Cunha. Em dois de seus livros, discorrendo sobre acomunidade e a Guerra de Canudos: Diário de uma expedição (1897) e Os sertões(1902), o autor apresenta o beato e seus comandados como contrários a República,fazendo um paralelo entre Canudos e a comunidade francesa de Vendéia, quepreferiu ser aniquilada a aderir à República proclamada pela Revolução (1791). Noque tange ao heroísmo dos vencidos a comparação é perfeita, pois ambas associedades lutaram briosamente por um ideal sem capitularem. Todavia, asociedade do Belo Monte era bem menos politizada que a de Vendéia, lutava contraa tirania dos fazendeiros, solidariamente, ajudando-se mutuamente na árdua batalhacontra a fome e pela vida. Daí a fundação do império do Belo Monte. É fato que o peregrino era contrário ao casamento civil instituído pelaConstituição republicana de 1891 e ainda aos abusos do fisco, cobrando impostosexorbitantes de pessoas pobres e miseráveis, que mal tinham condições desobrevivência27. Entretanto, não há registros de que o Conselheiro possuíssecondições materiais, pretensões e articulações políticas suficientes para derrubar aRepública e restaurar a Monarquia no país. Ignorando esta realidade muitosjornalistas e escritores do período transformaram a guerra contra o Belo Monte numconflito da República X Monarquia. Em Diário de uma expedição (1897), Euclidescolocou: “Em breve pisaremos o solo onde a República vai dar com segurança oúltimo embate aos que a perturbam”. Aguardando a destruição total de Canudos oautor reafirma o caráter político do conflito: Que a nossa Vendéia se embuce num largo manto tenebroso de nuvens, avultando além como a sombra de uma emboscada entre os deslumbramentos do grande dia tropical que nos alenta. Rompê-lo-á, breve, a fulguração da metralha, envolta num cintilar vivíssimo de espadas [...] A República é imortal! (CUNHA, 2000, p. 67 - 68). No seu texto intitulado Os Sertões (1902), Euclides desconstrói seupensamento citado anteriormente, evidenciado, notadamente, a natureza infundada27 A forma republicana de governo elevou consideravelmente a quantidade e os preços dos impostoscobrados no Brasil.
  36. 36. 36de justificar o massacre a Canudos pelo viés político. No mesmo ele salienta umasuposta ação política do Conselheiro, mas nega sua existência monarquista: Pregava contra a República; é certo. O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio religioso. Mas não traduziu o mais pálido intuito político: o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a monárquico – constitucional. Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro (CUNHA, 2001, p.208). Contudo, políticos, intelectuais, oligarcas e demais poderosos da época nãopercebiam a distância existente entre a mentalidade da maior parte dos sertanejosdo Belo Monte e a ideologia da política formal vigente na época e relutaram emdefender as ligações do Conselheiro e seu povo com setores monarquistas do Brasile do exterior. A partir da fragorosa derrota da terceira expedição (comandada peloCoronel Antônio Moreira César, morto em combate em 03 de março de 1897),importantes segmentos políticos, da imprensa e da intelectualidade brasileiraintensificaram suas campanhas acusatórias visando consolidar o ideáriomonarquista da comunidade sertaneja. A República estava em perigo, defendiam,veementemente, a maior parte das autoridades contemporâneas dosacontecimentos relativos a Canudos. Um dos periódicos do período afirmou: “ogoverno deve encarar a situação como ela é. A luta é contra a República. O governotem que defender a República, tem que sufocar o movimento monarquista ainda queseja preciso a violência” . A citação do jornal paulista faz um apelo para que o 28Presidente do Brasil, o Sr. Prudente de Moraes recorresse à violência para destruirCanudos, além de enfatizar o aspecto monarquista da comunidade. Daí, segundo ojornal, a necessidade do uso da força e da violência, pois a República não poderiaser derrotada. Tal fato evidencia que este veículo da imprensa paulista não eraimparcial “e tinha metas políticas a serem alcançadas” (SILVA, 2001, p. 216). Anterode Cirqueira Galo desmente as informações do jornal, repudiando a naturezamonarquista da sociedade de Canudos. Vejamos um fragmento de uma de suasmissivas enviadas ao Barão de Jeremoabo:28 São Paulo, Arquivo do Estado, O Estado de S. Paulo, São Paulo, 14 de março de 1897, p. 2. RoloC2 (25), nº 6622 a 6801, 01, 01.025, 1897, 01 de janeiro a 30 de junho (apud SILVA, 2001, p. 216).
  37. 37. 37 Exº. amigo Sr. Barão Tucano, 19 de março de 1897 [...] é mesmo Conselheiro com seus sequazes dentre estes soldados desertores de diversos estados e o povo 13 de Maio que é o maior; advirto mais, que gente de cor branca poucos lá tem, quanto mais homens que ocupam uma certa projeção! Ainda mesmo o Conde d’Eu se aparecesse lá, era vítima, pois não o conhecem. 29 Antero de Cirqueira Galo A perspectiva de Antero Galo possui legitimidade devido a dois motivos.Primeiro, o mesmo pertencia às classes dominantes e por isso repudiava a atuaçãodo beato. Segundo, Antero conhecia inúmeros canudenses, pois diversos delesmigraram de sua terra natal – Tucano/BA, com destino à comunidade do BeloMonte. Entretanto, os grupos detentores de poderes, realizaram um trabalhoeficiente no sentido de assombrar as consciências e sobressaltar a alma nacional,fazendo com que a quase totalidade da opinião pública brasileira acreditasse queCanudos era um reduto de monarquistas com grande potencial de ameaça àsinstituições da República. 2.2 O estopim do conflito contra o Belo Monte Em junho de 1893 período em que Antônio Conselheiro chegou com seusseguidores à fazenda velha, denominada Canudos na localidade já existia umaigreja (era comum existir templos nas grandes fazendas da época). Todavia, devidoao grande fluxo de pessoas que chegavam a Canudos, a “igreja velha”, como ficouconhecida, passou a não comportar mais o número de fiéis que se aglutinavam paraa celebração das missas, casamentos e outros serviços religiosos executados porfiguras da Igreja Católica, a exemplo do Pe. Vicente Sabino30, da paróquia doCumbe, ou, o que era mais comum, ouvir as prédicas e outras pregações proferidaspelo Conselheiro. Desta maneira, tornou-se necessária a construção de umsantuário mais amplo que oferecesse acomodações e comodidades para os crentes29 Essa carta, pertence ao Arquivo Pessoal do Barão Jeremoabo, organizado pelo seu bisneto AlfredoDantas de Carvalho (residente em Salvador). Foi possível encontrar uma cópia impressa no ArquivoNacional, localizado no S. A. P (Serviço de Arquivos Particulares), p, 21.30 O padre Vicente Sabino possuía até casa na comunidade. Por isso fora perseguido, pelo Cel.Moreira César. Por volta de 1896 é que sua relação com o Conselheiro ficou deteriorada.
  38. 38. 38no discurso celeste do beato. Deste modo, logo no primeiro ano da fundação doBelo Monte, começara a construção de um templo majestoso, “defrontando o antigo”que os conselheristas denominaram “igreja nova”. Em outubro de 1896, aconstrução ficou a ponto de ser coberta. Para a realização deste trabalho, o beatonecessitou comercializar com um membro das classes dominantes da Vila deJuazeiro. Segundo Euclides: Antônio conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lhe entregaram. Tudo denuncia que o destrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado (CUNHA, 2001, p. 225). O autor de Os Sertões (1902) esqueceu de colocar que o Conselheiro pagou,antecipadamente pela mercadoria e não a recebera, “configurando uma explícitaviolação do acordo, protagonizada pelo comerciante, o Coronel João EvangelistaPereira de Melo” (JÚNIOR, 2007, p. 14). Todavia, é preciso acrescentar que oCoronel João Evangelista (era também conhecido por Janjão) não estava sozinhoneste empreendimento corrupto. Ao mesmo aliou-se o juiz da comarca de JuazeiroDr. Arlindo Leoni, antigo magistrado de Bom Conselho (atual município de CíceroDantas) em 1893. Na ocasião, o beato e seus diversos seguidores queimaram nalocalidade os editais dos exorbitantes impostos cobrados pelo governo republicano.O juiz saiu do lugar às pressas, atemorizado. Desta maneira aproveitou o ensejo,planejou um conluio com o comerciante. “Sabia que o adversário revidaria àprovocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com aameaça de uma investida sobre a bela povoação do São Francisco: as madeirasseriam de lá arrebatadas, à força” (CUNHA, 2003, p. 226). O juiz – mentor intelectualda guerra contra Belo Monte – enviou um telegrama ao governador da Bahia.Vejamos um fragmento da mensagem do governador da Bahia ao Presidente daRepública, relatando acerca do episódio: “Era esta a situação quando recebi do Dr. Arlindo Leoni, Juiz de Direito de Juazeiro, um telegrama urgente comunicando-me correrem boatos mais ou menos fundados de que aquela florescente cidade seria assaltada por gente de Antônio Conselheiro, pelo que solicitava providências para garantir a população e evitar o êxodo que da parte desta já se ia iniciando [...]. Poucos dias depois recebi daquele magistrado um telegrama em que afirmava estarem os sequazes de Antônio Conselheiro distantes do Juazeiro pouco
  39. 39. 39 mais ou menos dois dias de viagem. Dei conhecimento do fato ao Sr General que, satisfazendo a minha requisição, fez seguir em trem expresso e sob o comando do Tenente Pires Ferreira, a força preparada, a qual devia ali 31 proceder de acordo com o Juiz de Direito . O texto do governador evidencia o tom pavoroso do magistrado de Juazeiroalarmando a população local com boatos caluniosos e, a despeito de ter estudadobastante para se tornar um “homem de leis”, não soube diferenciar “o assalto” de“uma compra que fora paga com antecedência”. Contudo, conseguira atingir seusobjetivos, pois o governador enviou uma expedição militar estadual com 104 praçase três oficiais para guarnecer a cidade de Juazeiro. Decorridos alguns dias, e emvirtude da cidade não ser atacada pelos conselheiristas, o juiz abusa do poder quedetém e ordena ao comandante da tropa que marche para Canudos. No momento,em que os militares chegaram ao lugarejo de Uauá, a população local evadiu-se daregião. Dentre deste contexto, Euclides colocou: “Uauá, como os demais lugares convizinhos, estava sob o domínio de Canudos. Habitavam-no dedicados adeptos de Antônio Conselheiro; de sorte que mal a força fizera alto no largo, haviam-se aqueles precipitado para o arraial ameaçado, onde chegaram, ao amanhecer de 20 (20/11/1897), levando o alarma”... (CUNHA, 2003, p. 232). Os canudenses passaram por Uauá demandando a vila de Juazeiro no afã debuscarem a madeira que lhes pertencia. Na localidade houve o choque com astropas do governo. Após cruel refrega de quatro horas, morreram 74 conselheiristase dez militares. Contudo, as tropas foram desbaratadas e não lograram êxito emexterminar os habitantes de uma comunidade sertaneja formada em sua maioria porpessoas pobres, sem perspectivas de atingirem os meios fundamentais para umaexistência digna.31 Mensagem do governador da Bahia ao Presidente da República — 1897 (In Cunha, 2003, p. 226-227).
  40. 40. 402.3 Os impactos materiais que o município de Queimadas sofreu advindos do conflito contra o Belo Monte. Após o revés que a força militar estadual comandada pelo Tenente PiresFerreira sofreu em Uauá, os governos do Estado e da União uniram forças nosentido de exterminar a comunidade de Canudos, bem como de “apagar alocalidade do mapa da Bahia”, como se a mesma fosse habitada por estrangeirosnefastos aos interesses do desenvolvimento nacional. Todavia, o itinerário a serpercorrido pelos militares seria outro: embarcariam nos trens da Estrada de Ferro doSão Francisco, na Estação da Calçada em Salvador e desembarcariam na Estaçãoda Vila Bela de Santo Antônio das Queimadas, às portas da região conflagrada,distante apenas 200 km de Canudos. Assim sendo, Queimadas fora transformadaem primeira base de operações e, é válido ressaltar que, não apenas a proximidadegeográfica pesou para a sede do município constituir uma base do Exércitobrasileiro. Um elemento de ordem técnica teve influência preponderante – otelégrafo. Por meio deste se estabeleceu a comunicação entre Queimadas e orestante do país, mormente com a Capital da República e São Paulo. Do telégrafoseriam enviados inúmeros telegramas para as autoridades, para os principais jornaisdo país, muitos dos quais, com informações tendenciosas, alarmantes edesencontradas, o que contribuiu para boa parte da opinião pública brasileira apoiara destruição total de Canudos. O fato de o governo transformar Queimadas em base de operações alterou arotina e a vida cotidiana da quase totalidade dos habitantes, evidenciando que aguerra empreendida contra o povo de Canudos, entre 1896 e 1897, prejudicou,ainda que indiretamente, outras comunidades. A partir da chegada da segundaexpedição (26/11/1896), muitos tiveram que “ceder”, alugar suas casas por preçoirrisório, ou mesmo hospedar os militares graduados. Estes habitantes que eramquase forçados a abandonarem, por um período de tempo, o aconchego do lartinham que ir residir na vivenda de algum parente ou amigo. Na quarta expedição,por exemplo, estes foram fatos corriqueiros. Corroborando estas colocações o jornalGazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, na edição de 17/10/1897, salientou: A população da vila retirou-se toda desde o início das operações em Canudos.

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