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23                           A tese do estabelecimento de um novo modelo de crescimento não encontra                      ...
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25tradição esquerdista forte, pois a política era polarizada entre esses dois grupos comideologias bastante semelhantes.  ...
26que apoiavam a oposição para locais distantes), decidiram então fundar o PT, como citou ementrevista Arivaldo Mota, fund...
27“operário”, mais comum em outras instâncias de debates petistas e esquerdistas de forma maisgeral.47         O discurso ...
28         Outro aspecto relevante do PT de Conceição do Coité que pode ser análogo ao partidoem âmbito nacional, e peculi...
29                              caso o mesmo não assine a carta de renúncia, fica automaticamente suspensa                ...
30prefeituras por todo o país, ele acaba tendo um acesso maior a patronagem política comotambém um poder aquisitivo mais a...
31      Do total de votos, somente 83 vieram da zona rural e 141 da sede. Na zona rural,percebe-se que quanto maior a loca...
32                            nacional e, a partir daí, consolidar sua hegemonia no Governo Fernando                      ...
33         A partir desse momento há um refluxo nos discursos petistas que pregavam a luta declasses ou a inviabilidade de...
34         Nas eleições de 1996, novamente os petistas não lançaram candidato a prefeito nemapoiaram oficialmente o candid...
35candidato de oposição era um tradicional aliado político do grupo que estava no poder (os“vermelhos”) e recém-dissidente...
36         Pode-se perceber isso no discurso petista das eleições de 2000, ainda consideradoradical até pelo próprio parti...
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38          No entanto, como já foi mostrado anteriormente o PT coiteense também sofreu muitasalterações e a prática ficav...
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Partido dos trabalhadores rupturas e permanências de um projeto político em coité (1986 2008)
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  1. 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV COLEGIADO DE HISTÓRIA BIANCA CARNEIRO DE ALMEIDAPARTIDO DOS TRABALHADORES: RUPTURAS E PERMANÊNCIAS DE UM PROJETO POLÍTICO EM COITÉ (1986-2008) Conceição do Coité 2009
  2. 2. 2 BIANCA CARNEIRO DE ALMEIDAPARTIDO DOS TRABALHADORES: RUPTURAS E PERMANÊNCIAS DE UM PROJETO POLÍTICO EM COITÉ (1986-2000) Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Departamento de Educação da UNEB, Campus XIV, Conceição do Coité, como requisito parcial para obtenção do grau de Graduação em Licenciatura em História. Orientador: Prof. Ms. Eduardo Borges Conceição do Coité 2009
  3. 3. 3 RESUMOO trabalho aqui apresentado é resultado de uma pesquisa para o Trabalho de Conclusão deCurso de Licenciatura em História da UNEB e visa perceber as rupturas e permanências doPT coiteense, de suas origens aos dias atuais, como também se sua trajetória está emconsonância com a do PT nacional. O trabalho situa-se na linha da Nova História Política quetem dentre os seus principais teóricos o historiador René Remond. Ao longo do trabalho,observando as práticas do PT local e do PT nacional percebe-se que no momento donascimento do primeiro este estava em conformidade com o PT nacional, a não ser emaspectos que diziam respeito ao contexto no qual ele estava inserido, já que era impossívelmanter um discurso idêntico em um centro industrial e desenvolvido e numa cidade agrícola einteriorana como é o caso de Conceição do Coité. Com o passar do tempo e as transformaçõesocorridas a nível nacional o PT coiteense foi acompanhando a evolução do PT nacional, noentanto um pouco mais próximo ainda de suas origens. Isso se deve, em grande parte, ao fatode que em Conceição do Coité o PT não conseguiu chegar ao poder municipal, nem sermaioria na Câmara de Vereadores, permanecendo assim afastado do poder local.Palavras-chave: Partido dos Trabalhadores, política, transformações.
  4. 4. 4 ABSTRACTThe work presented here is the result of a search for the Conclusion of the Degree in HistoryUNEB and aims to realize the breaks and continuities of the PT coiteense, from its origins tothe present day, but if his career is in line with the PT national. The work falls in line with thenew political history that has among its main theoretical historian René Rémond. Throughoutthe work, observing the practices of local and EN EN national realize that at the time of birthof the first was in line with the national PT, except in matters which related to the context inwhich it was inserted, since it was impossible to maintain a similar speech in an industrialcenter and a town developed and agricultural and inland areas as is the case of the ConceptionCoité. With the passage of time and the changes occurring at national level PT coiteense wasmonitoring developments in national PT, but a little closer still to its origins. This is due inlarge part to the fact that in the Conception Coité the PT failed to reach the municipalgovernment and is not majority in the House of Councilors, staying well away from localgovernments.Keywords: Worker’s Party, political, transformations.
  5. 5. 5 SUMÁRIOINTRODUÇÃO ............................................................................... 0601. O NASCIMENTO DE UM PARTIDO...................................... 12- 1.1 O COMEÇO DE TUDO.............................................................. 12- 1.2 ANOS 80: A CONSOLIDAÇÃO DE UM PARTIDO.................. 15- 1.3 ANOS 90: AS TRANSFORMAÇÕES......................................... 18- 1.4 2002: LULA E O PT DE HOJE................................................................ 2202. PT E COITÉ: O PRIMEIRO ENCONTRO.............................. 24- 2.1 ANOS 80: A BUSCA DE REFERÊNCIA............................................. 24- 2.2 ANOS 90: MOMENTOS DE CRISE.......................................... 31- 2.3 ANOS 2000: UM NOVO CENÁRIO...................................................... 3403. O NACIONAL E O LOCAL: A AÇÃO PARTIDARIA........ 40CONSIDERAÇÕES FINAIS......................................................... 49REFERÊNCIAS............................................................................... 51FONTES........................................................................................... 54
  6. 6. 6 INTRODUÇÃO A História Política vista como algo retrógrado e factual tem nas últimas décadas,tomado uma posição cada vez mais inovadora e analítica, sofrendo grande influência daEscola dos Annales. No entanto, desde o “nascimento” da História com Heródoto e Tucídidesna Grécia Antiga que esta focaliza como objeto de estudo os reinados dos “grandes homens”,dos heróis, das guerras e de toda uma vida pública em que só constava a classe dominante. Na Idade Média a maior parte dessas características persistem, no entanto, entra emcena agora o monopólio da Igreja Católica sobre o conhecimento, onde há “a inclusão dodevir humano numa teleologia divina.” 1 segundo Rafael Sêga em artigo intitulado História ePolítica. Já Francisco Falcon defende que incluiu a crítica das fontes e a supressão das lendas. Ainda segundo este autor a História Política da era Moderna trouxe algumasnovidades: Neste período, correspondendo à chamada Idade Moderna, a História, como história política, apresenta ainda três peculiaridades interessantes: (1) ela continua a ter sua velha função de mestra da vida, mas os humanistas a utilizam também no ensino da retórica: (2) a sombra de Maquiavel faz pairar sobre ela uma desconfiança terrível: talvez, na verdade, a história não seja capaz de ensinar senão política e nada tenha a ver com a moral e a ética; (3) trata-se de ‘‘histórias’’ que se referem cada vez mais aos Estados territoriais ou dinásticos, as conhecidas monarquias nacionais dos Estados absolutistas dos tempos modernos, constituindo-se em precursoras das futuras histórias nacionais centradas na idéia de Estado-nação.2 Depois deste período, a Revolução Francesa veio trazer um racionalismo para aHistória Política, assim como uma maior atenção às demais classes além da classe dominante,até então praticamente a única estudada. No século XIX, mais especificamente na segundametade deste século, o vigor técnico-industrial da sociedade causado pelas grandes inovaçõestecnológicas que foram desembocar na Revolução Industrial, trouxe valores que acentuaram o1 SÊGA, Rafael. História e Política. História: Questões & Debates, Curitiba, n. 37, p. 183-195, 2002. EditoraUFPR. p. 187.2 FALCON, F. História e Poder. In: CARDOSO, C.; VAINFAS, R. (Org.). Domínios da História: ensaios deteoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 63.
  7. 7. 7racionalismo das Luzes e conduziram a uma nova ânsia para a historiografia de umcientificismo positivista. Até então a História Política continuava tradicional, factual e elitista. Segundo Rafael Sêga essas características persistiram porque a História é produzida deacordo com o contexto social, político, econômico e cultural e atende aos propósitosideológicos de cada período: Não é a toa que a narrativa linear e sequencial dos feitos políticos- militares predominou na historiografia por mais de dois mil anos, pois a história é “filha de seu tempo” e como tal atendeu continuamente a suas intenções ideológicas: à noção de pertencimento à pólis ou à grandeza de Roma, à índole guerreira da nobreza feudal ou ao sentimento religioso dos fiéis da Santa Igreja, ao temperamento empreendedor da modernidade ou aos enlevos nacionalistas contemporâneos, etc.3 Com a ascensão da Escola dos Annales no início do século XX essa situação começoua mudar. Essa Escola ampliou o leque de campos e objetos a serem estudados, incluiu-seagora a História Cultural, História Social, dentre outras, e todas estas traziam agora umaabordagem “vinda de baixo” na tentativa de priorizar as classes subalternizadas, os chamados“excluídos da História".4 Nesse período a História Política foi deixada de lado em certo sentido, pois era sempreidentificada com a História Política tradicional e factual. A partir dos anos 1950 e 1960 asituação começou a se modificar, pois surgiram novas abordagens dessa área agoraidentificada como Nova História Política. José D’Assunção Barros analisando essastransformações, afirma que: Assim, enquanto a História Política do século XIX mostrava uma preocupação praticamente exclusiva com a política dos grandes Estados (conduzida ou interferida pelos “grandes homens”), já a Nova História Política que começa a se consolidar a partir dos anos 1980 passa a se interessar também pelo “poder” nas suas outras modalidades (que3 SÊGA, Op. Cit., p. 190.4 Sobre a Escola dos Annales, ver BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa dahistoriografia. 2. Ed. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
  8. 8. 8 incluem também os micropoderes presentes na vida cotidiana, o uso político dos sistemas de representações, e assim por diante). 5 Essa renovação historiográfica teve seu pontapé inicial em 1954 com o lançamento daobra La droite fraçaise de René Remond, no entanto só veio a se consolidar a partir dos anosde 1980, onde a História Política está cada vez mais ligada a análises inovadoras de inúmerasesferas do poder político, não somente do Parlamento ou Executivo, mas também, dosprocessos políticos, das relações políticas entre grupos sociais, das relações inter-individuais,das representações políticas, organização das unidades políticas e relação entre as unidadespolíticas. 6 A Nova História Política trouxe inúmeras inovações nesse campo de estudo e agoraestá revitalizada para voltar cada vez mais atuante nos estudos históricos, cumprindo agoratodas as condições para ser reconhecida dentro do contexto da Nova História. Essa idéia éanalisada por Marieta de Moraes Ferreira que defende as posições de Rene Rémond: A nova história política, segundo Remond, preenche todos os requisitos necessários para ser reabilitada. Ao se ocupar do estudo da participação na vida política e dos processos eleitorais, integra todos os atores, mesmo os mais modestos, no jogo político, perdendo assim seu caráter elitista e individualista e elegendo as massas como seu objeto central. Seu interesse não está voltado para a curta duração, mas para uma pluralidade de ritmos que combina o instantâneo e o extremamente lento. Para Remond, há um conjunto de fatos que se sucedem em um ritmo rápido aos quais correspondem datas precisas, mas outros fatos se inscrevem em uma duração mais longa – é a história das formações políticas e das ideologias, em que o estudo da cultura política ocupa um lugar importante para a reflexão e explicação dos fenômenos políticos, permitindo detectar as continuidades no tempo de longa duração. Finalmente, segundo o autor, a história política também pode dispor de grandes massas documentais passíveis de quantificação, tais como dados eleitorais e partidários, para citar os mais expressivos. 7 Dentro desse âmbito da Nova História Política um dos objetos bastante estudados eque será também analisado nesse trabalho são os partidos políticos. Estes são alvos de5 BARROS, José D’Assunção. O Campo da História: especialidades e abordagens. 4. Ed. São Paulo: Vozes,2004. p. 107.6 Idem. p. 101.7 FERREIRA, M. De M. A Nova “Velha História”: o retorno da história política. Estudos Históricos. Rio deJaneiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 267.
  9. 9. 9inúmeras obras, e muitas vezes antes do advento dessa nova forma de analisar a história, selimitavam a narrar o ciclo de vida de um partido e descrever seus feitos. No entanto, hoje édado um novo enfoque ao estudo dos partidos políticos, como revela Serge Berstein,defendendo o que mais a história de um partido tem a oferecer aos estudiosos: [...] a importância e a riqueza de um domínio que se situa no cruzamento da longa duração e do acontecimento singular e que recorre, para explicar as ações dos homens, a dados múltiplos e complexos cuja combinação desemboca na existência e na ação dos partidos: o peso da tradição e o jogo das mentalidades, a cultura e o discurso, os grupos sociais e a ideologia, a psicologia social, o jogo dos mecanismos organizacionais e a importância das representações coletivas. 8 Dessa forma, estudar partidos políticos se torna algo de extrema importância paraentender não só as relações políticas dessas instituições, mas também todo um processo socialque essa agremiação traz intrínseca e que se torna principalmente um local de mediaçãopolítica, um local onde se dá a ligação entre a realidade e o discurso político, as necessidadesindividuais e as lutas coletivas. Para o desenvolvimento desse trabalho iremos analisar um partido político, o Partidodos Trabalhadores na cidade Conceição do Coité, uma pequena cidade do interior baianolocalizada na região do semi-árido a 220 km de Salvador, capital do estado. A população giraem torno de 60 mil habitantes9, sendo que a maioria vive na zona urbana. No âmbitoeconômico a cidade tem o segundo maior PIB da região (209,92 milhões) que está distribuídonos setores da seguinte forma: serviços (127,94), indústria (46,61) e agropecuária (18,28).10 Segundo Vanilson Lopes, memorialista da cidade, o arraial de Conceição do Coité temorigem num grupo de tropeiros que, fazendo a viagem de Feira de Sanatana à Jacobina,paravam para descansar em um local onde existia uma fonte de água utilizada por eles e umaárvore que dava uma fruta em que a cabaça era utilizada como cuia e chamada de Cuite noidioma indígena. Para o arraial se tornar freguesia o Sr. João Benevides doou um terreno para8 BERSTEIN, Serge. Os Partidos. In. REMOND, René (org.). Por uma História Política. 2. Ed. São Paulo:Editora FGV, 2003. p. 58.9 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em:http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1. Acesso em: 02/11/09.10 Estatísticas dos Territórios Baianos. Obra em nove fascículos encartados na revista Bahia de Todos osCantos. Fascículo nº 1, 2009.
  10. 10. 10a construção da igreja de Nossa Senhora da Conceição, sendo considerado o fundador dacidade, assim em 09 de maio de 1855 nasce a freguesia de Conceição do Coité. 11 Assim a freguesia prossegue crescendo até que é elevada a categoria de Vila em1878 e, mais tarde em 1890 o município é criado, no entanto passa por uma fase deinstabilidade e é reintegrado ao município de Riachão do Jacuípe em 1931. Em 07 de julho de1933 é emancipado e se torna uma cidade autônoma, tendo como primeiro prefeito João PauloFragoso, considerado responsável pela independência da cidade. Nesse período um dos líderespolíticos mais fortes foi Wercelêncio Calixto da Mota, um comerciante local que tinha o títulode coronel e agia como tal em suas práticas políticas tradicionais. O domínio do conhecido “Seu Mota” e seu grupo durou até o ano de 1972, quandoentrou em cena um novo líder político, seu antigo correligionário, Hamilton Rios de Araújo,que se utilizou de práticas políticas clientelísticas, como doação de água na zona rural,material de construção e todo tipo de “ajuda” à população pobre, conseguindo assim se elegerem 1972 e continuar reelegendo a si mesmo e aos seus protegidos. Nesse momento o Brasil estava sob o regime militar iniciado em 1964. Só existiamdois partidos a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) governista e o MovimentoDemocrático Brasileiro (MDB) na oposição, ambos criados pelo próprio regime. Como nesseperíodo muitos líderes políticos, principalmente os tradicionalistas, almejavam a proteção dogoverno, existia a chamada sublegenda, ou seja, o partido do governo se dividia em ARENA1 e ARENA 2. Esse foi o caso de Conceição do Coité, onde não existia o MDB e todas asdisputas se davam dentro de um mesmo campo ideológico, só havendo uma separação doscandidatos em seu âmbito pessoal, persistindo assim o personalismo característico das formaspolíticas tradicionais. Criando essa diferenciação entre os candidatos surgiu a simbologia das cores vermelhoe azul. O vermelho simbolizava o grupo de Hamilton Rios e os azuis simbolizavam o grupode oposição, tendo como principal personagem Misael Ferreira. A origem dessa simbologia éum tanto controversa, no entanto, a versão mais verossímil é a de Roberto Lopes, registradanum livro de memórias, onde conta que:11 LOPES, Vanilson. Conceição do Coité: a capital do sisal. Salvador: Universidade do Estado da Bahia, 1993.
  11. 11. 11 Evódio Resedá era Maçom, e Maçom na época era coisa do demônio, bode preto, vermelho, comunista. Começava aí a divisão de águas coloridas. A situação da qual Evódio era opositor passou a chamá-lo de bode preto, maçom, demônio, vermelho, comunista “Ele é vermelho, cor do diabo. Nós somos azuis, cor do céu” – diziam os futuros “azuis”. Na campanha de Hamilton Rios (Mitinho), uma reunião de mulheres (a ala feminina do grupo), aprovou a cor vermelha [...] surgindo nos comícios bandeiras vermelhas[... ]12 Surgiram também em Coité, ao longo dos anos de 1980 o Partido do MovimentoDemocrático Brasileiro (PMDB), o Partido Democrático Trabalhista (PDT), o Partido daFrente Liberal (PFL) e o Partido dos Trabalhadores (PT). O grupo de Hamilton Rioscontinuou do PDS entrando posteriormente no Partido Progressista (PP) que surgiu de umadissidência do PDS, Misael Ferreira ficou inicialmente no PMDB, passando depois tambémpelo PL e PSDB. Foi nesse contexto que surgiu o Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores emConceição do Coité, o qual será o nosso objeto de estudo. Num primeiro momento,estudaremos o PT a nível nacional, toda a sua trajetória e transformações sofridas, numsegundo momento faremos uma análise similar com o PT de Conceição do Coitéidentificando as semelhanças e diferenças entre esses dois âmbitos de uma mesma instituiçãoe num terceiro momento analisaremos a atuação parlamentar dos vereadores petistas emConceição do Coité, fazendo uma analogia com o primeiros petistas eleitos em 1982,enfatizando a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, visto como o centro de atuaçãodo PT.12 LOPES, Roberto. Vitórias de Amor e Paixão por Coité. Conceição do Coité: Nossa Gráfica, 2007, p. 103.
  12. 12. 12 CAPÍTULO 01 O NASCIMENTO DE UM PARTIDO 1.1 O Começo de Tudo O surgimento do PT foi um fenômeno um tanto atípico, pois ia em certa medida àcontramão das outras agremiações partidárias. Para entendermos esse fenômeno, é necessáriocompreender o momento no qual esse fato ocorreu, o período de redemocratização brasileira,principalmente entre o final da década de 1970 e início da década de 1980. Esse período foi bem peculiar em comparação a outros países que passaram porsituações um tanto quanto parecidas, até porque o próprio regime autoritário foi diferenciado.Nas ditaduras que ocorreram em outras regiões da América Latina, a ruptura com as estruturasdemocráticas foi quase absoluta, enquanto que no Brasil persistiu alguns instrumentos de umgoverno constitucional, como o funcionamento de um Congresso, eleições para o Legislativoe um sistema bipartidário. Mesmo de forma limitada, essas continuidades fizeram com que noBrasil, segundo Juan Linz13, existisse mais uma “situação autoritária” do que um regimeautoritário propriamente dito. A redemocratização “lenta e gradual” foi realmente lenta, pois ocorreu sob o controle dopróprio regime e dos grupos políticos conservadores. Todo esse processo chegou a durar umadécada. Segundo Margaret Keck, em países como a Argentina, Chile e Uruguai houveoficialmente uma total extinção de organizações partidárias, isso provocou na realidade umcongelamento das identidades partidárias pré-existentes, portanto o período de transição seriautilizado para ocupar esses espaços que já tinham legitimidade entre os eleitores. No Brasil,com a manutenção do sistema bipartidário, a transição deveria ser um momento de criação denovas identidades partidárias. E é justamente nesse ponto que o PT apresenta uma pequenasingularidade, pois ele tentou criar de fato uma identidade que não fosse ligada àsorganizações existentes durante o período autoritário e nem às tradições históricas.13 Linz, J. J. Apud. KECK, Margaret. PT, a lógica da diferença: o Partido dos Trabalhadores na construção dademocracia brasileira. São Paulo: Ática, 1991.
  13. 13. 13 Fatores importantes para se analisar as origens do Partido dos Trabalhadores foram asgreves de 1978 e 1979. A primeira teve como reivindicação os salários, mas teve um resultadomais amplo, enveredando para a política, pois deu aos trabalhadores uma noção da força queeles tinham, já que era a primeira greve em mais de 14 anos. O resultado disso foi que nasgreves de 1979 a luta já era por autonomia, direitos a uma cidadania plena, ou seja, objetivosmais amplos e de longo prazo. A atenção dada, principalmente pela mídia, a essas greves, demonstrou aos trabalhadoresque eles também tinham um importante papel como agentes políticos como também provou aalguns líderes sindicais que era de suma importância a participação política, pois a grevesozinha de nada adiantaria se todo o aparelho do Estado estivesse contra eles e ao lado dospatrões. A partir disso, a idéia de formar um partido próprio começou a ser discutida. A proposta inicial do PT expressa na Carta de Princípios, publicada em 1979conclamando os trabalhadores a se organizarem e participarem da formação deste partido, eraformar um organização partidária cujo objetivo maior seria organizar toda a classetrabalhadora, a atividade parlamentar na verdade estaria subordinada a esse princípionorteador.14 Os dois principais valores são a democracia e o socialismo. A democracia, segundo eles,só seria constituída com a participação dos trabalhadores, pois estes eram os reais agentes dademocracia. Para possibilitar essa participação o PT deveria proporcionar uma realdemocracia interna, com o direito de minorias se expressarem e se organizarem emtendências. A principal característica do PT que o diferencia dos demais partidos em formação,principalmente o PMDB, é a fuga da dicotomia governo e oposição. Para ele os verdadeiros“inimigos” eram as elites, independentes de estas estarem ao lado ou contra o regimeautoritário. O PT pregava na verdade uma luta de classes, uma oposição entre patrões eempregados, entre elite e classe trabalhadora. Esta posição fica explícita em várias passagensda Carta de Princípios de 1979, quando, por exemplo, diz que “O Partido dos Trabalhadoresentende que a emancipação dos trabalhadores é obra dos próprios trabalhadores, que sabemque a democracia é participação organizada e consciente e que, como classe explorada, jamaisdeverá esperar da atuação das elites privilegiadas a solução de seus problemas.”15 ou quando14 Carta de Princípios. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos & Programas deGoverno (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM.15 Idem. p. 04.
  14. 14. 14afirma que “o Partido dos Trabalhadores é um partido sem patrões!”16. E é nesse ponto daformação inicial do PT que reside sua maior peculiaridade. Em 1979 foi promulgada a lei da reforma partidária, na realidade ela tinha como objetivodividir a oposição, até então unida dentro do MDB, para frear o espantoso crescimento deste.Nas palavras de Thomas Skidmore: Dada a recente história brasileira, a “oposição” levava uma natural vantagem no sistema bipartidário em vigor em sua luta contra o governo, especialmente nas cidades e no Centro-Sul mais economicamente desenvolvido. Os estrategistas políticos do presidente, à frente o general Golbery, imaginaram uma solução parcial: dissolver o sistema bipartidário e promover a criação de múltiplos partidos com elementos da oposição, mas preservando as forças do governo em um único partido (presumivelmente com outro nome). O governo manteria assim o seu controle seja pela divisão dos votos da oposição ou pela formação de uma coalizão com os elementos mais conservadores do partido adversário. Acima de tudo, o governo tinha que romper a unidade oposicionista. 17 Desde a promulgação dessa lei até 1982, todas as forças foram canalizadas para ocumprimento das exigências da legislação, que permitissem a legalização do PT, assim em 11de fevereiro deste mesmo ano o Partido dos Trabalhadores teve sua licença provisóriaconcedida. As conseqüências imediatas desse processo foram: a pouca atenção dada adefinição da identidade política ideológica partidária, ocasionada pela concentração deesforços nos aspectos organizacionais, como também a falta de preocupação com a qualidadedos membros, causada pela busca desenfreada de quantidade. Assim como afirma MargaretKeck [...] a decisão de legalizar o partido apesar das dificuldades criadas pela legislação inviabilizou o tipo de processo orgânico que o projeto inicial tinha em vista, qual seja, a conscientização gradual dos trabalhadores, juntamente com o crescimento dos movimentos da sociedade civil e a constituição do partido com base na participação em massa dos seus membros. 1816 Ibidem. p. 05.17 SKIMORE, Thomas E. Brasil: de Castelo a Tancredo, 1964-1985. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 427.18 KECK, Margaret. Op. Cit. p. 123.
  15. 15. 15 1.2 Anos 80: a consolidação de um partido A proposta inicial do partido foi inviabilizada desde o começo, já que a própria legislaçãoimpossibilitou o tipo de processo que o PT pretendia implementar, que era uma organizaçãopautada nas movimentos sociais de base, na conscientização gradual dos trabalhadores, e naparticipação em massa dos seus membros, como pode ser observado em seu manifesto delançamento quando diz que “O PT afirma seu compromisso com a democracia plena eexercida diretamente pelas massas. Neste sentido proclama que sua participação em eleições esuas atividades parlamentares se subordinarão ao objetivo de organizar as massas exploradase suas lutas.”19 No entanto o curto espaço de tempo destinado a organização fez com que afiliação ocorresse em massa sem a preocupação de que os membros participassem de núcleosde base. Esses núcleos eram o cerne da estratégia da democracia interna petista, pois eram eles quepromoveriam a educação política dos seus membros, como também seria o local primordialda ação política e das deliberações partidárias, como pode ser observada na resolução do IEncontro Nacional em 1981: “A ampliação da organização da base através da nucleação emmassa deve ser tomada como tarefa fundamental, para que nossa atuação no processo eleitoralpossa significar uma efetiva organização dos trabalhadores.”20. No entanto, a vaga noção dopapel desses órgãos, somados a precariedade do aparelho de comunicação intrapartidária,acabou desgastando esse processo e fez com que esses núcleos fossem, em grande parte,engolidos pelos comitês e não mais se reestruturassem. A medida de formação desses núcleosfoi algo não muito bem construído dentro do PT, durante toda a década de 1980 não houveuma estruturação sólida. Outra tentativa de alcançar uma democracia interna satisfatória, foi a realização de pré-convenções das quais participariam um número maior de pessoas, eram nessas reuniões queas decisões eram tomadas, as reuniões posteriores apenas ratificavam e oficializavam essasdecisões, como está expressa na Carta Eleitoral de 1982 “Antes das convenções que indicarãooficialmente os candidatos, o Partido deve apoiar todo o processo de seleção em encontros19 Manifesto de Lançamento do PT. 1980. p. 02. In. PT. Disponível em: < http://www.pt.org.br/portalpt/>.Acesso em: 25/08/2008.20 Eleições. I Encontro Nacional. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos &Programas de Governo (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM. p. 01.
  16. 16. 16democráticos distritais, municipais e estaduais, garantindo participação ampla dos núcleos nasindicações.”21. No entanto nenhuma dessas medidas possibilitou uma total democracia interna, já que seformou uma classe burocrática no interior deste partido, expressa pela tendência hegemônicaem praticamente toda a história do PT: a Articulação. Analisando os nomes dos presidentes doDiretório nacional desde sua criação, pode-se notar que apenas alguns nomes se repetemcomo o de Lula (com seis mandatos – 1980/1986, 1990/1994), Olívio Dutra (1987-1989),José Dirceu (quatro mandatos – 1995/2002), José Genoino (2002/2003) e hoje RicardoBerzoini.22 A estruturação regional do Partido dos Trabalhadores se caracterizou por uma grandediversidade. No Rio de Janeiro, por exemplo, não houve um apoio dos partidos, pois grupostradicionais de esquerda (MR-8 e Partido Comunista), que detinham grande influência nossindicatos, apoiavam o PMDB. Assim, nessa área os porta-vozes da proposta petista foramestudantes, intelectuais, grupos comunitários, mas não uma classe coesa. Já em Feira deSantana-BA, apesar de ser uma cidade com um nível de industrialização significativa, o PTfoi formado basicamente por membros do movimento estudantil ou organizações dissidentesdo MDB e PCdoB.23 No Acre, a formação do PT se deu de forma bastante propícia, já que foram formados porclasses coesas: basicamente as comunidades eclesiais de base da Igreja Católica e ossindicatos rurais. Essas classes eram bem engajadas politicamente mesmo sem pertenceremou apoiarem um partido político propriamente dito, pois como afirma Margaret Keck Em 1978, os militantes da Igreja e sindicatos, trabalhando em conjunto com intelectuais locais, haviam organizado uma frente popular das forças progressistas para influenciar as eleições. Em vez de concorrer com candidatos próprios, a frente apresentara aos candidatos do MDB um programa a ser endossado por aqueles que apoiassem os pontos ali contidos. 2421 Carta Eleitoral: II Encontro Nacional. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos& Programas de Governo (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM. p. 06.22 Direções Eleitas. Idem.23 SANTOS, I. G. Na contramão do sentido: Origens e trajetória do PT de Feira de Santana (BA) – 1979-2000.2007. 252 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade federal Fluminense. Niterói, 2007.24 Keck, Margaret. Op. Cit. p. 119.
  17. 17. 17 Os líderes das primeiras eram bem mais politizados do que no restante do país, antesmesmo da criação do PT já haviam reivindicado a formulação de um partido que promovessea participação das bases, que tivesse um viés socialista e lutasse contra o governo autoritário.Enquanto aos sindicatos, estes gozavam de grande prestígio perante a população e apoiarammaciçamente o PT. Os resultados dessa estruturação tanto interna quanto regional, foram percebidos naseleições que ocorreram na década de 1980. O ambiente eleitoral se caracterizava pelastentativas de convencer a população sobre o caráter da eleição de 1982, primeira eleiçãopluripartidária depois de 1965. O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB)procurava dar a essa eleição uma feição plebiscitária, entre governo e oposição (representadapor ele). Já o Partido dos Trabalhadores, lutava contra esse discurso pemedebista e tentavaprogramar uma disputa eleitoral horizontal entre os partidos, enfatizando a importância de“trabalhador votar em trabalhador”, como defende na sua Carta Eleitoral de 1982: [...] desta vez, não estaremos mais submetidos à obrigatoriedade de optar entre dois partidos criados pelo Regime Militar e controlados, ambos, por segmentos das elites dominantes. Desta vez, contaremos com as possibilidades de votar em um partido criado por nossas próprias mãos: o Partido dos Trabalhadores. 25 Diferente do decepcionante resultado da eleição de 1982, a de 1985 teve um êxitosignificativo, sendo o desempenho do partido notícia de destaque na Veja26, com manchete “Aestrela do partido: de braços dados com sindicatos o PT torna-se cada vez mais encorpado nascidades e no campo e faz barulho por toda parte”. Isso se deve em parte pelas mudanças nacampanha, que passava de um tom sectário, fechado, seco, para algo mais alegre, até mesmobem humorado, fazendo com que sua mensagem fosse entendida e aceita por um maiornúmero de pessoas, chegando até, em Vitória, recorrer à classe média e às esferas liberais, atéporque seu candidato era de classe média, o médico Vitor Buaiz27. É interessante também notar o impacto dessas eleições na estruturação do PT. Emprimeiro lugar, os petistas perceberam que direcionando sua campanha eleitoral apenas a25 Carta Eleitoral. II Encontro Nacional. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos& Programas de Governo (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM. p. 02.26 Veja, nº 903, 25 de dezembro de 1985.27 Mais informações ver KECK, Margaret E. Op. Cit.
  18. 18. 18classe trabalhadora não conseguiria grandes vitórias nas urnas, caindo por terra então o viésclassista de seu discurso, que agora tentava abarcar outras classes sociais, principalmente aclasse média. Em segundo lugar, também se notou uma tentativa de criar uma identidade maissólida para o partido, que se manifestou na formação de uma coalizão dominante, aArticulação, no entanto, a busca pelo meio termo entre uma esquerda revolucionária, umpartido como movimento, e uma instituição mais sólida e com maiores bases eleitorais,provocou uma formação ambígua dentro do PT. A modificação e ampliação das bases eleitorais, resultantes desse processo, foi o iníciode uma transformação da proposta inicial do PT, que durante os anos de 1990 já começou aaceitar alianças com outros partidos de centro, mais distantes de sua “ideologia original”, masque pudessem angariar votos de uma faixa que o PT por si só não conseguiria. Até mesmo ascampanhas petistas também se modificaram significativamente, com o objetivo de ampliar ediversificar suas bases eleitorais. 1.3 Anos 90: as transformações O Partido dos Trabalhadores pode ser caracterizado nos anos de 1990 pelas grandesmodificações que sofreu, modificações estas que o encaminharam para o centro do espectroideológico. Esse processo foi estudado por Paulo Gabriel Martins de Mour em seu trabalho“PT: a mutação de um partido”, no qual defende que no PT se aplica a Lei de Ferro daOligarquia formulada por Robert Michels (1983), Mour, embasado em Michels, afirma que [...] à medida que as organizações partidárias crescem e se tornam mais complexas, desenvolve-se um processo de declínio de sua democracia interna, em detrimento do qual cresce o poder de decisão dos dirigentes, ainda que esses, em tese, estejam subordinados àqueles que os escolheram.28 Podem-se perceber essas idéias de Mour no crescimento e hegemonia de uma camadaburocrática dentro do PT, formada geralmente pela Articulação, tendência interna28 MOUR, P. G. PT: a mutação de um partido. Logos, Canoas, v. 12, n.1, p. 43-52, maio 2000. p. 49.
  19. 19. 19predominante, na qual Lula, o membro mais conhecido do PT, é ligado. O poderiohegemônico desta facção foi percebido com maior ênfase quando em 1998 o DiretórioNacional (formado basicamente pela Articulação) interferiu arbitrariamente na decisão daconvenção do PT do Rio de Janeiro que havia escolhido Vladmir Pereira para se candidatar agovernador, formando uma chapa unicamente petista, para impor uma aliança com o PDT de 29Anthony Garotinho. Demonstrou-se assim que o poder de decisão estava na mão dessegrupo que agia independente da militância de base dos quais eram representantes. Essa estrutura inadequada com a proposta inicial do partido é admitida pelo próprio naresolução do I Congresso nacional de 1990. Nossa estrutura orgânica não apresenta mais correspondência com a nossa força real e representatividade social. Embora nosso Partido continue sendo, entre os partidos brasileiros, aquele que possui a maior militância, a vida interna mais efetiva e a maior dose de democracia interna, a verdade é que é preciso superar a nossa atual política de organização. A atual forma de organização do Partido está inadequada e até mesmo caduca. Temos uma estrutura verticalizada, que engloba as instâncias atuais (DN, DR, DM, Núcleos e Zonais), mas que não dá conta de um Partido como o nosso. Possuímos, de fato, uma estrutura de elite, que não oferece canais de participação para uma camada mais ampla de petistas, quanto mais para uma participação maciça.30 Outras transformações foram de suas bases eleitorais, assim, por exemplo, em meadosda década de 1990 o PT contava com um eleitorado em sua maioria de classe média, com altaescolaridade, alocado no setor terciário, muito diferente dos tradicionais partidos classistas.Mais um fator que influiu na estruturação do PT foi a gradual eliminação dos núcleos de base,já citados anteriormente, organizações pelas quais o partido tentava organizar suas bases epromover a democracia interna. Também a campanha eleitoral intensificou as mudanças jáocorridas nas eleições de 1985, como mostra uma das resoluções do 6º Encontro Nacional, “Aprodução dos programas de televisão e rádio, que vão ao ar a partir de setembro, devecombinar o conteúdo político geral da campanha com formas estéticas, criativas e originais,que não descaracterizem aquele conteúdo.”3129 Mais informações em KECK, Margaret. Op. Cit.30 Partido. I Congresso Nacional. 1991. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos& Programas de Governo (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM. p. 01.31 As Eleições Presidenciais e a Candidatura de Lula. VI Encontro Nacional. Idem. p. 15.
  20. 20. 20 Outro fator importante para se analisar essa mudança petista, são as própriascoligações que estes fizeram nas campanhas eleitorais. Em 1989 a coligação foi com o PartidoComunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB)32; em 1994 se somou aesses o Partido Comunista Brasileiro (PCB) o Partido Popular socialista (PPS) e o PartidoSocialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), esse último inclusive, formado pordissidentes do PT33; em 1998 não se coligaram o PPS, nem o PSTU, e adicionou-se o PartidoDemocrático Trabalhista (PDT)34; em 2002, houve a grande mudança com a incorporação nacoligação do Partido Liberal, somou-se também o Partido da Mobilização Nacional (PMN)35. A partir da observação dessas coligações pode-se notar uma abertura maior a partidosdiferentes do PT, como o PDT em 1998, representante das tradições trabalhistas varguistasdas quais o PT era crítico, mas principalmente na aliança com o PL, partido tradicionalmentede direita, com uma ideologia bastante divergente da do PT. No entanto, os petistas afirmamque não seria prejudicial ao programa do PT, já que o PL não tinha uma ideologia sólida, enão iriam por em risco os princípios petistas, somente ajudariam na atração de um númeromaior de eleitores. Outro elemento preponderante para se analisar esse processo foi a crise da até entãoinabalável ética petista. No primeiro Congresso Nacional do PT em 1990, predominou a idéiade que a missão do PT era formar e defender uma “nova ética política”, como fica claro napassagem da resolução sobre o partido “Temos um dever no PT, um partido diferente, dedesenvolver uma nova ética partidária, também diferente, e expressá-la claramente em nossos 36estatutos” . Antes mesmo disso já existia uma defesa muito grande do princípio ético, masdepois desse encontro foi corroborado esse valor petista como um dos, se não o maisimportante. Entretanto, logo em 1993, surgiram denúncias sobre corrupção dentro PT, denúnciasestas feitas por Paulo de Tarso Venceslau, membro influente dentro do PT, amigo íntimo dopróprio Lula. Ele acusou a cúpula do PT de tentar coagi-lo para firmar um contrato com umaempresa pertencente ao irmão de um compadre de Lula, compadre este que cedeu umapartamento ao próprio Lula em São Bernardo do Campo. Uma comissão de sindicância32 Plano de Governo. As bases do Plano Alternativo de Governo (síntese popular). 1989. Ibidem.33 Plano de Governo. Os Compromissos da Frente Brasil Popular pela Cidadania. 1994. Idem.34 Programa de Governo. União do Povo - Muda Brasil. 1998. Idem.35 Programa de Governo. Coligação Lula Presidente. 2002. Idem.36 Partido. I Congresso Nacional. 1991. Idem. p. 02.
  21. 21. 21apontou irregularidades na relação do PT com esta empresa, no entanto, não houve nenhumaatitude no sentido de punir os responsáveis, pelo contrário o denunciante que foi punido,sendo expulso do partido. Logo depois, em 1994, na Carta Eleitoral, aprovada no IX EncontroNacional era expressa a radical proibição de qualquer aproveitamento ilícito dos recursospúblicos: O parlamentar não pode utilizar e deve combater, rigorosamente, quaisquer privilégios ou regalias (como subvenções sociais, concessão de bolsas de estudo e outros auxílios) e demais subterfúgios que possam gerar, mesmo involuntariamente, desvio de recursos públicos para proveito pessoal ou de terceiros e ações de caráter eleitoreiro ou clientelístico.37 Assim, como afirma Francisco Carlos Palomanes Martinho, [...] embora Lula tivesse afirmado repetidas vezes que procurava construir um ‘novo’ partido organizado por suas bases militantes, na prática, as tradições se faziam mais fortes. As virtudes e os defeitos dos grandes partidos eram cada vez mais evidentes no PT. 38 No entanto, não houveram somente mudanças negativas. O PT cresceu muito duranteessa década, conquistou muitas prefeituras e governos estaduais importantes, alargouenormemente o número de parlamentares, e com isso, cresceu também o seu prestígio,nacional e até internacionalmente. O grande trunfo do PT foi o seu orçamento participativoaplicado com grande sucesso na capital gaúcha, o que possibilitou a implementação depolíticas públicas muito positivas para a população local, assim como uma maiortransparência na gestão. No entanto nem nessa experiência de sucesso foram totalmenteabolidas as práticas clientelísticas em Porto Alegre, ainda vistas como um canal mais rápidopara adquirir benefícios, como afirma Goetz Ottmann, se referindo ao bairro Chapéu do Sol“[...] os membros de uma associação de bairro fragilmente integrada ao OP viam naassistência dos vereadores um canal mais importante para as suas tentativas de encaminhar e 39resolver os problemas do bairro junto à prefeitura” .37 Carta Eleitoral. IX Encontro Nacional. Ibidem. p. 04.38 MARTINHO, F. C. P. FERREIRA (Org.) ; REIS FILHO, Danial Aarão (Org.) . As esquerdas no Brasil.Revolução e democracia (1964...). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 533.39 OTTMANN, G. Cidadania mediada: processos de democratização da política municipal do Brasil. Novosestudos – CEBRAP, São Paulo, n.74, mar. 2006. Disponível em:<www.scielo.com.br>. p. 172.
  22. 22. 22 1.4 2002: Lula e PT de hoje A campanha das eleições de 2002 se deu num contexto favorável a vitória de Lula, poishavia o desgaste das gestões de Fernando Henrique Cardoso, assim como os outros candidatosque, além de não contarem com um carisma comparável ao do candidato petista,subestimarem sua força e trocaram acusações entre eles, se enfraquecendo e abrindo espaçopara Lula. Além dessa estrutura apropriada para vitória petista, a campanha executada de formaextremamente profissional, com grandes recursos e feita pelo famoso publicitário DudaMendonça (que já havia feito campanhas para Paulo Maluf) ajudou bastante no curso daseleições, como também a moderação no discurso político, e a posição de não atacar osadversários, criando o lema “Lulinha paz e amor”. Nessa conjuntura, não foi difícil Lulavencer as eleições, criando um marco na história da esquerda na América Latina. Além das coligações feitas durante as campanhas houve alianças durante a gestãopetista, para se formar a chamada base governista. Foram incluídos nessa base o PartidoTrabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Progressista (PP). O primeiro foi duramente criticadopelo PT em suas origens, na Carta de Princípios40, onde é acusado de ser elitista, um partidode empresários que objetiva atrair os trabalhadores para ser sua “massa de manobra”. Osegundo tem suas raízes mais profundas no governo militar, pois surgiu de uma série defusões e desmembramentos entre o antigo Partido Democrático Social (PDS), partido querepresentava os militares, e outros partidos conservadores. Todas essas alianças demonstraramuma grande flexibilidade do governo petista. Durante sua gestão, Lula teve uma postura conservadora no que diz respeito à políticaeconômica, surpreendendo até mesmo a oposição. Mantendo em boa parte, o que já vinhasendo feito pelos governos anteriores. Essas idéias são reforçadas por Ricardo Carneiro emartigo intitulado “A supremacia dos mercados e a política econômica do governo Lula”,quando defende que:40 Carta de Princípios. 1979. In. Partido dos Trabalhadores: Resoluções de Encontros e Congressos &Programas de Governo (1979-2002). Fundação Perseu Abramo, 2005. CD-ROM.
  23. 23. 23 A tese do estabelecimento de um novo modelo de crescimento não encontra sustentação, nem no desempenho das variáveis econômicas cruciais, como a taxa de investimento, e nem no formato da política econômica. O crescimento recente não fugiu ao característico stop and go das últimas décadas. Isto fica patente na volatilidade do PIB, mas, sobretudo, na do investimento. Além de resultante de uma política macroeconômica deflacionária, exacerbada no governo Lula, esta ausência de um novo modelo de crescimento evidencia-se na insuficiência da política de desenvolvimento. O baixo valor dos investimentos em infra-estrutura, centrais para ampliação da competitividade sistêmica e definição de horizonte mais largo de crescimento não foi superado nesse governo. Também não se concretizou uma política industrial, ao mesmo tempo focalizada em determinados setores prioritários e, constituída dos vários instrumentos pertinentes (financeiros, fiscais e tarifários). Nesse contexto o crédito dirigido, embora preservado, assumiu uma feição defensiva observando-se sua maior democratização, mas também, a ausência de articulação com um projeto de desenvolvimento. 41 A grande mudança foi o estabelecimento e aperfeiçoamento de políticas públicassociais, o crescimento do emprego, a retomada do desenvolvimento econômico, o estímulo àsáreas de cultura, ciência e tecnologia. Esses pontos positivos ajudaram na recuperação de Lulaapós os escândalos de corrupção em seu governo, principalmente o do mensalão. Segundo oacusador Roberto Jefferson, líder do PTB e um dos maiores aliados do governo petista, ogoverno pagava propinas mensais a vários deputados para que votassem a seu favor e oapoiassem em suas medidas. Esse fato desencadeou um processo de moralismo por parte depolíticos conservadores, até então conhecido por práticas bastante semelhantes, que decidiramlevantar a bandeira da ética, até então “pertencente” ao PT. A partir daí a oposição articulada com a grande mídia fez uma campanha feroz contrao governo Lula que acreditavam não ser mais possível prosseguir na gestão 2007-2010. Oque, em outubro de 2006, provou ser falso diante da reeleição de Lula para presidente darepública o que demonstrou o grande contentamento de boa parte da população,principalmente das classes mais baixas, com a política social do referido governo. No entantoessa identificação com o governo petista por parte das massas não se refletiu em todo o país,como é o caso do PT de Conceição do Coité que, mesmo após 20 anos de existência nãoconseguiu chegar ao poder local.41 CARNEIRO, Ricardo. A supremacia dos mercados e a política econômica do governo Lula. In.: PolíticaEconômica em Foco, n. 7 – nov. 2005/abr. 2006. p. 23
  24. 24. 24 CAPÍTULO 02 PT E COITÉ: O PRIMEIRO ENCONTRO2.1 Anos 80: a busca de referências O PT de Conceição do Coité nasceu num momento posterior ao do surgimento deinúmeros partidos que foi o início da década de 80, pois foi fundado nesta cidade em 1986.No contexto nacional esse período foi o início do primeiro governo civil depois de mais vinteanos de militares no poder. O governo Sarney tinha em mãos uma enorme quantidade deproblemas a serem resolvidos, como o altíssimo índice de inflação, uma dívida externa einterna gigantesca, recessão econômica, altíssima taxa de desemprego e uma desestruturaçãopolítica significativa. Assim como, segundo Skidmore, foi um período de grande mobilizaçãopopular e participação política, pois: Os brasileiros, ironicamente, reagiram aos últimos anos de regime autoritário aprendendo a proteger seus interesses através da mobilização política. Esta determinação explicava-se pela fé que depositavam no processo político, 42 embora suas reivindicações particulares merecessem ser avaliadas. Ainda segundo o autor supracitado a partir de 1985 houve em grande medida napopulação brasileira uma decepção com os novos políticos que foram acusados de inúmerasfraudes. Já no âmbito local, este não foi um momento de grandes novidades, já que sepermanecia na prefeitura o mesmo grupo que apoiava o governo militar desde 1972. Esseseram os chamados “vermelhos”, na oposição outro grupo tradicional da política local os“azuis”, que eram também de direita. Portanto, em Conceição do Coité nunca houve uma42 SKIMORE, Thomas E. Brasil: de Castelo a Tancredo, 1964-1985. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. p. 503.
  25. 25. 25tradição esquerdista forte, pois a política era polarizada entre esses dois grupos comideologias bastante semelhantes. Analisar o PT em cidades do interior é tão imprescindível e interessante quanto estudaro partido em nível nacional. Igor Gomes Santos, em sua dissertação de mestrado “NaContramão do Sentido: origens e trajetória do PT de Feira de Santana – Bahia (1979-2000)”,analisa as “peculiaridades” do PT feirense, e também mostra a necessidade e a grandeimportância dos outros PT’s, diferentes do paulista que é tido como o modelo original, naformação do partido em âmbito nacional. Também defende que os petistas não são somenteaqueles que se auto-identificam como “autênticos” (sindicalistas, tendo a frente Lula), mastambém todos os outros grupos que trabalharam no sentido de fundar e fortalecer o PT, comoas esquerdas clandestinas, em todas as regiões do Brasil. Ele afirma que essa homogeneizaçãoda memória faz parte da historiografia do que ele chama de “mito fundador”. Santos,analisando essa memória homogênea e hegemônica, se questiona: [...] para a fundação do PT, e dos demais partidos que se institucionalizavam nessa época, as novas leis eleitorais não previam a consolidação do partido em certa quantidade de estados, com certa margem de votos? Podia o PT se transformar em um partido nacional sem a participação da militância de outros estados e municípios? Como pôde, portanto, a formação do PT, com os aspectos peculiares aos acontecimentos da formação da classe operária paulista, ter ficado, para o imaginário social e historiografia sobre o PT, como modelo geral de formação do partido e, consequentemente, de formação das classes trabalhadoras? 43 Em Conceição do Coité, mais especificamente, o surgimento do partido não seguiu essepadrão paulista, pois não nasceu principalmente a partir de sindicatos, mas majoritariamentede pessoas ligadas a Igreja Católica e somente depois conseguiu apoio das organizaçõessindicais. Os então fundadores do PT de Coité, influenciados pela Teologia da Libertação eobservando algumas práticas impróprias dos poderosos locais (como transferir funcionários43 SANTOS, I. G. Na contramão do sentido: Origens e trajetória do PT de Feira de Santana (BA) – 1979-2000.2007. 252 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade federal Fluminense. Niterói, 2007.
  26. 26. 26que apoiavam a oposição para locais distantes), decidiram então fundar o PT, como citou ementrevista Arivaldo Mota, fundador e atual presidente do partido: [...] a partir do momento que nós percebemos uma situação maior quando foram transferidos médicos e professores daqui de nossa cidade para outras cidades distantes como Doutor Pinheiro, Doutor Yedo, Acrísia, aí nós percebemos que mais ainda precisávamos participar do projeto político diferente desses de perseguições, para que a gente pudesse tentar mudar a política em Coité. 44 Segundo Joilson Araújo, um dos fundadores do partido, os então futuros petistasbuscavam um modo de atuar sobre o mundo seguindo um ideal cristão, em entrevista eleafirma “Nós éramos todos do movimento do Cursilho de Cristandade, e ouvindo as exigências éticasdo evangelho, começamos a procurar um partido que representasse o ideário cristão e fosse 45sintonizado com a busca da justiça” , a partir daí então decidiram fundar um partido e depois deanalisar diversos estatutos escolheram o Partido dos Trabalhadores, pois segundo eles, era oque mais se aproximava das “exigências do evangelho”. O momento da fundação foi marcado por expressiva mobilização, havendo frequentesreuniões, somente no ano de 1988 foram realizadas 14 reuniões46. Esse fenômenoacompanhava o clima existente em todo o Brasil de mobilização e uma real vontade departicipar da vida pública, depois dos mais de 20 anos alheios a essa área, como demonstrouSkidmore, já citado anteriormente. Nas pautas das reuniões do diretório, é possível notar uma preocupação com o social,com a transparência dos órgãos públicos municipais, como também um apoio aoassociativismo. No entanto, é interessante perceber certa dissonância entre o discurso nacionale local, ocasionado pelas diferentes realidades (o nacional em um contexto industrial eoperário e o local, numa cidade sertaneja e agrícola) quando se percebe a utilização excessivade termos como “mais carentes” e praticamente nenhum emprego da palavra “trabalhador” ou44 Entrevista com Arivaldo Ferreira Mota. 03/12/2008.45 Entrevista com Joilson Marcos Cunha Araújo. 22/06/200946 Ata das reuniões do diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores em Conceição do Coité.
  27. 27. 27“operário”, mais comum em outras instâncias de debates petistas e esquerdistas de forma maisgeral.47 O discurso tão propagado de que o Partido dos Trabalhadores é o legítimo representantede todas as classes, onde todos (de intelectuais a analfabetos) têm direito a amplaparticipação, é em certa medida, ratificada pelo PT Coiteense onde há a participação(inclusive na lavratura de atas) de pessoas com pouco nível de escolaridade, isso é notado nosinúmeros erros de português existentes nas atas de algumas reuniões, essa característicatambém pode ser notada nas fichas de inscrições de filiados onde pode-se perceber afreqüente incidência de pedreiros, agricultores, donas de casa e trabalhadores manuais deforma geral. Essa característica do PT coiteense diverge portanto, do PT de Feira de Santanaque surgiu principalmente do movimento estudantil e tentou, durante toda a década de 1980,se aproximar dos trabalhadores propriamente ditos, chegando a se questionarem se o Partidodos Trabalhadores feirense representava de fato os interesses dos trabalhadores.48 Em 1987, o governo de Waldir Pires é duramente criticado pelos petistas coiteenses,como pode ser percebido na ata da reunião do diretório de 14 de fevereiro de 1987: “ArivaldoFerreira Mota, denunciando algumas coisas erradas que vem e virá pela frente na gestão do 49futuro governador Waldir Pires.” . Esta chapa, apesar de ser oposição à Antonio CarlosMagalhães, principal adversário do PT da Bahia, não foi apoiado por este, já que foi tidocomo chapa representante da Nova República e, portanto, adversária do PT. Assim, o PTcoiteense segue as exigências do Diretório Nacional que negou o apoio à candidatura deWaldir Pires na Bahia, considerando os seguintes elementos: 1) Que o Partido definiu um critério político para estabelecer coligações e alianças eleitorais que estabelece a centralidade do acordo sobre a oposição ao Governo Sarney, à Nova República e a transição conservadora; representada tanto pela candidatura de Josaphat Marinho (PDS-PFL-PTB) quanto pela de Waldir Pires (PMDB- PC do B – PCB); 2) Que o candidato a governador do PMDB da Bahia, Waldir Pires, deve ser caracterizado como figura integrada à Nova República e à transição conservadora. 3) Que um objetivo fundamental do PT no processo eleitoral aprofundar a organização independente dos trabalhadores e uma política de apoio a Waldir Pires contraria este objetivo;5047 Ata das reuniões do diretório. 27 de novembro de 1986. fl. 02.48 SANTOS, I. G. Op. Cit.49 Op. Cit. 14 de fevereiro de 1987. p. 04.50 Recursos Eleitorais. 4º Encontro Nacional. Op. Cit. 1986
  28. 28. 28 Outro aspecto relevante do PT de Conceição do Coité que pode ser análogo ao partidoem âmbito nacional, e peculiar em comparação aos outros partidos, é a constante falta derecursos, já que não recebiam apoio de empresas, e precisavam sempre estar vendendo objetospara arrecadar recursos. Percebe-se também no discurso dos petistas coiteenses que seu principal objetivo era otrabalho de “conscientização” da população, com a instauração de uma nova cultura políticaem sua cidade, que eles diziam estar até o momento baseada em uma lógica assistencialistacaracterística da política local. O PT promoveu em Conceição do Coité um curso deconscientização política, como também encontros na zona rural, na periferia urbana e tambémno centro, para divulgar o partido. Na memória do petista Joilson Araújo, ele conta: [...] nós éramos até ridicularizados, eles diziam, nos anos 80, que o PT cabia dentro de um fusca, eu me lembro que no centro da cidade, nós parávamos com um fusquinha com alguns auto-falantes, pra ser preciso dois auto- falantes em cima de um fusquinha; de um lado um grupo chamado de vermelhos, de outro um grupo chamado de azul e a gente ali naquele fogo cruzado, sendo ridicularizados e a gente não desistia, persistíamos mesmo. 51 Outro aspecto do PT de Conceição do Coité dos anos 80, era a comissão de ética quefuncionava, havendo processos de cancelamento de candidatura que, em 1988, chegou a seconcretizar devido ao mau comportamento do candidato. Segundo a ata da reunião quedecidiu sua expulsão [...] por motivo da falta de interesse do candidato Carlos Silva em participar de nossas reuniões, por motivo do mesmo não ter interesse de seguir as normas do partido, por motivo do mesmo não ter interesse de participar do trabalho em conjunto com os demais vereadores, o referido candidato deve ser procurado para assinar a sua carta de renúncia até o dia 08 do corrente,51 Entrevista com Joilson Araújo. 22/06/2009.
  29. 29. 29 caso o mesmo não assine a carta de renúncia, fica automaticamente suspensa a sua candidatura52 Segundo David Samuels essa é uma característica do PT, o baixo índice de migração que elechama de “estrutura de recrutamento impermeável”, ou seja: “Quanto menos aberto é o acesso a umpartido, maior é a probabilidade de que existam regras internas desestimulando tanto a migração paradentro quanto para fora, e o mais provável é que a sigla do partido seja valorizada pelos eleitores epelos membros do partido.”53. Para que essa estrutura de recrutamento impermeável persista énecessário um conselho de ética eficiente e que controle essa migração partidária impedindo algumasfiliações, como também impugnando certas candidaturas que não visem os objetivos do partido emprimeiro lugar, portanto essa era uma característica do PT coiteense que era semelhante a propostainicial do PT nacional. No artigo, intitulado “Determinantes do Voto Partidário em Sistemas Eleitorais Centradosno Candidato: evidências sobre o Brasil”54 Samuels estuda a questão do individualismo e/ouvoto de legenda no Brasil. Para ele o predominante neste país é o individualismo nascampanhas e gestões de políticos, esta atitude é estimulada pela própria legislação eleitoralque determina o sistema de representação proporcional com listas abertas, onde os candidatosconcorrem não só com os candidatos de outros partidos, mas também com seus próprioscorreligionários, fomentando assim o individualismo. Samuels chama atenção para o fato de que o Partido dos Trabalhadores (nacional) erauma exceção dentro desse contexto, pois tentava consolidar uma legenda forte, não só por serum partido programático e de esquerda, mas principalmente, por não ter recursos financeirospara bancar campanhas individualistas (que requerem dinheiro ou acesso a patronagempolítica para “comprar” votos). Concluiu que o PT realmente é um partido que se diferenciados demais “partidos de aluguel” por ter se estruturado de maneira a criar laçosorganizacionais com os eleitores e ter institucionalizado essa diferença. No entanto, valelembrar que este trabalho foi publicado em 1996 quando o PT ainda não estava tão presenteno poder, agora estando a frente do governo federal, de cinco estados e de centenas de52 Ata da reunião do diretório. 07 de setembro de 1988. fl. 19.53 SAMUELS, D. As bases do petismo. Opinião Pública, vol. 10, n. 2. 2004. Disponível em: <www.scielo.com.br>. P. 15.54 SAMUELS, D. Determinantes do Voto Partidário em Sistemas Eleitorais Centrados no Candidato: evidênciassobre o Brasil. Dados, Rio de Janeiro, v. 40, n. 3, 1997. Disponível em:< www.scielo.com.br>.
  30. 30. 30prefeituras por todo o país, ele acaba tendo um acesso maior a patronagem política comotambém um poder aquisitivo mais amplo, portanto os argumentos que Samuels lança paraidentificar este partido como singular tornam-se fracos para analisar tal agremiação partidáriana atualidade. Entretanto, em Conceição do Coité de 1988, com o PT ainda recém-formado,minúsculo e sem nenhum membro eleito, este ainda pode ser caracterizado segundo a análisede Samuels, no entanto há que se lembrar que o mesmo atualmente está situado num contextoem que seu partido está a frente do governo federal e estadual, assim como de prefeiturasvizinhas aumentando claramente sua influência em Conceição do Coité. Com relação às coligações, estas não ocorreram já que não haviam em Conceição doCoité partidos tradicionais de esquerda que se coligavam com o PT a nível nacional nessa fase(como o Partido Comunista do Brasil e o Partido Socialista Brasileiro). Cogitaram a idéia dese coligarem com o PDT em 1988, mas este não se interessou pela aliança. Segundo ospetistas, essas coligações não ocorriam pelo motivo da inexistência de partidos de esquerdaem Conceição do Coité, como pode se perceber na ata de uma reunião quando afirmam que“[...] nos encontramos com o PFL e o PMDB, partidos burgueses que tem pensamentos eideais totalmente contrários ao PT.”55 A rejeição ao PMDB, tão comum no âmbito nacional,ou em outras cidades como Feira de Santana, também foi estabelecida aqui. As eleições de 1988, na qual o PT lançou candidato a prefeito: Arivaldo Ferreira Mota e08 candidatos a vereador tiveram um resultado longe de ser animador56. Para prefeito foramangariados 285 votos (que mal conseguiria eleger um vereador) e um total de 517 votos paraos vereadores, sendo que destes 87 foram somente para a legenda, reforçando a validade daanálise de Samuels para o PT de Conceição do Coité, pois este defendia, além daimpermeabilidade partidária, a significativa votação na legenda para o Partido dosTrabalhadores, quando afirma que “[...] o cultivo do voto de legenda como estratégia eleitoralé compatível com a estratégia política geral do PT, a de tornar o governo mais representativoe mais responsável.”5755 Ata das reuniões do diretório. 15 de maio de 1988. Fl. 1456 Resultados descritos na ata das reuniões do diretório. 20 de novembro de 1988. p. 21.57 SAMUELS, Op. Cit. p. 17
  31. 31. 31 Do total de votos, somente 83 vieram da zona rural e 141 da sede. Na zona rural,percebe-se que quanto maior a localidade, maior a quantidade de votos para o PT, e na zonaurbana compreende-se que nos colégios eleitorais mais centrais o PT tem uma quantidade devotos maior, já nos colégios periféricos o montante de votos cai significativamente. Diantedisso, percebe-se que o discurso petista não conseguiu surtir muito efeito nas áreas maispobres tendo maior ressonância onde provavelmente há pessoas com um nível de escolaridademaior, podendo fazer parte da classe média; isso pode ser devido também às práticasclientelísticas dos outros grupos, que se infiltravam melhor nas zonas mais carentes já que asclasses mais baixas dependiam mais da sua assistência. Só em fins da década de 80 que começa a haver uma maior aproximação com ossindicatos, chegando em 1989 a comemorar o 1º de maio junto ao Sindicato dosTrabalhadores Rurais, o mais importante sindicato da cidade até pouco tempo comandadopelos chamados “pelegos”, que mantinha uma relação com os sindicalizados que muitas vezesse restringia a um assistencialismo, e também era ligado a prefeitura.2.2 Anos 90: momentos de crise A década de 1990 foi marcada por uma profunda recessão no Partido dosTrabalhadores, quando as reuniões eram escassas (chegando a se passar quase dois anos entreuma e outra) e com uma participação ínfima que variava de quatro a seis membros porreunião registrada em ata. Talvez o motivo tenha sido o desencorajador resultado eleitoral de1988, ou a própria conjuntura neoliberal na qual o Brasil (e o mundo) foi envolto a partirprincipalmente do governo Collor. Igor Santos, na obra já citada, defende que foi nessemomento: [...] que a burguesia encontrou finalmente seu momento de unificação nacional. A oposição à Lula, a necessidade de desmantelar os direitos instituídos em 1988 e o funcionalismo público, transformado em novo ‘inimigo público’ e, contraditoriamente, a própria deposição de Collor é que permitiu à burguesia brasileira, enfim, tomar como identidade de fato
  32. 32. 32 nacional e, a partir daí, consolidar sua hegemonia no Governo Fernando Henrique Cardoso.”58 Talvez também tenha sido pela crise ideológica instituída no fim da década de 1980com o desmantelamento da URSS e do Leste Europeu socialista, que teve influência em,praticamente, todas as esquerdas do mundo, e “[...] fez com que diversos partidosinfluenciados pelo marxismo ou com presença de marxistas renegassem sua tradiçãosocialista”59 Esse processo desencadeou uma longa e profunda crise do marxismo, analisada por Coelho emsua tese de doutorado onde defende que os petistas têm abandonado o marxismo numa mudançaquase que completa de seu projeto político, e diz que isso ocorre dentro de uma tendênciamundial de abandono dessa corrente.60 A crise do marxismo ao qual o autor se refere não éuma crise paradigmática como afirma Lúcio Colletti, André Gorz ou Claus Offe, entre outrosintelectuais que anunciaram o declínio do marxismo, mas uma crise dos marxistas/ex-marxistas que vem abandonando essas idéias e temas pertinentes a elas. Para ele essasorganizações, que deixaram de lado as referências marxistas anteriormente vigentes, passaramadotar posições mais pós-modernas e (neo)liberais. Como afirma Santos, este foi o caso do PTque em 1991 passou por um processo de transformação: [...] cresceu mais o conteúdo anti-marxista e anti-comunista no Partido dos Trabalhadores. Coincidência ou não, esse foi o ano do início dos processos de expulsão do Partido dos Trabalhadores das correntes Convergência Socialista e Causa Operária, de caráter trotskista [...] Coincidência ou não, neste mesmo ano, José Genoíno, [...] ex-militante de uma corrente marxista- leninista dentro do PT [...] deu uma longa entrevista para o jornal Folha de São Paulo na qual o seu principal mote era a revisão de sua posição ‘marxista’, ‘stalinista’, etc., e a descoberta de um novo tipo de socialismo, ainda indefinido, que ele chamou, e ainda chama, de Socialismo Democrático.”6158 SANTOS, I. G. Na contramão do sentido: Origens e trajetória do PT de Feira de Santana (BA) – 1979-2000.2007. 252 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade federal Fluminense. Niterói, 2007. p. 256.59 Idem. P. 257.60 COELHO, E. Uma Esquerda para o Capital: crise do marxismo e mudanças nos projetos políticos dosgrupos dirigentes do PT (1979-1998). 2005. 549 f. Tese (Doutorado em História). Universidade FederalFluminense, Niterói. 2005.61 SANTOS, Op. Cit. p. 262.
  33. 33. 33 A partir desse momento há um refluxo nos discursos petistas que pregavam a luta declasses ou a inviabilidade de coligações com partidos “burgueses”, ou até mesmo a filiação deempresários no partido, que hoje é largamente aceita. Neste momento tanto o PT nacionalquanto o local perdem algumas características originais e se encaminham para o centro doespectro ideológico. Nas eleições de 1992 o PT não lançou candidato a prefeito próprio nem apoiouoficialmente nenhum candidato de outro partido, lançando ao cargo de vereador apenas cincocandidatos, dos quais nenhum se elegeu. Apesar de não haver nenhuma aliança oficial, ospetistas votaram maciçamente em Diovando Carneiro, candidato da oposição que acabouvencendo as eleições e quebrando com 20 anos da hegemonia do grupo que até então estava afrente do poder executivo de Conceição do Coité. No entanto, o governo de Diovando foimarcado por inúmeras acusações de fraudes e escândalos que acabaram levando-o ao suicídiojá no fim do seu mandato e como ele era considerado pela maioria da população coiteensecomo do grupo “azul”, a tradicional oposição de Coité, o seu governo considerado malsucedido ajudou a fortalecer o grupo dos “vermelhos” que continua no poder até a atualidade. Essa visão, perpetuada na memória coletiva dos coiteenses, de governo desastroso deDiovando e a ligação deste com toda oposição foi fortemente engrandecida pela imprensalocal, como o próprio Jornal Coiteense que no momento da posse do prefeito Ewerton Riosem 1997, gestão que sucedeu a de Diovando Carneiro, trouxe como manchete: “Coité Voltoua Sorrir”, sendo que a matéria tinha um caráter quase que panfletário, dizendo: Desde as primeiras horas do dia 1º de janeiro de 1997, os fogos alertavam a população para o dia festivo. O dia amanheceu com um clima diferente, notava-se no semblante de cada cidadão um sorriso de felicidade, o renascer de um ano novo, um prefeito novo, é Vertinho que está chegando. As faixas colocadas nas principais ruas da cidade revelaram esperança de que dias melhores virão para Coité. ‘Agora temos prefeito em Coité’ foi a grande 62 notícia comentada na cidade.62 Jornal Coiteense, nº 13, Conceição do Coité, 03 de janeiro de 1997, p. 05.
  34. 34. 34 Nas eleições de 1996, novamente os petistas não lançaram candidato a prefeito nemapoiaram oficialmente o candidato da oposição. Depois do governo, considerado por grandeparte da população, desastroso de Diovando Carneiro o retorno do antigo grupo do poder foiquase que inevitável. O PT lançou doze candidatos a vereador obtendo uma votação bemmaior que a última, tendo no total 1466 votos, no entanto nem assim conseguiu eleger umdestes.63 Apesar das mudanças supracitadas, ainda persistem muitas características do PT dosanos 80, como a já citada valorização do partido/conjunto acima do candidato/indivíduo. Issoé notado em artigo escrito pelo candidato Joilson e publicado no Jornal local, na qual diz: “Noresultado do pleito de 1996, (1466 votos), a parte que me coube, eu continuo agradecendo,porque votar no PT é sinal de liberdade e inteligência, é não aceitar a mesmice que reduz aspessoas à condição de mercadorias.”64 Ou seja, o importante é o voto dado ao PT, ele nemsequer cita a sua quantidade de votos, mas somente o resultado total do partido. Durante toda essa década houve um esforço para revitalizar o partido que, como já foidito sofreu um declínio muito grande, chegando a ser registrada apenas uma reunião no anode 1994, e nenhuma no ano de 1995. O partido só começou a se reestruturar e a retomarplenamente suas atividades em 1999, quando houve votação de nova comissão executiva,houve também a criação de novas secretarias (juventude, formação e organização, sindical emovimento social e finanças), assim como foi estabelecida uma sede fixa com um funcionárioefetivo65. Nesse mesmo ano se iniciaram os trabalhos para as eleições de 2000 na qual, depoisde mais de uma década sem lançar candidato a prefeito, o PT apresenta uma chapa majoritáriasem coligações. 2.3 Anos 2000: um novo cenário As eleições do ano 2000 trouxeram uma novidade na política coiteense. Pela primeiravez esta não foi polarizada entre dois grupos tradicionais, os vermelhos e azuis, pois o63 Jornal Coiteense, nº07, Conceição do Coité, 12 de outubro de 1996, p. 05.64 Jornal Coiteense, nº14, Conceição do Coité, 24 de janeiro de 1997, p. 02. (grifo meu)65 Ata das reuniões do diretório. 07 de setembro de 1999. Fl. 31.
  35. 35. 35candidato de oposição era um tradicional aliado político do grupo que estava no poder (os“vermelhos”) e recém-dissidente deste. Enquanto que o tradicional opositor, Misael Ferreira,representante dos “azuis” se aliou ao grupo da situação. Nesse contexto o PT resolveu lançar um candidato a prefeito, pois segundo eles, nãoviram alternativa entre os dois candidatos, que eram vinculados a Antonio Carlos Magalhães ea partidos de direita. Segundo o candidato da época, Francisco de Assis: Então o PT vinha frágil até 99, ou se falarmos apenas anos eleitorais até 96, em 2000 aconteceu um fato decisivo pra que o PT passasse a ser mais respeitado enquanto partido no município que foi a decisão do PT de lançar candidatura própria a prefeito no ano 2000 e isso era inevitável porque havia dois candidatos concorrentes ambos vinculados ao PFL, um PFL outro PP, e esses dois partidos eram vinculados a Antonio Carlos Magalhães e novamente iguais. Foi então que o PT lançou candidato a prefeito, eu fui o candidato a prefeito do PT.66 Com essa candidatura o PT se fortaleceu em Conceição do Coité chegando a eleger,pela primeira vez, dois vereadores. No entanto, parece que o PT ainda (ou já) não estavacoeso o suficiente para encaminhar seus projetos, já que na primeira votação da câmara dagestão 2001-2004 os vereadores petistas tiveram posições diferentes, porém isso é assunto aser tratado melhor no próximo capítulo. Nos anos 2000 o PT nacional sofreu grandes modificações, como já foi tratado nocapítulo anterior, pois esse partido foi se adequando as práticas políticas vigentes nasociedade brasileira, se encaminhando em direção a direita do espectro ideológico chegando anão ser mais reconhecido como um partido de esquerda, mas sim de centro. Dentro dessecontexto, o PT coiteense foi se adequando a essa nova face do PT nacional, no entantopermanece ainda um pouco mais à esquerda deste, idéia compartilhada por Arivaldo Mota,fundador e atual presidente do partido: “[...] a gente vê o partido hoje mais realmente decentro do que de esquerda, no geral. Em Coité a gente ainda tem segurado essa situação, agente vê que ele fica mais pra centro-esquerda do que pra centro propriamente dito”67.66 Entrevista com Francisco de Assis Alves Santos. 24/07/2008.67 Entrevista com Arivaldo Mota. Op. Cit. 03/12/2008.
  36. 36. 36 Pode-se perceber isso no discurso petista das eleições de 2000, ainda consideradoradical até pelo próprio partido, em reunião que discutia os resultados das eleições municipaisdeste ano, apontando os pontos negativos eles citam as “[...] falações agressivas por parte dealgum companheiro”68. O que era bastante divergente da prática do PT nacional nesseperíodo, já que em 2002 o discurso petista estava longe de parecer radical, e esses foi um dosmotivos que fez o candidato a presidência Lula conseguir se eleger. Assim como, outro resquício do “PT histórico” no PT coiteense é a idéia aindadefendida por alguns membros de fazer política a longo prazo, não para ganhar as próximaseleições, mas para ir se fortalecendo gradualmente . Pode-se perceber essa idéia na ata dareunião do dia 01 de abril de 2001: “[...] o PT não precisa ter pressa em obter resultadosporque ‘não estamos fazendo política pra hoje’, mas para o futuro.”69 O que também se pode perceber no PT mais atual é a constante participação nas esferasestadual e nacional do partido, o que não era tão visível nos anos de 1980 e 1990. Isso éperceptível na grande participação nos encontros estaduais e nacionais, inclusive na promoçãode encontros com lideranças estaduais no próprio município, como as que ocorreram comWalter Pinheiro, Zé Neto, Cecíclia, Luis Caetano, Zezeu Ribeiro, dentre outros nos dias 24 defevereiro de 2002 e dias 02 e 06 de junho do mesmo ano. Outro fator do PT das origens que continua a ser visto no PT coiteense é o conselho deética que funciona e de forma mais freqüente do que nos anos de 1980 e 1990. Os processosde investigação e tomada de posição são levados mais a sério, como no caso do vereadorAdalberto Neres Pinto Gordiano, que passou por um processo que se arrastou por quase umano, devido ao fato de ter votado pela aprovação das contas do prefeito e do presidente dacâmara. Como é relatado na ata da reunião do diretório com a comissão de ética, realizado nodia quinze de junho de 2002: [o presidente] Citou uma série de atitudes do vereador Adalberto que estariam merecendo profunda apuração, pelo bem do PT e da sociedade coiteense. Pediu que Arivaldo Mota confirmasse a informação de que o referido Adalberto, vereador petista, votou pela aprovação das contas do ex- gestor Ewerton Rios Filho. Arivaldo confirmou que “infelizmente” o68 Ata das reuniões do diretório. 20 de outubro de 2000. p. 33.69 Idem. 01 de abril de 2001. Fl. 38.
  37. 37. 37 companheiro Betão (Adalberto) votara contra sua orientação, e, mesmo o PT tendo recorrido, digo acorrido ao TCM contra as tais contas do ex-gestor, o parlamentar Betão contrariou o PT e o líder da bancada e votou pela aprovação das tais contas. De pronto, foram lembrados diversos casos em que o referido vereador petista tomou atitudes indesejáveis para o Partido e algumas delas ferindo a ética, a disciplina e os deveres partidários.70 A resolução desse conflito se deu com uma advertência pública ao referido vereador.Houve também outros casos de menor repercussão como o de Hildebrando, membro que foidesligado do partido, devido à “[...] prática de atos que infringiu as normas estatutárias eéticas do partido, o presidente submeteu aos membros do diretório presentes que, fosseacolhido o pedido de desfiliação” 71. Mais um elemento de continuidade presente nesse processo histórico é a constanteligação com a igreja percebida pelas inúmeras reuniões realizadas na casa paroquial destemunicípio, o que leva a crer que as relações desencadeadas da origem deste partido em 1986não se apagaram até a atualidade. Como um último fator representativo das continuidades do PT coiteense é a agremiaçãopartidária como uma instituição forte, que controla a migração partidária e está acima dasindividualidades eleitorais. Esses elementos podem ser percebidos tanto num certo receio emaceitar a filiação da vereadora peemedebista Eliana Cirino, registrada na ata da reunião dodiretório municipal em 04 de abril de 2003, quando entra como ponto de pauta este assunto:“Decidiu-se que a direção petista deverá ter uma conversa franca com a vereadorapeemedebista sobre o estatuto partidário do PT ao qual ela, para integrar o quadro de filiadosdo PT, teria que se adaptar.”72 Como também a postura do candidato a deputado estadualUrbano de Carvalho que coloca a sua candidatura para o partido acima da suaindividualidade: “Urbano [...] pediu que sua candidatura fosse encarada como sendo doPartido dos Trabalhadores e não uma candidatura individual.”7370 Ibidem. 15 de junho de 2002. Fl. 49 e 50.71 Ata das reuniões do diretório. Livro de atas 2. 22 de fevereiro de 2005. Fl. 01.72 Idem. 04 de abril de 2003. Fl. 61.73 Idem. 04 de abril de 2006. Fl. 10
  38. 38. 38 No entanto, como já foi mostrado anteriormente o PT coiteense também sofreu muitasalterações e a prática ficava cada vez mais distante do discurso pregado na década de 1980.Era crescente a preocupação com as atividades eleitorais do partido, que se mostrava maisatento aos ganhos que cada atitude sua teria, como é perceptível na reunião onde se deliberousobre o caso COTESI do Brasil74 onde “[...] seguiu-se discussão sobre a melhor estratégia dedar-se publicidade ao fato e auferir dividendos políticos do fato.”75(grifo nosso). Também énotada essa precaução nas discussões sobre a vinda do Banco do Nordeste para a cidade, ondeficou decidido que Também deve-se prevenir o superintendente do BNB da Bahia, que deve ser contactado pelo gerente de Feira de Santana ou por nós dos movimentos sociais de Coité e região para não partidarizar a questão da vinda da agência do banco do Nordeste para Coité, isto é, não dizer que é uma conquista com o dedo de deputados carlistas com representação em nossa cidade. Primeiro porque isso não é verdade. Mas o temor se justifica, daí a precaução nossa, porque o superintendente foi indicado por deputados ligados ao PLPP.76 Outra preocupação cada vez mais presente, principalmente depois da eleição de Lula eWagner, é com relação a distribuição dos cargos em Conceição do Coité e o temor queEmério Resedá, deputado estadual e um antigo adversário político, continuasse a ter essescargos na cidade mesmo no governo Wagner, ao qual ele aderiu em fins de 2006.77 Nos anos 2000 é cada vez maior a integração entre a esfera local e a esfera estadual enacional, sendo que na grande maioria das reuniões existe um debate sobre o contextonacional, principalmente depois da eleição de Lula para presidente e, mais tarde, de JacquesWagner para governador. As coligações também eram constantemente mais aceitas sendoque na reunião onde se deliberou sobre as eleições 200478 todos se mostraram a favor decoligações, desde que o PT mantivesse a cabeça na chapa, ressalva esta que foi abandonada74 Empresa portuguesa instalada em Conceição do Coité com apoio da prefeitura e acusada de ter ligações com afamília do prefeito Wellington Passos de Araújo.75 Op. Cit.. 18 de agosto de 2003. Fl. 66, v.76 Idem. 15 de março de 2004. Fl. 71 v.77 Idem. 16 de janeiro de 2007. Fl. 14.78 Idem. 18 de agosto de 2003. Fl. 67.
  39. 39. 39meses depois quando se decidiram por uma coligação com o PMDB o qual ficaria com ocargo majoritário. Essas eleições mostraram claramente a maior flexibilidade do PT coiteense no que dizrespeito a coligação, já que o candidato do PMDB disputou com o cargo de prefeito, assimcomo demonstrou também um crescimento desse partido, quando se nota que os resultadoseleitorais do cargo legislativo foram bem mais favoráveis ao PT do que ao próprio PMDB jáque o PT elegeu dois candidatos a vereador tendo os outros uma votação significativa, no totalesse partido recebeu 7107 votos, enquanto o PMDB recebeu 1694 votos.79 Percebe-se assimque a militância e a importância eleitoral do PT nesse momento eram mais fortes que doPMDB, apesar deste ser responsável pelo cargo majoritário na chapa eleitoral. Os resultados eleitorais demonstram o crescimento do PT e sua maior receptividade napopulação coiteense, no entanto esse crescimento ainda não é suficiente para que este partidochegue ao poder, só conseguindo eleger dois vereadores a cada eleição (a partir dos anos2000) e três vereadores em 2008. A atuação parlamentar destes eleitos e sua relação com opartido dizem muito a respeito das rupturas e continuidades do Partido dos Trabalhadores.79 Relatório de Votação dos Candidatos. Cartório Eleitoral de Conceição do Coité.

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