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22mútuo, ou quando não ferir a sua integridade, seu princípios de fé. Como o diz Zelindaque se refugia no próprio discurso...
23            Nesse sentido, por exemplo, quando questionado às entrevistadas sobre oque elas achavam da condição de mulhe...
24uma atitude não submissa seria a atuação feminina em busca de um bem maior quejustifique sua atitude: o bem estar da fam...
25formas de resistência desenvolvidas pelas mesmas que se encontram dentro do própriodiscurso religioso, em princípios mai...
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Entre o discurso da igreja e a prática das relações conjugais percepções femininas numa cidade do interior baiano 1980 2009

  1. 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA – UNEB DEPARTAMENTO DE ENSINO – CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA ALINE DA SILVA MOREIRA MENDESENTRE O DISCURSO DA IGREJA E A PRÁTICA DASRELAÇÕES CONJUGAIS: PERCEPÇÕES FEMININAS NUMA CIDADE DO INTERIOR BAIANO 1980-2009 Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em História da Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV, orientado pela professora Zuleide Paiva. CONCEIÇÃO DO COITÉ FEVEREIRO DE 2010
  2. 2. 2ENTRE O DISCURSO DA IGREJA E A PRÁTICA DAS RELAÇÕESCONJUGAIS: PERCEPÇÕES FEMININAS NUMA CIDADE DO INTERIOR BAIANO 1980-2009 Aline da Silva Moreira Mendes*RESUMOEste artigo discute como a mulher evangélica se posiciona enquanto sujeito históricoante o discurso de sua Igreja e situações cotidianas que envolvem sua fé na Bíblia, suarelação com a Igreja, e suas concepções pessoais sobre deveres conjugais e a condiçãofeminina. Divide-se em duas partes: a primeira analisa como a Igreja EvangélicaAssembléia de Deus nos períodos de 1980-2009 constrói o gênero a partir de Revistasda Escola Bíblica Dominical, a segunda discute como as mulheres evangélicaspercebem o gênero. Tenta-se fazer aqui um paralelo entre as interpretações da Igreja e apercepção de gênero das mulheres.Palavras-chave: Discurso religioso, mulher evangélica, gênero, sujeito histórico.ABSTRACTThis article discusses how evangelical woman stands as a historical speech against theChurch and the everyday situations that involve their faith in the Bible, its relationshipwith the Church and their personal conceptions of conjugal duties and status of women.It is divided into two parts: the first looks like the Evangelical Assembly of God in theperiods of 1980-2009 to build the kind of magazines from Sunday school, the seconddiscusses how women perceive the gospel genre. We try to make a parallel between theinterpretations of the Church and gender perception of women.Keywords: Speech religious, evangelical women, gender, historical subject.1 INTRODUÇÃO Desde o início do século XX o fazer histórico tem passado por uma série dequestionamentos levantados em termos de seus objetos de estudos, sujeitos, fontes epossibilidades temáticas. Nesse sentido a Escola dos Annales em seus anseios por uma“história nova” que problematizasse o social em suas diversas instâncias e fosse capaz_________________________*Estudante do IX Semestre do curso Licenciatura em História da Universidade do Estado da BahiaCampus XIV. E-mail: alineemendes@yahoo.com.br
  3. 3. 3de tratar de outros sujeitos históricos em suas outras dimensões, assim como omovimento feminista na década de 1960, possibilitaram o surgimento de uma históriaque abordassem um tipo de sujeito excluído até então: as mulheres. Entretanto,enquanto categoria social extremamente heterogênea não se pode falar de uma históriada mulher, mas de história das mulheres1. Este trabalho pretende estudar um grupo bastante específico de mulheres: asmulheres casadas participantes da Igreja Evangélica Assembléia de Deus em Conceiçãodo Coité no período de 1980-2009. Parte para tanto da questão central: como essasmulheres posicionam-se entre o discurso de gênero de sua Igreja e as diversas situaçõesque envolvem uma relação conjugal2. Adota-se aqui a abordagem micro-histórica a partir do conceito de GiovanniLevi, para quem a mesma não se define apenas pelas micro-dimensões de seu objeto deestudo, mas pela tentativa de questionar os grandes sistemas explicativos da realidadesocial, pela intenção de estudar a ação dos indivíduos dentro das estruturas sociais,investigar os limites e possibilidades de sua liberdade exercida pelas brechas existentesdentro das mesmas. Como ele o coloca “definir as margens – por mais estreitas quepossam ser – da liberdade garantida a um indivíduo pelas brechas e contradições dossistemas normativos que o governam”3. O conceito de poder aqui adotado é o de Michel Foucault, segundo o qualtodos os sujeitos são investidos de poder e não há como tê-lo de forma permanente. O poder está, ao mesmo tempo, em toda parte e em lugar nenhum. Ele é, a um só tempo, visível e invisível, presente e oculto. O fato é que o poder não pode ser apropriado; não por uma mesma classe, não de forma exclusiva, não de forma permanente, não por um mesmo grupo de pessoas: ‘ o poder não é algo que se adquira, arrebate ou compartilhe, algo que se guarde ou deixe escapar 4 .1 SOIHET, Rachel. História das mulheres. In. CARDOSO, Ciro Flamarion, VAINFAS, Ronaldo (orgs.).Domínios da História: Ensaios e metodologias. Rio de Janeiro: Elsevier, 1997, p 275-6.2 A delimitação temporal do trabalho 1980-2009 refere-se ao discurso divulgado pelas revistas da EscolaDominical da Assembléia de Deus no período. Vale como delimitação de todo trabalho uma vez que asmulheres aqui entrevistadas presenciaram esse discurso nesse período. É importante ressaltar, entretanto,que como as percepções de gênero das duas entrevistadas referem-se à toda história de vida delas, sãoanalisados nesse artigo episódios de suas vidas que não se encerram dentro dessa temporalidadedelimitada.3 LEVI, Giovanni. Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter. A escrita da história: Novas perspectivas.São Paulo: UNESP, 1992, p. 135.4 FOUCAULT, Michel. História da sexualidade, volume I: A vontade de saber. apud POGREBINSCHI,Thamy. Foucault, para além do poder disciplinar e do biopoder. Lua Nova nº 63, 2004, p 189.
  4. 4. 4 O conceito de poder de Michel Foucault, bastante útil ao romper com aconcepção de mulheres rebeldes x passivas, concebe o poder como uma prática decaráter fluido e relacional em que ambas as partes exercem o poder. Nesse sentidoFoucault admite a dominação dialética, na qual a resistência é um elemento intrínsecoao exercício do poder, ou seja, que em nenhum sistema de dominação apenas uma daspartes exerce o poder, ou que existe um ser passivo ante a um ativo, antes ambosexercem o poder de maneira relacional. Nesse sentido entende-se aqui resistência comoo exercício do poder pelos sujeitos que assumem algum tipo de desvantagem em umadada relação. Partindo do pressuposto que numa relação conjugal em que a mulher assumaa identidade cristã está numa situação de desvantagem - uma vez que o discursoreligioso cristão afirma “o homem é a cabeça da mulher como Cristo é o cabeça daIgreja” - como funciona a relação de poder, uma vez que o exercício do mesmo lhe énegado com autoridade sagrada? Como as mulheres reagem a esse discurso? Ou ainda,como o mesmo as orienta? Perceber como as mulheres evangélicas casadas de uma Igreja Evangélicatradicional, a qual constrói o gênero de forma um tanto patriarcal, se percebem ante aobrigação de serem boas donas-de-casa, submissas ao seu marido, é relevante aoquestionar a posição de submissas e passivas que estas mulheres deveriam ocuparmediante uma autoridade divina. Implica percebê-las como sujeitos históricos.2 DISCURSO E IDENTIDADE SUBJETIVA Debates efervescentes atuais que questionam a capacidade humana deapreensão do real em si têm dado grande importância à linguagem, enquanto meioessencial de comunicação humana e, portanto como elemento imprescindível naelaboração das representações, construções ideológicas que são oferecidas aos sujeitossociais. Nesse sentido fica posta a atenção que se deve dar aos sistemas discursivos queconstroem as diferenças entre homens e mulheres. Nesse sentido o conceito de gênero de Scott é bastante útil ao apontar anecessidade de se estudar o gênero, como ele é construído, uma vez que o gêneroconstrói as relações sociais. Para ela “o gênero é um elemento constitutivo de relaçõessociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e o gênero é uma forma
  5. 5. 5primeira de significar as relações de poder5” e ele se constitui na sociedade por meio dequatro elementos: os símbolos culturalmente disponíveis que evocam representaçõesmúltiplas, os conceitos normativos que interpretam e delimitam o sentido dos símbolosa fim de “conter as suas possibilidades metafóricas”, as instituições e organizaçõessociais e a identidade subjetiva. Scott deixa claro que cabe aos historiadores verificar como esses quatroelementos se inter-relacionam. Para os fins que se propõe este trabalho, estudar sujeitoshistóricos femininos, opera-se a seguinte síntese do conceito de Scott: o discursoefetuado por meio das instituições – neste caso a Igreja - se dá através do controle dasfiguras socialmente disponíveis, as quais atuam na construção de identidades subjetivas. Para a concepção de identidade este trabalho parte do conceito de Stuart Hall:algo não tão seguro, fluido, em que diversas identidades, às vezes antagônicascoexistem. “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é umafantasia”6.3 DISCURSO DA IGREJA A cerca do discurso normativo da Igreja sobre o comportamento do homeme da mulher na relação conjugal verifica-se a insistência de percepções centradas nosistema ideológico de gênero de modelo patriarcal, aqui entendido a partir do conceitode Heleieth Saffioti7, como uma ordem ideológica que dita a dominação/exploraçãomasculina sobre as mulheres que possui forte potencial de construir relações sociaisdesiguais. Para uma compreensão do que o discurso oficial da Igreja EvangélicaAssembléia de Deus em Conceição do Coité diz acerca das relações conjugais,referendamo-nos numa série de “Revistas da Escola Dominical” de 1980-2009ensinadas em reuniões dominicais. A Escola Bíblica dominical é um dos departamentos mais importantes daIgreja, é nela onde acontecem os ensinamentos mais diversos sobre o modo de viver do5 SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. ( Tradução de Christine Rufino Dabat eMaria Betânia Ávila). Recife, SOS Corpo, 1991. p. 14.6 HALL, Stuart.. A identidade cultural na pós-modernidade Tradução Tomaz Tadeu da Silva e GuaciraLopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. p. 13.7 SAFFIOTI, Heleieth I.B. Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero. Revista labrys,estudos feministas, número 1-2, julho/ dezembro 2002. Disponível em:http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys1_2/heleieth1.html
  6. 6. 6crente. Percebe-se, portanto a importância de recorrer às revistas nela utilizadas por elasserem de maior acesso ao conjunto de membros da Igreja e serem ensinadas em cadadomingo ao conjunto de membros da mesma. Predominantemente o discurso das revistas pauta-se na interpretação dostextos da Bíblia, única autoridade que representa a voz do próprio Deus. Partindo,portanto da evidência de que a Bíblia é “inerrante, infalível”8, mas às vezes difícil de serentendida, resta interpretá-la de forma verdadeira a fim de se evitar interpretaçõesinfundadas. Michel Foucault ao estruturar suas definições sobre o discurso, suas formasde atuação na sociedade, coloca que na nossa sociedade atual existem discursoscorriqueiros, que se formam e desaparecem logo, mas que existem outros, entretanto que estão na origem de certo número de atos novos de fala que os retomam, os transforma ou falam deles, ou seja discursos que, indefinidamente, para além de suas formulações, ‘são ditos’, permanecem ditos e estão ainda por dizer9. Entre os discursos que “estão ainda por dizer” encontram-se os discursosreligiosos, os quais por assumirem o caráter de porta-vozes da vontade divina sãoconstantemente retomados; afirmados quando concorda-se com o mesmo, ereinterpretados quando não aceitos pelos participantes da fé. No que se refere aodiscurso cristão, neste caso no da Igreja Evangélica Assembléia de Deus, este só temvalidade se a Bíblia o confirmar. Nesse sentido vale notar que as revistas da EscolaBíblica Dominical, por serem comentadas por diferentes autores, variam nainterpretação da Bíblia, mas produzem doutrinas e ensinamentos “verdadeiros” que sãoensinados e difundidos entre os membros da Igreja por se basearem na mesma.3.1 SUBMISSÃO Diante da evidência de que são diversos os textos bíblicos que afirmam opapel de liderança do homem sobre a mulher, e o dever da submissão da mulher10,8 LIÇÕES BÍBLICAS JOVENS E ADULTOS. Rio de Janeiro: CPAD-. Trimestral. 3º trimestre, 1980, p 9e 28.9 FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 10ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008. p. 22.10 Algumas passagens bíblicas que se referem a esse assunto:Efésios 5.22, 24: “Vós mulheres sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é acabeça da mulher, como também Cristo, é a cabeça da Igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De
  7. 7. 7afirma-se a veracidade dessa ordem: a mulher deve submeter-se e o marido liderar afamília. Essa percepção confere à mulher um dever de submissão ao esposo do qualnão pode fugir, desde que constitui-se num mandamento divino e colocar-se dentro deuma hierarquia divina significa obedecer ao próprio Deus: “Por obediência à Palavra deDeus e por efeito da salvação, deve o marido amar a sua esposa e cuidar dela. Pelomesmo motivo, cabe à mulher ser submissa ao seu marido, sendo fiel e leal’.”11 Esse discurso apesar de ser complexo, pois ao mesmo tempo em que indica aautoridade masculina, lhe tira, e ao passo que indica a submissão feminina, a minimiza,oferecendo-lhe às vezes mecanismos de defesa (como ao Senhor...) não foge dahierarquia familiar em que o marido é o líder e a mulher acata a liderança do marido,desde que suas ordenanças estejam de acordo com o padrão cristão. Para tanto colocaum fardo sobre a mulher, ser submissa ao marido, seja ele crente ou não, e outro sobre ohomem ser o protetor, o provedor, ter obrigação de amar. Chega mesmo a insistir nanaturalização dessa posição, afirmá-la imutável (porque divina): “Existe uma ordem,natural e divina, dentro do princípio de autoridade. Deus, o Pai, é o cabeça de Cristo;Cristo é o cabeça do homem; e o homem o cabeça da mulher”12 . Concebe-se, portanto que “A submissão (...) é um mandamento bíblico. É oalicerce da família enquanto instituição”13, o qual deve ser seguido como sinônimo defé, de respeito à autoridade divina. O que existe, portanto é uma divinização daordenação dos papéis que exige uma submissão espontânea por parte da mulher. De acordo com o padrão divino, exarado na Escrituras, é simplesmente deplorável quando a esposa ‘mandona’ domina, e o marido, acomodamente se submete. (...) mostrar-se uma mulher submissa a seu marido, crente ou não, ésorte que, assim como a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas aseus maridos”.-Colossenses 3.18 e 19: “Vos, mulheres, estai sujeitas a vossos próprios maridos, como convém noSenhor. Vós, maridos, amai a vossas mulheres e não vos irriteis contra elas.”-1 Pedro 3.1: “Semelhantemente, vós, mulheres, sede sujeitas aos vossos próprios maridos, para quetambém, se alguns não obedecem à palavra, pelo porte de suas mulheres sejam ganhos sem palavra”.- Tito 2.4-6: “Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amaremseus filhos, a serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavrade Deus não seja blasfemada. Exorta semelhantemente os mancebos a que sejam moderado”-1 Coríntios 11.3: “Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo varão, e o varão, a cabeça damulher; e Deus, a cabeça de Cristo ”.-Gêneses 3.16: “E à mulher disse: multiplicarei grandemente a tua dor e a tua conceição; com dor trásfilhos; e o teu desejo será para o teu marido e ele te dominará”.11 LIÇÕES BÍBLICAS JOVENS E ADULTOS. Rio de Janeiro: CPAD-. Trimestral. 3º trimestre, 1987, p88.12 Id., 3º trimestre, 1987, p. 28.13 Id., 4º trimestre, 1996, p. 30.
  8. 8. 8 revelar submissão ao próprio Senhor Jesus (...) A submissão, particularmente, da mulher cristã a seu marido não deve ser por temor ou por força, mas de boa vontade em obediência ao preceito divino (Ef 5.22; 1 Pe 3.1). 14 Nas lições das duas décadas seguintes o mesmo ainda é afirmado: A esposa ser submissa ao marido, em termos bíblicos, não constitui inferioridade alguma. É um mandamento bíblico. Não há dificuldade em uma esposa obedecer ao marido, quando primeiramente ela obedece a Cristo como seu Salvador e Senhor.15 Ou ainda: “Mulher alguma terá dificuldades de manter-se submissa aomarido que a ama e comporta-se conforme os padrões da Palavra de Deus”16. Como já foi dito a submissão é ensinada como algo que faz parte de umanatureza divina, porque por Deus foi ordenado assim. Não dá para negar, portanto asituação difícil em que são postas as mulheres: pede-se a submissão espontânea, masesta cheira imposição, e uma imposição cruel porque não é humana, é divina, portantonão pode ser questionada e sendo assim a mulher deve ter “conduta obediente, piedosa,carinhosa - modo de aprazer o marido e ser testemunho sem palavras”17. Conferir à mulher esse lugar de submissão, mesmo que ela seja norteadapelo amor e moderação do marido, como o deseja a Igreja, hierarquiza a relaçãoconjugal, constrói o gênero de forma desigual em desvantagem às mulheres. Entretanto, embora possa parecer contraditório, esse mesmo discurso queprega a submissão oferece em contrapartida meios para a mulher burlá-lo, desde que sebaseie também na Bíblia, como notaremos mais adiante.3.2 ORGANIZAÇÃO FAMILIAR A naturalização desse tipo de organização familiar vai, entretanto além dasordenanças sobre o exercício do poder, ela dita também sobre os deveres eresponsabilidades com os filhos, com a casa. Vejamos como isso é colocado: Em relação à casa a mulher cristã (...) ela prima pelo rigoroso asseio de sua casa e procura mantê-la em boa ordem. Trata a todos, de modo atencioso e cordial, deixando aos visitantes as belas impressões de seu zelo e cuidado (...) Em relação aos filhos a mulher virtuosa não deixa de ser, concomitantemente, uma boa mãe. Não só cuida da educação dos filhos infundindo neles boas14 Id.,2º trimestre, 1987, p. 28.15 Id., 4º trimestre 1996, p. 30.16 Id., 3º trimestre 2007, p. 51.17 Id., 4º trimestre, 2001, p 41.
  9. 9. 9 maneiras, auxiliando, com isto, ao marido, como também dá-lhes assistência, seja zelando pelo seu vestuário, seja cuidando de sua higiene corporal, ou orientando-os moral, social e espiritual.18 Nessa mesma revista há uma passagem um pouco contraditória quandocompara a mulher a uma videira frutífera – “A tua mulher será como a videira frutíferaaos lados da tua casa; os teus filhos como plantas de oliveira à roda da tua mesa (Sl128.3)” - quando a explica de duas formas. A primeira relaciona-se ao modelo de boaesposa/dona-de-casa, o que significa sua beleza também. A segunda, em sua primeirafrase faz referência à importância econômica, à prosperidade do lar, a uma mulhereficiente. É linda a parreira, suspensa em suporte, coberta de uvas. Bem representa a beleza da esposa querida, da dona de casa, zelosa e mãe carinhosa, dirigindo o lar, adornando a casa e acariciando os filhos (...) A videira era responsável por uma parte importante da economia de Israel e também de outras nações no Antigo Testamento. Por isso, diz o salmista: ‘tua esposa como videira no interior da tua casa’. Ele compara a importância da videira com a ação da mulher eficiente, responsável pela prosperidade do seu lar.19 Nessa mesma revista e à respeito da mesma passagem bíblica se interpreta asfunções de pai de família relacionadas à liderança sobre mulher e filhos, o que significatambém ser o provedor do lar, como vemos nessas duas passagens: “A liderança dohomem, indicada pelos possessivos ‘tua’ e ‘teus’. Isto ensina que o encargo de protegero lar, prover o conforto, a segurança, a estabilidade, enfim, depende do chefe dafamília”20 e “É dever (do pai) esforçar-se para manter a família dignamente, mediantetrabalho diligente e bem planejado”21. Fala-se até que é para os homens ajudarem nos afazeres domésticos,entretanto, isso é colocado porque a mulher possui constituição física mais frágil: “ ohomem deve entender que a mulher, por sua constituição física mais frágil, deve serauxiliada em seus afazeres domésticos”22. Como se viu mais acima, o modelo de família orientado pela Igreja é ohomem enquanto mantenedor da casa, liderança da família, a mulher enquanto boaesposa e dona-de-casa.18 Id., 3º trimestre, 1987, p. 4.19 Id., 3º trimestre, 1987, p. 43.20 Id., 3º trimestre, 1987, p. 43.21 Id., 3º trimestre, 1987, p. 32.22 Id., 4º trimestre, 2001, p. 43.
  10. 10. 10 O dever da esposa não é somente o de fazer saborosas refeições, cuidar da casa, ser mãe carinhosa. O marido também precisa de seu carinho, de seus beijos e abraços, e de um bem-vindo afetuoso, ao retornar para casa no términio de cada jornada de trabalho. 23 As pressões e demandas sociais e econômicas dos últimos tempos têm levado multidões de mulheres a buscar o incremento dos recursos financeiros da família, o que não fere os princípios bíblicos. Porém, isso não a isenta da responsabilidade de cumprir as orientações de seu marido no lar, principalmente na educação dos filhos, além da própria manutenção e bem- estar da família (Pv. 31). Por mais que esta mulher disponha de pessoas para executar as tarefas rotineiras do lar, sobre ela recai a responsabilidade final das atribuições de uma mãe de família e dona de casa. 24 Percebe-se nesse último trecho certa relativização do trabalho feminino forado lar desde, entretanto, que ela não abra mão dos serviços domésticos, e isso mesmoque tenha empregada doméstica.3.3 OUTRAS POSSIBILIDADES INTERPRETATIVAS SOBRE OSSÍMBOLOS?3.3.1 ADÃO E EVA Como visto o discurso de gênero das revistas não segue uma forma fixa, háuma variação na forma como ele se apresenta, às vezes é ressaltada a literalidade dasubmissão que signifique uma acatação das vontades do marido, às vezes é apresentadacomo algo que faz parte da fé, outrora como algo que deva ser cumprido, mas de formaem que os princípios máximos que a ordena sejam cumpridos por parte do marido “noSenhor”. Da mesma forma, os mesmos símbolos são interpretados de formadiferenciadas, vejamos sobre o fato da criação de Eva ter se dado a partir de Adão, oque Deus queria dizer com isso? Quais lições tirar do primeiro casal? Deus, na sua sabedoria, não fez a mulher do pó da terra, mas tirou-a de Adão. (...) Era assim, do mesmo sangue e da mesma carne de Adão. Podiam, portanto, se amar profundamente e viver na mais perfeita intimidade, em condições de servirem de modelo para todos os casais, em todas as épocas. 25 Fica assim justificada a vontade de Deus em fomentar o amor entre o casal.Mas seria só isso?23 Id., 4 º trimestre, 1993, p 42.24 Id., 2º trimestre 2004, p. 29.25 Id., 3º trimestre 1987, p. 4.
  11. 11. 11 É interessante notar que a mulher foi feita duma costela tirada do lado de Adão. Não foi tirada da cabeça, para que viesse mandar nele, nem tampouco do pé, para ser por ele pisada, mas do seu lado, para ao lado dele permanecer. A costela, debaixo do braço indica que a mulher deve ser protegida pelo homem. Foi tirada de perto do coração para ser amada por ele. 26 Esse outro texto que faz uma analogia à criação se utiliza da imagem paracolocar Eva ao lado de Adão e não debaixo de seus pés, seria um controle de possíveispretensões machistas, e uma afirmação da obrigação do marido amar a esposa.Entretanto noutra lição já houvera se afirmado o lugar da mulher em relação ao homemnão como parceira, mas como um ser que deve sujeitar-se ao homem, por conta de suafragilidade em ter se deixado influenciar pela serpente e ter causado um grande estragoao paraíso que teria sido oferecido ao desfrute do homem, como vemos: há um juízo sobre a mulher, conforme Gênesis 3.16. Nesta escritura, Deus predisse que ela seria sujeita ao homem. Não seria mais a parceira na administração da terra. Seria dominada pelo marido e toda sua vontade estaria subjugada a ele. Seus filhos seriam gerados com dores de parto.27 Além disso, utiliza-se dessa mesma cena para afirmar a naturalização deaspectos de fragilidade oferecidos às mulheres ao longo da história e à posição deliderança oferecida aos homens. Afirma a predisposição psíquica mais racional queemocional do homem – “por isso Deus lhe confiou a condução do lar. A ele competeenxergar os problemas, estudar e promover as suas soluções”28 - e a fragilidade inerenteà natureza feminina: Satanás sabia que não seria tão fácil convencer o casal a desobedecer a Deus. Ele investiu, então sobre a mulher, porque entendia que ela, como um ser mais frágil que o homem, facilmente cederia as suas provocações .29 Justifica-se, portanto a submissão feminina como ordenança de Deus, pelo fatodela ser mais frágil e ter se deixado seduzir pela astúcia da serpente.3.3.2 FIGURAS DE MULHERES Um dos exemplos mais intrigantes ensinados nas revistas é a figura de Débora- figura que atuou como juíza em Israel e liderou uma guerra na qual os israelitas foram26 Id., 4º trimestre 2001, p. 40.27 Id., 4º trimestre 1995, p. 29.28 Id., 2º trimestre 2004, p. 28.29 Id., 4º trimestre, 1995, p.27.
  12. 12. 12vencedores - o qual ao contrário de oferecer exemplo de coragem, de capacidadefeminina às mulheres, oferece-se ao exemplo de coragem, ou mesmo de submissão àDeus, à todos os cristãos: “Débora é um exemplo de fé e coragem para todos os queamam a Palavra de Deus”30. Em termos da possibilidade de o exemplo de Déboraoferecer-se às mulheres esta é indicada a ser utilizada no exercício de suas atividadesvoltadas à vida religiosa. Às vezes não se hesita utilizá-la para afirmar ainda assim o caráter pequenoe frágil das mulheres. Há por exemplo numa revista analisada a explicação da utilizaçãode uma mulher por Deus para liderar uma guerra: “Deus usa instrumentos frágeis”31,afinal “Deus usa quem quer e onde quer”, e que é de propósito de Deus fazê-lo paraconfundir a sabedoria humana. Ainda que na mesma lição fique posta uma possibilidadede que a designação de lugares inferiores às mulheres na sociedade israelita enquanto“princípios humanos”, a afirmação das mulheres enquanto seres frágeis é significativaao passo que isso é dado como natural e não como designação puramente humana ecultural. Outras figuras femininas invocadas reforçam características de fidelidade aDeus, ao esposo, e ao sacerdote, como por exemplo, Sara, figura esta invocada porexcelência para tratar do exemplo de submissão. Esta é mostrada, portanto comomandamento divino, e cumprí-lo acarreta bênçãos. Abraão foi repreensível, mas Sara não o desonrou diante dos egípcios. (...) não se manifestou, mas fora submissa à decisão tomada pelo marido. Ela mesma prontificou-se a confirmar a história contada pelo esposo (Gn. 20.5). O grande patriarca mais uma vez expôs sua esposa ao perigo, para poupar a própria vida. Isto já seria motivo mais que suficiente para que Sara se opusesse à decisão do patriarca. Porém, não o fez. Foi assim que o próprio Deus entrou em cena para livrá-la (Gn. 20.3). Sua obediência foi recompensada. 32 Existe, portanto uma divinização das relações de gênero em que obedecer aoesposo significa obedecer ao próprio Deus, e fazê-lo, portanto deve ser gratificante, poisse espera uma vitória, uma saída providenciada pelo mesmo. Nesse sentido poderia se dizer claramente que o discurso proferido pelaIgreja Assembléia de Deus assume a conotação patriarcal, ou seja, oferece meios paradifusão/perpetuação das relações desiguais de gênero, em que aos homens são30 Id., 3º trimestre 2007, p. 37.31 Id., 2º trimestre 1996, p. 25.32 Id., 3º trimestre 2007, p. 50.
  13. 13. 13concedidos direitos sobre as mulheres, e estas devem demonstrar boa vontade emobedecer tal ordem que lhes afirma uma posição de subordinação. Ou seja, contribuipela divinização das possibilidades do “regime da dominação-exploração das mulherespelos homens”, como o diz Saffioti (2002), a qual afirma a existência do sistemaideológico que confere aos homens direitos sobre as mulheres, o qual potencialmentepode se configurar na realidade sob a forma de violências diversas contra as mulheres. A partir dessa breve exposição acerca do discurso religioso de uma IgrejaEvangélica fica uma pergunta como as mulheres evangélicas se posicionam frente atudo isso? Esse discurso realmente orienta suas atitudes? Se elas se reconhecem comofiéis como lidar com os problemas cotidianos presentes uma relação conjugal?4 PERCEPÇÕES FEMININAS Como foi exposto, o sistema ideológico de gênero em suas formas de difusãose dá em muitos aspectos pela atribuição de características opostas ao homem e amulher, com a especificação de papéis e comportamentos antagônicos. Entretanto arealidade social é mais complexa não se dando em formas de oposição rígida, mesmoque o sistema ideológico de gênero o faça. Sobre a questão central deste trabalho: como as mulheres se percebemenquanto mulheres, ou seja, de que forma o discurso religioso é entendido e vivenciadopor elas, foram realizadas duas entrevistas com duas mulheres membros da IgrejaAssembléia de Deus. Zelinda, 65 anos, casada há 46 anos, participa da Igreja comoprofessora da Escola dominical e dirigente do Círculo de Oração, atuou comoprofessora por mais de 30 anos. Terezinha, 54 anos, casada há 36 , atua como dirigentedo círculo de Oração, possui o primeiro grau incompleto. A metodologia utilizada foi a história oral, seguindo a orientação de nãorestringir a entrevista a um aspecto específico da vida das entrevistadas33, procurou-sesaber de suas vivências, como elas percebem a educação que receberam, etc. Nessesentido foi detectada a forma que se deu a educação familiar em dois contextosdistintos em termos de espaço e tempo, mas que ao mesmo tempo coincidem em váriosaspectos.33 TOURTIER-BONAZZI, Chantal de. Arquivos: Propostas metodológicas. In: FERREIRA, Marieta deMoraes; AMADO, Janaína. . Usos e abusos da história oral. 7. ed. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2005. p.238.
  14. 14. 14 As lembranças de dona Zelinda e Terezinha fazem referência ao tipo deeducação que receberam. Zelinda nos chama atenção a uma educação voltada ao espaçodoméstico, sem muitas amizades. na época, da minha juventude, a gente não tinha direito assim de passear, de sair de casa, que os pais não liberavam muito (...) dentro de casa a gente não saia para canto nenhum, só de casa para a igreja. Na escola não tinha certas convivências, (não é?), não tinha tanta amizade, como a gente tem hoje34. Dona Terezinha reforça a fala de Zelinda, denunciando uma educação rígidaem que nem estudar pôde: apesar de um tempo de ignorância, de muita ignorância naquele tempo, que a gente era bem assim, criada bem presa (...) a gente era criada assim com muito trabalho, trabalhando muito,(...) apesar de... ser um pouco atrasado, que hoje eu não tenho estudo, por causa daquele tempo atrasado né? Que os patrão deles falou, o patrão do meu pai falou que não era pra colocar nas escola, que as escola só tinha o que não presta, e assim meu pai ficou com aquela coisa toda, e não botou a gente pra estudar.35 Terezinha nos chama atenção à representação do trabalho feminino fora doespaço doméstico, quando afirma que apesar de ter sido “criada assim com muitotrabalho”, este acontecia mais por uma questão de necessidade material do que por umaescolha por parte dos pais. Ela afirma que o fato dela trabalhar para fora não bem vistopor seu pai. Trabalhava no motor e dentro de casa, e já eu lavava roupa pra minha mãe que lavava roupa de ganho, e a gente já ajudava ela, e ele não gostava, mesmo assim a gente lavava roupa de ganho, mas ele não gostava que a gente saísse pra trabalhar fora, ele não gostava... Percebe-se, a partir de suas falas que tanto Zelinda, quanto Terezinha forameducadas para cumprir seu papel de boa esposa e dona-de-casa, dentro do modelotradicional de família, em que a mulher reside no espaço privado, e ao homem designa-se o espaço público do trabalho pra que ele cumpra seu papel de provedor do lar.Quando esse padrão é reforçado pelo discurso da Igreja ele assume a forma deverdadeiro: homem-provedor, mulher-dona-de-casa, é o que nos diz Zelinda: É claro que a gente sabe que a mulher, cuida mais da casa, cuida mais dos filhos, dá mais atenção aos filhos, (não é?), (...) o que eu posso fazer eu faço,34 Depoimento de Zelinda recolhido dia 25 de junho de 2009.35 Depoimento de Terezinha recolhido dia 01 de outubro de 2009.
  15. 15. 15 tanto pra casa, quanto pra ajuda dos filhos, e pra me manter, enfim, pra tudo o que for necessário, mas não deixou de ter o compromisso e a responsabilidade do marido como o dono da casa (...) E tendo sempre um papel maior do que a esposa, claro que o marido é quem é o responsável pela família (né?) (...) Não é porque o homem é homem, ele não é capaz de lavar um prato, se for caso varrer a casa, faz parte da família. Agora não é certo a mulher deixar de fazer pra entregar ao marido, porque ele também tem as suas atividades, porque a atividade maior da casa é da mulher mesmo. Entretanto, a atuação feminina nos trabalhos extra-domésticos parece ter sidouma realidade experenciada por dona Zelinda desde o início de sua relação conjugal, eembora sua fala denuncie a concepção de família centrada no modelo tradicional emque foi educada, a mesma faz uma certa relativização “Não é porque o homem éhomem, ele não é capaz de lavar um prato, se for caso varrer a casa, faz parte dafamília”, mas a mesma não deixa de referenciar seu modelo de família em que a figuramasculina assuma um papel central na responsabilidade de manutenção da casa, e amulher com os serviços domésticos “porque a atividade maior da casa é da mulhermesmo”. Terezinha faz o mesmo relativiza a rigidez do modelo tradicional de família,apontando sua participação no orçamento doméstico, o que, entretanto não faz dotrabalho doméstico algo que também deva ser realizado “em partes iguais”. Nós sempre trabalhemos os dois, e nós era partes iguais, se ele, se ele trabalha para ajudar... pra, pra despesa da casa, eu também trabalhava para ajudar a mesma coisa, quando eu não trabalhava... aí ele era, o peso era pra ele (né?), ele que se virava, mas mesmo assim, eu ainda me virava em alguma forma, e quando eu trabalhava era partes iguais. (...) Serviço doméstico pra ele não, aí era eu. O que ele faz em casa, a única coisa que ele, que ele faz mesmo é só lutar, só botar as coisa dentro de casa mesmo, ele não é pra serviço doméstico dentro de casa. A entrevistada não consegue fugir do caráter patriarcal que a família assume,pelo fato de que mesmo que a mulher participe do orçamento familiar, à mulher fica aresponsabilidade do serviço doméstico. Ela afirma ainda uma certa “compreensão” pelaatitude do marido em dizer que serviço doméstico “é coisa de muler, isso é coisa demuler”.... porque verdadeiramente ele não é assim..., ele foi criado assim só em roça, só trabalho viu?, ele não foi trabalhado assim dentro de casa , fazendo nada dentro de casa, ele faz, se eu for gritar pra ele fazer assim, barre uma casa, só a casa ele dá uma basculhada assim por cima (risos), assim por cima, mas outra coisa, não. (...) ‘isso é coisa de mulher não, você também pode fazer’ ..., mas é porque o tempo dele não ajuda, pra ele fazer aqui, e ele também não tem aquela prática, aquela pratica, pra fazer as coisas domésticas que a gente faz. Aí eu entendo ele (né?), aí nessa parte..., já os meus filho, é diferente, eu
  16. 16. 16 tenho um filho Ezequiel ele barre casa, ele..., ele só não lava prato, ele barre casa, ele dá faxina em casa, ele limpa móveis, ele passa pano em móveis, é..., lava roupa..., ele faz tudo, agora só prato, se largar na pia fica lá..., que ele diz que não... Percebe-se nessa fala dela que pelo fato de ela ter que trabalhar fora doespaço doméstico e ainda assim ter que dar conta da criação de muitos filhos pequenos,uma compreensão mais aberta em torno da divisão do trabalho, obrigada pela próprianecessidade. Como ela diz, para ela não tem problema nenhum de o filho dela fazer ostrabalhos, entendidos por seu marido como próprios de mulher. Entretanto, apesar de em algum momento ela até ter argumentado com seumarido para que ele mudasse sua concepção “isso é coisa de mulher não você tambémpode fazer”, ela não o questiona quando ele diz que serviço doméstico não é coisa praele. Resta-lhe um esforço de compreensão para que não haja conflito. Apesar disso Terezinha demonstra ser preferível ter dupla/tripla jornada detrabalho do que ser apenas dona de casa. E eu queria tá hoje assim, até hoje. (...) Trabalhando fora e chegar em casa trabalhar, essa é minha alegria. (...) Eu tinha felicidade que eu saía trabalhava, tinha meu dinheiro, ajudava meu esposo, comprava o que queria, pagava o que eu queria, minhas coisa, e tinha saúde também pra chegar em casa e... e vir trabalhar fazer minhas coisa. Eu me sentia muito feliz. (...) aí hoje tem mulher que diz ‘é que eu não agüento mais, e luto com filho e luto com isso, e eu vou largar essa vida, e essa vida num..., e eu não agüento mais’ e eu nunca reclamei disso. (...) criei meus filho tudo assim, trabalhava fora, e cuidei de minha casa, e nunca tive que reclamar e não tenho, o que reclamar, não. O mesmo nos diz Zelinda: chegando em casa vai ter que fazer o trabalho, não no seu total porque não dá tempo, então se o marido achar ruim ele vai ter que achar ruim mesmo, porque não deu tempo fazer, então... se for reclamar vai ter que fazer junto, caso contrário vai viver assim. Agora quem sabe de fazer seu jogo de cintura faz tudo diretinho, porque eu já fiz, jogo de cintura, cuidando da casa, cuidando dos filhos e ensinando, é difícil (...) Mas dá pra fazer esse jogo de cintura. Na defesa do trabalho feminino, mesmo que ele seja exorbitante para amulher, percebe-se, na fala de Zelinda que embora ela tente conciliar a autoridade domarido com sua “independência financeira”, esta pode gerar certos conflitos que sãoignorados: “se o marido achar ruim ele vai ter que achar ruim mesmo, porque não deutempo fazer, então... se for reclamar vai ter que fazer junto, caso contrário vai viver
  17. 17. 17assim”. Percebe-se aqui uma imposição do jeito feminino de se resolver entre ostrabalhos domésticos e o trabalho fora do lar. No caso de Terezinha ela afirma que queria possuir uma profissão melhor ecaso isso acontecesse para ela isso não resultaria em nenhum problema, seu maridoconcordaria. eu queria ter na minha vida era ter tido assim uma, assim uma oportunidade de estudar e se eu ser alguma coisa ser uma enfermeira, ser uma professora, (...) se tivesse assim algum emprego, fosse uma pessoa que tivesse assim algum..., sei lá, se pudesse ter uma vida mais elevada, uma condições mais alta... Existem, portanto formas próprias delas conciliarem sua vida cotidiana, suaindependência financeira, com a responsabilidade de ser “submissa” como manda aBíblia e a confirma a sua Igreja, embora esta assuma forma específicas para cada uma,de forma que suas maneiras de viver não contradizam sua fé. Nota-se na fala delas, emespecial na de Terezinha, uma necessidade de fazer de sua vida um engrandecimentopessoal a Deus, de divulgação pessoal da fé de “Servir a Deus com alegria”, de zelar otítulo de cristão, não escandalizar. Note-se como Terezinha relata brevemente sua vida,desde sua criação à estruturação da família: É... minha criação foi ótima. Eu sou feliz hoje pela minha criação meus pais me criou (...) Minha família tenho, tenho assim felicidade porque eu tenho uma família grande, graças a Deus, (...) e eu tenho sido feliz, não tenho palavras pra expressar assim a alegria que eu tenho de ser uma mãe de família assim, que apesar de muita luta, apesar de não ter um emprego (...) mas o Senhor tem cuidado de tudo não tem me deixado faltar nada, não tem me deixado faltar o pão, nem o calçado, nem a roupa, graças a Deus. Ela porém traz essa preocupação em não ser resmungadora, a necessidade defalar em felicidade em meio à situação de constrangimento e controle em que foieducada, em meio a uma situação de condições financeiras não muito favoráveis. Elareclama cautelosamente apenas da falta de estudo, hoje grande empecilho à sua inserçãosocial, profissional, e da falta de emprego, mesmo assim fazendo paralelamente umareferência constante a um sentimento de felicidade pelo resultado de sua criação: umcasamento e a casa cheia de filhos o que para ela é motivo de grande satisfação, e pelaprovidência divina, a qual para ela “não tem deixado faltar nada”. Poderia dizer o mesmo sobre a fala de Zelinda quando ela relata sua asserçãoprofissional, ela sempre faz referência à bondade divina, colocando Deus em primeiro
  18. 18. 18lugar em sua gratidão por ter conseguido o emprego de professora estadual, e ter seaposentado como tal. eu tinha na minha mente, alguma coisa que faltava completar: que era os estudos. (...) com a ajuda dos políticos, que geralmente a força era maior (né?) na época nossa, era mais a força política, e pela misericórdia de Deus, Deus em primeiro plano, e segundo a força política, eu ingressei no estado, trabalhei vinte e cinco anos no Estado, completei o tempo com o município, e me aposentei, com sessenta e um anos de idade. Sobre o significado de suas participações pessoais na Igreja, Zelinda, que jáparticipa da Igreja há mais de 50 anos, e Terezinha há 32, fornecem perspectivasdiferenciadas. Assim diz Zelinda sobre o tempo em que é crente da Igreja Assembléiade Deus: eu sinto-me honrada por participar deste trabalho, desta origem, como um dom que Deus me deu, e faço com prazer a obra do Senhor, não tenho receio de evangelizar, não tenho ressentimento de nada, e Deus tem me abençoado, e eu tenho feito a obra do Senhor, e quero permanecer até o fim. Enquanto Zelinda demonstra uma identificação maior com a Igreja, com suahistória em Conceição do Coité, Terezinha justifica o tempo que é participante da Igrejaapenas por uma questão de fé em Deus e por uma preocupação com sua salvação. não é que é a praca da Igreja, que a Assembléia de Deus vá..., não é isso, não é a Assembléia de Deus que vai me levar pro céu, não é a praca da Igreja, não é a Igreja que eu congrego, não, é a minha fidelidade com Deus. (...) já teve ocasião assim que tava pensando que já me deu vontade de sair do ministério da Assembléia, mas, em todo lugar existe problema, (né?), onde vai existe problema, aonde a gente sair os problemas nos acompanham, espero ficar aqui mesmo até esperar o dia que Jesus quiser (né?). Por conta disso, ou talvez por diferenças relacionadas à experiência de vidade cada uma36, foram percebidas diferenças quanto às suas formas particulares depercepção acerca da posição da mulher na Igreja e na sociedade em geral, emboratenham sido notados pontos de convergência. Quando perguntado a Zelinda sobre comoela entendia o fato de as mulheres de suas Igrejas não assumirem determinadas posiçõesque são apenas conferidas aos homens, Zelinda, embora dê à sua fala um sentido bem36 Zelinda participou apenas de uma igreja em toda sua vida, tendo além disso um comprometimento maisintricado com as doutrinas da Igreja, a qual ajudou a instalar no centro da cidade, já Terezinha participoude outras Igrejas que não a Assembléia de Deus, portanto possui um campo de visão não restrito àsdoutrinas de sua igreja por ter experenciado outras realidades diferentes.
  19. 19. 19pessoal, coincide sua fala com a doutrina de sua Igreja, referendando-se na Bíblia paratanto. Eu acho correto porque, em relação à Palavra de Deus, a Bíblia diz assim que Deus escolheu profetas (né?), e pastores, doutores, só falou mais no sexo masculino, não falou no sexo feminino para atuação da Igreja, (...) eu acho assim mais respeitável, no meu modo de entender, (né?). Mais respeitável, um pastor dominando a igreja de que uma pastora, eu acho mais respeitável. Terezinha, entretanto mostra-se mais flexível diante desse mesmo assunto: Pra mim é simples uma mulher ter a posição de diácono, de cooperador, como tem lugar que tem, tem muitas Igreja que tem (né?), tem pastora, eu conheço mulheres pastora, mulheres que é... faz o cargo que os diáconos fazem, elas faz o que o diácono faz, diaconista, muitas Igreja tem diaconista, tem as obreira, tem (...) agora aqui na Assembléia de Deus é que é isso. Nesse aspecto Terezinha foge dos padrões tradicionais de sua Igreja,referendando-se em outros modelos de Igreja. Mas quanto ao comportamento damulher nas relações conjugais tanto uma entrevistada como a outra destacam sua crençana Bíblia como fundamental. Assim afirma Terezinha a necessidade da submissãofeminina nas relações conjugais: “é a Bíblia, a Bíblia que diz que a mulher tem queestar..., tem que ser submissa ao seu marido (...) Porque quando a gente é submissa comtudo e em tudo a gente vê a vitória, em tudo”. Zelinda da mesma forma afirma odever/direito de o homem ser o líder da família: porque se a Bíblia registrar, como registrou, que Jonas foi engolido pelo... por peixe e ele passou lá três dias e não morreu e foi jogado à Nínive, a gente acredita porque a Palavra de Deus registra (né?), então a gente tem que também acreditar que o homem é o cabeça da mulher. A partir daqui vamos tentar entender como essas mulheres, que acreditam naBíblia, portanto confirmam o dever da submissão, concebem a condição feminina nasrelações conjugais. Segundo Zelinda mesmo quando a mulher precisa agir como líder,ela precisa colocar-se em seu lugar, não humilhar o marido, partindo-se do pressupostoque existem mulheres que são mais aptas e precisam agir para fazer os negócios docasal andarem bem: Se ela tem um marido, se a mulher é casada com um marido que não tem um, um, um meio de desenvolver, vamos dizer assim, no comércio, e ela tem aptidão pra isso, ela pode muito bem tomar a frente do trabalho (...) ela pode combinar com o marido (...), porque às vezes tem mais agilidade pr’aquilo (né?), tem mais facilidade, e quem sabe tem mais inteligência, (...), então ela
  20. 20. 20 pode fazer sim, agora não é que ela pode fazer, que ela vai humilhar o marido porque ela é maior do que o marido, não, ela vai fazer porque ela tem inteligência pr’aquilo, desenvolve melhor do que o marido, então ela tá trabalhando para o bem dos dois. O marido tem, tem não, vai entender que foi melhor assim, do que ele tomar a frente e não ir pra frente. Para ela o mais importante é a família andar bem e nesse sentido afirma que“o marido vai entender”. Quando questionada acerca dessa imediatez ela o confirmanovamente O... ele... pode até dizer assim ‘eu não quero que você faça isso’ e ela dizer ‘eu vou fazer’. Se ela disser eu vou fazer, porque ela ta sabendo da situação, porque se ela não fizer ‘a casa cai’, aí ele não vai ser mais o ‘esteio’ da casa, vai ser agora ele e ela, no sentido do comércio, da vida financeira, e se ele achar ruim, ele vai ter que continuar achando ruim, e se ela deixar de fazer vai cair. (risos). Ela vai ter que manter essa posição dela aí, não é porque que ela fazendo assim, ela vai tomar o poder do cabeça da mulher, não. Ela vai manter ali a sua, a sua atitude no negócio para que mantenha a família, vamos dizer assim, firme, no comércio, ou na sua vida financeira. Embora possa parecer confusa sua explicitação: quando for necessário, amulher deve agir mesmo que o marido não compreenda, quando ela o afirma ela evocauma capacidade que pressupõe existir em cada mulher, o “discernimento” para saberquando deve ou não atuar. Nesse ponto onde fica a submissão, se a mulher pode decidirquando quer se submeter? Para Terezinha a mulher precisa “colocar-se em seu lugar” mesmo quandoprecisa agir de forma que sua vontade se sobreponha à do marido: Abaixo, porque de qualquer jeito ela tem que ser abaixo do homem, mesmo ela sendo o pescoço, mesmo ela vendo que o pescoço dela tem que dominar o pescoço e a cabeça, mas ela tem que controlar no domínio da cabeça, porque ela, ela tá vendo ‘ah, mais eu to vendo que eu, meu marido, oh, meu Deus’. E meu marido é assim (...) às vezes até eu me agitava ‘ah! Tudo tem que ser eu nessa casa, você não liga, você não faz’, só, mas eu tinha que tá ao limite, sempre eu tinha que ficar abaixo dele, eu sabia que ele era nessa posição. Há uma percepção em seu discurso de que a mulher mesmo quando devecolocar-se à frente, deve cumprir o mandamento bíblico de ser submissa: “porque eusabia que ele era nessa posição”. Então ela conta um exemplo quando seu marido decidevender a casa: disse ‘oh, você é o homem, é você que vai... que vai, que coisa, agora eu vou dizer agora não vou vender minha roça, (Terezinha se corrige) não vou vender minha casa pra comprar roça, porque eu tenho meus filho, meus filho trabalha, não vou vender minha roça porque não dá pra eu comprar uma roça,
  21. 21. 21 comprar uma casa’ – se corrige- (ruído - passa uma charanga) (...) Ah ele disse ‘ah! mais é quando isso acontece, que eu quero ver como é que você vai aposentar, e não sei o que’, e eu deixei ele bem subir e disse eu não aceito, eu não aceito, depois que ele esfriou a cabeça, eu sentei com ele e conversei com ele, e pronto, acalmou e acabou e resolveu. Aí hoje ele não altera mais, ele não sobe mais naquele, porque ele é, ‘é porque ele tem que fazer’, não, e hoje ele não faz mais isso. Aqui Terezinha entra como um freio ao impulso do marido em vender a casa“eu deixei ele bem subir e disse eu não aceito, eu não aceito”. Nessa situaçãoclaramente o marido não foi o cabeça, pois se o tivesse sido ela teria que acatar suadecisão, a vontade de dona Terezinha foi a que prevaleceu. Tanto no discurso de Zelinda como no de Terezinha foi percebida essajustificação para uma possível insubmissão: quando for resultar num bem mútuo, aindaeste seja compreendido apenas pela mulher. Zelinda o diz enquanto fala da direção dosnegócios, Terezinha na questão da venda da casa. Terezinha relata ainda uma outrasituação, vivenciada por uma filha sua, em que ela teria ao invés de obedecer ao marido,insistido para que seu interesse prevalecesse: aconteceu com minha menina. Porque ela estudava, ela era jovem, ela estudava, e aí casou, e depois que casou o marido não deixou mais estudar e atrapalhou toda a vida dela. (...) ela tinha que não obedecer, ainda disse a ela, ó sobre isso você não pode obedecer a seu marido, porque uma coisa que você tá o bem pra você, e pra ele tombém (...) E ela ai, nessa parte eu achei ela fraca, que ela aí podia ter insistido mesmo, porque se ela tivesse insistido... As duas entrevistadas reforçaram que a mulher deve ser insubmissa quando ainsubmissão for resultar num bem comum. Isso é bem do discurso delas mesmo, nãoconsta no discurso oficial de suas igrejas. Esse posicionamento apesar de concordar comdiscurso oficial da submissão feminina - pela obrigação de ela ter que ser submissa, nãoo ser só é justificada por uma boa causa - abre brechas no mesmo, quando permite que amulher contrarie o principio da submissão quando ela achar que seja melhor. Há, mesmo em meio do consentimento à submissão, resistências à designaçãode passividade, obediência da mulher em relação ao marido. Nesse dois casos percebe-se um refúgio nos princípios do próprio cristianismo de procurar fazer o bem,proporcionar que as coisas se resolvam em direção ao melhor, ao bem da família. Essase outras formas de resistência que possam haver no cotidiano delas confere à mulher umlugar de sujeito em que ela analisa as colocações do marido as aceita quando estasforem coerentes com sua vontade, “se submetem”, quando acharem que for para o bem
  22. 22. 22mútuo, ou quando não ferir a sua integridade, seu princípios de fé. Como o diz Zelindaque se refugia no próprio discurso da submissão para afirmar que esta deve orientarpelos princípios maiores da sua fé, uma vez que a submissão deve se dar “como aoSenhor”. e a Bíblia ainda diz assim que a gente ‘tem que fazer a vontade do marido no Senhor’ – enfatiza a entrevistada entoando a voz . Como é isso? Se ele quiser que a gente faça coisa que não é do agrado do Senhor, não é porque ele é marido que eu vou fazer37, nem ninguém vai fazer. ‘É no Senhor’. Nesse sentido Zelinda refugia-se na submissão “como no Senhor”, ou seja,seus princípios de fé colocam-se acima da autoridade do marido. Nesse sentido a mulherevangélica deve colocar-se mais na posição de mulher sábia do que submissa. Anecessidade de conciliar os dois, a clareza com que essa obrigação se impõe para elasoferece-lhes uma boa saída aos impulsos de domínio que possivelmente seus maridosvenham a ter, como o diz Terezinha: tem umas coisas que ela tem que ser só o pescoço, mas em outra coisa ela tem que ser o pescoço e a cabeça, não que..., desde que a cabeça não exagere, mas que ela lutando pra cabeça funcionar junto com o pescoço, mas ela tem que lutar, que não pode deixar... (né?). Não há, portanto uma submissão passiva, tanto uma como outra entrevistada,apesar de afirmarem o dever da mulher ser submissa ao seu marido, encontramalternativas para negá-la enquanto uma atitude passiva. Esse posicionamento não foge,entretanto dos limites de sua fé, refugia-se na própria Bíblia. Como o afirma uma revistade Escola Dominical, a Bíblia é a “única orientadora das relações conjugais”, “o manualde estudos da família”38. Resta-lhes enquanto mulheres evangélicas refugiarem-se naprópria Bíblia para poderem tomar suas decisões. A escolha de outros referenciais naprópria Bíblia permite à mulher evangélica mais autonomia no sentido de que ela podereferendar suas atitudes no que é aceito pela sociedade em geral e não apenas navontade do marido, como por exemplo: trabalhar fora de casa e estudar, mesmo que omarido não concorde.37 Uma vez que as igrejas pentecostais conferem aos seus membros autonomia de instrução perante aBíblia, algumas mulheres se utilizam da mesma para barrar algumas conferências de poder masculinoconferidas em algumas de suas mesmas passagens, o que fica explícito nessa parte da entrevista.38 LIÇÕES BÍBLICAS JOVENS E ADULTOS. Rio de Janeiro: CPAD-. Trimestral. 4º trimestre, 1985,p. 41.
  23. 23. 23 Nesse sentido, por exemplo, quando questionado às entrevistadas sobre oque elas achavam da condição de mulher na Bíblia, elas escolhem figuras que mais separecem com suas histórias de vida, o exemplo de serem submissas, um dos debatidosna Escola dominical quando o assunto é mulher casada, não é citado. Zelinda cita algunsexemplos: Tem o exemplo de, o maior exemplo que se..., se aconselha é a mãe de Jesus, Maria (né?), (...) tem também a história das... das... das mulheres que faziam...que faziam rendas, as mulheres que tiavam mulheres que faziam comércio, com se fosse uma empresária, como em provérbios diz assim: ‘Mulher virtuosa, quem a achará?’ e a história dessa mulher virtuosa era uma mulher empresária, era uma mulher que fazia um negócio mais alto do que o homem (...) existia mulheres assim... de renome, mulheres de projetos, mulheres de trabalho (né?), mulheres que faziam o social, que faziam coleta para dar aos pobres (...) desde o antigo tempo que essas coisas existem (...). As mulheres citadas por Zelinda “para exemplo nosso” fazem referência aqualidades que talvez ela tenha desempenhado enquanto participante da fundação daIgreja na cidade, professora da escola dominical, e professora de escola pública. Nessesentido Zelinda dá ênfase a uma figura muito pouco explorada nas revistas da Escoladominical “a mulher virtuosa” e a mulheres “de renome, mulheres de projetos, mulheresde trabalho”. Terezinha o faz o mesmo quando enfatiza a figura de Ana: Ana... que foi mulher prudente, mulher de oração, mulher de fé, mulher de coragem, mulher sincera diante de Deus, foi mulher que não recuou por nada, foi muito zombada, muito..., com muita crítica sobre Ana, mas ela tava (né), com cabeça erguida, não desistiu. Seu refúgio nessa figura está diretamente relacionada à sua história de vida,uma mulher que se sente humilhada por não ter estudado mais, não ter emprego, masque espera em Deus ser exaltada, tal como Ana.CONCLUSÃO Percebe-se a partir do trabalho realizado com duas mulheres evangélicas queo discurso da submissão não impera de forma passiva sobre a concepção de vida dessasmulheres, há outras figuras e outras passagens na Bíblia que lhes permitem ser e sonharser algo mais que uma boa dona-de-casa submissa a seu marido. Nesse sentido elasbuscam referências justifiquem seus modos de ser e pensar. Um refúgio para justificar
  24. 24. 24uma atitude não submissa seria a atuação feminina em busca de um bem maior quejustifique sua atitude: o bem estar da família. Diante de tudo isso fica claro, que elementos além do discurso religiosointerferem em seu comportamento na relação marital, um sonho de “ser alguém”, avalorização de um bem conseguido, dos estudos, etc. Fazendo uma referência a estedado fica claro que apesar do discurso religioso pautar-se na afirmação do modelotradicional de família em que o marido é o chefe do lar e a mulher uma boa esposa-dona-de-casa este modelo tende a ruir quando se depara com questões cotidianas queoferecem à mulher novos espaços na sociedade mesmo para mulheres que não negam averacidade do discurso que o afirma. Entretanto o discurso religioso atua conjuntamente na formação daidentidade de gênero feminina que concorde com o modelo patriarcal de família. Omesmo motivo buscado pelas mulheres que lhe permitem burlar o princípio dasubmissão, “o bem-estar dos dois, o bom funcionamento da família”, em contrapartidatambém lhes impõe o dever de serem submissas, uma vez que noutras situações ela vaiter que ceder a fim de não causar conflitos, como por exemplo, assumir duplo-triplasjornadas de trabalho. Além disso fica colocada a impressão de o homem é líder por essência, é maisaustero, é a mulher da mesma forma deve ser por natureza mais voltada aos afazeresdomésticos. Ao passo que a igreja contribui para a perpetuação desse pensamentoquando naturaliza o gênero, ela contribui em perpetuar um sistema de gênero desigual,do qual as mulheres participam, embora não de forma passiva. Existem meiosdesenvolvidos por essas mulheres que justifiquem seus atos de insubmissão, como já odizia Roger Chartier: Nem todas as fissuras que corroem as formas de dominação masculina tomam a forma de dilacerações espetaculares, nem se exprimem sempre pela irrupção singular de um discurso de recusa ou de rejeição. Elas nascem com freqüência no interior do próprio consentimento, quando a incorporação da linguagem da dominação se encontra reempregada para marcar uma resistência39. Conclui-se portanto neste trabalho que dentro do sistema de afirmação dedominação patriarcal empreendido pelo discurso religioso da Igreja evangélicaAssembléia de Deus, as mulheres evangélicas não atuam de forma passiva, existem39 CHARTIER, Roger. Diferenças entre os sexos e dominação simbólica. Cadernos pagu (4) 1995: P 42.
  25. 25. 25formas de resistência desenvolvidas pelas mesmas que se encontram dentro do própriodiscurso religioso, em princípios maiores que as concedem certas formas de liberdadeem decidir pela submissão/insubmissão à vontade do marido ou em outros tipos bíblicosque contrariem a naturalização da posição de submissão feminina.REFERÊNCIASCHARTIER, Roger. Diferenças entre os sexos e dominação simbólica. Cadernos pagu(4) 1995: P 37-47.TOURTIER-BONAZZI, Chantal de. Arquivos: Propostas metodológicas. In:FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. . Usos e abusos da história oral. 7.ed Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2005FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 10ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2008.HALL, Stuart.. A identidade cultural na pós-modernidade Tradução Tomaz Tadeu daSilva e Guacira Lopes Louro. 11ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.LEVI, Giovanni . Sobre a micro-história. In: BURKE, Peter. A escrita da história:Novas perspectivas. São Paulo: UNESP, 1992.LIÇÕES BÍBLICAS JOVENS E ADULTOS. Rio de Janeiro: CPAD. Trimestral.Coleção 1980-2009.SAFFIOTI, Heleieth I.B. Contribuições feministas para o estudo da violência degênero. Revista labrys, estudos feministas, número 1-2, julho/ dezembro 2002.Disponível em: http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys1_2/heleieth1.htmlSCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. ( Tradução de ChristineRufino Dabat e Maria Betânia Ávila). Recife, SOS Corpo, 1991.SOIHET, Rachel. História das mulheres. In. CARDOSO, Ciro Flamarion, VAINFAS,Ronaldo (orgs.). Domínios da História: Ensaios e metodologias. Rio de Janeiro:Elsevier, 1997.POGREBINSCHI, Thamy. Foucault, para além do poder disciplinar e do biopoder.Lua Nova nº 63, 2004.

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