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12                              AGRADECIMENTOS        À Deus por ter nos dado saúde, coragem e sabedoria durante essa cami...
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15                                      ABSTRACT                           THE REAL ESSAY:      Womens identities and thei...
16                                       SumárioIntrodução                                                                ...
17          Introdução          A relação histórica entre o homem e os mecanismos de captação de imagens émarcada pela lóg...
18       No que se refere ao processo de construção da interpretação de imagens fotográficas,que é uma proposta de Kossoy ...
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26que perpassaram as sociedades, as quais nos Estudos Culturais, segundo Kellner (2001), sãoperceptíveis em três fases def...
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30        2 Imagem e Sociedade        Desde os primeiros tempos (período paleolítico) o homem demonstra sua necessidadede ...
31insígnias do poder. Esse ato, segundo Debray (1991), ilustra tanto as virtudes simbólicasquanto as vantagens práticas da...
32       No Renascimento, os artistas seguem uma linha grega de representação da realidade,submetida a uma beleza irrealis...
33        No Brasil, o francês radicado Antoine Hercule Romuald Florence, também pesquisou,entre 1832 e 1839, com a ajuda ...
34usada nas reportagens militares, ilustrando as reportagens de guerras e sendo utilizadas comoforma de registro policial....
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36toda problemática do ato fotográfico, a qual envolve o processo de construção da imagem, asubjetividade do fotógrafo e a...
37                       As imagens (...) têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em                 ...
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39portanto, pelas escolhas valorativas do sujeito enunciador da imagem, o fotógrafo” (TACCA,2005, p. 13).       É por este...
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42Trabalhadores, desenvolve trabalhos voluntários que ajudam e apoiam pessoas carentes.Outro trabalho importante que ela d...
43       3.1.1 Proposta do Ensaio       Na realização das fotografias procuraremos registrar aspectos peculiares dasperson...
44        GILCA DA SILVA CARNEIRO MORAIS5                           Ser mulher é ser uma Maria-sem-vergonha, mas uma Maria...
45nas reuniões do CODES, que são discutidas as prioridades e necessidades para odesenvolvimento rural sustentável de todas...
46diz ela. Para Juçara, seus trabalhos nesses grupos ficam mais na parte de conscientizar aspessoas a colocarem em prática...
47         Hoje, Geninha se encontra na coordenação da Secretaria de Políticas Públicas paraMulheres de Conceição do Coité...
48        Atualmente, como vice-presidente desse grupo, ela realiza semanalmente em sua casareuniões para evangelizar e aj...
49        Atualmente com 39 anos, separada e com uma filha de 11 anos, Vilmara diz terenfrentado muitas dificuldades e pre...
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  1. 1. 9 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA JACIMAR OLIVEIRA ALMEIDA RAMOS MICHELE OLIVEIRA NASCIMENTO ENSAIOS DO REAL:Identidades femininas e suas representações no contexto de Conceição do Coité Conceição do Coité 2011
  2. 2. 10 JACIMAR OLIVEIRA ALMEIDA RAMOS MICHELE OLIVEIRA NASCIMENTO ENSAIOS DO REAL:Identidades femininas e suas representações no contexto de Conceição do Coité Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social - Habilitação em Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de bacharel em Comunicação, sob a orientação da Professora Mestre Carolina Ruiz de Macedo. Conceição do Coité 2011
  3. 3. 11 JACIMAR OLIVEIRA ALMEIDA RAMOS MICHELE OLIVEIRA NASCIMENTO ENSAIOS DO REAL:Identidades femininas e suas representações no contexto de Conceição do Coité Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social - Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, realizado sob a orientação da Professora Mestre Carolina Ruiz de Macedo. Data: ____________________________ Resultado: ________________________ BANCA EXAMINADORA Profª. Msc. Carolina Ruiz de Macedo (orientadora) Assinatura________________________ Profª. Dra.. Rosane Meire Vieira de Jesus Assinatura_______________________ Profª. Msc. Vilbégina Monteiro dos Santos Assinatura___________________________
  4. 4. 12 AGRADECIMENTOS À Deus por ter nos dado saúde, coragem e sabedoria durante essa caminhada. Às nossas famílias pelo apoio incondicional em todos os momentos. À nossa orientadora Prof.ª Msc. Carolina Ruiz de Macedo pelo incentivo, presteza e contribuições para construção desse trabalho de conclusão de curso.Em especial à Prof.ªMsc. Vilbégina Monteiro dos Santos que além das discussões em sala deaula nos proporcionou com sua amizade grandes experiências de vida, as quais impulsionaram nosso crescimento acadêmico. À Clélia, Geninha, Gilca, Juçara e Vilmara pela gentileza e disponibilidade em participar desse trabalho, permitindo a construção de uma relação de amizade.Aos nossos colegas e demais professores por fazerem parte de nossa vida durante esses quatro anos. Em especial à Bruna, Juçara, Mevolandia e Raiane com quem compartilhamos momentos positivos e negativos, os quais nos marcaram significativamente.
  5. 5. 13“Seguimos buscando compreender a natureza complexa daimagem fotográfica documento fechado, definido,delimitado pelas margens da superfície fotográfica,portador de um inventário de informações que é, aomesmo tempo, uma representação aberta, indefinida, realporém imaginária, plena de segredos extra-imagem quesegue sua trajetória mostrando/encobrindo sua razão de serno mundo; uma aparência construída em eterna tensãocom seu verdadeiro mistério, subcutâneo à superfíciefotográfica: sua trama, sua história, sua realidade interior.Um signo a espera de sua desmontagem..”Boris Kossoy (2000, p.143-144)
  6. 6. 14 RESUMO ENSAIOS DO REAL: Identidades femininas e suas representações no contexto de Conceição do CoitéConsiderando o desenvolvimento da atuação das mulheres, numa perspectiva histórica,observa-se que os papéis sociais assumidos por elas foram se transformando econsequentemente foram resignificando suas identidades. Nesse sentido, nas sociedades pós-modernas, os sujeitos femininos assumem múltiplas identidades que fomentam areestruturação de suas representações nos espaços sociais. Propõe-se através de um ensaiofotográfico construir representações das várias identidades de algumas mulheres que têmparticipação ativa no contexto social de Conceição do Coité, Assim, o objetivo com essetrabalho não é retratar a mulher pelo filtro de uma perspectiva feminista, mas através dosfragmentos temporais e espaciais materializados nas fotografias, dar visibilidade à mulhercomo sujeito social, que pode ser mãe, empresária, líder sindical, professora etc., mas antes detudo mulher. Com esse objetivo foram selecionadas mulheres símbolo de transformaçãosocial, pela cidadania, e de luta por melhores condições de vida.Palavras-chave: Identidades. Mulheres. Conceição do Coité. Representação. EnsaioFotográfico.
  7. 7. 15 ABSTRACT THE REAL ESSAY: Womens identities and their representations in the context of the Conceição do CoitéConsidering the development of the actuation of women in historical perspective, we see thatthe social roles assumed by them were turning and therefore their identities were resignifying.Accordingly, in postmodern societies, the female subjects assume multiple identities thatfoster the restructuring of its representations in social spaces. We propose using a photo essayto build representations of the multiple identities of some women who are active in the socialcontext of Conceição do Coité. So our goal with this work is not portray the woman throughthe filter of a feminist perspective, but through fragments of time space materialized in thephotographs, to give visibility to women as a social subject, which can be a mother,businesswoman, union leader, teacher etc.. But above all women. With this aim we selected asymbol of women for citizenship and social transformation of the struggle for better livingconditions.Keywords: Identity. Women. Conceição do Coité. Representation. Photo Essay.
  8. 8. 16 SumárioIntrodução 09Público-alvo 171 Mulher: Identidades e Representações 13 1.1 O empoderamento das mulheres em Conceição do Coité 15 1.2 Uma Questão de Identidade 17 1.3 Identidade Feminina e Representação na Mídia 19 1.4 Mulher e Propaganda 202 Imagem e Sociedade 22 2.1 Implicações sociais da Imagem fotográfica 26 2.2 Representação fotográfica: formas de percepção, criação e interpretação da 29 realidade3 Registros Fotográficos 33 3.1 Pré-produção 33 3.1.1Proposta do Ensaio 35 3.1.2 Equipe 35 3.1.3 Perfis 35 3.1.4 Pré-produção dos ensaios 43 3.2 Produção 43 3.2.1Relatório dos ensaios 44 3.2.2 Descrição das fotografias selecionadas para a exposição 60 3.3 Pós-produção 644 Cronograma 655 Orçamento 656 Considerações Finais 67Referências 69Apêndice 72
  9. 9. 17 Introdução A relação histórica entre o homem e os mecanismos de captação de imagens émarcada pela lógica da experimentação, numa perspectiva de desenvolvimento impulsionadopelo aprimoramento técnico e busca da qualidade estética. Nesse processo dedesenvolvimento, o homem, através da fotografia, reconfigura o modo como se relaciona como mundo, criando com as representações fotográficas novas formas de percepção e recepçãode sua realidade histórica. Nesse sentido, as representações criadas através da fotografia envolvem não sóaparatos técnicos ou concepções estéticas, mas também elementos que ideológica eculturalmente surgem da relação entre – utilizando a terminologia de Roland Barthes (2009) –o operator (fotógrafo) e o espectrum (objeto fotografado). Ou seja, o resultado do atofotográfico está intrinsecamente ligado à forma de relação que o fotógrafo estabelece com seuobjeto. Assim a imagem fotográfica é classificada como um produto cultural que apresentaimbricado em sua concretude material e simbólica o fazer de um ser social (fotógrafo) numdado contexto histórico indissociável de seus conflitos, negociações e de suas formas dedesenvolvimento social. O desenvolvimento social no contexto de Conceição do Coité, durante, os anos 1970 e1980 esteve pautado numa estrutura de sociedade patriarcalista, na qual a mulher desenvolvepapéis secundários e ocupa lugares hegemonicamente definidos pelos homens. Dentro dessecontexto os meios de comunicação reafirmam e alimentam tal estrutura através da construçãoe disseminação de modelos estereotipados da identidade feminina que reforçam a lógicapatriarcalista; e alguns desses modelos ainda fazem parte de sistemas de identificação nasociedade contemporânea. A proposta deste projeto surgiu do desejo de construir um produto visual que possacontribuir, como alternativa, para a percepção de novas possibilidades de representação damulher. Criando imagens fotográficas que represente a mulher com seus múltiplos papéis,mostrando a complexidade da sua identidade na sociedade contemporânea, a fim deevidenciar, além dos papéis sociais tradicionalmente exercidos, suas realizações sociais,apresentando-a como construtora de uma nova realidade.
  10. 10. 18 No que se refere ao processo de construção da interpretação de imagens fotográficas,que é uma proposta de Kossoy (2000), esse trabalho pretende propor uma outra concepçãovisual do sujeito feminino na cidade de Conceição do Coité. A cidade de Conceição do Coitéfoi delimitada como locus deste ensaio fotográfico por ter sua dinâmica social, política eeconômica influenciada pela atuação dessas mulheres, que transformam sua realidade socialcriando uma nova perspectiva para o desenvolvimento tanto de suas famílias quando dasociedade. O nosso objetivo geral com esse trabalho é construir um ensaio fotográfico de cunhodocumental que materialize, através da imagem, a representatividade da mulher em Conceiçãodo Coité, destacando as múltiplas identidades apropriadas pela mulher pós-moderna. A partir deste objetivo geral surgem outros de natureza mais específica, quais sejam:  dar visibilidade a mulher enquanto construtora e transformadora de sua realidade em Conceição do Coité.  mostrar a mulher enquanto sujeito transformador e protagonista de sua própria história;  representar as várias identidades assumidas por algumas mulheres coiteenses no desempenho de seus papéis sociais;  montar uma exposição a fim de mostrar algumas mulheres coiteenses símbolo de luta por melhores condições de vida. Desse modo propomos um ensaio que contribua politicamente para uma releitura daimagem dos sujeitos femininos em Conceição do Coité. Assim o propósito não é construirfotografias artísticas para contemplação como obra de arte, mas colocá-las como propulsorasde reflexões. Sendo que para selecionar essas mulheres, fizemos algumas pesquisas exploratórias,nas quais observamos, por meio de amostragem tipificada, algumas características quenortearam nossas escolhas. Com base no levantamento de dados, selecionamos seis mulheres,com quem fizemos entrevista oral semiestruturada a fim de obter informações necessáriaspara conhecer melhor cada uma das personagens e também para construir seus perfis. Visto que os meios de comunicação comerciais, por obedecer a lógica capitalista deprodução, em grande parte, não trazem representações da mulher enquanto sujeitotransformador e construtor de uma nova realidade, tanto social quanto familiar, decidimosrealizar um ensaio fotográfico com intenção de representar mulheres que compõem o cenáriopúblico e social de Conceição do Coité como sujeitos transformadores.
  11. 11. 19 Temos conhecimento que a temática das mulheres já foi explorada em trabalhosacadêmicos através de várias perspectivas e usando diversos suportes, no entanto, o uso dafotografia como método de construção do saber, promoção do conhecimento, da informação eda reflexão, ainda não foi explorado pela comunidade acadêmica de Conceição do Coité.Dessa forma, o tema proposto apresenta grande relevância social, pois tem uma capacidademaior de acessibilidade, além da facilidade de divulgação e propagação, pois a atração que aimagem fotográfica exerce sobre as pessoas é mais direta do que um texto escrito. Nesse sentido, ao aumentar a sociabilização do conhecimento, estamos ajudando aUniversidade a cumprir seu papel junto à sociedade, pois com a inserção de novos debates enovas discussões no contexto social, estamos provocando mudanças que impulsionam seudesenvolvimento. Além disso, acreditamos que assim como o mapa é capaz de construir sentido etransmitir conhecimento, a imagem também o faz, visto que, a partir de uma concepçãoesteticamente trabalhada, as fotografias aqui propostas, podem adquirir funções informativase de valorização da imagem simbólica das mulheres retratadas. Mostrar essas mulheres, através de um ensaio fotográfico, surgiu como umaalternativa de criar uma forma da sociedade ver/perceber as mulheres, contrapondo asimagens estereotipadas, em formatos mercadológicos, veiculadas pelas mídias convencionais. No capitulo 1 deste memorial, foi abordado, numa perspectiva histórica, as relações degênero e a trajetória feminina na sociedade, fazendo um apanhado geral a respeito do modelopatriarcalista, o qual estruturou por muito tempo as relações sociais, inclusive no contexto deConceição do Coité. Para melhor abordagem dos assuntos, o capítulo foi dividido em quatrosubtemas: O empoderamento das mulheres em Conceição do Coité; Uma questão deidentidade ; Identidade feminina e representação na mídia e Mulher e Propaganda. No primeiro tópico, discutimos questões a cerca do empoderamento dos sujeitosfemininos na perspectiva de Almeida (2010) e Silva, Z. P. (2007), com recorte espacial dacidade de Conceição do Coité, traçando uma trajetória do envolvimento da mulher coiteensena transformação da sociedade. No segundo, trazemos, através dos conceitos de identidade erepresentação de autores como Hall (2006), Silva, T. T. (2007) e Kellner(2001), argumentaçõssobre os processos de construção, desconstrução e reconstrução das identidades femininas,considerando os múltiplos papéis sociais que as mulheres desenvolvem. No terceiro tópico, foram abordados, baseado em Cruz (2009), o papel dos meios decomunicação no processo de representação e consolidação dos estereótipos criados em tornodos sujeitos femininos no contexto contemporâneo. Por fim, debatemos no quarto tópico a
  12. 12. 20problemática do uso da imagem feminina nas propagandas, discutindo a associação que se fazdela com os interesses mercadológicos e como mudar essa realidade, colocando o ensaiofotográfico no âmbito acadêmico como uma alternativa de representar a mulher dissociada deum produto. No capítulo 2, trabalhamos uma retrospectiva histórica da relação do homem com aimagem, desde as primeiras pinturas no interior das cavernas até a fotografia digital.Abordamos, a partir das reflexões de Bazin (1991), Barthes (2009), Debrey (1994) e Sontag(2004), como o significado da imagem para o homem se modificou com o passar do tempo ecom o avanço da técnica. Dividimos este capítulo em dois tópicos: Implicações sociais daimagem fotográfica e Representação fotográfica: formas de percepção, criação einterpretação da realidade. No primeiro tópico, trabalhamos, ancoradas nas discussões trazidas por Fabris (2007)e Sontag (2004), quais as implicações das fotografias nos processos de comunicaçãoimagética e também os novos usos e funções atribuídos à fotografia, considerando, nessecontexto, as modificações que estas imagens provocam tanto nos espaços concretos quantonos simbólicos. O segundo tópico, dialogando com Barthes (2009) e Kossoy (2000), discutecomo as representações fotográficas são usadas na percepção, criação e interpretação darealidade já que a materialização do real, através da fotografia, é um processo cultural queenvolve múltiplas interpretações, tanto na sua produção quanto na sua percepção/recepção. No terceiro capítulo, fazemos a descrição técnica e metodológica da pré-produção,produção e pós-produção do ensaio fotográfico. Público-alvo: Toda sociedade de Conceição do Coité, assim como a comunidade acadêmica queengloba através da diversidade e heterogeneidade de seus estudantes outros contextos sociais.
  13. 13. 21 1. Mulher: Identidades e Representações Para que se desenvolvam, as sociedades adotam sistemas e modelos de organizaçãosocial em que são definidos padrões, papéis, condutas e comportamentos para seus atoressociais que obedecem à lógica de funcionamento do modelo ou sistema adotado, o qual éfirmado e legitimado por instituições sociais que desempenham funções importantes nasociedade, como as escolas, igrejas e a família. Assim como também pelos meios decomunicação, que interferem nesse processo de organização, reforçando ou não determinadasconcepções e estereótipos. A partir deste pressuposto, consegue-se, através de uma análise histórica, identificarque a sociedade brasileira adotou o sistema patriarcalista como estrutura social e como formade organizar as relações de poder. O modelo tem suas bases definidas desde o Brasil Imperial(BAUER, 2001) em que as famílias eram estruturadas através do domínio do pai, o qualassumia a responsabilidade de conduzir a família, atuando de forma autoritária e impositiva. Se o ser homem é patriarcalmente identificado nos músculos fortes e à mostra, no ser agressivo e autoritário, a mulher é definida a partir de uma relação de oposição, frágil, emotiva, passiva, ingênua e dominável. (ALMEIDA, 2010, p. 102) Nesse sentido foram sendo estabelecidas, a partir dos padrões patriarcalistas, asdiferenciações dos papéis do pai/homem/esposo e da mãe/mulher/esposa no espaço privado desuas casas, mas também na sociedade, caracterizada como espaço público, passando aenvolver as relações sociais existentes dentro desses espaços. No patriarcado, o homem (patriarca) é colocado como um ser superior em relação amulher (matriarca), sendo considerado o responsável pelo sustento da família e pelodesenvolvimento da sociedade, enquanto o papel atribuído às mulheres fica restrito ao lar,cabendo-lhes apenas a educação dos filhos e os cuidados com a casa. A partir dessa hierarquização, as relações de gênero são caracterizadas peladominação-exploração, nas quais o homem assume o papel de dominador e a mulher desubmissa, construindo um sistema de poder que predominantemente apresenta-sedesfavorável a mulher. Esse poder, segundo Foucault (1988), se exerce também através deuma rede de discursos e práticas sociais, pois as relações sociais e o comportamento dos
  14. 14. 22atores sociais são elementares para o processo de manutenção e/ou reestruturação dessessistemas. É por meio da proliferação e reafirmação desses discursos que muitas mulheres foramconvencidas de que não possuíam o perfil para a competitividade e para o exercício do poder,reforçando o sistema patriarcalista. No entanto Almeida coloca que: Historicamente a mulher nunca esteve dissociada do trabalho como atividade econômica, especialmente naquelas vinculadas a sobrevivência familiar, seja no espaço rural, ocupando-se da terra, trabalhando na plantação e na colheita, seja nos centros urbanos, comerciais e industriais. (ALMEIDA, 2010, p.24) Nessa perspectiva a mulher desempenha funções que extrapolam os limites do espaçoprivado de seus lares e contribui com sua atuação nos espaços públicos, para odesenvolvimento de sua família e da sociedade como um todo. Mas ainda assim as mulheresnão adquirem a mesma valorização atribuída aos homens. Contudo algumas mulheres, ao longo da história, criaram formas silenciosas eparticulares, de subverter e burlar a autoridade do patriarca (pai e/ou esposo), utilizando-se detáticas sutis para participar das tomadas de decisões referentes tanto às relações familiaresquanto aos negócios e aos setores econômicos e políticos da sociedade, sendo possível“identificar estratégias de lutas e resistências que permitiram algumas mulheres driblar opoder do macho, transitar entre o público e o privado e, em alguns casos, exercer o papel dechefe de família, tomando nas suas próprias mãos as rédeas de sua existência” (BRANDÃO,2008, p. 154). Com essa nova postura, as mulheres passam a demandar a abertura e o alargamento deespaços para sua atuação. Nesse momento que corresponde às primeiras décadas o século XX,surgem, na sociedade brasileira, as primeiras manifestações e mobilizações de mulheres deforma organizada. É nesse cenário que emergem fortes grupos feministas que atuam em áreasespecíficas da sociedade. As mulheres começaram a se organizar em clubes de mães. Com a militância, omovimento feminista ganhou novos rumos, conquistando novos espaços. Em sua primeirafase no Brasil, o feminismo teve como objetivo a conquista dos direitos políticos dasmulheres, mediante participação eleitoral, assim como também o alcance da sua cidadaniaatravés da educação, com a finalidade de obter maiores oportunidades de participação na vidasocial e pública.
  15. 15. 23 Esta luta durou muitos anos e, para conseguirem êxito nesse propósito, foi fundado,em 1910, o Partido Republicano Feminino. É interessante ressaltar que a atuação do partidoocorria fora da ordem estabelecida, já que era composto por pessoas que não possuíamdireitos políticos. Este partido não defendia apenas o direito ao voto, ele também buscava aconscientização das mulheres sobre a emancipação e a independência feminina, além depropugnar pelo fim da exploração sexual. Muitos anos passados desde o início da luta das mulheres pela conquista dos direitospolíticos femininos, as mulheres conseguiram não apenas direito ao voto. Em 2010 foi eleita aprimeira mulher presidente do Brasil, fato que confirma a importância da luta no processo deemancipação, desafiando o conservadorismo e os resquícios patriarcalistas existentes nasociedade brasileira, tentando equilibrar o jogo de poder. A conquista da presidência da República, assim como tantas outras, é fruto deprocessos históricos em que a mulher constrói/desconstrói, significa e ressignificam-se nummovimento dialético que envolve tanto os espaços concretos quanto os espaços simbólicos.No entanto essas conquistas não são características específicas de um contexto, mas oresultado de uma mobilização pulverizada em várias áreas, como a da educação. Através domaior acesso à educação na sociedade atual, a mulher consegue transpor o espaço privado,circulando entre estas duas instâncias da sociedade. Neste sentido, o empoderamento das mulheres na contemporaneidade está estritamenteassociado ao seu nível educacional, o qual lhe permite ocupar espaços que anteriormenteestavam restritos aos homens. Isto pode ser visualizado no mercado de trabalho, onde asmulheres com qualificação têm mais oportunidades de emprego que os homens. 1.1 O empoderamento das mulheres em Conceição do Coité O semiárido baiano é uma das regiões que registram um dos piores índices dedesenvolvimento social do Brasil e é, nessa região, mais especificamente no Território doSisal, que está localizada a cidade de Conceição do Coité. De acordo com o levantamento docenso 2010, a cidade tem 62.042 habitantes, sendo deste total 31.338 mulheres e 30.704homens1.1 Fonte: IBGE, Disponível em: www.ibge.gov.br/home/.../populacao/censo2010/.../total_populacao_bahia.pdf
  16. 16. 24 Seguindo a dinâmica do desenvolvimento nas outras regiões do país e do mundo asmulheres de Conceição do Coité, mesmo enfrentando preconceitos da sociedade, tambémbuscaram se tornar independentes de seus pais e maridos, tomaram as rédeas de suas vidas,assumindo responsabilidades e a liderança do desenvolvimento de suas famílias. Muitasmulheres da cidade saíram dos bastidores para serem protagonistas das transformações sociaisna comunidade. Segundo Silva, Z. P. (2007), o envolvimento direto de mulheres no processo demobilização social em Coité se inicia a partir de 1994, ano em que foi criada a Comissão deMulheres do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité/BA, renomeada em1997, como Movimento de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Conceição doCoité/BA, que lutava pela emancipação da mulher trabalhadora rural. Este movimento ampliava sua atuação em reuniões e encontros realizados em váriascidades do território, a fim de discutir questões como valorização do trabalho feminino erespeito à mulher, bem como incentivar as trabalhadoras a se organizarem na luta por seusdireitos. Em 2000, o Movimento de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores Rurais deConceição do Coité/BA mudou novamente de nome e tornou-se Coletivo de Mulheres doSindicato de Trabalhadores Rurais de Conceição do Coité/BA. Não foi apenas o nome quemudou, a principal inovação deste coletivo nesse momento foi a abertura de espaço para aparticipação da trabalhadora urbana. O Coletivo conseguiu efetivar muitos de seus projetos sociais, que, hoje, englobamnão só a mulher, mas a melhoria das condições de vida do povo do semiárido. Desde 1998, aprincipal bandeira de luta do Coletivo de Mulheres tem sido a implantação de uma Delegaciade Atendimento Especial à Mulher em Conceição do Coité, entretanto esta tem se mostradouma luta perene, pois esta solicitação tem passado como algo desnecessário aos olhos dopoder público. O Coletivo de Mulheres do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Conceição doCoité/BA é um movimento de grande visibilidade que demonstra a capacidade de organizaçãoe mobilização da mulher coiteense em busca da sua emancipação e na luta pela melhoria daqualidade de vida no semiárido. É o diálogo com o sindicato que tem fornecido bases para aAcessado em 06/04/2011
  17. 17. 25reflexão crítica e para a conscientização destas mulheres, oferecendo elementos para quepossam interpretar a sociedade e conhecer seus direitos sociais. É através destas reflexões que acontece o processo de empoderamento das mulheresde Conceição do Coité e o reconhecimento de sua capacidade política. No corpo constitutivodeste Coletivo há mulheres que são mães, esposas, filhas, trabalhadoras, e que em suas casas enas ruas travam batalhas diárias em busca de sua autonomia. Para além do Coletivo de Mulheres, há em Conceição do Coité, inúmeras mulheres,cada uma desempenhando seu papel ou seus múltiplos papéis na sociedade. São donas-de-casa, mobilizadoras sociais, líderes religiosas, empresárias, professoras, operárias, estudantes,comerciantes, agricultoras. Mulheres que atualmente participam da vida econômica e socialda cidade e impulsionam o seu desenvolvimento, mas que, antes, ficavam nos bastidores dasociedade, permitindo que apenas os homens recebessem o mérito por esse desenvolvimento. Hoje há uma flexibilidade maior nas relações de poder, mas algumas mulheres aindaprecisam desenvolver estratégias para burlar o poder patriarcal, atuando de forma velada semque as figuras masculinas percebam. Nessa conjuntura, as mulheres lutam para seremreconhecidas por suas ações de transformações sociais, não mais necessitando ficar na plateiae sim estar no palco da sociedade recebendo o reconhecimento por suas realizações. Assim como em qualquer outra sociedade, em Conceição do Coité, a mulherdesempenha inúmeros e cumulativos papéis indispensáveis ao desenvolvimento social,econômico e cultural da cidade, entretanto ainda hoje não lhe é conferido o devidoreconhecimento por sua importância, sendo muitas vezes depreciada e/ou desvalorizada combases na hierarquização estabelecida entre os gêneros. 1.2 Uma Questão de Identidade Em Conceição do Coité, assim como em outros contextos, as relações de identificaçãoe construção do sujeito se dão através de processos históricos que envolvem os espaçossocioculturais numa dinâmica dialética em que tanto as mulheres quanto a sociedade, entreconflitos e resistências, transformaram-se. Nessa perspectiva, as noções de sujeito feminino e de identidade femininaacompanharam os deslocamentos e as ressignificações provocadas pelas mudanças sociais
  18. 18. 26que perpassaram as sociedades, as quais nos Estudos Culturais, segundo Kellner (2001), sãoperceptíveis em três fases definidas pela sociedade tradicional, a moderna e a pós-moderna. Em cada um desses momentos, as concepções de identidade têm característicaspróprias, delimitadas pelo pensamento e comportamento das pessoas nos espaços sociais. Nassociedades tradicionais, o conservadorismo e as tradições delimitavam os papéis sociais, osquais predeterminavam e fixavam a identidade de cada indivíduo, definindo seu lugar nomundo. Desse modo “o individuo nascia e morria como membro do mesmo clã, de umsistema fixo de parentesco, de uma mesma tribo ou grupo, com trajetórias de vida fixada deantemão” (KELLNER, 2001, p. 295). Nas sociedades modernas há uma ruptura com esse modelo de identidade sólida eestável, tornando-se “mais móvel, múltipla, pessoal, reflexiva e sujeita a mudanças einovações” (ibidem p. 295), de forma que os indivíduos têm uma flexibilidade maior paradefinir sua identidade, ou melhor, suas identidades, já que, na modernidade, o descentramentodos papéis sociais permite aos indivíduos ocupar várias identidades. No entanto Kellner coloca que ainda, na modernidade, a identidade permanece comcerta fixidez e tem sua origem ligada a papéis sociais e normas. “As identidades ainda sãorelativamente fixas e limitadas, embora os limites para identidades possíveis e novas estejamem contínua expansão” (idem, p. 296). Já na teoria pós-moderna, a questão da identidade é problematizada a partir dasmudanças estruturais que se instauram pelo desenvolvimento das sociedades, transformandoas noções de classe, gênero, raça etc., que, segundo Hall, também estão “mudando nossasidentidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados”(HALL, 2006, p.09). Considerando essa abordagem panorâmica dos Estudos Culturais sobre identidade,realizamos este ensaio sob a perspectiva de sujeito pós-moderno, considerando as identidadescomo “definidas historicamente, e não biologicamente. [e que] O sujeito assume identidadesdiferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um „eu‟coerente” (HALL, 2006, p.13). A pós-modernidade possibilitou à mulher a construção de múltiplas e ambíguasidentidades, superando os limites que demarcam simbolicamente os territórios das diferentesidentidades, num sentido que “o „cruzamento de fronteiras‟ e o cultivo propositado deidentidades ambíguas é, entretanto, ao mesmo tempo uma poderosa estratégia política dequestionamento das operações de fixação da identidade” (SILVA, T. T. 2007, p.89).
  19. 19. 27 A mulher pós-moderna, através de seus pensamentos e ações, num jogo de apropriaçãoe desapropriação de identidades, outrora impossíveis de serem aceitas como identificaçõesfemininas, desafia e questiona o sistema de fixação de identidades. Nesse sentido, o papel de mãe biologicamente atribuído à mulher passou a sercontestado pelo pensamento pós-moderno, o qual o define como uma identidade facultativa enão obrigatória. A assimilação de tal identidade, assim como as outras, perpassa pelo campoda liberdade de escolha e da autonomia dos sujeitos. Com isso, ao assimilar ou ao negar identidades, as pessoas estão em constanteprocesso de negociação dentro de espaços e sistemas de representações, os quais envolvemtanto o simbólico quanto sua concretude, pois as negociações materializam-se também emespaços sociais. A representação, compreendida como um processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem eu sou? O que eu poderia ser? Quem eu quero ser? Os discursos e os sistemas de representação constroem lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar. (WOODWARD, apud SILVA, T.T. 2007, p. 17) Todavia esses sistemas de representações não são autorregulavéis, eles são construídossocialmente e legitimados pelas relações pessoais e inter-pessoais dos indivíduos. Essessistemas utilizam várias ferramentas para construir modelos de identificações socialmenteaceitáveis, porque “é por meio dos significados produzidos pelas representações que damossentido à nossa experiência e àquilo que somos” (ibidem p. 17). 1.3 Identidade Feminina e Representação na Mídia Segundo a Teoria dos Estudos Culturais, a existência da identidade está estritamenteligada a sistemas de representação, pois é por meio da representação que a identidade adquiresentido. Segundo Silva, T. T. (2007), também é por meio da representação que a definição deidentidade se liga aos sistemas de poder As representações são socialmente produzidas e partilhadas dentro de um contexto histórico específico. São constituídas a partir de experiências, das informações, dos saberes e dos modelos de pensamentos recebidos, transmitidos e construídos
  20. 20. 28 através da tradição, da educação e da mídia, enfim da cultura. Quando os sujeitos encontram-se para falar, argumentar, discutir o cotidiano as representações sociais estão sendo formadas. (CRUZ, 2009, p. 03) Vivendo em uma sociedade de imagens, controlada pela cultura das mídias, é válidoafirmar que, nessa argumentação, conversa e discussão do cotidiano em que, segundo Cruz,são formadas as identidades, as informações transmitidas pelos meios de comunicação sãopautas recorrentes. As pessoas se reúnem para discutir sobre o que foi exibido no jornal, o queaconteceu no capítulo da novela, ou as cenas “interessantes” de comerciais publicitários. Dessa maneira, a afirmação e legitimação de estereótipos criados pelo modelopatriarcal em torno da mulher, ainda hoje, são, em grande parte, de responsabilidade dosmeios de comunicação, que, através de seus mecanismos, conseguem disseminar asmensagens e ideias de seus realizadores a um grande número de pessoas, pessoas estas que,muitas vezes, reproduzem estes conteúdos. 1.4 Mulher e Propaganda Desde as primeiras exibições televisivas até os dias atuais a imagem feminina é cadavez mais utilizada como forma eficaz para fazer anúncios, seja na imagem de dona-de-casa,em comercias de sabão em pó, detergente, móveis; como símbolo de beleza em propagandasde cosméticos e roupas; ou como símbolo sexual, aparecendo sempre de forma sensual empropagandas de produtos destinados para o público masculino, como em comerciais decerveja, cigarro, produtos automotivos etc. Hoje a imagem de mulher difundida pelos comerciais publicitários gira muito emtorno da mulher esbelta, bonita, que se preocupa com o corpo e, consequentemente, estásempre preocupada com a perfeição. Dessa maneira, os meios de comunicação criam padrõesidealizados de beleza que concomitantemente constroem e projetam identificações queservem de elementos para constituir identidades. Entretanto a construção das imagens midiáticas não se dá de maneira aleatória, mas éfeita a partir de interesses que se estruturam na lógica capitalista, em que os seus produtoresselecionam e elegem características que tornam tais identidades desejáveis, induzindo aoconsumo.
  21. 21. 29 Considerando essa realidade, observa-se predominantemente em Conceição de Coitéas imagens da mulher que circulam nos espaços públicos e no imaginário social seguem essalógica da produção/consumo, o que pode ser observado nos cartazes publicitários, emoutdoors propagandas televisivas etc. No entanto, apesar dos meios de comunicação reforçarem estereótiposmercadológicos, suas potencialidades podem ser utilizadas de formas diferentes, no sentido dedesconstruir e reconstruir tais modelos de representação e identificação. Poderiam dar, assim,visibilidade a outras imagens/ identidades femininas dissociadas de interesses capitalistas,procurando evidenciar a imagem da mulher e não de algum produto. Por isso faz-se necessário investir em alternativas de construir novas representaçõespara as identidades femininas, colocando em circulação imagens do sujeito feminino quepossibilitem múltiplas codificações e decodificações a fim de confrontar as ideologias domercado. Visto que, para os meios de comunicação convencionais, este objetivo torna-seinviável por não ser uma demanda mercadológica, as possibilidades de criar estas outrasrepresentações são maiores no ambiente acadêmico, artístico, cultural ou nos meios decomunicação educativos, pois, potencialmente, têm maior liberdade de atuação nos contextossociais. Na construção dessas representações, as mensagens imagéticas da fotografia sãoelementos importantes de uma narrativa visual que compõe e significa as identificações, pois,através das técnicas de produção fotográfica, são criadas reproduções iconográficas deidentidades que servem de subsídio para apropriações e assimilação de identidades nosespaços simbólicos e concretos.
  22. 22. 30 2 Imagem e Sociedade Desde os primeiros tempos (período paleolítico) o homem demonstra sua necessidadede deixar vestígios através de imagens. Muito pouco se conhece sobre estes homens queviveram há aproximadamente 30.000 anos atrás, mas sabe-se de sua existência através depinturas encontradas em cavernas, manifestações essas que reproduzem a vida diária daquelesque as deixaram. Essas pinturas representam o relato mais antigo que se preservou no mundo. As pinturas feitas pelo homem no período paleolítico são caracterizadas como aprimeira forma de comunicação do homem com o mundo exterior de que se tem notícia.Através destes desenhos o homem paleolítico criava representações imagéticas de seucotidiano na intenção de transmitir mensagens. Nas sociedades antigas a relação do homem com a imagem se dava muito em torno damorte. Segundo Debray, “a arte nasce funerária, e renasce apenas sob o aguilhão da morte”(1994, p.22). É na intenção de honrar o morto que o homem aguça sua “imaginação plástica”eesta arte é feita para ser vista pelo morto e não pelos vivos. Um exemplo disto são osverdadeiros tesouros em obras de arte depositadas nas pirâmides que serviam não para apenasornar, mas tinham a principal função de ajudar o morto a prosseguir suas atividades normais.Logo após o funeral, a entrada da pirâmide era interditada, não permitindo a entrada dos vivosnestes verdadeiros museus. Assim como a música e a dança, a arte/imagem era componente da religião e, parauma religião que se fundava sobre o culto dos antepassados era necessário que o mortosobrevivesse pela imagem. Para os gregos antigos, morrer não era deixar de respirar e simdeixar de ser visto, por isso a importância da recriação da imagem do defunto, pois era atravésdessa representação2 que ele continuaria vivo. Segundo Bazin (1991), a estátua seria criada naintenção de “salvar o ser pela aparência”. Esta prática de criar um “segundo corpo”, uma representação para o morto, foi muitorecorrente na Europa da Idade Média, onde os ritos dedicados aos reis duravam quarenta dias,tempo em que o corpo do soberano deveria permanecer exposto. Visto que a putrefação dacarne avançava mais depressa do que a duração materialmente exigida para a exposição, eracriada, então, uma efígie do soberano morto, ornada com seus adornos e dotada com as2 Em linguagem litúrgica “representação” designa “um caixão vazio” sobre o qual se estende uma mortalha parauma cerimônia fúnebre. Já na Idade Média, era a figura moldada e pintada que, nas obséquias representava odefunto.
  23. 23. 31insígnias do poder. Esse ato, segundo Debray (1991), ilustra tanto as virtudes simbólicasquanto as vantagens práticas da imagem primitiva como substituto vivo do morto. A imagem pode ser vista, então, como instrumento de poder, pois através dela umindivíduo se eterniza, já que a imagem resiste, por um longo tempo. A representação torna-seentão um privilégio social. Não se pode distribuir levianamente honras visuais porque o retrato individual implica em sérias conseqüências. Em Roma até o baixo império, a exibição em público de retratos é limitada e controlada. Colocava gravemente o jogo de poder. No início, só tiveram direito a efígie os mortos ilustres porque são, por natureza, influentes e poderosos; em seguida, os poderosos ainda vivos e sempre do sexo masculino. Retratos e bustos de mulheres apareceram, em Roma, tardiamente, após os dos homens; assim como o direito a imagem, apanágio dos nobres falecidos, só tardiamente – no fim da era republicana – é que foi reconhecido ao cidadão comum. (DEBRAY, 1991, p. 26) Mesmo no Cristianismo onde, segundo as doutrinas bíblicas, o culto a imagem éconsiderado pecado a compulsão pela representação do irrepresentável, imagens que até entãoestavam presentes apenas no imaginário dos fiéis, ganharam representações físicas e surgiuentão a arte cristã: os relicários, o oratório, o ex-voto de ouro, o retábulo, o díptico, o afrescoe, enfim, o quadro. Passando do amor aos ossos ao amor a arte. Isto acontece pela necessidadede registrar a passagem de santos e mártires pela vida terrestre. Segundo Debrey a imagem surge num momento em que o homem passa por uma fasede encontro do pânico da morte, buscando explicação para os fenômenos da natureza, com oinício da técnica de criação da imagem para torná-los imortais (- 30.000 anos). Enquanto opânico se sobrepõe ao domínio da técnica, o homem deposita suas crenças na magia e aprojeta visivelmente sobre os ídolos. No momento em que a técnica começa a levar vantagemsobre o pânico e o homem passa a exercer domínio sobre a natureza e a moldar os materiaisdo mundo, dominando os procedimentos de figuração, transcende-se a fase do ídolo religiosoà imagem de arte. Com isso a arte deixa de ter significação de “culto a morte” e passa a tervalor estético. Foi na Grécia que surgiu o conceito moderno de arte, que com o culto à beleza ideal eà perfeição tentava explicar o mundo através de uma visão racional e não mais através dossentidos. A arte grega tinha como principal objetivo a representação do corpo humano,exaltando a força física e mostrando uma anatomia bastante desenvolvida. Na Grécia, a arte,por não ter uma função religiosa, pôde evoluir livremente.
  24. 24. 32 No Renascimento, os artistas seguem uma linha grega de representação da realidade,submetida a uma beleza irrealista, mas neste momento a pintura se sobressai sobre as outrasartes, e juntando-se à arte Gótica, passa a decorar o teto das Igrejas. A partir daí a pinturainvade também os palácios e as casas dos nobres através de telas, que inicialmente traziamimagens da natureza. Com o passar do tempo e o aperfeiçoamento da técnica, os pintores passaram a fazerretratos do reis, rainhas e nobres, retratos estes que realçavam a condição de poder doretratado e que ocupava espaços privilegiados nos salões nobres das casas e palácios. “Oretrato, pintado, desenhado ou miniaturizado foi, até a difusão da fotografia, um bem restrito,destinado, aliás, a marcar um estatuto social e financeiro” (BARTHES, 2009a, p. 20). Os artistas, na sua maioria, financiados por nobres interessados em arte, perseguiamcada vez mais o domínio da técnica de fazer retratos perfeitos e foi assim que a câmaraobscura, desenvolvida pelos astrônomos e físicos para a observação de eclipses solares,tornou-se acessório básico de pintores e desenhistas. Leonardo da Vinci foi um dos gênios dapintura que deixou registrada a utilização da câmara obscura. Entretanto, os artistas não se satisfaziam em pintar a imagem captada através dacâmara obscura, eles queriam registrá-la tal qual era refletida, o mais próximo possível doreal. Na virada do século XVII para o século XVIII, vários pesquisadores já conseguiamregistrar estas imagens, mas todos eles encontravam dificuldades em fixá-las, pois elas nãoresistiam à luz e ao tempo, desaparecendo logo após a revelação. Várias foram as iniciativas de cientistas em desenvolver um método de fixar asimagens obtidas através da câmara obscura. Porém, segundo Oliveira (2006), a primeirainiciativa bem sucedida de que se tem registro é a do francês Joseph Nicéphore Niépce que,em 1826, teria conseguido gravar imagens em um material recoberto com betume da judeia eem uma segunda etapa com sais de prata. Esta técnica foi batizada por Niépce de heliografia. Foi a pesquisa de seu sócio, Louis Jacqes Mande Daguerre, entretanto, que obtevereconhecimento da academia de Ciências de Paris, em 1839. A técnica desenvolvida porDaguerre consistia em expor na câmara obscura, placas de cobre recobertas com prata polidae sensibilizada com vapor de iodo, que formava uma capa de iodeto sensível à luz. O inglêsWillian Fox Talbot reivindicou para si a descoberta, pois ele também gravava imagens atravésda câmara escura, num método semelhante ao utilizado por Daguerre; a sua técnica foichamada de talbotipia ou calótipo. Outro a reivindicar o invento foi Hippolyte Bayrde,responsável pela primeira montagem fotográfica da história, em 1840.
  25. 25. 33 No Brasil, o francês radicado Antoine Hercule Romuald Florence, também pesquisou,entre 1832 e 1839, com a ajuda do botânico Côrrea de Melo, uma maneira de impressão,sensibilizada pela luz do sol e sais de prata, método parecido com o utilizado por Daguerre.Utilizando inclusive a palavra fotografia desde 1932, muito antes que na Europa, onde aexpressão passou a ser utilizada a partir de 1840. No entanto Florence e Côrrea de Melo sótiveram suas pesquisas reconhecidas recentemente, através do trabalho de pesquisa deKossoy. Após sua descoberta, a fotografia despertou o interesse das pessoas. Tornou-se umaatividade em franca expansão e rapidamente tomou conta do mundo. O fascínio das pessoaspela fotografia se deu pelo fato de que ela dava ao homem uma visão “real” do mundo. “Afotografia proporciona uma representação precisa e fiel da realidade, retirando da imagem ahipoteca da subjetividade; a imagem, além de ser nítida e detalhada, forma-se rapidamente; oprocedimento é simples causando ampla difusão” (FABRIS, 2008, p.13). Para Barthes (2009b) este é o noema3 da fotografia, provar a existência de algo que nomomento não existe mais, mas que foi, mas que existiu; é o registro do momento que nãoacontecerá mais. A fotografia ganha espaço por representar o real, e não resultar dasubjetividade de um criador. Segundo Fabris (2008) foram três os momentos fundamentais para o aperfeiçoamentodos processos fotográficos. O primeiro momento estende-se de 1839 aos anos 50, quando ointeresse pela fotografia era restrito a um pequeno número de amadores que podiam pagar osaltos preços exigidos pelos artistas fotógrafos. O segundo momento corresponde à invençãodo “cartão de visita fotográfico” por Disdéri em 1854, que barateia o produto e coloca aoalcance de muitos, o que até aquele momento fora privilégio de poucos. Por volta de 1889,tem início a terceira etapa, quando a fotografia torna-se prevalentemente comercial, semdeixar de lado sua pretensão artística. São esses três momentos que levam à invenção da primeira câmera portátil, em 1888,por George Eastman. Com a Kodak de Eastman, que era uma câmera bem mais leve, de baixocusto e simples de operar, a fotografia tornou-se bem mais popular. Com a popularização da fotografia e seu distanciamento da esfera do unicum, ela deixade ser vista como demonstração de poder e se abre a novas possibilidades, como a ilustraçãode jornais e revistas. Transformada em instrumento de propaganda, a fotografia passa a ser3 O noema da fotografia é descrito por Barthes como isto foi provando a existência de algo que aconteceu. Assimele coloca que o noema é a essência da fotografia. (BARTHES, 2009b, p.87)
  26. 26. 34usada nas reportagens militares, ilustrando as reportagens de guerras e sendo utilizadas comoforma de registro policial. No fim do século XX, a fotografia se aproxima da vida pública e comum. Com acriação das câmeras digitais, as imagens fotográficas passam a ser cada vez mais comuns nasociedade, pois esta possibilitou que os processos de aquisição das fotografias se tornassemcada vez mais baratos, facilitando e acelerando o processo de produção, armazenamento etransmissão dessas imagens pelo mundo. A fotografia digital é responsável por essa chamada Civilização de Imagens(AUMONT, 1993), onde tudo é registrado e disponibilizado praticamente em tempo realatravés da internet, ou mesmo dos telefones celulares. Se desde as civilizações mais remotas aimagem já mostrava sua importância, nos dias atuais ela é indispensável para as novasculturas, já que é cada vez mais utilizada na transmissão de ideias através da publicidade e dapropaganda, chegando aos lugares mais distantes e remotos, exercendo grande influênciasobre as sociedades locais, chegando a influenciar mudanças de hábitos, costumes ecomportamentos. Nesse sentido, correlacionamos esse contexto à ideia de transfiguração utilizada porSantaella, em que a imagem fotográfica transforma o objeto fotografado, tornado-o singularao revelar aspectos de sua realidade que não estão visíveis a não ser pela fotografia, ou seja, afoto torna-se complemento inseparável da realidade que modifica, num processo dialético, asua apreensão. Pois “do mesmo modo que as fotografias alteram nossa apreensão darealidade, essa apreensão alterada cria novos modos de produzir e interpretar as própriasfotos” (SANTAELLA, 2008. p. 127). 2.1 Implicações sociais da Imagem fotográfica A representação da realidade pela imagem fotográfica, compreendida como construçãosocial, cria, na sociedade, diferentes formas de percepção e de relação com a realidadehistórica, visto que cada cultura desenvolve mecanismos próprios de apropriação tanto dafotografia quanto dos seus processos de produção.
  27. 27. 35 O modo como são construídas essas representações e o uso que se faz das imagensfotográficas alimentam o imaginário social, definem os mecanismos de interpretação e deprodução de sentido. Nesse contexto, as imagens criadas pela fotografia são utilizadas como mensagem emdiversos processos comunicacionais, que englobam tanto práticas familiares de guardar fotoscomo recordações; quanto às práticas mercadológicas de propaganda política e publicidade.Essas práticas permeiam a vida cotidiana dos indivíduos, alterando suas experiênciassocioculturais. Os fluxos de informação visual sustentados pelas imagens fotográficas modificam nãosó os espaços simbólicos, mas também os espaços físicos, pois estamos rodeados defotografias, sejam em outdoors, cartazes, revistas, jornais, embalagens etc., e essas fotos,apesar de suas multiplicidades de informação, são pensadas e idealizadas por seus criadoresseguindo objetivos distintos. Num sentido em que a A fotografia não apenas reproduz o real, recicla-o ― um procedimento fundamental numa sociedade moderna. Na forma de imagens fotográficas, coisas e fatos recebem novos significados, que ultrapassam as distinções entre o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o útil e o inútil, bom gosto e mau gosto (SONTAG, 2004, p. 191). Assim, na sociedade contemporânea é atribuída à fotografia várias possibilidades deusos e funções, sendo apropriadas por várias áreas do conhecimento que a utiliza como fontede informação ou de disseminação de conteúdo, ampliando e criando novas experiênciasvisuais que induzem o ser humano a aumentar sua capacidade cognitiva que, por sua vez, estámais associada ao visual. O mundo hoje está condicionado, irresistivelmente, a visualizar. A imagem quase substituiu a palavra como meio de comunicação. Tablóides, filmes educativos e documentais, películas de massa, revistas e televisão rodeiam-nos. Parece até que a existência da palavra está ameaçada. A imagem é um dos principais meios de interpretação, e sua importância está se tornando cada vez maior (ABBOTT, 1980. apud FABRIS, 2007, p. 01, grifo do autor). A fotografia dentro desse contexto tem a capacidade de criar simulacros nos quais osobjetos, as pessoas e os acontecimentos são revestidos de um realismo com poder testemunhalde representação do real, sendo que a concretude material e simbólica da foto perpassa por
  28. 28. 36toda problemática do ato fotográfico, a qual envolve o processo de construção da imagem, asubjetividade do fotógrafo e a objetividade técnica da câmera fotográfica. A imagemresultante desse processo é a fixação de um modo de ver que ganha status de testemunho,sendo a materialização de algo que aconteceu. Nesse sentido, a sociedade ao longo do tempo atribuiu a esse registro imagético umpoder peculiar de (re) apresentação do real em que A fotografia parece estar imune a todo tipo de desconfiança quando transita pelo imaginário social, tanto que há imagens que se tornaram símbolos de um determinado momento, enfeixando em si um conjunto de valores não apenas visuais, mas também éticos e estéticos. (FABRIS, 2007. p.4) Contudo, o fotógrafo dispõe de várias técnicas para capturar essas imagens,construindo representações a partir de regras de composição e de enquadramentos a fim deatender a determinados objetivos que podem ser profissionais e/ou pessoais. As imagens sãoassim estruturadas por uma idealização pré-concebida. No contexto da propaganda política, as fotografias ajudam os meios de comunicação acriar ideologicamente a imagem de uma figura pública, apresentando fotografias de fatosselecionados de sua vida e de seu cotidiano em diferentes espaços (públicos e privados), ouseja, constrói a imagem social de determinado indivíduo usando elementos escolhidos deacordo com os objetivos pretendidos Na publicidade, as imagens fotográficas são usadas em campanhas com a finalidade dedisseminar conceitos e ideias; procurando a partir de uma concepção estética transmitirvalores morais e éticos, como acontece nas campanhas contra a fome que mostram imagenscom alto poder de sensibilização capaz de desestabilizar e mobilizar a consciência humana. As experiências fotográficas, no contexto bélico, são referências importantes parapensar e problematizar esse poder de desestabilização e mobilização atribuído a essasimagens, pois o impacto social provocado por determinadas fotografias devem serconsiderado, porque muitas delas chegam a ser compreendidas como marco histórico querepresentam tais acontecimentos. As possibilidades e potencialidade de representação da fotografia são exploradas pelasociedade moderna, a qual se pauta em uma cultura baseada em imagens numa lógicacapitalista de produção e consumo que substitui a experiência direta dos indivíduos commundo por uma relação mediada pelas imagens fotográficas. Nessa conjuntura,
  29. 29. 37 As imagens (...) têm poderes excepcionais para determinar nossas necessidades em relação à realidade e são, elas mesmas, cobiçados substitutos da experiência em primeira mão se tornam indispensáveis para a saúde da economia, para a estabilização do corpo social e para a busca da felicidade privada. (SONTAG, 2004. p. 170) Assim, nossa relação com a realidade está cada vez mais associada a imagens, numaperspectiva em que o consumo imagético está reconfigurando não só nossa visão do mundocomo também nossa própria existência nele, pois “ao saber muito do que se passa no mundo(arte, catástrofes, belezas da natureza) por meio de imagens fotográficas, as pessoas não rarose frustram, se surpreendem, se sentem indiferentes quando vêem a coisa real” (idem p.184). Essa relação conflituosa entre a realidade e sua representação pela fotografia colocadapor Sontag serve para problematizar as informações visuais disponíveis nas imagensfotográficas e para refletir sobre como são construídas suas significações, pois com base nainterpretação das imagens as pessoas são capazes de adquirir conhecimento e desenvolveruma reflexão crítica sobre determinado acontecimento ou assunto. Vista como uma mensagem visual, a fotografia compõe práticas comunicacionais quetransfiguram o papel do sujeito em relação as suas formas de interação com as tecnologiasfotográficas, que no seu aspecto mais amplo, compreende tanto os dispositivos de produçãoquanto os de divulgação e recepção das imagens fotográficas. 2.2 Representação fotográfica: formas de percepção, criação e interpretação darealidade. A fotografia é classificada como um produto cultural, resultado de um processo socialindissociável de seu contexto histórico, bem como de seus conflitos e negociações, por isso,para compreender uma determinada fotografia é necessário compreender anteriormente osmecanismos de produção e de criação dessas imagens. Para que exista, a fotografia depende de alguns elementos constitutivos, que são,segundo Kossoy (2000), o assunto, objeto de registro, a tecnologia, que viabilizatecnicamente o registro e o fotógrafo, que motivado por razões pessoais ou profissionais aidealiza e elabora através de um processo de concepções culturais/estéticas/técnicas, as quaisconfiguram a expressão fotográfica.
  30. 30. 38 Para Kossoy, além dos elementos constitutivos, há ainda as coordenadas de situaçãoque são o espaço e o tempo implícito no documento, já que a fotografia é a representação deuma realidade em um determinado lugar, num determinado espaço de tempo. São estescomponentes que tornam a fotografia materialmente existente no mundo. No entanto, essas fotografias delimitam a verdade histórica daquilo que (re) apresenta.Há implícito na sua materialização realidades que despertam múltiplas interpretações, quecontém uma abrangência multidisciplinar fazendo com que estas imagens não se esgotem emsi mesmas. Toda imagem fotográfica traz duas realidades nela implícitas. A primeirarealidade é a do instante em que a imagem é gerada no material fotossensível. No momentoem que a imagem é registrada ela já é parte de outra realidade, a realidade do assuntorepresentado, é a realidade do documento, contida nos limites bidimensionais da imagemfotográfica e é sobre esta segunda realidade que o receptor da imagem irá fazer sua leitura. A realidade da fotografia não corresponde (necessariamente) a verdade histórica, apenas ao registro da aparência... A realidade da fotografia reside nas múltiplas interpretações, nas diferentes “leituras” que cada receptor dela faz num dado momento (KOSSOY, 2000, p. 38, grifo do autor). Nesse sentido, a complexidade das representações da realidade pela fotografia resultada relação conflituosa entre os elementos históricos, sociais, econômicos, políticos e culturaisque envolvem tanto os processos de construção/criação do fotógrafo, quanto os processos depreparação/interpretação de cada receptor. Segundo Kossoy, esses processos podem ser resumidos em duas vertentes: - processos de construção da representação, isto é, a produção da obra fotográfica propriamente dita, por parte do fotografo; - processo de construção da interpretação, isto é, a recepção da obra fotográfica por parte dos diferentes receptores, suas diferentes leituras em precisos momentos da história (KOSSOY, 2000, p.41). No entanto é importante ter em mente que o processo de construção da representaçãofotográfica passa inicialmente pelo filtro cultural do fotógrafo, que, de acordo com sua visãoparticular de mundo, seleciona o tema, os personagens, os ambientes e os enquadramentos, naintenção de imprimir na fotografia seus sentimentos e suas concepções sociais, culturais eartísticas. Neste processo, é válido dizer, que “a construção do signo da fotografia passa,
  31. 31. 39portanto, pelas escolhas valorativas do sujeito enunciador da imagem, o fotógrafo” (TACCA,2005, p. 13). É por este motivo que a fotografia não deve ser tomada como espelho do real, pois aomesmo tempo em que ela retrata uma coisa que realmente aconteceu, ela é um fragmento deum todo visto sob determinado ângulo e através de determinada concepção ideológica. Com isso a fotografia resulta em “um processo estético-documental que parte do realenquanto matéria prima visível, mas que é elaborada ao longo da produção fotográfica emconformidade com a visão de mundo de seu autor” (KOSSOY, 2000, p. 76). Portanto, as imagens fotográficas não podem ser compreendidas isoladamente de seusprocessos e contextos de produção, já que estes criam e sobrepõem significados não só nomomento de sua criação, mas também nos diversos momentos de recepção/interpretação. Sendo que o processo de construção da interpretação também envolve conflitos enegociações, pois os contextos sociais, culturais, econômico e políticos em que estas imagenssão recepcionadas são distintos a cada sociedade/indivíduo, os quais desenvolvem maneiraspróprias de ler as imagens e de se apropriar de suas representações. A construção da interpretação Se funda na evidência fotográfica e que é elaborado no imaginário dos receptores, em conformidade com seus repertórios pessoais, culturais, seus conhecimentos, suas concepções ideológicas/estéticas, suas convicções morais, éticas, religiosas, seus interesses econômicos, profissionais, seus mitos (KOSSOY, 2000, p. 44). Compreende-se, a partir dessa colocação de Kossoy, que vários elementos interferemna decodificação da mensagem fotográfica, e que esta decodificação tem uma naturezapolissêmica e imprevisível, pois os estímulos perceptivos e emocionais destas imagens sãosubjetivos, provocando comportamentos distintos. Essas imagens, entretanto, uma vez assimiladas em nossas mentes, deixam de ser estáticas; tornam-se dinâmicas e fluidas e mesclam-se ao que somos, pensamos e fazemos. Nosso imaginário reage diante das imagens visuais, de acordo com nossas concepções de vida, situação econômica, ideologia, conceitos e pré-conceitos (KOSSOY, 2000, p. 45). A ressignificação das imagens fotográficas em contextos especiais e temporaisdiferentes de sua criação alimenta a dinamicidade de sua representação e reconfigura suas
  32. 32. 40interpretações. Um exemplo disso é que as fotografias do período escravocrata no Brasil têmsignificações diferentes na sociedade contemporânea. No entanto, segundo Barthes (2009b), a fotografia tem duas possibilidades deinterpretação. Seriam eles o studium e o puctum. O studium seria a imagem codificada pelofotógrafo, a cena dada a ver no espaço bidimensional da fotografia. Já o puctum seria apenasuma parte do todo que modificaria o studium. O puctum não pode ser codificado na fotografia,pois é a exploração pessoal e subjetiva determinada pelos conhecimentos socioculturais decada sujeito. Para Barthes, sem esta subjetividade, a fotografia não existiria. A significação da fotografia é indissociável de sua enunciação e recepção. São váriosos fatores que compõem o processo de significação da fotografia, o fotógrafo, o dispositivotécnico, a cena e seus atores e, por fim, o espectador. Em cada situação ou em cada momentoparticular de uma leitura, um destes elementos poderá se sobrepor a outro modificando osignificado da fotografia. Seria o puctum quebrando o studium. Nesse sentido, a obra fotográfica apesar de seu planejamento e estruturação éimprevisível em relação a como será interpretada e que aspecto despertará a atenção de cadaindivíduo, pois muitas fotos “que em si mesmas” não se podem explicar, são convitesinvestigáveis à dedução, à especulação e à fantasia. Assim, não podemos dizer com objetividade o que está representado nas imagensfotográficas das mulheres no ensaio fotográfico proposto, pois a subjetividade que permeia aexistência concreta da fotografia convida cada olhar lançado sobre ela a revelar um puctundiferente. De modo que provoca, até mesmo no processo de produção dessas fotografias, umaconstante ressignificação das representações identitárias criadas para as personagensescolhidas, pois, enquanto produtoras, temos que refletir continuadamente sobre o quê colocarno enquadramento e como será feita a composição da cena das fotografias. Nessa perspectiva, as imagens fotográficas criam possibilidades de trocas depercepções e recepções de mundos diferentes, visto que a fotografia impressa não se restringea reprodução material daquilo que foi captado por uma câmera, mas permite confluência designificações e desdobramentos.
  33. 33. 41 3 Registros Fotográficos 3.1 Pré-produção Com o objetivo de evidenciar mulheres coitenenses atuantes socialmente,inicialmente, para concretização desse trabalho, fizemos algumas pesquisas exploratórias eselecionamos as mulheres por meio de amostragem por tipificidade, a qual, segundo Marconie Lakatos (1990), considera um grupo ou subgrupo de pessoas com características similares,formando um objeto de pesquisa restrito às situações e peculiaridades que são destacadas pelopesquisador. Nesse caso, o levantamento de dados é realizado por meio de tópicos deinteresse referentes à proposta e objetivo da pesquisa. Com essa técnica, definimos alguns critérios que sejam comuns e outros híbridos,colocando como eixo principal o gênero feminino e a atuação social, mas buscandodiversidades como cor, idade, esfera de atuação, escolaridade etc. A partir deste levantamento,listamos seis mulheres, procurando contemplar características diferentes entre aspersonalidades de cada mulher, analisando aspectos como a dimensão de suas atuações e ostipos de trabalho que desenvolvem. No segundo momento, entramos em contato com as mulheres pré-selecionadas. Foramelas, Gilca da Silva Carneiro Morais, Daniele Lopes Ferreira, Clélia Maria Silva Gonçalves,Maria Eugênia Carvalho de Lima Carneiro, Juçara Oliveira Silveira e Arcanja. No entanto, aoprocurar Arcanja (Babalorixá e dona do terreiro de candomblé mais importante do município),ela não se dispôs a participar do trabalho. Com isso incluímos Vilmara Maria Silva, outrapersonalidade do município. Considerando a história de vida dessas mulheres, escolhemos Gilca por estar engajadano Sindicato dos Trabalhadores Rurais e da Agricultura Familiar (SINTRAF) e ocupar apresidência do Conselho de Desenvolvimento do Território do Sisal (CODES-Sisal), além deatuar na militância de movimentos feministas como o Coletivo de Mulheres do Sindicato. Daniele foi escolhida por ser uma jovem militante de movimentos sociais que luta, emvárias vertentes, pela transformação social, como a busca pelo empoderamento do sujeitofeminino e no combate à violência contra a mulher, através do Núcleo de Mulheres do grupoRevolution Reggae, que atua contra o preconceito racial, a discriminação e pela diminuiçãodas desigualdades sociais. Juçara foi uma das escolhidas por sua atuação individual, pois, para além de estarenvolvida com um grupo religioso (Pastoral da AIDS) e ser filiada ao Partido dos
  34. 34. 42Trabalhadores, desenvolve trabalhos voluntários que ajudam e apoiam pessoas carentes.Outro trabalho importante que ela desenvolve é a intermediação entre as partes envolvidas naadoção de crianças. Maria Eugênia (Geninha) foi selecionada pela sua atuação no contexto político deConceição do Coité, tendo exercido dois mandatos como vereadora e, atualmente, exerce afunção de coordenadora da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, a qual dáassistência às mulheres do município, principalmente no que se refere às questões deviolência. Clélia, a empresária de maior destaque na economia do município, foi selecionada porter o potencial de incentivar, através dos empregos gerados (cerca de 80 empregos diretos eindiretos) em suas empresas, a transformação social na vida de seus funcionários e de seusfamiliares. Vilmara foi escolhida por ser a mulher pioneira na área da comunicação do município,tendo 19 anos como radialista, fazendo locução e apresentação. Atua em emissoras comercias,apresentando principalmente programas jornalísticos e voltados para o público feminino,sendo a radialista com maior audiência no seu horário de programação. Numa terceira etapa, realizamos entrevistas orais semiestruturadas4, procurandocompreender melhor cada uma das personagens e obter informações para estruturar e embasarmelhor nossa pesquisa. Através de seus discursos, essas mulheres revelaram aspectosimportantes para compreendermos suas personalidades e sua visão de mundo, além de nos dardados imprescindíveis para a construção dos perfis fotográficos a serem realizadosposteriormente. As entrevistas foram realizadas no dia 08 de junho de 2011 com Gilca, na sede doSindicato dos Trabalhadores Rurais e da Agricultura Familiar de Conceição do Coité, porvolta das 14 horas e, na mesma tarde, com Juçara em sua residência às 16hs. No dia 09 dejunho de 2011, pela manhã, entrevistamos Clélia na sua loja (Silva&Rios), e, pela tarde,Daniele na sede do Centro Popular de Educação, Cultura e Cidadania e Vilmara na residênciade seus pais. No dia 15 de junho, finalizamos essa atividade com a entrevista de Geninha noCentro Cultural Ana Rios de Araújo.4 Técnica de levantamento de dados que utiliza perguntas abertas e fechadas. O entrevistador dispõe dequestionário previamente definido, mas no momento em que achar oportuno pode fazer interferências comperguntas adicionais.
  35. 35. 43 3.1.1 Proposta do Ensaio Na realização das fotografias procuraremos registrar aspectos peculiares daspersonagens escolhidas, criando representações de suas múltiplas identidades, com objetivode mostrar a sociedade, principalmente a coiteense, contexto onde estamos inseridas, algumasmulheres símbolo de transformação social, que, com suas ações cotidianas, transformaram suarealidade e reconfiguraram o cenário público da cidade, pois essas mulheres tem sidoreconhecidas pelos trabalhos que desenvolvem, seja no campo religioso, político, social ouprofissional. Para obter essas fotografias faremos um trabalho itinerante, acompanhando cadamulher em momentos e ambientes diferentes, buscando mostrar através das fotos as diversasatividades que desenvolvem, explorando na composição das imagens a naturalidade de cadauma nos respectivos ambientes e espaços de atuação. Traçaremos assim o perfil de cadamulher, por isso a necessidade de realizar várias sessões. Por essa intenção de mostrar as mulheres em seus cotidianos e ambientes usaremosnas fotografias: planos gerais para contextualizar o ambiente; planos médios para mostrar ainteração do sujeito com o ambiente e alguns planos detalhes para evidenciar algumascaracterísticas marcantes. 3.1.2 Equipe O trabalho foi desenvolvido por Michele Oliveira Nascimento e Jacimar OliveiraAlmeida. Tendo o envolvimento das duas em todas as etapas do processo, o qual envolve apré-produção, produção e pós-produção. 3.1.3 Perfis Com os discursos relatados em entrevistas orais, utilizamos a fala das própriasmulheres para descrever suas personalidades, na perspectiva de construir uma narrativa emque elas falam delas para nós, por isso as informações contidas em cada perfil fazem parte desua fala e nas citações usamos trechos transcritos de sua entrevista.
  36. 36. 44 GILCA DA SILVA CARNEIRO MORAIS5 Ser mulher é ser uma Maria-sem-vergonha, mas uma Maria-sem-vergonha de dizer o que eu quero o que é bom para a minha vida, o que é que a gente pretende construir nesse mundo e nessa sociedade nossa. É assim que Gilca da Silva Carneiro Morais, 39anos, que se considera negra, mesmotendo a pele branca, casada, mãe de três filhos e prestes a se tornar avó, define o que é sermulher na sociedade contemporânea. Vinda da roça, e tendo como campo profissional a agricultura familiar, Gilca estácursando de Serviço Social pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (UNIASSELVI). Elase destaca na sociedade coiteense por sua atuação no Sindicato dos Trabalhadores eTrabalhadoras Rurais e Agricultura Familiar de Conceição do Coité (SINTRAF), estando àfrente da secretaria geral do sindicato e também na coordenação da Secretaria de Políticaspara Mulheres da Fundação da Agricultura Familiar do Território do Sisal (FATRES), estecomposto de 16 sindicatos do Território. Na Secretaria de Políticas para mulheres da FATRES, Gilca, juntamente com outrasmulheres, desenvolve um trabalho de fazer despertar através de reuniões, palestras e oficinaso espírito de empoderamento nas mulheres do Território do Sisal. O objetivo é que estasmulheres, através do que ouviram nas oficinas ou palestras, possam criar uma consciênciacrítica de seu papel na sociedade e possam, a partir daí, se organizar em torno de associaçõesou coletivos para conseguirem trazer melhorias para as suas vidas e para a vida de suacomunidade. Segundo Gilca, A gente sabe que a gente não conscientiza ninguém, agente tá apto a sensibilizar alguém a formar uma consciência diferente do seu cotidiano, né, e que muitos traçam uma consciência que aqui pra gente ta errada, mas têm outros que traçam uma consciência de progresso, uma consciência de desenvolvimento, de contribuir com o desenvolvimento social. Além destes dois importantes movimentos, Gilca está ainda na coordenação doConselho Regional de Desenvolvimento Rural Sustentável do Território do Sisal (CODES-Sisal), que, para ela, é o território de identidade mais importante da Bahia, senão do Brasil. É,5 Em entrevista oral, concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 08 de junhode 2011.
  37. 37. 45nas reuniões do CODES, que são discutidas as prioridades e necessidades para odesenvolvimento rural sustentável de todas as cidades do Território do Sisal. Segundo Gilca, a situação da mulher na sociedade tem melhorado bastante, porémainda existe muito machismo mascarado, até mesmo dentro dos movimentos sociais onde seluta pela igualdade. Para ela, a mudança que está acontecendo hoje não se dá pelaconscientização de que todos são iguais, e sim “porque tá na moda, tá na moda dizer que amulher é capaz, então as mulheres estão se aproveitando disso para realmente comprovar naíntegra que nós realmente somos capazes”. Gilca considera que ser mulher é assumir diversos papéis e funções a depender danecessidade: Então é ela ser mãe, é ela ser tia, é ela ser avó, é ela ser amiga, é ser psicóloga, é ser assistente social, é ser ativista, é ser agricultora. É ser tudo e esse tudo que a mulher tem que ser é para todos nunca é para ela. A mulher sempre pensa no outro, no outro e no outro para depois pensar nela. Então é uma roda que ta sempre sendo lubrificada e sempre sendo encorajada para enfrentar os desafios e os obstáculos diversos. JUÇARA SILVEIRA OLIVEIRA6 Pode ser que tenha sofrido algum tipo de preconceito, mas eu talvez, sempre tentei camuflar esta situação e transformar ela a meu favor. Uma dificuldade que eu tenha tido pelo tamanho, pela fraqueza, pela própria sexologia, eu transformo isso numa maneira de conquistar que a outra pessoa faça sem estar qualificando de por ser mulher, mas por ser pessoa, para as carências serem atendidas. É o que afirma Juçara Silveira Oliveira, 52 anos, amarela, viúva, seis filhos, sendodois adotados. Juçara é formada em Letras pela Universidade do Estado da Bahia e, hoje,cursa o último semestre de Comunicação Social, também pela UNEB. Bancária aposentada,hoje ela divide seu tempo entre a família, a Universidade e os trabalhos sociais que jádesenvolve há muitos anos. Viúva a dois anos, Juçara visita o túmulo do seu esposo todos osdias, mantendo uma relação de dedicação e respeito a sua memória. É filiada do Partido dos Trabalhadores (PT) e participa das pastorais da IgrejaCatólica, Pastoral da Família e Pastoral da AIDS, além de ser também associada ao Centro dePromoção da Educação Cultura e Cidadania (CPECC), “tenho uma pontinha em cada lugar”,6 Em entrevista oral, concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 08 de junhode 2011.
  38. 38. 46diz ela. Para Juçara, seus trabalhos nesses grupos ficam mais na parte de conscientizar aspessoas a colocarem em prática aquilo que dizem Para não ficar uma coisa demagógica, principalmente na parte da fé, na parte da religião ou então na parte política, na parte da ética. Para nestes casos a gente não ter um discurso demagogo, então sempre estar coerente a prática com o discurso. Apesar de sua atuação nos diversos grupos em que participa, Juçara se destaca mesmoé no desempenho de suas ações individuais, ações que ela desenvolve sem o auxílio denenhuma instituição, como por exemplo, o acompanhamento de pessoas doentes,viabilizando, quando possível, tratamento, e a intermediação entre as partes envolvidas nasadoções de crianças. Para Juçara, hoje a mulher já é tratada com muito mais dignidade e respeito Nós mulheres estamos com uma vantagem muito grande. Primeiro por que nós temos uma representante federal, que é uma mulher, nós temos em vários segmentos empresariais, na educação, na saúde, em todos os campos nós temos mulher em cargos e funções de direção... Então eu acho que hoje não é tão difícil se colocar como mulher em nenhum espaço e a gente tá ganhando autonomia, estamos conquistando autonomia. MARIA EUGÊNIA CARVALHO DE LIMA CARNEIRO7 Eu acredito que meu trabalho provoca modificações na sociedade, pois é o primeiro passo para que as outras mulheres percebam através do exemplo que é possível entrar na luta, e que, é como se fosse um trabalho de formiguinha, então o nosso trabalho tem um peso de formiguinha: alcança alguém hoje, alcança outro amanhã e vai alcançando até dar continuidade ao processo histórico que as mulheres já vêm, há muitos anos lutando por igualdade de direitos. Maria Eugênia Carvalho de Lima Carneiro, negra, 46 anos, é casada, mãe de trêsfilhos, e professora formada no curso de Letras da UNEB. É especialista em gestõespedagógicas e literatura portuguesa e infantojuvenil e também aluna do Curso de ServiçoSocial. Geninha, como é chamada Mª Eugênia, é membro da Igreja Assembléia de Deus e fazparte de diversos movimentos sociais. Exerceu a função de vereadora por dois mandatos,desenvolvendo projetos importantes para a população coiteense.7 Em entrevista oral, concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 15 de junhode 2011.
  39. 39. 47 Hoje, Geninha se encontra na coordenação da Secretaria de Políticas Públicas paraMulheres de Conceição do Coité, onde desenvolve um trabalho de acompanhamento demulheres em situação de risco, dando-lhes apoio psicológico e médico, além de desenvolveroficinas e eventos que promovam a valorização e a conscientização da mulher sobre seu papelna sociedade. Recentemente eu li algo que me chamou bastante atenção, que diz assim: que eu não resolvo problemas, então nem sempre a gente não vai resolver, a gente vai oferecer possibilidades para que as mulheres, elas mesmas se encontrem e reconheçam enquanto mulheres, o papel importante que elas têm na sociedade para que a partir daí, juntas, venhamos construir uma sociedade igual. Geninha já foi alvo de muitos preconceitos (políticos, religiosos e raciais), não apenaspor ser mulher, mas hoje acredita que o preconceito contra a mulher já diminuiu muito,embora haja muito o que melhorar. Para ela, o preconceito é uma coisa que está infiltrada nasociedade, que não ocorre somente da parte dos homens para as mulheres. Mulheres e homens foram afetados pelo machismo, e muitas vezes tem mulheres que não acreditam nelas mesmas. Claro que isso não faz com que eu desista isso me dá é uma motivação de compreender que estas mulheres foram contaminadas como eu fui como outras mulheres foram. Mas a gente vem num processo de desconstrução é a chamada pedagogia do desmonte, é desmontar para depois montar, e ai agora agente conseguir mudar uma parte dessa geração atual para prevenir a geração futura. CLÉLIA MARIA SILVA GONÇALVES8 A mulher ocupa muito mais espaços que o homem [...] é gratificante ser mulher, e mulher corajosa. Clélia Maria Silva Gonçalves é uma empresária de grande porte no contexto deConceição do Coité, pois emprega (direta e indiretamente) aproximadamente oitenta pessoasem suas lojas. Aos 51 anos, casada e com dois filhos, atua não só como empresária, mastambém como evangelizadora no grupo do Gideões Internacionais, no qual faz trabalhosvoluntários.8 Em entrevista oral, concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 09 de junhode 2011.
  40. 40. 48 Atualmente, como vice-presidente desse grupo, ela realiza semanalmente em sua casareuniões para evangelizar e ajudar, através de orações, pessoas com depressão e outrasenfermidades. Ela também recebe na loja essas pessoas que estão precisando de ajuda. Pouca gente tem tempo pra ouvir, acha que porque é empresário, empresária, pouco ouve alguém, [...] mas quando chega uma pessoa precisando de uma ajuda eu paro tudo que estou fazendo e vou dar atenção àquela pessoa, e quem entra chorando sai sorrindo de minha sala. Em seu discurso, durante a entrevista, Clélia afirma que é possível conciliar tarefasdistintas, e coloca isso como uma capacidade atribuída às mulheres, as quais hoje, segundoela, ocupam vários espaços, pois “a mulher tem que ser mãe, tem que ser esposa, tem que serdona de casa, tem que ser empresária, ou professora; seja a profissão que for, ela tem queassumir todas as funções”. No entanto, ela coloca que nem sempre foi assim, que antes as pessoas viam a mulhercomo sem prestígio e que pelo simples fato de ser mulher já era desacreditada pela sociedade,mas afirma que “a mulher hoje tem seu espaço, eu acho que a mulher hoje pode fazer tudoque os homens fazem, depende só de coragem, de ser dinâmica”. VILMARA MARIA SILVA9 Hoje a mulher pode ser aquilo que ela deseja. A gente tem muito mais potencial que muitos homens juntos. Vilmara Maria Silva é uma radialista pioneira em Conceição do Coité. Com DRT emlocução e apresentação, atua na área da comunicação há 19 anos. Por gostar do que faz, elaestende sua profissão para outras atividades voluntárias que desenvolve como sua participaçãona Pastoral da AIDS, na qual faz suporte e assessoria de comunicação. Usando o vínculo com a emissora, Vilmara faz a divulgação das atividades e dascampanhas realizadas pela Pastoral para adquirir recursos e parcerias para acompanhamentode pessoas com vírus HIV. “O bom do rádio é que você não ajuda sozinho não, tem sempreuma segunda pessoa que sempre ajuda; então eu acho ótimo, gosto muito de fazer esse tipo detrabalho”.9 Em entrevista oral, concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 15 de junhode 2011.
  41. 41. 49 Atualmente com 39 anos, separada e com uma filha de 11 anos, Vilmara diz terenfrentado muitas dificuldades e preconceitos, principalmente na sua profissão, por causa de“alguns colegas que se incomodam um pouco pelo fato de ser mulher”, mas que, hoje, nãoenfrenta muitas dificuldades por conta do reconhecimento e credibilidade que conquistou. No entanto ela coloca que as mulheres tem uma luta constante contra os preconceitos,mas que agora temos mais potencial para contornar essas situações. Ela afirma que a mulhersofria porque não sabia se defender, porém hoje até as próprias leis facilitam a defesa dessasmulheres. Nessa perspectiva, Vilmara enxerga esse fato como um potencial de oportunidades queas mulheres devem aproveitar, pois “a mulher conseguiu conquistar muitos espaços nasociedade, assim como também conseguiu conquistar reconhecimento pelas atividades quedesenvolve”.DANIELA LOPES FERREIRA10 eu sou ousada mesmo, porque se não companheiro não tem espaço pra gente, tem que ser ousada mesmo, se você pode, eu também posso, meu negócio é igualdade, se você quer, eu também quero. Daniela Lopes Ferreira é uma ativista social de 27 anos que se destaca na militância devários movimentos sociais, não exerce nenhuma profissão definida. E cursará História pelaUniversidade do Estado da Bahia no Campus XIV. Atualmente é sócia do Centro dePromoção a Educação, Cultura e Cidadania (CPECC) e coordena o ponto de culturaConhecendo a Cultura Popular da Região Sisaleira: encontros, encantos e diversidades, pormeio do qual desenvolve vários projetos com objetivo de mapear e registrar todas asmanifestações culturais existentes no município. Como ativista social destaca-se sua atuação no grupo Revolution Reggae, umaassociação de bairro localizada na comunidade periférica do município, o qual luta contra asdesigualdades sociais e a discriminação racial, espaço em que Daniela começou seuengajamento nas questões sociais. Dentro desse grupo Daniela coordenou o Núcleo de Mulheres do Revolution Reggaeque fomentava a discussão e o debate sobre o empoderamento do sujeito feminino,10 Em entrevista oral concedida a Jacimar Oliveira Almeida e Michele Oliveira Nascimento, no dia 15 de junhode 2011.

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