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10em conhecer através dessas pessoas o que os levava a continuar trabalhando em um trabalhotão árduo e perigoso.          ...
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16          Tanto a geografia quanto os habitantes dessa região, ainda apresentam dados parajustificar que a região Nordes...
17comercializando com armazéns de sisal, consequentemente abrindo campo de trabalho para alocalidade e permanência do cida...
18CAPÍTULO 1- FATOS IMPORTANTES DE BARROCAS          A cidade de Barrocas fica no sertão do nordeste do Estado da Bahia, N...
19Figura 1: Árvore genealógica de Barrocas; Fonte: SEI. Evolução Territorial e Administrativa do Estado da Bahia: Um Breve...
20estação da Calçada, em seguida, Jequitaia, Aratu, alcançando Alagoinhas26. Vale ressaltar queo contrato permitia que a e...
211886, em seguida foi aberto mais um trecho de 47km e inauguradas as estações do Rio doPeixe e de Queimadas, depois desta...
22            Um dos moradores fala sobre esta vinda das pessoas para a feira, de que forma aspessoas se aglomerava, já qu...
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241947, quando chegou os primeiros pés de sisal aqui no município, trazido por João Olegáriode Queiroz. Foi quem trouxe ta...
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27Capítulo 2 - MEMÓRIA DOS BARROQUENSES NO PERÍODO DO SISAL          O sisal, também conhecido pelo nome de agave, é origi...
282.1 Fim das cercas de gravatá          Na época da implantação do sisal, o território estava começando a delimitar suafr...
29          Essa planta passa por um processo de crescimento considerado lento, até dar osprimeiros rendimentos. “O sisal ...
30          Em Barrocas o primeiro motor, foi adquirido pelo senhor João Olegário de Queiroz,distribuído para as pessoas i...
31para produzir. Pois, a lentidão atrapalharia o sistema capitalista que queria urgência em tirarproveito com maior rapide...
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33           Além de enfrentar as furadas nos campos dentre outros perigos, ainda era exigido docambiteiro um preparo físi...
34ganchos. A partir daí são carregados pelo jegue levando-as para o campo de estender, onde acampeira as espalha em uma es...
35Conseguiu se aposentar e montou um comércio onde mora. Mesmo com um braço trabalha naroça e executa outras atividades, p...
36apesar do campo de sisal ser muito distante de sua casa teve quer ir embora caminhando ecom o pé sangrando.             ...
37          Uma das preocupações para dono do motor era quando adoecia um dos seustrabalhadores. Apesar de nem todos cumpr...
De cabra arretado a cabra de fibra memória barroquense sobre o auge do sisal 1960 1990
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De cabra arretado a cabra de fibra memória barroquense sobre o auge do sisal 1960 1990

  1. 1. 0 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA CAMPUS XIV – CONCEIÇÃO DO COITÉ ANA VILMA PEREIRA DOS SANTOSDE “CABRA ARRETADO” A “CABRA DE FIBRA”: MEMÓRIA BARROQUENSE SOBRE O AUGE DO SISAL (1960-1990) Conceição do Coité, Ba. Fevereiro, 2010
  2. 2. 1 ANA VILMA PEREIRA DOS SANTOSDE “CABRA ARRETADO” A “CABRA DE FIBRA”: MEMÓRIA BARROQUENSE SOBRE O AUGE DO SISAL (1960-1990) Trabalho monográfico de conclusão de curso apresentado como requisito para obtenção do grau de Licenciatura em História ao Departamento de Educação, Campus XIV – Conceição do Coité - da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, sob orientação da professora Suzana Maria de Souza Santos Severs. Conceição do Coité, Ba. Fevereiro, 2010
  3. 3. 2 TERMO DE APROVAÇÃO ANA VILMA PEREIRA DOS SANTOSDE “CABRA ARRETADO” A “CABRA DE FIBRA”: MEMÓRIA BARROQUENSE SOBRE O AUGE DO SISAL (1960-1990)Trabalho monográfico aprovado como requisito parcial para obtenção do grau de Licenciaturaem História, no Departamento de Educação – Campus XIV – Conceição do Coité, daUniversidade do Estado da Bahia – UNEB, pela seguinte banca examinadora:_____________________________________________Orientadora: Profª Suzana Maria de Souza Santos Severs – Doutora em Históriasocial/USP; Professora Titular da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus XIV.__________________________________________________________________________________________ Conceição do Coité-BA, fevereiro de 2010.
  4. 4. 3Dedico esse trabalho aos meus pais Maria ArlindaPereira dos Santos e João Pereira dos Santos, meuporto seguro, meu aconchego onde retorno todos osdias para descansar. Expresso o reconhecimento atantos anos que dedicaram à minha educação.
  5. 5. 4 AGRADECIMENTOS Agradecer não é uma tarefa tão fácil como se imagina. Por isso, durante minhatrajetória acadêmica pessoas tiveram presença significativa principalmente na execução econclusão do meu trabalho. Assim, externo minha gratidão a todos (as). Minha eterna gratidão a Deus por ter me concedido a graça e a persistência de levar osestudos até o final do curso. A minha mãe que sempre se esforçou para manter os filhos na escola e está sempre domeu lado em todos os momentos, principalmente se preocupando com minha alimentação quepor causa da minha correria, fazia o meu prato todos os dias. Ainda me propiciando segurançae carinho nas situações complicadas. A meu pai que mesmo com seu jeito tímido, demonstrar sua atenção preparando bemcedinho o meu café da manhã, para que eu não tivesse nem uma preocupação doméstica. A Joilson meu irmão caçula, por durante maior parte de minha vida acadêmica tercuidado de minha roupa e outros afazeres domésticos, tarefas que seriam de minharesponsabilidade. A meus irmãos Maria Gilda, Sandoval, Hosana, Silvano, Sinvaldo, Maria Fátima,Joseval, Rosineide, Áurea, Anarilma, Antônio Jackson Pereira dos Santos pelo apoio moral ematerial nos momentos mais difíceis. Aos meus sobrinhos Deiseane, Jandival, Djavan, Elâne, Geovane, Vinicius, Romildo,Acácio, Welitom, Aline, Romário, Sales, Iure, Dhiego, Richardsom, Sabrina, Iany, Arilana,Raul Heli, Richelle, Rangel, Eduardo, Maria Gabriela, Daniel, Cecília, Andressa e LílianEloise, por me alegrarem quando me encontrava abatida pela longa jornada de estudos etambém por ter colaborado com o silêncio na casa da vovó para minha concentrar nosestudos. Às minhas cunhadas e meus cunhados por te me auxiliarem quando as(os) solicitei. Ao time feminino de futsal por me manter em forma física e me proporcionarmomentos prazerosos de diversão quando precisava espairecer. As minhas sobrinhas de brincadeira que me divertiram tanto nesses meus anos deestudo me levando pras pagodeiras e me divertir falando sobre seus paqueras. A comunidade Católica de Lagoa da Cruz por ter me apoiado nos meus estudos eentendido as minhas ausências nas celebrações dominicais e nos encontros semanais. Expresso a minha gratidão ao senhor Pedro Silva Mota, pela troca de figurinhas etambém por ter me cedido sua tese de mestrado, contribuindo muito na construção do meutrabalho.
  6. 6. 5 Ao senhor João Gonçalves Neto, pelo livro que escreveu sobre a História de Barrocas,o qual foi um grande referencial para falar sobre os acontecimentos importantes da cidade. Meus sinceros reconhecimentos a minha irmã Edna, que interrompeu as férias parafazer a correção ortográfica do trabalho. A minha prima Analúcia Silva Pereira Lima, que também me ajudou a melhorar asidéias no corpo do texto. Não poderia esquecer os amigos que encontrei na universidade; as nossas discussõesem sala contribuíram muito na minha formação. Gostaria de lembrar em especial as meninasque formavam o trio Barrocas junto comigo, Ana Paula Queiroz e Polyana Silva. Aos professores por terem despertado em mim a sede de buscar sempre oconhecimento. Agradeço a minha orientadora Suzana Maria Severs, pelo apoio e colaboração. Sou grata às pessoas que confiaram em deixar aqui seus registros através dostestemunhos orais. A contribuição delas é a essência desta pesquisa. Assim, meus sincerosagradecimentos a Américo, Antônio de Oliveira Nunes, Antônio Ferreira Queiroz, Gilberto deQueiroz Brito, Graciliano de Jesus Oliveira, João da Mata Queiroz, João Geovalter FerreiraMota, João Pereira dos Santos, Luíza Cardoso, Maria Mota Lima, Saturnino Francisco dosSantos e Valdomira da Silva de Jesus.
  7. 7. 6 SUMÁRIOAPRESENTAÇÃO ................................................................................................................ 07INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 09PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ....................................................................... 111 FATOS IMPORTANTES DA CIDADE DE BARROCAS ............................................ 18 1.1 A passagem da Estrada de Ferro .............................................................................. 19 1.2 Desconfiança serrinhense na implantação do sisal .................................................. 242 MEMÓRIA DOS BARROQUENSES NO PERÍODO DO SISAL ................................ 27 2.1 Fim das cercas de gravatá .......................................................................................... 28 2.2 A Chegada dos motores de Sisal ................................................................................ 29 2.3 Mutilados do sisal ....................................................................................................... 37 2.4 Os períodos de seca ..................................................................................................... 373 O SISAL A CAMINHO DA INDUSTRIALIZAÇÃO .................................................... 39 3.1 Crise do sisal ................................................................................................................ 424 MUDANÇAS OCORRIDAS NA CIDADE ...................................................................... 45CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 50FONTES ................................................................................................................................. 51REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 52
  8. 8. 7 APRESENTAÇÂO O ser humano é sedento de saber. Por isso, está constantemente a questionar, refletire investigar fatos relacionados principalmente de sua história, desde os seus ancestrais até osdias atuais. Este trabalho é o resultado de uma pesquisa feita sobre o município de Barrocas, BA.Tendo como finalidade a conclusão do curso dos graduandos em História do Campus XIV,Conceição do Coité, Departamento de Educação. Essa pesquisa teve como objeto de estudo avila de Barrocas e suas fontes de renda, enfatizando a produção de sisal. A minha aptidão pelo tema deve-se ao fato de meu pai ter sido dono de motor desisal que conseguiu colocar seus filhos na escola, apesar da dura jornada de trabalho. Assim, amaioria deles tem ensino médio completo, metade está cursando ou já concluíram nívelsuperior. Ele apostava que o futuro dos seus filhos estaria na educação quando o sisal nãomais pudesse nos sustentar. Para a realização dessa pesquisa recorri a vários teóricos e visitei diversos arquivos,encontrando em arquivos pessoais folhetins, registros fotográficos e jornais que contribuíramcom esta pesquisa. Contei também com a colaboração de pessoas que trabalharam com sisaldesde o comerciante, dono de motor de sisal, trabalhadores do corte da palha de sisal edesfibramento até os mutilados, que foram os que perderam algum membro do corpo porconta do serviço perigoso da máquina. Em uma das entrevistas a pessoa foi tomada pela emoção por esta fazendo parte deum objeto de estudo e também pelas recordações que lhes foram restituídas. Foi necessáriodesligar o gravador para que a pessoa pudesse se refizer da emoção que havia lhe tomado.Outro entrevistado imaginou que eu seria alguém ligado ao governo e, que poderia correrrisco com suas declarações. Porém, eu já havia sido devidamente orientada pela minhaorientadora e expliquei qual era o objetivo do meu trabalho e a responsabilidade com asinformações. Depois dos esclarecimentos ele foi muito gentil em falar sobre sua vida,comentando a experiência com o trabalho do sisal. Para coletar as entrevistas eu precisei me deslocar e na maioria delas fui demotocicleta na companhia das minhas cunhadas, Elizabeth e Maria Zene, porque osentrevistados não moravam na sede do município. Os entrevistados que moravam na sede, eume locomovi em carros de praça e ônibus que transportam os estudantes; os que moravam
  9. 9. 8próximos a minha residência cheguei até eles à pé. Isto significa que realizei um trabalho decampo amplo, não apenas nas distâncias geográficas que me separavam dos entrevistados,mas na diversidade de colaboradores com a qual eu pude contar, enriquecendo assim aprincipal fonte histórica deste trabalho, a fonte oral. Esta pesquisa é importante, tanto para mim como graduanda e moradora de Barrocas,por permitir conhecer melhor o lugar onde moro; e para os demais barroquenses servirá, assimespero, como fonte de pesquisa e de incentivo a outros estudantes que valorizem a histórialocal.
  10. 10. 9 INTRODUÇÃO O sisal foi trazido para o Brasil precisamente para a Bahia em 1903, por umindustrial baiano, Horácio Urpia Jr., no início tentou cultiva-las em suas propriedades, após osprimeiros resultados positivos, pensou em ampliar a plantação, para isso, organizou umacompanhia para a exploração agroindustrial do precioso agave. Depois disso o sisal foiadentrando o interior da Bahia. Alguns adquiriram a planta, por admirá-la e tratá-la comoplanta ornamental por considerarem muito bela, outros a aproveitavam em cercas vivas, eriçasnos valados das pequenas propriedades. Parte das mudas trazidas para a Bahia foi levada para a Paraíba em 1911, e é nesseEstado que o sisal ganhou impulso, por volta de 1937, ao passo que na Bahia só veioacontecer a partir de 1939. Os empreendimentos na produção do sisal só se concretizaram, por que oGovernador Landulpho Alves tinha como Secretário da Agricultura o agrônomo Joaquim daRocha Medeiros que viu as possibilidades econômicas do sisal estimulou o aproveitamento.Com seu incentivo a partir de 1939 iniciou a distribuição das mudas em Feira de Santana,Alagoinhas e Nova Soure. Essa iniciativa tinha como objetivo fixar o nordestino em suasterras, e assim pudesse atravessar longos períodos de estiagens, sem tantas dificuldades. Em Barrocas o sisal chegou por volta de 1947, implantada pelos próprios moradores,que se comprometeram em buscar as mudas nos municípios vizinhos e distribuí-las entre osinteressados. Os lucros só foram possíveis com a compra de máquinas paraibanas por volta de1960. Durante o auge do sisal em Barrocas, a cidade cresceu bastante se transformando navila mais desenvolvida da microrregião de Serrinha. E de suma importância estudar um período de implantação do sisal em Barrocas econhecer a história das pessoas que estavam envolvidas com esse processo para entender, serealmente o agave foi o impulsionador do aquecimento do comércio local e sua contribuiçãopara o sustento das famílias barroquenses. A escolha desse tema já era muito pensada desde antes de ingressar na universidade,pois, convivo em uma região muito pobre e que os motores sempre foram a forma de ganharo pão, de tantos e quando não conseguiam produzir em uma das semanas observava ostranstornos que as famílias passavam em ter que acumular despesas, começando a ter queentrar na lista dos “fiados”, ou seja, comprar para pagar depois. Isso me despertou o desejo
  11. 11. 10em conhecer através dessas pessoas o que os levava a continuar trabalhando em um trabalhotão árduo e perigoso. O trabalho foi construído da seguinte forma. A introdução contém o objetivo da pesquisa, a importância, tanto para mim comograduanda e moradora, por permitir conhecer melhor o lugar onde moro, quanto para osdemais barroquenses servindo de fonte de pesquisa, além de incentivar a outros estudantes avalorizarem a História local. A metodologia utilizada nesse trabalho foi a pesquisa de campo, entrevistas,pesquisas bibliográficas e na internet. Os conceitos de sertão, semi-árido e nordeste são de grande importância para que oleitor conheça as características geográficas e físicas do local em estudo. Depois de situar oleitor, destacamos os fatos mais importantes da história do município. O passo seguinte foitrazer as fases do sisal em Barrocas, do auge a crise. Assim, ao concluir esse trabalho tinha avisão dos entrevistados sobre o período em que o sisal foi a principal fonte de renda para apopulação local.PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A metodologia utilizada nesse trabalho foi a pesquisa de campo, entrevistas,pesquisas bibliográficas e na internet. Para dar conta da pesquisa oral, lançamos mão dasentrevistas nos moldes da história oral proposta por José Carlos Sebe Bom Meihy. Pode-se, em nível material, considerar que a história oral consiste em gravações premeditadas de narrativas pessoais, feitas diretamente de pessoa a pessoa, em fitas ou vídeo, tudo prescrito por um projeto que detalhe os procedimentos. (...) O projeto prevê: planejamento da condução das gravações; transcrição; conferência da fita com o texto; autorização para o uso; arquivamento e, sempre que possível, publicação dos resultados, que devem, em primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as entrevistas. (...) Atualmente, a história oral já se constitui em parte integrante do debate sobre a função do conhecimento social (...)1. Como todo conhecimento a História Oral também passa por processos de evolução.A história oral que inicialmente se apresenta como um locus multidisciplinar com o tempo vaise apresentando como um conhecimento autônomo e radical2 exigindo cada vez mais umapostura teórica diferenciada e geradora de um tipo de leitura e interpretação totalmente novas.Por tanto, mesmo que não classifiquemos esta monografia como um trabalho de história oralpropriamente dito, as entrevistas foram o suporte para os textos mais estruturados.1 MEIHY,José Carlos Sebe Bom. Manual da História Oral. São Paulo: Loyola, 2005. p. 17-19.2 Idem, Ibidem, p. 31-41.
  12. 12. 11 Pallares-Burke resume bem o valor das entrevistas. E como sugere a própria palavra entrevista – que deriva do francês entrevoir, significando vislumbrar, ver brevemente, de relance ou perceber e entender vagamente -, esse é um gênero fluido, cuja convenção é a formalidade e cujo é produto é relativamente desestruturado e assistemático. Assim, ao contrario do trabalho acadêmico acabado e coeso, a entrevista pode ser vista como uma espécie de gênero intermediário entre o pensamento e a escrita elaborada, como um gênero capaz de apreender a idéia em movimento e, nesse sentido, como algo que pode ser considerado não um substituto, mas sim um complemento aos textos mais estruturados3. As entrevistas foram muito ricas para o meu trabalho, pois os entrevistados passavamas informações e elas lhes causavam uma profunda emoção. As entrevistas com pessoas quetrabalharam no período do sisal serviram para identificar como era seu trabalho no processode colheita do sisal. Eu contei com a colaboração de treze pessoas, dessas quatro sãoaposentados como agricultores, e sobrevivem com o salário garantido pela Previdência Social.Quatro são comerciantes, dois deles estão ligados a venda de Gêneros alimentícios e doiscomercializam tecidos e outros artigos de consumo. Dois são aposentados como trabalhadoresda construção civil e dois exercem cargo político em Barrocas e um se encontra na ativatrabalhando nos armazéns de sisal. A escolha das pessoas para entrevistar foi mediante a sua experiência como:trabalhador, comerciante, vendedor de sisal, mutilados, ou seja, todos que estiveram dealguma forma envolvidos no período do sisal. Os trabalhadores são as pessoas mais indicadaspara dizer como era o seu trabalho e se realmente valeu a penas executar aquele serviço. Foide grande importância ouvir as pessoas que sofreram as mutilações para conhecer suasreações ante esse sofrimento. Os comerciantes se havia diferença no comércio no auge dosisal e como o comércio se comportava nos dias em que os trabalhadores do sisal não tinhamremuneração. A fala dos donos de armazéns também foi muito interessante, pois, elestransitavam entre os trabalhadores tanto dos motores quanto dos armazéns, além de estar emcontato com outros comerciantes, de municípios vizinhos, a capital Salvador e alguns estadosdo Brasil. Alguns nomes foram necessários incluir, pois, eram lembrados com freqüência pelosentrevistados, relacionando fatos a estas pessoas, então os incluir na lista das pessoas queiriam contribuir com o meu trabalho e eles realmente reforçaram as informações que já haviacoletado tanto sobre eles quanto sobre o processo de implantação e desenvolvimento da3 PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As muitas faces da história. Nove entrevistas. São Paulo: UESB,2000. p. 11-12.
  13. 13. 12cultura do sisal, assim como trouxeram informações que ainda não haviam sido mencionadaspelos outros entrevistados, enriquecendo ainda mais o trabalho. A troca de idéias com a orientadora me deu uma visão completa de todo o processopara a revisão e análise de dados e redação para a conclusão da monografia. Para melhor situar a compreensão dos leitores, optamos por expor aqui algumasvisões sobre a idéia de sertão, semi-árido, e nordeste, pois algumas vezes uma não precisãosobre o que falamos e de como nos situamos causa polêmicas que, amiúde, distancia o objetode estudo propriamente dito. Sendo assim, partimos do conceito de sertão, apresentando umaampla discussão sobre o que ele vem a ser. Pode se comprovar através dos registros anteriormente citados que o povoamento doBrasil ocorreu do litoral para o interior. Os locais que se encontravam fora do domínio doscolonizadores, ou seja, desconhecido por eles, era considerado “sertão”. Torna-se necessárioconhecer o significado desta palavra. A origem da palavra “sertão” é bastante controvérsia segundo Gustavo Barroso4,acredita ser derivada da palavra “muceltão” do vocábulo angolano que significava “lugar dointerior” ou “terra entre terras”, e ainda “local distante do mar”, porém com o tempo ovocábulo teria sido modificado para “celtão”, logo depois para “certão”, para finalmente obtera forma atual de “sertão”. Certamente, a palavra foi trazida de Portugal no início da colonização do Brasilconservando os significados citados anteriormente, se adequou às situações vividas pelosprimeiros colonizadores. Logo, “sertão”, para o habitante da cidade aparece como espaçodesconhecido, habitado por índios, feras e seres indomáveis. O bandeirante tinha interiorcomo um lugar perigoso, porém, imaginava encontrar uma fonte de riquezas. Já osgovernantes lusos das capitanias o identificavam como um exílio temporário. Contrastandocom as ideias os expulsos da sociedade colonial “sertão” significava liberdade e esperança deuma vida melhor. No Brasil o significado de “sertão” sempre foi bastante discutido por diversosautores. Para Janaína Amado5, desde o início da História do Brasil o sertão tinha duascaracterísticas diferentes, poderia ser inferno ou paraíso. Essa dualidade dependia de quemestivesse falando. Ela ainda reforça que conhecido desde a chegada dos portugueses, cincoséculos depois “sertão” permanece vivo no pensamento e no cotidiano do Brasil,materializando-se de norte a sul do país como sua mais relevante categoria espacial: entre os4 BARROSO, Gustavo. Vida e História da palavra sertão. UFBA/CEB. Salvador, 1983. p. 3-7.5 AMADO, Janaína. ‘Região, sertão, nação’. Estudos Históricos, vol.8, nº 15, 1995, p. 145-52.
  14. 14. 13nordestinos, é tão crucial, tão prenhe de significados que, sem ele, a própria noção de“Nordeste” se esvazia6. O lugar geográfico ou social identificado como sertão que recebe ora uma avaliaçãopositiva, ora negativa. Para Amado7 como fruto da colonização na América Portuguesa queteve uma situação particular e única em relação às demais conquistas nas Américas, espaçovazio no imaginário da sociedade colonial, indomado e selvagem, terra dos índios bravos domedo8. Esta historiadora já mostrou sertão como o centro que trazia a luz para o mundocolonial9. E outras definições de sertão fazem referência a traços geográficos, demográficos eculturais como: região agreste, semi-árida, longe do litoral, distante de povoações ou de terrascultivadas, pouco povoadas e onde predominam tradições e costumes antigos. “Lugarinóspito, desconhecido que proporciona uma vida difícil, mas, habitado por pessoas fortes10. A força de seu habitante aparece relacionada à capacidade de interagir com anatureza múltipla. O cabra - o cangaceiro – descrito pela literatura11 como a encarnação doherói sertanejo. Esse é o perfil do herói barroquense, cabra de fibra que retrato neste trabalho,mesmo distanciado da capital, Salvador, conseguiu driblar as características geográficasadversas citadas anteriormente, buscou formas de sobreviver com a natureza e mesmo semapoio das autoridades transformou o sisal em fonte de riqueza. O sertão se subdivide em outras denominações e uma delas está a defini-lo como“sertão semi-árido”. O território barroquense está inserido também nessa área, referindo aoslocais onde prevalece o clima quente, com baixo volume de chuva durante o ano, vegetaçãobastante diversificada, predomínio de plantas xerófilas, com pequena estatura e de galhosretorcidos como é bem detalhado. “A vegetação que na área litorânea é representada pelasmatas, nos tabuleiros de solos ácidos é substituída por uma vegetação arbustiva, na qual oelemento predominante é a candeia (Moquinia lucida), pelos campos cerrados e pela caatinganas zonas mais secas” 12. Sabendo que esta transformação da paisagem vegetal é condicionadapelo clima, que constitui certamente o aspecto mais característico do sertão. O clima é considerado um dos maiores fatores para se delimitar o sertão semi-árido,levando em consideração os locais de maior volume pluviométrico caracterizado por MariaIsaura Queiroz por dois tipos adversos e uma faixa de transição: sendo o oeste a6 AMADO, Janaína, op.cit., p.145-52.7 Idem, Ibidem.8 CAVALCANTI, José Lins do Rego. Cangaceiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.9 AMADO, Janaína, op.cit., p.145-5210 CASCUDO, Luis da Câmara. Viajando o Sertão. 3. ed. Natal: Fundação José Augusto;CERN, 1984.11 CAVALCANTI, José Lins do Rego. Cangaceiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.12 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O Campesinato Brasileiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 1976. p.101-122.
  15. 15. 14predominância das chuvas de verão, que é uma das peculiaridades do sertão semi-árido,enquanto ao leste predomina as chuvas de inverno típico da zona litorânea do Nordeste, entreesses dois tipos de clima existe a faixa de transição, que tem influência da parte oeste e daleste. Vale ressaltar que, geograficamente Barrocas está situada na faixa de transição, seuvolume de chuvas é influenciado tanto pelas chuvas de verão vindas do sentido oeste, quantoàs do inverno vindo do leste. Sua vegetação, por estar inserido geograficamente no sertão semi-árido seu clima eoutros aspectos são bastante diversificados com predominância de plantas típicas da caatinga. A caatinga tem a flora bastante diversificada, às vezes apresenta-se arbustiva, outrasvezes arbórea, em alguns locais é muito fechada em outros espaçosa, seus caules sãoretorcidos e cheios de nós, suas folhas em grande maioria são pequenas e costumam cairdurante o período de estiagem. No solo poucas plantas conseguem sobressair exceto asbromélias e um número bem reduzida de gramíneas. Explicado por Queiroz, que esta quedadas folhas confere a caatinga uma diversidade de aspectos muito marcante de acordo com asestações. Durante o período chuvoso a caatinga perde muito seu caráter agressivo e assemelha-se a qualquer capoeira. A vegetação arbustiva em pleno desenvolvimento forma, então, um anteparo protetor sob o qual ficam ocultas as cactáceas e bromélias espinhosas. No período da estiagem a caatinga apresenta outro aspecto acontece a queda completa das folhas, reduzindo-a num emaranhado seco e cinzento de ramos esgalhados, entre os quais sobressaem as formas grotescas e hostis dos cardos e espinhos. Estes aspectos explicam como o sisal, se adaptou ao clima da caatinga e conseguiu conviver com as plantas já existentes, por apresentar as mesmas características da vegetação desta região13. Apesar de seus diversos contrates climáticos, geográficos, dentre outros, pode-seperceber a contribuição econômica da região para a economia local, nacional e internacional,como é relatado14. As usinas de beneficiamento do algodão e as fabricas de óleo de mamonatrabalham o produto vindo das caatingas de oeste: Riachão do Jacuipe, Itaberaba eQueimadas. As fabricas de cordas de sisal manufaturam o produto vindo de Serrinha, Tucanoe Euclides da Cunha; os trapiches de fumo classificam e enfardam o produto proveniente doIrará, Coração de Maria, Bonfim de Feira, Ipirá; as selarias trabalham a madeira de Andaraí,na encosta da Chapada Diamantina; as torrefações de café preparam o produto vindo doplanalto de Itiruçu. Esta região é favorável à criação de gado, possui numerosas selarias,charqueadas, salgadeiras (preparo de couros) e laticínios. Nesta região se encontra um númerovariado de atividades econômicas estas enquadram nas possibilidades locais.13 QUEIROZ, Maria Isaura Pereira. O Campesinato Brasileiro. Petrópolis/RJ: Vozes, 1976. p.101-122.14 Idem, Ibidem, p. 221-222.
  16. 16. 15 Em meadas do século XIX o governo federal investiu significativamente na lavourado café no Sudeste. Com a atenção voltada para a produção do café, o cultivo da cana deaçúcar explorado no Nordeste passou por uma forte retenção econômica, mesmo assim eraconsiderada a principal atividade econômica da Bahia. Nesta mesma época a cultura do fumo,a produção de couros e peles, a mamona, o sisal e o cacau, despontavam abastecendo omercado externo. Apesar de não contarem com investimentos governamentais paraconcorrerem com o desenvolvimento do Sudeste Brasileiro. Estas culturas provenientes dosertão semi-árido e também de outras regiões da Bahia, sustentavam a economia baiana e nãotinham o devido reconhecimento das autoridades. A falta de investimento dos poderes públicos nas regiões do semi-árido deixou aregião desprovida de recursos financeiros, prejudicando a produção da maioria das culturasanteriormente mencionadas. O declínio de algumas culturas do semi-árido que foram fonte de riqueza, como é o caso da produção de algodão, de mamona e sisal, ocorreu tanto por apresentarem períodos de baixa produtividade, quanto por concorrerem com novos produtos sintéticos durante a década de 90. Deles o sisal foi o que mais sofreu, apresentou tendência declinante e ainda não conseguiu se recuperar15. O analise do SEI, deixa claro que o sertão semi-árido é produtivo, o que real mentefalta é apoio das autoridades governamentais para que ela produza. A região semi-árida, também conhecida como Sertão Nordestino faz parte doNordeste do Brasil. A expressão Nordeste se referindo a uma região especifica do país veio surgirrecentemente, no início do século XX, de acordo com o escritor Albuquerque16 no períodocolonial a divisão territorial era feita da seguinte forma: região Norte era considerada a parteque englobava desde o atual Nordeste a toda atual Amazônia e a região Sul que correspondiaa todo território brasileiro que se localizava a baixo da Bahia. Então foi os próprios nortistas,como eram chamados os nordestinos no período imperial, que criaram a idéia de Nordeste.Com a crise do açúcar e os investimentos implantados na região Sul, as elites do então Nortese empenharam em mostrar características negativas para angariar recursos. A seca era umdos argumentos que utilizavam para mostrar que essa região só tinha fome, falta de água,dentre outros aspectos, que contribuíram para que as outras regiões do Brasil tratassem comdesprezo e de maneira discriminatória.15 Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Dinâmica sociodemográfica da Bahia 1980-2000. Salvador: SEI, 200316 ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife: Massangana, 1999.
  17. 17. 16 Tanto a geografia quanto os habitantes dessa região, ainda apresentam dados parajustificar que a região Nordeste, especificamente o Nordeste da Bahia esta destinado aoatraso, tem baixo índice demográfico e concentração urbana menor que outras regiões do país. As considerações da SEI17, fazem revelações importantes sobre a economia doNordeste da Bahia. Ela esta associada a expansão da pecuária que foi colocada a sedesenvolver no interior – no sentido de não atrapalhar a cultura da cana-de-açúcar queprecisava de novos campos produtivos – a busca de espaço para montar os currais e fazendasia levando os fazendeiros adentrarem a região sem se preocupar com os limites de suaspropriedades. As demarcações só foram possíveis a partir dos anos cinquenta, quando estelocal, mesmo considerando-se as adversidades edafoclimáticas, destacava-se produzindo umterço do milho e do feijão baianos. Além de tudo, o sisal, cultura implantada com muitadesconfiança por algumas autoridades de alguns municípios, apresentava-se bastante adaptadaao semi-árido e já era cultivada com vistas para a exportação, colocando-se como elementoessencial da economia mais ao sul da região. Podemos perceber estas mudanças pelos dados que iremos apresentar sobre a regiãoNordeste, ela ocupa (20% do território brasileiro), nela vivem 29% da população do país.Originam-se, aproximadamente, 14% da produção nacional total (medida pelo PIB), 12% daprodução industrial e quase 21% da produção agrícola. Cabe destacar que na região residem23,5% da população urbana do Brasil e 46% de sua população rural. O lento crescimentoeconômico que durante muitas décadas caracterizou o ambiente econômico nordestino18, foisubstituído pelo forte dinamismo de numerosas atividades que se desenvolveramrecentemente na região, sendo uma das atividades impulsionadora do crescimento urbano aprodução do sisal. É mais uma constatação interessante de que as culturas implantadas nestelocal se forem bem estruturadas dão resultado. Vale ressaltar que o Censo analisado é o de 2000, e as informações são poucas comrelação aos municípios recém emancipados. Porém, os dados coletados, revelam que essesmunicípios não estão destinados ao atraso, tem o dinamismo e poder econômico independentecomo é o caso da cidade de Barrocas, que concretizou sua liberdade em 2000, obtém aspectosda maioria dos municípios urbanizados, por ter seu crescimento alimentado pelo período dosisal. Trazendo como resultado grande número de empresas de outros municípios17 SEI, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Dinâmica sociodemográfica da Bahia1980-2000. Salvador: SEI, 2003.18 GTDN, Grupo de Trabalhos de Desenvolvimento do Nordeste, 1967.
  18. 18. 17comercializando com armazéns de sisal, consequentemente abrindo campo de trabalho para alocalidade e permanência do cidadão barroquense na sua terra natal. É com intuito de mostrar para as pessoas que a região Nordeste não é completa só demazelas, vimos através da História de uma cidade do interior da Bahia apresentar a força deum povo que mesmo com dificuldade consegue transformar sua realidade e construir suariqueza aproveitando dos recursos que a região lhe oferece, e tendo muita força para superaros momentos em que ocorreram os contratempos próprios do meio. E estudando o local que podem traçar perguntas de caráter mais crucial que possatrazer respostas relevantes.
  19. 19. 18CAPÍTULO 1- FATOS IMPORTANTES DE BARROCAS A cidade de Barrocas fica no sertão do nordeste do Estado da Bahia, Nordeste doBrasil. Assim como outras cidades, passou por muitos processos de aglomeração de pessoas.De uma simples fazenda em poucos anos surgiu uma vila19. Vila, no período colonial tinhacaráter político-administrativo. Foi com a criação delas que surgiram algumas Vilas nosregistros cartográficos da capitania de Todos os Santos. A Vila de Cachoeira aparece nosregistros de 1698, a qual deu origem à Vila de São João Batista de Água Fria, em 1718,fundada pelos jesuítas20. Desta vila foi desmembrado o território de Serrinha e depois, deSerrinha, o território de Barrocas21. Já no regime republicano do Brasil, uma povoação sópode ser legalmente elevada à categoria de vila quando tiver um aglomerado populacionalcontínuo superior a três mil pessoas e possua pelo menos metade dos principais equipamentoscoletivos (farmácia, posto de assistência médica, escolas)22, isentado a responsabilidadeadministrativa atribuída à vila desde o período colonial23. Só a partir de 1693 que D. João de Lencastro, o governador em exercício da capitaniada Bahia de Todos os Santos, criara respectivamente mais três vilas: Nossa Senhora da Judáde Jaguaripe, Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira, a qual pertencia oterritório de Serrinha nesta época, e a de São Francisco da Barra do Sergipe do Conde. Odesafio seguinte seria adentrar o sertão e chegar ao rio São Francisco, para tanto, o governocontou com espírito aventureiro dos bandeirantes que vieram de diferentes locais: uns saíramda capitania de Minas Gerais, prosseguiu de sul ao norte, por Carinhanha, Parateca, Passagemdas Rãs e Bom Jesus da Lapa, depois passando por Maracás, Lençóis, Serra do Orobó eJacobina, outros saíram da capitania da Bahia de Todos os Santos, chegaram ao sertão doParamirim24.19 Vila é um aglomerado populacional de tamanho intermediário entre a aldeia e a cidade dotada de umaeconomia em que o setor terciário (comércio e serviços) tem uma importância de centro econômico, social ecultural. (FERNANDES, Francisco, LUFT, Celso Pedro, GUIMARÂES, F. Marques. Dicionário BrasileiroGlobo, 51. ed. São Paulo. Globo, 1999).20 OLIVEIRA, Vanilson Lopes. Conceição do Coité - A Capital do Sisal. Salvador: UNEB, 1993, pg. 19-20..21 SEI, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Evolução Territorial e Administrativo doEstado da Bahia: Um breve Histórico. Salvador: SEI, 2001, p. 43.22 Leis da República, Lei nº 11/82 de 02 de junho.23 Regimento de Tomé de Souza de 17 de dezembro 1548, a autorização da Metrópole ou governo geral afundação de vilas e povoações, dentre outras atribuições. Leis da República, Lei nº 11/82 de 02 de junho.24 SEI, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Evolução Territorial e Administrativa doEstado da Bahia: Um Breve Histórico. Salvador, 2001, p. 52.
  20. 20. 19Figura 1: Árvore genealógica de Barrocas; Fonte: SEI. Evolução Territorial e Administrativa do Estado da Bahia: Um BreveHistórico. Salvador, 2001, p. 981.1 A passagem da Estrada de Ferro Chegando ao final do governo imperial, é instituído o decreto de lei n° 1299 dedezembro de 1853, de acordo com a Lei de 26 de junho de 1852 e o decreto nº 725 de 03 deoutubro de 1852, dando plenos poderes ao senhor Joaquim Francisco Alves Branco MunizBarreto, para construir a estrada de ferro na Província da Bahia. Esta sairia da cidade de SãoSalvador e chegaria à margem direita do rio São Francisco na Vila de Juazeiro. O contratosegundo o GHB25, foi lavrado o contrato provincial em 31 de maio de 1854, autorizava oinicio das obras. A primeira parte da construção só foi iniciada em 1858 quando a concessão foitransferida para a empresa inglesa/Bahia and São Francisco Railway Company, esta edificou a25 Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Revista Trimestral. Ano II. Vol.III, mar. 1896, nº 07, p. 78.
  21. 21. 20estação da Calçada, em seguida, Jequitaia, Aratu, alcançando Alagoinhas26. Vale ressaltar queo contrato permitia que a empresa usufruísse dos lucros, sendo beneficiada com 7% naexploração da via - férrea. Contudo os lucros não foram os esperados pela empresa, ostrabalhos foram abandonados em 1864. Depois da desistência da empresa restava ao Imperador D. Pedro II, levar adiante,para que o trecho da estrada de ferro inaugurada continuasse funcionando, e também, pudesseestruturar e consolidar a ampliação, pois, esta parte seria muito mais complexa pela extensãoterritorial e acidentes geográficos que iria encontrar. Mesmo com o esforço do governo asobras passaram alguns anos emperradas, voltando às atividades com o decreto da lei, nº5097de 28 de setembro de 1872, este decreto contratava o engenheiro Antônio Maria de OliveiraBulhões, para fazer o estudo da área a ser explorada. O relatório do engenheiro foi aceitopelos governantes e imediatamente abriu nova concorrência, os concorrentes eleitos foramcontratados em 09 de março de 1876, juntamente com o bacharel Raphael Arcanjo GalvãoFilho, acompanhados por um grupo de bacharéis e empreiteiros, para construírem desde aestação de Alagoinhas até a Villa Nova da Rainha, hoje cidade do Bom-fim27. A estrada de ferro foi de muita importância para o povoamento do sertão baiano, poisligou o interior da Bahia a capital criando um intercâmbio comercial. A estrada de ferro, que levou cerca de 40 anos para ser implantada, a partir de 1850, fortaleceu a ocupação do sertão e motivou o aparecimento e a prosperidade de muitas vilas e povoados. De Salvador, partia um ramo para Juazeiro via Senhor do Bom Fim, de onde outro braço seguia para Iaçu, às margens do Rio Paraguaçu, no entroncamento para Cachoeira, ao leste, e Monte Azul, em Minas Gerais, ao sul. Ao longo da ferrovia, formava-se um autêntico rosário, cujas contas correspondem a cidades como Alagoinhas, Entre Rios, Serrinha, Queimadas, Santa Luz, Senhor do Bom Fim, Juazeiro, Jacobina, Brumado, Santo Amaro, Cachoeira28. O trecho que ligava Alagoinhas a Serrinha ficou pronto em 18 de novembro de 1880e a estação ferroviária foi registrada pelo nome, Rio Branco, o projeto de construção daestrada de ferro deu seguimento, após dois anos da inauguração da estação Rio Branco, osresponsáveis pela construção chegaram a Fazenda Espera, como enfatiza a revista29 dizendoque no comando do Dr. Luiz da Rocha Dias, foram inaugurados o trecho de 36.280m entreSerrinha e Salgada e a 146.861m de Alagoinhas, com a assistência do presidente Cons. Dr.Pedro Luiz Pereira de Souza, em 30 de dezembro de 1883, em 15 de setembro de 1884, umoutro de 33.707, e também a Estação de Santa Luzia, a 180.568m, em 06 de fevereiro de26 Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Revista Trimestral. Ano II. Vol. III, nº 07, mar. 1896, p. 78.27 Idem, ibidem, Ano II, Vol.III, nº 07, mar. 1896, p. 79.28 SEI, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Evolução Territorial e Administrativa doEstado da Bahia: Um Breve Histórico, p. 52, Salvador, 2001.29 Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Revista Trimestral. Ano II, Vol. II, nº 07. mar. 1896, p. 80.
  22. 22. 211886, em seguida foi aberto mais um trecho de 47km e inauguradas as estações do Rio doPeixe e de Queimadas, depois destas inaugurações foram concluídos sucessivos trechos daestrada, chegando as margens do rio São Francisco. E foi autorizado novo traçado pelogoverno para tentar concluir as obras que já estavam com 11 anos de atraso. Nos documentos da estação ferroviária encontra-se a Fazenda Espera citada de formaindireta, eles se referem à mesma como trecho entre “Serrinha e Salgada”, já que a estação emestudo não estava presente no projeto do engenheiro Antônio Maria de Oliveira Bulhões, porisso, é interessante conhecer qual o motivo para a existência dessa outra parada ainda nomunicípio de Serrinha30. A Fazenda Espera pertencia ao município de Serrinha, propriedade do senhor JoséAlves Campos, e nas proximidades tinha uma pedreira, onde foi montada uma plataforma detrilhos para embarcar as pedras e utilizá-las na construção da estrada que em seguida, foiconstruída uma plataforma de tábua com o teto de zinco, para embarcava passageiros etransportar mercadorias. Foram vários nomes que surgiram para inauguração da nova estação segundodocumentos da Leste Brasileiro que cita: “Ibingatu, Ibiçoroca, Barrocas”31 e outros, mas,pelas características acidentadas do local, decidiram pelo nome de Barrocas, por ser sinônimode terra aberta pelas enxurradas. Com a inauguração da nova estação aumenta a concentração de pessoas no local etambém a necessidade de uma casa comercial, que por volta de 1930, é construída pelo Sr.João Afonso da Silva se tornando um morador local. Este para praticar sua religião, constróiem sua propriedade uma capelinha dedicada a São João Batista. A partir daí, vai surgindo timidamente nas proximidades da estação algumas casascomerciais. Dentre elas a do Sr. Antônio Alves de Queiroz que se localizava em frente àestação, nos arredores da mesma teve início por volta de 1940, à feira livre onde seencontrava gêneros de necessidades básicas. Teve início a pequena feira livre, esta era realizada embaixo de uma árvore em frente à casa comercial do senhor Antônio Queiroz, o comerciante tinha uma casa composta de gêneros de várias espécies lá se comercializava cereais e produtos cultivados na zona rural, laranjas vindas de Alagoinhas; utensílios de barro: panelas, potes, aribés, frigideiras; objetos feitos de lata: candeeros, chaleiras, canecos, papeiros, miudezas, doces e massas32.30 Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Revista Trimestral. Ano II. Vol. II, nº 07, mar. 1896, p. 81.31 GONÇALVES NETO, João; BATISTA, Tiago de Assis. Barrocas uma filha da estrada de ferro. 2007. p.17.32 Idem, ibidem.
  23. 23. 22 Um dos moradores fala sobre esta vinda das pessoas para a feira, de que forma aspessoas se aglomerava, já que não tinha uma estrutura que os protegesse do sol e da chuva.“Tinha um pé de pau, quitéria, o pessoal ficava de baixo, porque a sombra era boa”33. A feira foi crescendo à medida que o número de moradores no arraial foiaumentando e as pessoas das fazendas vizinhas começaram a frequentá-la, daí entãoaumentou o número de fiéis que participavam das missas e outros atos litúrgicos em Serrinha,passando a frequentar a capelinha de São João, a qual houve à necessidade de construir umaigreja maior. Em 1935, o Sr. Pedro Teles de Oliveira doa o terreno para a nova capela,permanecendo até a atualidade foi estrategicamente edificada para ser identificada emqualquer ponto que se esteja na cidade. Além do terreno para a construção da igreja o Sr.Pedro Teles doou o terreno para a construção do cemitério. Na década de 40 ocorreram alguns episódios marcantes que contribuíram para oarraial ser elevado à condição de Vila de Barrocas: A Igreja Matriz, aumentando aperegrinação dos fiéis em busca de celebrar seus atos religiosos, o aumento da feira livre aossábados, proporcionando o intercâmbio da zona rural, arraial e os municípios circunvizinhos,neste mesmo período destaca-se também a inauguração da nova estação, ampliada parareceber uma demanda maior de passageiros. Nos fins da década de 40 e início de 50, foi bastante promissora para a vila, pois, naeleição de 1948, a vila elege o Sr. Joaquim Otaviano de Oliveira como representante nacâmera municipal de Serrinha, exercendo o mandato até 1951, sendo o segundo vereadorbarroquense em número de mandatos no período em que Barrocas foi dependente de Serrinha.Depois do Sr. Joaquim Otaviano ainda na década de 50 ocorreram sucessões na câmera,novos nomes no cenário político: José Ezequiel de Barros, João Gonçalves Pereira Neto eJoão Olegário de Queiroz. As pesquisas de 1950 do IBGE (Instituto Brasileiro Geográfico de Estatística)informam sobre o número de habitantes por município e distrito, tendo Serrinha umapopulação de 6.602 habitantes e a Vila de Barrocas 285, que já representava um númerosignificante de moradores. A criação da Lei Estadual de n° 628 de dezembro de 1953, foi de grande importânciapara a população local, pois, através dela e empenho dos representantes local, a vila foielevada à categoria de distrito, dando respaldo aos barroquenses para buscarem melhoriaspara o distrito junto ao poder municipal.33 Depoimento de Saturnino dos Santos, 73 anos, aposentado, ex-trabalhador do armazém.
  24. 24. 23 No final dos anos 50, ascende no cenário político e econômico o Sr. João Olegário deQueiroz, representante eleito do distrito, pela câmera municipal de Serrinha juntamente com oveterano, Joaquim Otaviano de Oliveira. João Olegário era filho de comerciante,consequentemente segue a carreira do pai, por ser um dos filhos mais velhos, era oresponsável em abastecer o comércio da família, muitas vezes tinha que viajar para outrascidades para buscar as mercadorias, por ter conhecimento nos negócios e percebendo odesenvolvimento do distrito, abriu sua casa comercial, onde poderia se encontrar um pouco decada produto necessário para o consumo da população. É, justamente em suas andanças, que João Olegário entra em contato com osprodutores de sisal de Santa Luz, que estão se empenhando para transformar o produto em ummeio de sobrevivência para os nordestinos, como assim disse o escritor barroquense Mota34,foram realizadas reuniões, encontros, conferências e convenções entre os anos de 1952 a1958, o resultado foi divulgado em livros específicos sobre o assunto. Esses eventos servirampara chamar a atenção dos interessados em cultivar a agave e contou com a presença de váriosrepresentantes de entidades como: autoridades do vice-presidente da República João Goulart,do Ministério da Agricultura, da Bolsa de Mercadorias, do Governo do Estado da Bahia, dasPrefeituras Municipais da região, e de outras entidades representativas. Como fala com entusiasmo um dos primeiros comerciantes de Barrocas, “Ocomércio era pequeno, quando o sisal chegou era pequeno, depois do sisal cresceu, levava ascriações de Barrocas pra Serrinha no trem, foram surgindo vários comerciantes, Senhor Pedrodo Rio, Abílio, S. Joaquim da Venda, Maria Góis veio depois35”. Enfatiza o especialista em História regional Mota, que entre o final da década de 40 einício de 1950, o distrito de Barrocas sentiu mudanças na economia, pois a agricultura, queaté então era voltada para produtos de subsistência, milho, mandioca, feijão e batata doce,passou a conviver com outra cultura, a do sisal. Ainda reforça que o sisal vinte anos depoiscontribuiu com a diversificação da paisagem, da economia e do trabalho da sociedaderegional36. Um dos maiores compradores de sisal lembra a introdução da cultura do sisal nodistrito e a compra dos motores. “O sisal é uma agricultura que predomina em Barrocas desde34 MOTA, Pedro Silva. Piôiu de Motô e as Relações Sociais no trabalho da Extração do da Fibra do Sisal (Tesede Mestrado). Ilhéus: UESC, 2001, p.71.35 Depoimento de Antonio Ferreira de Queiroz, 82 anos, comerciante desde o inicio da povoação de Barrocas.36 MOTA, Pedro Silva. Piôiu de Motô e as Relações Sociais no trabalho da Extração do da Fibra do Sisal (Tesede Mestrado). Ilhéus: UESC, 2001, p.68.
  25. 25. 241947, quando chegou os primeiros pés de sisal aqui no município, trazido por João Olegáriode Queiroz. Foi quem trouxe também os primeiros motores pra disfibrar o sisal37”. O empenho das autoridades governamentais em transformar a planta em riqueza parao nordestino era grande, mesmo assim autoridades políticas de Serrinha, não foram favoráveisa ideia, como menciona o escritor Alves38, a respeito da resistência do serrinhense em relaçãoao sisal, considerando suas opiniões hipotéticas, porém olhando por outras vias são aceitáveis,pois a introdução de uma nova cultura necessitava de retaguarda, de campos experimentaisonde pudesse ser produzidas as mudas e as sementes, onde deveriam ser estudadas as pragas edoenças, onde se pudesse ser estudado o cruzamento das espécies diferentes para chegar otipo de árvore que mais se aclimatizasse a ecologia da região e que produzisse quantidadesaltamente rentáveis, de qualidade altamente compatíveis com as exigências do mercadoconsumidor. Com as declarações feitas na década de 30, percebe-se a resistência dos agricultorese autoridades políticas serrinhenses com a determinada planta, que só foi introduzida emBarrocas a partir de 1950, com iniciativa do Sr. João Olegário de Queiroz, que adquiriu asmudas e o empenho de alguns moradores do distrito.1.2 Desconfiança serrinhense na implantação do sisal Serrinha se destaca como uma das maiores produtoras de sisal do sertão baiano,tendo sua produção concentrada no distrito de Barrocas. No período da implantação, a plantanão foi aceito pelas autoridades serrinhenses, segundo o escritor serrinhense Alves39, o poderpúblico achava que o sisal era uma planta que só poderia ser cultivada em locais que nãoproduzissem nada, por ter raízes que se espalham e procura meios para se sustentar,absorvendo toda a seiva que esta nas proximidades. Enfatiza que onde há plantação de sisal,nem uma outra cultura consegue sobreviver. Isso mostra todo o pessimismo das autoridadesserrinhense com relação à introdução da cultura do sisal. Porém, ele ressalta que o sisal será auma fonte de riqueza, mas que deve estudar com cautela os terrenos para efetuar o plantio.37 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador.38 ALVES, Leopoldo, Serrinha Seca e Sisal. Salvador: Contemp., 1981, p. 152.39 Idem, ibidem, p. 153.
  26. 26. 25 Por conta dessa desconfiança quanto ao futuro da cultura proposta pelo GovernoFederal para melhorar a situação de econômica dos nordestinos, é que Barrocas, por iniciativade seus moradores, abraçou esta planta, consolidando Serrinha como uma das maioresprodutoras de sisal da região. Com a introdução do sisal cria um ambiente próspero para a vinda de novoscomerciantes. Eu não tenho lembrança o ano mais logo que eu cheguei aqui em 66, 67, 68, 70, e foi subindo ai, o sisal era muito. O povo todo trabalhando no sisal. Só se via roncar motor, a noite toda e quando logo eu cheguei demorou pouco tempo, só se via roncar motor à noite toda. Trabalhava de dia e de noite40. Mesmo assim, por Barrocas pertencer ao território serrinhense, favoreceu muito naarrecadação do município, dando a Serrinha por muitos anos o título de capital do sisal, apesarde não ter desenvolvido a cultura do sisal em outras áreas do município e ter olhado comdesdém a plantação e reprodução das sementes do agave. Com a estrutura já praticamente pronta para se transformar em uma cidade, começa aluta por sua emancipação e, amparada pela Lei Estadual de nº 4.444 de 09 de maio de 1985,perante a realização de plebiscito, Barrocas fica independente, elegendo como Prefeito JoãoOlegário de Queiroz e vice o senhor Josemir Araújo Lopes. Porém, a Lei Estadual que criarao município desmembrando-o de Serrinha foi considerada inconstitucional em 1988, peloSupremo Tribunal Federal41. E Barrocas voltou a ser distrito de Serrinha. Vale ressaltar que, os municípios que faziam fronteira com Barrocas: Teofilândia,Araci, se uniram a Serrinha para acelerar o processo nos tribunais, com a causa ganha,Serrinha teve de volta a posse das terras de Barrocas e é claro a arrecadação dos impostos,dentre elas parte significante da verba da Vale do Rio Doce, empresa que explorava ouro nasterras da Fazenda Brasileiro pertencente a Barrocas. A outra parte seria dividida entre osmunicípios que faziam fronteira e participaram do processo. Barrocas só veio conseguir sua liberdade em 2000, assistida pela Estadual nº 7.620,de 30/3/2000, tendo como prefeito José Edilsom Lima Ferreira e vice Joseval Ferreira Mota,os dois já representam o distrito pela câmera de vereadores de Serrinha. Com a emancipação acidade cresceu, o poder legislativo buscou melhorar o atendimento a saúde e educação,construir as redes de esgoto, e também reformar as construções existentes. Nos povoados40 Depoimento de Antonio de Oliveira Nunes, 70 anos. Comerciante desde a implantação do sisal no territóriobarroquense.41 SEI, Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia. Evolução Territorial e Administrativa doEstado da Bahia: Um Breve Histórico. Salvador: SEI, 2001, p. 105.
  27. 27. 26calçou-os e construiu belas praças, ainda pensou no lazer da população com a edificação dequadras esportivas e campos de futebol.
  28. 28. 27Capítulo 2 - MEMÓRIA DOS BARROQUENSES NO PERÍODO DO SISAL O sisal, também conhecido pelo nome de agave, é originário do México, foiintroduzido na Bahia por volta de 1900, pelo empresário Horácio Urpia Junior. No porto da capital baiana chegaram mudas e sementes, em grande parte - deterioradas – e houve um ínfimo aproveitamento. As mudas e sementes aproveitáveis foram aproveitadas em terras de Maragogipe, regiões de condições ecológicas desfavoráveis ao desenvolvimento da lavoura sisaleira. Fracassara a experiência - a produção de fibras não chegara a lograr um mínimo de rentabilidade que justificasse a expansão sonhada por Urpia42. Logo na sua implantação o sisal não atendeu as expectativas financeiras, mais nãose sabe ao certo como foi a chagada das sementes até às terras do sertão. Sob a mesma incógnita com que escapulira do México para a Flórida, sumira de Maragojipe para viçar na vila de Santa Luzia, ornamentando o quintal do professor Zé Barros, mestre de inúmeras gerações das terras de Joaquim de Góis. Diziam que o professor recebera a muda “como presente de um amigo de fora”. (Diziam), mas a notícia era vaga, sem qualquer identidade com certeza43. Diferente das outras localidades do sertão nordestino, em Barrocas esta planta temsua história contada pelos moradores e conhecem como foi sua chegada. “O sisal é umaagricultura que predomina Barrocas desde 1947, quando chegou os primeiros pés de sisal aquino município, trazido por João Olegário de Queiroz44”. Segundo o escritor Mota45, “O senhor João Olegário de Queiroz conseguiu trazernum vagão de trem, as mudas que foram distribuídas entre seus amigos e correligionáriospartidários”. Uma versão interessante é do senhor Antônio Nunes. “Nós aqui, começamos aplantar sisal logo cedo, fomos buscar pra lá de Serrinha, num sítio, tinha um campinho, fomosbuscar de carro de boi, com um motor, ai começou46”. Percebe-se que os barroquenses depositaram esperança na chegada da planta eapostaram que futuramente a seria uma fonte de renda para muitas famílias.42 OLIVEIRA, Vanilson L. Conceição do Coité : A Capital do Sisal. Conceição do Coité: UNEB, 1997, p. 55.43 Idem, ibidem.44 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmara de vereadores deBarrocas.45 MOTA, Pedro Silva. Piôio de Moto e as Relações Sociais no Trabalho da Extração da Fibra do Sisal (Tese deMestrado). Ilhéus: UESC, 2001, p. 11.46 Depoimento de Antonio de Oliveira Nunes, 70 anos, comerciante desde a década de 60, foi dono de motor etinha plantação de sisal.
  29. 29. 282.1 Fim das cercas de gravatá Na época da implantação do sisal, o território estava começando a delimitar suafronteira, ou seja, construindo suas divisas. As mesmas eram feitas com cercas de madeira oude gravatá, planta típica da caatinga nordestina. “Ingenuamente nutriam a intenção desubstituírem o gravatá comum nas divisões de pastos e de roças, plantando as mudas nosvalados47, em lugar das cercas de estacas ligadas com arame48”. O escritor regionalista barroquense Mota comunga a mesma ideia. “Com oaparecimento dos pés de sisal, este tipo de cerca (feitas com pés de gravatá) foigradativamente cedendo lugar para as carreiras de sisal. As valas que eram cavadas iam sendoplantadas com pés de sisal, e em menos de uma década a planta estava presente em todas asfazendas49”. Inicialmente o sisal foi destinado à divisão das propriedades, ou seja, construção decercas, substituindo as antigas barreiras que eram de madeira ou gravatá. Esse processoaconteceu, tanto nos outros municípios como em Barrocas. A desconhecida árvore, apenas usada para delimitar roçados e que passara a ser motivo de curiosidade por nivelar-se com os umbuzeiros no desafio ao rigor da seca, não era o gravatá de que diziam coisas e inventaram histórias. Era um vegetal sumarento, planta desértica que formava grande reservar de água em suas folhas e que, na prática, multiplicava-se assexualmente pelos bulbinhos formados após caírem as flores, e pelos rebentos que nasciam nos prolongamentos das raízes que se abriam na superfície da terra50. No intuito de implantar a cultura do sisal o governo incentivava os sertanejos. Para estimular o plantio do sisal – além das mudas distribuídas gratuitamente –, A Secretaria da Agricultura instituiu prêmios para os agricultores que plantasse sisal no nordeste baiano. Esses prêmios vigoraram anos e ajudaram bastante a expansão da cultura em nosso Estado. Com esses estímulos, iniciais, o sisal espalhou-se pelas nossas terras semi-áridas51. Provavelmente estes incentivos não chegaram até Barrocas, pois diante dos relatoscolhidos nem um trouxe esta afirmação, deixando claro que esta região, se transformou emuma das maiores produtoras de sisal com seus próprios recursos.47 Valado: vala rasa, guarnecida de tapume ou sebe, para proteger propriedade rural. XIMENES, Sergio.Minidicionário da Língua Portuguesa. 2. ed. São Paulo: Ediouro, 2000.48 OLIVEIRA, Vanilson Lopes. Op. cit, p. 57.49 MOTA, Pedro Silva. Piôio de Moto e as Relações Sociais no Trabalho da Extração da Fibra do Sisal . Ilhéus:UESC, 2001, p. 70. [Dissertação de Mestrado]50 ALVES, Leopoldo. Serrinha Seca e Sisal. Salvador: Contemp , 1981, p. 150.51 LAGE, Creuza Santos; ARGOLO, João Lamark; SILVA, Maria Auxiliadora da (Org.). O sisal baiano: entre anatureza e a sociedade: uma visão multidisciplinar. Salvador: UFBA, 2002, p. 15-16.
  30. 30. 29 Essa planta passa por um processo de crescimento considerado lento, até dar osprimeiros rendimentos. “O sisal ele plantado, ele demora cinco anos pra poder dar a primeiraprodução e depois disso, todo ano pode tirar o sisal, desfibrar o sisal, que ele dar produçãotodo ano”52. Como se pode observar, no início da implantação da cultura do sisal, o plantio erafeito em pequena escala, e o trabalho do sisal realizava-se manualmente, com o auxílio dofarracho53, este serviço ocupava praticamente toda a família: homens, mulheres e crianças.Isso, era possível por se tratar de uma atividade que não precisava de alta tecnologia e estápróximo dos afazeres domésticos, não alterava a rotina da família. O uso do farracho surgiu como uma perspectiva de aproveitamento do sisal, já que ogoverno não satisfazia a necessidade dos plantadores. A concessão de crédito para a lavoura era praticamente inexistente. Nenhuma tecnologia foi oferecida aos agricultores para compensar seu esforço. Para extrair a fibra, o sertanejo recorreu à sua capacidade criativa: inventou o farracho, instrumento rústico, rudimentar, que faz lembrar o tempo da pedra lascada, mas que serviu para os primeiros desfibramentos, até que foi substituído pelas máquinas atuais54. O sertanejo como sempre homem valente, buscou formas de efetuar a colheita atéchegar um instrumento mais eficiente e substitui a sua criação.2.2 A Chegada dos motores de Sisal Como já foi mencionado, o desfibramento com o farracho era muito lento,além de ocupar muitas pessoas não conseguia satisfazer a produção que estava emdesenvolvimento, uma vez que os campos se encontravam povoados de pés de sisal,necessitava de máquinas mais rápidas para processar as fibras. “A principio, o sisal eradesfibrado em um farracho. Depois Téo comprou um motor a diesel, (máquina paraibana)para melhor desempenho e comercialização do produto55”.52 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.53 Uma espécie de guilhotina, instrumento manual arcaico construído por duas lâminas de ferro na parte inferiore superior da lâmina continha um peso pra ajudar no desfibramento.54 LAGE, Creuza Santos; ARGOLO, João Lamark; SILVA, Maria Auxiliadora da (Org.). O sisal baiano: entre anatureza e a sociedade: uma visão multidisciplinar. Salvador: UFBA, 2002, pp. 16.55 OLIVEIRA, Vanilson Lopes. op. cit., p. 59.
  31. 31. 30 Em Barrocas o primeiro motor, foi adquirido pelo senhor João Olegário de Queiroz,distribuído para as pessoas interessadas no desfibramento do sisal, por conta do aumento daprodução. “As carreiras de pés de sisal se multiplicassem, tornando-se necessária a aquisiçãodo motor para desfibrar o sisal na vila de Barrocas, comprado pelo referido senhor JoãoOlegário56”. O senhor Saturnino Francisco dos Santos, ex-dono de motor, foi funcionário dearmazém, atualmente aposentado, fala a forma encontrada pelos barroquenses paracomprarem os motores. “Vamos dizer assim: Eu precisava do motor. Dizia assim: SeuJoaquim, eu quero comprar um motor pra botar gente pra trabalhar. Ele comprava pra mim eeu ia pagando a ele por mês. Era assim, naquela época, eu comprei dois motor57”. É perceptível o esforço das pessoas, que mesmo com estrutura financeira muitobaixa, queriam comprar as máquinas, por isso, buscavam os intermediários. “Uns compravamos motor. Joaquim Otaviano comprou um bando. João Olegário também comprou. É,comprava motor, porque o povo não pudia, não guentava não58”. É interessante conhecer a forma que os agricultores tiveram para conseguir o motorque desfibrava o sisal. João Pereira dos Santos, ex-dono de motor, agricultor, aposentado,lembra com muito orgulho como adquiriu o seu equipamento. O motor eu consegui com um ovo de piruá. Veio uma pessoa que tinha uma pirua reprodutora, quando a piruá saiu já tinha botado um ovo. Um ovo só. Devolveu e eu botei pra chocar ni uma galinha. Quando nasceu uma piruá. Até quando chocou uma dúzia de pinto a metade foi macho. Ai eu vendi e comprei uma nuvia. Depois de uns anos com as crias da nuvia eu vendir e cumecei a juntar. Juntei cum a safra de farinha e feijão. Chegou a altura de comprar o motor59. Com a compra dos motores de sisal na região houve um aceleramento de mão deobra, gerando o processo seletivo do trabalho. “Tem o motor de sisal onde ele é desfibrado.Trabalha dez pessoas mais ou menos, pode trabalhar com quatro ou com cinco, mais pra teruma produção boa geralmente tem que ter dez pessoas, trabalha-se cortando a palha o sisal60”. O escritor Pedro Silva Mota61, assinala a introdução da máquina para desfibrar sisalcomparando-a a introdução do capitalismo no Rio de Janeiro analisada por SidneyChalhoub62, era necessário que a população se adaptasse a nova forma de trabalho, acelerar56 MOTA, Pedro Silva. op. cit. p. 11.57 Depoimento de Saturnino Francisco dos Santos, 73 anos, aposentado, ex-trabalhador do armazém.58 Idem.59 Depoimento de João Pereira dos Santos, 82 anos, agricultor, aposentado como agricultor, ex-dono de motor.60 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.61 MOTA, Pedro Silva. op. cit. p. 12.62 CHALHOUB, Sidney. Trabalho e botequim – Cotidiano dos Trabalhadores do Rio de Janeiro. São Paulo:Brasiliense, 1986, p. 15.
  32. 32. 31para produzir. Pois, a lentidão atrapalharia o sistema capitalista que queria urgência em tirarproveito com maior rapidez extraindo toneladas de sisal para a exportação, em contrapartidaimpunha novos produtos, para que a centralização dos lucros se solidificassem de maneiramais regular. Com o surgimento das máquinas desfibradeiras, inicia a separação das equipes parasustentar a necessidade do funcionamento da mesma, enquanto o farracho, ocupava toda afamília em uma só função, ela exigia que se dividissem e para cada um agora estipulou umatarefa: cortador, botador, residero, cevador e campeira. Entre as pessoas que compõem o quadro de trabalhadores do motor de sisal está ocortador, pessoa responsável por limpar os caminhos com um facão até chegar aos pés desisal. “Eu ia pela manhã para o motor, levava uma faca e lá cortava palha e outra pessoa vinhaatrás catando a palha pra levar pro motor. A tarde pegava o jegue com os ganchos63 ai enchiaas cargas de palha levava e eu na frente cortando e o outro atrás pegando e levando promotor64”. O cortador como foi relatado era responsável pela primeira etapa do serviço paraque a máquina desfibradeira pudesse funcionar, precisa ser alimentada pelas folhas de sisal,consequentemente é quem sofria as primeiras mazelas do trabalho. “É um pouco perigoso porcausa dos espinhos. A gente tinha que ter muito cuidado, porque a gente sabe que muita genteperdeu até a visão naquele trabalho de cortar palha65”. Dona Luiza Cardoso, aposentada e ex-cortadora de palha durante trinta anos reforçasobre o risco e a atenção que tinha que ter no trabalho nos campos de sisal. A cortação de palha rapaz, era arriscado. Minha sorte, eu nunca levei um corte. Pra não dizer que eu não levei, uma vez eu tava cortando uma muda e o facão, pá! Quais não sara mais. Negoço de corte nas mãos eu nunca levei. Mas furada braba, tinha vez que furava aqui encimado do olho até hoje me a lembro, veio interrar aqui dentro. Faltou nada pra eu perder a vista nesse dia, e era assim ou trabaiava ou num tinha que trabaiar pra sobreviver66. Os serviços nos campos de sisal era arriscado tinham de enfrentar os diversos tiposde árvores, espinhentas e urticárias. Ainda temiam os animais que por conta da invasão no seuhabitat natural poderiam se manifestar como explica dona Maria Lima. É muita cobra. Tinha muito mato, hoje num tem não. Naquele tempo fazia muitho medo era cobra e gado. Sim abelha também, quando a gente imbaraçava, marimbono, essas coisa tudo murdia a gente. A gente ricibia muita murdida de63 Peça de madeira ou ferro que sustenta e divide a carga de burros, cavalos ou jumentos, metade para cada lado.64 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, aposentada como lavradora e ex-cortadora de palha.65 Idem.66 Depoimento de Maria Luiza Cardoso, 72 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.
  33. 33. 32 abelha e de marimbono que agente num via. Quando chagava aquelas moita de sisal bem fechada, a gente achava que tava graúda ia pra perto cortar. Pra adiantar mais o serviço. Quanto mais o sisal graúdo é que a gente aumentava mais. Quando a gente via aqueles pé de paia que agente chegava perto e num olhava direito67. Outras pessoas tinham uma visão mais branda sobre o trabalho nos campos de sisal,apesar de lembrar algumas situações pavorosas. Era tranqüilo. Só trabaiemo uma vez que nós levemo um susto. Eu mais Lolinha, nos terminemo de cumer vamo deitar aqui um pouco, ai nos deitemo. Tinha um boi deitado assim perto. Ai quando a gente tava deitada o boi levantou e eu peguei um moinho de paia pra bater e o boi só fazia assim, e eu show boi, show boi. Lolinha levantou do lugar e pipoquemo na carreira o boi tava arrinado. Ai esse boi partiu doido e mais os outros animais não causava perigo não. Uma que cobra não gosta de sisal, mais era umas ferradas de marimbondo, era o diacho68. Acompanhado pelo cortador está o cambiteiro. “É quem bota o sisal nos animais, quesão os jegues que transporta essa palha da roça para o pé do motor69”. É interessante notar o zelo das pessoas que cortavam a palha com seus companheirosresponsáveis pelo transporte até o motor, conhecido por botador ou cambiteiro. Pra nossa segurança. Também porque realmente que eu não cortasse os espinhos ele ia passar por dentro dos espinhos e poderia ser prejudicado. Se furava e era furada de um canto, furada de outro, furava no meu pé. Ai a gente demorava mais, mais fazer o caminho bem feito pra gente entrar, naquele lugar. Principalmente pra jogar a palha embaixo, se não quando ia pegar a palha furava as mãos e se furasse as mãos não pudia trabalhar. Então impatava ele, ai parava. Se não tivesse o tropero, se ele tivesse duente, eu também num pudia cortar palha que num tinha quem pegasse a palha, porque eu sozinha não pudia fazer o trabalho, eu cortava tinha que ter quem botava70. Os próprios cortadores reconhecem os transtornos no trabalho de seus companheiros.“Sim tinha inchu, tinha abelha, murdia os animais e ai pronto, era paia pro todo lado. Numsigurava nada, na hora que murdia71”. Em alguns momentos os transtornos do cambiteiro se transformavam em diversãopara os próprios trabalhadores dos campos de sisal. Tinha animal que tinha de ser duas pessoas, um sigurando porque gostava de jogar upa, derrubava a carga, quando era na hora, tinha que ter uma pessoa sigurando mermo, uma pessoa sigurando o cabresto, ai se num fosse duas pessoas realmente, num conseguia sigurar o animal, ele era muito brabo. Mais num tinha outro, as vez num tinha outro, o jeito era pegar esse animal mesmo, muitas vezes quando agente tava ali perto dava risada, os animal tinha uns que era muito brabo, realmente agente pidia o dono trocava72.67 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.68 Depoimento de Maria Luiza Cardoso, 72 anos, agricultora aposentada e ex-cotadora de palha.69 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.70 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.71 Idem.72 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.
  34. 34. 33 Além de enfrentar as furadas nos campos dentre outros perigos, ainda era exigido docambiteiro um preparo físico. Cambiteiro, carregador ou botador, de palha, estava fazendo parte de um grupo que desempenhava uma tarefa que exigia um deslocamento constante entre o campo e a máquina, e boa flexibilidade da coluna vertebral para está sempre dobrando o corpo para apanhar a folha e colocá-la no jumento. Por necessitar de muito esforço físico e rapidez, preferiam-se os adolescentes e crianças73. O escritor Mota, afirma que as folhas são ácidas trazendo como conseqüênciaferimentos nas unas e sangramentos nas mãos dos carregadores74. O senhor Américo resume em poucas palavras. “Meu pai começou a me abusar,depois comecei a botar palha, é um sofrimento, é brincadeira?”75. Observa-se que no geral o trabalho era dividido por sexo e faixa etária, os rapazes seresponsabilizavam pelo transporte da palha até os motores, as mulheres pelo corte. Ocorreramalgumas exceções, que não passaram despercebidas pelas companheiras. Delas que até que botava também mais eu num me acostumei muito cum botação de paia não, quando agente ia arrochar a carga de paia caia. Eu num gostava daquele trabaio não. Tinha gente que baxava e pegava tudo de novo (risos), tinha muler que era muito inteligente pra botá paia76. Depois de percorrer os campos até a máquina desfibradeira, outro trabalhador seencontrava a espera para continuar o processo das folhas. “O resideiro é quem tira o resíduo.É quando desfibra o sisal. O resíduo se acumula embaixo do motor onde tem as tábuas e oresideiro é quem tira esse resíduo pra ir caindo outros consequentemente”77. É interessante lembrar a cansativa tarefa do resideiro, o qual passava por volta dequatro horas executando várias funções, para que o motor de sisal pudesse funcionar. “Oresideiro é uma espécie de auxiliar do sevador, supria a banca de palha, para ser desfibrada,pesava as folhas, pesava as fibras, decorava a quantidade produzida e refrigerava o motor comágua”78. Depois das folhas de sisal serem desfibradas eram colocadas uma espécie de mesafeita de varas conhecida como banca, onde o resideiro as amarrava em pequenas quantidadesconhecidas por bonecas e em seguida pesava-as. O serviço seguinte era realizado pelo donodo motor, pela própria campeira, ou crianças na maioria das vezes, que colocavam nos73 MOTA, Pedro Silva. Piôio de Moto e as Relações Sociais no Trabalho da Extração da Fibra do Sisal (Tese deMestrado). Ilhéus: UESC, 2001, p. 30.74 Idem, ibidem, p. 3975 Depoimento de Américo, mutilado no motor de sisal (nome fictício).76 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.77 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.78 MOTA, Pedro Silva op. cit. p. 71
  35. 35. 34ganchos. A partir daí são carregados pelo jegue levando-as para o campo de estender, onde acampeira as espalha em uma espécie de varal feito de arame liso e varas fincadas ao chão, prasecar e depois de secas serem levadas para o armazém. A tarefa do sevador também não é fácil. “O maior responsável pelo desfibramento.Ele vestia-se de roupa de saco de mangas compridas, vestia luvas de borracha e amarravasobre a cintura uma esteira, para proteger-se do resíduo e da coceira provocada pelo ácido”79. Além do peso do fardamento usado pelo sevador, era o que corria mais risco notrabalho do sisal. “O batedor é que é a profissão mais difícil a mais perigosa que é aquele quecoloca a palha na boca da máquina, né, e também conseqüentemente é quem ganha mais, éque é melhor remunerado no trabalho do sisal. Esse trabalho é feito, ele trabalha quatrohoras”80. O entrevistado lembra que depois de quatro horas sem intervalos para descansar otrabalhador não tinha condições físicas de continuar e tinha que vir outro lhe substituir.Porém, no geral eles não descansavam, pois, era uma profissão que nem todos queriam. Entãoos que se arriscavam no serviço às vezes trabalhavam em mais de um motor de sisal, por isso,paravam no almoço e depois retornavam pro mesmo ou para outro motor. Estes profissionais passam quatros horas de esforço colocando as folhas na boca damaquina e puxando-as em seguida, é nesta luta incessante contra a máquina que muitosperdem a mão, dedos ou parte do braço. “Essas mutilações sempre foi freqüentes no trabalhodo sisal. Desde o início que acontecia muitas mutilações. Depois as pessoas foi ganhandomais experiência. Foram tendo mais cuidado”81. Quem viveu a experiência de ter uma parte do corpo decepada pala máquina fala domomento de desespero. “Um dia de quarta-feira. Ia bem do meu trabaiano, trabaiano. Ai meacidentei. O residero correu, correu. Deixou eu só. Ai rastei a mão assim, quando rastei eu caiassim. Rasguei as costas aqui ó. O motor ficou lá rodano. O residero correu não tevecorage”82. Um dos mutilados pelo motor de sisal que participou do trabalho do escritor Mota,conta suas dificuldades depois do acidente, coloca que estava prestes a casar e por conta disso,a noiva terminou o casamento, porém, pouco tempo depois ele se casou com outra mulher.79 MOTA, Pedro Silva. Piôio de Moto e as Relações Sociais no Trabalho da Extração da Fibra do Sisal (Tese deMestrado). Ilhéus: UESC, 2001, p. 74.80 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.81 Idem.82 Depoimento de Américo, mutilado pelo motor de sisal, aposentado como operário da construção civil (nomefictício).
  36. 36. 35Conseguiu se aposentar e montou um comércio onde mora. Mesmo com um braço trabalha naroça e executa outras atividades, porém reconhece que seu desempenho é muito limitado83. Diante das limitações perpassadas pelo mutilado do motor de sisal, mesmo assim elereconhece o valor do cultivo dessa planta para o povo barroquense é o que relata o Sr.Narciso. “A dificuldade é a limitação pra sobreviver. Tenho boa vontade pra fazer as coisas enão posso. Sisal representa ajuda pra população mais fraca. Só me preocupei no dia doacidente”84. Além de enfrentarem a dura realidade de perder parte do corpo, muitos aindasofreram com a desilusão de não serem atendidos pelos INSS, como falou ressentido o Sr.Américo, que ao chegar do Hospital recebeu a notícia de que só com a metade da mão não seaposentaria. Dando a entender que o acidente não era tão grave assim. Desolado, contou coma ajuda de amigos que o aposentaram como trabalhador da construção civil85. Neste momento que ocorria um acidente não se pode negar o papel do dono domotor, na maioria dos casos sustentavam a família do acidentado, fornecendo a cesta básicatodas as semanas. Muito deles se sensibilizavam com a situação e entregavam o motor paraque a pessoa tomasse conta até conseguir se aposentar. “Comigo ele fez tudo. Eu não voumentir. Ele me deu o motor. Ele me deu apusso, chorando. Deus me ajuda e eu vou chegar oque eu quero e me ajudou. Olha ai, ele me dava a fera. Eu não posso mentir. Ele parou de meajudar depois que eu me aposentei”86. Não era só os batedores que recebiam ajuda quando precisavam, os outrostrabalhadores também foram atendidos em alguns momentos. “Quando qualquer trabalhadorse acidentava eu dava a fera até ele ficar bom. Nunca aconteceu de cortar braço essas coisaassim, mas quando se cortava cum faca ou facão, as vez furada. Eu dava a fera todasemana”87. Tinham donos de motores de sisal que não se comprometia com seus trabalhadoresquando se acidentavam. “E eu tinha um custume de inficar o facão atrás de mim. Pisei numatoca de furmiga. Dei um açoite no pé. O facão caiu com o corte pra cima e eu pisei. Ai eu seiminha fia que o corte do facão entrou aqui. Só faltou sair aqui. Ai agora veio eu caminhandoassim mermo”88. Ela ainda afirma que trabalhou o resto da tarde com o pé enrolado em panos,83 MOTA, Pedro Silva. op. cit. p. 95.84 Idem, ibidem, p. 9985 Depoimento de Américo, mutilado pelo motor de sisal, aposentado como operário da construção civil (nomefictício).86 Idem.87 Depoimento de João Pereira dos Santos, 82 anos, agricultor, aposentado como agricultor, ex-dono de motor.88 Depoimento de Maria Luiza Cardoso, 72 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.
  37. 37. 36apesar do campo de sisal ser muito distante de sua casa teve quer ir embora caminhando ecom o pé sangrando. Lembra também a admiração das pessoas ao encontrá-la se sustentando em um pé, eo repúdio a atitude ao dono do motor. A senhora não achou nem uma carroça pra vim lhe trazer? De quem era o motor? E ele não falou nada deixou a sinhora vim assim? Ou, ele não importou, eu também num ia ficar adulano. Nesse tempo também num tinha transporte, mas se ele se interessasse tinha dado quarquer jeito89. A senhora Maria Mota Lima também lembra com resignação o tratamento dos donosdos motores de sisal quando alguém se acidentava, pois no momento em que cortou o pé como facão quando roçava para abrir o caminho para o botador apanhar a palha, passou unsquinze dias sem trabalhar, neste período não recebeu nem uma ajuda do dono do motor, porconta disso, sua família passou por dificuldade, a situação não se complicou mais por que seuesposo, também trabalhador no motor de sisal garantiu o sustento da casa. O dono do motor também passa por situações difíceis, os trabalhadores estão sobresua responsabilidade, tinha que abastecer o motor com o combustível, anotar a produção domotor, destacando o quanto cada trabalhador havia conseguido produzir na semana, nos finsde semana apanhar a sisal que a campeira estendia de terça-feira a sábado. Eu como filha dedono de motor não conto às vezes em que meu pai me acordou aos domingo cedinho paraajudá-lo a pegar a fibra e colocá-la dentro de casa. Por conta desse compromisso é que muitas pessoas preferiam serem trabalhadoresnos campos de sisal a se responsabilizar pelo motor. Que a gente cum o motor da gente mermo, é o trabalho é a semana toda, nem discansa, nem sábado nem dumingo, qui os dias de panhar fibra é os dias pior. É sábado e dumingo e sigunda, é os dias pior que a gente se ocupa, tem que ta cedo no campo pá panhar fibra, quando era im casa era perto mais quando era no campo dos outros, ai eu num tinha discanso quando eu, foi uma coisa que eu num gostei muito, foi da gente pussuir motor, eu prifiria trabalhar no motor dos outros90. Pode se perceber que as atribuições do dono do motor eram muitas causandodesinteresse a algumas pessoas em possuí-lo.2.3 Mutilados do sisal89 Idem.90 Depoimento de Maria Mota Lima, 61 anos, agricultora aposentada e ex-cortadora de palha.
  38. 38. 37 Uma das preocupações para dono do motor era quando adoecia um dos seustrabalhadores. Apesar de nem todos cumprirem com as responsabilidades nesse momentomuitos deles forneciam a cesta básica durante a semana, outros pelo fato das condiçõesfinanceiras serem iguais aos trabalhadores, a alternativa era entregar sua fonte desobrevivência para o acidentado. Passando nesse momento a ser trabalhador do mutilado.Essa era uma forma de tentar indenizar a pessoa mutilada. O número de mutilados no motor de sisal é muito grande nesta região. Desde a expansão da cultura do sisal na Bahia, em 1944, dois mil trabalhadores rurais da microrregião de Serrinha e oitocentos em Valente e Santa Luz foram mutilados quando utilizavam os rudimentares motorzinhos ou máquinas paraibanas para desfibrar as folhas de sisal91. No geral são pessoas que perderam dedos, mão e braço. Nesse momento a lei nãoampara as pessoas que sofriam esses tipos de mutilações. Só teria direito a indenização quemperdesse os dois membros. Em setembro de 1983, através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, os mutilados do sisal se reuniram para lutar por uma aposentadoria. A partir as manifestações continuaram a acontecer e, finalmente em 1984, foi criado um dispositivo para o motorzinho, que diminuiu sensivelmente o problema92. Depois de muito tempo e lutas ocorreram mudanças na lei e a maioria dos mutiladosconseguiu a aposentadoria.2.4 Os períodos de seca Como é do conhecimento de todos, o sertão semi-árido viveu alguns anos de seca e osisal sofreu com a estiagem, secando suas folhas, impendido os trabalhadores de continuaremsuas atividades e consequentemente prejudicando a renda de suas famílias. Foi um período muito ruim, onde nós tivemos até seca, que nós tivemos que sair daqui para outras regiões como: Juazeiro, Campo Formoso. Eu mesmo levei daqui, onze motores de sisal, saiu daqui comigo 110 pessoas, onde lá nos passamos o ano, a estiagem aqui foi forte”93.91 LAGE, Creuza Santos. op. cit. p. 37.92 Idem, ibidem, p. 4293 Depoimento de Gilberto de Queiroz Brito, 55 anos, agricultor e vereador pela câmera de vereadores deBarrocas.

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