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4                                       RESUMO     CULTURA E RÁDIO: DESTERRITORIALIZAÇÃO, GLOBAL E LOCAL NA               ...
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23      Na América Latina, os argentinos foram os pioneiros em descobrir eexperimentar o fascínio do rádio. Realizaram em ...
24      Não se pode deixar de mencionar que essa finalidade educacional do serviçode   radiodifusão   estava   baseada   p...
25comerciais são as mais comuns e existem milhões espalhadas em todo mundo,seguem os princípios do mercado capitalista, vi...
26voz do mineiro” na Bolívia, que levava ao ar as lutas e interesses dos mineiros daSiglo XX.        É a partir da década ...
27                     baixa potência, cujo marco histórico é o dia 10 de abril de 1995, data em                     que o...
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31pela audiência. O que interessa no meio comercial é ter muitos ouvintes econsumidores em potencial, para que através da ...
32uma emissora comunitária? Segundo o autor todo estilo pode ser tocado. “Não hálugar para racismo musical. Não é preciso ...
332 . O local e o rádio: a Valente FM e seu território de atuação      O rádio cria laços com a comunidade na qual está in...
34comunitárias, foi um dos primeiros a desenvolver um projeto voltado para a área. Nofinal de 2001 e início de 2002 lançou...
35ABRAÇO-SISAL atua diretamente em quinze municípios do território sisaleiro. Semfins lucrativos, a associação conta a par...
36atuantes na luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Segundo ElenaldoTeixeira (2001),                           ...
37treinamentos iniciais. A programação musical consistia (e ainda hoje é assim) emtocar de todos os estilos um pouco; o su...
38                         depoimentos, entregasse pessoas lá mesmo, na maior pressão                         (ENTREVISTAD...
39enquanto um editor de textos realiza a clipagem de notícias dos jornais, definindo oque deve ir ao ar, editando os texto...
40                          coloca, é de denúncia, é de chegar e apertar o prefeito mesmo, o                          vere...
41                                 de alguma coisa que não tá legal na indústria, de alguma matéria                       ...
42possa pleitear projetos; receber doações de recursos físicos, humanos e financeirosetc.       A programação da Valente F...
43                                      Atende pedidos por telefone. Locutor Lecildo Silva.      23:00 às 6:00            ...
443. A música que vai ao ar         A intenção desse capítulo é analisar a programação musical da RádioComunitária Valente...
45dedicado aos artistas locais, regionais, a música sertaneja e ao forró pé de serra,que vai ao ar das 6:00 ás 8:00. Em se...
46considerando-o um amigo especial, Santos é um locutor jovem, que tem um ritmodinâmico dando ao programa um ar mais desco...
47      A maior parte da programação musical é composta pelos sucessos de artistasexplorados no momento pelas mídias, canç...
48semana de 16 a 20 de novembro de 2009. Nesses cinco dias, foram tocadas emmédia trinta e nove músicas por programa, tota...
Cultura e rádio desterritorialização, global e local na programação musical da valente fm  aline
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Cultura e rádio desterritorialização, global e local na programação musical da valente fm aline

  1. 1. 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA Aline de Oliveira AraújoCULTURA E RÁDIO: DESTERRITORIALIZAÇÃO, GLOBAL E LOCAL NA PROGRAMAÇÃO MUSICAL DA VALENTE FM Conceição do Coité – BA 2010
  2. 2. 2 Aline de Oliveira AraújoCULTURA E RÁDIO: DESTERRITORIALIZAÇÃO, GLOBAL E LOCAL NA PROGRAMAÇÃO MUSICAL DA VALENTE FM Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social - Habilitação em Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, como requisito parcial de obtenção do grau de bacharel em Comunicação, sob a orientação da Prof.ª Esp. Vilbégina Monteiro. Conceição do Coité 2010
  3. 3. 3 Aline de Oliveira AraújoCULTURA E RÁDIO: DESTERRITORIALIZAÇÃO, GLOBAL E LOCAL NA PROGRAMAÇÃO MUSICAL DA VALENTE FM Trabalho de conclusão apresentado ao curso de Comunicação Social - Radialismo, da Universidade do Estado da Bahia, sob a orientação da Prof. Esp. Vilbégina Monteiro. Data:____________________________ Resultado:________________________ BANCA EXAMINADORA Prof. (orientador)___________________ Assinatura________________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________ Prof.____________________________ Assinatura_______________________
  4. 4. 4 RESUMO CULTURA E RÁDIO: DESTERRITORIALIZAÇÃO, GLOBAL E LOCAL NA PROGRAMAÇÃO MUSICAL DA VALENTE FMA cultura de um local está frequentemente passando por transformações e isso se dáporque as relações culturais estão em constante contato com outros “universos” que asinfluenciam e modificam. Entender de que modo essa relação – entre o que é consideradocultura local e o que é cultura global – transforma as relações sociais e culturais de umacomunidade é o desafio deste trabalho que tenta discutir os processos de des-re-territoriazação presentes na comunidade de Valente, município do interior da Bahia, situadona região sisaleira, através da programação musical da rádio comunitária Valente FM. Paraalcançar esse fim, analisou-se a programação musical do programa Ligação Direta, daRádio Comunitária Valente FM, além de ter-se realizado entrevistas com o locutor doprograma e diretoria da emissora. A análise das músicas pedidas pelos ouvintes e tocadasno programa, somadas aos estudos sobre os processos de reterritorialização comprovamque a programação musical da Rádio Comunitária Valente FM é um elo entre a cultura locale a global influenciando no modo como o indivíduo re-significa o seu meio. Essa articulação,proporcionada pela Rádio, acontece de maneira naturalizada, ou seja, as pessoasreterritorializam o seu espaço cultural sem se darem conta dessa presença e influência doque é global no seu dia-a-dia. Isso se reflete no comportamento da comunidade, navalorização e incorporação da linguagem urbana dentro de um contexto rural, e da própriaexpressão da cultura local que é, cada vez mais, penetrada pelo global.Palavras-chave: cultura – reterritorialização – programação musical – local – global –rádio
  5. 5. 5 SumárioINTRODUÇÃO.................................................................................................................. 61. CULTURA E O RÁDIO: RETERRITORIALIZAÇÃO DO SUJEITO NO SEUTERRITÓRIO SIMBÓLICO................................................................................... 111.1. Cultura e desterritorialização: onde o local e o global se encontram............ 111.2 . Cultura e música nas ondas do rádio........................................................... 222. O LOCAL E O RÁDIO: A VALENTE FM E SEU TERRITÓRIO DEATUAÇÃO............................................................................................................ 333. A MÚSICA QUE VAI AO AR.......................................................................... 44CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................ 54REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................................................................... 58ANEXOS............................................................................................................... 61INTRODUÇÃO
  6. 6. 6 A cultura de um local está frequentemente passando por transformações eisso se dá porque as relações culturais estão em constante contato com outros“universos” que as influenciam e modificam. Entender de que modo essa relação –entre o que é considerado cultura local e o que é cultura global – transforma asrelações sociais e culturais de uma comunidade é um desafio proposto nesseestudo. Para isso, é preciso observar não só aspectos da cultura popular que podemmelhor demonstrar essa relação híbrida entre local e global, como os instrumentosque, de algum modo, promovem os contatos entre diferentes universos. Assim, aescolha foi estudar a música e o rádio, dois elementos tão intimamente relacionadosque ilustram perfeitamente os fluxos entre a cultura popular e a re-significação dosujeito ao compartilhar territórios simbólicos. Desse modo, determinou-se analisar asmúsicas tocadas no programa matinal Ligação Direta da rádio comunitária ValenteFM, situada no interior da Bahia, região sisaleira. O processo de globalização é o principal responsável pelas alterações naidentidade cultural de uma sociedade. O tradicional/local recebe forte influência dosmétodos mecanicistas e o ser humano, agente ativo, deseja cada vez mais usufruirdesses recursos para facilitar sua vida, modernizando automaticamente seu meiocultural de forma despercebida, criando assim “identidades partilhadas” entrepessoas que estão bastante distantes umas das outras. Essa modernidade oriundada globalização diluiu fronteiras e aproximou culturas distantes no espaço e notempo. No entanto, isso não poderia ter-se realizado com tamanha fluidez se nãofosse a atuação dos veículos de comunicação, em especial o rádio, que com suasondas sonoras alcança os territórios mais isolados geográfica e socialmente. Arelação dominante da população brasileira com o rádio é de intimidade, que passou
  7. 7. 7a ser companhia para o ouvinte, tornando-se um vínculo de ligação entre o indivíduoe sua comunidade. Esta monografia discute as transformações da cultura popular que ocorremem determinado local a partir da influência do global, através dos processos dedesreterritorialização. Para isso, foi necessário situar os conceitos dentro doreferencial teórico que abordou inicialmente a cultura popular. Os estudos de JesusMartin Barbero (2003) muito contribuem para a idéia de cultura abordada nestetrabalho, quando define a cultura popular como um processo vivo formado por“saberes que carregam simbolicamente a cotidianidade e a convertem em espaço deuma criação muda e coletiva.” E que carrega em si ainda um estilo, ou seja, um“esquema de operações” que se refere ao modo de agir, pensar e se comportar, um“estilo de intercâmbio social, de inventividade técnica e de resistência moral.” NestorCanclini (1999) colabora com essa discussão ao analisar modalidades deorganização da cultura e de hibridação das tradições de classes. Além disso, o autordiscute a idéia das transformações na cultura tradicional e homogênea a partir dainfluência da tecnologia e do contato com os meios de comunicação e demaisculturas. Renato Ortiz (2005) aprofunda a discussão sobre esse tema quando refletesobre os limites em que essa cultura floresce e, como esses mesmos limites, vão sediluindo e se transformando a partir da modernidade. O segundo conceito estudado nessa pesquisa é o de local e global apoiado-se nas idéias de Elenaldo Teixeira (2001) que analisa como a participação docidadão na sociedade civil global (ações locais, realizadas por seus cidadãos, masque apresentam interesse global) pode contribuir nesse processo dereterritorialização de um território cultural e social. O autor discute sobre comosociedade civil, espaço público, esfera pública, poder local, participação política e
  8. 8. 8participação cidadã convergem para a qualificação desta última como condição deaperfeiçoamento do processo democrático. Além disso, Teixeira traz exemplos doestudo de caso realizado em Valente, município do interior da Bahia e mesmo localque se passou o estudo do projeto em questão, no qual analisou as potencialidadese limitações de experiências locais. Territorialização é a terceira temática debatida e, na verdade, permeia todosos outros assuntos abordados aqui e Ortiz (2007) é a principal fonte utilizada sobreesse tema. A idéia de desterritorializar-se leva-nos a observar a diluição dos antigoslimites impostos por uma sociedade, que era cheia de formalidades e cerimônias, eque agora se abre para esse constante fluxo de resignificação do espaço, da culturae do meio de vida que surge com a modernidade. Nessa antiga sociedade a culturapopular crescia no interior de determinados limites, longe dos centros urbanos,mantendo sua pureza e complexidade. Segundo o autor, cada sítio, cada culturaconstituía um território particular. Isso mudou. A modernidade trouxe consigo umanova dinâmica para as sociedades, que passam a interagir, transformar ereterritorializar suas vivências a partir do contato com o outro, num processochamado de mundialização, que acontece através da “desterritorialização dascoisas, gentes e idéias, a proliferação de colagens, pastiches e simulacros, atransfiguração da realidade em virtualidade ou vice-versa.” André Lemos (2005)também colabora com o debate sobre territorialização. Segundo ele “o próprio dohomem é viver e construir na natureza, o seu mundo. A cultura humana é uma des-re-territorialização da natureza”, defendo a idéia de que o homem se vale tanto demeios técnicos quanto simbólicos para reterritorializar-se. Como se trata de um projeto sobre os processos de reterritorialização dacultura local através da programação musical de uma rádio comunitária se faz
  9. 9. 9necessário conhecer em que contexto essa rádio foi criada e está inserida até hoje,bem como saber sobre sua política e valores sociais. Antonio Dias Nascimento(2005) traça o histórico das rádios comunitárias na região sisaleira, entre elas aValente FM, objeto de estudo da pesquisa, bem como analisa a relação entre rádio ecomunidade, destacando o papel da sociedade civil organizada na democratizaçãoda comunicação através desse meio. Sobre rádio comunitária, além de trabalhar osconceitos definidos por Cicilia Peruzzo (1998), a pesquisa dialoga com opesquisador José Ignácio Lopez Vigil (2003) que percorre toda a problemática daespecificidade de emissoras desse tipo, desde suas origens, analisando a linguagemque lhe é própria e as exigências que as presidem, tanto do lado dos locutores comodos gêneros (dramático, jornalístico, musical) e formatos (radiorevista, vinheta).Além dessa definição sobre qual deve ser o papel das rádios comunitárias, ao autortambém se refere à programação musical dessas rádios, o que é o assunto maisrelevante para esse trabalho. Seguindo nessa mesma linha, Dioclécio Luz (2001)também fornece informações pertinentes sobre o universo desses veículos decomunicação, principalmente no que se refere a sua programação. No Brasil são muitos os estudos sobre a programação musical do rádio, masa maioria se refere ao seu formato ideal, aos gêneros musicais tocados. As rádioscomunitárias também despertam o interesse dos estudiosos, principalmente porcausa de sua efervescência nos últimos anos, no entanto, a maioria dos livros etrabalhos sobre o assunto se refere às problemáticas de legislação, as origens, alinguagem própria e, no trato da programação musical, a pesquisa também é dirigidaao formato e sobre a discussão do que se deve tocar numa rádio comunitária, daimportância da qualidade das músicas etc. Assim, o trabalho presente procuraconstatar, através de entrevistas com funcionários e análise das músicas tocadas na
  10. 10. 10programação matutina da emissora, de que maneira a Rádio Comunitária ValenteFM contribui para resignificação do território cultural local a partir da presença doglobal inserido no cotidiano dessas pessoas através de sua programação musical. Esta pesquisa, além de refletir sobre os processos de reterritorializaçãocultural, também auxiliou na compreensão da influência da articulação entre o globale o local na construção da cultura do valentense, além de ter permitido saber qual opapel exercido pelo rádio local nessa relação. Estudando essa articulação edescobrindo a função desse meio de comunicação nesse processo, é possívelcompreender quais transformações culturais essa comunidade passou ao longodesses anos e como isso se reflete no cotidiano desse lugar. Por fim, nota-se que a cultura popular não é algo que morre, porém estásempre em mudança, fluindo, e isso se dá, sem dúvida, pela capacidade que o serhumano tem de interagir com seu território, reconhecê-lo e a partir do contato eexperiência com o outro, significá-lo. Os processos de desterritorialização,territorialização e reterritorialização são constantes na vida do homem, afinal édesse intenso movimento de ir e vir que o ser humano constrói seu próprio mundo.1. Cultura e rádio: reterritorialização do sujeito em seu território simbólico
  11. 11. 11 A idéia de desterritorializar-se leva-nos a observar a diluição dos antigoslimites impostos por uma sociedade, que era cheia de formalidades e cerimônias, eque agora se abre para esse constante fluxo de re-significação do espaço, da culturae do meio de vida que surge com a modernidade. Nessa antiga sociedade, a culturapopular crescia no interior de determinados limites, longe dos centros urbanos,conseguindo manter sua complexidade bem como uma idéia de pureza, já que oscontatos com outras culturas aconteciam de maneira mais lenta e demorada. Cadacultura, cada lugar constituía um território particular. Isso mudou. A modernidadetrouxe consigo uma nova dinâmica para as sociedades, que passam a interagir,transformar e reterritorializar sua vivências a partir do contato com o outro, numprocesso chamado de mundialização. Esse capítulo aborda justamente essasrelações entre local e global e os processos de reterritorialização através da músicatocada no rádio.1.1 Cultura e desterritorialização: onde o local e o global se encontram. Os estudos antropológicos costumam conceituar cultura como o conjuntocomplexo dos códigos e padrões que orientam e coordenam a ação humanaindividual e coletiva. Assim, é certo afirmar que todo indivíduo possui cultura, pois,de algum modo, se relaciona com a sociedade na qual se originou e convive. Oscomponentes de cada grupo social aprendem e aplicam no seu cotidiano essescódigos comportamentais que conduzem, de forma relativamente harmoniosa, asações nesse meio social.
  12. 12. 12 Quando se trata de cultura popular, a maioria dos estudos a define como umacultura inferior, pertencente à massa, ao povo que é subalterno e dominado pelosinteresses da classe dominante que deteria a chamada alta cultura. Outros aindaconfundem cultura popular com as manifestações culturais de uma determinadasociedade, acreditando que só na dança, na tradição, no folclore, no artesanato, namúsica etc, ela se manifesta e se faz presente. Nesses estudos valorizam-se maisos produtos culturais que seus agentes sociais que os criam e consomem. Sendoassim, esses conceitos e visões a cerca do popular não interessam aqui. Deseja-semostrar nesse estudo que cultura popular é um processo vivo, de constantestransformações, as quais envolvem muito mais que os costumes e tradições de umpovo, é algo que faz parte da identidade, da história e do desenvolvimento de cadagrupo social. Os estudos de Jesus Martin Barbero (2003) trazem uma definiçãointeressante de cultura popular. Para ele, cultura popular são “saberes que carregamsimbolicamente a cotidianidade e a convertem em espaço de uma criação muda ecoletiva” (BARBERO, 2003, p.122). O popular carrega em si ainda um estilo, ou seja,um “esquema de operações” que se refere ao modo de agir, pensar e se comportar,um “estilo de intercâmbio social, de inventividade técnica e de resistência moral.”(IDEM, p.122) Esse esquema de operações citado por Barbero revela-nos que essacultura, além de ter autenticidade e beleza, também é um forte elemento derepresentação sociocultural que expressa não só o estilo de vida da classe popular,mas também seu modo de pensar, de sobreviver, de interagir numa sociedade que aengloba - mas nem sempre a considera -, além das estratégias utilizadas para sefirmar, organizar e integrar na memória histórica do meio que a cerca. Como todo processo social, a cultura popular também se desenvolve e setransforma. Essas transformações se dão por diversos fatores: primeiro porque é
  13. 13. 13próprio do homem evoluir, adquirir novos saberes e hábitos; segundo porque acultura faz parte de um sistema que envolve fatores como economia, política,tecnologias diversas e a modernidade de modo geral. Não estando isolada a culturapopular desenvolve-se, transformando-se a partir do contato com todos os outroselementos que compõem uma sociedade. O contato com o mundo externo retira dopopular a idéia de círculo impenetrável, imutável e as diversas relações que seestabelecem criam um sistema de hibridação entre culturas que se comunicam e seinfluenciam mutuamente. “É possível pensar que o popular é constituído porprocessos híbridos e complexos, usando como signos de identificação elementosprocedentes de diversas classes e nações”.(CANCLINI, 2000, p.220-221) As palavras de Canclini nos propõem observar os cruzamentos culturais queacontecem numa sociedade local, principalmente nas novas gerações, quepermitem um re-ordenamento no seu modo de agir e pensar, alterando os vínculosentre o tradicional e o moderno, o popular e o culto etc. As relações sãomodificadas, mas nem por isso pode-se dizer que houve uma perda total datradição, ou “morte” da cultura local. Pelo contrário, como já foi dito, a cultura é umprocesso vivo e pulsante, está em constante transformação, os indivíduos que acompõe conseguem absorver as influências externas, incorporando-as a seu meiode vida com uma fluência própria daqueles que se relacionam sem conflitos com onovo e conseguem manter firme sua identidade. Sendo assim, deixam de existirlimites que segregam e isolam os diversos grupos sociais e suas culturas, criando oque alguns estudiosos chamam de cultura mundializada. No entanto, a rupturadesses limites e a existência de uma cultura mundializada “não implica oaniquilamento das outras manifestações culturais, ela cohabita e se alimenta delas”.(ORTIZ, 2007, p.22).
  14. 14. 14 Essa diluição de limites proporcionada pela mundialização das culturaspermite que sejamos penetrados pela „modernidade-mundo‟, um processo queprovoca certa semelhança de costumes, que, de certo modo, dá sentido àdeterminados comportamentos e conduta dos indivíduos. Isso poderia ser explicadoquando imaginamos o quanto nossa sociedade moderna partilha determinadoselementos de uma coletividade comum, como signos comercias (ex: Coca-cola,Nike, Disney), o cinema, a música pop etc. Todos esses símbolos da modernidade-mundo estão ao redor dos indivíduos em qualquer parte do planeta e, como afirmaOrtiz (2005), isso os torna cidadãos mundiais, pois o mundo penetrou no seucotidiano. Apesar de a modernidade-mundo trazer a idéia de que as relações sociaise culturais entre os diversos grupos sociais não têm mais limites firmementedefinidos de interpenetração, é preciso lembrar que “a quebra das fronteiras, nãosignifica o seu fim, mas o desenho de novos territórios e limites” (ORTIZ, 2005,p.47). Isso significa dizer que à medida que determinadas fronteiras sãotransportadas, o indivíduo traz consigo uma nova visão de mundo proporcionadapela experiência do „desenraizamento‟ de seu território devido o contato com oselementos da mundialização, e essa nova visão de mundo o faz estabelecer limitesoutros e redesenhar seu espaço. Historicamente, o território tem sido definido a partir das relações de poder,visto como fator regulador das relações entre seus membros, ou seja, ele écomposto por ação e poder que se manifestam por pessoas ou grupos. Existemvários teóricos que hoje se debruçam sobre a discussão a cerca de territorializaçãoe costumam se dividir em dois grupos de pesquisa: os materialistas que partem davisão de que o território é constituído predominantemente por características físico-materiais e os idealistas que definem o território, principalmente, pelo “valor
  15. 15. 15territorial”, no sentido simbólico. Rogério Haesbaert (2004) propõe uma perspectivaintegradora dessas duas visões tentando superar a dicotomia material/ideal,“considerando que o território envolve, ao mesmo tempo, a dimensão espacialmaterial das relações sociais e o conjunto das representações sobre o espaço”(CARVALHO, 2007). Essa perspectiva integradora, que enfatiza aspectos políticos,econômicos e simbólicos é interessante e torna possível compreender o que naatualidade vem a ser a complexidade do território. Segundo João Pacheco de Oliveira (1999), “a noção de territorialização édefinida como um processo de reorganização social”, no qual os diversos membrosde determinada comunidade, conectados com outros territórios, não só vivenciamexperiências, como novas categorias são criadas ou transformadas no seu interior,reorganizando a partir daí seu espaço social, cultural e político. Esse novo modelode organização social faz com que os lugares sejam mesclados de experiênciaslocais e mundiais, e é a partir disso que novas territorialidades podem serconstruídas, como síntese das novas experiências. Desse modo, o território seconstitui pela interação de territórios-rede, onde se cruzam as diversasmanifestações territoriais. Esse cruzamento, no entanto, não elimina aparticularidade de cada território, ele apenas vai se fundamentar sob novospatamares, e a sua abordagem se torna cada vez mais variada pela multiplicidadede significações. Cada sociedade, cada cultura está inserida num território próprio, particularque pode ser chamado como seu local de atuação e desenvolvimento. Esse localseria a origem de determinada sociedade, seu espaço geográfico e simbólico, umlugar particular e único, embora não seja isolado nem impenetrável. Para ElenaldoTeixeira (2001 p.54-55), “a sociedade civil situa-se num determinado território, no
  16. 16. 16qual desenvolve suas relações e constrói seus espaços públicos para expressão eparticipação de seus atores.” No entanto, essa sociedade não se desenvolvesozinha, sem interferências de outros territórios, pelo contrário, seus atoressocioculturais estão em constate movimento dentro de um sistema amplo ecomplexo, que reorienta, modifica e estimula seu comportamento social e cultural. Olocal deixa de ser um espaço “puro”, “intacto” a partir da existência desse fluxo quelhe permite assimilar e re-significar suas ações. Ele não deixa de existir, mas passaa se relacionar com o mundo em meio ao processo de globalização, no qual há umaenorme mistura de povos, raças, culturas, filosofias, modos de governabilidade etc.“A globalização reforça identidades, internacional e extraterritorialmente e, de formacontraditória, também na esfera local. O local não desaparece, mas a noção deespaço passa a ser compreendida mais social que territorialmente.” (WATERMANapud TEIXEIRA, 2001) O local e o global articulam-se entre si, no entanto, não se confundem. O localpermanece local, com suas particularidades, interesses, mecanismos e autonomia.O que acontece é uma interpenetração de elementos que fazem parte da esfera doglobal, uma hibridação de símbolos, códigos e fluxos. Isso se dá em todos ossetores da sociedade, ou seja, no campo político, no econômico, no social e,especialmente, no cultural. Um aspecto que não pode deixar de ser mensuradonessa relação entre local/ global é a importância dos meios de comunicação einformação que permitem e proporcionam esse intercâmbio de forma instantânea econstante, eles aproximam e misturam o que antes se encontrava separado. Osmeios de comunicação se tornam, cada vez mais, reguladores das mais diversasatividades humanas. Criam a chamada sociedade da informação, na qual o indivíduoé bombardeado diariamente por informações que são utilizadas intensivamente
  17. 17. 17como elemento da vida econômica, social, cultural e política, baseada, sobretudo, nosuporte tecnológico. E tudo isso acarreta mudanças na maneira de uma sociedadeagir, pensar, produzir etc. E, obviamente, na valorização e manifestação de suacultura. A articulação entre o global e o local permite que o local sofra modificações,como se fosse um processo de mutação, que resultam na constante re-significaçãode seu espaço material e imaterial. Global/local “se realizariam no espaço de suasfronteiras, possuindo capacidade de definir sua própria centralidade e contracenarcom o que lhe é externo”. (ORTIZ, 2007, p.60). Os indivíduos que constituem essasociedade cultural-local, relacionando-se com o global, passam pelo processo dedesterritorialização de seu território local-cultural. Dessa maneira um novo território éredesenhado, no entanto, a identidade dessa sociedade mantém-se conservada. O conceito de desterritorialização nos permite entender o espaçoindependentemente do meio físico, pois espaço aqui não se refere apenas a umterritório geográfico, material, mas refere-se também ao espaço imaterial, quealcança dimensões muito mais amplas e complexas. Desterritorializar-se, então,seria o indivíduo movimentar-se entre fronteiras, criando linhas de fuga que opermite re-significar seu meio e para isso ele não necessita, necessariamente, sairde seu território local, já que diversos símbolos e signos de outros espaços sociais eculturais infiltram-se no seu cotidiano. Esse contato com o outro, mesmo em seupróprio meio, o faz tomar conhecimento daquilo que é diferente de si, havendo o quepoderíamos chamar de „desenraizamento‟ do sujeito. Assim, os processos dedesterritorialização levam-nos a crer numa unificação de espaços (tangíveis eintangíveis), nos quais lugares e culturas se globalizam, onde cada local revela omundo devido à presença de diversos pontos de intercomunicação entre si.
  18. 18. 18 é preciso pensar a desterritorialização como uma potência perfeitamente positiva, que possui seus graus e seus limiares (epistratos), e sempre relativa, tendo um avesso, tendo uma complementaridade na reterritorialização(...) (DELEUZE e GUATTARI apud LEMOS, 2005.) Segundo Ortiz, são vários os sinais de desterritorialização da cultura e estemovimento “não se consubstancia apenas na realização de produtos compostos, eleestá na base de formação de uma cultura internacional-popular cujo fulcro é omercado consumidor” (ORTIZ, 2007, p.110). A desterritorialização da música é umexemplo de como determinados produtos culturais transbordam fronteiras saindo douniverso local para o global. Nesse caso, segundo Canclini (2000, p.217) os meiosde comunicação, a exemplo do rádio e da televisão, contribuíram para que issoocorresse, ampliando em escala nacional e até mesmo internacional músicas derepercussão local. A música „flutua‟ pelos espaços, ultrapassando fronteiras, não sófísicas, mas também imateriais proporcionando uma relação de trocas e diferentesverbalizações entre os indivíduos. A música que nos chega aos ouvidos, às vezesem outra língua, num outro ritmo de algum modo chama a atenção e penetra nocotidiano das pessoas através desse processo de desterritorialização, que pode sermais ou menos intenso de acordo com o contanto, com conhecimento que se temdesse tipo de som. Esse processo provoca o „nascimento‟ de uma nova natureza,que se apodera desses novos elementos e re-significa seu território cultural,trazendo para seu “quintal” uma diversidade de símbolos e sons que passam a fazerparte de seu conhecimento de mundo. Para entendermos ainda melhor essa interação da música com adesterritorialização basta tomarmos como exemplo como se dá a relação entre asnovas gerações e os diversos sons. Hoje, com a ajuda dos meios de comunicação,principalmente do rádio e da televisão, e da internet, um jovem que vive no interior
  19. 19. 19do Nordeste, numa cidadezinha afastada da capital, „curte‟ o mesmo tipo de somque os jovens dos grandes centros urbanos. A globalização da cultura permite queele escute no seu rádio, deitado no seu quarto ou numa roda de amigos, a cançãoque é sucesso nas paradas americanas, com seus astros do pop ou o som do hiphop, do reggae jamaicano que agita grupos de jovens de cidades grandes. Aliás,realizando uma rápida pesquisa das músicas mais tocadas nas rádios comerciaisbrasileiras, percebe-se um forte grau de influência e a constante presença dasmúsicas internacionais em suas programações. A programação das rádios é feitapelos sucessos do momento, as músicas que ganham o carisma do público e sealastram por todo país invadindo até mesmo os territórios mais afastados doscentros urbanos. O contato com esse som “estrangeiro,” “forasteiro” é só um primeiro passo, éa desterritorialização, que inicialmente causa estranheza, mas também despertainteresse. O segundo passo acontece quando há uma aceitação dessa canção euma significação dela no cotidiano desse jovem, ou seja, ele a absorve e, ao mesmotempo, a integra ao seu meio, ao seu mundo particular. Fica claro que, por possuirfluidez e diluir limites extraterritoriais, a música é um elemento constante eimportante na desterritorialização e reterritorialização do sujeito. A modernidade-mundo não significa apenas desterritorialização. Este é um primeiro passo que ela deve percorrer, mas, para existir enquanto tal, seus objetos devem se reterritorializar. Uma cultura mundializada só faz sentido quando enraizada em nossos hábitos mais prosaicos. Ela necessita localizar-se neste ou naquele lugar, realizar-se desta ou daquela forma. (ORTIZ, 2005, p. 42) Toda desterritorialização é acompanhada por uma reterritorialização,processo no qual o homem se utiliza tanto de meios técnicos quanto simbólicos para
  20. 20. 20realizá-lo. Reterritorializar-se significa criar outro espaço significativo, ou seja, umanova construção do nosso território, o que também poderia ser entendido comonovos encaixes culturais. Tomemos mais uma vez o mundo da música comoexemplo para explicar esse processo. O universo musical é tão amplo e complexoque, na maioria das vezes, é difícil classificar as músicas em categorias distintas.Isso ocorre porque a música é híbrida, permite uma mistura de elementos tãovariados que nem sempre é possível afirmar que ela pertença, exclusivamente, aesta ou aquela cultura. A música brasileira é uma prova disso, pois carrega em seu“DNA” influências européias, africana e indígena e é justamente essa variedade decomponentes que a torna tão característica, tão particular. Levando a discussãopara o âmbito local/regional essa tentativa de classificação se torna ainda maiscomplicada de se realizar. No senso comum, e também entre alguns estudiosos, amúsica regional é aquela que caracteriza um povo de determinada região, sejaatravés dos instrumentos utilizados nos arranjos, na composição da letra que falasobre os costumes do lugar ou o ritmo que se disseminou naquele território. Seriaparte da cultura que carrega traços da identidade de cada região, de cada local.Assim, entende-se que a música regional possui uma identidade própria que aidentifica e diferencia. Carrega em sua composição elementos próprios de suatradição e as memórias de um território particular. As músicas das diversas regiõesdo país comprovam isso. As canções gaúchas conservam a tradição de seu povo,seja no ritmo ou na linguagem, assim como a música nordestina, que com o baião eo forró pé-de-serra traduzem a vida, os costumes e anseios de quem vive nessaregião do Brasil. No entanto, na modernidade-mundo na qual nos encontramos, as culturas serelacionam e se desterritorializam constantemente e isso acontece também com as
  21. 21. 21produções culturais, inclusive com a música regional/local. Esta também sereterritorializa partindo da hibridação com outros estilos. Essa música típica dedeterminado lugar convive ao lado das inovações tecnológicas da música pop, numatroca de ritmos e técnicas musicais e instrumentais e, de algum modo, incorporaelementos dessa música de fora, seja na forma de um novo instrumento utilizado,num ritmo diferente adaptado ao tradicional, mas que também traz harmonia ediversidade à produção. Nesse processo, há uma re-elaboração de sua identidadecultural, numa superação de fronteiras entre a música regional e a música pop, entreo folclórico e o tecnológico. Essa incorporação harmoniosa de elementos conhecidosatravés dessa troca é o que podemos chamar de reterritorialização. Na reterritorialização o sujeito se desloca (fisicamente ou não) entre osmundos (tangíveis ou intangíveis) e retorna ao seu território com uma nova visão,com uma nova bagagem que passa a fazer parte de seu modo de viver e influenciana sua produção e interação na sociedade em que atua. A reterritorializaçãoacontece de várias formas e em todas as áreas de atuação humana. É um processofluido e contínuo e é influenciado também por muitos elementos, entre eles os meiosde comunicação de massa. O rádio, o meio que se insere mais rapidamente entre asdiversas classes populares, tem um papel fundamental nesses processos dedesterritorialização-reterritorialização das culturas populares. Ao mesmo tempo emque traz o global para dentro do local (e vice-versa), numa dinâmicadesterritorializante, ele também influencia o indivíduo na reterritorialização de seuterritório, ou seja, altera, através do fluxo constante de informações que irradia, ocomportamento e a visão do sujeito sobre o seu meio, que influenciado pelo quevem de fora, re-significa suas ações sociais e culturais.
  22. 22. 22 O constante ir e vir do ser humano é o que lhe permite ser o que é: um serdistinto e único capaz de transformar seu meio da maneira que melhor lhe convir.Para isso, o homem desenvolveu mecanismos para se mover entre os mundos edescobrir novas formas de habitar e desenvolver-se, de evoluir e criar, afinal comodiz Lemos (2005) “próprio do homem é viver e construir na natureza, o seu mundo. Acultura humana é uma des-re-territorialização da natureza.”1.2 Cultura e música nas ondas do rádio Quando falamos de processos de desreterritorialização um aspecto que nãopode deixar de ser mensurado é a importância dos meios de comunicação einformação. Esses meios permitem e proporcionam o intercâmbio entre o local e oglobal de forma instantânea e constante, aproxima mundos antes separados. Orádio, a mídia que interessa a esse estudo, é um grande difusor cultural,possibilitando que as pessoas tenham contato e possam se identificar comcaracterísticas das diversas culturas promovendo assim uma constante hibridizaçãodestas. É um veículo de comunicação que pode ser caracterizado comoessencialmente auditivo, formado pela combinação do binômio: voz (locução) emúsica. Nascido, tal qual o conhecemos hoje, em 1907, esse veículo decomunicação logo se popularizou e alcançou os territórios mais isolados geográficae socialmente. O rádio passa a ser companhia para os solitários, seja na moradia, no trabalho urbano ou rural, na caminhada, ou na viagem. Tornou-se um veículo de ligação entre o ouvinte e as dimensões ausentes do mundo no qual ele vive, incluindo-se aí as ligações entre os indivíduos e a sua comunidade, (DIAS, 2005, p.16)
  23. 23. 23 Na América Latina, os argentinos foram os pioneiros em descobrir eexperimentar o fascínio do rádio. Realizaram em 27 de agosto de 1920, o primeiroprograma radiofônico dirigido a um público aberto. No Brasil, a primeira experiênciaradiofônica foi em 1922, mas foi no ano seguinte com Roquette Pinto, que omovimento do rádio começou a crescer e se destacar. A idéia de Pinto era que orádio tivesse caráter educativo, característica essa que nunca foi alcançada de fatopelo veículo. No princípio, o rádio brasileiro era dominado por programas eruditos ecom o tempo a programação das emissoras foi se adaptando até chegar àtransmissão de programas populares, ou seja, o espaço inicial ocupado pelatransmissão de óperas, conferências e músicas clássicas, foi cedendo lugar para aapresentação de cantores e compositores de sucesso na época, além de incluirprogramas para públicos distintos como, por exemplo, o infantil. Atento ao crescimento e ao enorme potencial do rádio, tanto em alcancequanto em influência da opinião pública, Getúlio Vargas lançou nos primeiros anosde seu governo dois decretos de lei (nº 20.047 em 1931 e nº 21.111 em 1932) queestruturaram os serviços de radiocomunicações brasileiros. Foi a partir do Decreto nº 20.047 que o leque dos serviços normatizados foi ampliado, incluindo-se também, além das convencionais radiotelegrafia e radiotelefonia, a radiofotografia e a radiodifusão, pela primeira vez assim denominada. (...) Outros princípios oriundos de 1924, como a finalidade educativa e a obrigatoriedade de nacionalidade brasileira aos concessionários de radiodifusão também foram mantidos. (...) Um ponto central (no decreto nº 21.111) foi regulamentar o processo de outorga para os serviços de radiodifusão: as concessões deveriam ser objeto de decreto presidencial, com prazo de 10 anos, „renovável a juízo do governo‟. (RAMOS E SANTOS, 2007, p.310)
  24. 24. 24 Não se pode deixar de mencionar que essa finalidade educacional do serviçode radiodifusão estava baseada por interesses de difusão da ideologiagovernamental, inclusive era o veículo proclamado como de interesse nacional e definalidade educativa. Com a influência do governo e da elite empresarial, os formatosdos programas foram se tornando cada vez mais populares, com o objetivo dealcançar maior número possível de brasileiros e, com isso, transformar o rádio numveículo de manipulação de opinião. A radiodifusão foi um importante instrumento dadisseminação da ideologia do governo em épocas como a Era Vargas e a ditaduramilitar, tanto Vargas quanto os militares percebiam o poder de alcance e também demanipulação que o rádio tinha sobre as massas e utilizavam-se dele para disseminarseu poder, sua ideologia e manter o controle sobre a sociedade. O rádio é uma armapoderosa, de ampla penetração e sedução, por isso os governos, não só brasileiro,mas do mundo inteiro, sempre se utilizaram dele e procuraram manter a dominaçãosobre a sua atuação. As telecomunicações no Brasil passaram por diversosprocessos e as leis que regem esses segmentos foram se aprimorando, no entanto,com relação à radiodifusão, o Código Brasileiro de Telecomunicações, promulgadoem 1962, “não alterou de forma significativa o status quo da prestação dos serviços,garantindo aos radiodifusores maior estabilidade empresarial, com a imposição deprazos dilatados e renováveis das outorgas.” (RAMOS e SANTOS, 2007, p.327) O movimento da radiodifusão extrapolou barreiras e as rádios se espalharampor todo país, em cada canto nascia uma emissora levando para os brasileirosinformação, entretenimento e, principalmente, muita música. As diversas maneirasde se fazer rádio foram surgindo, cada uma baseada no interesse de quemcomandava as diretrizes da emissora. São muitas as classificações para asatuações das rádios e, em alguns casos, várias até se confundem. As rádios
  25. 25. 25comerciais são as mais comuns e existem milhões espalhadas em todo mundo,seguem os princípios do mercado capitalista, visando o lucro e a audiência damassa, a maior parte de sua programação é composta por programas musicais e deentretenimento. No Brasil, as emissoras comerciais, geralmente, pertencem àsgrandes redes e/ou a grupos empresariais que monopolizam o setor decomunicação no país, e atendem aos interesses econômicos e políticos de seusdonos. A concentração dos meios de comunicação de massa nas mãos dessesgrupos acirrou a discussão sobre a democratização da comunicação e novosmodelos de se fazer rádio começaram a se desenhar na América Latina no fim dosanos 60 e início de 1970, nesse contexto, surgiram as primeiras experiências derádios livres, mais tarde chamadas de comunitárias. Nas últimas três décadas as emissoras radiofônicas com estilos diferenciadosde programação começaram a crescer e ganhar destaque na América Latina, ondese começou a observar uma intensificação das experiências participativas do uso dorádio. Os movimentos políticos sociais latino-americanos contribuíram, e muito, paraque se pensasse numa reformulação dos meios de comunicação para que estesouvissem e dessem voz aos setores marginalizados da sociedade. Inicialmente, asrádios, muitas vezes apoiadas pela Igreja Católica e por sindicatos, levavam para oar assuntos relacionados à educação e a prática religiosa; no entanto, percebeu-seque o rádio era um instrumento valioso e que poderia ser utilizado para levarreivindicações e transformar realidades. Na América Latina surgiu uma variedade demodelos de fazer rádio, por exemplo, as rádios revolucionárias, guerrilheiras e livres,porém todas com o propósito inicial de promover transformações sociais (cada umabuscando esse ideal segundo os seus princípios). Uma experiência foi a da rádio “A
  26. 26. 26voz do mineiro” na Bolívia, que levava ao ar as lutas e interesses dos mineiros daSiglo XX. É a partir da década de 70 que o uso comunitário do rádio começa a seintensificar, impulsionando o surgimento de novas experiências e projetos de rádiopor parte de segmentos populares na América Latina. O Brasil acompanhou essesexperimentos vividos por seus “vizinhos” e também tem exemplos de rádios livres(mais tarde chamadas de comunitárias), que eram mescladas aos movimentossociais e comunitários. A origem das emissoras comunitárias no Brasil relaciona-seas experiências de rádios livres nos anos 70 e de alto-falantes na década de 80.Nesse período, várias emissoras comunitárias surgiram no país, que passou acontar com uma série de modelos de comunicação comunitária, nos quais o maiorinteresse era levar informação, consciência, cultura, lazer e voz àqueles excluídossocialmente. A Favela FM 104,51 é um destaque de rádio comunitária no Brasil.Criada em 1981 por favelados, a rádio de Belo Horizonte, situada na favela NossaSenhora de Fátima, é reconhecida pelo seu caráter social e comunitário, além deprestar serviços de utilidade pública à população da favela, a emissora tem umtrabalho social contra drogas, debate temas de interesse social como eleições, votoconsciente, segurança, saúde etc. A Favela FM também se destaca por fazer umjornalismo sério, realista e com denúncias, por incentivar a educação, a cultura e olazer de sua comunidade. A rádio é sem fins lucrativos e recebe apoio de sindicatos,empresas, ONG´s entre outros. A proliferação atual de emissoras comunitárias é o resultado de um processo de mobilização social pela regulamentação da radiodifusão de 1 A Favela FM é denominada como rádio comunitária, segundo informações que constam no histórico apresentado no site da emissora, www.radiofavelafm.com.br, acessado em 20 de dezembro de 2009.
  27. 27. 27 baixa potência, cujo marco histórico é o dia 10 de abril de 1995, data em que o Ministro das Comunicações, Sérgio Motta, recebeu, em audiência, um grupo de representantes de rádios livres e comunitárias. Nessa ocasião ele reconheceu, publicamente, a existência de milhares de emissoras de baixa potência em todo país e assumiu o compromisso de regulamentar seu funcionamento. (PERUZZO, 1998, p.5) Assim, em 1998, o governo brasileiro criou a lei 9.612 para regulamentar osegmento dessas rádios no país. Essa lei estabelece que as comunitárias “tem porfinalidade o atendimento à comunidade beneficiada, com vista á criação deoportunidades de idéias, difusão cultural (...)”, devem ter “programação comfinalidades educativas, artísticas, culturais e informativas.” Muitos estudiosos e,principalmente, radioamadores, consideram essa lei contraditória e excessivamenteburocrática. Essas opiniões se baseiam no fato de que a 9.612/98 limita aspossibilidades dessas emissoras se manterem, já que veta a busca por comerciais,há imposições a respeito da faixa, da potência, do alcance etc. Afirma-se que a lei érigorosa demais com as emissoras de baixa potência, não só porque incentivam epromovem a disseminação da informação e da cidadania, mas porque contrariam osinteresses das grandes emissoras comerciais que não aceitam perder audiência,espaço político, muito menos dinheiro da publicidade. As rádios comunitárias sãocomumente batizadas de piratas por aqueles que são contra o movimento (entende-se aqui por governo, redes e empresas que controlam os meios de comunicação),pois, segundo Peruzzo (1998, p. 7), “são portadoras de um conteúdo político queamedronta os três poderes constituídos”. Enfim, é evidente que a disseminação das rádios comunitárias no país não sepauta apenas no fato de o rádio ser um instrumento de longo alcance, mas,principalmente, porque a emissora comunitária tem papel de mobilizar, promover eincentivar o desenvolvimento e a transformação na comunidade na qual está
  28. 28. 28inserida. A emissora comunitária tem um caráter diferenciado, pois não objetivaapenas entreter o ouvinte, mas contribuir para o desenvolvimento da comunidade,incentivando a cultura, a democracia, a transparência na administração pública,além de ser uma porta-voz da população. Para cumprir todas essas metas, a rádiocomunitária deve ter uma associação comunitária para geri-la, uma programaçãodiferenciada e atender a diversas exigências legais. “A rádio comunitária é a porta-voz da gente, do ser humano, do povo. O que ela fizer, o que for dito, é a voz dacomunidade lá - com seus erros e seus acertos.” (LUZ, 2001, p. 27) No entanto, nem toda rádio que se denomina comunitária o é de fato. CecíliaPeruzzo (1994, p. 9) diz que existem pelo menos quatro tipos de emissoras que seintitulam comunitárias; as que são eminentemente comunitárias, que seguem ummodelo de gestão e participação popular, sem fins lucrativos; aquelas que sãocontroladas por poucas pessoas, têm um dono, mas prestam algum tipo de serviço acomunidade; há ainda aquelas que mantém uma programação bem semelhante asemissoras comerciais, sem vínculos com a comunidade local e também existem asrádios que se dizem comunitárias, mas que são ligadas à políticos ou candidatos àcargos eletivos, que se utilizam do rádio para fazer campanha eleitoral. Essavariedade de comportamentos pode confundir e até mesmo incentivar o uso determos pejorativos para com as emissoras realmente comunitárias, ou seja, aquelasrádios que são um produto da comunidade, que não tem fins lucrativos, que temuma programação interativa com a participação direta da população, valoriza eincentiva a cultura local etc. Diversos autores concordam com essa classificaçãofeita por Peruzzo, entre eles Denise Cogo e Augusto Coelho. No entanto, hápesquisadores mais flexíveis e com uma visão menos carregada de ideologia, que
  29. 29. 29se pautam na observação de cada realidade. É o caso de José Ignácio Vigil queconsidera rádio comunitária aquela que Quando uma emissora promove a participação dos cidadãos e defende seus interesses; quando responde aos gostos da maioria e faz do bom humor e da esperança a sua primeira resposta; quando informa com verdade; quando ajuda a resolver os mil e um problemas da vida cotidiana; quando em seus programas são debatidas todas as idéias e todas as opiniões são respeitadas; quando se estimula a diversidade cultural e não a homogeneização mercantil; [...] quando não se tolera nenhuma ditadura imposta pelas gravadoras; quando a palavra de todos voa sem discriminações ou censuras – essa é uma rádio comunitária. (VIGIL, 2003, p. 506) Essa visão realista sobre a atuação das emissoras comunitárias percebe aimpossibilidade de se enxergar a comunicação popular apenas sob uma perspectivapositiva, levando em consideração que não se trata de uma receita única de fazerrádio, é preciso perceber diferentes níveis de atuação, de acordo com a realidade decada território. A própria Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC)concorda que a classificação dessas rádios é variada. rádio comunitária, rural, rádio, rádio participativa, rádio livre, alternativa, popular, educativa... se as estações de rádio, as redes e os grupos de produção que constituem a AMARC se referem a elas mesmos por meio de uma variedade de nomes, suas práticas e perfis são ainda mais varia dos. (BAHIA, 2006) Assim, para qualificar uma emissora como comunitária ou não é preciso seconsiderar os diferentes níveis de atuação desta, levando-se em conta asdificuldades financeiras, técnicas e humanas, a cultura local, a realidade de cadacomunidade. Podemos dizer então que se uma rádio pode não ser gerida pelacomunidade local, mas apresenta uma programação interessante e presta serviçocomunitário ou outra que é gerida por um conselho comunitário, mas ainda não
  30. 30. 30conseguiu fazer uma programação que valorize a cultura local, elas não deixam deser comunitárias, apenas atuam em diferentes níveis de atuação comunitária. A programação da rádio comunitária é outro assunto que gera debates ediversos autores estudam e opinam sobre qual seria a programação ideal para essetipo de emissora. Segundo Luz (2001), a grade de programas de uma emissoradesse tipo deve ser diversificada, plural, prestar sempre serviço comunitário apopulação e transmitir cultura. Mas a realidade é um pouco diferente, pelo menos namaioria das rádios comunitárias da região sisaleira, já que os programas musicaissão os mais presentes e ocupam quase todo espaço na programação, pois o custode produção é mais baixo e essas emissoras costumam operar com muito poucodinheiro. Reconhece-se que algumas emissoras comunitárias reproduzem o modelo de emissoras comerciais no que se relaciona com conteúdo musical, que se estende por horas seguidas, intercalado com rápidas inserções para recados e diálogos comunitários. Em muitos casos, os próprios coordenadores das rádios admitem esta prática para não perderem a audiência para as emissoras comerciais, sendo obrigados, portanto, a mesclar a programação que, de acordo com o projeto, deveria focalizar questões voltadas para o desenvolvimento 2 sócio-econômico e cultural da sociedade. (BAHIA, 2010 ). A discussão então gira em torno de que música se deve tocar numa rádiocomunitária. Sabe-se que as rádios comerciais seguem a lógica do mercado e daindústria cultural, tocam o que vira sucesso, as músicas que são mais massificadasnas grandes emissoras e que logo caem no gosto popular. “Em geral, os sucessosse identificam com as listas que as gravadoras promovem.” (VIGIL, 2003, p. 343)Essa é a lógica das comerciais, pois estão numa busca constante e desenfreada 2 Não foi possível encontrar a data de publicação do texto.
  31. 31. 31pela audiência. O que interessa no meio comercial é ter muitos ouvintes econsumidores em potencial, para que através da publicidade essas rádios possamse sustentar. As rádios comerciais são, principalmente, emissoras paraentretenimento, por isso sua programação é quase toda musical. Dioclécio Luz afirma que as rádios comunitárias devem tocar músicas quefogem dessa linha da indústria cultural, da fábrica de sucessos. “Devemos ouvirmúsicos independentes, aqueles que estão mais preocupados em fazer arte do querepetir o que se toca por aí.” (LUZ, 2001, p.76). Para ele, a rádio comunitária deveincentivar a divulgação dos trabalhos dos artistas local e o locutor deve ter um papelde educador do gosto popular. Essa é uma linha um tanto perigosa de se seguir,pois trabalhamos aqui com o valor e poder da diversidade cultural. O rádio invade ascasas e leva em todas as direções uma quantidade infinita de produção cultural ejulgar a qualidade, o valor ou o que quer seja dessa produção é um trabalhocomplexo e minucioso que varia de olhar para olhar, de pessoa pra pessoa, decultura pra cultura. Não cabe aqui uma análise desse tipo, pretende-se apenas sabercomo a música tocada numa rádio comunitária interfere na desterritorialização dosujeito dessa comunidade. Numa visão um pouco mais ampla, Vigil (2003) traz uma reflexão interessantequando afirma que o desafio das emissoras consiste em atender as preferênciasmusicais do público, ao mesmo tempo em que oferece alternativas que permitamampliá-los. O autor chama a atenção para o fato de que o radialista e os produtoresde programas radiofônicos não devem se prender a moralismos exagerados, pois háde se levar em conta que os gostos variam e as sensibilidades também. As rádioscomunitárias devem tocar de tudo um pouco, privilegiando as canções de bom gostoe qualidade. E a música internacional deve ser tocada na programação musical de
  32. 32. 32uma emissora comunitária? Segundo o autor todo estilo pode ser tocado. “Não hálugar para racismo musical. Não é preciso negar o que é de fora para afirmar o queé nosso. (...) Cabe ao bom senso do radialista manter esse sábio balanço entre asnacionalidades dos discos.” (Vigil, 2003, p.345) Todas essas definições são pertinentes e devem ser praticadas, contudo, oque acontece na prática é que muitas rádios comunitárias, quando se trata demúsica, acabam repetindo os formatos dos programas das emissoras comerciais,tocando as canções de sucesso no momento, atendendo as demandas do mercadofonográfico sem se esforçar para cumprir um de seus deveres que é valorizar epromover também a cultura local. A rádio comunitária deve tocar de tudo, sabendodosar as proporções e lutando para fugir da guerra da audiência e do comodismo doservilismo musical. Além disso, não é só colocar uma música no ar e pronto. Épreciso criar estratégias para que a programação se mantenha interessante, mantero equilíbrio entre os gêneros tocados, misturando os ritmos, combinando-os paramanter um programa vivo e atraente como o é o próprio rádio. É necessário atenderaos pedidos da população, mas não ser escrava desses pedidos. A programação daemissora comunitária deve deixar claro o perfil da rádio, ou seja, definir seu papelespecífico diante de seu ouvinte para que este seja atraído pelo que a emissora temde melhor.
  33. 33. 332 . O local e o rádio: a Valente FM e seu território de atuação O rádio cria laços com a comunidade na qual está inserido e, se tem carátercomunitário, é também o porta-voz do cidadão. No interior, em regiões maisafastadas dos grandes centros urbanos, o rádio é mais que companhia, é tambémum representante das lutas e anseios da população local. A região sisaleira daBahia, localizada no semi-árido nordeste do estado (a pouco mais de 200 km deSalvador), com quase 800 mil habitantes distribuídos em 25 municípios, é uma provada importância do rádio no desenvolvimento de um território. Com um clima seco euma vegetação caracterizada pela caatinga, cerrado e vegetação arbórea aberta, aregião tem como principal atividade econômica o cultivo e comercialização do sisal.É um território culturalmente diversificado, que carrega ainda fortes traços dasmanifestações tradicionais do sertanejo nordestino como o reisado, a literatura decordel, a festa da Quixabeira etc. É também uma região conhecida por ter ummovimento social atuante e diversas entidades de associativismo e cooperativismoespalhadas por seus municípios. Por ter um caráter tão mobilizador, o movimentodas rádios comunitárias floresceu por aqui no início dos anos noventa e muitosmunicípios passaram a ter uma emissora comunitária atuando na comunidade. Issotrouxe para o território um novo olhar sobre a importância da comunicação nodesenvolvimento de uma sociedade. Incentivado pelo sucesso dessas rádios na região, o movimento social passoua experimentar e investir em iniciativas que favorecessem a comunicação social noterritório. O Movimento de Organização Comunitária (MOC) , organização não-governamental que atua na região há mais de quarenta anos e apóia as rádios
  34. 34. 34comunitárias, foi um dos primeiros a desenvolver um projeto voltado para a área. Nofinal de 2001 e início de 2002 lançou, em parceria com outras entidades da região eo Instituto Credicard, o projeto Jovens Comunicadores, no qual vinte e sete jovensde nove municípios da região foram capacitados para trabalhar e assessorar asociedade civil organizada na área de comunicação. Com oficinas teóricas epráticas, os jovens aprenderam a fazer e pensar programas de rádio e boletinsinformativos que debatessem assuntos importantes para o desenvolvimento daregião, como por exemplo, cultura, políticas públicas, participação e cidadania etc. Oprojeto durou três anos e como resultado trouxe para a região sisaleira a AgênciaMandacaru de Comunicação e Cultura (AMAC). Criada em julho de 2005, por quinzejovens oriundos do projeto Jovens Comunicadores, a AMAC, sediada no municípiode Retirolândia, produz diversas peças que são veiculadas nos meios impressos,radiofônicos, virtual, em vídeo e fotos. Os produtos da Agência procuram darvisibilidade às iniciativas do movimento social, aos assuntos ligados ao bem-estar dacriança e do adolescente, aos direitos humanos etc, seu maior parceiro é o MOC.Praticamente nesse mesmo período de planejamento e criação da AMAC, outraentidade “nasceu” na região. Em 2004, foi criada a Associação de RádiosComunitárias do Sisal (ABRAÇO-SISAL) com o objetivo político de contribuir para aefetivação de oportunidades locais de democratização da comunicação na regiãosisaleira da Bahia, passando a existir juridicamente em 2005, com a realização deuma Assembléia Geral para aprovação de seu marco legal, eleição e posse dadiretoria e construção do seu planejamento estratégico. Na prática, a ABRAÇO-SISAL presta uma espécie de assessoria às rádios comunitárias afiliadas,fornecendo capacitação para locutores, diretoria e gestores, além de discutir,defender e orientar as emissoras nas questões ligadas à legalização. Atualmente a
  35. 35. 35ABRAÇO-SISAL atua diretamente em quinze municípios do território sisaleiro. Semfins lucrativos, a associação conta a parceria de diversas entidades do movimentosocial. Outra entidade da sociedade civil organizada que também vem tentandodesenvolver algum trabalho relacionado à comunicação é o Conselho Regional deDesenvolvimento Rural Sustentável da Região Sisaleira da Bahia (CODES-SISAL).Em fevereiro de 2008, o CODES-SISAL elaborou um plano territorial dedesenvolvimento determinando seis eixos prioritários de desenvolvimento, entre eleso da comunicação. Este eixo tem por finalidade buscar o fortalecimento dasentidades do movimento social do território do sisal em relação às ações ligadas àcomunicação a nível interno e externo. Como se pode notar, o movimento social daregião sisaleira, incentivado pela atuação das rádios comunitárias, vem, ao longodos últimos anos, ampliando suas ações no que se refere à comunicação. É possíveldestacar em meio aos municípios da região, as ações ocorridas na cidade deValente, que sediou até o ano 2009 a ABRAÇO-SISAL, é sede do CODES-SISAL epossui uma das mais antigas emissoras comunitárias no ar. Valente está localizada a 240 km da capital, e é uma típica cidade do interior.Segundo o IBGE possui aproximadamente vinte e dois mil habitantes, tendo suaeconomia baseada no cultivo do sisal e na agricultura familiar. Além dessasatividades o município é ainda impulsionado economicamente por duas grandesempresas: a Via Uno (empresa de calçados) e a Associação de DesenvolvimentoSustentável e Solidário da Região Sisaleira (APAEB-Valente), empresa quecomercializa sisal e seus artefatos. O município é reconhecido pela força domovimento social e organização popular mantendo até hoje diversas entidades
  36. 36. 36atuantes na luta por uma sociedade mais justa e igualitária. Segundo ElenaldoTeixeira (2001), A base do processo organizativo da sociedade de Valente concentra- se no meio rural, entre os pequenos produtores e trabalhadores sem terra, em torno de cerca de 50 associações comunitárias, situadas nos povoados. (...) Merece destaque o Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, que além de atuação especificamente sindical, com forte liderança (...) realiza capacitação, educação e discussão política sobre a problemática da mulher. (TEIXEIRA, 2001, p 175). Foi a partir dessa articulação da sociedade civil organizada de Valente e doterritório, e da necessidade de se comunicar de forma mais aberta e democráticaque o movimento social e a organização popular passaram a contar com o rádiocomo instrumento de mobilização e transformação social na região. Segundo apesquisa realizada pelo professor Antonio Dias (2005), as rádios comunitárias„nasceram‟ no território do sisal a partir de dois contextos: pela mobilização dosmovimentos sociais que precisavam se comunicar melhor com suas bases e pelainiciativa privada. “O principal objetivo nesta investida era o de “dar voz ao povo”, ouseja, de construir um espaço onde a comunidade pudesse ouvir a si mesma e ondeas entidades pudessem conversar e discutir com ela, além de informá-la.” (DIAS,2005, p.24) A Rádio Comunitária Valente FM foi fundada em fevereiro de 1998, época emque o país estava com um forte movimento pela legalização desse segmento.Algumas entidades da sociedade civil local (APAEB-Valente, Sindicato dosTrabalhadores Rurais, Fórum da Cidadania etc) discutiam esse projeto há mais dedois anos. Os preparativos para implantação da rádio comunitária foramcoordenados por representantes da APAEB, que cuidaram do envolvimento deoutras entidades para cuidar da Associação. A entidade também financiou os
  37. 37. 37treinamentos iniciais. A programação musical consistia (e ainda hoje é assim) emtocar de todos os estilos um pouco; o sucesso da mídia, forró, internacional, músicade artistas da cidade e da região etc. Para o jornalismo foram planejados boletins dehora em hora, um jornal pela manhã e um rádio revista de uma hora, ao meio dia.Além dessa programação, sempre que o locutor “abria o microfone” deveria leravisos da comunidade. O programa jornalístico começou um mês após a rádio terentrado no ar, em abril de 98, e foi planejado para ter notícias locais, regionais,estaduais e nacionais. Eram mais notícias policiais, sobre realizações da sociedadecivil e acompanhamento de reuniões, ainda sem muitas críticas e cobranças aopoder público. Com o tempo isso mudou um pouco e as denúncias e investigaçõessobre as ações do poder público local se tornaram pauta constante no programajornalístico. Em muitos anos de atuação a emissora, assim como muitas outras da regiãoe do país, passou por muitas perseguições políticas e também pela ANATEL(Agência Nacional de Telecomunicações), que diversas vezes lacrou a rádio,carregou seus equipamentos e, algumas vezes, em ação conjunta com a PolíciaFederal, agrediu seus locutores. A pesquisa realizada pelo professor Antonio Dias(2005), relata essa fatos através de entrevistas Depois vieram com a presença da polícia, não se identificaram que era a polícia, o prédio não funcionava aqui na época, mas tinha inclusive uma testemunha, coincidentemente tinha um ouvinte no momento que eles arrombaram, presenciou o fato... E eram vários policiais acompanhados de fiscais da Anatel que, como falei, não se identificaram, foram muito ousados,mandava abrir: „abra logo, que é que você quer ainda aqui perguntando nada, abra logo, largue de conversa, viemos buscar isso aqui‟... Foi o que eu entendi, perguntei, explorei, mas quem é e quem são, não se identificaram. E aí, fechei, depois eles pularam o portão do muro, depois quebraram a porta que dá acesso ao interior da rádio e aí já chegaram mesmo me batendo mesmo, me agredindo, entendeu, no meu pescoço, me empurraram sobre paredes, me algemaram... E enfim, queriam que eu desse
  38. 38. 38 depoimentos, entregasse pessoas lá mesmo, na maior pressão (ENTREVISTADO VALENTE FM, 2004). Foram muitos anos de luta pela liberação da autorização para que a ValenteFM pudesse atuar de maneira legal, ou seja, com a permissão emitida peloMinistério das Comunicações. Na verdade, a luta pela outorga é um dos maioresdesafios das emissoras comunitárias, que encontram em seu caminho excesso deburocracia e disputa política. A Rádio Comunitária Valente FM somente conseguiu aoutorga depois de quase cinco anos de luta, apesar de a Lei 9.612, que institui oserviço de radiodifusão, ter sido criada em 20 de fevereiro de 98. Em outubro de2002, a emissora recebeu a outorga do Ministério das Comunicações. Era umaautorização provisória, enquanto a matéria não era votada pelos deputados noCongresso Nacional. Nesse período, a ABRAÇO-SISAL participou de manifestaçõese reuniões com representantes do governo na tentativa de conseguir outorga paraalgumas emissoras da região, entre elas a da Valente FM. Finalmente, em 15 deoutubro de 2003, o Congresso Nacional aprovou a outorga da Rádio ComunitáriaValente FM. Em mais de onze anos de atuação a Valente FM ganhou credibilidade nacomunidade principalmente devido ao seu programa jornalístico, o RádioComunidade, que já foi um dos mais ouvidos da região. Hoje a equipe da Rádio écomposta de acordo com cada núcleo de trabalho (Jornalismo, Locução dos DJs eDireção). Existe um coordenador de Jornalismo, que define as pautas, encaminha osrepórteres e supervisiona a produção das matérias. Diferente de outras redações deradiojornalismo, a reunião de pauta não é uma prática comum na emissora,geralmente os próprios repórteres definem suas matérias ou o coordenadordetermina qual será a matéria. Os repórteres realizam as matérias nas ruas,
  39. 39. 39enquanto um editor de textos realiza a clipagem de notícias dos jornais, definindo oque deve ir ao ar, editando os textos, e transpondo a linguagem para a radiofônica.Há ainda os apresentadores que fazem o papel de âncora no programa jornalístico.Os próprios repórteres editam suas matérias. O programa já possui o roteiro baseonde serão inseridas, pelo editor de texto, as manchetes dos principais jornais depaís, os textos obtidos com a clipagem, além de notas de interesse da comunidade.Esse trabalho é realizado pelo editor durante toda manhã, e só se encerra ao finaldo programa jornalístico, no início da tarde. Os fatos e notícias que serão objeto dematérias são definidos conforme critérios pré-estabelecidos pela equipe jornalísticada rádio, e que tem a ver com a “missão da Rádio”, as notícias se referemnormalmente a atividades do movimento social, do poder público, a fatos e assuntosde interesse da região, com destaque ao local, além de temáticas como saúde,educação, cultura e economia. Geralmente nas chamadas do roteiro destacam-se aslocais, três regionais, três nacionais e uma internacional. As fontes de informações para equipe de jornalismo da rádio são maisdiversas, desde os jornais escritos do estado e do país (principalmente os sites dosjornais exemplo do A Tarde, Tribuna da Bahia, Correio da Bahia, Folha de SãoPaulo, I Bahia, MOC, Agecom, etc) para matérias de contexto nacional e/ouestadual. Quanto ao que acontece na região, o “rádio escuta”, e a parceria (nãoformalizada) com diversas rádios comunitárias da região são as principais fontes deinformação (Sabiá FM, Agência Kalila, Baianinha, Contorno FM, dentre outras). Emsuas pautas a rádio conta ainda com a colaboração de líderes comunitários e dapopulação em geral. [...] o programa rádio comunidade, que é um dos mais ouvidos, badalados aqui na comunidade. Porque é essa forma que Toni
  40. 40. 40 coloca, é de denúncia, é de chegar e apertar o prefeito mesmo, o vereador, o porquê não foi feita as ações, de chegar e apertar o sindicato, a Apaeb, enfim, ou até mesmo as associações. Então a rádio tem o seu caráter lá, comunitário, que não tá atrelado a político, nem à associação, nem a sindicato e nem a nada, tá fazendo o seu papel que é de botar as informações com transparência, com responsabilidade, mostrando as duas visões: a que tá errada e a que deveria está sendo feita certa (ENTREVISTADO VALENTE FM, 2004). Em termos financeiros a Valente FM vende espaços para propagandas,chamadas de apoio cultural, e para programas terceirizados. Além disso, recebeapoio financeiro de algumas entidades sociais do município. O maior apoio vem daAPAEB- Valente. A influência do público - que abrange a Zona Rural e sede domunicípio de Valente - na programação é inevitável, toca-se o que as pessoasquerem ouvir. Quando se trata das notícias, não há participação direta no jornalismo,ainda que a população, principalmente a sociedade civil, paute a rádio em boa partedas matérias locais. A influência dos patrocinadores é pequena, com exceção daentidade que mais contribui com a rádio (APAEB-Valente), que tem direito a umprograma, a anúncios sem custo algum, além de exercer maior influência nasdecisões da diretoria em relação às demais entidades que a compõe. A relação daRádio Valente FM com o poder público local é um tanto tumultuada, pois,freqüentemente, a emissora faz denúncias e investigações que nem sempreagradam ao executivo e legislativo. Além disso, há um entrave muito forte nessarelação por a Valente FM ser vista por parte da população e pelo poder públicocomo uma emissora da APAEB - Valente, uma instituição que é oposição dogoverno municipal. Nenhum diretor da Apaeb nunca chegou pra pressionar qualquer um da gente. A gente já fez matérias – inclusive, Cléber que é o chefe de Jornalismo do programa “rádio comunidade” pode reforçar isso – a gente já botou matérias contra a própria Apaeb, pessoas reclamando
  41. 41. 41 de alguma coisa que não tá legal na indústria, de alguma matéria contra um diretor, a gente já colocou isso no ar (ENTREVISTADO VALENTE FM, 2004). Embora seja afiliada a ABRAÇO-SISAl, a Valente FM não participa dasatividades e discussões promovidas pela entidade e se mantém afastada das açõesdo CODES-SISAL. Segundo Cléber Silva, coordenador de jornalismo da emissora,“esse afastamento das atividades tanto da ABRAÇO-SISAL quanto do CODES-SISAL não provocam atritos na relação da rádio com essas entidades”3. A rádio éainda sócia da AMARC Brasil e geralmente participa das discussões através deCléber Silva, que também é sócio da entidade. Ao longo dos anos, a rádio ValenteFM passou por muitas transformações, com períodos de muita popularidade ejornalismo de ótima qualidade, do mesmo modo que passou por períodos difíceiscomo diminuição de funcionários e falta de recursos financeiros, o que acarretounuma perda de qualidade na programação e produção dos programas. Por umperíodo, a emissora ficou sem uma diretoria atuante, ficando a cargo de seusfuncionários. Em 2006, com a entrada do presidente José Melquiades de Oliveira, foifeita uma mudança no estatuto da rádio, dando maiores poderes ao presidente egerente. A partir daí a rádio teria um presidente mais presente, um tantocentralizador e arbitrário, mas que conseguia colocar um mínimo de organização nostrabalhos, ajudando a Valente FM a seguir adiante. Outra mudança no estatutoaconteceu em janeiro de 2009, quando a associação que gere a rádio passou a seruma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), permitindoassim que pessoas físicas e jurídicas se associem à emissora; que a associação3 Informação concedida por Cléber Silva através de entrevista realizada em dezembro de 2009.
  42. 42. 42possa pleitear projetos; receber doações de recursos físicos, humanos e financeirosetc. A programação da Valente FM é basicamente formada por programasmusicais, um de jornalismo e um esportivo, como podem ser verificados no quadroabaixo: HORÁRIOS PROGRAMAS CARACTERISTICAS 5:00 ás 8:00 Vozes da Terra Toca músicas regionais, forró pé-de-serra, artistas locais, sertanejo raiz. Com o locutor Gel Santos. 8:00 ás 11:30 Ligação Direta Toca de todos os estilos, sucessos do modo, conta com a participação dos ouvintes através dos pedidos por telefone. Locução de Gel Santos. 11:30 às 12:00 Conversa da Gente Programa terceirizado em estilo revistas que traz notícias da instituição (APAEB- Valente) e assuntos variados. Toca muita música, principalmente internacionais, sucessos e artistas locais. 12:00 às 13:00 Rádio Comunidade Jornalístico com notícias locais, regionais e nacionais 13:00 as 14:00 FMPB Programa que toca apenas música popular brasileira. As vezes tem locutor apresentando e as vezes é apenas uma programação do playlist. 14:00 às 18:00 Show da Tarde Programa comandado por Tony Sampaio, toca de todos os estilos, sucessos do modo, conta com a participação dos ouvintes através dos pedidos por telefone. 18:20 às 19:00 Bola na Rede Programa com notícias do esporte local, regional e nacional. 19:00 às 20:00 Retransmissão da Hora do Brasil 21:00 as 23:00 Noite de Sucessos Os sucessos do momento e as músicas românticas.
  43. 43. 43 Atende pedidos por telefone. Locutor Lecildo Silva. 23:00 às 6:00 Músicas programadas no playlist, prioriza-se as românticas e internacionais. Aos domingos pela manhã tem o programa do Sindicato dos Trabalhadores eAgricultores Familiares de Valente, com notícias da instituição e de interesse dosassociados. Observando a programação da emissora, percebe-se que não é muito variadaseguindo a linha de muitas outras rádios comunitárias da região que carecem demaiores investimentos financeiros e humanos para levarem ao ar uma grade maisdiversificada, pois fazer programas diferentes e com qualidade exige recursos eestrutura, o que nem sempre esse tipo de emissora dispõe. Na verdade, aprogramação da emissora, principalmente o espaço disponibilizado para a música,se assemelha as rádios comerciais, embora existam espaços dedicados a produçãolocal e de artistas da região, além da emissora não receber das grandes gravadoresnenhum incentivo financeiro para isso. Sob aspectos acadêmicos, a Valente FMpoderia ter sua nomenclatura de comunitária questionada e reavaliada, pois não seencaixa perfeitamente em todas as categorias elencadas por estudiosos naclassificação dessas rádios. No entanto, já se discutiu aqui nesse trabalho queexistem níveis de atuação comunitária e isso é determinado por variados fatores.Embora seja relevante discutir um pouco sobre o tema, não é interesse desseestudo aprofundar a análise sobre o caráter comunitário ou não dessa emissora,mas analisar as músicas tocadas na programação. Esse assunto será abordado nopróximo capítulo.
  44. 44. 443. A música que vai ao ar A intenção desse capítulo é analisar a programação musical da RádioComunitária Valente FM, tentando perceber e refletir a presença e influência queessa programação exerce sobre aspectos como cultura e desterritorialização, bemcomo a relação entre local e global. Para melhor encaminhamento do trabalho foifeito um recorte na programação analisada selecionando para estudo o programaLigação Direta, que vai ao ar de segunda a sábado das 8:00 ás 11:30 da manhã, efoi ouvido por uma semana, dos dias 16/11 a 20/11/2009. O Ligação Direta foiescolhido por ter um público ouvinte bem variado; por publicizar todos os estilosmusicais e por ser, segundo a própria equipe da rádio, o programa musical de maioraudiência da emissora. Além de tudo isso, pesquisas realizadas pelo IBOPE 4(Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) em diversos estados do país,inclusive na Bahia, comprovam que o horário matutino possui uma grande audiência. Pensado para veicular todos os estilos musicais, o programa Ligação Diretasegue exatamente essa linha, toca o que o ouvinte pede e o que é sucesso nomomento. É assim desde o surgimento da rádio, quando o nome do programamatutino era Show da Manhã. A mudança dos nomes do programa aconteceu emabril de 2008, quando numa reunião entre funcionários decidiu-se mudar um pouco aimagem emissora, fazendo novas vinhetas e rebatizando os programas. A maiortransformação aconteceu mesmo no horário da manhã, os programas Bom DiaSertão e Clube do Forró fundiram-se, transformando-se em Vozes da Terra, 4 Informação retirada do site www.ibope.com.br, acessado dia 22 de janeiro de 2010.
  45. 45. 45dedicado aos artistas locais, regionais, a música sertaneja e ao forró pé de serra,que vai ao ar das 6:00 ás 8:00. Em seguida vem o Ligação Direta, que foi ao ar pelaprimeira vez em maio de 2008 e é uma remodelagem do antigo programa (Show daManhã). Segundo o locutor Gel Santos, a mudança mais significativa entre os doisprogramas foram as vinhetas novas, que deram uma renovada na programação,com mais qualidade, atraiu ainda mais o público e deu um novo ritmo ao programa.A emissora é gerida por um diretor- presidente e mais três diretores. O diretor-presidente José Melquiades está à frente da rádio há três anos e foi um dosmobilizadores pela mudança na imagem da emissora, por reforçar essapreocupação com as músicas tocadas na emissora. Com uma visão um tantoconservadora, Melquiades diz que tenta conscientizar os locutores sobre a músicade qualidade e por isso, admite que já interferiu na programação mandandosuspender determinadas músicas. Segundo a equipe, hoje não é mais necessáriaessa intervenção direta, cada um já tem noção do que deve ir ao ar ou não. Embora os aspectos relacionados à gestão e planejamento da programaçãomusical não tenham sido aprofundados aqui, vale ressaltar que eles são importantespara a análise do que é veiculado no programa, além de servirem como norteadoresdesse trabalho que busca refletir e perceber aspectos da cultura popular, dosprocessos de desreterritorialização, as relações estabelecidas entre o local e oglobal na programação da emissora. É com base nesses elementos que é possívelobservar as tentativas de territorialização ocorridas nesse processo, na medida emque as pessoas tentam atender aos seus desejos, reterritorializando-se. O Ligação Direta é comandado por Gel Santos, 26 anos, que está há seteanos na emissora, a frente da programação musical matutina. Adepto da locuçãocoloquial, aquela em que o locutor fala de igual pra igual com o ouvinte,
  46. 46. 46considerando-o um amigo especial, Santos é um locutor jovem, que tem um ritmodinâmico dando ao programa um ar mais descontraído e alegre. Faz uma locuçãotípica das emissoras FM, comunitárias ou não, sem utilizar palavras rebuscadas ouformais, lendo sempre os recados mandados pela população e as notas deprestação de serviço comunitário. Para Gel Santos, “o trabalho do locutor não é sóestá aqui tocando músicas, mandando alô, é também ser amigo do ouvinte e fazercom que ele entenda que a gente segue uma linha e tem música que não é legal,por isso não é tocada.”5 O programa Ligação Direta foi idealizado para apresentar uma maiorvariedade de canções, já que tem um público mais diverso e jovial, que acompanha,principalmente, os sucessos do momento. A questão é que a rádio executa todos osestilos, mas não qualquer música dentro desse estilo. Os locutores seguem umalinha proposta pela direção para não tocar músicas com sentido ambíguo, que façamapologia as drogas, sexo, violência etc, eles devem observar as letras e filtrar aquiloque vai ao ar, mesmo que o ouvinte peça, os funcionários explicam que a emissoranão tem a canção pedida e sugerem outras opções no mesmo ritmo, às vezes atédo mesmo artista, mas que não vá contra os princípios determinados pela rádiocomunitária. “Toca tudo, toca o que o público pede. A única coisa que a gente pede é que não toque determinadas músicas, que façam apologia a raça, cor, religião ou qualquer outra coisa por ser uma rádio comunitária (...) tem muita criança ouvindo a rádio, principalmente na programação de Gel, então a gente pede pra que os locutores não toquem.” (JOSÉ MELQUIADES, presidente da Valente FM, entrevistado dezembro de 2009)5 Informação concedida por Gel Santos, através de entrevista realizada em dezembro de 2009.
  47. 47. 47 A maior parte da programação musical é composta pelos sucessos de artistasexplorados no momento pelas mídias, canções que são trilha sonora das novelas eque são muito tocadas nas emissoras comerciais. As produções dos artistas locais eregionais não aparecem muito na programação desse horário, costumam sertocadas no programa Vozes da Terra, que vai ao ar das 6:00 as 8:00 diariamente.Além disso, a rádio tem uma programação no piloto automático que distribui os maisvariados tipos de música, e os locutores tentam garantir que essas produçõeslocais/regionais façam parte do playlist. Essa programação pré-selecionada vai ao ardiariamente a partir das 22:00 horas, nos fins de semana e feriados. SegundoSantos, o gosto pessoal do locutor não interfere tanto na escolha das músicas, aprogramação é definida pelo ouvinte que liga e escolhe o que quer ouvir. No entanto,nem sempre é possível atender aos pedidos e, pode acontecer de não se ter tantassolicitações, assim é evidente que o locutor também coloca outras músicas na gradedo programa. No caso da programação em estudo, é possível perceber a influênciado gosto pessoal do locutor no número de canções executadas no estilo pop rock, oseu preferido. Para alcançar o objetivo desse estudo, definiu-se analisar a programaçãoobservando quais as músicas e os estilos mais tocados, a presença ou ausência damúsica popular e das produções local e regional e quais as possíveis interferênciasda própria emissora na seleção das músicas. Considerando esses fatores foipossível identificar, através das músicas veiculadas na rádio, o quanto o global estáinserido no cotidiano da comunidade local, influenciando nos processos dereterritorialização e perceber como se dá a valorização e incentivo da produçãocultural local. Assim, para saber quais músicas são as mais pedidas na emissora,durante o Ligação Direta, esse estudo analisou as canções tocadas durante a
  48. 48. 48semana de 16 a 20 de novembro de 2009. Nesses cinco dias, foram tocadas emmédia trinta e nove músicas por programa, totalizando cento e noventa e seisdurante a semana. Os ritmos predominantes foram o sertanejo universitário(26,53%), forró eletrônico (15,82%), axé (13,78%), pagode romântico (13,275) e poprock (10,20%). Também estiveram presentes na programação os estilos: pagodebaiano (5,10%), MPB (4,08%), a música pop internacional (3,06%). Outros rimosmusicais somaram 8,16%. Percebe-se que, de fato, veicula-se músicas paravariados gostos, de diversos ritmos. Um aspecto notado nesse estudo foi que,durante o período de análise, a programação foi feita basicamente com os mesmosartistas. O estilo musical que mais trouxe nomes diversificados foi o sertanejouniversitário, já que nesse momento muitos artistas desse estilo estão sendoexplorados pela mídia. Outro fator interessante de se perceber foi que a música maispedida pelos ouvintes (Vem pra cá – Papas na Língua) faz parte da trilha sonora da“novela das oito” Viver a vida, da Rede Globo. O quadro abaixo traz os artistas emúsicas mais executadas durante a semana analisada. ARTISTA MÚSICA Papas na Língua Vem pra cá Belo Reinventar Edson e Hudson Foi você quem trouxe Natália Siqueira Você vai voltar pra mim Banda Imortal Mentes tão bem Perlla Beijo de cinema Mariah Carey I wanna know what love is Michel Telo Ei, psiu! Beijo, me liga Anjo Azul Não sou de ninguém

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