 as características do conto;
 as características da crônica;
 semelhanças e diferenças entre esses
gêneros textuais.
• conto;
• crônica.
Você já teve dúvida para identificar se um
texto era uma crônica ou um conto?
Essa dúvida é muito comum, pois o conto
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“A crônica é um gênero textual que
oscila entre a literatura e o jornalismo, pois
é o resultado da visão pessoal, subjetiv...
“O conto tem características estruturais
próprias. É um tipo de narrativa concentrada.
É o resultado de uma seleção rigoro...
Vejamos a seguir algumas características
que diferenciam o conto da crônica.
 Personagem
A crônica possui poucas personag...
 Assunto
O assunto abordado na crônica são
fatos cotidiano, tirados do noticiário, de
conversas, de observações. O assunt...
“Registrando o circunstancial do nosso
cotidiano mais simples, acrescentando, aqui e
ali, fortes doses de humor, sensibili...
 Linguagem
Na crônica e no conto a linguagem está
predominantemente de acordo com o padrão
culto,formal ou informal ,da l...
 Narrador
Na crônica e no conto o narrador
pode aparecer como personagem ou
observador.
Gêneros
textuais
conto
Narrativa concentrada e limitada ao essencial.
Número reduzido de personagens.
Tempo e espaço limit...
Leia o texto a seguir.
Natal na barca
Lygia Fagundes
Não quero nem devo lembrar aqui por que me
encontrava naquela barca. ...
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já
devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele
instante não me o...
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente.
Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me
ob...
A criança agitou-se, choramingando. A mulher
apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o
xale e pôs-se a niná...
— É o único. O meu primeiro morreu o ano
passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou ...
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela
noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os
laços (os tais laços humanos) já ameaça...
— Faz uns seis meses. Imagine que nós vivíamos
bem, mas tão bem! Quando ele encontrou por acaso com
essa antiga namorada, ...
Fixei-me nas nuvens tumultuadas que
corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia
contando as sucessivas desgraças com tam...
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me
abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita e...
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma
noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e
saí...
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei
um gesto e em seguida, apenas para fazer
alguma coisa, levantei a ponta do xale que
...
— Estamos chegando — anunciou.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora
era sair, fugir antes que ela descobrisse....
Ela teve um sorriso.
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos —
aqueles olhos que eu vira cerrados tão
definitivam...
Conduzido pelo bilheteiro, o velho
passou por mim retomando seu afetuoso
diálogo com o vizinho invisível. Saí por
último d...
O texto que acabamos de ler é um
conto, observamos que os fatos se
estruturam em partes:
a) conflito, isto é, o acontecime...
b) clímax, isto é, momento de tensão
máxima antes do desfecho: a narradora
levantar o xale que cobre a criança e
descobrir...
Leia o texto abaixo.
Coisas e pessoas
Mário Quintana
Desde pequeno, tive tendência para personificar as
coisas. Tia Tula, ...
Era como um alojamento de quartel, com breve
espaço entre as camas e todas as portas e janelas
abertas, tudo com os alegre...
— Pois é! Não vê que eu sou o sereno...
E eis que, por um milésimo de segundo,
ou talvez mais, julguei que se tratasse do
...
Por que desculpar-me, se os poetas
criaram os deuses e semideuses para
personificar as coisas, visíveis e
invisíveis... E ...
O texto lido é uma crônica, pois
percebemos que um aspecto da vida do
cronista (o hábito de personificar as
coisas)serviu ...
O conto é uma narrativa literária curta.
Seu enredo é condensado: há poucos
personagens, que vivem os fatos num único
luga...
1- Leia o texto.
O irmão imaginário
Moacyr Scliar
Até os nove anos, Paulinho foi filho único. Filho único
e muito amado. O...
Paulinho não sabia porque os pais não haviam
lhe dado um irmão ou uma irmã. Algum problema
havia; muitas vezes surpreendia...
Chamava-se Joel. Porque escolhera esse nome, não
saberia dizer; ocorrera-lhe de repente, e pronto, Joel
passara a existir....
Vários anos se passaram assim. Anos felizes,
mas com momentos de apreensão. Cada vez que
caía um temporal, por exemplo, Pa...
Mas então um dia aconteceu. Poucos dias
antes de Paulinho completar dez anos, os pais o
chamaram. Vacilando muito, o pai l...
Os olhos cheios de lágrimas, Paulinho
fez que sim com a cabeça. Mais tarde, foi até a
cabana. Entrou, contou o que havia s...
a- O conto é uma narrativa literária cuja
principal característica é ser condensada:
há poucos personagens, e as ações se
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a- O conto é uma narrativa literária cuja
principal característica é ser condensada: há
poucos personagens, e as ações se
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b- Identifique no conto:
 conflito, isto é, o acontecimento que
quebra a estabilidade:
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b- Identifique no conto:
 conflito, isto é, o acontecimento que quebra a
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2- Leia o texto:
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-Me diga uma coisa, Senhor Acheco...
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duzentos?
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baseou?
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limitados. Em que lugar se passa a...
a- Em que fato do cotidiano o narrador se
baseou?
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uma empresa é despedido após um te...
c- Qual é a crítica social feita pelo
cronista?
c- Qual é a crítica social feita pelo
cronista?
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cotidiano: trabalhadores eficientes são
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PLATÃO, Francisco; FIORIN, José Luiz.
Para entender o texto o texto. São Paulo:
Ática, 2002.
CEREJA, William Roberto; COCH...
Reconheço que o senhor tem sido um chefe de
entorte perfeito. Aliás, o computador não descobriu
ninguém com aptidão para o...
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  1. 1.  as características do conto;  as características da crônica;  semelhanças e diferenças entre esses gêneros textuais.
  2. 2. • conto; • crônica.
  3. 3. Você já teve dúvida para identificar se um texto era uma crônica ou um conto? Essa dúvida é muito comum, pois o conto e a crônica são gêneros textuais que muitas vezes se confundem. Isso acontece quando esses dois gêneros se assemelham em algum aspecto, por exemplo, o uso de diálogo. Apesar de algumas semelhanças, conseguimos estabelecer certas características que diferenciam o conto da crônica.
  4. 4. “A crônica é um gênero textual que oscila entre a literatura e o jornalismo, pois é o resultado da visão pessoal, subjetiva do cronista ante um fato qualquer, colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. Quase sempre explora o humor; às vezes, diz as coisas mais sérias por meio de uma aparente conversa fiada.” (Cereja)
  5. 5. “O conto tem características estruturais próprias. É um tipo de narrativa concentrada. É o resultado de uma seleção rigorosa dos elementos que o compõem. Se comparado a gêneros como o romance e a novela, o conto é mais condensado: elimina as análises minuciosas de personagens ou ambiente, as longas complicações de enredo e delimita o tempo e o espaço.” (Cereja)
  6. 6. Vejamos a seguir algumas características que diferenciam o conto da crônica.  Personagem A crônica possui poucas personagens. Nela as personagens possuem uma ou duas características, mas não possuem descrição psicológica profunda. Algumas crônicas podem aparecer sem personagens. O conto, assim como a crônica, possui um número reduzido de personagens, no entanto elas são bem construídas.
  7. 7.  Assunto O assunto abordado na crônica são fatos cotidiano, tirados do noticiário, de conversas, de observações. O assunto, normalmente, está ligado a uma vivência particular. O assunto do conto é ficcional , imaginário. A narrativa do conto é concentrada e limitada ao essencial.
  8. 8. “Registrando o circunstancial do nosso cotidiano mais simples, acrescentando, aqui e ali, fortes doses de humor, sensibilidade, ironia, crítica e poesia, o cronista, com graça e leveza, proporciona ao leitor uma visão mais abrangente, que vai além do fato: mostra-lhe, de outros ângulos, os sinais de vida que diariamente deixamos escapar.” (Cereja)
  9. 9.  Linguagem Na crônica e no conto a linguagem está predominantemente de acordo com o padrão culto,formal ou informal ,da língua. A crônica é escrita numa linguagem coloquial, próxima do leitor.  Tempo e espaço Tanto no conto quanto na crônica o tempo e o espaço são limitados. Os fatos acontecem em um único lugar ou em poucos lugares e, na maioria das vezes, num curto espaço de tempo.
  10. 10.  Narrador Na crônica e no conto o narrador pode aparecer como personagem ou observador.
  11. 11. Gêneros textuais conto Narrativa concentrada e limitada ao essencial. Número reduzido de personagens. Tempo e espaço limitados. Narrador-observador ou narrador-personagem. Linguagem de acordo com o padrão culto, formal ou informal, da língua. crônica Texto curto e leve que tem o objetivo de divertir e refletir sobre a vida. Número reduzido de personagens. Tempo e espaço limitados. Narrador-observador ou narrador-personagem. Linguagem de acordo com o padrão culto, formal ou informal, da língua. Relata os fatos do cotidiano.
  12. 12. Leia o texto a seguir. Natal na barca Lygia Fagundes Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era silêncio e treva. E me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu. O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
  13. 13. Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio. Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal. A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.
  14. 14. — Tão gelada — estranhei, enxugando a mão. — Mas de manhã é quente. Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas) tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade. — De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando. — Quente? — Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas? Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta: — Mas a senhora mora aqui perto? — Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
  15. 15. A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o xale preto, mas o rosto era tranquilo. — Seu filho? — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre... Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce. — Só sei que Deus não vai me abandonar. — É o caçula?
  16. 16. — É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito...Tinha pouco mais de quatro anos. Atirei o cigarro na direção do rioo, mas o toco bateu na grade e voltou, rolando aceso pelo chão. Alcancei-o com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali, doente, embora. Mas vivo. — E esse? Que idade tem? — Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre.Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado... Só a última mágica que fez foi perfeita, vou voar! — disse abrindo os braços. E voou.
  17. 17. Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompê- los. — Seu marido está à sua espera? — Meu marido me abandonou. Sentei-me e tive vontade de rir. Era incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta, mas agora não podia mais parar. — Há muito tempo?
  18. 18. — Faz uns seis meses. Imagine que nós vivíamos bem, mas tão bem! Quando ele encontrou por acaso com essa antiga namorada, falou comigo sobre ela, fez até uma brincadeira, a Ducha enfeiou, de nós dois fui eu que acabei ficando mais bonito…E não falou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal, brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver ninguém falar comigo com aquela tela no meio... Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.
  19. 19. Fixei-me nas nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, e ainda via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Intocável. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma obscura irritação me fez sorrir.
  20. 20. — A senhora é conformada. — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou. — Deus — repeti vagamente. — A senhora não acredita em Deus? — Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela confiança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas... Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou, com voz quente de paixão:
  21. 21. — Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele… Sentei num banco do jardim onde toda tarde levava ele para brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me beijou tanto, tanto... Era talsua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
  22. 22. Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei o olhar para o chão. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo, apertando- o contra o peito. Mas ele estava morto. Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim
  23. 23. — Estamos chegando — anunciou. Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse. Era terrívrl demais, não queria ver. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e pôs-se a sacudir o velho que dormia: - Chegamos!... Ei! chegamos! Aproximei-me, evitando encará-la. — Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão. Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudei-a, mas, ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho. — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. — Acordou?!
  24. 24. Ela teve um sorriso. — Veja... Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar. — Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço. Encarei-a. Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.
  25. 25. Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.Verde e quente. Texto extraído do livro “Para gostar de ler – Volume 9 – Contos”, Editora Ática – São Paulo, 1984, pág. 67.
  26. 26. O texto que acabamos de ler é um conto, observamos que os fatos se estruturam em partes: a) conflito, isto é, o acontecimento que quebra a estabilidade: a observação da mulher sobre a temperatura da água; iniciar-se uma conversa; a mulher contar sua vida e infortúnios;
  27. 27. b) clímax, isto é, momento de tensão máxima antes do desfecho: a narradora levantar o xale que cobre a criança e descobrir que ela está morta; c) O desfecho, isto é, o momento em que o conflito se resolve e uma nova estabilidade configura-se: a barca chegar a seu destino; a narradora querendo fugir da situação; a mãe levantar o xale e a criança acordar.
  28. 28. Leia o texto abaixo. Coisas e pessoas Mário Quintana Desde pequeno, tive tendência para personificar as coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal, sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o mormaço!” Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo. Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças! Ia pra dentro logo. Ainda hoje, quando leio que alguém se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto, brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a ver o lançamento da pedra fundamental da ponte Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim que fomos alojados os do meu grupo num casarão que creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do Brasil e Argentina.
  29. 29. Era como um alojamento de quartel, com breve espaço entre as camas e todas as portas e janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e duvidosos encantos de uma coletividade democrática. Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, como eu pressentisse, em meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei- me estremunhado e olhei atônito para um tipo de chiru, ali parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu descido sobre os olhos. Diante da minha muda interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida calma:
  30. 30. — Pois é! Não vê que eu sou o sereno... E eis que, por um milésimo de segundo, ou talvez mais, julguei que se tratasse do silêncio noturno em pessoa. Coisas do sono? Além disso, o vulto, aquele penumbroso e todo em linhas descendentes, ajudava a ilusão. Mas por que desculpar-me? Quase imediatamente compreendi que o “sereno” era um vigia noturno, uma espécie de anjo da guarda crioulo e municipal.
  31. 31. Por que desculpar-me, se os poetas criaram os deuses e semideuses para personificar as coisas, visíveis e invisíveis... E o sereno da Fronteira deve andar mesmo de chapéu desabado, bigode, pala e de pé no chão... sim, ele estava mesmo de pés descalços, decerto para não nos perturbar o sono mais ou menos inocente.
  32. 32. O texto lido é uma crônica, pois percebemos que um aspecto da vida do cronista (o hábito de personificar as coisas)serviu de ponto de partida para o desenvolvimento do texto. A narrativa é curta , leve e possui poucos personagens. O narrador é personagem, pois ele participa dos fatos.
  33. 33. O conto é uma narrativa literária curta. Seu enredo é condensado: há poucos personagens, que vivem os fatos num único lugar(ou em poucos lugares) e, na maioria das vezes, num curto espaço de tempo. O enredo é dinâmico, conciso e gira em torno de um único conflito. A crônica é uma narrativa curta e leve, quase sempre inspirada em fatos do cotidiano ou do noticiário, cujo objetivo é divertir o leitor e fazê-lo refletir.
  34. 34. 1- Leia o texto. O irmão imaginário Moacyr Scliar Até os nove anos, Paulinho foi filho único. Filho único e muito amado. Os pais não eram ricos -o pai era mecânico, a mãe trabalhava como caixa num supermercado-, mas cuidavam do menino com o maior carinho; colocaram-no numa boa escola, compravam-lhe roupas, brinquedos, livros. Era como se quisessem indenizá-lo pelo fato de ser filho único.
  35. 35. Paulinho não sabia porque os pais não haviam lhe dado um irmão ou uma irmã. Algum problema havia; muitas vezes surpreendia os dois sentados lado a lado na sala, muito tristes, a mãe freqüentemente com os olhos vermelhos de choro. Nas poucas vezes que perguntou a respeito, recebeu respostas evasivas; logo se deu conta de que aquele era um assunto difícil, sobre o qual não poderia falar. Mas a verdade é que, mesmo tendo amigos -e ele tinha muitos amigos na vizinhança- Paulinho sentia-se só. Precisava de companhia. Precisava de um irmão com quem pudesse partilhar suas dúvidas, suas aflições, seus sonhos também. Acabou por criar um irmão imaginário.
  36. 36. Chamava-se Joel. Porque escolhera esse nome, não saberia dizer; ocorrera-lhe de repente, e pronto, Joel passara a existir. Mas não morava na casa, junto com a família; com tábuas e lona, Paulinho construiu para ele uma cabana, no fundo do pátio. Era uma cabana pequena, mas servia bem: como Paulinho, Joel era pequeno e magro. Na verdade os dois eram idênticos, quase como se fossem gêmeos. Todos os dias Paulinho visitava Joel. Entrava na cabana escura e ali ficava, sentado ao lado do irmão imaginário. Falava horas; contava coisas sobre os pais, sobre os amigos, sobre a escola... Era um monólogo, porque Joel nunca respondia. Não era preciso; tudo o que Paulinho queria do irmão imaginário era que ele o ouvisse. E tinha certeza de que Joel era um ouvinte atento, como um verdadeiro irmão deve ser. Atento e inspirador: Paulinho fazia-lhe uma pergunta -e de imediato a resposta lhe ocorria. E era sempre a resposta certa, a resposta confortadora.
  37. 37. Vários anos se passaram assim. Anos felizes, mas com momentos de apreensão. Cada vez que caía um temporal, por exemplo, Paulinho entrava em pânico: como estaria o Joel em sua cabana? Não estaria assustado, molhado de chuva? Não foi uma nem duas noite que correu para o fundo do pátio, debaixo do aguaceiro, para se certificar de que estava tudo bem, que a cabana continuava no lugar. Os pais não desconfiavam de nada. Achavam que a cabana era um lugar de brinquedo do filho, só isso. Paulinho nunca lhes falou do irmão imaginário; era um segredo dele, não podia ser partilhado.
  38. 38. Mas então um dia aconteceu. Poucos dias antes de Paulinho completar dez anos, os pais o chamaram. Vacilando muito, o pai lhe disse que, durante todos aqueles anos, eles tinham tentado dar ao filho um irmão ou uma irmã, mas por vários problemas não o haviam conseguido. Agora, porém, tinham chegado a uma decisão: Paulinho ganharia, sim, um irmão. Adotivo. -Até pensamos num nome -disse a mãe, emocionada. -Um nome do qual sempre gostamos. Mas caberá a você decidir. O que você acha de chamarmos seu irmãozinho de Joel?
  39. 39. Os olhos cheios de lágrimas, Paulinho fez que sim com a cabeça. Mais tarde, foi até a cabana. Entrou, contou o que havia sucedido ao irmão imaginário. Que, como de costume, nada disse. Mas quando Paulinho estava saindo, ouviu uma voz sussurrando baixinho: -Seja feliz, Paulinho, com seu irmão. E nesse momento ele teve a certeza de que seria feliz, muito feliz, com o irmão Joel.
  40. 40. a- O conto é uma narrativa literária cuja principal característica é ser condensada: há poucos personagens, e as ações se desenrolam em poucos lugares e, na maioria das vezes, num curto espaço de tempo. O texto anterior apresenta essas características?
  41. 41. a- O conto é uma narrativa literária cuja principal característica é ser condensada: há poucos personagens, e as ações se desenrolam em poucos lugares e, na maioria das vezes, num curto espaço de tempo. O texto anterior apresenta essas características? Há apenas quatro personagens toda ação se desenrola num espaço limitado (a casa da família) e, embora o enredo cubra o espaço de alguns anos, tudo é narrado de forma rápida.
  42. 42. b- Identifique no conto:  conflito, isto é, o acontecimento que quebra a estabilidade:  clímax, isto é, momento de tensão máxima antes do desfecho: O desfecho, isto é, o momento em que o conflito se resolve e uma nova estabilidade configura-se:
  43. 43. b- Identifique no conto:  conflito, isto é, o acontecimento que quebra a estabilidade:o momento em que ele decide criar um irmão imaginário.  clímax, isto é, momento de tensão máxima antes do desfecho: o momento em que ele fica sabendo que os pais vão adotar outro filho. O desfecho, isto é, o momento em que o conflito se resolve e uma nova estabilidade configura-se: Paulinho despede-se do irmão imaginário e aguarda a chegada do novo irmão.
  44. 44. 2- Leia o texto: Aptidão Abre a porta. Entra o Senhor Pacheco. -Bom dia, Senhor Pacheco. Sente-se, por favor. Temos uma ótima notícia para o senhor. -Sim, senhor. -Como o senhor deve saber, Senhor Pacheco, contratamos uma firma de psicomputocratas para fazer testes de aptidão nos dez mil empregados desta firma. Precisamos nos atualizar. Acompanhar os tempos. -Sim, senhor. -Os dez mil testes foram submetidos a um computador, há dois minutos, e os resultados estão aqui. O senhor é o primeiro a ser chamado porque o computador nos forneceu os resultados em rigorosa ordem alfabética. -Mas o meu nome começa com P.
  45. 45. -Hum, sim, deixa ver. Pacheco. Sim, sim. Deve ser por ordem alfabética do primeiro nome, então. Este computador é de quarta geração. Nunca erra. Como é seu primeiro nome? -Xisto. -Bom, isso não tem importância.Vamos adiante.Vejo aqui pela sua ficha que o senhor está conosco há vinte e oito anos, Seu Pacheco. Sempre na seção de entorte de fresos. O senhor nunca falhou no serviço, nunca tirou férias, e já recebeu nosso prêmio de produção, o Alfinete de Alumínio, dezessete vezes. - Sim, senhor. - O senhor começou na seção de entorte de fresos como faxineiro, depois passou a assistente de entortador, depois entortador, e hoje é o chefe de entorte. -Sim, senhor.
  46. 46. -Me diga uma coisa, Senhor Acheco... -Pacheco. -Senhor Pacheco. O senhor nunca se sentiu atraído para outra função, além do entorte de fresos? Nunca achou que entortar não era bem sua vocação? -Nunca, não senhor. -Pois veja só, Senhor Pacheco. O computador nos revela que a sua verdadeira vocação não é o entorte de fresos e sim o bistoque de tronas! -Sim, senhor. -O senhor é um bistocador de tronas nato, segundo o computador. Não é fantástico? E ainda tem gente que critica a tecnologia. O senhor era um homem deslocado no entorte de fresos e não sabia. Se não fosse o teste, nunca ficaria sabendo. Claro que essa situação vai ser corrigida. O senhor, a partir deste minuto, deixa de entortar. -Sim, senhor.
  47. 47. -Quanto o senhor ganha conosco, Senhor Pacheco, depois de vinte e oito anos? Mil, mil e duzentos? -Quinhentos, não contando os alfinetes. -Pois, sim. E sabe quanto ganha um iniciante no bistoque de tronas? Mil e quinhentos! Não é fantástico? -Sim, senhor. -Só tem uma coisa, Senhor Pacheco. Nossa firma não trabalha com tronas. Pensando bem, ninguém trabalha com tronas, hoje em dia. -Olha, tanto faz. Não é mesmo? Eu estou perfeitamente satisfeito no entorte, faltam só vinte anos para me aposentar e... -Senhor Pacheco, então a firma gasta um dinheirão para decobrir sua vocação e o senhor quer jogá-la fora?
  48. 48. a- Em que fato do cotidiano o narrador se baseou? b- Na crônica, o tempo e o espaço são limitados. Em que lugar se passa a história e quanto tempo dura a ação?
  49. 49. a- Em que fato do cotidiano o narrador se baseou? Um antigo e competente funcionário de uma empresa é despedido após um teste realizado por um computador. b- Na crônica, o tempo e o espaço são limitados. Em que lugar se passa a história e quanto tempo dura a ação? A história deve se passar na sala do chefe e dura alguns minutos, pois o diálogo dos personagens acontece rapidamente.
  50. 50. c- Qual é a crítica social feita pelo cronista?
  51. 51. c- Qual é a crítica social feita pelo cronista? Ele critica um fato que ocorre no cotidiano: trabalhadores eficientes são dispensados injustamente. Ele também critica a sobrevalorização da tecnologia.
  52. 52. PLATÃO, Francisco; FIORIN, José Luiz. Para entender o texto o texto. São Paulo: Ática, 2002. CEREJA, William Roberto; COCHAR, Thereza. Texto e interação. São Paulo: Saraiva, 2000.
  53. 53. Reconheço que o senhor tem sido um chefe de entorte perfeito. Aliás, o computador não descobriu ninguém com aptidão para o entorte. Vai ser um problema substituí-lo. Mas não podemos contestar a tecnologia. O senhor está despedido! Por favor, mande entrar o seguinte, por ordem alfabética, o Senhor Roque Lins. Passe bem -Sim, senhor. -Sai o Senhor Pacheco. Fecha a porta VERISSIMO, Luis Fernando. O nariz e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1997. P 38-39. ( Para Gostar de Ler, V. 14).

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