Estudos de história da igreja do ano 0 a 1517

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História da Igreja - do ano 0 a 1517

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Estudos de história da igreja do ano 0 a 1517

  1. 1. Sumário Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 I. Introdução.................................................................................................................................. 5 1. Lições da história. ................................................................................................................. 5 2. A contribuição dos romanos, dos gregos e dos judeus para o advento do cristianismo........ 5 II. Jesus Cristo: Historicidade e Ministério Terreno ..................................................................... 7 1. A Historicidade de Jesus Cristo. ........................................................................................... 7 2. A Cronologia da Vida de Jesus Cristo................................................................................... 8 3. A Vida de Jesus Cristo. ......................................................................................................... 9 III. Os Avanços da Igreja até 313 d.C......................................................................................... 11 1. O primeiro século................................................................................................................ 11 2. Os séculos II e III. ............................................................................................................... 13 IV. As Dificuldades Externas da Igreja até 313:......................................................................... 15 1. A perseguição...................................................................................................................... 15 1.1) A perseguição no Primeiro Século. ......................................................................... 15 1.2) A Perseguição até Meados do Terceiro Século....................................................... 16 1.3) A Perseguição até o Edito de Milão........................................................................ 19 2. As Acusações. ..................................................................................................................... 20 V. As Dificuldades Internas da Igreja até 313: ........................................................................... 22 1. As Heresias.......................................................................................................................... 22 1.1) O Ebionismo............................................................................................................ 22 1.2) Os Elquesaítas. ........................................................................................................ 22 1.3) O Gnosticismo......................................................................................................... 23 1.4) O Montanismo......................................................................................................... 24 1.5) O Monarquianismo.................................................................................................. 24 1.6) O maniqueísmo. ...................................................................................................... 25 2. As Divisões Internas............................................................................................................ 26 VI. As Reações da Igreja: A Literatura dos Séculos II e III........................................................ 27 1. Introdução. .......................................................................................................................... 27 2. A Literatura dos Pais Apostólicos....................................................................................... 27 2.1) Clemente de Roma (30-100 d.C.) ................................................................................ 27 2.2) Inácio de Antioquia...................................................................................................... 27 2.3) Policarpo (c. 70-155), .................................................................................................. 28
  2. 2. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página2 2.4) Papias,.......................................................................................................................... 28 3. A Literatura dos Apologetas e dos Defensores da Ortodoxia. ............................................ 29 3.1) Os apologetas............................................................................................................... 29 3.2) Os Defensores da fé. .................................................................................................... 31 VII. As Reações da Igreja: O Bispo, o Credo e o Cânon ............................................................ 33 1. Introdução. .......................................................................................................................... 33 2. O Bispo Monárquico........................................................................................................... 33 3. O Credo dos Apóstolos. ...................................................................................................... 35 3.1) A História do Credo..................................................................................................... 35 3.2) A importância do Credo............................................................................................... 37 3.3) As raízes hebraico-cristãs dos credos e confissões. ..................................................... 37 4. O Cânon do Novo Testamento............................................................................................ 38 VIII. Fé Cristã, de Perseguida a Religião Oficial........................................................................ 41 1. O período compreendido entre 313 e 590. .......................................................................... 41 2. A ascensão de Constantino.................................................................................................. 41 3. O impacto de Constantino................................................................................................... 42 4. A união da Igreja com o Estado. ......................................................................................... 43 IX. Os Concílios e Credos Ecumênicos ...................................................................................... 46 1. A Controvérsia Ariana e o Concílio de Niceia (325). ......................................................... 46 2. O Debate Pneumatológico e o I Concílio de Constantinopla (381). ................................... 49 3. A Dupla Natureza de Cristo, o I Concílio de Éfeso (431) e o Concílio de Calcedônia (451). ................................................................................................................................................. 51 4. As Controvérsias Antropológica e Soteriológica................................................................ 54 X. O Surgimento da Vida Monástica .......................................................................................... 59 1. O novo estado da Igreja....................................................................................................... 59 2. As razões e a evolução da vida monástica. ......................................................................... 60 3. Uma breve avaliação da vida monástica. ............................................................................ 62 XI. O Fortalecimento do Bispo de Roma.................................................................................... 64 1. Raízes do fortalecimento do Bispo de Roma. ..................................................................... 64 2. Contribuições políticas e teológicas ao fortalecimento do Bispo de Roma. ....................... 65 3. Gregório, o Grande (540-604)............................................................................................. 66 XII. O Fim da Antiga Igreja Católica.......................................................................................... 69 1. O papado e a supremacia da Igreja de Roma. ..................................................................... 69 2. A importância da tradição. .................................................................................................. 70 3. O desenvolvimento da liturgia. ........................................................................................... 71 4. Veneração a Maria. ............................................................................................................. 71
  3. 3. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página3 XIII. A Ameaça Muçulmana....................................................................................................... 73 1. Introdução. .......................................................................................................................... 73 2. Maomé (570-632)................................................................................................................ 73 3. Os sucessores de Maomé, a expansão do Islã e as perdas da Igreja.................................... 74 4. A doutrina islã..................................................................................................................... 75 XIV. O Império Romano Redivivo............................................................................................. 77 1. Introdução. .......................................................................................................................... 77 2. Os reis francos..................................................................................................................... 77 2.1) A dinastia merovíngia.................................................................................................. 77 2.2) Os primórdios da dinastia carolíngia e a Doação de Constantino............................... 77 2.3) Carlos Magno (742-814).............................................................................................. 79 3. O feudalismo e uma nova restauração do Império Romano no Ocidente........................... 80 XV. O Apogeu do Poder Papal e o Primeiro Grande Cisma do Cristianismo ............................ 82 1. Introdução: a condição da igreja nos séculos X e XI. ......................................................... 82 2. A reforma cluniacense......................................................................................................... 83 3. O apogeu do papado............................................................................................................ 84 4. O cisma de 1054.................................................................................................................. 85 XVI. As cruzadas ........................................................................................................................ 88 1. As causas das cruzadas........................................................................................................ 88 2. As principais cruzadas......................................................................................................... 90 2.1) A Primeira Cruzada...................................................................................................... 90 2.2) A Segunda Cruzada...................................................................................................... 90 2.3) A Terceira Cruzada...................................................................................................... 91 2.4) A Quarta Cruzada. ....................................................................................................... 92 2.5) A Cruzada das Crianças............................................................................................... 92 2.6) As demais Cruzadas..................................................................................................... 92 3. Avaliação das Cruzadas. ..................................................................................................... 93 XVII. Pretensões Reformistas e o Declínio do Papado............................................................... 94 1. O auge do poder papal: Inocêncio III e o IV Concílio de Latrão........................................ 94 2. As pretensões reformistas.................................................................................................... 96 2.1) As ordens monásticas................................................................................................... 97 2.2) Os movimentos reformistas leigos............................................................................... 98 3. O declínio do papado (1309-1439)...................................................................................... 98 3.1) O Cativeiro Babilônico. ............................................................................................... 99 3.2) O Grande Cisma........................................................................................................... 99
  4. 4. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página4 XVIII. Novos Tempos e Pré-Reformadores.............................................................................. 101 1. O anúncio de novos tempos. ............................................................................................. 101 1.1) O surgimento das nações-estados.......................................................................... 101 1.2) A ascensão da burguesia. ...................................................................................... 101 1.3) A renascença e o humanismo. ............................................................................... 102 1.4) A expansão geográfica e a imprensa. .................................................................... 102 2. Reformas religiosas........................................................................................................... 103 2.1) John Wycliffe (c. 1320-1384).................................................................................... 103 2.2) John Huss (c. 1369-1415). ......................................................................................... 104
  5. 5. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página5 Estudo de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Jesus Cristo, a Igreja Primitiva e a Antiga Igreja Católica I. Introdução 1. Lições da história. Diversas e valiosas são as lições auferidas pelo estudo cuidadoso da história da Igreja. A história, sobretudo, nos dá a percepção clara de que somos parte de um processo que não iniciou conosco. Isso, por si só, já nos indicaria que somente a história explica o presente (facilmente observamos as razões de nossos erros e acertos, à luz da história), que necessitamos urgentemente reforçar nosso senso de humildade e tolerância (porque a história revelar-nos-á tão somente como parte de um cristianismo que transcende nossa igreja e denominação), tanto quanto saberemos que rumos tomar quanto ao futuro, que erros evitar e que acertos estimular (I Co 10:6, 11). Ademais, não perderemos de vista, no curso desses estudos, as lições práticas e aplicáveis à vida cristã pessoal. Nesse quadrante, a história nos proverá inspiração poderosa para prosseguir, mormente nos momentos de perseguição e dificuldade (impossível não aprender com os gigantes Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna em seu modo de enfrentar o martírio), e ser- nos-á luz para compreendermos o desenvolvimento do estabelecimento da teologia cristã ao longo dos séculos (impossível não aprender teologia com as controvérsias cristológicas e teontológicas que envolveram nomes como Gregório de Nissa, Basílio e Gregório de Nazianzo). Não nutrimos quaisquer dúvidas de que “a ignorância da Bíblia e da história da igreja é a razão principal por que muitos se enveredam por falsas teologias e por práticas erradas” (Cairns). 2. A contribuição dos romanos, dos gregos e dos judeus para o advento do cristianismo.
  6. 6. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página6 Nos séculos que antecederam o cristianismo, o Rei das nações não inspirou profetas nem produziu Escrituras Sagradas, mas usou soberanamente as nações para preparar o mundo para o advento da primeira vinda de Cristo. Deus conduziu a história até a “plenitude dos tempos” (Gl 4:4; cf. Mc 1:15). Os romanos deram sua contribuição política ao cristianismo, produzindo um mundo onde a locomoção poderia se dar de modo pacífico e eficiente (o que muito contribuiu para as viagens missionárias), através de um sistema viário composto de estradas calçadas que interligava as cidades estrategicamente. Os gregos contribuíram, sobretudo, com o aspecto intelectual, concedendo ao mundo de então uma língua universal (o grego koine, do homem comum, espalhado poucos séculos antes por Alexandre e seus soldados) e uma filosofia que tornava obsoletas as religiões antigas. Entretanto, muito maior foi a contribuição dos judeus para o cristianismo. Pode-se mesmo dizer que “o judaísmo pode ser considerado como o botão do qual a rosa do cristianismo abriu-se em flor” (Cairns). Jesus foi incisivo quando afirmou que a salvação vem dos judeus (Jo 4:22) e Paulo, que aos judeus foram confiados os oráculos de Deus (Rm 3:2; 9:4, 5). Portanto, o Antigo Testamento, com o seu monoteísmo e sua ética absolutamente distintivas no mundo de então, a esperança messiânica e a instituição da sinagoga, foram pontos de contato com os judeus que o cristianismo não iria prescindir. Portanto, Deus densificou os séculos que antecederam o cristianismo para que tudo convergisse para o mundo que receberia o Messias, vindo na “plenitude do tempo” (Gl 4:4).
  7. 7. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página7 II. Jesus Cristo: Historicidade e Ministério Terreno 1. A Historicidade de Jesus Cristo. A historicidade de Cristo não representa qualquer dificuldade para um historiador desprovido de preconceitos. Além dos vinte e sete livros/cartas do Novo Testamento e dos escritos dos pais da igreja (escritores cristãos dos primeiros séculos do cristianismo), diversos inimigos da fé e críticos severos do cristianismo mencionaram o Senhor em suas obras. Tácito (c. 54 d.C. - c. 120 d.C.), historiador romano e governador da Ásia em 112 d.C., ao escrever sobre o reinado de Nero, disse: "... Chistus, o que deu origem ao nome cristão, foi condenado à morte por Pôncio Pilatos, durante o reinado de Tibério ...". Plínio, que foi governador da Bitínia em 112 d.C., escreveu ao imperador Trajano, solicitando orientações sobre como deveria tratar os cristãos. Nessa carta, Plínio afirmou que fez os cristãos "amaldiçoarem a Cristo, o que não se consegue obrigar um cristão verdadeiro a fazer". Em sua defesa, os cristãos respondiam, segundo Plínio, que sua única culpa era se reunir antes do amanhecer e cantar hinos responsivos a Cristo, "tratando-o como Deus". Luciano (c. 125 d.C - c. 190 d.C.) foi outro escritor satírico do segundo século. Ele zombou de Cristo e dos cristãos. Referiu-se a Cristo como "o homem que foi crucificado na Palestina por que introduziu uma nova seita no mundo" e como o "sofista crucificado", a quem os cristãos adoravam. Outro historiador romano a mencionar Cristo em sua obra foi Suetônio (c. 120 d.C.). Ele era um oficial da corte do imperador Adriano e escritor das crônicas reais. Ele disse: "Como os judeus, por instigação de Chrestus (Christus), estivessem constantemente provocando distúrbios, ele os expulsou de Roma". Josh MacDowell (citando F. F. Bruce) faz menção à carta de um sírio de nome Mara Bar-Serapião, escrita por volta de 73 d.C., a seu filho Serapião, na qual estimula este na busca da sabedoria, "ressaltando que os que perseguiram homens sábios foram alcançados pela desgraça". Depois de
  8. 8. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página8 dar exemplos de Sócrates e Pitágoras, Mara Bar-Separião diz: "Que vantagem os judeus obtiveram com a execução de seu sábio Rei? Foi logo após esse acontecimento que o reino dos judeus foi aniquilado". Outro testemunho valioso da historicidade do Senhor está nos escritos do historiador judeu Flávio Josefo (37d.C. - 100 d.C.). Josefo faz uma alusão a Tiago, "o irmão de Jesus, assim chamado Cristo", a quem o então sumo-sacerdote Anano, após reunir um conselho de juízes, acusou-o e o entregou para ser apedrejado. 2. A Cronologia da Vida de Jesus Cristo. O abade cita chamado Dionísio Exiguus (que morreu por volta de 550 d.C.) escolheu a data de 754 da fundação de Roma para o nascimento de Cristo (ano 0 da era cristã), ao invés do ano 749 (ano 5 a.C. da era cristã, data mais provável). Sabe-se por Josefo que ocorreu um eclipse no ano 750 (4 a.C.) da fundação de Roma, antes da morte de Herodes. Desse modo, na data escolhida por Dionísio para o nascimento de Cristo, Herodes já estaria morto há cerca de 4 anos, e não teríamos como encaixar os eventos das crianças em Belém e a fuga para o Egito (Mt 2). A ordem da matança dos bebês de dois anos para baixo (Mt 2:16) e a morte de Herodes em torno de abril do ano 4 a.C., portanto, impõem uma data para o nascimento do Senhor entre os anos 6 e 5 a.C. O início do ministério do Senhor pode também ser razoavelmente identificado. Tibério César começou a governar com César Augusto por volta de 11 ou 12 d.C., e governaram juntos por dois anos. O ministério de João Batista teve início no 15º ano de Tibério César, o que corresponde a 26 ou 27 d.C. (cf. Lc 3:1-3). Ademais, quando Jesus tinha cerca de 30 anos (Lc 3:23), fez sua primeira visita a Jerusalém, momento em que os judeus disseram que o templo levou 46 anos para ser edificado (Jo 2:13, 20). Como sabemos que Herodes começou a reinar em 37 a.C., e, segundo Josefo, a reforma do templo iniciou no ano 18 do seu reinado (ou seja, em 19 a.C.), se somarmos 46 anos a partir
  9. 9. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página9 de 19 a.C. teremos o ano 27 d.C. para esta primeira visita do Senhor a Jerusalém. Ora, se nosso Senhor iniciou Seu ministério e fez a primeira visita a Jerusalém após o batismo com cerca de 30, e isso se deu em 26 ou 27 d.C., é óbvio que precisamos retroagir Seu nascimento em pelo menos 4 anos. A duração do ministério do Senhor é geralmente demarcada a partir das festas judaicas da páscoa, conforme mencionadas por João. Três páscoas são expressamente referidas (Jo 2:13; 6:4; 12:1), além da possibilidade de uma quarta em Jo 5:1, consoante concluem diversos estudiosos. Destarte, o ministério do Senhor teria começado em 26 d.C., antes da primeira páscoa, a do ano 27 d.C. (Jo 2:13), e terminado na páscoa do ano 30 d.C. (na quinta-feira da paixão, 7 de abril ou 14 de nisã). 3. A Vida de Jesus Cristo. Temos quatro evangelhos aceitos desde cedo pela Igreja como inspirados: Mateus, Marcos, Lucas e João. Mateus concentrou-se em falar aos judeus que Cristo era o Rei-Messias esperado. Marcos, em apresentar o aspecto prático do ministério do Senhor aos romanos. Lucas debruçou-se sobre a humanidade do Senhor, enquanto João o apresentou como o Filho de Deus, que salva os que creem - aqueles que o Pai Lhe deu, aos quais chamou de "minhas ovelhas". Das narrativas evangélicas, depreende-se que além dos fatos da natividade, nada se falou sobre a infância do Senhor à exceção de Lc 2:41-50, sendo certo que o Senhor recebeu formação na sinagoga e aprendeu o ofício de Seu pai legal, José (cf. Mc 6:3). A concentração das narrativas está no ministério público do Senhor e, sobretudo, na semana da paixão. O ministério público do Senhor teve início em seu batismo por João Batista, que precedeu Sua tentação no deserto e a escolha dos primeiros discípulos que seriam Suas testemunhas e que continuariam Sua obra sob a liderança do outro Consolador, o Espírito Santo. Após o primeiro "sinal", em Caná da Galileia, o Senhor fez breve visita a Jerusalém, momento em que fez a primeira purificação do templo (Jo 2)
  10. 10. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página10 e teve uma audiência noturna com Nicodemus (Jo 3). Partindo para a Galileia através de Samaria, teve um encontro com a mulher samaritana (Jo 4). Rejeitado em Nazaré (Lc 4:16ss), o Senhor fez em Cafarnaum o centro do Seu ministério, que foi sempre orientado pela convicção de que havia sido enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel (cf. Mt 15:24). De Cafarnaum, o Senhor fez três viagens: na primeira, fez muitos milagres, dentre os quais a ressurreição do filho da viúva de Naim, concluiu o chamado dos discípulos e pregou o sermão do monte; na segunda, decidiu pelo ensino por parábolas (Mt 13) e fez outros milagres, como a cura do endemoninhado de Gadara e da filha de Lázaro; na terceira viagem, nosso Senhor deu continuidade ao ministério de pregação, sempre acompanhado de curas. Nesse período, fez visitas breves a Jerusalém, nas datas das festas da páscoa. Após esse grande ministério galileu, o Senhor fez um pequeno ministério em Jerusalém, ao tempo da Festa dos Tabernáculos, quando a animosidade dos fariseus e saduceus acirrou-se contra Ele. Com o recrudescimento da oposição dos líderes judaicos, o Senhor foi à Peréia, onde fez breve ministério, e retornou para a última semana em Jerusalém, que culminou com a crucificação. Ressurreto, o Senhor só apareceu aos Seus discípulos e por espaço de quarenta dias. Em Sua última aparição, ratificou a promessa quanto à vinda do Espírito Santo e à Grande Comissão, ambas relacionadas ao testemunho que deveriam dar a respeito dEle até aos confins da terra.
  11. 11. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página11 III. Os Avanços da Igreja até 313 d.C. 1. O primeiro século. Os ‘Atos’ de Lucas é a fonte de informação inspirada dos primeiros anos da Igreja Primitiva. Os sete primeiros capítulos se ocupam com a igreja em Jerusalém, que manteve-se como principal centro do cristianismo entre os anos 30 e 45. A chegada do evangelho na Judéia e em Samaria é descrita nos capítulos 8 a 12. A partir do capítulo 13, Lucas relata como o cristianismo foi levado a outros povos, concentrando-se nas missões paulinas. 1.1) A Igreja em Jerusalém. Tudo começou no dia de Pentecostes, quando judeus e prosélitos de todas as partes do mundo conhecido encontravam-se em Jerusalém. A igreja formava uma pequena reunião de cento e vinte pessoas na ocasião em que Judas foi substituído (At 1:15), e seu número total não era muito superior a quinhentos cristãos (I Co 15:6). Após as evidências visíveis da descida do Espírito Santo, Pedro pregou um “sermão de abertura”, no qual anunciou que Jesus de Nazaré é o Cristo e conclamou o povo ao arrependimento, momento em que se converteram três mil pessoas (At 2:41). A partir de então, o crescimento foi rápido e ininterrupto (At 5:14). O número dos convertidos logo chegou a cinco mil (At 4:4), incluindo conversões entre judeus helenistas (At 6:1) e até de “muitos sacerdotes” (At 6:7). Lucas nos informa que o modelo de vida da igreja em Jerusalém era impressionantemente comunitário, tanto em seu espírito fraternal quanto na comunhão de bens (At 2:44-45; 4:32-35). Não havia templos. As reuniões ocorriam nas casas e a Ceia do Senhor era partilhada no ambiente de uma refeição comunal. A vida da igreja conquistou a simpatia do povo, trazendo como resultado evangelização eficiente (At 2:47b). Analisando essa "forma primitiva de comunismo", Robinson Cavalcanti concluiu: que "o modelo de vida da Igreja em Jerusalém não era normativo [para o mundo] (...)"; que "o modelo era uma opção da igreja", não
  12. 12. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página12 obrigatoriamente seguido pelas demais; que "viver o modelo era uma opção livre" de cada cristão; que o modelo está baseado em um equívoco escatológico: "a crença de que o Senhor voltaria logo, não valendo a pena gastar tempo com outras coisas"; e, que "o modelo fracassou, porque era um comunismo de bens e consumo, e não de bens e produção". Observando por outro ângulo, Russell Shedd atribui a comunhão vivida entre os irmãos primitivos ao poder do Espírito no seio da igreja recém-nascida. Shedd afirmou: “Um avivamento genuíno transforma esses meros ajuntamentos em comunhão de verdade, em linguagem do Novo Testamento, ou seja, koinonia”. 1.2) A Igreja na Judeia e Samaria. A visita de Filipe a Samaria (At 8) foi a primeira investida cristã a um povo que não era judeu puro, trabalho que veio a ser apoiado por Pedro e João. Pedro foi também o primeiro a levar o Evangelho aos completamente gentios, na ocasião em que, após uma revelação que pretendia dissipar seus preconceitos raciais e teológicos, pregou na casa de Cornélio (At 10-11). Percebe-se que nesses primeiros momentos, os adeptos do cristianismo se sentiam tão somente uma parte do judaísmo. A maneira como tentavam conciliar a nova piedade com o templo de Jerusalém demonstra isso (At 2:46), tanto quanto a resistência em divulgar as boas novas a não judeus (At 10:9-16; 11:19). Foi somente em Antioquia que um grupo “mais aberto”, formado pelos que eram de Chipre e de Cirene, começou a pregar entre os gentios (At 11:20). Lucas deve ter registrado com muito prazer que “a mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor” (At 11:21). Foi assim que nasceu a igreja que logo se tornaria o novo grande centro do cristianismo. Com os resultados do trabalho em Antioquia, a igreja em Jerusalém enviou Barnabé para reforçá-lo (At 11:22), o homem que integrou Paulo no ambiente cristão de Jerusalém (At 9:27) e que agora o buscaria para auxiliá-lo no serviço daquela igreja (At 11:25, 26). 1.3) O cristianismo para todos os povos. Cairns observa que “como nenhum outro na Igreja Primitiva, Paulo entendeu o caráter universal do
  13. 13. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página13 cristianismo e entregou-se à sua pregação aos confins do Império Romano (Rm 11:13; 15:16)”. É para Paulo que se voltarão as atenções de Lucas a partir do capítulo 13 de Atos, quando, à exceção do capítulo 15, que dedica à Assembleia de Jerusalém, narra três viagens missionárias (At 13:1-21:16), a prisão do apóstolo aos gentios em Jerusalém (At 21:17-23:22), em Cesaréia (At 23:23-26:32) e sua viagem a Roma (At 27:1-28:15), onde permaneceu preso por dois anos (At 28:16-31). Uma tradição que remonta Clemente de Roma (c. de 95 a.D.) informa que Paulo fez ministério profícuo após a soltura dessa prisão em Roma, visitou igrejas, escreveu cartas e voltou a ser preso na onda de perseguição levantada por Nero, sob quem foi martirizado em cerca de 65 ou 66. Entretanto, certamente que as missões cristãs do primeiro século não se resumiam ao ministério paulino. Tiago, o filho de Zebedeu e irmão de João, o primeiro dentre os apóstolos a sofrer o martírio, foi decapitado em 44, sob a ordem de Herodes Agripa I. Tiago, meio-irmão do Senhor, tornou-se líder proeminente da igreja em Jerusalém (Gl 1:19), foi jogado do pináculo do templo e morto a pauladas. André, irmão de Pedro, pregou no Oriente Antigo. Judas Tadeu exerceu ministério na Pérsia, onde foi martirizado. Matias, o substituto de Judas, pregou na Etiópia, onde sofreu martírio. O nome de Mateus também é associado à Etiópia e há tradição que relaciona os nomes de Tomé e Bartolomeu com a Índia. João, o outro filho de Zebedeu, é associado a Pedro no relato de Lucas. Longa tradição afirma que após o exílio em Patmos, sob Domiciano, João exerceu ministério em Éfeso e nas igrejas da Ásia até morrer. Foi, provavelmente, o único dos doze a não passar pelo martírio. 2. Os séculos II e III. O cristianismo, que começou com uma maioria esmagadora de judeus e concentrado na parte oriental do Império Romano, no segundo século
  14. 14. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página14 já era composto predominantemente por gentios, alcançando regiões da Ásia, Europa e África em torno do mediterrâneo. A carta de Plínio a Trajano (sobre a qual voltaremos a falar) dá-nos conta de forte presença cristã na Ásia Menor: "Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais". Por volta do ano 200, “os cristãos se encontravam em todas as partes do Império”. O cristianismo floresceu no norte da África, e Cartago e Alexandria tiveram igrejas fortes. “Estimativas sobre a população da igreja, por volta de 250, variam entre 4 e 15 por cento da população do Império, que girava em torno de 50 a 75 milhões” (Cairns). Relevante, nesse ponto, é inquirirmos sobre como a igreja primitiva cresceu de maneira tão perceptível. Justo González afirma que depois do Novo Testamento são escassos os dados históricos de missionários como Paulo ou Barnabé. Para ele, a difusão geográfica do cristianismo se deveu, principalmente, ao trabalho de "cristãos anônimos" que, em viagens "por diversas zonas", levavam sua fé e faziam conversos. As reuniões permaneceram concentradas nos lares e, em algumas ocasiões, com o crescimento das congregações, casas eram utilizadas exclusivamente para o culto. Os templos cristãos mais antigos, pelo que se tem notícia, datam de meados do terceiro século. Por outro lado, o crescimento da igreja nesse período não se deu sem dificuldades externas (perseguições e acusações) e internas (heresias e dissensões), conforme veremos.
  15. 15. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página15 IV. As Dificuldades Externas da Igreja até 313: As Perseguições e as Acusações 1. A perseguição. 1.1)A perseguição no Primeiro Século. As primeiras perseguições sofridas pelos cristãos foram movidas pelos judeus, por intermédio do Sinédrio. Os apóstolos sofreram prisões, açoites e ameaças a fim de pararem de ensinar a nova doutrina que desafiava a estabilidade da religião judaica institucionalizada. Pedro e João foram os primeiros a enfrentar a pressão político-religiosa, e o fizeram de modo a não abrir mão da vocação a que tinham sido incumbidos: “Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus; pois não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4:19, 20). Em nova prisão, os apóstolos foram açoitados (At 5:40) e novamente ameaçados, mas reagiram com alegria por Deus lhes haver concedido a honra de sofrer pelo nome de Jesus (At 5:41). Foi a perseguição judaica que deu ao cristianismo seu primeiro mártir, Estevão (At 7). O apóstolo Paulo, que consentiu na morte de Estevão (At 8:1) e promoveu perseguição em Jerusalém e cercanias (At 8:3; 9:1; 22:4, 5; 26:9-11), também padeceria tanto nas mãos dos seus compatriotas, pelos motivos que perseguiu, sobretudo em Tessalônica, Beréia e Jerusalém, quanto por gentios, insuflados ou não por judeus. A perseguição assumiu caráter mais político nos dias em que Herodes Agripa I mandou matar a Tiago e prender a Pedro, que só não morreu na ocasião em face da intervenção divina (At 12). O primeiro imperador romano a perseguir a igreja cristã foi Nero. Os rumores de que o próprio Nero havia sido o responsável pelo grande incêndio em Roma, em julho de 64, o levou a achar nos cristãos os “culpados ideais”. A perseguição neroniana se circunscreveu a Roma e arredores, e nela foram martirizados os apóstolos Paulo e Pedro.
  16. 16. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página16 É o historiador Tácito que nos dá conta da barbárie a que foram os cristãos submetidos por Nero: "(...) Acrescente-se que, uma vez condenados à morte, eles [os cristãos] se tornavam objetos de diversão. Alguns, costurados em peles de animais, expiravam despedaçados por cachorros. Outros morriam crucificados. Outros ainda eram transformados em tochas vivas para iluminar a noite. Para esses festejos, Nero abriu de par em par seus jardins, organizando espetáculos circenses em que ele mesmo aparecia misturado com o populacho ou, vestido de cocheiro, conduzia sua carruagem" (in Documentos da Igreja Cristã). A segunda perseguição movida por um imperador romano eclodiu em 95 a.D., sob a batuta de Domiciano, provavelmente por causa da recusa dos judeus em financiar, mediante um imposto imperial, o culto a Capitolinus Jupiter. Por ainda serem identificados como judeus, os cristãos foram perseguidos. Nessa perseguição, João foi exilado na ilha de Patmos, onde registrou suas visões de Apocalipse: “Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Ap 1:9). 1.2)A Perseguição até Meados do Terceiro Século. Entre os anos 100 e 250 as perseguições foram locais e esporádicas. Uma delas ocorreu na Bitínia, quando Plínio a administrava. Plínio Segundo, o Jovem, foi nomeado governador da Bitínia (a costa norte do que hoje é a Turquia) em 111 d.C. A conversão ao cristianismo estava empobrecendo o comércio em torno das religiões pagãs, fato que preocupava Plínio. Este, por sua vez, escreve ao imperador Trajano (98-117) sobre como estava lidando com os cristãos, ou acusados de o serem, e pedindo conselhos a respeito: "Tenho muitas dúvidas a respeito de certas questões, tais como: estabelecem-se diferenças e distinções de acordo com a idade? Cabe o mesmo tratamento a enfermos e robustos? Aqueles que se retratam devem ser perdoados? A quem sempre foi cristão deve gratificá-lo quando deixa de sê-lo? Há de punir-se o simples fato de alguém ser cristão, mesmo que inocente de qualquer crime, ou exclusivamente delitos praticados sob esse nome?".
  17. 17. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página17 Plínio também diz a Trajano como estava lidando com a questão do cristianismo: "eis o procedimento que adotei nos casos que me foram submetidos sob acusação de cristianismo. Aos incriminados pergunto se são cristãos. Na afirmativa, repito a pergunta segunda e terceira vez, ameaçando condená-los à pena capital. Se persistem, condeno-os à morte (...) tratando-se de cidadãos romanos, separo-os para enviá-los a Roma". Plínio ainda informa a Trajano que recebeu uma lista anônima com muitos nomes. Após a pressão do governador, alguns negaram ser cristãos, mas todos foram unânimes em confessar que sua culpa consistia de que "em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento não [cometerem] algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento". O imperador Trajano respondeu a Plínio que os cristãos "não devem ser perseguidos. Mas, se surgirem denúncias procedentes, aplique-se o castigo", devendo ser perdoado aquele que se retrata e retorna à adoração dos deuses (citações extraídas de Bettenson, in Documentos da Igreja Cristã). A política de Plínio ocorreu como recomendada pelo imperador, no sentido de não caçar cristãos, mas se alguém fosse acusado de negar a adoração aos deuses e se recusasse a negar a fé, deveria ser castigado. Nessa perseguição, Inácio, o Bispo de Antioquia, por volta de 107, foi martirizado. Outra perseguição explodiu no tempo do imperador Antonino, o Pio (138-161), na cidade de Esmirna em meados do segundo século, ocasião em que Policarpo foi martirizado. Na presença do procônsul, Policarpo foi admoestado a "jurar pelo gênio de César", a gritar "abaixo os ateus" e a "insultar a Cristo". A isso Policarpo respondeu: "Oitenta e seis anos há que sirvo a Cristo. Cristo nunca me fez mal. Como blasfemaria contra meu Rei e Salvador?" As últimas palavras da oração final de Policarpo foram estas: "Possa eu, hoje, ser recebido na Tua presença como uma oblação preciosa e aceitável, preparada e formada para ti. Tu és fiel às tuas promessas, Deus fiel
  18. 18. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página18 e verdadeiro. Por esta graça e por todas as coisas, eu te louvo, bendigo e glorifico, em nome de Jesus Cristo, eterno e sumo sacerdote, teu Filho amado. Por Ele, que está comigo, e o Espírito Santo, glória te seja dada agora e nos séculos vindouros. Amém! (in Documentos da Igreja Cristã)". Depois da oração, os algozes acenderam a fogueira, que não queimava o corpo de Policarpo, razão pela qual foi morto com a espada. Digna de nota também foi a perseguição movida pelo imperador Marco Aurélio (161-180), por creditar as calamidades que ocorreram em seu reinado (invasões, inundações, epidemias etc.) ao crescimento do cristianismo. Justo González propõe que, “talvez, como Plínio anos antes, Marco Aurélio Pensasse que era necessário castigar os cristãos, senão por seus crimes, pelo menos por sua obstinação”. Nessa perseguição, Justino Mártir e Blandina foram martirizados. Ainda nos dias de Marco Aurélio, as igrejas de Viena e Lyon, na Gália, em carta enviada às Igrejas da Frígia e Ásia Menor, em 177 d.C., comunicaram que a perseguição lhes alcançou “como um relâmpago”: "O adversário caiu sobre nós com todo o ímpeto de suas forças... Não somente fomos expulsos das casas, das termas e do foro, mas, inclusive, fomos proibidos de aparecer em público. Mas a glória de Deus pelejou conosco contra o diabo...". Algumas pessoas não suportaram a tortura e renegaram a fé, mas os demais suportaram firmemente. “O cárcere estava tão cheio de prisioneiros, que muitos morreram asfixiados, antes que os verdugos pudessem aplicar-lhes a pena de morte. Alguns dos que antes haviam negado a sua fé, ao verem seus irmãos tão valorosos em meio a tantas provas, voltaram à sua antiga confissão e morreram também como mártires” (González). Blandina foi a mais destacada desses mártires da Gália. "Depois de ter suportado açoites, a dilaceração das feras e a cadeira de ferro, ela foi presa numa rede e atirada a um touro. Depois de ser jogada para o alto por algum tempo pelo animal, mostrando-se muito superior aos seus sofrimentos pela influência da esperança, pela visão consciente dos objetos de sua fé e pela sua associação com Cristo, ela finalmente entregou o seu espírito" (John Foxe). Nova perseguição ocorreu com o imperador Sétimo Severo (193- 211), sobretudo no Egito e em Cartago, entre 202 e 206. Nesse período, um
  19. 19. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página19 decreto imperial proibia a conversão ao cristianismo e ao judaísmo, e foram martirizados Irineu de Lyon (202 d.C.), Perpétua e Felicidade (203 d.C.). 1.3)A Perseguição até o Edito de Milão. Décio (249-251) promulgou um edito em 250 d.C. que exigia oferta anual de sacrifício aos deuses e ao imperador. Foi esse imperador que promoveu a primeira perseguição em todo o império romano. Nesse período, Orígenes sofreu torturas que mais tarde lhe causariam a morte e Fabiano de Roma foi martirizado (250 d.C.). Entretanto, a mais dura perseguição oficial aos cristãos ocorreu sob os reinados de Diocleciano (284-305) e Galério (305-311). Numa série de editos promulgados a partir de 303, Diocleciano proibiu as reuniões cristãs e ordenou a destituição dos oficiais da igreja, a perseguição aos que perseverassem na fé e a destruição das Escrituras. Os cristãos foram punidos com o confisco de bens, prisões, exílios e execuções à espada ou por animais ferozes. As prisões ficaram tão cheias de líderes cristãos e crentes comuns que não havia lugar suficiente para criminosos, segundo Eusébio. Essa feroz perseguição perdurou até 305 d.C., ano em que Diocleciano abdicou. Após outros breves períodos de perseguição, o imperador Galério promulgou um edito, em 311, que estabelecia a tolerância ao cristianismo, sob a condição de que os cristãos não perturbassem a paz do império. Mas a perseguição só acabaria totalmente em 313, com o edito de Milão, promulgado por Constantino e Licínio (312-337), que garantia a liberdade de culto a todas as religiões. Por sua importância, vale anotar ao menos um breve extrato do Edito de Milão: "(...) Pareceu-nos [a Constantino e Licínio] justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Desta forma o Deus, que mora no céu, ser-nos-á propício a nós e a todos os nossos súditos. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de instruções anteriores relativas aos cristãos, aos que optarem pela religião de Cristo estão autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste (...)" (com grifo nosso).
  20. 20. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página20 2. As Acusações. O cristianismo sofreu uma série de acusações por parte do populacho e de escritores pagãos, dentre os quais Celso (de quem sabemos pela obra de Orígenes) e Cornélio Fronton (que foi mestre de Marco Aurélio). A carta das igrejas da Gália dá-nos conta de diversas acusações lançadas sobre as igrejas de Lyon e Viena: "(...) Também foram presos alguns de nossos escravos que eram pagãos, porquanto o governador havia decretado que se nos procurasse a todos. Eles, temendo os tormentos que viam padecer os santos, impulsionados pelos demônios e instigados pelos soldados, acusaram-nos de comermos os nossos filhos, de termos relações sexuais com nossas próprias mães e de outras coisas das quais não é possível falar ou nelas pensar, pois não podemos acreditar que jamais tenham acontecido entre os seres humanos. Espalhadas estas coisas entre o vulgo, de tal modo enfureceram-se contra nós que, se alguns até então guardavam moderação com respeito a nós por motivos de parentesco, agora se iraram violentamente contra nós, agitados por grande indignação" (in Documentos da Igreja Cristã). O populacho acusava os cristãos de ateísmo (visto que se recusavam a adorar os deuses e ao imperador), de canibalismo (imaginavam que os cristãos punham meninos recém-nascidos dentro de um pão e quando ordenava-se que fosse cortado, lhe devoravam o corpo), de praticar orgias incestuosas (porque celebravam em secreto uma “festa do amor”, entre “irmãos” e “irmãs”) e práticas antissociais (porque os cristãos se recusavam a participar de cerimônias civis que culminavam em sacrifício aos deuses). Outra opinião corrente era a de que os cristãos adoravam um asno crucificado. Os pagãos cultos iam além dos boatos espalhados pela plebe e questionavam o cerne das doutrinas cristãs, acusando o cristianismo de religião de bárbaros. O Deus dos cristãos era ridículo, segundo a argumentação pagã, posto que onipotente e ao mesmo tempo imiscuído no cotidiano dos homens. Jesus era tão somente um malfeitor, crucificado pelas autoridades romanas. Celso chega a dizer que foi um filho ilegítimo de Maria com um soldado romano e, finalmente, se era Deus, por que se deixou
  21. 21. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página21 crucificar? Por fim, a crença na ressurreição era um grande escândalo para os pagãos. Como veremos, homens cristãos desenvolveram uma farta literatura em defesa da fé, com base no Novo Testamento, demonstrando que, ao revés do que se divulgava, o culto e a moral cristãos eram superiores e que os seguidores de Cristo mereciam melhor tratamento.
  22. 22. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página22 V. As Dificuldades Internas da Igreja até 313: As heresias e as Divisões 1. As Heresias. Não sem razão, Louis Berkhof anotou que "por grandes que fossem essas ameaças vindas de fora [referindo-se às perseguições e às acusações], havia perigos ainda maiores, que ameaçavam internamente a Igreja. Essas últimas consistiam de diferentes modalidades de perversão do evangelho". 1.1)O Ebionismo. O ebionismo manteve-se aceso até o segundo quartel do segundo século. Sua doutrina era legalista e sua teontologia, unitariana. Não havia salvação fora da lei de Moisés e da circuncisão. Seus adeptos não aceitavam o apostolado de Paulo, a quem tinham como apóstata da lei, exigiam a circuncisão dos gentios convertidos e negavam a divindade e o nascimento virginal do Senhor Jesus. Segundo os ebionitas, o homem Jesus tornou-se o Messias por haver cumprido a lei cabalmente. Jesus "ter-se-ia tornado cônscio de tal coisa por ocasião de seu batismo, quando recebeu o Espírito, o que o capacitou a realizar sua tarefa, isto é, a obra de um profeta e mestre" (Louis Berkhof). Aceitavam o Evangelho de Mateus e rejeitavam as cartas paulinas. Após a destruição de Jerusalém, em 135, os ebionitas perderam sua influência. 1.2)Os Elquesaítas. Ensinavam um tipo sincrético de cristianismo, associado com judaísmo e magia. Quanto à Cristo, rejeitavam seu nascimento virginal, afirmando que Ele nasceu como quaisquer dos homens, embora O tivessem na conta de um espírito ou anjo superior, o mais elevado arcanjo ou a encarnação do Adão ideal. Sua prática era caracterizada pelo estrito ascetismo, por grande consideração ao sábado e à circuncisão, pelo exercício da magia e da astrologia e pelas lavagens rituais, às quais atribuíam poderes mágicos.
  23. 23. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página23 Segundo Berkhof, "com toda a probabilidade se referem a essas heresias a Epístola aos Colossenses e I Tm". 1.3)O Gnosticismo. Paulo em Colossos, em Éfeso e em Creta, e João na Ásia, enfrentaram um gnosticismo ainda incipiente, com ênfase em anjos e forte dualismo, que redundava em ascetismo, por um lado, ou em libertinagem, por outro, além da espiritualização quanto à ressurreição (cf. Cl 2:18ss; I Tm 1:3-7; II Tm 2:14-18; Tt 1:10-16). Em algumas manifestações desse gnosticismo iniciante, fazia-se distinção entre o Jesus humano e o Cristo. Cristo seria um espírito superior que havia descido sobre o Jesus humano no batismo e o abandonado antes da crucificação, como queria Cerinto (cf. Jo 1:14; I Jo 2:22; 4:2, 15; 5:1, 5-6; II Jo 7). O pensamento gnóstico chegou ao apogeu somente em meados do segundo século. Era uma espécie de sincretismo de cristianismo e neoplatonismo, tendo Walther argutamente dito tratar-se de "um furto de alguns trapos cristãos para cobrir a nudez do paganismo" (citado por Berkhof). Existem vários sistemas gnósticos, como os de Cerinto (c. 100), Basílides (130-150) e Valentino (140-160), de modo que só se pode apontar as principais doutrinas desse movimento pulverizado, quais sejam: (1) separação entre os mundos material (produto de um deus inferior) e espiritual, estando a matéria sempre identificada com o mal e o espírito com o bem; (2) a distância entre Deus e o mundo da matéria era mediada por emanações do bem supremo do gnosticismo, "seres intermediários, emanações do divino, que em seu conjunto constituem a 'pleroma', sendo obra de uma divindade subordinada, talvez hostil" (Berkhof); (3) a salvação era apenas para a alma e se dava através da fé junto com a aquisição da gnoses (conhecimento) que Cristo comunicava somente à elite espiritual. Os homens eram divididos em três classes: os "pneumatikos" (a elite espiritual): os que são capazes de adquirir um conhecimento superior e uma bem-aventurança mais elevada; os "psíquicos" (membros comuns da igreja): que podem salvar-se pela fé e pelas obras, só podendo obter uma bem-aventurança menor; e os "hílicos" (os
  24. 24. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página24 gentios): irremediavelmente perdidos; (4) como a matéria é má, Cristo não poderia ter se encarnado, daí a cristologia gnóstica conhecida por “docetismo” (do grego ‘dokeo’, que significa ‘parecer’), segundo a qual o homem Jesus tinha apenas uma aparência de corpo material. Um dos gnósticos mais destacados foi Márcion (c. 85-160), que formou seu próprio cânon - que incluía o Evangelho de Lucas, Atos e dez cartas paulinas -, e sua própria igreja. Ensinava que havia dois deuses, o Deus criador do Antigo Testamento, que era mal, e o Deus redentor do Novo Testamento, que era bom. Não cria na divindade do Cristo humano. Seu gnosticismo como um todo fomentou o antissemitismo, o orgulho espiritual e “seu ascetismo foi um dos fatores formativos do movimento ascético medieval conhecido como monasticismo” (Cairns). 1.4)O Montanismo. Surgido na Frígia, entre 134 e 177, com Montano, o montanismo foi uma reação ao formalismo e à excessiva institucionalização da Igreja. Ele e duas mulheres, Prisca e Maximila, se anunciaram profetas. Montano e seus colaboradores tinham-se como os últimos profetas e puseram ênfase nas doutrinas do Espírito Santo e da segunda vinda de Cristo, que consideravam iminente. Montano era, para a seita, como um profeta através de quem o Espírito Santo falava à igreja, do modo como havia feito através dos apóstolos. Berkhof resume os ensinos de Montano da seguinte forma: salientavam a proximidade do fim do mundo; insistiam no celibato - permitindo, quando muito, um único casamento -, no jejum e na rígida disciplina moral; exaltavam indevidamente o martírio e os carismas. Diversas facetas do anabatismo do século XVI e do pentecostalismo contemporâneo são reproduções fidedignas do montanismo. O movimento foi condenado pelo Concílio de Constantinopla, em 381, apesar de Tertuliano, um dos maiores pais da igreja, haver se tornado montanista. 1.5)O Monarquianismo. Os monarquianos se concentraram no monoteísmo, mas afirmando somente a unidade de Deus. No terceiro século, Paulo de Samósata, o mais notável expoente do monarquianismo, homem inescrupuloso e demagogo que
  25. 25. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página25 chegou ao bispado da Igreja em Antioquia, ensinou que Cristo era apenas humano, mas que tinha se tornado o salvador por sua justiça e por haver sido penetrado pelo “Logos” divino, doutrina que ficou conhecida como “monarquianismo dinâmico”, uma forma primitiva de unitarianismo e alinhada com o ebionismo. Segundo essa heresia, o homem Jesus foi sendo deificado na medida em que o Logos penetrava sua humanidade, por isso ele se tornou digno de honra. Outra forma de monarquianismo (o “monarquianismo modalista”) foi proposta por Sabélio, consistente na negação da distinção das Pessoas da Trindade, com vistas a evitar o triteísmo. Ele ensinou uma trindade de manifestações e não de pessoas na divindade. Deus teria se manifestado como Pai no Antigo Testamento, como Filho para redimir o homem e como Espírito após a ressurreição de Cristo. "As designações Pai, Filho e Espírito Santo seriam apenas nomes dados a três fases diferentes em que a una essência divina se manifestaria" (Berkhof). No Oriente, a doutrina de Sabélio foi chamada de "sabelianismo"; no Ocidente, de "patripassianismo", por afirmar que Deus o Pai sofrera na cruz. 1.6)O maniqueísmo. O nome desse movimento herético se deve àquele que foi seu principal mestre, Mani (216-277). Segundo Mani, Deus havia falado de forma fragmentada através de Moisés, Buda, Platão e Jesus, mas que a revelação completa se daria por meio dele. Ele almejava uma religião contendo elementos do budismo, zoroastrismo e cristianismo e alegava que os apóstolos haviam corrompido os ensinos de Jesus. Conforme lição de Flanklin Ferreira, “os maniqueístas defendiam uma visão dualista da criação, acentuando a tensão entre luz e trevas. Nesse caso, Cristo seria o representante da luz, procedente de Deus, e Satanás das trevas, identificado com a matéria. Eram extremamente ascetas e sua compreensão da salvação era muito parecida com a ensinada pelo gnosticismo, no que diz respeito à vinculação da salvação ao conhecimento secreto dos passos necessários para escapar das trevas em direção à luz”.
  26. 26. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página26 2. As Divisões Internas. Além das perseguições e acusações vindas de fora, a igreja cristã antiga enfrentou as heresias (a exemplo das destacadas acima) e as divisões internas. Logo no início, surgiram cismas em torno da disciplina e da liturgia. No segundo século, em torno de 160, as igrejas no Oriente e no Ocidente contenderam acerca do dia em a páscoa deveria ser celebrada. A Igreja Oriental propôs o dia 15 de nisã, independentemente do dia da semana em que caísse. A Igreja Ocidental, através do Bispo de Roma Aniceto, defendeu que a data seria o domingo seguinte ao 14 de nisã. Outra grande controvérsia na igreja ocorreu no início do século quarto, conhecida como “donatismo”. Em 311, um cristão chamado Donato, do norte da África, solicitou a deposição do Bispo Ceciliano, por haver sido consagrado por Félix, que fora “traditor” no tempo da perseguição sob Diocleciano. Vale lembrar que Diocleciano ordenou a queima de Escrituras. Nessas torturas, alguns não resistiam e entregavam cópias das Escrituras aos carrascos, os “traditores” (i.é., os traidores). Portanto, a controvérsia donatista gerou em tornou de como os “traditores” deveriam ser tratados, passada a perseguição, e se atos litúrgicos por eles praticados eram válidos.
  27. 27. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página27 VI. As Reações da Igreja: A Literatura dos Séculos II e III 1. Introdução. A Igreja, para fazer frente às dificuldades que a desafiaram nos primeiros séculos, desenvolveu uma literatura epistolar, apologética e em defesa da ortodoxia. Ademais, para resistir às tantas heresias que lhe assediaram, fez crescer o poder do bispo monárquico, desenvolveu sua declaração de fé (O Credo dos Apóstolos) e reconheceu oficialmente os livros divinamente inspirados, que deveriam compor o cânon do Novo Testamento. Analisemos, nesse passo, a literatura dos Pais Apostólicos e dos Pais da Igreja dos séculos II e III. 2. A Literatura dos Pais Apostólicos. Os Pais Apostólicos foram os primeiros líderes da Igreja cristã, que mantiveram algum contato com os apóstolos, a desenvolverem uma literatura cristã pós-apostólica. Eles escreveram apenas para cristãos durante o período compreendido entre 95 e 150 d.C. e sua preocupação era tão somente edificar as igrejas. Os principais nomes deste período são Clemente de Roma, Inácio, Policarpo e Papias. 2.1) Clemente de Roma (30-100 d.C.) Escreveu aos coríntios em cerca de 95 d.C., carta que tem recebido atenção especial por ser o escrito cristão mais antigo após o Novo Testamento. A carta foi motivada por problemas entre os cristãos coríntios, revoltosos contra seus líderes, razão dos capítulos 42 a 44 da epístola, nos quais Clemente pede obediência aos líderes. Nos capítulos 24 a 26, o pai apostólico trata da ressurreição dos corpos, ilustrando-a com a lenda de Fênix. Em 5:5-7, Clemente mencionou o ministério de Paulo, de onde exsurge a tese de duas prisões de Paulo e uma frutífera obra missionária entre elas. 2.2) Inácio de Antioquia
  28. 28. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página28 Foi preso pelo seu testemunho cristão e levado a Roma para ser devorado pelas feras. Ao longo da viagem, foi-lhe permitido ser visitado pelas igrejas, às quais escrevia como forma de gratidão e para dar-lhes instrução. O bispo de Antioquia escreveu suas sete cartas (às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trália, Roma, Filadélfia, Esmirna e a seu amigo Policarpo) por volta de 110 d.C., sendo ele o primeiro a hierarquizar as funções de bispo, presbítero e diácono no âmbito da igreja local. Nesse sentido, escreveu aos filadelfos: "Apegai-vos ao Bispo, ao Presbítero e aos diáconos". Escrevendo aos romanos, Inácio suplicou que não intervissem com a finalidade de livrá-lo do martírio: "Suplico-vos, não vos transformeis em benevolência inoportuna para mim. Deixai-me ser comida para as feras, pelas quais me é possível encontrar Deus. Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-me como pão puro de Cristo. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada de meu corpo, para que na minha morte não me torne peso para ninguém". 2.3) Policarpo (c. 70-155), O bispo de Esmirna, foi discípulo do apóstolo João. Em 110 d.C., escreveu uma epístola aos filipenses com o propósito de fortalecer a vida cristã dos irmãos de Filipos. Nessa epístola, fez 60 citações do Novo Testamento, sendo 34 paulinas, demonstrando profundo conhecimento das epístolas de Paulo. Sobre a carta que Paulo escreveu aos filipenses, ele afirmou: "Ele [Paulo], estando entre vocês, comunicou com exatidão e força a palavra da verdade na presença daqueles que estão vivos ainda. E quando vos deixou, escreveu-lhes uma carta, que, se a estudarem com cuidado, encontrarão o sentido de terem sido erguidos na fé que lhes foi dada, e que, sendo seguida da esperança e precedida pelo amor para com Deus e Cristo, assim como para nosso próximo, é mãe de todos nós" (tradução de Luiz Fernando Karps Pasquoto). 2.4) Papias, Bispo de Hierápolis, na Frígia, pode ter sido discípulo do apóstolo João. Em meados do segundo século, escreveu "As Interpretações dos Ditos
  29. 29. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página29 do Senhor", cujos fragmentos foram preservados nos escritos de Irineu e Eusébio. Segundo Eusébio, Papias afirmou que Marcos foi o intérprete de Pedro e que o evangelho de Mateus foi escrito em hebraico. Segundo Irineu, Papias defendia ideias pré-milenistas. 3. A Literatura dos Apologetas e dos Defensores da Ortodoxia. Nos séculos II e III da era cristã, surgiu uma literatura cristã voltada para resistir a desafios vindos de fora, tanto quanto para enfrentar os surgidos no seio da própria igreja. Earle E. Cairns percebeu que "os apologistas, recentemente convertidos do paganismo, estiveram preocupados com a ameaça à segurança da Igreja, especialmente com a perseguição; os polemistas que tinham uma formação cultural cristã, preocuparam-se com a heresia, a ameaça interna à paz e à pureza da Igreja". 3.1) Os apologetas. A literatura voltada aos inimigos da fé e ao império romano pretendia refutar as falsas acusações e demonstrar que a razão e o bom senso pertenciam aos cristãos, que eram superiores aos seus vizinhos pagãos. Defensivamente, os apologetas demonstravam que as acusações feitas contra os cristãos eram incoerentes tanto com a mensagem do evangelho quanto com o caráter dos professantes da fé cristã. Positivamente, teciam argumentos no sentido de demonstrar o absurdo da religião pagã, com seu panteão de deuses devassos. A seguir, transcrevemos algumas linhas do "Discurso a Diagneto", uma das mais antigas apologias, de autor anônimo: "Os cristãos não se diferenciam dos demais por sua nacionalidade, por sua linhagem nem por seus costumes... Vivem em seus próprios lugares, mas como transeuntes, peregrinos. Cumprem todos os seus deveres de cidadãos, mas sofrem como estrangeiros. Onde quer que estejam encontram sua pátria, mas sua pátria não está em nenhum lugar... Se encontram na carne, mas não vivem segundo a carne. Vivem na terra, mas são cidadãos dos céus. Obedecem todas as leis,
  30. 30. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página30 mas vivem acima daquilo que as leis requerem. Amam a todos, mas todos os perseguem" (5:1-11, citado por Justo L. González). No Oriente, os grandes nomes que se destacaram na defesa da fé cristã foram Aristides (c. 140), Justino Mártir (100-165), Taciano (século II), Antenágoras (escreveu em 177 a "Súplica pelos Cristãos") e Teófilo de Antioquia (escreveu em c. de 180 a "Apologia a Autólico"). No Ocidente, destacaram-se Minúcio Félix (escreveu "Otávio" em c. de 200) e, principalmente, Tertuliano (c.160 a c. 230). É verdade que nem todos os apologistas defenderam o cristianismo sob a mesma perspectiva, sobretudo quanto à relação da fé cristã com a cultura grega. Justino Mártir dedicou-se em demonstrar as relações entre o cristianismo e a filosofia clássica, abordando os vários pontos de contato e explicando-os em termos da influência do "Logos". Para Justino, o "Logos", que para os gregos era a fonte de todo o saber, se fez carne através do homem Jesus, sendo Jesus Cristo a fonte de todo o conhecimento verdadeiro. Portanto, em certo sentido, os sábios da antiguidade clássica (Sócrates, Platão), ainda que só conhecessem o verbo parcialmente, eram cristãos. Em outro extremo, estava Taciano, o mais famoso discípulo de Justino, para quem havia uma oposição radical entre a fé cristã e a cultura pagã. Para Taciano, se há alguma coincidência entre a cultura grega e a religião cristã, deve-se ao fato de que os gregos aprenderam sua sabedoria dos "bárbaros" (cristãos). Sobre os deuses gregos, Taciano questiona o direito que exigem dos cristãos que sejam tais deuses honrados, vez que Homero e os demais poetas gregos contam coisas a seu respeito que são dignas de vergonha, tais como adultério, incesto e infanticídio. Em geral, a grande dificuldade que se tem contra os apologetas deste período é a sua apresentação do cristianismo em termos de filosofia, o que se pode observar, sobretudo, na doutrina do "Logos". Sua doutrina incluía a ressurreição dos corpos, sendo inconsistentes em sua soteriologia que, às vezes, punham ênfase demasiada no livre-arbítrio, e, em outras, faziam a salvação depender inteiramente da livre-graça. Mais problemática era a doutrina dos apologetas quanto ao "Logos". Para eles, o "Logos" existia em Deus, eternamente, sem existência pessoal, ao
  31. 31. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página31 que Deus concedeu existência separada e pessoal. Embora essencialmente igual a Deus, o "Logos" nem sempre existiu como autonomamente existente, pelo que se poderia dizer ser Ele uma criatura. 3.2) Os Defensores da fé. Outros escritores cristãos dos séculos II e III, por sua vez, desenvolveram uma literatura para combater as heresias que desafiavam a pureza doutrinária da Igreja. Irineu é o maior pai anti-gnóstico do Oriente. No Ocidente, destacaram-se em Alexandria Clemente (155-225) e Orígenes (185- 254) e, em Cartago, Tertuliano e Cipriano. Irineu (130-200) nasceu no Oriente, onde tornou-se discípulo de Policarpo. Mai tarde tornou-se presbítero em Lyon. De cristologia ortodoxa, afirmava contra os gnósticos que o "Logos" existiu desde toda a eternidade, tornou-se o Jesus histórico na encarnação, sendo, daí em diante, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Negava peremptoriamente a heresia gnóstica de que o Jesus humano se separou do Cristo divino, quando dos seus sofrimentos e morte. Tertuliano, o mais famoso pai anti-gnóstico, foi advogado e presbítero da Igreja em Cartago. Escreveu tanto em defesa da fé, em sua obra "Apologeticum", quanto como teólogo, na obra "Adversus Praxeas". Foi o primeiro a ensinar a tripersonalidade de Deus usando o termo "Trindade". Em Tertuliano também se vê um indício da doutrina do pecado original. Louis Berkhof analisa que nem Irineu nem Tertuliano chegaram a uma plena declaração da Trindade, porque em ambos estava presente a ideia de subordinação do Filho em relação ao Pai. Em ambos, também percebe-se a relação entre o batismo e a regeneração. O homem seria regenerado pelo batismo, segundo Irineu. Para Tertuliano, o pecador, pelo arrependimento, obtém salvação mediante o batismo, e os pecados cometidos após o batismo requerem satisfação mediante penitência. Irineu e Tertuliano também não compreenderam a doutrina paulina da justificação pela fé. Segundo Irineu, "A fé necessariamente levaria à observância dos mandamentos de Cristo, sendo ela suficiente para tornar o homem justo diante de Deus" (Berkhof). Sua escatologia era pré-milenista. Os seis primeiros mil anos seriam sucedidos pelo milênio literal, o milênio sabático,
  32. 32. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página32 inaugurado pela reaparição de Cristo, quando os crentes gozarão as riquezas da terra na Palestina. Após o milênio, surgirão os novos céus e a nova terra. Clemente e seu discípulo, Orígenes, foram os grandes representantes da escola alexandrina, ainda menos ortodoxos que Irineu e Tertuliano. Eram extremamente alegóricos na interpretação da Bíblia e favoreciam a uma espécie extravagante de síntese entre neoplatonismo e cristianismo. Ambos mantiveram a ideia de subordinação do Filho em relação ao Pai e, sobre o Espírito Santo, Orígenes afirmou que é uma criatura criada pelo Pai através do Filho, tendo o Espírito uma relação menos íntima com o Pai do que o Filho. Ambos defendiam a ideia de livre-arbítrio, que o batismo é o começo da nova vida na igreja e que fora da igreja - a congregação dos crentes -, não há salvação. Para ambos, o processo de purificação continua após a morte. Segundo Clemente, os pagãos teriam oportunidade de arrepender-se no hades. Para Orígenes, a obra redentora não estaria terminada enquanto todas as coisas não fossem restauradas à sua beleza original, incluindo Satanás e seus demônios. Ambos, Clemente e Orígenes, rejeitaram o milenarismo.
  33. 33. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página33 VII. As Reações da Igreja: O Bispo, o Credo e o Cânon 1. Introdução. Como dissemos em ocasiões anteriores, a Igreja, para combater as dificuldades que a desafiaram nos primeiros séculos, desenvolveu uma literatura epistolar, apologética e em defesa da ortodoxia (temas sobre os quais já nos debruçamos brevemente). Mas, não só. Nesse ponto de nossos estudos, voltar-nos-emos ao bispo monárquico, ao Credo e ao cânon. Se não, vejamos. 2. O Bispo Monárquico. Em um primeiro momento, líderes cristãos como Inácio de Antioquia reconheceram a proeminência (não encontrada no Novo Testamento) do Bispo sobre o Presbítero e o Diácono no âmbito da igreja local, ao argumento de ser esta uma forma de proteção da unidade. Outra razão invocada para a projeção do poder do bispo monárquico foi a necessidade de uma liderança para lidar com a perseguição e com a heresia. Em um segundo momento, conforme Nichols observou, no "2º século o bispo era o pastor de uma igreja numa cidade. À proporção que crescia o número de crentes outros grupos se formavam na mesma cidade e adjacências. Todos esses grupos ficavam sob o governo do bispo da igreja- mãe (=matriz). Cada uma das outras igrejas era dirigida por um presbítero, e o bispo exercia superintendência sobre todo o distrito ou diocese" (Robert Hasting Nichols). Posteriormente, tendeu-se à conclusão de que bispos de determinadas igrejas, como os de Roma, Jerusalém, Éfeso, Antioquia e Alexandria, eram superiores aos de outras e não demorou até que o bispo de Roma viesse a ser objeto de uma honra especial, pelas seguintes razões: a uma, Roma era a capital do império e talvez possuísse a igreja mais rica e influente; a duas, uma forte tradição ligava Roma aos apóstolos Paulo e Pedro, considerados os principais líderes da igreja primitiva; a três, acreditou-se que Pedro teria sido o primeiro Bispo de Roma e que Cristo havia dado a ele a
  34. 34. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página34 primazia dentre os apóstolos, com base em Mt 16:18, 19 e Jo 21:15-19; a quatro, a doutrina da sucessão apostólica pretendia fazer todos os bispos retornarem aos apóstolos e o bispo de Roma, a Pedro. Como, a partir dessa reflexão, Pedro teria a primazia no colégio apostólico, todos os bispos estariam para o bispo de Roma como os apóstolos para Pedro. Deve-se anotar, todavia, quanto à alegada primazia de Pedro dentre os apóstolos e sua suposta liderança em Roma, as seguintes considerações: Primeiro, a prerrogativa do "poder das chaves", dada a Pedro em Mt 16:19, foi igualmente concedida aos demais apóstolos em Jo 20:23 e a toda a igreja em Mt 18:15-18. Isso se dá por que tal poder não está adstrito a quaisquer dos apóstolos, mas ao evangelho de Cristo. Segundo, por mais de uma vez houve debate entre os apóstolos com vistas a uma primazia entre eles, como se pode verificar em Lc 9:46 e 22:24-30, e na presença de Cristo. Se uma espécie de primado já houvesse sido conferida a Pedro em Mt 16:18, 19, não se teria travado tal discussão na época da prisão do Senhor Jesus ou nosso Senhor teria uma base sólida para corrigir o desvio. Muito ao contrário, o ensino de nosso Senhor foi no sentido de não haver domínio hierárquico entre os apóstolos, como se pode verificar em passagens como Mt 19:28 e Ap 20:14. Terceiro, Paulo não se via como inferior a Pedro nem em nada dependente dele, como se pode deduzir de Gl 1:15-19, tampouco se conteve quando a necessidade exigiu que lhe resistisse "face a face" (Gl 2:11-14). Quarto, Pedro é visto nas páginas do Novo Testamento como mais um entre seus pares (Gl 2:9). Em At 8:14, ele é um delegado, juntamente com João, da igreja em Jerusalém para supervisionar o trabalho em Samaria. Em At 15, naquela grande Assembleia em Jerusalém, não vemos Pedro exercer o primado alegado pelos romanistas. Com efeito, o decreto desta Assembleia foi promulgado pela ampla participação dos "apóstolos", "presbíteros" e por "toda a igreja" (15:22, 23). Mais ainda, ele mesmo, pelo que lemos dos seus pronunciamentos e das suas epístolas, não reconhecia-se portador de nenhuma primazia, como se há de concluir pelo modo como tratou da substituição de Judas, em At 1:25, 26.
  35. 35. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página35 Quinto, tampouco pode prosperar a interpretação de Mt 16:18 que faz de Pedro o fundamento sobre o qual Cristo iria construir Sua Igreja. Há divergência sobre a interpretação de quem ou do que seria a "rocha" no texto em comento, se o próprio Cristo, se a confissão de Pedro, como parte da doutrina apostólica ou mesmo se Pedro, referido por Jesus como aquele que abriria as portas do reino com a pregação aos judeus, em At 2, e aos gentios, em At 10. Entretanto, o Novo Testamento é tão claro sobre quem é a rocha fundamental da Igreja que a única interpretação inaceitável é a que dá a Pedro o lugar de ser o fundamento sustentáculo dela, como se pode conferir nas palavras de Cristo mesmo (Mt 7:24-27; 21:42), do próprio Pedro (At 4:11, 12, I Pe 2:4-6) e de Paulo (I Co 3:11; 10:4; Ef 2:19-22). Pois bem, como afirmou E. Carlos Pereira, em sua obra "O Problema Religioso da América Latina", por ele prefaciada em 1920, "diremos com distincto escriptor: - a ausencia do sol ao meio-dia não é mais notável do que a ausencia da supremacia official de S. Pedro nas paginas do Novo Testamento" (mantemos a ortografia da época). Nada obstante, o fato é que esse período da história da igreja já encerra com uma forte doutrina da sucessão apostólica, com um bispo em cada igreja elevado a posição hirarquicamente superior ao presbítero e com uma certa proeminência reconhecida, sobretudo na obra de Cipriano, do bispo de Roma sobre os demais. 3. O Credo dos Apóstolos. Aliado ao papel do bispo como elemento unificador da igreja, desenvolveu-se uma declaração de fé que ficou amplamente conhecida como 'Credo dos Apóstolos', além de ter sido chamada também de 'a regra de fé', 'a regra da verdade', 'a tradição apostólica' e, mais tarde, 'o símbolo de fé'. 3.1) A História do Credo. Diz-se que no exército romano, quando havia necessidade de dois comandantes se separarem, eles quebravam um artefato de barro e cada um ficava com um pedaço. Quando, no campo de batalha, um emissário de um
  36. 36. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página36 dos comandantes precisasse levar uma mensagem para outro, ele deveria levar também o pedaço do artefato que pertencia ao seu comandante. O comandante destinatário da mensagem, então, para verificar a autenticidade da mensagem, veria se o pedaço de barro do emissário se encaixava perfeitamente ao seu. Tais pedaços eram chamados “simbolum”. Destarte, 'a regra dos apóstolos' foi chamada de 'simbolum' porque serviu como forma de autenticar um cristão genuíno. Cristão era o que aceitava o “símbolo de fé”. Até metade do século XVII, era corrente a crença de que o Credo havia sido composto pelos apóstolos em Jerusalém, pela época do Pentecostes, antes de se separarem, havendo cada um contribuído com uma cláusula. Essa lenda é vista pela primeira vez na Exposição do Credo (Expositio Symboli) de Rufino de Aquiléia, no fim do século IV, no que foi seguido, com modificações, por Ambrósio de Milão (c. 400), João Cassiano (c. 424) e por toda a tradição católica romana. Entre os protestantes, a lenda encontrou defensores, foi questionada por Calvino e em seguida desmentida definitivamente por diversos estudiosos. Portanto, do Credo se pode afirmar que não foi escrito pelos apóstolos, mas que trata-se da mais antiga declaração de fé da igreja cristã que chegou até nós, cuja origem, segundo Justo L. González, "se acha nas lutas contra as heresias que tiveram lugar nos meados do segundo século". Earle E. Cairns afirma que "Irineu e Tertuliano desenvolveram Regras de Fé para serem usadas na distinção entre Cristianismo e Gnosticismo" e funcionavam como sumários das principais doutrinas da Bíblia. Portanto, no segundo século, homens como Irineu, Tertuliano e Hipólito já ofereciam confissões de fé semelhantes ao Credo. Todavia, a formulação original parece ter surgido em Roma por volta de 340 d.C. e Ambrósio foi o primeiro a dar ao documento o título de Credo dos Apóstolos. Nos séculos VII e VIII, o Credo já era usado amplamente pelas igrejas da Gália (atual França) e Espanha, de onde advém-nos a versão final. Abaixo, transcreveremos a declaração usada no batismo por Rufino de Aquiléia, em c. de 400 d.C., e a versão recebida. Se não, veja-se: "Creio em Deus Pai onipotente e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria, que foi crucificado sob o poder de Pôncio Pilatos e sepultado, e ao terceiro dia ressurgiu da morte, que subiu ao céu e assentou à direita
  37. 37. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página37 do Pai, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo, na santa Igreja, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna [omitido por Rufino]" (in Documentos da Igreja Cristã, H. Bettenson). "Eu creio em Deus Pai todo-poderoso, Criador dos céus e da terra; E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu ao inferno e ao terceiro dia levantou-se dos mortos, ascendeu aos céus e sentou à mão direita de Deus Pai todo-poderoso, de onde virá para julgar os vivos e os mortos; E no Espírito Santo, na Santa Igreja católica, na comunhão dos santos, no perdão dos pecados, na ressurreição do corpo e na vida eterna". 3.2) A importância do Credo. Trata-se, como se pode verificar, de uma confissão essencial. É uma declaração que todos precisamos conhecer e aceitar para sermos cristãos. Os reformadores deram grande valor ao Credo dos Apóstolos. Calvino o comentou, afirmando que cada uma de suas cláusulas se origina nas Escrituras, e Lutero o fez parte dos seus Catecismos, aduzindo que o Credo "apresenta tudo o que devemos esperar e receber de Deus, e nos ensina, em suma, a conhecê-lo por completo". Assiste razão a Franklin Ferreira, quando em sua exposição do Credo dos Apóstolos no Congresso para Pastores e Líderes da Editora Fiel, em 2012, afirmou ser a Regra uma espécie de "credo essencial", que "esta exposição do Credo dos Apóstolos é uma apresentação do ensino bíblico, ortodoxo e consensual, 'que foi crido em todo o lugar, em todo o tempo e por todos' (Vicente de Lérins) os cristãos". Segundo Phillip Schaff, o Credo dos Apóstolos "é de longe o melhor resumo popular da fé cristã jamais feita em tão pouco espaço (...)", ao mesmo tempo em que deve ser admitido "que a grande simplicidade e brevidade deste Credo, que tão admiravelmente o adapta para todas as classes de cristãos e adoração pública, o faz insuficiente como um regulador de doutrina bíblica para um estágio mais avançado do conhecimento teológico". 3.3) As raízes hebraico-cristãs dos credos e confissões. A tradição religiosa hebraico-cristã é puramente confessional. A fé dos hebreus e dos cristãos é uma fé professante, por assim dizer. Isso se dá
  38. 38. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página38 porque a revelação divina é proposicional. Deus revela-se proposicionalmente, isto é, comunicando máximas, assertivas, através de expressões verbais, que devem ser conhecidas e cridas. As confissões são, lado outro, respostas de fé da igreja, destinatária por excelência da Revelação. Deus revela-se através das Escrituras e a Igreja responde com uma afirmação de fé, com uma confissão, com um “eu creio”. No Antigo Testamento, já encontramos diversas confissões de fé do povo hebreu, nas quais se professa que há um só Deus, que Ele é singular, além da confissão quanto aos Seus poderosos feitos (Ex 15:1-18; Dt 6:20-24; 26:5-9; Js 24:2-13) e dos Seus atributos (Sl 136; Sl 40:9-10; 96:1-10; 147:1-7). No Novo Testamento, a palavra "homologia" (confissão) ocorre seis vezes (II Co 9:13; I Tm 6:12, 13; Hb 3:1; 4:14; 10:23) e os verbos correlatos outras tantas, com o mesmo sentido. Às vezes, essa confissão dá-se de forma pública (Tt 1:16; Mt 10:32, 33; Rm 10:9, 10) e, às vezes, de forma comunitária (II Co 9:13), sem olvidar para o fato de que há um preço na confissão (Jo 9:22; 12:42). Diversas são as confissões encontradas nas páginas do Novo Testamento. Algumas põem ênfase em Cristo (I Co 15:3, 4; Fp 2:5-11; I Tm 3:16; II Tm 2:8; I Pe 3:18-22; I Jo 4:2, 15); outras, no Pai e no Filho (I Co 8:6; Gl 1:1-5; I Tm 2:5, 6; 6:13-16; II Tm 4:1); e outras ainda enfatizam a Trindade (Mt 28:19; Rm 9:1-4; II Co 1:21, 22; 13:13; I Pe 1:2; Jd 20, 21). 4. O Cânon do Novo Testamento. Além da força do bispo monárquico e do desenvolvimento de uma declaração de fé, a Igreja foi gradativamente sendo levada pelas circunstâncias providenciais a reconhecer oficialmente os livros inspirados que comporiam o Novo Testamento – o Cânon. Diversos fatores conduziram a igreja ao reconhecimento dos seus livros inspirados, dos quais destacaremos dois: hereges como Márcion estavam formando seu próprio cânon e as perseguições levaram os cristãos a desejarem saber quais os livros pelos quais valeria a pena morrer.
  39. 39. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página39 Deve-se pontuar com Flanklin Ferreira que os desafios das seitas e a perseguição apenas aguçaram o interesse da igreja em fixar oficialmente o número exato de livros do Novo Testamento. “O primeiro Pai da Igreja a falar de forma inequívoca de um ‘Novo’ Testamento em paralelo com o Antigo Testamento foi Irineu de Lião. Entretanto, Clemente, Inácio, Policarpo, Justino, Tertuliano, Orígenes, entre outros, já usavam o Novo Testamento, tratando-o como inspirado do mesmo modo que o Antigo Testamento” (Flanklin Ferreira). O processo de reconhecimento do cânon, todavia, não se deu de uma vez nem sem disputas. Norman Geisler e William Nix observam que "havendo tão grande diversidade geográfica de origens e destinatários, é compreensível que nem todas as igrejas haveriam de possuir, de imediato, cópias de todos os livros inspirados do Novo Testamento. Acrescentem-se os problemas de comunicação e de transporte, e fica mais fácil ver que seria preciso algum tempo até que houvesse um reconhecimento geral de todos os 27 livros do cânon do Novo Testamento". No processo de reconhecimento, por outro lado, os testes de canonicidade utilizados foram os da apostolicidade, pelo qual se buscava a autenticidade da autoria e se tinha sido escrito por apóstolo ou sob sua influência, e da concordância doutrinária com a regra de fé já consolidada. De plano, deve ser anotado que enquanto viviam os apóstolos, já havia circulando entre as igrejas escritos espúrios, o que se pode depreender dos seguintes textos: Lc 1:1-4; II Ts 2:2; 3:17; Jo 21:23, 24. Lado outro, pode- se verificar igualmente a prática da leitura pública nas reuniões das igrejas das cartas apostólicas (I Ts 5:27; Cl 4:16; Ap 1:3). Do exposto, no mínimo, se pode argumentar em favor de uma seletividade já em processo no período neo-testamentário, vez que somente as cartas autorizadas deveriam ter força cogente aos cristãos, em matéria de religião, e ouvidas no culto público como a Palavra autoritativa de Deus. Ademais, é mesmo possível que Pedro já tivesse uma coleção das cartas de Paulo (cf. II Pe 3:15, 16), do modo como Paulo conhecia o evangelho de Lucas (cf. I Tm 5:18; Lc 10:7). Já no começo do segundo século, circulavam juntos os quatro evangelhos, Atos e as epístolas de Paulo. Tiago, II Pedro, II e III João, Judas,
  40. 40. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página40 Hebreus e Apocalipse tiveram sua inclusão no cânon discutida por mais tempo, sobretudo pela incerteza quanto à autoria. Foi em 367 d.C. que Atanásio, então Bispo de Alexandria, escreve uma carta às igrejas sob sua supervisão (“Carta de Páscoa”) incluindo uma lista dos 27 livros do Novo Testamento, tal qual o conhecemos. Jerônimo e Agostinho, para citar outras vozes individuais, confirmaram essa lista e, ainda no século IV, os concílios de Hipona (em 393 d.C.), Cartago (em 397 d.C.) e Calcedônia (em 451 d.C.) fizeram o mesmo. Na prática, “apenas aprovaram e deram expressão uniforme àquilo que já era aceito como fato pelas igrejas havia um bom tempo”.
  41. 41. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página41 A Antiga Igreja Católica: Continuação VIII. Fé Cristã, de Perseguida a Religião Oficial 1. O período compreendido entre 313 e 590. Nesse período, a Igreja viveu a transição de deixar de ser uma religião perseguida a ser a religião oficial do império romano e passou do que tem sido chamada de Antiga Igreja Católica para o que conhecemos como Igreja Católica Romana. A união com o Estado foi avaliada pela Igreja de diferentes modos. Uma das maneiras de ver a nova situação foi com entusiasmo, entendendo que a Igreja estava sendo abençoada por Deus em receber tamanho privilégio. Mas, por outro lado, a nova posição trouxe reações contrárias, que, dentre elas, contribuíram ao surgimento da vida monástica. O período foi também de efervescência intelectual e debates teológicos. Homens como Eusébio de Cesaréia, Atanásio e João Crisóstomo, dentre os gregos, os capadócios Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo, e, dentre os latinos, Ambrósio, Agostinho e Jerônimo, produziram, em consequência das disputas doutrinárias, escritos que influenciam toda a cristandade até hoje. 2. A ascensão de Constantino. O império vivia um quadro de instabilidade decorrente de crise econômica e da ameaça de invasões bárbaras, quando Diocleciano (244-311) o assumiu e o reorganizou, dividindo-o em dois imperadores (ele, no Oriente, e Maximiano, no Ocidente) e quatro partes: Diocleciano reinou a parte da Nicomédia, na Bitínia; Maximiano, de Milão, na Itália; Galério (sob Diocleciano), de Sirmio, na Panônia; e Constâncio Cloro (sob Maximiano) teve sede em Trier, na Gália. Com a morte de Constâncio, seu filho Constantino (c. 274-337) foi proclamado césar por suas tropas. De modo surpreendente, Constantino
  42. 42. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página42 reorganizou o império após vencer seus rivais, um a um, até derrotar Maxêncio (278-312), filho de Maximiano, na batalha da Ponte Mílvia sobre o rio Tibre, em 312. Antes, porém, dessa batalha, teve uma visão (segundo Eusébio) ou um sonho (segundo Lactâncio), em que viu uma cruz e uma inscrição no céu (“vence nisto”), ocasião em que entendeu que se se convertesse ao cristianismo derrotaria seu inimigo Maxêncio. No dia seguinte, ordenou que seus estandartes fossem marcados com a superposição das duas primeiras letras do nome Cristo (o), “”e“” (o ‘labarum’). Com a vitória sobre Maxêncio, Constantino tornou-se o único dono do império ocidental, enquanto o Oriente ainda estava dividido entre Licínio e Maximino Daza. Em Milão, fez um acordo com Licínio e, juntos, proclamaram o “edito de Milão”, em 313, e decidiram que Licínio investiria, somente com seus próprios recursos, contra as tropas de Maximino. O resultado foi o confronto que promoveu a derrota deste, que não mais conseguiu reorganizar seu exército. Com a nova situação política, Constantino continuou a governar o Ocidente, enquanto Licínio, a leste da Itália. Como ambos, Constantino e Licínio, ambicionavam o domínio exclusivo de todo o império, uma série de intrigas pessoais redundou em dois confrontos, em 314, seguidos por uma trégua que perdurou até 322, ano em que a guerra civil foi retomada. Constantino venceu Licínio em três batalhas (Andrianópolis, Helesponto e Crisópolis) e, em 324, o império já estava reunificado e sobre o qual reinou até sua morte, em 337. 3. O impacto de Constantino. Muito se discute sobre os motivos do envolvimento de Constantino com o cristianismo. Para alguns historiadores, ele teria sido um político habilidoso que soube usar a religião cristã a serviço de sua ambição pelo império; para outros, ele foi realmente um supersticioso sincero, que acreditava no poder de Jesus Cristo e que seria ajudado pelo Deus dos cristãos se beneficiasse a estes.
  43. 43. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página43 A princípio, Constantino garantiu que a Igreja tivesse paz e lhe devolveu as propriedades confiscadas durante a perseguição. Em um segundo momento, passou a subsidiá-la mais abertamente, construindo templos e isentando o clero dos serviços públicos e das tarifas nos transportes do império. Em 324, um edito ordenou que todos os soldados adorassem o Deus dos cristãos no primeiro dia da semana, dia em que estes celebravam a ressurreição de Cristo. Também se envolveu em controvérsias teológicas e, em 325, convocou e presidiu o Concílio de Nicéia, permitindo que os bispos viajassem às custas dos cofres públicos. O impacto do envolvimento de Constantino sobre a Igreja cristã foi incalculável. A consequência imediata foi o fim da perseguição. Mas, não parou por aí. O culto cristão sofreu uma influência alarmante. A princípio, as reuniões dos cristãos ocorriam em casas particulares e eram marcadas pela simplicidade e participação. Após a “conversão” de Constantino, “o culto cristão começou a sentir a influência do protocolo imperial” (Justo L. Gonzalez). O incenso, usado no culto ao imperador, adentrou à prática da Igreja; os ministros começaram a usar vestimentas ornamentadas; começou-se a iniciar os cultos com uma procissão; templos suntuosos foram construídos em vários lugares. Gonzalez observa ainda que para dar maior destaque às procissões, “surgiram coros, com o resultado a longo prazo de que a congregação participava cada vez menos do culto”. Além do impacto sobre o culto, observa Bruce L. Shelley, “Constantino submeteu os bispos cristãos enquanto eram seus funcionários civis e exigiu obediência incondicional aos pronunciamentos oficiais, mesmo quando eles interferiam nas questões puramente religiosas”. Ademais, Shelley continua, “Havia também as massas que então afluíam para a igreja oficialmente favorecida. Antes da conversão de Constantino, a igreja consistia de crentes convictos. Depois, chegaram aqueles que eram politicamente ambiciosos, sem interesse religioso e ainda meio enraizados no paganismo”. 4. A união da Igreja com o Estado.
  44. 44. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página44 Essa atitude para com a Igreja permaneceu com os sucessores de Constantino, e templos pomposos continuaram a ser construídos, financiados pelos cofres imperiais, até que houve uma reação pagã com o imperador Juliano, em 361. Juliano, o Apóstata (331-363), sobrinho de Constantino, se tornou seguidor do neoplatonismo, a partir dos estudos que fez em Atenas. Ele restaurou a liberdade de culto e retirou os privilégios da Igreja cristã. Sob seu governo, as facilidades estavam agora a serviço da filosofia e da religião pagã. Mas, o processo de retorno ao paganismo foi interrompido por sua morte, na batalha contra os persas sassânidas. Os sucessores de Juliano reverteram a sua política, até que Teodósio I (347-395) e Graciano (359-383) proclamaram um edito, em 380, que tornou o cristianismo a religião exclusiva do Estado e estabeleceu uma punição para seguidores de quaisquer outros cultos. Dada à importância do edito, transcrevemos infra à apreciação do leitor. “Queremos que as diversas nações sujeitas à nossa clemência e Moderação continuem professando a religião legada aos romanos pelo apóstolo Pedro, tal como a preservou a tradição fiel e tal como é presentemente observada pelo Pontífice Dâmaso e por Pedro, bispo de Alexandria e varão de santidade apostólica. De conformidade com a doutrina apostólica e o ensino dos Evangelhos, creiamos, pois, na única divindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em igual majestade e em Trindade santa. Autorizamos os seguidores desta lei a tomarem o título de Cristãos Católicos. Referentemente aos outros, que julgamos loucos e cheios de tolice, queremos que sejam estigmatizados com o nome ignominioso de hereges, e que não se atrevam a dar a seus conventículos o nome de igrejas. Estes sofrerão, em primeiro lugar, o castigo da divina condenação e, em segundo lugar, a punição que nossa autoridade, de acordo com a vontade do céu, decida infligir-lhes” (Bettenson, in Documentos da Igreja Cristã). Em 392, o Edito de Constantinopla proibiu o paganismo e, em 529, o imperador Justiniano determinou o fechamento da escola de filosofia de Atenas. As consequências da promoção da fé cristã à religião imperial foram inúmeras: a riqueza passou a ser sinal do favor divino, e a Igreja se tornou dos ricos e poderosos; com uma aristocracia próxima à do império, surgiu a divisão entre o clero e laicato; a igreja começou a imitar os costumes do império tanto em liturgia quanto em forma de governo, tornando-se cada vez
  45. 45. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página45 mais episcopal e monárquica; a igreja relegou o retorno de Cristo e do reino a segundo plano. Para Eusébio, representante de um pensamento difundido e amplamente aceito nessa época, embora não o diga “explicitamente”, segundo salienta Gonzalez, “ao lermos as suas obras temos a impressão de que com Constantino e seus sucessores o plano de Deus se cumpriu”.
  46. 46. Pr. Ary Queiroz Vieira Júnior | Estudos de História da Igreja: do ano 0 ao ano 1517 Página46 IX. Os Concílios e Credos Ecumênicos Nos séculos IV e V da era cristã, surgiram, a partir dos chamados concílios ecumênicos, os credos aceitos por praticamente todos os ramos do cristianismo. Foram ao todo sete grandes concílios ecumênicos, quais sejam: I Concílio de Niceia (325), I Concílio de Constantinopla (381), I Concílio de Éfeso (431), Concílio de Calcedônia (451), II Concílio de Constantinopla (553), III Concílio de Constantinopla (680) e II Concílio de Niceia (787). Quando se pergunta por que os debates teológicos ocorreram tão tardiamente, Cairns responde que “nos tempos de perseguição, a submissão a Cristo e à Bíblia era mais importante do que o significado de certas doutrinas”. A partir de Constantino, um homem ávido pela reunificação do império, era preciso que na nova conjuntura a Igreja se unisse em torno de uma única doutrina, afinal, “um cristianismo em discórdia e dividido não podia unir o Império fragmentado” (Shelley). Mas, isso não responde toda a questão. Principalmente no Oriente, surgiu uma intensa inquietação por parte dos cristãos quanto às crenças afirmadas há séculos. Desejava-se entender e formular com mais clareza principalmente acerca a Trindade e do relacionamento entre o Pai e o Filho, sobretudo em um período em que heresias propunham soluções ao mistério trinitário. Trataremos, nesse passo, das principais controvérsias que culminaram nos concílios mais importantes. 1. A Controvérsia Ariana e o Concílio de Niceia (325). Um dos protagonistas dos debates teológicos que redundaram no Concílio em apreço foi Ário, presbítero da igreja em Alexandria, no Egito. Foi Ário que discutiu com o seu bispo, Alexandre, quando este tencionou ensinar sobre a “Unidade da Trindade”. Para Ário, havia apenas um Deus eterno em uma única pessoa, o Pai. Cristo, embora tendo sido criado fora do tempo e ser a primeira criatura, não era Deus eterno e onipotente, mas um ser menor, intermediário, que se situava entre Deus e a criação.

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