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Andre Bazin, "0 Mito do Cinema Total", in 0 que é o cinema, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, pp23-26.

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André Bazin, O Mito do Cinema Total‏

  1. 1. Andre Bazin, "0 Mito do Cinema Total", in 0 que e o IIcinema, Lisboa, Livros Horizonte, 1993, pp23-26 0 MITO DO CINEMA TOTAL 1 0 que a lettura do adminivellivro de Georges Sadoul sobre as origens do cinema2 revela paradoxalmente e, apesar do ponto de vista marxista do Autor, o sentido de uma invcrsao das relayoes entre a evoluyao econ6mica e tecnica e a imaginayao dos investigadore!l. Tudo me parece passar-se como se se devesse inverler aqui a causalidade hist6rica que vai da infra-estrutura economica as superstrutras ideol6gicas e considerar as descobertas tecnicas fundamentais como aciden- tes felizes e favoniveis, mas essencialmente secundarios em relayao a ideia previa dos mvenlores. 0 cinema e urn fen6meno idealista. A ideia que o homem faz dele Ja eXJstia completa- mente estruturada no seu cerebro, como no ceu plat6nico, e que nos causa admirayao e muito mais a resistencia tenaz da o) materia aideia do que as sugestoes da tecnica a imaginayaO do investigador. Do mesmo modo no cinema quase nada deve ao espirito cientifico. Qs seus pais nao sao sabios (excepyao para Marey, embora seja significative que este se interessasse apenas pela analise do movimento, e absolutamente nada pelo proce~so 1 Extracto de Critique, 1946. . 2 L lnvemiofl du Cinema, tomo J. Ed . Denoel.
  2. 2. U - - - - - - - - - - - - - - - - - 0 que i. o Cinema? 0 Mito do Cinema Tot a l - - - - - -- -- - -- -- - 25inverso que permitia recompo-lo). Ate mesmo Ediso~ nao e nofundo mais do que urn habilidoso de genio, urn gtgante dosconcursos Lepine. Niepce, Muybridge, Leroy, Joly, Demeny eo proprio Louis Lumiere sao uns mo~o.maniacos, :Ins lou?~suns habilidosos ou, na melhor das h1poteses, uns mdustna1sengenhosos. Quanto ao maravilhoso, ~o sublim: E. Reynaud,quem nao ve que os seus desenhos arumados sao. o resultad~da persegui~ao tenaz de uma ideia fixa? Sena uma rnaaprecia~o da descoberta do cinema falar das des?Obertas tecrucas que o permitiram. Uma realiza~ao aproxunada ecomplicada da ideia precede qua~e..sempre a desc?ber:a industrial que pode apenas poss1bthtar a sua aplica~ao pratica. Assim, se hoje nos parece evid~nte que o . cinema, mesmo sob a sua forma mais elementar, tmha necess1dade de Cronofotografia de J. E. Marey. Marcha militar. utilizar urn suporte transparente, flexivel e resistente e urna emulsao sensivel seca, capaz de tomar uma imagem instanta- de um zootropio desde a antiguidade, mas sao oeste caso os nea (o res to nao passa de arranjos mecarucos ~m menos t abalhos de urn verdadeiro sabio, Plateau, a origem das complicados que urn rel6gio do seculo XVIII), ~enfica-se que mllltiplas inveo~oes mecaoicas que permitiram 0 uso popular todas as etapas decisivas da inven~ao do cmema f~ram da sua descoberta. Enquanto para o cinema fotografico nos franqueadas antes dessas condi~oes estarem preench1das. podemos admirar que a descoberta tenha precedido de Muybridge, gra~s a fantasia dispendiosa d~ ~ ama~or de qualquer modo as condi~oes tecnicas indispensaveis a sua cavalos, consegue em 1877 e 1880 constltUir ~ menso realiza~ao, seria precise explicar neste caso como, pelo complexo que lhe permitira impressionar, com a tmagem de contrario, com todas as condi~oes reunidas desde ha muito urn cavalo a galope, a primeira serie cinematografica. ?r~, (a persistencia retiniana era um fenomeno muito conhecido), para obter este resultado, teve de contentar-se co,m colod~o esta inveo9aO tenha levado tanto tempo a eclodir. Nao sera hfunido sobre chapa de vidro (ou seja, uma so das tres talvez imitil fazer notar que, sem qualquer rela9ao cientifica- condi~oes essenciais: instantaneidade, emulsao. seca e suporte mente necessaria, os trabalhos de Plateau sao mais ou menos flexivel). Apos a descoberta em 1880 do gelatmo-brometo de contemporaneos dos de Nicephore Niepce, como se a atenyao prata, mas antes do aparecimento d~s primeiras b~das de dos investigadores tivesse, durante seculos, esperado para se celuloide no comercio, Marey constrmu com a su~ espmgarda interessarem pela sintese do mpvimento para que a Quimica fotografica uma verdadeira camara de chapas d.~ v1dro. E~fi~, - totalmente iodependeote da Optica - se interessasse por seu mesmo depois da existencia do fllme de celul01de, o propno lado pela flxa~ao automatica da imagem3 . lnsisto no facto de Lumiere tenta primeiro utilizar pelicula de papel. S6 consideraremos aqui a forma definitiva e completa do 3 cinema fotogrlifico. A sintese de movimentos elementares Os frescos e os baixos-relevos egipcios testemunham mais uma vontade de an:ilise do movimento do que a sua sintese. Quanto aos cientificamente estudados pela primeira vez por Plateau, nao aut6matos do seculo AVTII estao para o cmema como a pinrura para a tinha nenhuma necessidade do desenvolvimento industrial e fotografia . Seja como for, e mesmo que os aut6matos prefigurem desde economico do seculo XIX. Como justamente faz notar G. Descartes e Pascal as maquinas do seculo XIX. fazem-no so do mesmo modo Sadoul, oada se opunha a realiza~o de um fenacistiscopio ou que as aparencias enganadoras (trompe loeif) pictoricas testemunham urn
  3. 3. 2 6 - - - - - - - - - - - - - - - - - - 0 que eo Cinema? 0 Mito do Cinema T o t a l - - - - - - - - - - - - - - - - 2 7que esta coincidencia bist6rica nao pode de modo algum ser reportagem fotografica sobre Chevreul, dizia: «0 meu sonho eexplicada pela evolu9ao cientifica, econ6mica ou industrial. 0 ve~ a f~tografia registar ~s atit~des e as alte!ayoes dacinema fotogd.fico bern podia ter-se debru9ado, por volta de fisi?nOmla de urn orador a med1da que o fonografo vai1890, sobre o fenaristic6pio inventado ja desde o seculo XVI. regtstando as suas palavras» (Fevereiro de 1887). E se a cor0 atraso na inven9ao deste e tao inexplicavel como a existencia nao e ainda evocada, e porq ue as primeiras experiencias dados precursores daquele. t~cron;ua sa.o realizadas mais tarde. No en tanto, E. Reynaud ja Porem, se examinarmos agora de mais perto esses ha mUlto pmtava as suas figurinhas e os primeiros filmes detrabalhos, o sentido da sua investiga9ao tal como transp~ece Melies sao coloridos a pincel. Abundam os textos mais ounos pr6prios aparelhos e, mais indubitavelmente, nos escntos e menos delirantes, em que os inventores evocam nada menos docomentarios que os acompanham, verificaremos que estes que esse cinema integral que da a completa ilusao da vida deprecursores eram bern mais uns profetas. Queimando as que a4lda hoje estamos Ionge, e e conhecida aquela passagemetapas, das quais a primeira era materia~ente intra?sponi- de LEve Future onde Villiers de !Isle-Adam dois anos antesvel , a maioria deles visava directamente mats Ionge, po1s a sua de Edison iniciar as suas primeiras investiga9oes sobre a imagina9ao identificava a ideia cinematografica como uma f~t?grafia animada, descreve esta fantastica criayao: «. .. a representa9ao total e integral da realidade, considerando de~de vtsao, figura transparente miraculosamente fotocromada logo a restitui9ao de uma perfeita ilusao do mundo extenor danyava com ~m vestido coberto de lantejoulas uma especi~ como som, a core o relevo. de dan9a mex1cana popular. Os movimentos confundiam-se Quante a este ultimo aspecto, 0 relevo, urn historiador do com os movimentos da propria vida, grayas ao processo da cinema, F. Potoniee, chegou mesmo a sustentar que <<nao foi a fotografia sucessiva que pode fixar os movimentos sobre descoberta da fotografia mas ada estereoscopia (introduzida vidros microsc6picos reflectidos em seguida por urn potente no comercio pouco antes dos primeiros ensaios de fotografia lampasc6pio ... De repente, uma voz fina e afectada uma voz animada, em 1851) que abriu os olhos aos investigadores. idiota e desafinada faz-se ouvir. A danyarina cantaroiava o seu Fixando as personagens im6veis no espa9o, os fot6grafos fandango». aperceberam-se que lhes faltava o movimento para obterem a ~ n:lto director da inv~nyao do cinema e pois a inteira imagem da vida e a c6pia fiel da natureza». Em todo o caso, reahzayao daquele que domtna confusamente todas as tecrucas nao houve inventor que nao procurasse reunir 0 som ou 0 d~ reprodu~o mecanica da realidade que ~pareceram no relevo a anima9aO da imagem. Quer seja Edison, cujo seculo XIX, desde a fotografia ao fon6grafo. E o do realismo kinetosc6pio individual seria acoplado a urn fon6grafo de integral, a recriayao do mundo asua imagem, uma imagem na auscultadores, quer Demeny com os seus retratos falantes, ou qual nao era ponderada a hip6tese da liberdade de mesmo Nadar que, pouco tempo antes de realizar a primeira int~rpretayao do arti~ta nem a irreversibilidade do tempo. Se o cmema ao nascer nao teve logo todas as virtudes do cinema gosto exacerbado da semclbanya. Contudo, a tecnica da aparencia total do futuro, foi contra vontade sua e somente porque as enganadora nao fez avantyar a 6ptica nem a quimica fotogratica, apenas se suas fadas eram tecnicamente incapazes de lhas conceder oao linutou, se se pode dtzer, a macaquei-las por antectpayao. obstante os seus desejos. De resto, tal como o nome indica, a cstetica do trompe loeil do seculo Seas origens de uma arte deixam perceber qualquer coisa XVlll reside mais na tlusao do que no realtsmo. ou seJa, mais na mentira que na verdade. Uma estatua pintada numa parede deve parecer poisada num da sua essencia, e perrnitido considerar o cinema mudo e o soco no espas:o. Em certa medida, era tambem a isso que visava o cinem.a no cinema sonoro como etapas de urn desenvolvimento tecnico principio, mas esta funyao enganadora depressa cede Iugar a urn reahsmo que realiza aos poucos o mito original dos investigadores. ontogenetico (cf Ontologia da Imagem Fotogrtifica). Nesta perspectiva, compreende-se como e absurdo ver no
  4. 4. 2 8 : - - - - - - - - - - - - - - - -- - 0 quee o Cinema? 0 Mito do Cmema T o r a l - - - - - - - - -- - -- --29 Icinema mudo urna especie de perfei~o primitiva de que se que. com toda a evidencia, as precedem. Assim o velho mito deafasta cada vez mais o realisrno do some da cor. 0 primado da lcaro teve de esperar 0 motor da explosao para descer do ceuimagem e hist6rica e tecnicamente acidental, a nostalgia que platoniciano. Mas ja existia na alma de todo o homem desdcalguns ainda mantem pelo mutismo do ecra nao remonta ate que ele contemplava o passaro. Em certa medida, pode dizer-semuito Ionge na infancia da 71 Arte, os verdadeiros primitives o mesmo do cinema, mas o seus avatares ate ao s6culo XIXdo cinema, aqueles que s6 tern existido na imagina~ao de nao tern senao uma rela~o longinqua com aquela em que hojealgumas dezenas de homens do seculo XIX, sao pela im.ita~ao participamos e que foi a promotora do aparecimento das artesintegral da natureza. Todos os aperfeiyoamentos que o cinema mecarucas que caracterizam o mundo contemporaneo.alcanya s6 o aproximam assim paradoxalmente das suasorigens. 0 cinema ainda nao esta inventado! Seria pois mais inverter, pelo menos sob o ponto de vistapsicol6gico, a ordem concreta da causalidade do que colocaras descobertas cientificas ou tecnicas industriais, que terao urntao grande Iugar no desenvolvimento do cinema, no principioda sua invenpio. Aqueles que menos confian~ tiveram nofuturo do cinema como Arte, ou mesmo como indtistria, saoprecisamente os dois industriais Edison e Lumiere. Edisoncontentou-se com o seu kinetoscopio individual e se Lumieremuito judiciosamente recusou a venda da sua patente a Melies,foi porque pensava sem duvida vir a ter mais lucrosexplorando-o ele proprio, mas como um brinquedo de que opublico estaria um dia enfastiado. Quanto aos verdadeirossabios, como Marey. s6 acidentalmente serviram o cinema:tinham outros objectives mais precisos em mira com o qualficaram satisfeitos assim que o alcan~ram. Os faoaticos, osmaniacos, os pioneiros desinteressados, capazes como BernardPalissy de queimar os seus m6veis por alguns segundos deimagens vacilantes, nao sao industriais nem sabios maspossesses da sua imagina~ao. Se o cinema nasceu, deve-se aconvergencia da sua obsessao; isto e, de um mito, o do cinematotal. Assim explica tanto a demora na aplica~o 6ptica dadescoberta da persistencia retiniana por Plateau, como oconstante ava~~o da sintese do movimento nas tecnicasfotograficas. E que uns e outros sao dominados pelaimagina~o do seculo. De certo que se encontrariam semduvida outros exemplos na bist6ria das tecnicas e dasinven¢es, da convergencia das investiga¢es, mas e precisodistinguir aquelas que resultam precisamente da evoluyaocientifica e das necessidades industriais (ou militares), daquelas

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