COMPREENSÃO E
INTERPRETAÇÃO DE
TEXTOS
Profª Vânia Araújo
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COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS
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uma só palavra do que dizes, mas defenderei até à morte
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VÂNIAARAÚJO
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•	 Mantenha sempre medicamentos e p...
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apontam uma relação de causa e efeito ...
VÂNIAARAÚJO
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Leia o artigo de opinião, escrito pelo jornalista Eugênio
Bucci, extraído da revista Veja:
crítica, um fato...
COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS
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8. INFOGRÁFICO
É um quadro informativo que mistura texto e ilustra-
ção para transmit...
VÂNIAARAÚJO
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Observe o texto que segue:
Os olhos de Isabel
Instalou-se ontem, no Rio, um banco de olhos. Ali
será conser...
COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS
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Características mais destacadas:
•	 Predomínio da narração, com a presença dos ele-
m...
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Obs.: o sentido original é a própria significação etimo-
lógica do termo, mas este também sofre constan-
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–– Homófonas: possuem mesma pronúncia, mas
têm grafias e sentidos diferentes.
Acender...
VÂNIAARAÚJO
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ESTABELECER RELAÇÕES DE:
•	 Assunto: O ministro falou sobre Educação.
...
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•	 “O homem é ambicioso, quer ser dono de bens
materiais, da ciência, do próprio seme...
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•	 Esse, essa, desse, dessa, nesse, nessa apontam
para o que está próximo da pessoa com quem se fala.
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  1. 1. COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS Profª Vânia Araújo
  2. 2. VÂNIAARAÚJO 2 COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS Compreender um texto e interpretar seu sentido são fatores primordiais em qualquer situação do cotidiano, tendo em vista que o desempenho da leitura interfere na aprendiza- gem de todas as outras matérias, além de promover a socia- lização e a cidadania do leitor. O bom leitor sabe selecionar o que deve ler e que efetivamente pode contribuir para sua formação intelectual e melhorar sua compreensão a respeito da complexidade do mundo. Interpretar é criar sentido, pois toda interpretação provoca a criação de “outro texto”. Cada leitor é um sujeito singular, que utiliza diferentes estratégias (sua experiência prévia, suas crenças, seus conflitos, suas expectativas e suas relações com o mundo) para dar sentido ao que lê, sem, no entanto, eliminar o sentido original do texto. Cabe, porém, res- saltar que é quase impossível determinar o grau de fidelidade de um leitor ao texto original. O ato de interpretar possibilita a construção de novos conhecimentos a partir daqueles que existem previamente na memória do leitor, os quais são ativados e confrontados com as informações do texto, permitindo-lhe atribuir coerên- cia àquilo que está lendo. COMO FAZER UMA LEITURA EFICAZ 1. Leia todo o texto, com atenção, procurando entender o seu sentido geral. 2. Identifique as ideias do texto (cada parágrafo contém uma ideia central e outras secundárias), estabelecen- do as relações entre as partes. 3. Procure compreender todos os vocábulos e expres- sões. Muitas vezes, o próprio texto já fornece o signi- ficado da palavra. Mas, na medida do possível, use o dicionário sempre que estiver lendo, pois aumentará os seus conhecimentos e ampliará o seu vocabulário. Lembre-se de que é bastante frequente a cobrança do significado (tanto literal quanto contextual) das pala- vras nessas provas. 4. Leia atentamente as instruções para a resolução das questões e analise com cuidado o que cada enunciado pede. Muitas vezes, o erro é proveniente do descuido, ou da pressa, no momento de ler as informações dos comandos. Erros mais frequentes, quando não se faz uma lei- tura adequada dos textos: Extrapolação – consiste em acrescentar informações ao texto original ou mesmo aplicá-lo em outros contextos. Redução – ocorre quando o leitor diminui ou elimina informações ou a própria intensidade do texto. Inversão – acontece quando o leitor perde passagens do desenvolvimento do texto ou altera a orientação de seu sentido, o que pode levá-lo a conclusões opostas às expres- sas pelo autor. NÍVEIS DE LINGUAGEM A linguagem é qualquer conjunto de sinais que nos permite realizar atos de comunicação. Dependendo dos sinais escolhidos, teremos uma comunicação verbal, visual, auditiva etc. Damos o nome de fala à utilização que cada membro da comunidade faz da língua, tanto na forma oral quanto na escrita. Em decorrência do caráter bastante individual da língua, é necessário destacar algumas moda- lidades: • NORMA CULTA: é aquela utilizada em situações formais, principalmente na escrita – mais planejada e bem elaborada. Caracteriza-se pela correção da linguagem em diversos aspectos: cuidado maior com o vocabulário, obediência às regras estabele- cidas pela Gramática, organização rigorosa das ora- ções e dos períodos etc. Confira no texto abaixo: “(...) O mais forte e apreciável motivo para um estudo dos assuntos humanos é a curiosidade. Este é um dos traços distintivos da natureza humana. Ao que parece, nenhum ser humano é dele totalmente destituído, apesar de seu grau de intensidade variar enormemente de indivíduo para indivíduo. No campo dos assuntos humanos, a curiosidade nos leva a buscar uma óptica panorâmica, através da qual se possa chegar a uma visão da realidade, tão inteligível quanto pos- sível para a mente humana.” Arnold TOYNBEE. Um estudo da história. Brasília: EdUnB. 1987. Pág. 47. (com adaptações). • LINGUAGEM COLOQUIAL: é adotada em situa- ções informais ou familiares. Caracteriza-se pela espontaneidade, já que não existe uma preocupação com as normas estabelecidas (aceita o uso de gírias e de palavras não dicionarizadas). Embora seja uma modalidade mais informal, não é necessariamente inculta, pois a desobediência a certas normas gra- maticais se deve à liberdade de expressão e à sen- sibilidade estilística do falante. É facilmente encon- trada na correspondência pessoal (facebook, msn, e-mail etc.), na literatura, histórias em quadrinhos, nos jornais e revistas. Veja o exemplo: Sei lá! Acho que tudo vai ficar legal. Pra que então ficar esquentando tanto? Me parece que as coisas no fim sempre dão certo. • LINGUAGEM TÉCNICA: é utilizada por alguns profissionais (policiais, vendedores, advogados, economistas etc.) no exercício de suas atividades. Exemplo: “Vamos direto ao assunto: interface gráfica ou não, muitas vezes, é preciso trabalhar com o prompt do DOS, sendo aborrecedor esforçar-se na redigitação de subdiretó- rios longos ou comando mal digitados”. Revista PC World, ago/2007. p. 98.
  3. 3. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 3 • LINGUAGEM LITERÁRIA (ARTÍSTICA): tem fina- lidade expressiva, como a que é feita pelos artis- tas da palavra (poetas e romancistas, por exemplo). Observe: “O céu jogava tinas de água sobre o noturno que me devolvia a São Paulo. O comboio brecou, lento, para as ruas molhadas, furou a gare suntuosa e me jogou nos óculos menineiros de um grupo negro. Sentaram-me num automó- vel de pêsames”. Oswald de Andrade, . Memórias Sentimentais de João Mira- mar. VARIAÇÕES LINGUÍSTICAS São as variações que uma língua apresenta, de acordo com as condições sociais, culturais, regionais e históricas em que é utilizada. A língua é um organismo vivo, que se modi- fica no tempo, a todo instante. Os tipos de variações mais cobrados em provas são: • EMPRÉSTIMOS LINGUÍSTICOS: vocábulos incor- porados ao nosso idioma em sua forma original - ou aportuguesados. No português usado hoje no Brasil, existe influência de várias línguas: do contato com o índio, incorporamos palavras como cipó, mandioca, peroba, carioca etc.; a partir do processo de escra- vidão no Brasil, incorporamos inúmeros vocábulos de línguas africanas, tais como quiabo, macumba, samba, vatapá e muitos outros. Podemos encontrar também, no português atual, palavras provenientes de línguas estrangeiras mo- dernas, principalmente do inglês. Veja alguns exem- plos: do italiano (maestro, pizza, tchau, espaguete); do francês (abajur, toalete, champanhe); do inglês (recorde, sanduíche, futebol, bife, gol, clube, e mui- tos outros mais). • NEOLOGISMOS: são palavras novas, que vão sendo logo absorvidas pelos falantes no seu pro- cesso diário de comunicação. Umas, surgem para expressar conceitos igualmente novos; outras, para substituir aquelas que deixam de ser utilizadas. Os neologismos podem ser criados a partir da própria língua do país (cegonheiro, por exemplo), ou a partir de palavras estrangeiras (deletar, escanear etc.). • RECRIAÇÕES SEMÂNTICAS: existem, também, aquelas palavras que adquirem novos sentidos ao longo do tempo. Por exemplo: cegonha (carreta que transporta automóveis, desde as montadoras até as concessionárias), laranja (testa de ferro, pessoa que empresta o nome para a realização de negócios ilíci- tos) e muitas mais. • GÍRIAS: são palavras características da linguagem de um grupo social (jovens, por exemplo), que, por sua expressividade, acabam sendo incorporadas à linguagem coloquial de outras camadas sociais. • JARGÕES: são os vocábulos característicos da lin- guagem utilizada por alguns grupos profissionais (médicos, policiais, vendedores, professores etc.) e que, por sua expressividade, acabam sendo incor- poradas à linguagem de outras camadas sociais. • REGIONALISMOS: são as variações originadas das diferenças de região ou de território. Veja o exem- plo de uma variedade regional, também conhecida como “fala caipira”, própria do interior de alguns estados brasileiros: “Cheguei na bera do porto onde as onda se espaia. As garça dá meia vorta, senta na bera da praia. E o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia.” Milton Nascimento INTERTEXTUALIDADE Ocorre quando há um diálogo (implícito ou explícito) entre textos ou gêneros textuais. Ela serve para ilustrar a importância do conhecimento de mundo e como este inter- fere no nível de compreensão de um texto. Assim, mesmo quando não há citação explícita da fonte inspiradora, é pos- sível reconhecer elementos do outro texto, já que ele é nor- malmente bastante conhecido. Esse conhecimento, porém, não se dá por acaso nem por obra da intuição e, sim, pelo exercício da leitura. Quanto mais experiente for o leitor, mais possibilidades ele terá de compreender os caminhos per- corridos por um determinado autor em sua produção e, da mesma forma, mais possibilidades ele terá de utilizar seus próprios caminhos. São exemplos de intertextos: Epígrafe (escrita intro- dutória de outra); Citação (transcrição de texto alheio, mar- cada por aspas); Paráfrase (reprodução do texto do outro, com palavras daquele que o reproduz); Paródia (forma de apropriação que, em lugar de endossar o modelo retomado, rompe com ele, sutil ou abertamente, visando à ironia ou à crítica) e Tradução (recriação de um texto). Em sua forma implícita, a intertextualidade é bastante comum nos textos publicitários e, neste caso, serve para persuadir o leitor e levá-lo a consumir um produto ou, até mesmo, para difundir a cultura. Em sua forma explícita, a superposição de um texto sobre outro pode promover uma atualização ou moderniza- ção das ideias do primeiro texto, fazendo chegar ao leitor, de maneira mais efetiva, o pensamento do autor. Esta forma aparece com frequência nos textos utilizados pelas Bancas examinadoras em provas de concursos. No texto que segue, por exemplo, o poeta Mário Quintana faz alusão a uma pas- sagem da Bíblia e a uma famosa frase do escritor francês Voltaire. Veja: Da imparcialidade A imparcialidade é uma atitude desonesta. Das duas uma: ou o imparcial está mentindo, traindo, assim, as suas mais legítimas preferências, ou então não passa de um exato robô, mero boneco mecânico, sem opinião pessoal, sem nada de humano.
  4. 4. VÂNIAARAÚJO 4 Aquela frase de Voltaire, tão citada: “Não creio em uma só palavra do que dizes, mas defenderei até à morte teu direito de o dizer”. É uma das coisas mais demagó- gicas que alguém já poderia ter inventado. Se achamos que algo é nocivo, meu Deus, como conseguiremos dormir tranquilos sem evitar sua propagação? Pilatos também é um exemplo de imparcialidade. Ao condenar Cristo, aparentemente deixou de tomar posi- ção. Porém a realidade insurge-se contra os fatos. Frente à massa, procurou preservar seu governo. Desempenhou na História uma pontinha. Mas que pontinha! Condenou um inocente, desconhecendo a posteridade. Esqueceu Pilatos, entretanto, que a verdade deve ser reconhecida e proclamada em qualquer situação. Mário Quintana. In: Caderno H. Porto Alegre. (Com adaptações). TIPOS TEXTUAIS FORMA E CONTEÚDO DOS TEXTOS QUANTO A ESSES DOIS ASPECTOS, CLASSIFICAM-SE OS TEXTOS EM: • POESIA é um gênero textual que se caracteriza pela escrita em versos (o verso é o ordenador rít- mico e melódico do poema), que pode apresentar rima e métrica e uma elaboração muito particular da linguagem. A poesia em geral reflete o momento, o impacto dos fatos sobre o homem e a criação de imagens que reflitam esse impacto. Eu canto porque o instante existe E a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste Sou poeta. (...) Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: – mais nada. Cecília Meireles. Motivo. • PROSA é um discurso que reproduz a maneira natu- ral de falar, sem métrica nem rima. As linhas ocupam quase toda a extensão horizontal da página, demar- cada, fisicamente, pelo parágrafo - pequeno afasta- mento em relação à margem esquerda da folha. O parágrafo é o ordenador lógico da prosa. TIPOS TEXTUAIS Os tipos textuais designam uma sequência definida pela  natureza linguística de sua composição e, para a sua classificação, são observados aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais e, principalmente, as relações lógicas. Por sua estrutura composicional, os textos se dividem em: 1. NARRATIVO Texto que visa a discorrer sobre fatos, relatar episó- dios, acontecimentos e histórias verdadeiras (narrativa real) ou fictícias (narrativa ficcional). O texto narrativo possui uma sequência de acontecimentos (começo, meio e fim) que pode ter sua ordem alterada pelo escritor, dependendo do efeito que ele pretenda alcançar. São exemplos de narrati- vas: romance, novela, conto, crônica, anedota e, até, histó- rias em quadrinhos. Leia o texto que segue: Contou-me um amigo uma história exemplar, ocor- rida na cidade mineira de Nova Lima, por volta dos anos 30. Em Nova Lima, existe uma importante mina de ouro – a mina de Morro Velho – que, àquela época, vivia o seu apogeu, e era propriedade de uma companhia inglesa. Os operários, nas entranhas da terra, perfuravam a rocha com suas brocas e picaretas e, dessa forma, respiravam durante anos, nas galerias fundas, a poeira de pedra que o trabalho levantava. Sem nenhuma proteção, ao fim de algum tempo, os mineiros, na sua quase totalidade, contraíam a silicose, causada pelo depósito do pó de pedra em seus pulmões. A silicose, além de encurtar a vida e a capacidade de trabalho, provoca também uma tosse crônica, oca e res- soante, capaz de denunciar, à distância, a moléstia que lhe dá origem. Nas noites de Nova Lima, quando buscava repouso, a cidade era sacudida e inquietada por uma trovoada surda e cava que, nascendo dos casebres operários, chegava até às fraldas das montanhas em torno. Era a grande tosse dos pobres, sintoma e denúncia eloquente da silicose que os roía. Os ingleses, perturbados em seu sono e em sua boa consciência, em vez de adotarem medidas hábeis para que a silicose cessasse, resolveram enfrentar o problema pelo exclusivo ataque ao sintoma. Montaram em Nova Lima, com banda de música e foguetes, uma fábrica de xarope contra a tosse que, ao mesmo tempo, produzia para con- sumo dos colonizadores matéria-prima para refrigerantes que não eram encontrados em nosso país. Hélio Pellegrino. Psicanálise da criminalidade brasileira: ricos e pobres. In: Folha de S. Paulo, “Folhetim”. Apud In: http://www. cefetsp.br/edu/eso/pellegrinocriminalidadecsc.html. Elementos da Narrativa: 1. Narrador: é quem conta a história, um ser ficcional a quem o autor transfere a tarefa de narrar os fatos. Há textos narrativos quase totalmente – ou totalmente – dialogados. Nesse caso, o narrador aparece muito pouco, ou fica subentendido. IMPORTANTE Não confunda o narrador com o autor da história. Este é um escritor, com uma biografia civil, um ser humano, que pode construir vários narradores (um para cada história que desejar contar). 2. Personagens: são os seres que estão envolvidos com a história, que vivem os fatos e que são caracterizados física e psicologicamente. Qualquer tipo de ser (gente, bicho, criaturas inanimadas) pode virar personagem de uma narrativa.
  5. 5. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 5 Os personagens podem ser classificados como: • Principais – quando participam diretamente da trama. • Secundários – quando participam de forma pouco intensa da história. • Caricaturais – que têm traços de personalidade ou padrões de comportamento realçados, acentuados (às vezes beirando o ridículo). 3. Enredo: é a história em si, o conjunto encadeado dos fatos, organizado de acordo com a vontade do escrito. Todo enredo supõe um conflito. Obs.: Uma narrativa pode apresentar um enredo linear – quando os fatos vão se desenrolando um depois do outro, em ordem cronológica de tempo – ou um enredo não linear – quando a história é interrompi- da por uma volta ao passado (para algo ser lembra- do). É o que chamamos de flashback, muito comum em filmes. 4. Espaço: o espaço da narrativa é o local onde se de- senvolve a história, o cenário. A descrição do espaço serve para criar o clima que envolve o leitor nos acon- tecimentos. A descrição do espaço serve, também, para caracterizar, de forma indireta, um personagem. Pode ser: • Físico: é o cenário por onde circulam os persona- gens e onde se desenrola a trama. • Mental: é o retrato de uma época, a ênfase nos costumes de determinado período da história. 5. Tempo: o tempo da narrativa é o “quando acontece” a história. • Cronológico: é o tempo marcado pelo relógio, pelo calendário ou por outros índices exteriores (momen- tos do dia, estações do ano, fatos históricos). • Psicológico: é o tempo subjetivo, variável de indi- víduo para indivíduo. Esse tempo marca-se pelas sensações ou pensamentos do personagem. Características de uma narrativa: • Encadeamento de ações e fatos. • As frases se organizam em uma progressão tempo- ral (relação de anterioridade/posterioridade), tanto que não se pode alterar a sequência sem afetar basicamente o texto. • Texto dinâmico, uma vez que existem muitos verbos indicando movimento, ação, e, ainda, a passagem do tempo. 2. DESCRITIVO Texto em que é feita a caracterização de uma pessoa, um animal, um objeto ou uma situação qualquer. Não existe progressão temporal, já que apenas destaca as proprieda- des e aspectos dos elementos num certo estado (como se estivesse parado). Nos enunciados descritivos podem até aparecer verbos que exprimam ação, movimento, mas os movimentos são sempre simultâneos, não indicando progressão de um estado anterior para outro posterior. Características de uma descrição: • Encadeamento de informações. Todos os enuncia- dos apresentam ocorrências simultâneas. • Riqueza de detalhes e a presença abundante dos adjetivos. • Não existe temporalidade (datas), tanto que se pode alterar a sequência, sem afetar basicamente o sentido. • Uso dos cinco sentidos. • Texto estático, pois faz um uso reiterado de verbos de estado (e não de ação). A descrição é um processo de caracterização que exige sensibilidade daquele que descreve, para sensibilizar também aquele que lê. Sendo assim, ela se baseia na percepção – nos cinco sentidos: visão, tato, audição, paladar e olfato. Observe o trecho a seguir: A terra Ao sobrevir das chuvas, a terra (...) transfigura-se em mutações fantásticas, contrastando com a desolação ante- rior. Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômo- ros escalvados, repentinamente verdejantes. A vegetação recama de flores, cobrindo-os, os grotões escancelados, e disfarça a dureza das barrancas, e e arredonda em coli- nas os acervos de blocos disjungidos – de sorte que as chapadas grandes, intermeadas de convales, se ligam em curvas mais suaves aos tabuleiros altos. Cai a tem- peratura. Com o desaparecer das soalheiras anula-se a secura anormal dos ares. Novos tons na paisagem: a transparência do espaço salienta as linhas mais ligeiras, em todas as variantes da forma e da cor. Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o expandir revivescente da terra. E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturan- tes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez da flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas – o espasmo assombra- dor da seca. A natureza compraz-se em um jogo de antí- teses. Euclides da Cunha. Os sertões - campanha de Canudos. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves. 1982. Páginas 37-38 (com adaptações) A apresentação conjunta de traços físicos e psicológi- cos permite que a descrição se torne mais concreta, mais sensível e mais capaz de fazer o leitor realizar em sua ima- ginação o objeto descrito/ser descrito. Mesmo assim, às vezes, é possível visualizar a descrição sob dois enfoques: 2.1 OBJETIVO: processo de caracterização que pro- cura descrever a realidade, de maneira direta e objetiva, sem acrescentar nenhum juízo de valor. O autor torna- -se impessoal e a linguagem utilizada é denotativa. Como exemplo, leia a descrição abaixo e observe que, à medida que você avança no texto, a imagem do “ser descrito” vai-se formando em sua mente:
  6. 6. VÂNIAARAÚJO 6 Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo, Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-ouros, e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual. Agora, porém, estava idoso, muito idoso. Tanto, que nem seria preciso abaixar-lhe a maxila teimosa para espiar os cantos dos dentes. Era decrépito mesmo a distância: no algodão bruto do pelo – sementinhas escu- ras em rama rala e encardida: nos olhos remelentos, cor de bismuto, com pálpebras rosadas, quase sempre oclusas, em constante semissono; e, na linha, fatigada e respeitável – uma horizontal perfeita, do começo da testa à raiz da cauda em pêndulo amplo, para cá, para lá, tangendo as moscas. João Guimarães Rosa. Sagarana. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1976. 2.2 SUBJETIVO: é um processo de caracterização que busca transmitir o estado de espírito do autor diante da coisa observada ou a sua opinião sobre ela. Ele faz uma representação particular do objeto, normalmente usando a linguagem conotativa. Observe a descrição subjetiva de uma personagem feminina, de Machado de Assis: Assomando à porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era uma mulher, era uma sílfide, uma visão de poeta, uma criatura divina. Era loura; tinha os olhos azuis, que buscavam o céu ou pareciam viver dele. Os cabelos, desleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um como res- plendor de santa; santa somente não mártir, porque o sorriso que lhe desabrochava os lábios era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes há de ter tido a terra. Um vestido branco, de finíssima cambraia, envolvia- -lhe o corpo, cujas formas, aliás, desenhava, pouco para os olhos, mas muito para a imaginação. A chinela turca. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Edi- tora Aguilar. 1986. p.301 (Adaptado). 3. DISSERTATIVO Texto em que se faz uma exposição de opiniões, pontos de vista, fundamentados em argumentos e raciocínios base- ados na vivência, na leitura, na conclusão a respeito da vida, dos homens e dos acontecimentos. O texto disserta- tivo baseia-se, sobretudo, em afirmações que transmitem um conceito relativo, pois suscitam dúvidas, hesitações. Nele, aparecem os pontos de vista diferentes e conflitantes e os graus de verdade e/ou falsidade. No texto dissertativo, o autor tem maior preocupação com o uso dos conectores, com a sintaxe, e, ainda, as corre- tas relações semânticas entre as palavras. Características de uma dissertação: • Encadeamento de ideias e raciocínio. • Os assuntos são tratados de maneira abstrata e genérica. • As relações internas e a coerência entre as frases é que lhe garantem o sentido, já que são os meca- nismos de coesão (conjunções, preposições e pro- nomes relativos, demonstrativos) e as palavras abs- tratas que integram a estrutura básica do texto. Estrutura padrão da dissertação: • Introdução: é o parágrafo de abertura, responsável pela apresentação do assunto, em que é lançada a tese (tópico frasal ou ideia principal) a ser desenvol- vida nos parágrafos seguintes. • Desenvolvimento: é a parte fundamental da dis- sertação, em que se desenvolve o raciocínio ou o ponto de vista sobre o assunto, por meio de argu- mentos convincentes. Do desenvolvimento, depende a profundidade, a coerência e a coesão do texto. Cada argumento (ideia secundária) a ser trabalhado deverá ocupar um parágrafo. • Conclusão: É a parte final do texto, em que se faz um arremate das ideias apresentadas. É mais comum, na conclusão de um texto que o autor ofe- reça uma sugestão para o problema levantado. Mas, às vezes, ele se limita a passar a solução do problema para o leitor, por meio de uma pergunta. O discurso na dissertação • 1ª pessoa do singular – imprime extrema subjetivi- dade no texto e é encontrada com mais frequência nos textos literários. São exemplos do uso da 1ª pessoa nos textos: Eu acho, eu acredito, a meu ver, no meu entender, para mim, na minha opinião etc. • 1ª pessoa do plural – também atribui certo grau de subjetividade ao texto. Autores que optam pela primeira pessoa do plural buscam maior interativi- dade com o leitor, no sentido de incluí-lo como par- ticipante das ideias do texto. Exemplo: Vivenciamos atualmente tempos de globalização da pobreza... (consenso) Existe uma 1ª pessoa do plural que não inclui o leitor – é o chamado plural de modéstia. Isso acontece quando um autor produz e assina sozinho um texto no qual ele expressa “Para citarmos um exemplo...”. • 3ª pessoa (ideológica) – imprime objetividade no texto, dando à expressão do pensamento um cará- ter mais universal. O uso da 3ª pessoa facilita a persuasão, já que confere maior credibilidade às ideias. Ex.: “A política econômica do governo Dilma não promove, de fato, o bem-estar social.” O TEXTO DISSERTATIVO SE SUBDIVIDE EM: • Dissertativo Argumentativo É o texto que visa influenciar o leitor, por meio de uma linha de raciocínio consistente, procurando convencê-lo, ante a evidência dos fatos, a concordar e aceitar como cor- reto e válido o ponto de vista expresso. Observe o exemplo:
  7. 7. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 7 A ciência, no seu esforço de salvar vidas, logrou, no entanto, dar-lhe outra finalidade mais nobre: a de suprir a falência de órgãos de pessoas vivas, substituídos por partes que dele possam ser retiradas. Contra esse benefí- cio para a humanidade, levantam-se barreiras à utilização de órgãos removidos de cadáveres, se não há, para isso, consentimento familiar, com a invocação de princípios que orientam a ética médica. Benjamin Bentham estabeleceu que o direito e a moral ocupam círculos concêntricos; o raio maior seria o da moral. O direito, portanto, seria o mínimo ético. Posta a premissa, o debate da retirada de órgãos de cadáveres deve, necessariamente, ferir-se no campo da Ética. Con- tudo, grande diferença vai entre a Ética, como é conside- rada no âmbito da Filosofia, e a disciplina imposta ao exer- cício de profissões liberais pelos seus órgãos de classe. Na Axiologia, os valores são vistos dentro de uma escala, estabelecida segundo os costumes e a cultura dos povos. O sentido dessa escala é o de oferecer fundamentos para dirimir o conflito que se instale entre esses valores. O conflito é inerente à vida de relação, tanto que, na orga- nização do Estado, é prevista a instituição de um poder só para dirimi-lo: o Judiciário. Nenhum país, com foros de civilização, há de colocar a vida em segundo plano na escala de valores. Tudo o que se fizer para a salvação de uma vida é, por princípio, ético. A Ética, aplicada no uso de partes do cadáver, para restituir a saúde de pessoas ou salvar-lhes a vida, põe-se diante do seguinte dilema: pre- servar a saúde ou a vida contra a morte ou a doença, ou preservar o cadáver para satisfazer o desejo da família? A discussão da lei da doação presumida de órgãos é, diante da Ética, absolutamente estéril. Os primeiros transplantes não dependeram de lei e ainda hoje, como antes, a Ética lhes dá o necessário suporte. A retirada de órgãos de cadáver, para transplante, é ética até contra a vontade, em vida, do morto. O direito, ainda dentro do mínimo ético, colocaria esse ato em face do estado de necessidade, que o Código Penal considera excludente de ilicitude. O artigo 24 do Código Penal calha, no caso, como uma luva. Se a única alternativa para salvar uma vida é o transplante de órgão de cadáver, a sua retirada, para esse fim, é inteiramente abonada pelo estado de neces- sidade. Conduta em sentido inverso é relevante para a configuração de crime por omissão, se o médico podia e devia evitar a morte ou curar a doença. É inconcebí- vel que todo o pensamento penal tenha sido formulado contra a Ética. Não há ética que se sustente contra a vida. Assim, por sentimento da família, que se leve em maior conta o daquela ligada ao paciente que espera pelo órgão. E, se é inevitável o sofrimento de uma – pela falta do órgão, ou de outra – pela sua retirada, a solução, sempre conflituosa, deve ser buscada na escala de valores. Edelberto Luiz da Silva. Correio Braziliense, 11/01/98 (com adaptações). • Dissertativo Expositivo É o texto que procura somente informar, explicar ou interpretar ideias, conceitos ou pontos de vista, por meio de uma explanação imparcial que não conduza à polêmica e não tenha o propósito imediato de persuadir ou formar a opi- nião do leitor. Leia: A maioria dos comentários sobre crimes ou se limi- tam a pedir de volta o autoritarismo ou a culpar a violên- cia do cinema e da televisão, por excitar a imaginação criminosa dos jovens. Poucos são aqueles que pensam que vivemos em uma sociedade que estimula, de forma sistemática, a passividade, o rancor, a impotência, a inveja e o senti- mento de nulidade nas pessoas. Não podemos interferir na política, porque nos ensinaram a perder o gosto pelo bem comum; não podemos tentar mudar nossas relações afetivas, porque isso é assunto de cientistas; não pode- mos, enfim, imaginar modos de viver mais dignos, mais cooperativos e solidários, porque isso é coisa de “obs- curantista, idealista, perdedor ou ideólogo fanático”, e o mundo é dos fazedores de dinheiro. Somos uma espécie que possui o poder da imagina- ção, da criatividade, da afirmação e da agressividade. Se isso não pode aparecer, surge, no lugar, a reação cega ao que nos impede de criar, de colocar no mundo algo de nossa marca, de nosso desejo, de nossa vontade de poder. Quem sabe e pode usar – com firmeza, agressi- vidade, criatividade e afirmatividade – a sua capacidade de doar e transformar a vida, raramente precisa matar inocentes de maneira bruta. Existem mil outras maneiras de nos sentirmos poten- tes, de nos sentirmos capazes de imprimir um curso à vida que não seja pela força das armas, da violência física ou da evasão pelas drogas, legais ou ilegais, pouco importa. Jurandir Freire Costa. In: Quatro autores em busca do Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 43 (com adaptações) 4. INJUNTIVO É um texto instrucional, que prescreve procedimentos a serem realizados. A intenção pode ser persuasiva ou apenas instrutiva. São exemplos de textos injuntivos as receitas (culinárias ou médicas); os manuais de instrução: as bulas de remédios, artigos e leis, de modo geral; placas de sinali- zação de trânsito; editais de concursos; campanhas comu- nitárias etc. Características de um texto injuntivo: • Verbos empregados no modo imperativo; • Emprego do padrão culto da língua; • Linguagem clara e acessível a todo tipo de pessoa; • Predomínio da função referencial da linguagem, embora a conativa seja também bastante recor- rente. • A intenção pode ser persuasiva ou apenas de ins- trução.
  8. 8. VÂNIAARAÚJO 8 Segue um exemplo de texto injuntivo: Cuidados para evitar envenenamentos • Mantenha sempre medicamentos e produtos tóxi- cos fora do alcance das crianças; • Não utilize medicamentos sem orientação de um médico e leia a bula antes de consumi-los; • Não armazene restos de medicamentos e tenha atenção ao seu prazo de validade; • Nunca deixe de ler o rótulo ou a bula antes de usar qualquer medicamento; • Evite tomar remédio na frente de crianças; • Não ingira nem dê remédio no escuro para que não haja trocas perigosas; • Não utilize remédios sem orientação médica e com prazo de validade vencido; • Mantenha os medicamentos nas embalagens ori- ginais; • Cuidado com remédios de uso infantil e de uso adulto com embalagens muito parecidas; erros de identificação podem causar intoxicações graves e, às vezes, fatais; • Pílulas coloridas, embalagens e garrafas bonitas, brilhantes e atraentes, odor e sabor adocicados despertam a atenção e a curiosidade natural das crianças; não estimule essa curiosidade; mante- nha medicamentos e produtos domésticos tran- cados e fora do alcance dos pequenos. Internet: HTTP://189.28.128.100/portal/aplicacoes/noticias (Adaptado) 5. PREDITIVO É um texto que faz previsões. Podem ser descrições, narrações ou dissertações futuras em que o autor antecipa uma informação, uma ideia, um saber. Neste tipo de texto, as formas verbais têm sempre valor de futuro, visto ocor- rer uma predição de algo que está por acontecer. Há certos tipos de textos que normalmente são preditivos ou contém partes preditivas. São exemplos de textos preditivos as previsões em geral: boletins meteorológicos, programas de eventos e via- gens, leituras de sorte, profecias, horóscopos, prenúncios de comportamentos e situações etc. Veja, abaixo, um exem- plo de texto preditivo: Daqui a uns cinquenta anos, alguns dos recursos usados hoje em sala de aula e considerados modernos provavelmente estarão obsoletos. Novos utensílios serão desenvolvidos; alguns até, quem sabe, revolucionários. No entanto, na opinião da doutora em educação pela Pontifí- cia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a professora Andrea Ramal, não serão ferramentas de última geração que marcarão a aula do futuro. Para ela, os novos rumos da educação estão mais relacionados à postura de profes- sores e alunos em sala de aula. “Imagino a sala de aula do futuro como um lugar comunicativo, sendo o espaço da polifonia, da diversidade das vozes, onde todos poderão se comunicar, se posicionar, e onde, desse diálogo, vai se produzir conhecimento”, prevê a doutora. “A aula do futuro, a meu ver, será formada por grupos, reunidos por interesses em temas específicos, e não por faixas etárias, exclusivamente; equipes multidisciplinares, trabalhando juntas nos colégios, e não divididas em áreas como português, matemática, geografia, história. Serão equipes de trabalho, formadas por professores e alunos, desenvolvendo projetos juntos. A avaliação não será a mesma para todos e não vai ser determinada por uma única pessoa. Isso porque existirão tantos currículos quan- tas forem as navegações dos alunos. Como o indivíduo navegante é o próprio autor, haverá um currículo por aluno. No fundo, existirão avaliações diversificadas, por compe- tências, e não por conteúdos; em síntese: uma mudança radica0l, em que não vai mais existir o conceito de turma, mas de comunidade cooperativa de aprendizagem.” Internet: http://teclec.psico.ufrgs.br (com adaptações). Acesso em 8/7/2010. GÊNEROS TEXTUAIS Os gêneros textuais também estão ligados às práticas sociais e, portanto, são inúmeros – textos orais ou escritos pro- duzidos por falantes de uma língua em determinado momento histórico. São definidos de acordo com o estilo, a função, a composição e, principalmente, o conteúdo. Vale lembrar que muitos gêneros são comuns a vários domínios discursivos. Alguns gêneros utilizados em provas de concurso: 1. EDITORIAL É um texto dissertativo, que manifesta a opinião do jornal ou da revista a respeito de um assunto da atualidade, quase sempre polêmico, com a intenção de esclarecer ou alterar pontos de vista dos leitores, alertar a sociedade e, às vezes, até mobilizá-la. O editorial, como texto argumentativo que é, tem por finalidade persuadir o leitor e, por isso, precisa dar a impres- são de que detém a verdade, evitando opiniões pessoais, afirmações generalizantes e sem fundamento. No desenvol- vimento das ideias de um editorial, os recursos empregados para dar maior consistência ao texto e aproximá-lo da ver- dade são exemplos, depoimentos, dados estatísticos, pes- quisas, comparações ou relações de causa e efeito. Leia o editorial abaixo, extraído da revista Época, de 20 de setembro de 2010. Sinais inequívocos de como o homem moderno já está sendo prejudicado pelo uso depredatório dos recur- sos naturais têm se multiplicado mundo afora. No ano de 2005, houve um número sem precedentes de irregularida- des climáticas de consequências trágicas. Quase simul- taneamente, houve ondas de calor nos EUA, na Europa, na Ásia e na África. Inundações na Ásia, nos EUA e na Europa. E também furacões devastadores nas Antilhas, nos EUA e na Ásia. E até no Brasil, um caso com poucos precedentes. E ainda por cima começam a se desenvolver hipóteses de que a atividade vulcânica, responsável por maremotos (tsunamis), pode ser induzida pelo aumento da temperatura do mar.
  9. 9. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 9 Embora não seja consenso, pesquisas científicas apontam uma relação de causa e efeito entre o aque- cimento global e as perturbações climáticas observa- das nos últimos tempos. Com base nisso, desde 1997, representantes de cerca de duas centenas de países têm se reunido para discutir um protocolo de intenções para regular a emissão dos gases poluidores responsá- veis pelo aquecimento global. A esse protocolo foi dado o nome de Kyoto, cidade japonesa onde ocorreu a primeira reunião do grupo. 2. NOTÍCIA É um texto narrativo que expressa um fato novo, bus- cando despertar o interesse do público a que se destina. É um gênero tipicamente jornalístico, pois a notícia pode ser veiculada em jornais, escritos ou falados, e em revistas. Uma notícia deve ser imparcial e objetiva, ou seja, deve expor fatos, e não opiniões, em linguagem clara, direta e bastante precisa. Ela é encabeçada por um título - que anun- cia o assunto a ser desenvolvido e no qual são empregadas palavras curtas e de uso comum. Os elementos que compõem a notícia são as respostas a estas seis perguntas básicas. • O quê? (os fatos narrados) • Quem? (os personagens/as pessoas envolvidas) • Quando? (em que data ocorreram os fatos) • Onde? (em que lugar se deram os fatos) • Como? (de que maneira/ por meio de que) • Por quê? (por qual motivo) Estrutura Textual da Notícia: • LEAD é um resumo do fato em poucas linhas e compreende, normalmente, o primeiro parágrafo da notícia. Contém as informações mais importantes e deve fornecer ao leitor a maior parte das respostas às perguntas formuladas anteriormente. • CORPO são os demais parágrafos da notícia, nos quais se apresenta o detalhamento do assunto exposto no Lead, fornecendo ao leitor novas infor- mações, em ordem cronológica ou de importância. Leia esta notícia extraída do jornal Folha de São Paulo: Assombrado pela necessidade e pela fome Ashkar Muhammad primeiro vendeu alguns de seus animais. Aí, enquanto os meses iam passando, trocou os tapetes da família, os utensílios de metal e até mesmo as toras de madeira que sustentavam o teto da cabana que o abriga com a larga prole. Mas o dinheiro não dava. A fome sempre reapare- cia. Finalmente, seis semanas atrás Muhammad fez algo que se tornou infelizmente digno de nota no país. Ele levou dois de seus dez filhos para o bazar da cidade mais próxima e os trocou por sacos de trigo. Agora os garo- tos Sher, 10; Baz, 5, estão longe de suas casas. “O que mais eu poderia fazer?”, pergunta o pai, em Kangori, uma remota vila no norte do Afeganistão. Ele não quer pare- cer indiferente: “Sinto falta de meus filhos, mas não havia nada para comer”. Nas colinas próximas, veem-se pessoas debilitadas voltando de uma colheita primitiva de variedades de vege- tais da região e até mesmo grama – uma colheita que só fica minimamente comestível se fervida por muito tempo. “Para alguns, não há nada mais”, balbucia Muhammad. BEARAK, Barry. Pai afegão vende filhos para comprar comida. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 mar. 2006. 3. REPORTAGEM É uma modalidade de caráter opinativo, que estabe- lece uma conexão entre o fato central e os fatos paralelos, questiona causas e efeitos desses fatos, interpretando-os e orientando o leitor sobre eles. A reportagem não possui uma estrutura rígida: de modo geral, é introduzida por um lead e é sempre encabeçada por um título (que anuncia o fato em si) e pode ou não apresentar subtítulo. Nela, o autor desenvolve a narrativa pormenorizada dos fatos, compondo- -a por meio de entrevistas, depoimentos, dados estatísticos, pequenos resumos e textos de opinião, e, depois, emite sua opinião a respeito do assunto. Embora seja um texto que necessite de linguagem clara, dinâmica e objetiva (de acordo com o padrão culto), a maioria dos jornais e revistas brasileiros costuma empregar termos e expressões mais informais, dependendo do público a que esses veículos se destinem. Como exemplo, leia o excerto abaixo: Enquanto a notícia nos diz no mesmo dia ou no seguinte se o acontecimento entrou para a história, a reportagem nos mostra como é que isso se deu. Tomada como método de registro, a notícia se esgota no anúncio; a reportagem, porém, só se esgota no desdobramento, na pormenorização, no amplo relato dos fatos. O salto da notícia para a reportagem se dá no momento em que é preciso ir além da notificação – em que a notícia deixa de ser sinônimo de nota – e se situa no detalhamento, no questionamento de causa e efeito, na interpretação e no impacto, adquirindo uma nova dimen- são narrativa e ética. Porque, com essa ampliação de âmbito, a reportagem atribui à notícia um conteúdo que pri- vilegia a versão. Se a nota é geralmente a história de uma só versão [...], a reportagem é, por dever e método, a soma das diferentes versões de um mesmo acontecimento. [...] É fundamental ouvir todas as versões de um fato para que a verdade apurada não seja apenas a verdade que se pensa que é e, sim, a verdade que se demonstra e tanto que possível se comprova. Jornal, história e técnica: as técnicas do jornalismo. São Paulo: Ática, 1990. 4. ARTIGO DE OPINIÃO É um texto jornalístico de caráter dissertativo, com assinatura do autor, no qual ele expressa uma opinião ou comenta um assunto a partir de determinada posição. É uma modalidade na qual o articulista geralmente apresenta opini- ões – que refletem apenas a forma como ele compreende e interpreta os fatos.
  10. 10. VÂNIAARAÚJO 10 Leia o artigo de opinião, escrito pelo jornalista Eugênio Bucci, extraído da revista Veja: crítica, um fato que não depende do contexto específico de uma época ou cultura. O cartum trata de temas universais (o amante, o palhaço, a guerra, a luta do bem contra o mal) que podem ser entendidos em qualquer parte do mundo por diferentes culturas e em diferentes épocas. É uma forma de manifestação caricatural que normalmente prescinde de textos de apoio, representando as ideias apenas pela expressão dos personagens no desenho. 7. FÁBULA Texto narrativo de caráter alegórico, que trabalha o ima- ginário e que pretende transmitir alguma lição de fundo moral, tendo geralmente animais como personagens. Quando ela utiliza objetos inanimados, recebe o nome de apólogo. A fábula constitui uma forma simples de narrativa. Suas raízes remontam à Antiguidade greco-romana, com Esopo e Fedro. La Fontaine, poeta francês, foi quem introduziu e aprimorou as fábulas antigas, fazendo com que chegassem até nós. No Brasil, coube a Monteiro Lobato recriar as fábu- las de La Fontaine e a Millôr Fernandes atualizar algumas das histórias clássicas. Millôr é também criador de algumas fábulas modernas cheias de humor e filosofia, como mostra o exemplo abaixo: No seu programa de Domingo dia 8 [setembro de 1996], o apresentador Fausto Silva colocou em cena o garoto Rafael, da altera do seu joelho. Logo que o peso-pena pisou no programa, Faustão tentou entre- vistá-lo. O menino, com idade mental de criança que acabou de deixar a fralda, não entendia as perguntas. Respondia uma ou outra, com uma voz que parecia um balbucio. Houve então sessões de piada tendo o garoto como tema. [...] A apresentação do Bizarro na televisão é um recurso que dá resultado, sempre deu. O bizarro atrai a atenção do ser humano quase que por instinto, sem que ele raciocine. [...] Se os telespectadores ficam olhando curiosos, o ibope do programa sobe e isso significa sucesso comercial, mais anúncios, mais fatu- ramento. Qual é a fronteira, qual a linha divisória entre o que se pode levar ao ar para atrair mais telespectado- res? “É tênue a linha que divide o que é curioso e o que transforma a curiosidade em algo que ridiculariza uma pessoa”, arrisca o empresário Sílvio Santos, dono do SBT, uma emissora que não raro transpões essa linha. [...] 5. CHARGE (do francês charger, ‘carregar’) É uma forma de manifestação caricatural que relata um fato ocorrido em uma época definida, dentro de deter- minado contexto cultural, econômico e social específico que depende do conhecimento desses fatores para ser enten- dida (fora desse contexto, ela provavelmente perde sua força comunicativa). A charge transforma a intenção artística em uma prática política, em uma forma de resistir aos acontecimentos, nem sempre objetivando o riso (embora o tenha como atrativo), utilizando-se da caricatura, de recursos visuais e linguísticos para fazer uma síntese dos acontecimentos cotidianos filtra- dos pelo olhar de seus atentos produtores. Justamente por isso, ela tem um papel importantíssimo como registro histórico. 6. CARTUM (do inglês cartoon) É um desenho humorístico que tem amplo espaço na imprensa escrita atual e retrata, de maneira extremamente A causa da chuva Não chovia há muitos e muitos meses, de modo que os animais ficaram inquietos. Uns diziam que ia chover logo, outros diziam que ainda ia demorar. Mas não chegava a uma conclusão. – Chove só quando a água cai do telhado do meu galinheiro - esclareceu a galinha. – Ora, que bobagem! - disse o sapo de dentro da lagoa. Chove quando a água da lagoa começa a bor- bulhar as gotinhas. – Como assim? - disse a lebre. Está visto que só chove quando as folhas das árvores começam a deixar cair as gotas d’água que têm dentro. Nesse momento começou a chover. – Viram? - gritou a galinha. O telhado do meu galinheiro está pingando. Isso é chuva. – Ora, não vê que a chuva é a água da lagoa bor- bulhando? - disse o sapo. – Mas, como assim? - tomou a lebre. Parecem cegos! Não veem que a água cai das folhas das árvores. Moral: Todas as opiniões estão erradas. Millôr Fernandes (Adaptado).
  11. 11. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 11 8. INFOGRÁFICO É um quadro informativo que mistura texto e ilustra- ção para transmitir visualmente uma informação (Em vez de “contar”, o infográfico “mostra a notícia como ela é”, com detalhes mais relevantes e forte apelo visual). O infográfico é usado corriqueiramente no design de jornais, com a função de descrever como aconteceu determi- nado fato e quais as suas consequências ou de explicar (por meio de ilustrações, diagramas e textos) fatos que o texto ou a foto não conseguem detalhar com a mesma eficiência. Ele se tornou um grande atrativo para a leitura das matérias, tendo em vista que facilita a compreensão do texto e oferece uma noção mais rápida e clara dos sujeitos, do tempo e do espaço da notícia. Observe o exemplo que segue: 9. CRÔNICA É um texto jornalístico de caráter narrativo, que obe- dece à ordem do tempo (etimologicamente, a palavra vem do grego chrónos, que significa ‘tempo’). Modernamente, a crônica é um relato sobre os acontecimentos do cotidiano, escrito em linguagem leve. Ela difere do conto não apenas no tamanho, mas também na linguagem. Ela busca a inti- midade e o humor da anedota, numa linguagem cotidiana que encontra receptividade em todos os leitores. Ao mesmo tempo em que a crônica tem o caráter transitório de um jornal – uma vez que nasceu dentro desse veículo de comunicação de massa –, ela apresenta também um narrador (que é o próprio autor), personagens que se aproximam muito das pessoas da vida real, enredo, tempo e espaço. Na maioria dos casos, todos esses ele- mentos são trabalhados numa linguagem poética. Muitos cronistas contemporâneos conseguem captar flashes, cir- cunstâncias do cotidiano, de uma maneira tão lírica que fica difícil dizer que tais textos não assumem um caráter literário. Apesar de ser um gênero narrativo por definição, a crônica é um texto geralmente híbrido (uma mescla de modalidades), que não prescinde da reflexão e do comen- tário. Leia: Vejo uma aranha caçar uma mariposa — eis o pro- blema. Mato a aranha? Deixo a aranha viva e salvo a mariposa? Deixo a aranha devorar a mariposa? O fato se passa numa terça-feira de carnaval, mas não faço alegoria. Não me refiro veladamente a um pierrô malvado que sequestra uma indefesa colombina... É car- naval, mas estou sentado à minha mesa de trabalho e é a trinta centímetros de mim, sob a borda da janela, que se processa esse assassinato. Detenho-meeobservo.Amariposaseagitapresapor fios invisíveis, e já da sombra surge a aranha, pequenina, dedilhante. A princípio sou pura curiosidade: a aranha é muito menor que a mariposa, que irá fazer? Aproxima-se, faz uma volta em torno dela, detém-se em certos pontos, move afanosamente as pernas. Amariposa se agita menos, enleada. É quando inter- vém em mim o sentimento: a aranha vai devorá-la! O seu trabalho agora é sinistro: sobe na mariposa, tece-lhe na cabeça, procura virá-la, muda de posição — upa! — vira- a. Parece um homem trabalhando, amarrando sua presa. Ouço distante o rumor de um bloco que passa lá na rua dos fundos. O Rio inteiro está mergulhado na folia, e é como se a aranha aproveitasse essa distração para come- ter o seu crime silencioso. Por acaso, um dos habitantes da cidade — eu — ficou em casa, e com isso a aranha não contava. Sou a testemunha. Mais que isso: posso evitar o crime. Bastaria um gesto meu e a mariposa esta- ria salva. Devo fazê-lo? Enquanto isso, a aranha continua sua faina sinis- tra. Agora arrasta a mariposa, já imobilizada, para aquele canto da sombra, sob o parapeito, donde saíra momen- tos antes. Percebo na aranha uma inteligência quase humana. Pobre mariposa, e o carnaval troando lá fora! Vou salvá-la. Ergo a mão, mas vacilo como uma divindade irresoluta. Um segundo, minha mão onipotente detém-se erguida no ar. Enfim, para que servem as mariposas? — Para que as aranhas as comam — responde-me a aranha sem interromper seu serviço. — Sim, mas para que servem as aranhas? — Para comer as mariposas. — Ora bolas, mas para que servem as aranhas e as mariposas? A aranha já não se dignou responder. A essa altura sumira com a mariposa sob o parapeito da janela.Alguém, providencialmente, bate à porta do escritório e me chama à realidade dos homens. Ferreira Gullar. A estranha vida banal. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989 10. CRÔNICA REFLEXIVA É uma modalidade de crônica na qual o autor tece reflexões filosóficas, ou seja, produz opiniões e impressões (humorísticas ou líricas) sobre um assunto, cativando a sensi- bilidade do leitor numa abordagem descontraída. Na crônica reflexiva, não há preocupação com a forma, já que ela admite tanto a linguagem culta quanto a coloquial, além de recursos poéticos, como repetições enfáticas e gírias. Ela representa a expressão espontânea do pensamento.
  12. 12. VÂNIAARAÚJO 12 Observe o texto que segue: Os olhos de Isabel Instalou-se ontem, no Rio, um banco de olhos. Ali será conservada na geladeira uma parte dos olhos tira- dos de pessoas que acabam de morrer, de acidentados e natimortos. Os cegos que são capazes de distinguir a claridade poderão, em muitos casos, ter vista perfeita, recebendo nos olhos a córnea da pessoa morta. Já houve muitos casos dessa operação no Brasil, como o da jovem Isabel, de 18 anos, cega desde nascença, que passou a ver bem. Não a conheço; e estimo que seja feliz em suas visões, e veja sempre coisas que a façam alegre. É pelos olhos que entra em nós a maior parte das alegrias e tristezas. Os meus, ainda que bastante usados, enxergam bem, e mesmo, em certas circunstân- cias, demais. São, é natural, sujeitos a muitas ilusões; de muitas já fui ao empós, e eram miragens que me levaram ao meio de um deserto onde me alimentei de gafanhotos e lágrimas, tomando sopa de vento, comendo pirão de areia, como diz a canção. A fina membrana dos olhos não guarda a lembrança das visões; mas que sabemos? A matéria viva é uma coisa sutil e sensível que ninguém entende. O jornal não diz de quem eram os olhos com que hoje vê a moça Isabel; e ela, nunca tendo visto antes, não sabe se as visões de hoje são verdade ou fantasia; talvez esteja a ver este mundo através do filtro emocional de uma cria- tura já morta; (...) mas tenham visto o que tiverem antes, que ora vejam tudo em suave e belo azul, a cor dos sonhos e descobrimentos nas navegações dos 18 anos. Que são tontas, mas belas navegações. Rubem Braga, O homem rouco. Rio: Editora do Autor, 1963 TIPOS DE DISCURSOS RECORRENTES EM PROVAS DO CESPE-UNB DISCURSO Discurso é a prática social de produção de textos. Todo discurso é uma construção social (e não individual), que só pode ser analisada considerando-se o seu contexto histó- rico-social, suas condições de produção e, essencialmente, a visão de mundo vinculada ao autor do texto e à sociedade em que ele vive. Os textos que aparecem mais frequente- mente em provas de concursos pertencem aos discursos: ACADÊMICO Tem a finalidade de expor a investigação de um fato, de um acontecimento ou de uma experiência científica, com bastante rigor nos conceitos e informações utilizados. Este domínio discursivo aparece em Características mais marcantes: • Geralmente explica ou fundamenta as afirmações com base em dados objetivos, cientificamente com- provados; • Pode servir-se de descrições, de enumerações, de exposições narrativas, de relatos de fatos, de gráfi- cos, de estatísticas etc. • Normalmente segue um roteiro preestabelecido: apresenta introdução, desenvolvimento e conclusão. Em alguns casos, pode apresentar outras partes, como folha de rosto, anexos, sumário etc. • Linguagem objetiva e impessoal, de acordo com o padrão culto da língua. CIENTÍFICO Discurso de natureza expositiva, que tem por finalidade expor um assunto de cunho científico. Possui uma estrutura relativamente simples: apresentação de uma tese (explica- ção sobre o objeto de estudo) a ser desenvolvida por meio de “provas” (exemplos, comparações, relações de causa e efeito, resultados de testes, dados estatísticos etc.). Nesse tipo de texto, a conclusão é facultativa. Este domínio discur- sivo aparece em artigos e relatórios científicos, teses, disser- tações, monografias, verbetes de enciclopédias, artigos de divulgação científica etc. Características relevantes: • O máximo de precisão e rigor nos conceitos e infor- mações utilizados; • Presença obrigatória de terminologia científica de uma ou mais áreas do conhecimento; • Verbos empregados predominantemente no pre- sente do indicativo; • Linguagem clara, objetiva e impessoal, de acordo com o padrão culto da língua. LITERÁRIO Este tipo de discurso tem uma função mais estética, pois nele o escritor busca não apenas traduzir o mundo, mas recriá-lo nas palavras, de modo que, nele, importa não apenas o que se diz, mas o modo como se diz. Este domí- nio discursivo aparece em: contos, fábulas, lendas, poemas, peças de teatro, crônicas, roteiros de filmes, quadrinhos etc. Características importantes: • Predomínio da linguagem conotativa, já que, por sua função estética, o autor sempre atribui novos senti- dos às palavras. • Utiliza múltiplos recursos estilísticos: ritmos, sonori- dades, repetição de palavras ou de sons, repetição de situações ou descrições. JORNALÍSTICO Texto de função utilitária, pois visa a informar o leitor. Nesse caso, o plano da expressão não tem muita importân- cia, já que sua finalidade é apenas veicular conteúdos. Este domínio discursivo aparece em editoriais, notícias, repor- tagens, artigos de opinião, comentários, cartas ao leitor, crônica policial, crônica esportiva, entrevistas jornalísticas, expediente, boletim do tempo, erratas e charges.
  13. 13. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 13 Características mais destacadas: • Predomínio da narração, com a presença dos ele- mentos essenciais de um texto narrativo: fato, pes- soas envolvidas, tempo em que ocorreu o fato, o lugar onde ocorreu, como e por que ocorreu o fato. • Normalmente, apresenta um título. • Predomínio da função referencial, na qual se privi- legia a linguagem denotativa e as construções gra- maticais em ordem direta e clara. PUBLICITÁRIO É um discurso de natureza dissertativa que tem por finalidade apresentar argumentos (diretos ou indiretos) para persuadir o interlocutor sobre as eventuais “vantagens” de um produto: quantitativas (rende mais, é mais barato); qualitativas (o melhor, o mais saboroso, o mais nutritivo) e ideológicas (mais moderno, mais arrojado, mais exclusive). Este domínio discursivo aparece em propagandas, anún- cios classificados, cartazes, folhetos, outdoors, inscrições em muros, placas, logomarcas e publicidade em geral. Características essenciais: • É quase sempre constituído por imagem e texto. • O nível de linguagem utilizado varia de acordo com o público que se quer atingir. • Utiliza verbos geralmente no modo imperativo ou no presente do indicativo. • Faz uso de recursos tais como: figuras de lingua- gem, ambiguidades, jogos de palavras (trocadi- lhos), provérbios etc. • A estrutura pode variar, mas é geralmente com- posta por: título (que chame a atenção sobre o pro- duto); texto (que amplie o argumento do título) e assinatura (logotipo ou marca do anunciante). EPISTOLAR Discurso de natureza narrativa, escrito sob a forma de carta, que se caracteriza por apresentar opiniões, manifes- tos e discussões, as quais vão muito além dos meros inte- resses pessoais ou utilitários. Texto que combina paixões e apelos subjetivos com o debate de temas abrangentes e abstratos. A partir do Renascimento, antes do surgimento da imprensa jornalística, as cartas exerciam a função de infor- mar sobre fatos que ocorriam no mundo. Por isso, as epís- tolas de um autor, reunidas, poderiam vir a ser publicadas devido a seu interesse histórico, literário ou documental, como no caso das Epístolas de São Paulo (na Bíblia), des- tinadas às comunidades cristãs e das cartas do padre Antô- nio Vieira e de Pero Vaz de Caminha. Na modernidade, com a difusão dos meios eletrônicos de escrita, o discurso epistolar tende a se reinventar – em outros moldes e estilos, como mensagens de e-mail, por exemplo. Leia, abaixo, trechos da Carta de Caminha, escrita nos primórdios do descobrimento do Brasil, impressa em 1817 pela Imprensa Régia do Rio de Janeiro: Senhor Mesmo que o Capitão-mor desta vossa frota e também os outros capitães escrevam a vossa alteza a notícia do achamento desta vossa Terra Nova que, agora, nesta navegação se achou não deixarei, também, de dar disso minha conta a Vossa Alteza, tal como eu melhor puder ainda que para bem contar e falar o saiba fazer pior que todos. Mas tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade; e creia, como certo, que não hei de pôr aqui mais que aquilo que vi e me pareceu, nem para aformo- sear nem para afear. (...) Mas o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente; e esta deve ser a prin- cipal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, bastaria, quanto mais dis- posição para se cumprir nela e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, ou seja: acrescentamento da nossa Santa Fé. E desta maneira Senhor, dou aqui a Vossa Alteza notícia do que nesta vossa terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, que o desejo que tinha de vos dizer tudo me fez assim por pelo miúdo. Pois que, Senhor, é certo que, assim, neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa, que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser, por mim, muito bem servida. A Ela peço que, para me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé, Jorge de Osório, meu genro, o que d’Ela rece- berei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro de vossa ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500. SEMÂNTICA – SIGNIFICAÇÃO DE PALAVRAS SEMÂNTICA É o estudo da significação das palavras, seja no seu sentido mais estrito, seja a mudança de sentido ocasionada pelo contexto. A palavra (signo linguístico) é uma combinação de forma (escrita e falada) e conteúdo (conceito, ideia), os quais se traduzem em: • Significante: é o elemento concreto, material, per- ceptível: os sons (fonemas) e as letras. • Significado: é o elemento inteligível (o conceito) ou a imagem mental. AS PALAVRAS POSSUEM SIGNIFICADOS QUE PODEM SER: • LITERAIS (DENOTATIVO): é o sentido convencio- nal, real, que não permite mais de uma interpreta- ção, igual para todos os falantes da língua. Aparece na linguagem científica, informativa ou técnica. • CONTEXTUAIS (CONOTATIVO): é o sentido figu- rado, diferente do convencional e que raramente se encontra no dicionário. Só é possível descobri-lo quando se observa o contexto em que tal palavra aparece. É apropriado à linguagem literária, cujas palavras mais sugerem do que informam.
  14. 14. VÂNIAARAÚJO 14 Obs.: o sentido original é a própria significação etimo- lógica do termo, mas este também sofre constan- tes alterações no decorrer do tempo, devido à sua expansão ou generalização. Por exemplo, carras- co era o nome do algoz Belchior Nunes Carrasco e generalizou-se para todos os algozes e anfitrião era personagem de uma comédia de Plauto e se expandiu a todos aqueles reúnam, em sua casa, convidados e amigos. CAMPO SEMÂNTICO é o emprego de palavras que pertencem ao mesmo universo de significação, formando “famílias ideológicas”. Tais palavras se associam por meio de uma espécie de imantação semântica, ou seja, embora não sejam sinônimas, remetem umas às outras em determi- nado contexto. Assim, são exemplos de campos semânticos: • Natureza: seres que constituem o universo, tempe- ramento, espécie, qualidade etc. • Nota: anotação, comunicação escrita e oficial do governo, cédula, som musical, atenção etc. • Breve: de pouca duração, ligeiro, resumido etc. Dentro de um mesmo campo semântico, as pala- vras são caracterizadas como: • HIPERÔNIMOS: palavras que possuem um sentido mais genérico. Exemplos: Economia, Direito, fute- bol, componentes automotivos, disciplinas escola- res, pássaros etc. • HIPÔNIMOS: palavras que possuem caráter mais específico. Assim, são hipônimos de: Economia: deflação, déficit, superávit, juros, câmbio, balança etc. Direito: mandado, arrolamento, alçada, ementa, agravo etc. Internet: web, página, link, portal, blog, site etc. Informática: drive, software, programas, hardware, memória RAM etc. Obs.: A relação entre hipônimos e hiperônimos não é absoluta, pois um mesmo termo pode exercer as duas funções, dependendo do contexto: Vertebra- do é um hipônimo de animal, mas é um hiperônimo de mamífero. Mamífero é um hipônimo de animal e de vertebrado, mas é um hiperônimo de roedor, de ruminante etc. LÉXICO é o conjunto de palavras de uma língua. A língua é um organismo vivo e se atualiza de acordo com as necessidades sociais de seus usuários. Por isso, não existe falante que domine por completo o léxico de uma língua: a cada dia, as palavras podem perder alguns sentidos e ganhar outros ou até desaparecerem quando deixam de ser usadas por muito tempo. CAMPO LEXICAL é o emprego de famílias de palavras – ou de palavras cognatas, ou seja, que descendem de um mesmo radical, de uma mesma raiz. Cognação quer dizer parentesco. Por exemplo, do latim Stella derivam estrela, estelar, estrelar, estrelado. Campo lexical de terra: aterrar, terremoto, desenter- rar, aterrissar, desterro, terraplanagem, térreo, terrestre, território, terráqueo, terracota etc. Campo lexical de luz: aluno, iluminar, luminosidade, ilustre, ilustrado, iluminado etc. RELAÇÕES DE SENTIDO ENTRE OS VOCÁBULOS • SINONÍMIA: ocorre quando palavras podem ser substituídas umas pelas outras, sem prejudicar a compreensão das ideias do texto. Por exemplo, em uma prova de concurso, a banca fez a seguinte assertiva: “Pode-se substituir o vocábulo hemisfé- rica por ‘minuciosa’ sem que isso altere as relações de sentido do texto.” A princípio, parece ser impossí- vel estabelecer uma relação de sinonímia entre tais vocábulos, mas o texto trazia o seguinte conteúdo: “Eu me considero um consumidor tão educado que nunca compra nada sem antes fazer uma tomada hemisférica de preços”. Neste caso, o vocábulo “minuciosa” não só substitui hemisférica como é o mais adequado ao contexto. Veja outros exemplos: Rival/adversário/antagonista – cloreto de sódio/ sal – íntegro/probo/correto/justo/honesto – unhas/ garras – aguardar/esperar – pessoa/indivíduo – cara/rosto. • ANTONÍMIA: ocorre quando duas ou mais palavras se opõem quanto ao significado dentro do texto. Veja: Feliz/infeliz – bem/mal – rico/pobre – amor/ódio Euforia/melancolia – sagrado/profano – claro/escuro. • PARONÍMIA: ocorre quando palavras ou expres- sões possuem grafia e pronúncia parecidas, com sentidos diferentes. Observe os exemplos: Ir ao encontro de = estar de acordo. Ir de encontro a = chocar-se, opor-se. Na medida em que (Loc. causal) = tendo em vista que. À medida que (Loc. proporcional) = à proporção que. Infração = violação da lei. Inflação = desvalorização da moeda. Cível = relativo ao Direito Civil. Civil = relativo ao cidadão. • HOMONÍMIA: ocorre com palavras que possuem grafia ou pronúncia igual, por causa de sua origem, mas que têm sentidos distintos. As palavras homô- nimas podem ser: –– Homógrafas: possuem mesma grafia, mas têm pronúncias e sentidos diferentes. Sede (ê) = vontade de beber. Sede (é) = matriz de uma empresa/ casa de fazenda. Almoço (ô) = substantivo. Almoço (ó) = verbo. Colher (ê) = verbo. Colher (é) = substantivo.
  15. 15. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 15 –– Homófonas: possuem mesma pronúncia, mas têm grafias e sentidos diferentes. Acender = atear fogo/ iluminar. Ascender = subir, elevar-se. Coser = costurar. Cozer = cozinhar. Cessão = doação (verbo doar). Seção = repartição/departamento, divisão. Sessão = duração de um evento. –– Homônimas Perfeitas: possuem mesma grafia e mesma pronúncia, com sentidos diferentes. Obs.: As homônimas perfeitas são, também, denomina- das polissêmicas, polifônicas, plurívocas ou pluris- significativas. Veja os exemplos: Real = verdadeiro; real = relativo à realeza; real = moeda brasileira. Sentença = condenação; sentença = frase. Mente = intelecto; mente = verbo; mente = sufixo. • FORMAS VARIANTES: são palavras que, embora tenham um mesmo sentido, admitem grafia e pro- núncia diferentes. Exemplos: cota/quota – catorze/quatorze – cociente/quo- ciente traslado/translado – aspecto/aspeto – asso- viar/assobiar percentual/porcentual – necrópsia/ necropsia céptico/cético – projétil/projetil – conectivos/coneti- vos malformação/má-formação – aterrissar/aterrizar caráter/carácter/caractere (só um plural: caracteres) • POLISSEMIA: consiste no fato de uma mesma palavra possuir significados diferentes, os quais se explicam pelo contexto. Veja os exemplos: Passar uma mão de tinta no portão = uma demão; Dar uma mão = ajudar; Passar a mão no dinheiro do outro = roubar; Abrir mão de = prescindir, dispensar; Lançar mão de = utilizar; Abrir a mão = gastar; Pegar a mão errada da via = sentido, direção. Obs.: O antônimo de polissemia é monossemia (quando uma palavra apresenta apenas um sentido). • AMBIGUIDADE: ocorre quando uma palavra ou expressão admite mais de uma interpretação. É um recurso linguístico muito utilizado em textos literá- rios e publicitários. Observe: –– Anúncio em bancas de revistas: “Aprenda a fazer uma galinha no ponto!”. O anúncio dá a ideia de que querem vender livros de recei- tas, mas, na verdade, o que será vendido é uma revista de ponto-cruz. Ou seja, aprenda a fazer uma galinha no ponto-cruz (para bordar em panos de prato). –– Interpretação do sétimo mandamento, segundo Bastos Tigre: “Não furtarás – prega o Decálogo; e cada homem deixa para amanhã a observân- cia do sétimo mandamento”. A graça vem do fato de que pelo fato de se utilizar o verbo no tempo futuro, as pessoas estão sempre prorrogando o prazo para começar a respeitar o mandamento. MECANISMOS DE COESÃO TEXTUAL A coesão de um texto é decorrente das relações de sentido que se operam entre os seus elementos. Muitas vezes, a compreensão de um termo depende da interpreta- ção de outro ao qual ele faz referência. Os elementos de que a língua dispõe para relacionar termos ou segmentos na construção de um texto (recursos vocabulares, sintáticos e semânticos) são chamados de conectivos, coesivos ou conectores. Um texto adequado é aquele que resume as seguintes qualidades: • Correção: o texto (ou fragmento) deve obedecer às regras gerais da língua, ressalvando-se sempre algumas liberdades como consequência do estilo. O emprego da modalidade culta atribui maior credi- bilidade ao texto. • Coerência: é a adequação entre o que se afirma e o que diz o contexto extraverbal. Para isso, é neces- sário que o leitor conheça o assunto a que o texto faz referência. A clareza é imprescindível para que o leitor ganhe mais facilmente a adesão do leitor às suas ideias. • Coesão: ocorre quando as palavras ou os termos das orações, e mesmo as orações, se ligam para formar um texto. Essa ligação se dá por meio de recursos como conjunções, pronomes, preposições e a própria escolha vocabular, entre outros. • Concisão: é o resultado do uso de linguagem pre- cisa/enxuta, sem, contudo, comprometer a clareza. O procedimento oposto é a prolixidade, o encher linguiça, defeito que deve ser evitado em um texto. PRINCIPAIS RECURSOS DE COESÃO PREPOSIÇÕES – palavras invariáveis que ligam outras palavras, estabelecendo entre elas determinadas relações de sentido e de dependência. As preposições podem ser: a. Essenciais (sempre têm essa função): a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, peran- te, por, sem, sob, sobre, trás. b. Acidentais (circunstanciais, pois podem perten- cer a outras classes gramaticais): afora, conforme, consoante, durante, exceto, fora, mediante, tirante, salvo, segundo.
  16. 16. VÂNIAARAÚJO 16 AOLIGAREMOSTERMOS,ASPREPOSIÇÕESPODEM ESTABELECER RELAÇÕES DE: • Assunto: O ministro falou sobre Educação. • Causa: Ele vibrava de entusiasmo. • Companhia: Estava com o secretário particular. • Direção/sentido: Depois seguiu para o Sul. • Especialidade: Ele é especialista em Sociologia. • Falta: Contudo, estava sem verbas naquele momento. • Finalidade: Disse aquilo para tranquilizar o professor. • Instrumento: Atrapalhou-se com o microfone. • Lugar: Ele mora em Brasília. • Matéria: Aqui comprou uma bota de couro. • Meio: Certamente voltará de avião. • Oposição: Mostrou-se contra a estatização do ensino. • Origem: Na verdade, é natural de Maceió. • Posse: Em Brasília, hospeda-se na casa de Erun- dina. • Entre outras... Uma mesma preposição pode atribuir ideias distintas a um texto. Portanto, desista de decliná-las apenas e atente para os possíveis sentidos que podem trazer ao contexto. Observe: • Ficar de pé (modo); morrer de fome (causa); pul- seira de ouro (material); maço de cigarros (con- teúdo); casa de Luís (posse); falar de futebol (assunto); descendente de alemães (origem); viajar de avião (meio); atitude de imbecil (seme- lhança) etc. IMPORTANTE A preposição “de” não deve contrair-se com: • o artigo que precede o sujeito de um verbo. Ex.: É tempo de a polícia agir com eficácia. • o artigo que faz parte de um título. Ex.: O fato de O Globo ter noticiado a negociação... • Tratar com carinho (modo); ficar pobre com a infla- ção (causa); vinho se faz com uva (matéria); ir ao cinema com o Jonas (companhia); jogar com (contra) os argentinos (oposição). • Escrever em francês (modo); televisor em cores (qualidade/estado); pagar em cheque (meio); ficar em casa (lugar); pedir em casamento (finalidade). • Para mim, ela está mentindo (referência); ter água para dois dias apenas (tempo); nascer para o tra- balho (finalidade); ser inteligente para não cair numa cilada (consequência); vou para Goiânia (lugar) – neste caso, para dá a ideia de estada permanente ou definitiva, ao contrário da preposi- ção ‘a’, que exprime breve regresso. Desse modo, vamos para o céu ou para o inferno, já que de tais lugares não há regresso. CONJUNÇÕES – palavras invariáveis que ligam duas orações ou duas palavras de mesma função em uma oração. Podem ser: Coordenativas: ligam orações, estabelecendo entre elas apenas dependência semântica. São elas: aditivas, adversativas, alternativas, conclusivas e explicativas. Subordinativas: ligam orações, estabelecendo rela- ção de dependência semântica e gramatical, ou seja, uma oração é termo de outra. São elas: integrantes, causais, comparativas, concessivas, condicionais, conformati- vas, consecutivas, temporais, finais e proporcionais. As orações se apresentam como elementos capazes de estabelecer relações de significado ao texto. A troca de uma conjunção por outra muda completamente a relação semântica do período. Observe: a. Todos os seres humanos são iguais e nenhum é superior ou inferior aos outros. (e = adição entre as orações) b. Todos os seres humanos são iguais, portanto ne- nhum é superior ou inferior aos outros. (portanto= relação de conclusão) c. Todos os seres humanos são iguais, porque ne- nhum é superior ou inferior aos outros. (porque = relação de causa e efeito) Observe as ideias atribuídas por determinadas con- junções e expressões: O conectivo “e” anuncia o desenvolvimento do dis- curso e não a repetição do que foi dito antes; indica uma pro- gressão semântica que adiciona, que acrescenta um dado novo. É necessário tomar cuidado na análise dessa conjun- ção, pois em alguns casos, seu uso se constitui apenas um recurso estilístico: serve para enfatizar uma ideia. O mecanismo Ainda serve para introduzir mais um argumento a favor de determinada conclusão ou incluir um elemento a mais dentro de um conjunto qualquer. Exem- plo: “O nível de vida dos brasileiros é baixo porque os salá- rios são pequenos. Convém lembrar ainda que os serviços públicos são extremamente deficientes”. Alguns termos servem para introduzir um argumento decisivo (Aliás, além do mais, além de tudo, além disso), apresentado como acréscimo, como se fosse desnecessá- rio, justamente para dar o golpe final no argumento contrário. Exemplo: “Os salários estão cada vez mais baixos porque o processo inflacionário diminui consideravelmente seu poder de compra. Além de tudo são considerados como renda e taxados com impostos”. Algumas expressões (isto é, quer dizer, ou seja, em outras palavras) introduzem esclarecimentos, retifica- ções, desenvolvimento ou desdobramento da ideia anterior. Exemplo: “Muitos jornais fazem alarde de sua neutralidade em relação aos fatos, isto é, de seu não comprometimento com nenhuma das forças em ação no interior da sociedade”. Alguns conectivos adversativos (mas, todavia, porém, contudo, entretanto) marcam oposição entre dois enuncia- dos ou dois segmentos do texto. Não é possível ligar, por meio desses conectivos, segmentos que não se oponham. Certos elementos de coesão servem para estabele- cer gradação entre os componentes de uma escala. Alguns (mesmo, até, até mesmo) situam a ideia no topo da escala; outros (ao menos, pelo menos, no mínimo) situam-na no plano mais baixo. Exemplos:
  17. 17. COMPREENSÃOEINTERPRETAÇÃODETEXTOS 17 • “O homem é ambicioso, quer ser dono de bens materiais, da ciência, do próprio semelhante; até mesmo do futuro e da morte”. • “É preciso garantir ao homem seu bem-estar: o lazer, a cultura, a liberdade, ou, no mínimo, a mora- dia, o alimento e a saúde”. Os conectivos que estabelecem ao mesmo tempo uma relação de contradição e de concessão (embora, ainda que, mesmo que) servem para admitir um dado contrário, e depois negar seu valor de argumento. É preciso ficar atento ao seu uso, pois se essa relação não for apropriada, deixará o enunciado descabido. Veja: “Embora o Brasil possua um solo fértil e imensas áreas de terras plantáveis, vamos resolver o problema da fome”. PRONOMES RELATIVOS – pronomes que retomam um termo já citado numa oração, substituindo-o no início da oração seguinte. Veja: Eu trouxe os lápis. Você precisará desses lápis. Eu trouxe os lápis de que você precisará. Os pronomes relativos podem ser: • Variáveis: o/a qual, os/as quais; cujo(s), cuja(s); quanto(s), quanta(s). • Invariáveis: que, quem, onde, como, quando. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS PRONOMES RELATIVOS: 1ª) Os relativos sempre iniciam uma nova oração. Visitaremos a cidade / onde eu nasci. Oração A Oração B 2ª) A maioria das bancas examinadoras do país gosta de cobrar os pronomes relativos atrelados à regência (nomi- nal ou verbal). Exemplos: Ele é o rapaz a cujas ideias me refiro. Ele é o rapaz de cujas ideias discordo. Ele é o rapaz com cujas ideias concordo. Ele é o rapaz de cujas ideias desconfio. Ele é o rapaz em cujas ideias me confio. 3ª) O relativo que: a) Pode retomar palavras que nomeiam pessoas ou coisas. Ex.: O rapaz que chegou é meu vizinho. (o qual) Pode se referir aos demonstrativos o, a, os, as. Ex.: Sei o que você faz neste lugar! (o = aquilo) 4ª) O relativo quem só é usado para retomar palavras que designam pessoas. Ex.: Ela é a pessoa com quem você conversava. 5ª) Os relativos cujo(a), cujos(as) são usados entre dois substantivos, estabelecendo entre eles uma ideia de posse. Exemplo: Discutiremos um assunto cujas causas são complexas. (cujas causas = as causas do assunto) 6ª) Os relativos onde, aonde: essas duas formas sempre indicam lugar e têm empregos diferentes. Onde – indica “lugar em que”. Exemplo: Fui à cidade onde você nasceu. (Quem nasce, nasce em). Aonde – indica “lugar a que”. Exemplo: Conheço a cidade aonde você vai. (Quem vai, vai a). 7ª) Os relativos quanto(s) e quanta(s) são precedidos de tudo, todo, tanto (e variações). Exemplos: Esqueceu-se de tudo quanto prometera. Todos quantos assistiram ao filme ficaram decepcio- nados. Você quer provas de concurso? Pois pegue tantas quantas quiser. 8ª) O relativo como tem sempre as palavras “modo”, “maneira” ou “forma” como antecedentes e equivale seman- ticamente a pelo qual (e variações). Exemplos: Contaram-me a maneira como você se comportou. (pela qual) Vamos acertar o modo como irei trabalhar. (pelo qual) 9ª) O relativo quando sempre terá um antecedente que dê ideia de tempo. Nesse caso, ele equivale semantica- mente a em que. Veja os exemplos: Era chegado o dia quando teríamos que resolver o caso. (em que) Bendita a hora quando você apareceu aqui! (em que) PRONOMES DEMONSTRATIVOS – pronomes que situam elementos dentro do texto, ou os seres - no tempo e no espaço – em relação em relação a cada uma das três pessoas gramaticais. São eles: MECANISMOS DE ARTICULAÇÃO TEXTUAL: têm função anafórica e catafórica e servem para situar elemen- tos no contexto linguístico. • Esse, essa, isso, nesse, nessa, nisso, desse, dessa e disso são termos anafóricos (retomam o que foi mencionado). • Este, esta, isto, neste, nesta, nisto, deste, desta e disto são termos catafóricos (referem-se ao que será mencionado). • Aquele(s), aquela(s), aquilo são usados, conjunta- mente, com os pronomes este(s), esta(s) para fazer referência a elementos já citados. Desse modo: Aquele (e variações) se refere ao elemento citado primeiro; Este (e variações) se refere ao elemento citado por último. Por exemplo: Brasil e Uruguai são dois países sul-americanos: aquele foi colonizado pelos portugueses e este, pe- los espanhóis. Aquele – Brasil (citado primeiro); Este – Uruguai (citado por último). MECANISMOS DE REFERÊNCIA NO ESPAÇO: são elementos dêiticos, já que situam (apontam) seres ou coisas no espaço. • Este, esta, isto, deste, desta, disto, neste, nesta e nisto apontam para o que está próximo da pessoa que fala.
  18. 18. VÂNIAARAÚJO 18 • Esse, essa, desse, dessa, nesse, nessa apontam para o que está próximo da pessoa com quem se fala. • Aquele, aquela, aquilo, naquele, naquela, naquilo, daquele, daquela, daquilo apontam para o que está longe. Exemplo: “O que é aquilo que está lá no fim da rua?”. MECANISMOS DE REFERÊNCIA NO TEMPO (DÊITI- COS) – localizam seres ou coisas no tempo. Este, esta, isto, neste, nesta, nisto, deste, desta e disto indicam um tempo presente atual. Exemplo: “Este ano tem sido muito bom para quem quer passar em um concurso público.” (ano de 2007). Usa-se esse, essa, isso, nesse, nessa, nisso, desse, dessa e disso indicam um tempo passado ou futuro, mas não muito distante. Exemplos: “A seleção brasileira jogará no Chile nesse fim de semana.” Aquele, aquela, aquilo, naquele, naquela, naquilo, daquele, daquela, daquilo indicam um tempo distante. Exemplo: “Mudei para Brasília há vinte anos. Naquela época aqui não havia tantos mendigos nas ruas”. IMPORTANTE Os pronomes adjetivos (último, penúltimo, antepenúltimo, anterior, posterior) e os numerais ordinais (primeiro, segundo etc.) também podem ser usados para se fazer referências em geral. FATORES LINGUÍSTICOS DE COESÃO TEXTUAL 1. PARALELISMOS 1.1 – Paralelismo sintático é a combinação de pala- vras em estruturas sintáticas que se repetem ao longo do texto. Nesse caso, não se repetem as palavras, mas a mesma construção sintática (o mesmo tipo de sujeito seguido do mesmo tipo de verbo com o mesmo tipo de complemento etc.). O paralelismo sintático serve para mostrar que os sen- tidos transmitidos pelas construções paralelas mantêm entre si algum tipo de simetria ou de assimetria. Exemplos: • Nas ondas da praia quero ser feliz / Nas ondas do mar quero me afogar. • Os amores (estão) na mente / As flores (estão) no chão / A certeza (está) na frente / A história (está) na mão. 1.2 – Paralelismo semântico é a relação de seme- lhança (correspondência de sentidos) quanto ao sentido das orações. Observe os exemplos: 1º) Nas ondas da praia quero ser feliz Nas ondas do mar quero me afogar. Manuel Bandeira (Nesse caso, o paralelismo ocorre pela correspondên- cia do desejo, da atração pelo mar e pela morte). 2º) A semente que tu semeias, outro colhe ; A riqueza que tu achas, outro guarda; As roupas que tu teces, outro veste; As armas que tu forjas, outro empunha. Shelley (Nesse caso, o paralelismo põe em relevo o mesmo tema: quem faz alguma coisa não a faz para si; ou ainda, ninguém usufrui dos bens que produz). • Quebra (intencional) do paralelismo Anúncio de uma exposição das obras de Salvador Dali, no MASP: “Quem viu, viu. Quem não viu, ainda pode ver”. Nesse caso, houve uma quebra intencional do para- lelismo, que seria algo como “Quem não viu, não viu” ou “quem não viu, não vai ver mais”. Por meio dessa quebra, o anunciante procura atrair a atenção do leitor e persuadi-lo a ver a exposição enquanto há tempo. 2. DÊIXIS Os elementos dêiticos têm a função de localizar enti- dades no contexto espaço-temporal, social ou discursivo, já que eles apontam para elementos exteriores ao texto e mudam de sentido conforme o contexto, isto é, não possuem valor semântico em si mesmos, podendo variar a cada nova enunciação. Observe o exemplo da manchete de um jornal: Ontem, aqui, caiu um temporal! A compreensão que se terá da ideia expressa pelos advérbios “ontem” e “aqui” somente será possível pela situ- ação do texto, ou seja, necessito saber em que cidade e em que data tal texto foi publicado. 2.1 – Dêixis Pessoal – indica as pessoas do discurso, permitindo selecionar os participantes dentro do processo comunicativo. Integram este grupo: pronomes pessoais (tu, me, nós etc.); determinantes e pronomes possessivos (meu, vosso, seu, teu etc.); sufixos flexionais de número e pessoa (falas, falei, falamos etc.) bem como vocativos. 2.2 – Dêixis Temporal – localiza os fatos no tempo, tomando como ponto de referência o momento da comu- nicação. Os elementos que desempenham tal função são advérbios, locuções adverbiais ou expressões denotativas de tempo. Por exemplo: amanhã, ontem, na semana pas- sada, de noite, na semana seguinte, à tarde etc. 2.3 – Dêixis Espacial – caracteriza o uso dos elemen- tos referenciais de espaço, tendo como referência o lugar da enunciação, evidenciando a relação de maior ou menor proximidade em relação aos lugares ocupados por locutor e interlocutor. Os elementos que cumprem esta função são advérbios e locuções adverbiais de lugar (aqui, lá, lá de cima, perto de), e pronomes demonstrativos (esse, aquela, a outra), bem como alguns verbos que indicam movimento (chegar, entrar, subir).

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