Obreiros da vida eterna

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Obreiros da vida eterna

  1. 1. Francisco Cândido Xavier Obreirosda Vida Eterna 4o livro da Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” Ditado pelo Espírito André Luiz FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil http://www.febnet.org.br/
  2. 2. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 2 Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” 01 - Nosso Lar 02 - Os Mensageiros 03 - Missionários da Luz 04 - Obreiros da Vida Eterna 05 - No Mundo Maior 06 - Libertação 07 - Entre a Terra e o Céu 08 - Nos Domínios da Mediunidade 09 - Ação e Reação 10 - Evolução em Dois Mundos 11 - Mecanismos da Mediunidade 12 - Sexo e Destino 13 - E a Vida Continua...
  3. 3. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 3 ÍndiceRasgando Véus............................................................................. 41 Convite ao bem ....................................................................... 82 No Santuário da Bênção ........................................................ 223 O sublime visitante................................................................ 354 A casa transitória................................................................... 495 Irmão Gotuzo ........................................................................ 636 Dentro da noite...................................................................... 767 Leitura mental ....................................................................... 918 Treva e sofrimento .............................................................. 1149 Louvor e gratidão ................................................................ 13410 Fogo purificador................................................................ 15411 Amigos novos.................................................................... 16912 Excursão de adestramento ................................................. 18513 Companheiro libertado ...................................................... 19714 Prestando assistência ......................................................... 21215 Aprendendo sempre........................................................... 22616 Exemplo cristão................................................................. 24117 Rogativa singular .............................................................. 25718 Desprendimento difícil ...................................................... 27119 A serva fiel ........................................................................ 28520 Ação de graças .................................................................. 301
  4. 4. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 4 Rasgando Véus O homem moderno, pesquisador da estratosfera e do subsolo,esbarra, ante os pórticos do sepulcro, com a mesma aflição dosegípcios, dos gregos e dos romanos de épocas recuadas. Os sécu-los, que varreram civilizações e refundiram povos, não transfor-maram a misteriosa fisionomia da sepultura. Milenário ponto deinterrogação, a morte continua ferindo sentimentos e torturandointeligências. Em todas as escolas religiosas, a Teologia, representando asdiretrizes de patriarcas veneráveis da fé, procura controlar o cam-po emotivo dos crentes, acomodando os interesses imediatistas daalma encarnada. Para isso, criou regiões definidas, tentando pa-dronizar as determinações de Deus pelos decretos dos reis medie-vais, lavrados à base de audaciosa ingenuidade. Indubitavelmente, províncias de angústia punitiva e dor repa-radora existem nas mais variadas dimensões do Universo, assimcomo vibram consciências escuras e terríveis nos múltiplos esta-dos sociais; no entanto, o serviço teológico, nesse sentido, nãoobstante respeitável, atento ao dogmatismo tradicional e aos inte-resses do sacerdócio, estabelece o “non plus ultra”, que não aten-de às exigências do cérebro nem aos anseios do coração. Como transferir imediatamente para o inferno a mísera criatu-ra que se emaranhou no mal por simples influência da ignorância?Que se dará, em nome da Sabedoria Divina, ao homem primitivo,sedento de dominação e de caça? A maldição ou o alfabeto? Porque processo conduzir ao abismo tenebroso o espírito menos feliz,que apenas obteve contacto com a verdade, no justo momento deabandonar o corpo? Dentro das mesmas razões, como promoverao céu, em caráter definitivo, o discípulo do bem, que apenas seiniciou na prática da virtude? Que gênero de tarefa caracterizará o
  5. 5. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 5movimento das almas redimidas, na Corte Celestial? Formar-se-iam apóstolos tão só para a aposentadoria compulsória? Comohaver-se, no paraíso, o pai carinhoso cujos filhos fossem entre-gues a Satã? Que alegria se reservará à esposa dedicada e fiel, quetem o esposo nas chamas consumidoras? Estaria a AutoridadeDivina, perfeita e ilimitada, tão pobre de recursos, a ponto de im-pedir, além do plano carnal, o benefício da cooperação legítima,que as autoridades falíveis e deficientes do mundo incentivam eprotegem? Negar-se-iam possibilidades de evolução aos que atra-vessam a porta do sepulcro, em plena vida maior, quando na esfe-ra terrestre, sob limitações de vária ordem, há caminhos evoluti-vos para todas as formas e todos os seres? A palavra “trabalho”seria desconhecida nos céus, quando a Natureza terrena repartemissões claras de serviço, com todas as criaturas da Crosta Plane-tária, desde o verme até o homem? Como justificar um infernoonde as almas gemessem distantes de qualquer esperança, quando,entre os homens imperfeitos, ao influxo renovador do Evangelhode Jesus-Cristo, as penitenciárias são hoje grandes escolas de re-generação e cura psíquica? E por que meios admitir um céu, ondeo egoísmo recebesse consagração absoluta, no gozo infinito doscontemplados pela graça, sem nenhuma compaixão pelos deser-dados do favor, que caíram, ingênuos, nas armadilhas do sofri-mento, se, entre as mais remotas coletividades de obscuras zonascarnais, se arregimentam legiões de assistência fraterna amparan-do ignorantes e infelizes? São interrogações oportunas para os teólogos sinceros da atu-alidade. Não, contudo, para os que tentam conjugar esforços nasolução do grande e indevassado problema da Humanidade. O Espiritismo começou o inapreciável trabalho de positivar acontinuação da vida além da morte, fenômeno natural do caminhode ascensão. Esferas múltiplas de atividade espiritual interpene-tram-se nos diversos setores da existência. A morte não extingue a
  6. 6. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 6colaboração amiga, o amparo mútuo, a intercessão confortadora, oserviço evolutivo. As dimensões vibratórias do Universo são infi-nitas, como infinitos são os mundos que povoam a imensidade. Ninguém morre. O aperfeiçoamento prossegue em toda parte. A vida renova, purifica e eleva os quadros múltiplos de seusservidores, conduzindo-os, vitoriosa e bela, à União Suprema coma Divindade. Apresentando o novo trabalho, em que André Luis comparecerasgando véus, lembramo-nos de que Allan Kardec, o inesquecí-vel codificador, refere-se várias vezes em sua obra à erraticidade,onde estaciona considerável número de criaturas humanas desen-carnadas. Acresce notar, todavia, que transferir-se alguém da esfe-ra carnal para a erraticidade não significa ausentar-se da iniciativaou da responsabilidade, nem vaguear em turbilhão aéreo, semdiretivas essenciais. No mesmo critério, observaríamos os querenascem no plano denso como pessoas transferidas da vida espi-ritual à materialidade, não simbolizando semelhante figura qual-quer imersão inconsciente e estúpida nas correntes carnais. Comoacontece aos que chegam à Crosta da Terra, os que saem dela en-contram igualmente sociedades e instituições, templos e lares,onde o progresso continua para o Alto. No limiar deste livro, portanto, cumpre-nos declarar que An-dré Luis procurou fornecer algumas notícias das zonas de erratici-dade que envolvem a Crosta do mundo, em todas as direções, co-mentando os quadros emocionais que se transportam do ambienteobscuro para as esferas imediatas às cogitações e paixões huma-nas; mais uma vez, esclarece que a morte é campo de seqüência,sem ser fonte milagreira, que aqui ou além o homem é fruto de simesmo e que as leis divinas são eternas organizações de justiça eordem, equilíbrio e evolução. Naturalmente, a estranheza visitará os companheiros menosavisados e o sorriso irônico surgirá, sem dúvida, na boca, quase
  7. 7. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 7sempre brilhante, dos impenitentes incorrigíveis. Não importa,porém. Jesus, que é o Cristo de Deus, recebeu manifestações desarcasmo da ignorância e da leviandade... Por que motivo, nósoutros, simples cooperadores de “outro mundo”, teríamos de serintangíveis? Prossigamos, pois, no serviço da verdade e do bem, cheios deotimismo e bom ânimo, a caminho de Jesus, com Jesus. Pedro Leopoldo, 25 de março de 1946. EMMANUEL
  8. 8. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 8 1 Convite ao bem Antes de iniciar os trabalhos de nossa expedição socorrista, oAssistente Jerônimo conduziu-nos ao Templo da Paz, na zonaconsagrada ao serviço de auxílio, onde esclarecido instrutor co-mentaria as necessidades de cooperação junto às entidades infeli-zes, nos círculos mais baixos da vida espiritual que rodeiam aCrosta da Terra. A maravilhosa noite derramava inspirações divinas. Ao longe, constelações faiscantes semelhavam-se a pérolascaprichosamente dispostas numa colcha de veludo imensamenteazul. A paisagem lunar oferecia detalhes encantadores. Picos ecrateras salientavam-se à nossa vista, embora a considerável dis-tância, num deslumbramento de filigrana preciosa. Fulgurava oCruzeiro do Sul como símbolo sublime, desenhado ao fundo azul-escuro do firmamento. Canópus, Sírius e Antares brilhavam, infi-nitamente, figurando-se-nos balizas radiosas e significativas docéu. A Via Láctea, dando-nos a impressão de prodigioso ninho demundos, parecia um dilúvio de moedas resplandecentes a se der-ramarem de cornucópia gigantesca e invisível, convidando-nos ameditar nos segredos excelsos da natureza divina. E as suavesvirações noturnas, osculando-nos a mente em êxtase, passavamapressadas, sussurrando-nos grandiosos pensamentos, antes de sedirigirem às esferas distantes... O templo, edificado no sopé de graciosa colina, apresentavaaspecto festivo, em virtude da iluminação feérica a projetar singu-lares efeitos nos caminhos adjacentes. As torres, à maneira deagulhas brilhantes, alongavam-se pelo céu, contrastando com oindefinível azul da noite clara e, cá em baixo, as flores de variadas
  9. 9. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 9figurações eram taças luminosas, servindo luz e perfume, balou-çando, de leve, na folhagem, ao sopro incessante do vento. Não éramos os únicos interessados na palestra da noite, por-que numerosos grupos de irmãos se dirigiam ao interior, acomo-dando-se no recinto. Eram entidades de todas as condições, fa-zendo-nos sentir o geral interesse pelas lições em perspectiva. Seguíamos, o Assistente Jerônimo, o padre Hipólito, a enfer-meira Luciana e eu, constituindo pequena equipe de trabalho, in-cumbida de operar na Crosta Planetária, durante trinta dias, apro-ximadamente, em caráter de auxílio e estudo, com vistas ao nossodesenvolvimento espiritual. Jerônimo, o orientador de nossas atividades pela nobreza desua posição, percebendo-me a curiosidade perante as movimenta-das conversações em derredor, explicou, gentil: – Muito justa a atenção, em torno do assunto. Admito que aquase totalidade dos interessados e estudiosos que afluem à casaintegram comissões e agrupamentos de socorro nas regiões menosevolvidas. E demorando o olhar nas fileiras de jovens e velhos que de-mandavam o interior, acrescentou: – A palavra do Instrutor Albano Metelo merece a considera-ção excepcional da noite. Trata-se dum campeão das tarefas deauxílio aos ignorantes e sofredores dos círculos imediatos à Cros-ta Terrestre. Somos aqui diversos grupos de aprendizes e a expe-riência dele nos proporcionará infinito bem. Breves minutos decorreram e penetramos, por nossa vez, orecinto radioso. Vagavam no ar suaves melodias, precedendo a palavra orien-tadora. Flores perfumosas, ornamentando o ambiente, embalsa-mavam a nave ampla.
  10. 10. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 10 Alguns instantes agradabilíssimos de espera e o emissário a-pareceu na tribuna simples, magnificamente iluminada. Era umancião de porte respeitável, cujos cabelos lhe teciam uma coroa deneve luminosa. De seus olhos calmos, esplendidamente lúcidos,irradiavam-se forças simpáticas que de súbito nos dominaram oscorações. Depois de estender sobre nós a mão amiga, num gestode quem abençoa, ouviu-se o coro do templo entoando o hino“Glória aos Servos Fiéis”: Ó Senhor! Abençoa os teus servos fiéis, Mensageiros de tua paz, Semeadores de tua esperança. Onde haja sombras de dor, Acende-lhes a lâmpada da alegria; Onde domine o mal, ameaçando a obra do bem, Abre-lhes a porta oculta à tua misericórdia; Onde surjam acúleos do ódio, Auxilia-nos a cultivar as flores bem-aventuradas de teu sacrossanto amor! Senhor! são eles Teus heróis anônimos, Que removem pântanos e espinheiros, Cooperando em tua divina semeadura... Concede-lhes os júbilos interiores, Da claridade sagrada em que se banham as almas redimi- das. Unge-lhes o coração com a harmonia celeste Que reservas ao ouvido santificado; Descortina-lhes as visões gloriosas Que guardas para os olhos dos justos;
  11. 11. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 11 Condecora-lhes o peito com as estrelas da virtude leal... Enche-lhes as mãos de dádivas benditas Para que repartam em teu nome A lei do bem, A lua da perfeição, O alimento do amor, A veste da sabedoria, A alegria da paz, A força da fé, O influxo da coragem, A graça da esperança, O remédio retificador!... Ó Senhor, Inspiração de nossas vidas, Mestre de nossos corações, Refúgio dos séculos terrestres! Faze brilhar teus divinos lauréis E teus eternos dons, Na fronte lúcida dos bons - Os teus servos fiéis! O instrutor ouviu, em silêncio, de olhos molhados, deixandotransparecer íntimo júbilo, enquanto a maioria da assembléia dis-farçava discretamente as lágrimas que os acentos harmoniosos docântico nos arrancavam do coração. Em se perdendo no espaço asderradeiras notas da melodia sublime, Metelo, sem qualquer luzode gesticulação, saudou-nos com expressiva simplicidade, dese-jando-nos a paz do Senhor, e prosseguiu: – Não mereço, amigos, o preito de carinho desta noite. Nãotenho servido fielmente Àquele que nos ama desde o princípio e,
  12. 12. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 12por isso, vosso hino confunde-me. Mero soldado das lides evan-gélicas, trabalho ainda no campo da própria redenção. Fez ligeira pausa, fitou-nos, paternal, e continuou: – Mas... a minha personalidade não interessa. Venho falar-vosde nossos trabalhos singelos, nas regiões espirituais ligadas àCrosta da Terra. Ó meus irmãos! é necessário apelar para as nos-sas energias mais recônditas. As zonas purgatoriais multiplicam-se, assustadoramente, em derredor dos homens encarnados. Adistância dos teatros de angústia, vinculados às realizações edifi-cantes de nossa colônia espiritual, preservando valiosas reservasda vida infinita para essa mesma Humanidade que se debate nosofrimento e nas trevas, nem sempre formulamos uma idéia exatada ignorância e da dor que atormentam a mente humana, quantoaos problemas da morte. A felicidade faz que nasçam aqui as fon-tes inesgotáveis da esperança. Os que se preparam, ante os vôosmaiores da Eternidade, trazem os olhos voltados para a EsferaSuperior, na contemplação do ilimitado porvir, e os que se esfor-çam por merecer a bênção da reencarnação na Crosta Terrestrefixam as suas aspirações mais fortes no soberano propósito deredenção, organizando-se perante o futuro, ousados nas solicita-ções de trabalho e arrojados no bom ânimo. Todos os pormenoresda vida, nesta cidade, falam alto de nossos objetivos de equilíbrioe elevação. Não longe de nós, começam a brilhar os raios da alvo-rada radiante dos mundos melhores, convidando-nos à visão beatí-fica do Universo e à gloriosa união com o Divino. Mas... – o ora-dor fez significativo intervalo, parecendo escutar vozes e chama-mentos de paisagens distantes, e prosseguiu: – e os nossos irmãosque ainda ignoram a luz? subiríamos até Deus, num círculo fecha-do? Como operar o insulamento egoístico e partir, a caminho doPai Amoroso e Leal que acende o Sol para os santos e os crimino-sos, para os justos e injustos?
  13. 13. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 13 Metelo mostrou uma chama de zelo sagrado nos olhos percu-cientes e exclamou, depois de curta reflexão: – Nós, que procuramos a santidade e a justiça, alcançaríamos,acaso, semelhante orientação, se outras fossem as circunstânciasque nos regeram até aqui? Construtores de nossos próprios desti-nos, por delegação natural do Criador, onde permaneceríamos,agora, sem os favores da oportunidade e o obséquio da proteçãode benfeitores desvelados? Indubitavelmente, os ensejos de eleva-ção felicitam todas as criaturas; no entanto, é imprescindível pon-derar que a bênção da fonte pode converter-se em venenosa águaestagnada, se a trancamos num poço incomunicável. E as dádivasrecebidas por nós são inúmeras e os dons que nos foram distribuí-dos, imensos... Seria completo o nosso regozijo, havendo lágrimasatrás de nossos passos? Como entoar hinos de hosana à felicidadesobre o coro dos soluços? Nobilíssimo, todo impulso de atingir ocume; entretanto, que veremos após a ascensão? Entre os júbilosde alguns, identificaríamos a ruína e a miséria de multidões incal-culáveis!... Nesse momento, envolvido nas vibrações de profundo inte-resse dos ouvintes, imprimiu novo acento ao verbo luminoso etornou com indefinível melancolia: – Também eu tive noutro tempo a obcecação de buscar apres-sado a montanha. A Luz de cima fascinava-me e rompi todos oslaços que me retinham em baixo, encetando dificilmente a jorna-da. A princípio, feri-me nos espinhos pontiagudos da senda, ex-perimentei atrozes desenganos... Consegui, porém, vencer os óbices imediatos e ganhei, jubi-loso, pequenina eminência. Em me voltando, todavia, espantou-me a visão terrífica do vale: o sofrimento e a ignorância domina-vam em plena treva. Desencarnados e encarnados lutavam unscontra os outros, em combates gigantescos, disputando gratifica-
  14. 14. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 14ções dos sentidos animalizados. O ódio criava moléstias repug-nantes, o egoísmo abafava impulsos nobres, a vaidade operavahorrenda cegueira... Cheguei a sentir-me feliz, diante da posiçãoque me distanciava de tamanhas angústias. Contudo, quando maisme vangloriava, dentro de mim mesmo, embalado na expectativade atravessar mais altos cumes, eis que, certa noite, notei que ovale se represava de fulgente luz. Que sol misericordioso visitavao antro sombrio da dor? Seres angélicos desciam, céleres, de ra-diosos pináculos, acorrendo às zonas mais baixas, obedecendo aopoder de atração da claridade bendita. Que acontecera? – pergun-tei ousadamente, interpelando um dos áulicos celestiais. – “O Se-nhor Jesus visita hoje os que erram nas trevas do mundo, libertan-do consciências escravizadas. Nem mais uma palavra. O mensa-geiro do Plano Divino não podia conceder-me mais tempo. Urgiadescer para colaborar com o Mestre do Amor, diminuindo os de-sastres das quedas morais, amenizando padecimentos, pensandoferidas, secando lágrimas, atenuando o mal e, sobretudo, abrindohorizontes novos à Ciência e à Religião, de modo a desfazer amultimilenária noite da ignorância. Novamente sozinho, na pere-grinação para o Alto, reconsiderei a atitude que me fizera impaci-ente. Em verdade, para onde marchava meu Espírito, despreocu-pado da imensa família humana, junto da qual haurira minhasmais ricas aquisições para a vida imortal? Porque enojar-me, anteo vale, se o próprio Jesus, que me centralizava as aspirações, tra-balhava, solícito, para que a Luz de Cima penetrasse as entranhasda Terra? Não praticava eu o crime execrável da usura, olvidandoaqueles entre os quais adquirira o roteiro destinado à minha pró-pria ascensão? Como subir sozinho, organizando um céu exclusi-vo para minhalma, lastimavelmente abstraído dos valores da coo-peração que o mundo me prodigalizava com generosidade e abun-dância? Mostrava-se o instrutor intensamente comovido.
  15. 15. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 15 – Detive-me, então – continuou – e voltei. Efetivamente, ocaminho vertical e purificador da superioridade é a sublime desti-nação de todos. O cume, bafejado de resplendor solar, é sempreum desafio benéfico aos que vagueiam sem rumo, na planície. Oalto polariza, naturalmente, as supremas esperanças dos que aindapermanecem em baixo... Todavia, à medida que penetramos odomínio da altura, imprimem-se-nos na mente e no coração as leissublimes de fraternidade e misericórdia. Os grandes orientadoresda Humanidade não mediram a própria grandeza senão pela capa-cidade de regressar aos círculos da ignorância para exemplifica-rem o amor e a sabedoria, a renúncia e o perdão aos semelhantes.É por esse motivo que necessitamos temperar todo impulso deelevação com o sal do entendimento, evitando a precipitação nosdespenhadeiros do egoísmo e da vaidade fatais. Metelo silenciou por instantes e, diante da comoção com quelhe acompanhávamos a palestra, retomou o verbo com outra in-flexão de voz: – Outrora, quando nos envolvíamos ainda nos fluidos da car-ne terrestre, supúnhamos com desacerto que a vaidade e o egoís-mo somente poderiam vitimar os homens encarnados. A Teologia,não obstante o ministério respeitável que lhe está afeto, enclausu-rava-nos a mente em fantasiosas concepções do reino da verdade.Esperávamos um paraíso fácil de ser conquistado pela deficiênciahumana e temíamos um inferno difícil de regenerar-nos. Nossasidéias alusivas à morte confinavam-se a essas ridículas limitações.Hoje, porém, sabemos que, depois do túmulo, há simplesmentecontinuação da vida. Céu e inferno residem dentro de nós mes-mos. A virtude e o defeito, a manifestação sublime e o impulsoanimal, o equilíbrio e a desarmonia, o esforço de elevação e aprobabilidade da queda perseveram aqui, após o trânsito do sepul-cro, compelindo-nos à serenidade e à prudência. Não nos encon-tramos senão em outro campo de matéria variada, noutros domí-
  16. 16. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 16nios vibratórios do próprio planeta em cuja Crosta tivemos expe-riências quase inumeráveis. Como não equilibrar, portanto, o co-ração no exercício efetivo da solidariedade? Logicamente nãoexortamos ninguém a novos mergulhos no lodo antigo, não dese-jamos que os companheiros previdentes regressem à posição defilhos pródigos, distanciados voluntariamente do Eterno Pai, nempretendemos interromper a marcha laboriosa dos servidores deboa vontade, a caminho dos Cimos da Vida. Apelamos tão só nosentido de cooperardes nos trabalhos de socorro às esferas escu-ras. Sois livres e dispondes de tempo, no desempenho dos deveresnobilitantes a que fostes chamados em nossa colônia espiritual.Nada mais razoável que o proveito da oportunidade no planeja-mento da ascese. Entretanto, na qualidade de velho cooperadordas tarefas de auxílio, ousamos rogar vosso interesse generalizadopelos que erram “no vale da sombra e da morte”, aguardando aesmola possível de vosso tempo, em favor dos nossos semelhan-tes, defrontados agora por situações menos felizes, não em virtudedos desígnios divinos, mas em razão da imprevidência delesmesmos. Contudo, qual de nós não foi invigilante algum dia? Fez o orador uma pausa mais longa e continuou: – De nossos amigos encarnados não podemos esperar, porenquanto, concurso maior e mais eficiente nesse sentido. Presosnas grades sensoriais, progridem lentamente na aprendizagem dasleis que regem a matéria e a energia. Quando convidados a visitarnossos círculos de edificação, fora da instrumentalidade fisiológi-ca, regressam ao corpo assombrados pelas visões rápidas que lhesfoi possível arquivar e, em transmitindo suas lembranças aos con-temporâneos, operam a coloração da água simples e pura da ver-dade com os seus “pontos de vista” e predileções pessoais no ter-reno da Ciência, da Filosofia e da Religião. Bernardin de Saint-Pierre, o romancista trazido por amigos a regiões vizinhas daCrosta Planetária, volta ao seu meio de ação e traça aspectos que
  17. 17. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 17asseverou pertencerem ao planeta Vênus. Huyghens, o astrônomo,recebe mentalmente algum noticiário de nossas esferas de luta eensaia teorias referentes à vida em outros mundos, afirmando queos processos biológicos nos orbes distantes são absolutamenteanálogos aos da Crosta da Terra. Teresa d’Ávila, a religiosa santi-ficada, transporta-se à paisagem de nosso plano, onde se lamen-tam almas sofredoras, e torna ao corpo carnal, descrevendo o in-ferno para os seus ouvintes e leitores. Swedenborg, o grande mé-dium, percorre alguns trechos de nossas zonas de ação e pinta oscostumes das “habitações astrais” como melhor lhe parece, im-primindo às narrações os fortes característicos de suas concepçõesindividuais. Quase todos os que vieram momentaneamente aonosso campo de trabalho voltam ao esforço humano, exibindo aexperiência de que foram objeto, pincelando-a com a tinta de suasinclinações e estados psíquicos. Porque se encontram fundamentearraigados ao “chão inferior” do próprio “eu”, acreditam enxergaroutros mundos em situações iguais à da Terra, nosso maravilhosotemplo, cujas dependências não se restringem à Esfera da Crostasobre a qual os homens de carne pousam os pés. A Terra é tam-bém nossa grande mãe, cujos braços acolhedores se estendempelo espaço além, ofertando-nos outros campos de aprimoramentoe redenção. Modificando a inflexão de voz, prosseguiu: – As criaturas, porém, atravessam breve período de existênciano mundo carnal. A maioria demora-se nas estações expiatóriasdo resgate difícil e confunde-se nas vibrações perturbadoras dosofrimento e do medo. Fazem da morte uma deusa sinistra. Apre-sentam o fenômeno natural da renovação com as mais negras co-res. Agarradas às sensações do dia que passa, ignoram como dila-tar a esperança e transformam a separação provisória numa terrí-vel noite de amarguroso adeus. Vítimas da ignorância em que secomprazem, internam-se em florestas de sombras, onde perdem
  18. 18. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 18toda a paz, convertendo-se em presas delirantes dos infernos dehorror, criados por elas mesmas nos desvairamentos passionais.Como esperar delas a colaboração precisa, com a extensão dese-jável, se, pela indiferença para com os próprios destinos, mergu-lham-se diariamente nos rios de treva, desencanto e pavor? Una-mo-nos portanto, auxiliando-as, segundo os preceitos evangélicos,descortinando-lhes novos horizontes e aclarando-lhes os caminhosevolutivos. De olhos fulgurantes e neblinados de lágrimas, pela evocaçãotalvez de quadros das esferas sombrias, que não nos eram dadoconhecer, Metelo manteve-se longos instantes em silêncio, vol-tando a dizer em tom de súplica: – Recordemos o Divino Mestre e não desdenhemos a honrade servir, não de acordo com os nossos caprichos pessoais, porémde conformidade com os seus desígnios e suas leis. Campos imen-suráveis de trabalho aguardam-nos a cooperação fraterna e a se-meadura do bem produzirá nossa felicidade sem fim!... Falou, comovedoramente, por mais alguns minutos e, em se-guida, invocou as forças divinas, arrancando-nos lágrimas de in-traduzível alegria. Raios de claridade azul-brilhante choveram no recinto, pro-porcionando-nos a resposta do Plano Superior. Transcorridos alguns momentos de meditação, Metelo fez e-xibir num grande globo de substância leitosa, situado na partecentral do templo, vários quadros vivos do seu campo de ação naszonas inferiores. Tratava-se da fotografia animada, com apresen-tação de todos os sons e minúcias anatômicas inerentes às cenasobservadas por ele, em seu ministério de bondade cristã. Infelizes desencarnados, em despenhadeiros de dor, implora-vam piedade. Monstros de variadas espécies, desafiando as anti-
  19. 19. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 19gas descrições mitológicas, compareciam horripilantes, ao pé devítimas desventuradas. As paisagens, analisadas de tão perto, através do avançadoprocesso de fixação das imagens, não somente emocionavam:infundiam terror. Na intimidade da massa leitosa, em que eramlançadas, adquiriam expressões de vivacidade indescritível. Apa-reciam soturnas procissões de seres humanos despojados do cor-po, sob céus nevoentos e ameaçadores, cortados de cataclismos denatureza magnética. Pela primeira vez, contemplava eu semelhante demonstração,sem disfarçar a emoção. Para onde se dirigiam aquelas fileirasimensas de Espíritos sofredores? Como se sustentariam os ajun-tamentos de almas desalentadas e semi-inconscientes, que me eradado divisar ali, ante os meus olhos tomados de assombro, atola-das em poços escuros de lama e padecimento? Em dado instante, a voz do instrutor quebrou o silêncio. Diante dum quadro extremamente doloroso, exclamou emvoz firme: – Muitos de vós sabeis que tenho nesses centros expiatóriosos que me foram pais bem-amados na derradeira experiência vivi-da na carne, prisioneiros ainda de torturantes recordações; no en-tanto, crede, não nos move qualquer propósito egoístico nas tare-fas de auxílio, porque temos aprendido com o Senhor que a nossafamília se encontra em toda parte. Observei que ninguém ousou voltar-se para Metelo em seutestemunho de humildade. Comovidíssimo, por minha vez, ante ademonstração de entendimento evangélico a que assistia, notei oolhar expressivo que o Assistente Jerônimo me endereçou, aotérmino do noticiário animado e sonoro, e procurei alijar de mimmesmo a preocupação de algo saber, acerca do drama particular
  20. 20. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 20do orientador, anulando meus inferiores impulsos de mera curio-sidade. Findos os trabalhos, que ocuparam pouco mais de duas horas,inclusive a palestra instrutiva, vários grupos eram apresentados aoinstrutor, por um dos dirigentes do templo. Tive a impressão de que a assembléia, em sua feição quaseintegral, era constituída de legítimos interessados nos trabalhosespontâneos de ajuda ao próximo. Pelas saudações e pelas frasesde que se faziam acompanhar, percebi que se aglomeravam norecinto grandes e pequenos conjuntos de servidores, em diversasmissões, com objetivos múltiplos. Consagravam-se alguns ao am-paro de criminosos desencarnados, outros ao socorro de mães afli-tas, colhidas inesperadamente pelas renovações da morte, outros,ainda, interessavam-se pelos ateus, pelas consciências encarcera-das no remorso, pelos enfermos na carne, pelos agonizantes naCrosta, pelos dementes sem corpo físico, pelas crianças em difi-culdade no plano invisível aos homens, pelas almas desanimadase tristes, pelos desequilibrados de todos os matizes, pelos missio-nários perdidos ou desviados, pelas entidades jungidas às víscerascadavéricas, pelos trabalhadores da Natureza, necessitados deinspiração e carinho. Para todos, possuía o mentor uma sentença generosa de esti-mulo e admiração. Chegada a nossa vez, Jerônimo nos apresentou gentilmente: – Metelo, temos aqui três companheiros que me seguirão ago-ra, em missão de socorro. – Muito bem! muito bem! – exclamou o interpelado – que oDivino Servidor os inspire. Abraçou-nos, com simplicidade, e perguntou: – Partem com obrigação especializada?
  21. 21. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 21 – Sim – esclareceu nosso orientador –, devemos atender, nospróximos trinta dias, a cinco dedicados colaboradores nossos,prestes a desencarnarem na Crosta. Trabalharam fiéis à causa dobem e as nossas autoridades encarregaram-nos de atender-lhes aoscasos pessoais. – Prevejo muito êxito – comentou Albano Metelo, fixando emnós o olhar sereno. Revelando espontânea alegria pelas palavras ouvidas, Jerô-nimo acrescentou, delicado: – Confio na dedicação dos meus companheiros. Seguem co-migo um ex-padre católico, uma enfermeira e um médico. Sere-mos quatro servos em ação ativa. – Compreendo – aduziu o instrutor. – Vamos com autorização para efetuar experiências, estudos eauxílios eventuais, de conformidade com as circunstâncias, emvista do caráter de nosso trabalho, que nos prodigalizará ensejo adiferentes observações. Enviou-nos Metelo reconfortante sorriso de otimismo e con-fiança, cumprimentou-nos individualmente e, depois de abraçar onosso diretor, com intimidade, exclamou: – Que o Mestre os ilumine e conduza. Eram as palavras de despedida. Outro grupo socorrista apro-ximou-se dele e retiramo-nos do Templo da Paz, repletos do pen-samento salutar de servir aos semelhantes em nome de Deus. Lá fora, a noite de maravilhas era bem uma festa silenciosa,em que o aroma das flores convidava para o banquete celeste daluz.
  22. 22. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 22 2 No Santuário da Bênção Na véspera da partida, o Assistente Jerônimo conduziu-nos aoSantuário da Bênção, situado na zona dedicada aos serviços deauxilio, onde, segundo nos esclareceu, receberíamos a palavra dementores iluminados, habitantes de regiões mais puras e mais fe-lizes que a nossa. O orientador não desejava partir sem uma oração no santuá-rio, o que fazia habitualmente, antes de entregar-se aos trabalhosde assistência, sob sua direta responsabilidade. À tardinha, pois, em virtude do programa delineado, encon-trávamo-nos todos em vastíssimo salão, singularmente disposto,onde grandes aparelhos elétricos se destacavam, ao fundo, atrain-do-nos a atenção. A reduzida assembléia era seleta e distinta. A administração da casa não recebia mais de vinte expedicio-nários de cada vez. Em razão do preceito, apenas três grupos desocorro, prestes a partirem a caminho das regiões inferiores, apro-veitavam a oportunidade. O conjunto de doze, presidido por uma irmã de porte venerá-vel, de nome Semprônia, que se consagraria ao amparo dos asilosde crianças desprotegidas; o grupo chefiado por Nicanor, um as-sistente muito culto e digno, que se dedicaria, por algum tempo, àcolaboração nas tarefas de assistência aos loucos de antigo hospí-cio, e nós outros, os companheiros encarregados de auxiliar al-guns amigos em processo de desencarnação, perfaziam o total devinte entidades.
  23. 23. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 23 O Instrutor Cornélio, diretor da instituição, atendido por umassessor, palestrava conosco, demonstrando-nos simplicidade efidalguia, magnanimidade e entendimento. – Logo de início, em nossa administração – explicava-nos –procuramos estabelecer o aproveitamento máximo do tempo como mínimo de oportunidade. Para concretizar a providência, desdemuito não recebemos indiscriminadamente os grupos socorristas.Reunimos os conjuntos de serviço, de acordo com as situações aque se destinam. Em dia de recepção aos que vão prestar serviçosna Crosta, não atendemos a colaboradores incumbidos de operarexclusivamente nas zonas de desencarnados, como sejam as esta-ções purgatoriais e as que se classificam como francamente tene-brosas. Há que ordenar as palavras e selecioná-las, criando-secampo favorável aos nossos propósitos de serviço. A conversaçãocria o ambiente e coopera em definitivo para o êxito ou para anegação. Além disso, como esta casa é consagrada ao auxílio su-blime dos nossos governantes que habitam planos mais altos, nãoseria justo distrair a atenção e, sim, consolidar bases espirituais,com todas as energias ao nosso alcance, em que possam aquelesgovernantes lançar os recursos que buscamos. Compreendendo aextensão das tarefas por fazer e o respeito que devemos àquelesque nos ajudam, somos de parecer que precisamos sanar os velhosdesequilíbrios das intromissões verbais desnecessárias e, muitasvezes, perturbadoras e dissolventes. Enquanto lhe ouvíamos as ponderações, encantados, impri-miu ligeiro intervalo às sentenças esclarecedoras e continuou: – Aliás, o profeta enunciou, há muitos séculos, que a palavradita a seu tempo é maçã de ouro em cesto de prata. Se estamos,portanto, verdadeiramente interessados na elevação, constitui-nosinalienável dever o conhecimento exato do valor “tempo”, esti-mando-lhe a preciosidade e definindo cada coisa e situação em
  24. 24. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 24lugar próprio, para que o verbo, potência divina, seja em nossasações o colaborador do Pai. Sorrimos, satisfeitos. – Nada mais razoável e construtivo – opinou Semprônia, adestacada orientadora que dirigiria pela primeira vez a expediçãode socorro aos orfãozinhos encarnados. O dirigente do Santuário, reconhecendo, talvez, como nossentíamos necessitados de esclarecimento quanto ao uso da pala-vra, prosseguiu: – É lamentável se dê tão escassa atenção, na Crosta da Terra,ao poder do verbo, atualmente tão desmoralizado entre os ho-mens. Nas mais respeitáveis instituições do mundo carnal, segun-do informes fidedignos das autoridades que nos regem, a metadedo tempo é despendida inutilmente, através de conversações ocio-sas e inoportunas. Isso, referindo-nos somente às “mais respeitá-veis”. Não se precatam nossos irmãos em Humanidade de que overbo está criando imagens vivas, que se desenvolvem no terrenomental a que são projetadas, produzindo conseqüências boas oumás, segundo a sua origem. Essas formas naturalmente vivem eproliferam e, considerando-se a inferioridade dos desejos e aspi-rações das criaturas humanas, semelhantes criações temporáriasnão se destinam senão a serviços destruidores, através de atritosformidáveis, se bem que invisíveis. Notava-se, claramente, o interesse que suas definições des-pertavam nos ouvintes. Em seguida a uma pausa mais longa, tor-nou, cuidadoso: – Toda conversação prepara acontecimentos de conformidadecom a sua natureza. Dentro das leis vibratórias que nos circundampor todos os lados, é uma força indireta de estranho e vigorosopoder, induzindo sempre aos objetivos velados de quem lhe assu-me a direção intencional. Encarregados de assumir a chefia desta
  25. 25. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 25casa, trouxemos instruções de nossos Maiores para suprimir todosos comentários tendentes à criação de elementos adversos aosjúbilos da bênção divina. É por isso que, graças ao amor provi-dencial de Jesus, temos conseguido a manutenção de um institutoem que os nossos mentores de Mais Alto se fazem sentir. A au-sência de qualquer palavra menos digna e a presença contínua defatores verbais edificantes facilitam a elaboração de forças sutis,nas quais os orientadores divinos encontram acessórios para seadaptarem, de algum modo, às nossas necessidades na edificaçãocomum. Fez um gesto do narrador que se recorda de minudência im-portante e informou: – Encetando nosso trabalho modesto, experimentamos rea-ções apreciáveis. Procurava-se, então, o santuário, sem qualquerpreparação íntima. Nossos amigos prosseguiam repetindo o cená-rio da Crosta, em que os devotos procuram os templos, como osnegociantes buscam mercados. Devemos administrar dons espiri-tuais, como quem dirige um armazém de vantagens fáceis ao per-sonalismo inferior. Desde o primeiro dia, porém, amparados nadelegação de competência que nos foi concedida, golpeamos,fundo, o velho hábito. Durante alguns dias, gastamos tempo, ensi-nando a reverência devida ao Senhor, a necessidade da limpezainterna do pensamento e a abolição do feio costume de tentar osuborno da Divindade com falaciosas promessas. E quando senti-mos conscienciosamente que as lições estavam findas, iniciamos aaplicação de medidas retificadoras. Registros vibratórios foraminstalados, assinalando a natureza das palavras em movimento.Desde aí foi muito fácil identificar os infratores e barrar-lhes aentrada na câmara de iluminação, onde realizamos nossas preces... Observando, talvez, que alguns de nós faziam certas conside-rações mentais, observou, sorridente:
  26. 26. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 26 – Cremos desnecessária qualquer alusão ao imperativo dospensamentos limpos. Quem busca uma casa especializada em a-bençoar, não pode hospedar idéias de ódio ou maldição. Compreendemos prontamente a finalidade do ensino indiretoe delicado e calamo-nos, prevenidos quanto à necessidade de res-guardar a mente contra as velhas sugestões do mal. Desejando facilitar-nos as expansões de alegria e cordialida-de, Cornélio olhou fixamente um grande relógio que apresentavasimbolicamente, no mostrador, a caprichosa forma dum olho hu-mano de grandes proporções, em que dois raios luminosos indica-vam as horas e os minutos, e falou, em tom fraternal: – Teremos hoje, conforme notificação recebida há vários dias,a visita dum mensageiro de alta expressão hierárquica. Contudo,antes desse acontecimento excepcional, dispomos ainda de algumtempo. Considerando o preito de amor que devemos aos que nosorientam do Plano Superior, não convém emitir a nossa invocaçãode bênçãos, nem antes, nem depois do horário estabelecido. Este-jam, pois, à vontade, os cooperadores... E, fixando o olhar nos três encarregados de serviço, acrescen-tou, após as reticências: – Enquanto me entendo particularmente com os chefes dasmissões, temos quase uma hora para a troca de idéias construtivas. Cornélio passou a dirigir-se, de modo confidencial, aos nos-sos orientadores e, fracionados em grupinhos diversos, entabula-mos conversações amigas. Atendendo-me os desejos, padre Hipólito, qual o chamáva-mos na intimidade, apresentou-me o Assistente Barcelos, da tur-ma de servidores que se destinava à assistência aos loucos. Foraele dedicado professor no círculo carnal e interessava-se carinho-samente pela Psiquiatria sob novo prisma.
  27. 27. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 27 Acolheu-me com fidalgo tratamento e, após as primeiras sau-dações, perguntou, bondoso: É a primeira vez que integra uma expedição socorrista? – De fato – esclareci – é a primeira. Tenho acompanhado di-versas missões de auxílio na Crosta, mas na condição do estudan-te, com reduzidas possibilidades de cooperação. Agora, porém, oAssistente Jerônimo aceitou-me o concurso e sigo alegremente. Endereçou-me cativante olhar, no qual transpareciam satisfa-ção e surpresa, e observou: – O trabalho beneficia sempre. Interessado em seus informes e esclarecimentos, tornei, hu-milde: – Seguindo expedições de socorro, como aprendiz, tive ensejode visitar, por mais de uma vez, dois antigos e grandes sanatóriosde alienados do nosso País e vi, de perto, a extensão dos serviçosreservados aos servos de boa vontade, nessas casas de purificaçãoe dor. As atividades de enfermagem, aí, são, a meu ver, das maismeritórias. – Inegavelmente – concordou ele, prezando-me a atenção – aloucura é um campo doloroso de redenção humana. Tenho moti-vos particulares para consagrar-me a esse setor da medicina espi-ritual e asseguro-lhe que dificilmente encontraríamos noutra partetantos dramas angustiosos e problemas tão complexos. – E tem colhido muitos frutos novos decorrentes do seu es-forço? – perguntei, curioso. – Sim, venho arquivando confortadoras lições nesse sentido,concluindo que, com exceção de raríssimos casos, todas as ano-malias de ordem mental se derivam dos desequilíbrios da alma.Estamos longe de contar com o número suficiente de servidorestreinados para socorrer eficazmente os encarcerados na cadeia das
  28. 28. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 28obsessões terríveis e amargurosas. É tão grande a quantidade dedoentes, nesse particular, que não sobra outro recurso além daresignação. Continuamos, desse modo, a atender superficialmente,esperando, acima de tudo, da Providência Divina. Nos casos deperseguição sistemática das entidades vingativas e cruéis do planoinacessível às percepções do homem vulgar, temos, invariavel-mente, uma tragédia iniciada no presente com a imprevidênciados interessados ou que vem do pretérito próximo ou remoto, a-través de pesados compromissos. Se os psiquiatras modernos pe-netrassem o segredo de semelhantes fatos, iniciariam a aplicaçãode nova terapêutica à base dos sentimentos cristãos, antes dequalquer recurso à hormonioterapia e à eletricidade. Recordei os serviços de assistência a obsidiados, que acom-panhara atentamente, e aduzi: – Examinei alguns casos torturantes de obsessão e possessãoque me impressionaram, sobremaneira, pela quase completa liga-ção mental, entre os verdugos e as vítimas. Barcelos esboçou significativo gesto e acentuou: – É a terrível história viva dos crimes cometidos, em movi-mentação permanente. Os cúmplices e personagens desses dramassilenciosos e muita vez ignorados por outros homens, antecedendoos comparsas no caminho da morte, tornam, amedrontados, aoconvívio dos seus, em face das sinistras conseqüências com quese defrontam além do túmulo... Agarram-se instintivamente à or-ganização magnética dos companheiros encarnados ainda naCrosta, viciando-lhes os centros de força, relaxando-lhes os ner-vos e abreviando o processo de extinção do tônus vital, porquetêm sede das mesmas companhias junto às quais se lançaram empleno abismo. Exibem sempre quadros tristes e escuros, onde sedestaca a piedade de muitas almas redimidas que tornam do Altoem compassivos gestos de intercessão e socorro urgente. Imprimiu às considerações ligeira pausa e prosseguiu:
  29. 29. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 29 – Entretanto, observo, na atualidade, especialmente outrocampo alusivo ao assunto. Antes de minha volta ao plano espiri-tual, faminto de novas informações referentes ao psiquismo dapersonalidade humana, examinei, atento, a doutrina de Freud. Im-pressionado com as variações psicológicas dos caracteres juvenis,sob minha observação direta, e apaixonado pela solução dos pro-fundos enigmas que envolvem a criatura terrestre, encontrei napsico-análise um mundo novo. Todavia, por mais que eu estudas-se a prodigiosa coleção dos efeitos, jamais alcancei a tranqüilida-de completa na investigação das causas, no círculo dos fenômenosem exame. Discípulo espontâneo e distante do eminente professorde Freiberg, somente aqui pude reconhecer os elos que lhe faltamao sistema de positivação das origens de psicoses e desequilíbriosdiversos. Os “complexos de inferioridade”, o “recalque”, a “libi-do”, as “emersões do subconsciente” não constituem fatores ad-quiridos no curto espaço de uma existência terrestre e, sim, carac-terísticos da personalidade egressa das experiências passadas. Asubconsciência é, de fato, o porão dilatado de nossas lembranças,o repositório das emoções e desejos, impulsos e tendências quenão se projetaram na tela das realizações imediatas; no entanto,estende-se muito além da zona limitada de tempo em que se moveum aparelho físico. Representa a estratificação de todas as lutascom as aquisições mentais e emotivas que lhes foram conseqüen-tes, depois da utilização de vários corpos. Faltam, pois, às teoriasde Segismundo Freud e seus continuadores a noção dos princípiosreencarnacionistas e o conhecimento da verdadeira localizaçãodos distúrbios nervosos, cujo início muito raramente se verifica nocampo biológico vulgar, mas quase que invariavelmente no corpoperispiritual preexistente, portador de sérias perturbações congê-nitas, em virtude das deficiências de natureza moral, cultivadascom desvairado apego, pelo reencarnante, nas existências trans-corridas. As psicoses do sexo, as tendências inatas à delinqüência,tão bem estudadas por Lombroso, os desejos extravagantes, a ex-
  30. 30. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 30centricidade, muita vez lamentável e perigosa, representam moda-lidades do patrimônio espiritual dos enfermos, patrimônio queressurge, de muito longe, em virtude da ignorância ou do relaxa-mento voluntário da personalidade em círculos desarmônicos. Estabelecera-se, entre nós, uma pausa feliz, que aproveitei,atentamente, arregimentando raciocínios quanto ao assunto, con-siderando os argumentos construtivos que o assistente enunciara,em benefício de minha própria iluminação. Recordei meus escassos conhecimentos da doutrina freudianae voltei mentalmente ao consultório, onde, muitas vezes, fora pro-curado por amigos atacados de estranhas e desconhecidas enfer-midades mentais, a se socorrerem de minhas pobres noções deMedicina, não obstante minha carência de especialização em talsentido. Eram maníacos. histéricos e esquizofrênicos de variadosmatizes, em cujos cérebros ainda existia luz bastante para a pere-grinação através dos livros científicos. Haviam devorado ensina-mentos de Freud; entretanto, se as teorias eram valiosas pelos e-lementos de análise, não ofereciam socorro algum substancial eefetivo ao doente. Descobriam a ferida sem trazer um bálsamocurativo. Indicavam o quisto doloroso, mas subtraíam o bisturi daintervenção benéfica. As explicações de Barcelos, por isso mes-mo, se aproveitadas por médicos cristãos na Crosta Planetária,poderiam completar o trabalho de benemerência que a tese freudi-ana trouxera aos círculos acadêmicos. Antes, porém, que formu-lasse novas considerações íntimas, tornou ele: – Tenho minhas atribuições junto aos desequilibrados men-tais; todavia, meu esforço maior, ultimamente, desdobra-se naregião inspiracional dos médicos humanitários, para que os candi-datos involuntários à perturbação sejam auxiliados a tempo. De-pois de verificada a loucura propriamente dita, na maioria doscasos terminou o processo da desarmonia psíquica. Muito difícilconduzir a restauração perfeita aos alienados com ficha reconhe-
  31. 31. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 31cida, embora seja incessante a nossa batalha pelo restabelecimen-to integral da percentagem possível de enfermos. Antes do dese-quilíbrio completo, houve enorme período em que o socorro dopsiquiatra poderia ter sido providencial e eficiente. Não será, por-tanto, um grande trabalho orientarmos indiretamente o médicobem intencionado, para que ele auxilie o provável alienado, atempo, empregando a palavra confortadora e o carinho restaura-dor? Incalculável número de pessoas permanece no plano carnal,tentando a solução dos profundos problemas relativos ao próprioser. Relacionando as conclusões dos tratadistas humanos, cujospontos de vista divergem nos pormenores, temos, na esfera deaperfeiçoamento terrestre, cinco classes de psicoses: as de nature-za paranóica, perversa, mitomaníaca, ciclotímica e hiper-emotiva,englobando, respectivamente, a mania das perseguições e o delíriode grandezas, os desequilíbrios e fraquezas de ordem moral, ahisteria e a mitomania, os ataques melancólicos e as fobias e cri-ses de angústia. O interlocutor sorriu, fez uma pausa e continuou: Esta, a definição científica dos nossos amigos que, como nósoutros antigamente, só possuem o recurso de diagnosticar e anali-sar nas minudências anatômicas. Arabescos de ouro sobre a areiado Saara não tornariam o deserto menos árido. Assim, a termino-logia brilhante sobre o quadro escuro do sofrimento. Precisamosdivulgar no mundo o conceito moralizador da personalidade con-gênita, em processo de melhoria gradativa, espalhando enunciadosnovos que atravessem a zona de raciocínios falíveis do homem elhe penetrem o coração, restaurando-lhe a esperança no eternofuturo e revigorando-lhe o ser em suas bases essenciais. As no-ções reencarnacionistas renovarão a paisagem da vida na Crostada Terra, conferindo à criatura não somente as armas com quedeve guerrear os estados inferiores de si própria, mas também lhefornecendo o remédio eficiente e salutar. Faz muitos séculos, a-
  32. 32. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 32firmou Plotino que toda a antigüidade aceitava como certa a dou-trina de que, se a alma comete faltas, é compelida a expiá-las,padecendo em regiões tenebrosas, regressando, em seguida, a ou-tros corpos, a fim de reiniciar suas provas. Falta, desse modo, la-mentavelmente, aos nossos companheiros de Humanidade o co-nhecimento da transitoriedade do corpo físico e o da eternidade davida, do débito contraído e do resgate necessário, em experiênciase recapitulações diversas. Barcelos calara-se, por instantes, enquanto eu lhe ponderava aextensão da competência. Com justificada razão possuía ele otítulo de Assistente, porque não era um simples irmão auxiliador,mas profundo especialista no assunto a que se dedicara, fervoroso.A conversação dele valia por um curso rápido de Psiquiatria sobnovo aspecto, que me cabia aproveitar, em benefício próprio, paraas tarefas marginais do serviço comum. Desejando traduzir minha admiração e contentamento, obser-vei, reconhecido: – Ouvindo-lhe as considerações, reconheço que o missionáriodo bem, onde se encontre, é sempre um semeador de luz. Ele, porém, pareceu não ouvir minha referência elogiosa eprosseguiu noutro tom, após longa pausa: – O meu amigo examinou alguns casos de obsessão entre a-gentes invisíveis e pacientes encarnados, impressionando-se coma imantação mental entre eles. Pisamos no momento outro solo.Referimo-nos às necessidades de esclarecimento dos homens,perante os seus próprios companheiros de plano evolutivo. Nocírculo das recordações imprecisas, a se traduzirem por simpatia eantipatia, vemos a paisagem das obsessões transferida ao campocarnal, onde, em obediência às lembranças vagas e inatas, os ho-mens e as mulheres, jungidos uns aos outros pelos laços de con-sangüinidade ou dos compromissos morais, se transformam emperseguidores e verdugos inconscientes entre si. Os antagonismos
  33. 33. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 33domésticos, os temperamentos aparentemente irreconciliáveisentre pais e filhos, esposos e esposas, parentes e irmãos, resultamdos choques sucessivos da subconsciência, conduzida a recapitu-lações retificadoras do pretérito distante. Congregados, de novo,na luta expiatória ou reparadora, as personagens dos dramas, quese foram, passam a sentir e ver, na tela mental, dentro de si mes-mas, situações complicadas e escabrosas de outra época, malgradoos contornos obscuros da reminiscência, carregando consigo far-dos pesados de incompreensão, atualmente definidos por “com-plexos de inferioridade”. Identificando em si questões e situaçõesíntimas, inapreensíveis aos demais, o Espírito reencarnado queadquire recordações, não obstante menos precisas, do próprio pas-sado, candidata-se, inelutavelmente, à loucura. E nessa categoria,meu amigo, temos na Crosta Planetária uma percentagem cadavez maior de possíveis alienados, requerendo o concurso de psi-quiatras e neurologistas, que, a seu turno, se conservam em posi-ção oposta à verdade, presos à conceituação acadêmica e às rígi-das convenções dos preceitos oficiais. Esses, em particular, são ospacientes que interessam, de mais perto, meus estudos pessoais.São as vítimas anônimas da ignorância do mundo, os infortunadosabsolutamente desentendidos que, de loucos incipientes, prosse-guem, pouco a pouco, a caminho do hospício ou do leito de en-fermidades ignoradas, tão só porque lhes faltam a água viva dacompreensão e a luz mental que lhes revelem a estrada da paciên-cia e da tolerância, em favor da redenção própria. – E são muitos, semelhantes casos angustiosos? – indaguei,por falta de argumentação à altura das considerações ouvidas. O Assistente sorriu e esclareceu: – Oh! meu caro, a extensão do sofrimento humano, nesse sen-tido, confunde-se também com o infinito. Barcelos ia prosseguir, mas retiniu, sonora, uma campainhasingular, convocando-nos aos preparativos da oração.
  34. 34. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 34 Era preciso atender.
  35. 35. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 35 3 O sublime visitante Reunidos em pequeno salão iluminado, observei que a atmos-fera permanecia embalsamada de suave perfume. Recomendou-nos Cornélio a oração fervorosa e o pensamentopuro. Tomando-nos a dianteira, o instrutor estacou à frente dereduzida câmara estruturada em substância análoga ao vidro puroe transparente. Olhei-a, com atenção. Tratava-se dum gabinete cristalino, emcujo interior poderiam abrigar-se, à vontade, duas a três pessoas. Destacando-se pela túnica muito alva, o diretor da casa esten-deu a destra em nossa direção e exclamou com grave entono: – Os emissários da Providência não devem semear a luz semproveito; constituir-nos-ia falta grave receber, em vão, a GraçaDivina. Colocando-se ao nosso encontro, os Mensageiros do Paiexercitam o sacrifício e a abnegação, sofrem os choques vibrató-rios de nossos planos mais baixos, retomam a forma que abando-naram, desde muito, fazem-se humildes como nós e, para que nosfaçamos tão elevados quanto eles, dignam-se ignorar-nos as fra-quezas, a fim de que nos tornemos partícipes de suas gloriosasexperiências... Interrompeu o curso das palavras, fitou-nos em silêncio eprosseguiu noutro tom: – Compreendemos que, lá fora, ante os laços morais que ain-da nos prendem às esferas da carne, é quase inevitável a recepçãodas reminiscências do pretérito, a distância. A lembrança tange ascordas da sensibilidade e sintonizamos com o passado inferior.Aqui, porém, no Santuário da Bênção, é imprescindível observaruma atitude firme de serenidade e respeito. O ambiente oferece
  36. 36. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 36bases à emissão de energias puras e, em razão disso, responsabili-zaremos os companheiros presentes por qualquer minúcia desar-mônica no trabalho a realizar. Formulemos, pois, os mais altospensamentos ao nosso alcance, relativamente à veneração quedevemos ao Pai Altíssimo!... Para outra classe de observadores, o Instrutor Cornélio pode-ria parecer excessivamente metódico e rigorista; entretanto, nãopara nós, que lhe sentíamos a sinceridade profunda e o entranhadoamor às coisas santas. Após longo intervalo, destinado à nossa preparação mental,tornou ele, sem afetação: – Projetemos nossas forças mentais sobre a tela cristalina. Oquadro a formar-se constará de paisagem simbólica, em que águasmansas, personificando a paz, alimentem vigorosa árvore, a repre-sentar a vida. Assumirei a responsabilidade da criação do tronco,enquanto os chefes das missões entrelaçarão energias criadorasfixando o lago tranqüilo. E dirigindo-se especialmente a nós outros, os colaboradoresmais humildes, acrescentou: – Formarão vocês a veste da árvore e a vegetação que contor-nará as águas serenas, bem como as características do trecho defirmamento que deverá cobrir a pintura mental. Após ligeira pausa, concluía: – Este, o quadro que ofereceremos ao visitante excepcionalque nos falará em breves minutos, Atendamos aos sinais. Dois auxiliares postaram-se ao lado da pequena câmara, emposição de serviço, e, ao soar de harmonioso aviso, pusemo-nostodos em concentração profunda, emitindo o potencial de nossasforças mais íntimas.
  37. 37. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 37 Senti, à pressão do próprio esforço, que minha mente se des-locava na direção do gabinete de cristal, onde acreditei penetrar,colocando tufos de grama junto ao desenho do lago que deveriasurgir... Utilizando as vigorosas energias da imaginação, recordeia espécie de planta que desejava naquela criação temporária, tra-zendo-a do passado terrestre para aquela hora sublime. Estrutureitodas as minúcias das raízes, folhas e flores, e trabalhei, intensa-mente, na intimidade de mim mesmo, revivendo a lembrança efixando-a no quadro, com a fidelidade possível... Fornecido o sinal de interrupção, retomei a postura natural dequem observa, a fim de examinar os resultados da experiência, econtemplei, oh! maravilha!... Jazia o gabinete fundamente trans-formado. Águas de indefinível beleza e admirável azul-celesterefletiam uma nesga de firmamento, banhando as raízes de vene-rável árvore, cujo tronco dizia, em silêncio, da própria grandiosi-dade. Miniaturas prodigiosas de cúmulos e nimbos estacionavamno céu, parecendo pairar muito longe de nós... As bordas do lago,contudo, figuravam-se quase nuas e os galhos do tronco apresen-tavam-se vestidos escassamente. O instrutor, célere, retomou a palavra e dirigiu-se a nós comfirmeza: – Meus amigos, a vossa obrigação não foi integralmentecumprida. Atentai para os detalhes incompletos e exteriorizai vos-so poder dentro da eficiência necessária! Tendes, ainda, quinzeminutos para terminar a obra. Entendemos, sem maiores explicações, o que desejava ele di-zer e concentramo-nos, de novo, para consolidar as minudênciasde que deveria revestir-se a paisagem. Procurei imprimir mais energia à minha criação mental e,com mais presteza, busquei colocar as flores pequeninas nas ra-magens humildes, recordando minhas funções de jardineiro, noamado lar que havia deixado na Terra, Orei, pedi a Jesus me ensi-
  38. 38. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 38nasse a cumprir o dever dos que desejavam a bênção do seu divi-no amor naquele santuário e, quando a notificação soou novamen-te, confesso que chorei. O desenho vivo da gramínea que minha esposa e os filhinhostanto haviam estimado, em minha companhia no mundo, adornavaas margens, com um verde maravilhoso, e as mimosas flores a-zuis, semelhando-se a miosótis silvestres, surgiam abundantes... A árvore cobrira-se de folhagem farta e vegetação de singularformosura completava o quadro, que me pareceu digno de primo-roso artista da Terra. Cornélio sorriu, evidenciando grande satisfação, e determinouque os dois auxiliares conservassem a destra unida ao gabinete.Desde esse momento, como se uma operação magnética desco-nhecida fosse posta em ação, nossa pintura coletiva começou adar sinais de vitalidade temporária. Algo de leve e imponderável,semelhante a caricioso sopro da Natureza, agitou brandamente aárvore respeitável, balouçando-se os arbustos e a minúscula erva,a se refletirem nas águas muito azuis, docemente encrespadas deinstante a instante... Minha gramínea estava, agora, tão viva e tão bela que o pen-samento de angustiosa saudade do meu antigo lar ameaçou, desúbito, meu coração ainda frágil. Não eram aquelas as flores miú-das que a esposa colocava, diariamente, no quarto isolado, de es-tudo? Não eram as mesmas que integravam os delicados ramosque os filhos me ofereciam aos domingos pela manhã? Vigorosasreminiscências absorveram-me o ser, oprimindo-me inesperada-mente a alma, e eu perguntava a mim mesmo por que mistério oEspírito enriquecido de observações e valores novos, respirandoem campos mais altos da inteligência, tem necessidade de voltarao pequenino círculo do coração, como a floresta luxuriante eimponente que não prescinde da singela e reduzida gota dáguapara dessedentar-lhe as raízes... Senti o anseio mal disfarçado de
  39. 39. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 39arrebatá-los compulsoriamente da Crosta, transportando-os parajunto de mim, desejoso de reuni-los, ao meu lado, em novo ninho,sem separação e sem morte, a fazer-lhes experimentar os júbilosda vida eterna... Minhas lágrimas estavam prestes a cair. Bastou,no entanto, um olhar de Jerônimo para que eu me reajustasse. Arremessei para muito longe de mim toda a idéia angustiosa econsegui reaver a posição do cooperador decidido nas edificaçõesdo momento. Cornélio, de pé, ante a paisagem viva, enquanto nos mantí-nhamos sentados, estendeu os braços na direção do Alto e supli-cou: – Pai da Criação infinita, permite, ainda uma vez, por miseri-córdia, que os teus mensageiros excelsos sejam portadores de tuainspiração celeste para esta casa consagrada aos júbilos de tuabênção!... Senhor, fonte de toda a Sabedoria, dissipa as sombrasque ainda persistem em nossos corações, impedindo-nos a glorio-sa visão do porvir que nos reservaste; fase vibrar, entre nós, opensamento augusto e soberano da confiança sem mescla e deixa-nos perceber a corrente benéfica de tua bondade infinita, que noslava a mente mal desperta e ainda eivada de escuras recordaçõesdo mundo carnal!... Auxilia-nos a receber dignamente teus devo-tados emissários!... Focalizando a mente em nossos trabalhos, o instrutor prosse-guiu, noutra inflexão de voz: – Sobretudo, ó Pai, abençoa os teus filhos que partem, a ca-minho dos círculos inferiores, semeando o bem. Reparte com eles,humildes representantes de tua grandeza, os teus dons de infinitoamor e de inesgotável sabedoria, a fim de que se cumpram teussagrados desígnios... Acima, porém, de todas as concessões, pro-porciona-lhes algo de tua divina tolerância, de tua complacênciasublime, de tua ilimitada compreensão, para que satisfaçam, semdesesperação e sem desânimo, os deveres fraternais que lhes ca-
  40. 40. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 40bem, ante os que ignoram ainda as tuas leis e sofrem as conse-qüências dos desvios cruéis.... Calou-se o orientador do Santuário e, dentro da imponentequietude da câmara, vimos que a paisagem, formada de substânciamental, começou a iluminar-se, inexplicavelmente, em seus mí-nimos contornos. Guardava a idéia de que reduzido sol surgiria à nossa vistasob a nesga de céu, no quadro singular. Raios fulgurantes pene-travam o fundo esmeraldino e vinham refletir-se nas águas. Cornélio, de mãos erguidas para o alto, mas sem qualquer ex-pressão ritualística, em vista da simplicidade espontânea de seusgestos, exclamou: – Bem-vindo seja o portador de Nosso Pai Amantíssimo! Nesse instante, sob nossos olhos atônitos, alguém apareceu nogabinete, entre a vegetação e o céu. Semelhava-se a um sacerdotede culto desconhecido, trajando túnica lirial. Fisionomia simpáticade ancião, apresentava-se nimbado de luz indescritível e seu olharnos mantinha extasiados e presos, num misto de veneração e en-cantamento, sem que nos fosse possível qualquer fuga mental desua presença sublime. Via-se-lhe apenas o busto cheio, parecendo-me que os seusmembros inferiores se ocultavam naturalmente na folhagem a-bundante. Seus braços e mãos, todavia, revelavam-se com todasas minudências anatômicas, porque com a destra nos abençoavanum gesto amplo, mantendo na outra mão pequeno rolo de per-gaminhos brilhantes, deixando-nos perceber dourado cordão atadoà cinta. Visivelmente sensibilizado, o diretor da casa saudou, nomi-nalmente: – Venerável Asclépios, sê conosco!
  41. 41. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 41 O emissário, em voz clara e sedutora, desejou-nos a Paz doCristo e, em seguida, dirigiu-nos a palavra em tom inexprimívelna linguagem humana (abstenho-me aqui de qualquer traduçãoincompleta e imperfeita, atendendo a imperativos de consciência). Ouvimo-lo sob infinita emoção, sem que qualquer de nóscontivesse as lágrimas. O verbo do admirável mensageiro quechegava de Esferas Superiores, trazendo-nos a bênção divina,caia-nos nalma de modo intraduzível e acordava-nos o espíritoeterno para a infinita glória de Deus e da vida imortal. Não conseguiria descrever o que se passava em mim próprio.Jamais escutara alguém com aquele misterioso e fascinante podermagnético de fixação dos ensinamentos de que se fizera emissá-rio. Ao abençoar-nos, ao término da maravilhosa alocução, irradi-avam-se de sua destra muito alva pequeninos focos de luz, emforma de minúsculas estrelas que se projetavam sobre nós, inva-dindo-nos o tórax e a fronte e fazendo-nos experimentar o júbiloinenarrável de quem sorve, feliz, vigorosos e renovadores alentosda vida. Quiséramos prolongar, indefinidamente, aqueles minutos di-vinos, mas tudo fazia acreditar que o mensageiro estava prestes adespedir-se. Interpretando, contudo, o pensamento da maioria, Cornéliodirigiu-lhe a palavra e indagou, humilde, se os irmãos presentespoderiam endereçar-lhe algumas solicitações. O arauto celeste aquiesceu, sorrindo, num gesto silencioso,colocando-nos à vontade, dando-me a impressão de que aguarda-va semelhante pedido. A irmã Semprônia, que chefiava pela primeira vez a turma desocorro ao serviço de amparo aos órfãos, foi a primeira a consul-tá-lo:
  42. 42. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 42 – Venerável amigo – disse com transparente sinceridade –,temos algumas cooperadoras na Crosta que esperam de nós umapalavra de ordem e reconforto para prosseguirem nos serviços aque se devotaram de coração fiel. Desde muito tempo, experimen-tam perseguições declaradas e toleram o sarcasmo contínuo deadversários gratuitos que lhes ferem o espírito sensível, atacando-lhes os melhores esforços, através de maldades sem conto. inega-velmente, não cedem ante os fantasmas da sombra e mobilizam asenergias no trabalho de resistência cristã... Exercendo funções decolaboradora, nesta expedição de socorro que agora chefio pelaprimeira vez, conheço, de perto, a dedicação que nossas amigastestemunham na obra sublime do bem, mas não ignoro que pade-cem, heróicas e leais, há quase trinta anos sucessivos, ante o assé-dio de inimigos implacáveis e cruéis. Após curto silêncio, que ninguém se atreveu a interromper, aconsulente concluiu, perguntando: – Que devemos dizer a elas, respeitável amigo? Por que pala-vras esclarecedoras e reconfortantes sustentar-lhes o ânimo em tãolonga batalha? De alma voltada para o nosso dever, aguardamosde vossa generosidade o alvitre oportuno. Vimos, então, o inesperado. O mensageiro ouviu, paciente ebondoso, revelando grande interesse e carinho na expressão fisio-nômica e, depois que Semprônia deu por terminada a consulta,retirou uma folha dentre os pergaminhos alvinitentes que trazia,de modo intencional, e abriu-a à nossa vista, lendo todos nós oversículo quarenta e quatro do capítulo cinco do Evangelho doApóstolo Mateus: – “Eu, porém, vos digo – amai a vossos inimigos, bendizei osque vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos quevos perseguem e caluniam.” O processo de esclarecimento e informação não podia sermais direto, nem mais educativo.
  43. 43. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 43 Decorridos alguns instantes, Semprônia exclamou humilde-mente: – Compreendo, venerável amigo! O emissário, sem qualquer afetação dos que ensinam por a-mor-próprio, comentou: – Os adversários, quando bem compreendidos e recebidoscristâmente, constituem precioso auxílio em nossa jornada para aUnião Divina. A síntese verbal condensava explicações, que somente seriamrazoáveis em compactos discursos. A meu ver, não obstante a beleza e edificação do ensino reco-lhido, o método não recomendava extensão de perguntas de nossolado, mas o irmão Raimundo, do grupo socorrista dedicado à as-sistência aos loucos, tomou a iniciativa e interrogou: – Tolerante amigo, que fazer ante as dificuldades que me de-frontam nos serviços marginais da tarefa? Interessando a órbita denossos deveres, junto dos desequilibrados mentais da Crosta Ter-restre, venho assistindo certo agrupamento de irmãos encarnadosque não estão interpretando as obrigações evangélicas como devi-am. Em verdade, convocam-nos à colaboração espiritual, pronun-ciando belas palavras, mas no terreno prático se distanciam detodas as atitudes verbais da crença consoladora. Estimam as dis-cussões injuriosas, fomentam o sectarismo, dão grande apreço aoindividualismo inferior que desconsidera o esforço alheio, pormais nobilitante que seja esse. Quase sempre, entregam-se a rixasinfindáveis e gastam o tempo estudando meios de fazerem valeras limitações que lhes são próprias. Por mais que lhes ensinemos ahumildade, recorrendo, não a nós, mas ao exemplo eterno do Cris-to, mais se arvoram em críticos impiedosos, não apenas uns dosoutros e, sim, de setores e situações, pessoas e coisas que lhes nãodizem respeito, incentivando a malícia e a discórdia, o ciúme e o
  44. 44. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 44desleixo espiritual. No entanto, reúnem-se metodicamente e noschamam à cooperação em seus trabalhos. Que fazer, todavia, res-peitável orientador, para que maiores perturbações não se estabe-leçam? O mensageiro esperou que o consulente se desse por satisfeitoem suas indagações e, em seguida, muito calmo, repetiu a opera-ção anterior, e tivemos, ante os olhos, outro pergaminho, com ainscrição do versículo onze, do capítulo seis, da primeira epístolado Apóstolo Paulo a Timóteo: – “Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e segue ajustiça, a piedade, a fé, a caridade, a paciência, a mansidão.” Permaneceu Raimundo na expectativa, figurando-se-nos nãohaver interpretado a advertência, quanto devia, mas a explicaçãosintética do visitante não se fez esperar: – O discípulo que segue as virtudes do Mestre, aplicando-as asi próprio, foge às inutilidades do plano exterior, acolhendo-se aosantuário de si mesmo, e auxilia os nossos irmãos imprevidentes eperturbados, rixosos e ingratos, sem contaminar-se. Registrando as palavras sábias de Asclépios, Raimundo pare-ceu acordar para a verdade e murmurou, com algum desaponta-mento: – Aproveitarei a lição. Novo silêncio verificou-se entre nós. A irmã Luciana, porém, que nos integrava o pequeno grupo,tomou a palavra e perguntou: – Esclarecido mentor, esta é a primeira vez que vou à Crostaem tarefa definida de socorro. Podereis fornecer-me, porventura, aorientação de que necessito? O emissário, que parecia trazer respostas bíblicas preparadasde antemão, desdobrou nova folha e lemos, admirados, o versícu-
  45. 45. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 45lo nove do capítulo quatro da primeira epístola do Apóstolo daGentilidade aos tessalonicenses: – “Quanto, porém, à caridade fraternal, não necessitais de quevos escreva, visto que vós mesmos estais instruídos por Deus quevos ameis uns aos outros.” Algo confundida, Luciana observou, reverente: – Compreendo, compreendo... – O Evangelho aplicado – comentou o mensageiro, delicada-mente – ensina-nos a improvisar os recursos do bem, nas situa-ções mais difíceis. Fez-se, de novo, extrema quietude na câmara. Talvez pelonosso péssimo hábito de longas conversações sem proveito, ad-quirido na Crosta Planetária, não encontrávamos grande encantonaquelas respostas francas e diretas, sem qualquer lisonja ao nos-so personalismo dominante. Rolavam instantes pesados, quando observamos a gentileza ea sensibilidade do diretor do Santuário da Bênção. Notando queSemprônia, Raimundo e Luciana eram alvos de nossa indiscretacuriosidade, Cornélio inquiriu de Asclépios, como se fora meroaprendiz: – Que fazer para conservar alegria no trabalho, perseverançano bem, devotamento à verdade? O mensageiro contemplou-o, num sorriso de aprovação esimpatia, identificando-lhe o ato de amor fraternal, e descerrounovo pergaminho, em que se lia o versículo dezesseis do capítulocinco da primeira carta de Paulo aos tessalonicenses: – “Regozijai-vos sempre.” Em seguida, falou, jovial: – A confiança no Poder Divino é a base do júbilo cristão, quejamais deveremos perder.
  46. 46. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 46 O Instrutor Cornélio meditou alguns momentos e rogou, hu-milde: – Ensina-nos sempre, venerável irmão!... Decorreram minutos sem que os demais utilizassem a pala-vra. Fazendo menção de despedir-se, o sublime visitante comen-tou, afável: – À medida que nos integramos nas próprias responsabilida-des, compreendemos que a sugestão direta nas dificuldades e rea-lizações do caminho deve ser procurada com o Supremo Orienta-dor da Terra. Cada Espírito, herdeiro e filho do Pai Altíssimo, éum mundo por si, com as suas leis e características próprias. Ape-nas o Mestre tem bastante poder para traçar diretrizes individuaisaos discípulos. Logo após, abençoou-nos, carinhoso, desejando-nos bom â-nimo. Reconfortados e felizes, vimos o mensageiro afastar-se, dei-xando-nos envoltos numa onda de olente e inexplicável perfume. Ambos os auxiliares, que se mantinham a postos, retiraram asmãos do gabinete e, depois de várias operações magnéticas efetu-adas por eles, desapareceu a pintura mental, voltando a peça decristal ao aspecto primitivo. Tornando à conversação livre, indagações enormes oprimiam-me o cérebro. Não me contive. Com a permissão de Jerônimo eliderando companheiros tão curiosos e pesquisadores quanto eumesmo, acerquei-me de Cornélio e despejei-lhe aos ouvidos gran-de cópia de interrogações. Acolheu-me, benévolo, e informou: – Pertence Asclépios a comunidades redimidas do Plano dosimortais, nas regiões mais elevadas da zona espiritual da Terra.Vive muito acima de nossas noções de forma, em condições ina-preciáveis à nossa atual conceituação da vida. Já perdeu todo con-tacto direto com a Crosta Terrestre e só poderia fazer-se sentir,
  47. 47. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 47por lá, através de enviados e missionários de grande poder. Apre-ciável é o sacrifício dele, vindo até nós, embora a melhoria denossa posição, em relação aos homens encarnados. Vem aqui ra-ramente. Não obstante, algumas vezes, outros mentores da mesmacategoria visitam-nos por piedade fraternal. – Não poderíamos, por nossa vez, demandar o plano de As-clépios, a fim de conhecer-lhe a grandeza e sublimidade? – per-guntei. – Muitos companheiros nossos – assegurou-nos o instrutor –,por merecimentos naturais no trabalho, alcançam admiráveis prê-mios de viagens, não só às esferas superiores do Planeta que nosserve de moradia, mas também aos círculos de outros mundos... Sorriu e acrescentou: – Não devemos esquecer, porém, que a maioria efetua seme-lhantes excursões somente na qualidade de viajores, em processoestimulante do esforço pessoal, à maneira de jovens estudantes depassagem rápida pelos institutos técnicos e administrativos dasgrandes nações. Raros são ainda os filhos do Planeta em condi-ções de representá-lo dignamente noutros orbes e círculos de vidado nosso sistema. Não me deixei impressionar e prossegui perguntando: – Asclépios, todavia, não mais reencarnará na Crosta? O instrutor gesticulou, significativamente, e esclareceu: – Poderá reencarnar em missão de grande benemerência, sequiser, mas a intervalos de cinco a oito séculos entre as reencar-nações. – Oh! Deus – exclamei – como é grandioso semelhante estadode elevação! – Constitui sagrado estímulo para todos nós – ajuntou o men-tor atenciosamente.
  48. 48. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 48 – Devemos acreditar – interroguei, admirado – seja esse omais alto grau de desenvolvimento espiritual no Universo? O diretor da casa sorriu, compassivo, em face de minha inge-nuidade e considerou: – De modo algum. Asclépios relaciona-se entre abnegadosmentores da Humanidade Terrestre, partilha da soberana elevaçãoda coletividade a que pertence, mas, efetivamente, é ainda entida-de do nosso Planeta, funcionando, embora, em círculos mais altosde vida. Compete-nos peregrinar muito tempo, no campo evoluti-vo, para lhe atingirmos as pegadas; no entanto, acreditamos que onosso visitante sublime suspira por integrar-se no quadro de re-presentantes do nosso orbe, junto às gloriosas comunidades quehabitam, por exemplo, Júpiter e Saturno. Os componentes dessas,por sua vez, esperam, ansiosos, o instante de serem convocados àsdivinas assembléias que regem o nosso sistema solar. Entre essasúltimas, estão os que aguardam, cuidadosos e vigilantes, o minutoem que serão chamados a colaborar com os que sustentam a cons-telação de Hércules, a cuja família pertencemos. Os que orientamnosso grupo de estrelas aspiram, naturalmente, a formar, um dia,na coroa de gênios celestiais que amparam a vida e dirigem-na, nosistema galáctico em que nos movimentamos. E sabe meu amigoque a nossa Via-Láctea, viveiro e fonte de milhões de mundos, ésomente um detalhe da Criação Divina, uma nesga do Universo!... As noções de infinito encerraram a reunião encantadora noSantuário da Bênção. Cornélio estendeu-nos a mão, almejando-nos felicidade e paz, e despedimo-nos, sob enorme impressão,entre a saudade e o reconhecimento.
  49. 49. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 49 4 A casa transitória Depois de viagem normal, através dos caminhos comuns, al-cançamos nevoenta região, onde asfixiante tristeza parecia impe-rar incessantemente. De outras vezes, eu já atravessara sítios se-melhantes, gastando apenas alguns minutos. Agora, porém, eracompelido a longa marcha em sentido horizontal. Atendendo aimperativos da missão, o Assistente Jerônimo procurava certalocalidade, sob a denominação expressiva de “Casa Transitória deFabiano”. Tratava-se de grande instituição piedosa, no campo de sofri-mentos mais duros em que se reúnem almas recém-desencarnadas,nas cercanias da Crosta Terrestre, a qual, segundo nos informou ochefe da expedição, fora fundada por Fabiano de Cristo, devotadoservo da caridade entre antigos religiosos do Rio de Janeiro, de-sencarnado há muitos anos. Organizada por ele, era confiada, pe-riodicamente, a outros benfeitores de elevada condição, em tarefade assistência evangélica, junto aos Espíritos recém-desligados doplano carnal. – Na Casa Transitória – prosseguia Jerônimo, explicando-nos– prestaremos o auxílio que nos seja possível à organização e asi-laremos, em seguida, os irmãos que nos cabe socorrer. Não fos-sem esses pousos de amor, tornar-se-ia muito difícil nosso traba-lho. Raramente encontramos companheiros carnais em condiçõesde atravessarem semelhante zona, imediatamente após a mortefísica. Quase todos permanecem estonteados, nos primeiros dias.Se entregues à própria sorte, seriam fatalmente agredidos pelasentidades perversas, ou habilmente desviados por elas do bomcaminho de restauração gradual das energias interiores. Daí a ne-cessidade desses abrigos fraternais, em que almas heróicas e dedi-
  50. 50. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 50cadas ao sumo bem se consagram a santificadas tarefas de amparoe vigilância. Após breve pausa, concluiu: – Além disso, teremos aí todo o equipamento necessário aostrabalhos que nos cumpre realizar. Curioso, guardei silêncio e esperei. Não se passou muito tempo, defrontava-nos casarão enormeem plena sombra. Nada que evidenciasse preocupação artística ebom gosto na construção. Nem árvores, nem jardins em torno. Aedificação baixa e simples mal se destacava no nevoeiro denso. Certo, percebendo-me a estranheza, Jerônimo esclareceu: – O nome do instituto, André, fala por si mesmo. Temos, àfrente, acolhedora casa de transição, destinada a socorros urgen-tes. Embora seu assombro natural, é asilo móvel, que atende se-gundo as circunstâncias do ambiente. Sofre permanente cerco deEspíritos desesperados e sofredores, condenados pela própriaconsciência à revolta e à dor. Suas defesas magnéticas exigemconsiderável número de servidores e os amigos da piedade e darenunciação, que aí atendem, passam dia e noite ao lado do sofri-mento. Todavia, o trabalho desta Casa é dos mais dignos e edifi-cantes. Neste edifício de benemerência cristã, centralizam-se nu-merosas expedições de irmãos leais ao bem, que se dirigem àCrosta Planetária ou às esferas escuras, onde se debatem na dorseres angustiados e ignorantes, em trânsito prolongado nos abis-mos tenebrosos. Além disso, a Casa Transitória de Fabiano, à ma-neira de outras instituições salvadoras que representam verdadei-ros templos de socorro nestas regiões, é também precioso pontode ligação com as nossas cidades espirituais em zonas superiores. Nesse instante, antes que Jerônimo pudesse prosseguir nosesclarecimentos, atingimos as barreiras magnéticas, a distância dealguns metros do portão de acesso ao interior.
  51. 51. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 51 Atendidos por trabalhadores vigilantes, que sem hesitação nosofereceram passagem, acionamos pequeno aparelho que nos ligou,de pronto, ao porteiro prestativo. Não decorreram muitos minutos e achamo-nos diante de figu-ra respeitável. Não supunha que a instituição estivesse adminis-trada por mãos sensíveis de mulher. A irmã Zenóbia, aparentandoidade madura e aureolada de cabelos negros, proporcionava-nosinformações vivas de sua energia e admirável capacidade de tra-balho, através dos olhos transbordantes de luz. Saudou-nos, cortês, sem despender muitas palavras, passandoimediatamente ao assunto que a nossa presença sugeria: – Fui avisada ontem – disse, bondosa – de que a missão che-garia hoje e rejubilamos com isso. – Ao seu dispor – explicou-se Jerônimo, com gentileza. – Es-te abrigo de amor e paz cooperará conosco, asilando-nos algunstutelados convalescentes, e, por nossa vez, desejamos ser úteis àcasa, de algum modo. Zenóbia envolveu-nos num sorriso de simpatia acolhedora e,após rápidos minutos de silêncio, considerou: – Aceitamos o concurso. Reconheço a presença dum grupoharmonioso e, desde a semana finda, aguardava ensejo, não sópara beneficiar a coletividade sofredora de abismo próximo, senãotambém a fim de socorrer certo irmão nosso, muito infeliz. Trata-se de pessoa que me foi particularmente querida e que apenas a-gora foi encontrada em remota região de seres decaídos. Vencen-do obstáculos, trouxemo-la para a vizinhança da Casa; porém, operigoso estado em que se encontra não nos autoriza a fornecer-lhe abrigo e, sim, proteção indireta. Já estabelecemos medidas emfavor da remoção desse infortunado amigo para a zona da Crosta,onde será brevemente internado em reencarnação expiatória, com
  52. 52. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 52auxílio divino. Entretanto, precisarei pessoalmente da colaboraçãofraternal dos companheiros, em benefício do transviado... – Sem dúvida – atalhou Jerônimo, desvanecido –, teremosprazer. Designando a devotada enfermeira que nos acompanhava, a-crescentou: – Em nossa companhia, permanece a irmã Luciana, que nospode ser extremamente útil nesse caso particular, em virtude dassuas adiantadas faculdades de clarividência. A diretora da Casa Transitória fixou o olhar sereno em nossacolaboradora, sorriu, amável, e prosseguiu: – Bem lembrado. Alguns irmãos, qual ocorre a esse a que merefiro, descem a tamanho embrutecimento moral que somenteconseguem ouvir-nos a voz de modo imperfeito e, não lhes sendopossível identificar-nos pela visão, em face dos impedimentosvibratórios criados por eles mesmos, duvidam de nossa amizade ede nossos propósitos elevados de cooperação. No fato presente, oconcurso de Luciana ser-me-á precioso. Não podia disfarçar o meu constrangimento ante aquele por-menor da conversação. Por que motivo a irmã Zenóbia, orientan-do instituição como aquela, necessitaria de nossa colaboração,mormente no capítulo da clarividência mencionada? Porventura,não poderia também esquadrinhar os problemas de almas sofredo-ras e decaídas? Incapaz de sopitar a interrogação, observei, admirado: – Oh! quer dizer que os benfeitores daqui não podem verquanto desejam? Foi o Assistente Jerônimo quem veio ao meu encontro. – Antes de tudo, André – falou, compassivo –, faz-se necessá-rio considerar que a irmã Zenóbia, não obstante a sua extensa vi-
  53. 53. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 53são espiritual, terá razões íntimas para invocar a providência.Quanto ao mais, não devemos esquecer os imperativos da especia-lização. A resposta tivera efeito de ducha gelada. Arrependera-me dehaver formulado a interrogação indiscreta. Completando, porém,o ensinamento, Jerônimo continuou: – Senão, vejamos: o padre Hipólito consagra-se, atualmente,à interpretação das leis divinas, no serviço educativo àqueles queas desconhecem, enquanto a irmã Zenóbia atende a sofredores, emmassa, nesta casa de amor cristão. Claro que poderiam exercitar aclarividência, com benefícios generalizados para o próximo, mascom prejuízo manifesto dos deveres imediatos. Isso não ocorrecom Luciana que, pelo contacto individual e intenso com os en-fermos, durante muitos anos consecutivos, especializou-se empenetrar-lhes o mundo mental, trazendo à tona suas idéias, açõespassadas e projetos íntimos, em atividade beneficente. Se entrás-semos nós outros, de improviso, em relação com a sua clientela,veríamos “alguma coisa”, embora, não tanto e tão bem quantopode ser observado por ela, em vista de suas dilatadas experiên-cias. A seu turno, Luciana poderia, de imediato, interpretar osensinamentos divinos e orientar esta casa, “de algum modo”, masnão tanto e tão bem quanto o padre Hipólito e a irmã Zenóbia,considerando-lhes os vastos conhecimentos nesse sentido. Todasas aquisições espirituais exigem perseverança no estudo, na ob-servação e no serviço aplicado. E devemos considerar que issonão infirma a necessidade de aprender sempre. O músico exímiopoderá ser aprendiz incipiente da Química, destacando-se, maistarde, nesse campo científico, como se verifica na arte dos sons.Não alcançará, todavia, a realização, sem gastar tempo, esforço eboa vontade. Aliás, o próprio Mestre assegurou que o homem en-contrará aquilo que procurar.
  54. 54. Francisco Cândido Xavier - Obreiros da Vida Eterna - pelo Espírito André Luiz 54 Sorrindo de minha interrogação, que provocara ensinamentostão rudimentares, concluiu: – A busca de dons espirituais para a vida eterna não represen-ta serviço igual à cata de objetos perdidos na Crosta. Interveio a irmã Zenóbia, acrescentando fraternalmente: – Sim, não podemos edificar todas as qualidades nobres deuma só vez. Cada trabalhador fiel ao seu dever possui valor espe-cífico, incontestável. A Obra Divina é infinita. Tornando ao primitivo rumo da conversação, prosseguiu: – Quando dispomos de clarividentes nos serviços de socorroao abismo, em circunstâncias favoráveis, conseguimos resultadosde preciosa eficiência. Os servidores dessa natureza, porém, sãopoucos, em vista da multiplicidade das tarefas, e raros se dispõema servir nas paisagens escuras da angústia infernal. Luciana, cha-mada nominalmente à palestra, esclareceu que teria satisfação emcooperar e contou-nos que buscara desenvolver as faculdades deque era portadora, a fim de socorrer, noutro tempo, o Espírito deseu pai, desencarnado numa guerra civil. Tivera ele preponderân-cia no movimento de insurreição pública e permanecia nas esferasinferiores, alucinado pelas paixões políticas. Depois de pacienteauxílio, reajustara emoções, obtendo possibilidades de reencarnarem grande cidade brasileira, para onde ela mesma, Luciana, segui-ria também logo pudesse o genitor do pretérito organizar novo lar,restabelecendo-se a aliança de carinho e de amor, segundo o pro-jeto por ambos estabelecido. Zenóbia ouvia com atenção. Percebendo talvez que a palestra tendia para o campo do per-sonalismo direto, em minutos para os quais provavelmente a dire-tora da casa teria outros compromissos, Jerônimo interferiu naconversação e dirigiu-se a ela, atencioso:

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