Nosso lar

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Nosso lar

  1. 1. Francisco Cândido XavierNosso Lar 1o livro da Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” Ditado pelo Espírito André LuizFEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil http://www.febnet.org.br/
  2. 2. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 2 Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” 01 - Nosso Lar 02 - Os Mensageiros 03 - Missionários da Luz 04 - Obreiros da Vida Eterna 05 - No Mundo Maior 06 - Libertação 07 - Entre a Terra e o Céu 08 - Nos Domínios da Mediunidade 09 - Ação e Reação 10 - Evolução em Dois Mundos 11 - Mecanismos da Mediunidade 12 - Sexo e Destino 13 - E a Vida Continua... Quando o servidor está pronto, o serviço aparece.
  3. 3. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 3 ÍndiceNovo amigo.................................................................................. 5Mensagem de André Luiz ............................................................ 81 Nas Zonas Inferiores .............................................................. 102 Clarêncio ................................................................................ 133 A Oração Coletiva.................................................................. 174 O Médico Espiritual ............................................................... 225 Recebendo Assistência ........................................................... 266 Precioso Aviso ....................................................................... 317 Explicações de Lísias ............................................................. 358 Organização de Serviços ........................................................ 399 Problema de Alimentação....................................................... 4310 No Bosque das Águas........................................................... 4711 Notícias do Plano ................................................................. 5112 O Umbral ............................................................................. 5513 No Gabinete do Ministro ...................................................... 5914 Elucidações de Clarêncio ..................................................... 6415 A Visita Materna .................................................................. 6916 Confidências......................................................................... 7317 Em Casa de Lísias ................................................................ 7818 Amor, Alimento das Almas .................................................. 8219 A Jovem Desencarnada ........................................................ 8620 Noções de Lar ...................................................................... 9121 Continuando a palestra ......................................................... 9522 O Bônus-Hora ...................................................................... 9923 Saber Ouvir ........................................................................ 10424 O Impressionante Apelo ..................................................... 10825 Generoso Alvitre ................................................................ 112
  4. 4. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 426 Novas Perspectivas............................................................. 11627 O Trabalho, Enfim.............................................................. 12128 Em Serviço......................................................................... 12729 A Visão de Francisco ......................................................... 13230 Herança e Eutanásia ........................................................... 13731 Vampiro ............................................................................. 14232 Notícias de Veneranda........................................................ 14833 Curiosas Observações......................................................... 15334 Os Recém-Chegados do Umbral......................................... 15835 Encontro Singular............................................................... 16336 O Sonho ............................................................................. 16837 A Preleção da Ministra ....................................................... 17338 O Caso Tobias .................................................................... 17939 Ouvindo a Senhora Laura ................................................... 18640 Quem Semeia Colherá........................................................ 19141 Convocados à Luta ............................................................. 19642 A Palavra do Governador ................................................... 20243 Em Conversação................................................................. 20744 As Trevas ........................................................................... 21245 No Campo da Música ......................................................... 21746 Sacrifício de Mulher........................................................... 22347 A Volta de Laura ................................................................ 22848 Culto Familiar .................................................................... 23349 Regressando à Casa ............................................................ 23950 Cidadão de “Nosso Lar”..................................................... 244
  5. 5. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 5 Novo amigo Os prefácios, em geral, apresentam autores, exaltando-lhes omérito e comentando-lhes a personalidade. Aqui, porém, a situação é diferente. Embalde os companheiros encarnados procurariam o médicoAndré Luiz nos catálogos da convenção. Por vezes, o anonimato é filho do legítimo entendimento e doverdadeiro amor. Para redimirmos o passado escabroso, modifi-cam-se tabelas da nomenclatura usual na reencarnação. Funcionao esquecimento temporário como bênção da Divina Misericórdia. André precisou, igualmente, cerrar a cortina sobre si mesmo. É por isso que não podemos apresentar o médico terrestre eautor humano, mas sim o novo amigo e irmão na eternidade. Por trazer valiosas impressões aos companheiros do mundo,necessitou despojar-se de todas as convenções, inclusive a dopróprio nome, para não ferir corações amados, envolvidos aindanos velhos mantos da ilusão. Os que colhem as espigas maduras,não devem ofender os que plantam a distância, nem perturbar alavoura verde, ainda em flor. Reconhecemos que este livro não é único. Outras entidades jácomentaram as condições da vida, além-túmulo... Entretanto, de há muito desejamos trazer ao nosso círculo es-piritual alguém que possa transmitir a outrem o valor da experiên-cia própria, com todos os detalhes possíveis à legítima compreen-são da ordem que preside o esforço dos desencarnados laboriosose bem-intencionados, nas esferas invisíveis ao olhar humano,embora intimamente ligadas ao planeta. Certamente que numerosos amigos sorrirão ao contacto dedeterminadas passagens das narrativas. O inabitual, entretanto,
  6. 6. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 6causa surpresa em todos os tempos. Quem não sorriria, na Terra,anos atrás, quando se lhe falasse da aviação, da eletricidade, daradiofonia? A surpresa, a perplexidade e a dúvida são de todos os apren-dizes que ainda não passaram pela lição. É mais que natural, éjustíssimo. Não comentaríamos, desse modo, qualquer impressãoalheia. Todo leitor precisa analisar o que lê. Reportamo-nos, pois, tão-somente ao objetivo essencial dotrabalho. O Espiritismo ganha expressão numérica. Milhares de criatu-ras interessam-se pelos seus trabalhos, modalidades, experiências.Nesse campo imenso de novidades, todavia, não deve o homemdescurar de si mesmo. Não basta investigar fenômenos, aderir verbalmente, melho-rar a estatística, doutrinar consciências alheias, fazer proselitismoe conquistar favores da opinião, por mais respeitável que seja, noplano físico. É indispensável cogitar do conhecimento de nossosinfinitos potenciais, aplicando-os, por nossa vez, nos serviços dobem. O homem terrestre não é um deserdado. É filho de Deus, emtrabalho construtivo, envergando a roupagem da carne; aluno deescola benemérita, onde precisa aprender a elevar-se. A luta hu-mana é a sua oportunidade, a sua ferramenta, o seu livro. O intercâmbio com o invisível é um movimento sagrado, emfunção restauradora do Cristianismo puro; que ninguém, todavia,se descuide das necessidades próprias, no lugar que ocupa pelavontade do Senhor. André Luiz vem contar a você, leitor amigo, que a maior sur-presa da morte carnal é a de nos colocar face a face com a própriaconsciência, onde edificamos o céu, estacionamos no purgatórioou nos precipitamos no abismo infernal; vem lembrar que a Terra
  7. 7. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 7é oficina sagrada e que ninguém a menosprezará, sem conhecer opreço do terrível engano a que submeteu o próprio coração. Guarde a experiência dele no livro dalma. Ela diz bem altoque não basta à criatura apegar-se à existência humana, mas pre-cisa saber aproveitá-la dignamente; que os passos do cristão, emqualquer escola religiosa, devem dirigir-se verdadeiramente aoCristo, e que, em nosso campo doutrinário, precisamos, em verda-de, do “Espiritismo” e do “Espiritualismo”, mas, muito mais, de“Espiritualidade”. Emmanuel Pedro Leopoldo, 3 de outubro de 1943.
  8. 8. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 8 Mensagem de André Luiz A vida não cessa. A vida é fonte eterna e a morte é jogo escu-ro das ilusões. O grande rio tem seu trajeto, antes do mar imenso. Copiando-lhe a expressão, a alma percorre igualmente caminhos variados eetapas diversas, também recebe afluentes de conhecimentos, aquie ali, avoluma-se em expressão e purifica-se em qualidade, antesde encontrar o Oceano Eterno da Sabedoria. Cerrar os olhos carnais constitui operação demasiadamentesimples. Permutar a roupagem física não decide o problema funda-mental da iluminação, como a troca de vestidos nada tem que vercom as soluções profundas do destino e do ser. Oh! caminhos das almas, misteriosos caminhos do coração! Émister percorrer-vos, antes de tentar a suprema equação da VidaEterna! É indispensável viver o vosso drama, conhecer-vos deta-lhe a detalhe, no longo processo do aperfeiçoamento espiritual!... Seria extremamente infantil a crença de que o simples "baixardo pano" resolvesse transcendentes questões do Infinito. Uma existência é um ato. Um corpo - uma veste. Um século - um dia. Um serviço - uma experiência. Um triunfo - uma aquisição. Uma morte - um sopro renovador. Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantosserviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?
  9. 9. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 9 E o letrado em filosofia religiosa fala de deliberações finais eposições definitivas! Ai! por toda parte, os cultos em doutrina e os analfabetos doespírito! É preciso muito esforço do homem para ingressar na acade-mia do Evangelho do Cristo, ingresso que se verifica, quase sem-pre, de estranha maneira - ele só, na companhia do Mestre, efetu-ando o curso difícil, recebendo lições sem cátedras visíveis eouvindo vastas dissertações sem palavras articuladas. Muito longa, portanto, nossa jornada laboriosa. Nosso esforço pobre quer traduzir apenas uma idéia dessaverdade fundamental. Grato, pois, meus amigos! Manifestamo-nos, junto a vós outros, no anonimato que obe-dece à caridade fraternal. A existência humana apresenta grandemaioria de vasos frágeis, que não podem conter ainda toda averdade. Aliás, não nos interessaria, agora, senão a experiênciaprofunda, com os seus valores coletivos. Não atormentaremosalguém com a idéia da eternidade. Que os vasos se fortaleçam, emprimeiro lugar. Forneceremos, somente, algumas ligeiras notíciasao espírito sequioso dos nossos irmãos na senda de realizaçãoespiritual, e que compreendem conosco que "o espírito sopra ondequer". E, agora, amigos, que meus agradecimentos se calem no pa-pel, recolhendo-se ao grande silêncio da simpatia e da gratidão.Atração e reconhecimento, amor e júbilo moram na alma. Credeque guardarei semelhantes valores comigo, a vosso respeito, nosantuário do coração. Que o Senhor nos abençoe. ANDRÉ LUIZ
  10. 10. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 10 1 Nas Zonas Inferiores Eu guardava a impressão de haver perdido a idéia de tempo.A noção de espaço esvaíra-se-me de há muito. Estava convicto de não mais pertencer ao número dos encar-nados no mundo e, no entanto, meus pulmões respiravam a longoshaustos. Desde quando me tornara joguete de forças irresistíveis? Im-possível esclarecer. Sentia-me, na verdade, amargurado duende nas grades escu-ras do horror. Cabelos eriçados, coração aos saltos, medo terrívelsenhoreando-me, muita vez gritei como louco, implorei piedade eclamei contra o doloroso desânimo que me subjugava o espírito;mas, quando o silêncio implacável não me absorvia a voz estentó-rica, lamentos mais comovedores que os meus respondiam-me aosclamores. Outras vezes gargalhadas sinistras rasgavam a quietudeambiente. Algum companheiro desconhecido estaria, a meu ver,prisioneiro da loucura. Formas diabólicas, rostos alvares, expres-sões animalescas surgiam, de quando em quando, agravando-me oassombro. A paisagem, quando não totalmente escura, pareciabanhada de luz alvacenta, como que amortalhada em neblinaespessa, que os raios de Sol aquecessem de muito longe. E a estranha viagem prosseguia... Com que fim? Quem o po-deria dizer? Apenas sabia que fugia sempre... O medo me impeliade roldão. Onde o lar, a esposa, os filhos? Perdera toda a noção derumo. O receio do ignoto e o pavor da treva absorviam-me todasas faculdades de raciocínio, logo que me desprendera dos últimoslaços físicos, em pleno sepulcro!
  11. 11. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 11 Atormentava-me a consciência: preferiria a ausência total darazão, o não-ser. De início, as lágrimas lavavam-me incessantemente o rosto eapenas, em minutos raros, felicitava-me a bênção do sono. Inter-rompia-se, porém, bruscamente, a sensação de alívio. Seres mons-truosos acordavam-me, irônicos; era imprescindível fugir deles. Reconhecia, agora, a esfera diferente a erguer-se da poalha domundo e, todavia, era tarde. Pensamentos angustiosos atritavam-me o cérebro. Mal delineava projetos de solução, incidentes nu-merosos impeliam-me a considerações estonteantes. Em momentoalgum, o problema religioso surgiu tão profundo a meus olhos. Osprincípios puramente filosóficos, políticos e científicos, figura-vam-se-me agora extremamente secundários para a vida humana.Significavam, a meu ver, valioso patrimônio nos planos da Terra,mas urgia reconhecer que a humanidade não se constitui de gera-ções transitórias e sim de Espíritos eternos, a caminho de gloriosadestinação. Verificava que alguma coisa permanece acima de todacogitação meramente intelectual. Esse algo é a fé, manifestaçãodivina ao homem. Semelhante análise surgia, contudo, tardiamen-te. De fato, conhecia as letras do Velho Testamento e muita vezfolheara o Evangelho; entretanto, era forçoso reconhecer quenunca procurara as letras sagradas com a luz do coração. Identifi-cava-as através da crítica de escritores menos afeitos ao sentimen-to e à consciência, ou em pleno desacordo com as verdades essen-ciais. Noutras ocasiões, interpretava-as com o sacerdócio organi-zado, sem sair jamais do círculo de contradições, onde estacionaravoluntariamente. Em verdade, não fora um criminoso, no meu próprio concei-to. A filosofia do imediatismo, porém, absorvera-me. A existênciaterrestre, que a morte transformara, não fora assinalada de lancesdiferentes da craveira comum.
  12. 12. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 12 Filho de pais talvez excessivamente generosos, conquistarameus títulos universitários sem maior sacrifício, compartilhara osvícios da mocidade do meu tempo, organizara o lar, conseguirafilhos, perseguira situações estáveis que garantissem a tranqüili-dade econômica do meu grupo familiar, mas, examinando atenta-mente a mim mesmo, algo me fazia experimentar a noção detempo perdido, com a silenciosa acusação da consciência. Habita-ra a Terra, gozara-lhe os bens, colhera as bênçãos da vida, masnão lhe retribuíra ceitil do débito enorme. Tivera pais, cuja gene-rosidade e sacrifícios por mim nunca avaliei; esposa e filhos queprendera, ferozmente, nas teias rijas do egoísmo destruidor. Pos-suíra um lar que fechei a todos os que palmilhavam o deserto daangústia. Deliciara-me com os júbilos da família, esquecido deestender essa bênção divina à imensa família humana, surdo acomezinhos deveres de fraternidade. Enfim, como a flor de estufa, não suportava agora o clima dasrealidades eternas. Não desenvolvera os germes divinos que oSenhor da Vida colocara em minhalma. Sufocara-os, criminosa-mente, no desejo incontido de bem estar. Não adestrara órgãospara a vida nova. Era justo, pois, que aí despertasse à maneira dealeijado que, restituído ao rio infinito da eternidade, não pudesseacompanhar senão compulsoriamente a carreira incessante daságuas; ou como mendigo infeliz, que, exausto em pleno deserto,perambula à mercê de impetuosos tufões. Oh! amigos da Terra! quantos de vós podereis evitar o cami-nho da amargura com o preparo dos campos interiores do cora-ção? Acendei vossas luzes antes de atravessar a grande sombra.Buscai a verdade, antes que a verdade vos surpreenda. Suai agorapara não chorardes depois.
  13. 13. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 13 2 Clarêncio "Suicida! Suicida! Criminoso! Infame!" - gritos assim, cerca-vam-me de todos os lados. Onde os sicários de coração empeder-nido? Por vezes, enxergava-os de relance, escorregadios na trevaespessa e, quando meu desespero atingia o auge, atacava-os,mobilizando extremas energias. Em vão, porém, esmurrava o arnos paroxismos da cólera. Gargalhadas sarcásticas feriam-me osouvidos, enquanto os vultos negros desapareciam na sombra. Para quem apelar? Torturava-me a fome, a sede me escalda-va. Comezinhos fenômenos da experiência material patenteavam-se-me aos olhos. Crescera-me a barba, a roupa começava a rom-per-se com os esforços da resistência, na região desconhecida. Acircunstância mais dolorosa, no entanto, não é o terrível abandonoa que me sentia votado, mas o assédio incessante de forças per-versas que me assomavam nos caminhos ermos e obscuros. Irrita-vam-me, aniquilavam-me a possibilidade de concatenar idéias.Desejava ponderar maduramente a situação, esquadrinhar razões eestabelecer novas diretrizes ao pensamento, mas aquelas vozes,aqueles lamentos misturados de acusações nominais, desnortea-vam-me irremediavelmente. – Que buscas, infeliz! Aonde vais, suicida? Tais objurgatórias, incessantemente repetidas, perturbavam-me o coração. Infeliz, sim; mas, suicida? - nunca! Essas increpa-ções, a meu ver, não eram procedentes. Eu havia deixado o corpofísico a contragosto. Recordava meu porfiado duelo com a morte.Ainda julgava ouvir os últimos pareceres médicos, enunciados naCasa de Saúde; lembrava a assistência desvelada que tivera, oscurativos dolorosos que experimentara nos dias longos que seseguiram à delicada operação dos intestinos. Sentia, no curso
  14. 14. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 14dessas reminiscências, o contacto do termômetro, o pique desa-gradável da agulha de injeções e, por fim, a última cena que pre-cedera o grande sono: minha esposa ainda jovem e os três filhoscontemplando-me, no terror da eterna separação. Depois... odespertar na paisagem úmida e escura e a grande caminhada queparecia sem-fim. Por que a pecha de suicídio, quando fora compelido a aban-donar a casa, a família e o doce convívio dos meus? O homemmais forte conhecerá limites à resistência emocional. Firme eresoluto a princípio, comecei por entregar-me a longos períodosde desânimo e, longe de prosseguir na fortaleza moral, por ignoraro próprio fim, senti que as lágrimas longamente represadas visita-vam-me com mais freqüência, extravasando do coração. A quem recorrer? Por maior que fosse a cultura intelectualtrazida do mundo, não poderia alterar, agora, a realidade da vida.Meus conhecimentos, ante o infinito, semelhavam-se a pequenasbolhas de sabão levadas ao vento impetuoso que transforma aspaisagens. Eu era alguma coisa que o tufão da verdade carreavapara muito longe. Entretanto, a situação não modificava a outrarealidade do meu ser essencial. Perguntando a mim mesmo se nãoenlouquecera, encontrava a consciência vigilante, esclarecendo-me que continuava a ser eu mesmo, com o sentimento e a culturacolhidos na experiência material. Persistiam as necessidadesfisiológicas, sem modificação. Castigava-me a fome todas asfibras e, nada obstante, o abatimento progressivo não me faziacair definitivamente em absoluta exaustão. De quando em quando,deparavam-se-me verduras que me pareciam agrestes, em torno dehumildes filetes dágua a que me atirava sequioso. Devorava asfolhas desconhecidas, colava os lábios à nascente turva, enquantomo permitiam as forças irresistíveis, a impelirem-me para frente.Muita vez suguei a lama da estrada, recordei o antigo pão de cadadia, vertendo copioso pranto. Não raro, era imprescindível ocul-
  15. 15. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 15tar-me das enormes manadas de seres animalescos, que passavamem bando, quais feras insaciáveis. Eram quadros de estarrecer!acentuava-se o desalento. Foi quando comecei a recordar quedeveria existir um Autor da Vida, fosse onde fosse. Essa idéiaconfortou-me. Eu, que detestara as religiões no mundo, experi-mentava agora a necessidade de conforto místico. Médico extre-mamente arraigado ao negativismo da minha geração, impunha-se-me atitude renovadora. Tornava-se imprescindível confessar afalência do amor-próprio, a que me consagrara orgulhoso. E, quando as energias me faltaram de todo, quando me sentiabsolutamente colado ao lodo da Terra, sem forças para reerguer-me, pedi ao Supremo Autor da Natureza me estendesse mãospaternais, em tão amargurosa emergência. Quanto tempo durou a rogativa? Quantas horas consagrei àsúplica, de mãos-postas, imitando a criança aflita? Apenas sei quea chuva das lágrimas me lavou o rosto; que todos os meus senti-mentos se concentraram na prece dolorosa. Estaria, então, com-pletamente esquecido? Não era, igualmente, filho de Deus, embo-ra não cogitasse de conhecer-lhe a atividade sublime quandoengolfado nas vaidades da experiência humana? Por que não meperdoaria o Eterno Pai, quando providenciava ninho às aves in-conscientes e protegia, bondoso, a flor tenra dos campos agrestes? Ah! é preciso haver sofrido muito, para entender todas asmisteriosas belezas da oração; é necessário haver conhecido oremorso, a humilhação, a extrema desventura, para tomar comeficácia o sublime elixir de esperança. Foi nesse instante que asneblinas espessas se dissiparam e alguém surgiu, emissário dosCéus. Um velhinho simpático me sorriu paternalmente. Inclinou-se, fixou nos meus os grandes olhos lúcidos, e falou: – Coragem, meu filho! O Senhor não te desampara. Amargurado pranto banhava-me a alma toda. Emocionado,quis traduzir meu júbilo, comentar a consolação que me chegava,
  16. 16. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 16mas, reunindo todas as forças que me restavam, pude apenasinquirir: – Quem sois, generoso emissário de Deus? O inesperado benfeitor sorriu bondoso e respondeu: – Chama-me Clarêncio, sou apenas teu irmão. E, percebendo o meu esgotamento, acrescentou: – Agora, permanece calmo e silencioso. É preciso descansarpara reaver energias. Em seguida, chamou dois companheiros que guardavam ati-tude de servos desvelados e ordenou: – Prestemos ao nosso amigo os socorros de emergência. Alvo lençol foi estendido ali mesmo, à guisa de maca impro-visada, aprestando-se ambos os cooperadores a transportarem-me,generosamente. Quando me alçavam, cuidadosos, Clarêncio meditou um ins-tante e esclareceu, como quem recorda inadiável obrigação: – Vamos sem demora. Preciso atingir "Nosso Lar" com apresteza possível.
  17. 17. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 17 3 A Oração Coletiva Embora transportado à maneira de ferido comum, lobriguei oquadro confortante que se desdobrava à minha vista. Clarêncio, que se apoiava num cajado de substância lumino-sa, deteve-se à frente de grande porta encravada em altos muros,cobertos de trepadeiras floridas e graciosas. Tateando um pontoda muralha, fez-se longa abertura, através da qual penetramos,silenciosos. Branda claridade inundava ali todas as coisas. Ao longe, gra-cioso foco de luz dava a idéia de um pôr do sol em tardes prima-veris. A medida que avançávamos, conseguia identificar preciosasconstruções, situadas em extensos jardins. Ao sinal de Clarêncio, os condutores depuseram, devagari-nho, a maca improvisada. A meus olhos surgiu, então, a portaacolhedora de alvo edifício, à feição de grande hospital terreno.Dois jovens, envergando túnicas de níveo linho, acorreram pres-surosos ao chamado de meu benfeitor, e quando me acomodavamnum leito de emergência, para me conduzirem cuidadosamente aointerior, ouvi o generoso ancião recomendar, carinhoso: – Guardem nosso tutelado no pavilhão da direita. Esperamagora por mim. Amanhã cedo voltarei a vê-lo. Enderecei-lhe um olhar de gratidão, ao mesmo tempo em queera conduzido a confortável aposento de amplas proporções,ricamente mobilado, onde me ofereceram leito acolhedor. Envolvendo os dois enfermeiros na vibração do meu reconhe-cimento, esforcei-me por lhes dirigir a palavra, conseguindo dizerpor fim:
  18. 18. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 18 – Amigos, por quem sois, explicai-me em que novo mundome encontro... De que estrela me vem, agora, esta luz confortado-ra e brilhante? Um deles afagou-me a fronte, como se fora conhecido pessoalde longo tempo e acentuou: – Estamos nas esferas espirituais vizinhas da Terra, e o Solque nos ilumina neste momento é o mesmo que nos vivificava ocorpo físico. Aqui, entretanto, nossa percepção visual é muitomais rica. A estrela que o Senhor acendeu para os nossos traba-lhos terrestres é mais preciosa e bela do que a supomos quando nocírculo carnal. Nosso Sol é a divina matriz da vida e a claridadeque irradia provém do Autor da Criação. Meu ego, como que absorvido em onda de infinito respeito,fixou a luz branda que invadia o quarto, através das janelas, eperdi-me no curso de profundas cogitações. Recordei, então, quenunca fixara o Sol, nos dias terrestres, meditando na imensurávelbondade dAquele que no-lo concede para o caminho eterno davida. Semelhava-me assim ao cego venturoso, que abre os olhospara a Natureza sublime, depois de longos séculos de escuridão. A essa altura, serviram-me caldo reconfortante, seguido deágua muito fresca, que me pareceu portadora de fluidos divinos.Aquela reduzida porção de líquido reanimava-me inesperadamen-te. Não saberia dizer que espécie de sopa era aquela; se alimenta-ção sedativa, se remédio salutar. Novas energias amparavam-me aalma, profundas comoções vibravam-me no espírito. Minha maior emoção, todavia, reservava-se para instantesdepois. Mal não saíra da consoladora surpresa, divina melodia pene-trou quarto adentro, parecendo suave colméia de sons a caminhodas esferas superiores. Aquelas notas de maravilhosa harmonia
  19. 19. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 19atravessavam-me o coração. Ante meu olhar indagador, o enfer-meiro, que permanecia ao lado, esclareceu, bondoso: É chegado o crepúsculo em "Nosso Lar". Em todos os nú-cleos desta colônia de trabalho, consagrada ao Cristo, há ligaçãodireta com as preces da Governadoria. E enquanto a música embalsamava o ambiente, despediu-se,atencioso: – Agora, fique em paz. Voltarei logo após a oração. Empolgou-me ansiedade súbita. – Não poderei acompanhar-vos? - perguntei, suplicante. – Está ainda fraco - esclareceu, gentil -, todavia, caso sinta-sedisposto... Aquela melodia renovava-me as energias profundas. Levan-tei-me vencendo dificuldades e agarrei-me ao braço fraternal quese me estendia. Seguindo vacilante, cheguei a enorme salão, ondenumerosa assembléia meditava em silêncio, profundamente reco-lhida. Da abóbada cheia de claridade brilhante, pendiam delicadase flóreas guirlandas, que vinham do teto à base, formando radio-sos símbolos de Espiritualidade Superior. Ninguém parecia darconta da minha presença, ao passo que mal dissimulava eu asurpresa inexcedível. Todos os circunstantes, atentos, pareciamaguardar alguma coisa. Contendo a custo numerosas indagaçõesque me esfervilhavam na mente, notei que ao fundo, em telagigantesca, desenhava-se prodigioso quadro de luz quase feérica.Obedecendo a processos adiantados de televisão, surgiu o cenáriode templo maravilhoso. Sentado em lugar de destaque, um anciãocoroado de luz fixava o Alto, em atitude de prece, envergandoalva túnica de irradiações resplandecentes. Em plano inferior,setenta e duas figuras pareciam acompanhá-lo em respeitososilêncio. Altamente surpreendido, reparei Clarêncio participandoda assembléia, entre os que cercavam o velhinho refulgente.
  20. 20. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 20 Apertei o braço do enfermeiro amigo e, compreendendo eleque minhas perguntas não se fariam esperar, esclareceu em vozbaixa, que mais se assemelhava a leve sopro: – Conserve-se tranqüilo. Todas as residências e instituiçõesde "Nosso Lar" estão orando com o Governador, através da audi-ção e visão a distância. Louvemos o Coração Invisível do Céu. Mal terminara a explicação, as setenta e duas figuras começa-ram a cantar harmonioso hino, repleto de indefinível beleza. Afisionomia de Clarêncio, no círculo dos veneráveis companheiros,figurou-se-me tocada de mais intensa luz. O cântico celeste cons-tituía-se de notas angelicais, de sublimado reconhecimento. Paira-vam no recinto misteriosas vibrações de paz e de alegria e, quan-do as notas argentinas fizeram delicioso staccato, desenhou-se aolonge, em plano elevado, um coração maravilhosamente azul1,com estrias douradas. Cariciosa música, em seguida, respondiaaos louvores, procedente talvez de esferas distantes. Foi aí queabundante chuva de flores azuis se derramou sobre nós; mas, sefixávamos os miosótis celestiais, não conseguíamos detê-los nasmãos. As corolas minúsculas desfaziam-se de leve, ao tocar-nos afronte, experimentando eu, por minha vez, singular renovação deenergias ao contacto das pétalas fluídicas que me balsamizavam ocoração. Terminada a sublime oração, regressei ao aposento de enfer-mo, amparado pelo amigo que me atendia de perto. Entretanto,não era mais o doente grave de horas antes. A primeira prececoletiva, em "Nosso Lar", operara em mim completa transforma-ção. Conforto inesperado envolvia-me a alma. Pela primeira vez,depois de anos consecutivos de sofrimento, o pobre coração,1 Imagem simbólica formada pelas vibrações mentais dos habitantes dacolônia. - (Nota do Autor espiritual)
  21. 21. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 21saudoso e atormentado, à maneira de cálice muito tempo vazio,enchera-se de novo das gotas generosas do licor da esperança.
  22. 22. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 22 4 O Médico Espiritual No dia imediato, após reparador e profundo repouso, experi-mentei a bênção radiosa do Sol amigo, qual suave mensagem aocoração. Claridade reconfortante atravessava ampla janela, inun-dando o recinto de cariciosa luz. Sentia-me outro. Energias novastocavam-me o íntimo. Tinha a impressão de sorver a alegria davida, a longos haustos. Na alma, apenas um ponto sombrio - asaudade do lar, o apego à família que ficara distante. Numerosasinterrogações pairavam-me na mente, mas tão grande era a sensa-ção de alívio que eu sossegava o espírito, longe de qualquer inter-pelação. Quis levantar-me, gozar o espetáculo da Natureza cheia debrisas e de luz, mas não o consegui e concluí que, sem a coopera-ção magnética do enfermeiro, tornava-se-me impossível deixar oleito. Não voltara a mim das surpresas consecutivas, quando se a-briu a porta e vi entrar Clarêncio acompanhado por simpáticodesconhecido. Cumprimentaram-me, atenciosos, desejando-mepaz. Meu benfeitor da véspera indagou do meu estado geral.Acorreu o enfermeiro, prestando informações. Sorridente, o velhinho amigo apresentou-me o companheiro.Tratava- se, disse, do irmão Henrique de Luna, do Serviço deAssistência Médica da colônia espiritual. Trajado de branco,traços fisionômicos irradiando enorme simpatia, Henrique auscul-tou-me demoradamente, sorriu e explicou: – É de lamentar que tenha vindo pelo suicídio. Enquanto Clarêncio permanecia sereno, senti que singular as-somo de revolta me borbulhava no íntimo.
  23. 23. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 23 Suicídio? Recordei as acusações dos seres perversos dassombras. Não obstante o cabedal de gratidão que começava aacumular, não calei a incriminação. – Creio haja engano - asseverei, melindrado -, meu regressodo mundo não teve essa causa. Lutei mais de quarenta dias, naCasa de Saúde, tentando vencer a morte. Sofri duas operaçõesgraves, devido a oclusão intestinal... – Sim - esclareceu o médico, demonstrando a mesma sereni-dade superior -, mas a oclusão radicava-se em causas profundas.Talvez o amigo não tenha ponderado bastante. O organismo espi-ritual apresenta em si mesmo a história completa das ações prati-cadas no mundo. E inclinando-se, atencioso, indicava determinados pontos domeu corpo: – Vejamos a zona intestinal - exclamou. - A oclusão derivavade elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas levian-dades do meu estimado irmão, no campo da sífilis. A moléstiatalvez não assumisse características tão graves, se o seu procedi-mento mental no planeta estivesse enquadrado nos princípios dafraternidade e da temperança. Entretanto, seu modo especial deconviver, muita vez exasperado e sombrio, captava destruidorasvibrações naqueles que o ouviam. Nunca imaginou que a cólerafosse manancial de forças negativas para nós mesmos? A ausênciade autodomínio, a inadvertência no trato com os semelhantes, aosquais muitas vezes ofendeu sem refletir, conduziam-no freqüen-temente à esfera dos seres doentes e inferiores. Tal circunstânciaagravou, de muito, o seu estado físico. Depois de longa pausa, em que me examinava atentamente,continuou:
  24. 24. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 24 – Já observou, meu amigo, que seu fígado foi maltratado pelasua própria ação; que os rins foram esquecidos, com terrívelmenosprezo às dádivas sagradas? Singular desapontamento invadira-me o coração. Parecendodesconhecer a angústia que me oprimia, continuava o médico,esclarecendo: – Os órgãos do corpo somático possuem incalculáveis reser-vas, segundo os desígnios do Senhor. O meu amigo, no entanto,iludiu excelentes oportunidades, esperdiçando patrimônios precio-sos da experiência física. A longa tarefa, que lhe foi confiadapelos Maiores da Espiritualidade Superior, foi reduzida a merastentativas de trabalho que não se consumou. Todo o aparelhogástrico foi destruído à custa de excessos de alimentação e bebi-das alcoólicas, aparentemente sem importância. Devorou-lhe asífilis energias essenciais. Como vê, o suicídio é incontestável. Meditei nos problemas dos caminhos humanos, refletindo nasoportunidades perdidas. Na vida humana, conseguia ajustar nume-rosas máscaras ao rosto, talhando-as conforme as situações. Aliás,não poderia supor, noutro tempo, que me seriam pedidas contasde episódios simples, que costumava considerar como fatos semmaior significação. Conceituara, até ali, os erros humanos, segun-do os preceitos da criminologia. Todo acontecimento insignifican-te, estranho aos códigos, entraria na relação de fenômenos natu-rais. Deparava-se-me, porém, agora, outro sistema de verificaçãodas faltas cometidas. Não me defrontavam tribunais de tortura,nem me surpreendiam abismos infernais; contudo, benfeitoressorridentes comentavam-me as fraquezas como quem cuida deuma criança desorientada, longe das vistas paternas. Aquele inte-resse espontâneo, no entanto, feria-me a vaidade de homem.Talvez que, visitado por figuras diabólicas a me torturarem, detridente nas mãos, encontrasse forças para tornar a derrota menosamarga. Todavia, a bondade exuberante de Clarêncio, a inflexão
  25. 25. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 25de ternura do médico, a calma fraternal do enfermeiro, penetra-vam-me fundo o espírito. Não me dilacerava o desejo de reação;doía-me a vergonha. E chorei. Rosto entre as mãos, qual meninocontrariado e infeliz, pus-me a soluçar com a dor que me pareciairremediável. Não havia como discordar. Henrique de Luna falavacom sobejas razões. Por fim, abafando os impulsos vaidosos,reconheci a extensão de minhas leviandades de outros tempos. Afalsa noção da dignidade pessoal cedia terreno à justiça. Peranteminha visão espiritual só existia, agora, uma realidade torturante:era verdadeiramente um suicida, perdera o ensejo precioso daexperiência humana, não passava de náufrago a quem se recolhiapor caridade. Foi então que o generoso Clarêncio, sentando-se no leito, ameu lado, afagou-me paternalmente os cabelos e falou comovido: – Oh! meu filho, não te lastimes tanto. Busquei-te atendendoà intercessão dos que te amam, dos planos mais altos. Tuas lágri-mas atingem seus corações. Não desejas ser grato, mantendo-tetranqüilo no exame das próprias faltas? Na verdade, tua posição éa do suicida inconsciente; mas é necessário reconhecer que cente-nas de criaturas se ausentam diariamente da Terra, nas mesmascondições. Acalma-te, pois. Aproveita os tesouros do arrependi-mento, guarda a bênção do remorso, embora tardio, sem esquecerque a aflição não resolve problemas. Confia no Senhor e em nossadedicação fraternal. Sossega a alma perturbada, porque muitos denós outros já perambulamos igualmente nos teus caminhos. Ante a generosidade que transbordava dessas palavras, mer-gulhei a cabeça em seu colo paternal e chorei longamente.
  26. 26. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 26 5 Recebendo Assistência – É você o tutelado de Clarêncio? A pergunta vinha de um jovem de singular e doce expressão. Grande bolsa pendente da mão, como quem conduzia apetre-chos de assistência, endereçava-me ele sorriso acolhedor. Ao meusinal afirmativo, mostrou-se à vontade e, maneiras fraternas,acentuou: – Sou Lísias, seu irmão. Meu diretor, o assistente Henrique deLuna, designou-me para servi-lo, enquanto precisar tratamento. – É enfermeiro? - indaguei. – Sou visitador dos serviços de saúde. Nessa qualidade, nãosó coopero na enfermagem, como também assinalo necessidadesde socorro, ou providências que se refiram a enfermos recém-chegados. Notando-me a surpresa, explicou: – Nas minhas condições há numerosos servidores em "NossoLar". O amigo ingressou agora na colônia e, naturalmente, ignoraa amplitude dos nossos trabalhos. Para fazer uma idéia, bastalembrar que apenas aqui, na seção em que se encontra, existemmais de mil doentes espirituais, e note que este é um dos menoresedifícios do nosso parque hospitalar. – Tudo isso é maravilhoso! - exclamei. Adivinhando que minhas observações iam descambar para oelogio espontâneo, Lísias levantou-se da poltrona a que se reco-lhera e começou a auscultar-me, atento, impedindo-me o agrade-cimento verbal.
  27. 27. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 27 – A zona dos seus intestinos apresenta lesões sérias com ves-tígios muito exatos do câncer; a região do fígado revela dilacera-ções; a dos rins demonstra característicos de esgotamento prema-turo. Sorrindo, bondoso, acrescentou: – Sabe o irmão o que significa isso? – Sim - repliquei, o médico esclareceu ontem, explicando quedevo esses distúrbios a mim mesmo... Reconhecendo o acanhamento da confissão reticenciosa, a-pressou-se a consolar: – Na turma de oitenta enfermos a que devo assistência diária,cinqüenta e sete se encontram nas suas condições. E talvez ignoreque existem, por aqui, os mutilados. Já pensou nisso? Sabe que ohomem imprevidente, que gastou os olhos no mal, aqui compare-ce de órbitas vazias? Que o malfeitor, interessado em utilizar odom da locomoção fácil nos atos criminosos, experimenta a deso-lação da paralisia, quando não é recolhido absolutamente sempernas? Que os pobres obsidiados nas aberrações sexuais costu-mam chegar em extrema loucura? Identificando-me a perplexidade natural, prosseguiu: – "Nosso Lar" não é estância de espíritos propriamente vito-riosos, se conferirmos ao termo sua razoável acepção. Somosfelizes, porque temos trabalho; e a alegria habita cada recanto dacolônia, porque o Senhor não nos retirou o pão abençoado doserviço. Aproveitando a pausa mais longa, exclamei sensibilizado: – Continue, meu amigo, esclareça-me. Sinto-me aliviado etranqüilo. Não será esta região um departamento celestial doseleitos? Lísias sorriu e explicou:
  28. 28. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 28 – Recordemos o antigo ensinamento que se refere a muitoschamados e poucos escolhidos na Terra. E vagueando o olhar no horizonte longínquo, como a fixarexperiências de si mesmo no painel das recordações mais íntimas,acentuou: – As religiões, no planeta, convocam as criaturas ao banquetecelestial. Em sã consciência, ninguém que se tenha aproximado,um dia, da noção de Deus, pode alegar ignorância nesse particu-lar. Incontável é o número dos chamados, meu amigo; mas, ondeos que atendem ao chamado? Com raras exceções, a massa huma-na prefere aceder a outro gênero de convites. Gasta-se a possibili-dade nos desvios do bem, agrava-se o capricho de cada um, elimi-na-se o corpo físico a golpes de irreflexão. Resultado: milhares decriaturas retiram-se diariamente da esfera da carne em dolorosoestado de incompreensão. Multidões sem conta erram em todas asdireções nos círculos imediatos à crosta planetária, constituídas deloucos, doentes e ignorantes. Notando-me a admiração, interrogou: – Acreditaria, porventura, que a morte do corpo nos conduzi-ria a planos de milagres? Somos compelidos a trabalho áspero, aserviços pesados e não basta isso. Se temos débitos no planeta,por mais alto que ascendamos, é imprescindível voltar, para retifi-car, lavando o rosto no suor do mundo, desatando algemas de ódioe substituindo-as por laços sagrados de amor. Não seria justoimpor a outrem a tarefa de mondar o campo que semeamos deespinhos, com as próprias mãos. Abanando a cabeça, acrescentava: – Caso dos muitos chamados, meu caro. O Senhor não esque-ce homem algum; todavia, raríssimos homens o recordam. Acabrunhado com a lembrança dos próprios erros, diante detão grandes noções de responsabilidade individual, objetei:
  29. 29. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 29 – Como fui perverso! Contudo, antes que me alongasse noutras exclamações, o visi-tador colocou a destra carinhosa em meus lábios, murmurando: – Cale-se! meditemos no trabalho a fazer. No arrependimentoverdadeiro é preciso saber falar, para construir de novo. Em seguida, aplicou-me passes magnéticos, atenciosamente.Fazendo os curativos na zona intestinal, esclareceu: – Não observa o tratamento especializado da zona cancerosa?Pois note bem: toda medicina honesta é serviço de amor, ativida-de de socorro justo; mas o trabalho de cura é peculiar a cadaespírito. Meu irmão será tratado carinhosamente, sentir-se-á fortecomo nos tempos mais belos da sua juventude terrena, trabalharámuito e, creio, será um dos melhores colaboradores em "NossoLar"; entretanto, a causa dos seus males persistirá em si mesmo,até que se desfaça dos germes de perversão da saúde divina, queagregou ao seu corpo sutil pelo descuido moral e pelo desejo degozar mais que os outros. A carne terrestre, onde abusamos, étambém o campo bendito onde conseguimos realizar frutuososlabores de cura radical, quando permanecemos atentos ao deverjusto. Meditei os conceitos, ponderei a bondade divina e, na exalta-ção da sensibilidade, chorei copiosamente. Lísias, contudo, terminou o tratamento do dia, com serenida-de, e falou: – Quando as lágrimas não se originam da revolta, sempreconstituem remédio depurador. Chore, meu amigo. Desabafe ocoração. E abençoemos aquelas beneméritas organizações micros-cópicas que são as células de carne na Terra. Tão humildes e tãopreciosas, tão detestadas e tão sublimes pelo espírito de serviço.Sem elas, que nos oferecem templo à retificação, quantos milê-nios gastaríamos na ignorância?
  30. 30. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 30 Assim falando, afagou-me carinhosamente a fronte abatida edespediu-se com um ósculo de amor.
  31. 31. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 31 6 Precioso Aviso No dia imediato, após a oração do crepúsculo, Clarêncio meprocurou em companhia do atencioso visitador. Fisionomia a irradiar generosidade, perguntou, abraçando-me: – Como vai? Melhorzinho? Esbocei o gesto do enfermo que se vê acariciado na Terra,amolecendo as fibras emotivas. No mundo, às vezes, o carinhofraterno é mal interpretado. Obedecendo ao velho vício, comeceia explicar-me, enquanto os dois benfeitores se sentavam como-damente a meu lado: – Não posso negar que esteja melhor; entretanto, sofro inten-samente. Muitas dores na zona intestinal, estranhas sensações deangústia no coração. Nunca supus fosse capaz de tamanha resis-tência, meu amigo. Ah! como tem sido pesada a minha cruz!...Agora que posso concatenar idéias, creio que a dor me aniquiloutodas as forças disponíveis... Clarêncio ouvia, atencioso, demonstrando grande interessepelas minhas lamentações, sem o menor gesto que denunciasse opropósito de intervir no assunto. Encorajado com essa atitude,continuei: – Além do mais, meus sofrimentos morais são enormes e i-nexprimíveis. Amainada a tormenta exterior com os socorrosrecebidos, volto agora às tempestades íntimas. Que terá sido feitode minha esposa, de meus filhos? Teria o meu primogênito conse-guido progredir, segundo meu velho ideal? E as filhinhas? Minhadesventurada Zélia muitas vezes afirmou que morreria de sauda-des, se um dia eu lhe faltasse. Admirável esposa! Ainda lhe sinto
  32. 32. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 32as lágrimas dos momentos derradeiros. Não sei desde quando vivoo pesadelo da distância... Continuadas dilacerações roubaram-mea noção do tempo. Onde estará minha pobre companheira? Cho-rando junto às cinzas do meu corpo, ou nalgum recanto escuro dasregiões da morte? Oh! minha dor é muito amarga! Que terríveldestino o do homem penhorado no devotamento à família! Creioque raras criaturas terão padecido tanto quanto eu!... No planeta,vicissitudes, desenganos, doenças, incompreensões e amarguras,abafando escassas notas de alegria; depois, os sofrimentos damorte do corpo... Em seguida, martirizações no além-túmulo! Queserá, então, a vida? Sucessivo desenrolar de misérias e lágrimas?Não haverá recurso à semeadura da paz? Por mais que desejefirmar-me no otimismo, sinto que a noção de infelicidade mebloqueia o espírito, como terrível cárcere do coração. Que desven-turado destino, generoso benfeitor!. Chegado a essa altura, o vendaval da queixa me conduzira obarco mental ao oceano largo das lágrimas. Clarêncio, contudo, levantou-se sereno e falou sem afetação: – Meu amigo, deseja você, de fato, a cura espiritual? Ao meu gesto afirmativo, continuou: – Aprenda, então, a não falar excessivamente de si mesmo,nem comente a própria dor. Lamentação denota enfermidademental e enfermidade de curso laborioso e tratamento difícil. Éindispensável criar pensamentos novos e disciplinar os lábios.Somente conseguiremos equilíbrio, abrindo o coração ao Sol daDivindade. Classificar o esforço necessário de imposição esmaga-dora, enxergar padecimentos onde há luta edificante, sói identifi-car indesejável cegueira dalma. Quanto mais utilize o verbo pordilatar considerações dolorosas, no círculo da personalidade, maisduros se tornarão os laços que o prendem a lembranças mesqui-nhas. O mesmo Pai que vela por sua pessoa, oferecendo-lhe tetogeneroso, nesta casa, atenderá aos seus parentes terrestres. Deve-
  33. 33. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 33mos ter nosso agrupamento familiar como sagrada construção,mas sem esquecer que nossas famílias são seções da Famíliauniversal, sob a Direção Divina. Estaremos a seu lado para resol-ver dificuldades presentes e estruturar projetos de futuro, mas nãodispomos do tempo para voltar a zonas estéreis de lamentação.Além disso, temos, nesta colônia, o compromisso de aceitar otrabalho mais áspero como bênção de realização, considerandoque a Providência desborda amor, enquanto nós vivemos oneradosde dívidas. Se deseja permanecer nesta casa de assistência, apren-da a pensar com justeza. Nesse ínterim, secara-se-me o pranto e, chamado a brios pelogeneroso instrutor, assumi diversa atitude, embora envergonhadoda minha fraqueza. – Não disputava você, na carne - prosseguiu Clarêncio, bon-doso -, as vantagens naturais, decorrentes das boas situações? Nãoestimava a obtenção de recursos lícitos, ansioso de estender bene-fícios aos entes amados? Não se interessava pelas remuneraçõesjustas, pelas expressões de conforto, com possibilidades de aten-der à família? Aqui, o programa não é diferente. Apenas divergemos detalhes. Nos círculos carnais, a convenção e a garantia mone-tária; aqui, o trabalho e as aquisições definitivas do espírito imor-tal. Dor, para nós, significa possibilidade de enriquecer a alma; aluta constitui caminho para a divina realização. Compreendeu adiferença? As almas débeis, ante o serviço, deitam-se para sequeixarem aos que passam; as fortes, porém, recebem o serviçocomo patrimônio sagrado, na movimentação do qual se preparam,a caminho da perfeição. Ninguém lhe condena a saudade justa,nem pretende estancar sua fonte de sentimentos sublimes. Acrescenotar, todavia, que o pranto da desesperação não edifica o bem. Seama, em verdade, a família terrena, é preciso bom ânimo para lheser útil.
  34. 34. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 34 Fez-se longa pausa. A palavra de Clarêncio levantara-me paraelucubrações mais sadias. Enquanto meditava a sabedoria da valiosa advertência, meubenfeitor, qual o pai que esquece a leviandade dos filhos pararecomeçar serenamente a lição, tornou a perguntar com um belosorriso: – Então, como passa? Melhor? Contente por me sentir desculpado, à maneira da criança quedeseja aprender, respondi, confortado: – Vou bem melhor, para melhor compreender a Vontade Di-vina.
  35. 35. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 35 7 Explicações de Lísias Repetiram-se as visitas periódicas de Clarêncio e a atençãodiária de Lísias. À medida que procurava habituar-me aos deveres novos, sen-sações de desafogo me aliviavam o coração. Diminuíram as dorese os impedimentos de locomoção fácil. Notava, porém, que, arecordações mais fortes dos fenômenos físicos, me voltavam aangústia, o receio do desconhecido, a mágoa da inadaptação.Apesar de tudo, encontrava mais segurança dentro de mim. Deleitava-me, agora, contemplando os horizontes vastos, de-bruçado às janelas espaçosas. Impressionavam-me, sobretudo, osaspectos da Natureza. Quase tudo, melhorada cópia da Terra.Cores mais harmônicas, substâncias mais delicadas. Forrava-se osolo de vegetação. Grandes árvores, pomares fartos e jardinsdeliciosos. Desenhavam-se montes coroados de luz, em continui-dade à planície onde a colônia repousava. Todos os departamentosapareciam cultivados com esmero. A pequena distância, alteavam-se graciosos edifícios. Alinhavam-se a espaços regulares, exibin-do formas diversas. Nenhum sem flores à entrada, destacando-sealgumas casinhas encantadoras, cercadas por muros de hera, onderosas diferentes desabrochavam, aqui e ali, adornando o verde decambiantes variados. Aves de plumagens policromas cruzavam osares e, de quando em quando, pousavam agrupadas nas torresmuito alvas, a se erguerem retilíneas, lembrando lírios gigantes-cos, rumo ao céu. Das janelas largas, observava, curioso, o movimento do par-que. Extremamente surpreendido, identificava animais domésti-cos, entre as árvores frondosas, enfileiradas ao fundo.
  36. 36. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 36 Nas minhas lutas introspectivas, perdia-me em indagações detoda sorte. Não conseguia atinar com a multiplicidade de formasanálogas às do planeta, considerando a circunstância de me en-contrar numa esfera propriamente espiritual. Lísias, o companheiro amável de todos os dias, não regateavaexplicações. A morte do corpo não conduz o homem a situações miraculo-sas, dizia. Todo processo evolutivo implica gradação. Há regiõesmúltiplas para os desencarnados, como existem planos inúmeros esurpreendentes para as criaturas envolvidas de carne terrestre.Almas e sentimentos, formas e coisas, obedecem a princípios dedesenvolvimento natural e hierarquia justa. Preocupava-me, todavia, permanecer ali, num parque de saú-de, havia muitas semanas, sem a visita sequer de um conhecido domundo. Afinal, não fora eu a única pessoa do meu círculo a deci-frar o enigma da sepultura. Meus pais me haviam antecipado nagrande jornada. Amigos vários, noutro tempo, me haviam prece-dido. Por que, então, não apareciam naquele quarto de enfermida-de espiritual, para conforto do meu coração dolorido? Bastariamalguns momentos de consolação. Um dia, não pude conter-me e perguntei ao solícito visitador: – Meu caro Lísias, acha possível, aqui, o encontro com aque-les que nos antecederam na morte do corpo físico? – Como não? Pensa que está esquecido?... – Sim. Por que não me visitam? Na Terra, sempre contei coma abnegação maternal. Minha mãe, entretanto, até agora não deusinal de vida. Meu pai, igualmente, fez a grande viagem; três anosantes do meu trespasse. – Pois note - esclareceu Lísias -, sua mãe o tem ajudado dia enoite, desde a crise que antecipou sua vinda. Quando se acamoupara abandonar o casulo terrestre, duplicou-se o interesse mater-
  37. 37. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 37nal a seu respeito. Talvez não saiba ainda que sua permanêncianas esferas inferiores durou mais de oito anos consecutivos. Elajamais desanimou. Intercedeu, muitas vezes, em "Nosso Lar", aseu favor. Rogou os bons ofícios de Clarêncio, que começou avisitá-lo freqüentemente, até que o médico da Terra, vaidoso, seafastasse um tanto, a fim de surgir o filho dos Céus. Compreen-deu? Eu tinha os olhos úmidos. Ignorava o número de anos que medistanciavam da gleba terrestre. Desejei conhecer os processos deproteção imperceptível, mas não consegui. Minhas cordas vocaisestavam entorpecidas, com o nó de lágrimas represadas no cora-ção. – No dia em que você orou com tanta alma - prosseguiu o en-fermeiro visitador -, quando compreendeu que tudo no Universopertence ao Pai Sublime, seu pranto era diferente. Não sabe quehá chuvas que destroem e chuvas que criam? Lágrimas há tam-bém, assim. É lógico que o Senhor não espera por nossas rogati-vas para nos amar; no entanto, é indispensável nos colocarmos emdeterminada posição receptiva, a fim de compreender-lhe a infini-ta bondade. Um espelho enfuscado não reflete a luz. Desse modo,o Pai não precisa de nossas penitências, mas convenhamos que aspenitências prestam ótimos serviços a nós mesmos. Entendeu?Clarêncio não teve dificuldade em localizá-lo, atendendo aosapelos de sua carinhosa genitora da Terra; você, porém, demoroumuito a encontrar Clarêncio. E quando sua mãezinha soube que ofilho havia rasgado os véus escuros com o auxílio da oração,chorou de alegria, segundo me contaram... – E onde está minha mãe? - exclamei, por fim. Se me é per-mitido, quero vê-la, abraçá-la, ajoelhar-me a seus pés! – Não vive em "Nosso Lar" - esclareceu Lísias -, habita esfe-ras mais altas, onde trabalha não somente por você. Observando meu desapontamento, acrescentou, fraterno:
  38. 38. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 38 – Virá vê-lo, por certo, antes mesmo do que pensamos.Quando alguém deseja algo ardentemente, já se encontra a cami-nho da realização. Tem você, nesse particular, a lição do própriocaso. Anos a fio rolou, como pluma, albergando o medo, as triste-zas e desilusões; mas, quando mentalizou firmemente a necessi-dade de receber o auxílio divino, dilatou o padrão vibratório damente e alcançou visão e socorro. Olhos brilhantes, encorajado pelo esclarecimento recebido,exclamei, resoluto: – Desejarei, então, com todas as minhas forças... ela virá... elavirá... Lísias sorriu com inteligência e, como quem previne, genero-so, afirmou ao despedir-se: – Convém não esquecer, contudo, que a realização nobre exi-ge três requisitos fundamentais, a saber: primeiro, desejar; segun-do, saber desejar; e, terceiro, merecer, ou, por outros termos,vontade ativa, trabalho persistente e merecimento justo. O visitador ganhou a porta de saída, sorridente, enquanto eume detinha silencioso, a meditar no extenso programa formuladoem tão poucas palavras.
  39. 39. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 39 8 Organização de Serviços Decorridas algumas semanas de tratamento ativo, saí, pelaprimeira vez, em companhia de Lísias. Impressionou-me o espetáculo das ruas. Vastas avenidas, en-feitadas de árvores frondosas. Ar puro, atmosfera de profundatranqüilidade espiritual. Não havia, porém, qualquer sinal deinércia ou de ociosidade, porque as vias públicas estavam reple-tas. Entidades numerosas iam e vinham. Algumas pareciam situara mente em lugares distantes, mas outras me dirigiam olharesacolhedores. Incumbia-se o companheiro de orientar-me em facedas surpresas que surgiam ininterruptas. Percebendo-me as ínti-mas conjeturas, esclareceu solícito: – Estamos no local do Ministério do Auxílio. Tudo o que ve-mos, edifícios, casas residenciais, representa instituições e abrigosadequados à tarefa de nossa jurisdição. Orientadores, operários eoutros serviçais da missão residem aqui. Nesta zona, atende-se adoentes, ouvem-se rogativas, selecionam-se preces, preparam-sereencarnações terrenas, organizam-se turmas de socorro aos habi-tantes do Umbral, ou aos que choram na Terra, estudam-se solu-ções para todos os processos que se prendem ao sofrimento. – Há, então, em "Nosso Lar", um Ministério do Auxílio? -perguntei. – Como não? Nossos serviços são distribuídos numa organi-zação que se aperfeiçoa dia a dia, sob a orientação dos que nospresidem os destinos. Fixando em mim os olhos lúcidos, prosseguiu: – Não tem visto, nos atos da prece, nosso Governador Espiri-tual cercado de setenta e dois colaboradores? Pois são os Minis-
  40. 40. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 40tros de "Nosso Lar". A colônia, que é essencialmente de trabalhoe realização, divide-se em seis Ministérios, orientados, cada qual,por doze Ministros. Temos os Ministérios da Regeneração, doAuxílio, da Comunicação, do Esclarecimento, da Elevação e daUnião Divina. Os quatro primeiros nos aproximam das esferasterrestres, os dois últimos nos ligam ao plano superior, visto que anossa cidade espiritual é zona de transição. Os serviços maisgrosseiros localizam-se no Ministério da Regeneração, os maissublimes no da União Divina. Clarêncio, o nosso chefe amigo, éum dos Ministros do Auxílio. Valendo-me da pausa natural, exclamei, comovido: – Oh! nunca imaginei a possibilidade de organizações tãocompletas, depois da morte do corpo físico!... – Sim - esclareceu Lísias -, o véu da ilusão é muito denso noscírculos carnais. O homem vulgar ignora que toda manifestaçãode ordem, no mundo, procede do plano superior. A natureza a-greste transforma-se em jardim, quando orientada pela mente dohomem, e o pensamento humano, selvagem na criatura primitiva,transforma-se em potencial criador, quando inspirado pelas men-tes que funcionam nas esferas mais altas. Nenhuma organizaçãoútil se materializa na crosta terrena, sem que seus raios iniciaispartam de cima. – Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma história, como asgrandes cidades planetárias? – Sem dúvida. Os planos vizinhos da esfera terráquea possu-em, igualmente, natureza específica. "Nosso Lar" é antiga funda-ção de portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no séculoXVI. A princípio, enorme e exaustiva foi a luta, segundo constaem nossos arquivos no Ministério do Esclarecimento. Há substân-cias ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas regiões quese caracterizam pela matéria grosseira. Aqui também existemenormes extensões de potencial inferior, como há, no planeta,
  41. 41. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 41grandes tratos de natureza rude e incivilizada. Os trabalhos pri-mordiais foram desanimadores, mesmo para os espíritos fortes.Onde se congregam hoje vibrações delicadas e nobres, edifíciosde fino lavor, misturavam-se as notas primitivas dos silvícolas dopaís e as construções infantis de suas mentes rudimentares. Osfundadores não desanimaram, porém. Prosseguiram na obra,copiando o esforço dos europeus que chegavam à esfera material,apenas com a diferença de que, por lá, se empregava a violência, aguerra, a escravidão, e, aqui, o serviço perseverante, a solidarie-dade fraterna, o amor espiritual. A essa altura, atingíramos uma praça de maravilhosos contor-nos, ostentando extensos jardins. No centro da praça, erguia-seum palácio de magnificente beleza, encabeçado de torres sobera-nas, que se perdiam no céu. – Os fundadores da colônia começaram o esforço, partindodaqui, onde se localiza a Governadoria - disse o visitador. Apontando o palácio, continuou: – Temos, nesta praça, o ponto de convergência dos seis mi-nistérios a que me referi. Todos começam da Governadoria, es-tendendo-se em forma triangular. E, respeitoso, comentou: – Ali vive o nosso abnegado orientador. Nos trabalhos admi-nistrativos, utiliza ele a colaboração de três mil funcionários;entretanto, é ele o trabalhador mais infatigável e mais fiel quetodos nós reunidos. Os Ministros costumam excursionar noutrasesferas, renovando energias e valorizando conhecimentos; nósoutros gozamos entretenimentos habituais, mas o Governadornunca dispõe de tempo para isso. Faz questão que descansemos,obriga-nos a férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quasenunca repousa, mesmo no que concerne às horas de sono. Parece-me que a glória dele é o serviço perene. Basta lembrar que estou
  42. 42. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 42aqui há quarenta anos e, com exceção das assembléias referentesàs preces coletivas, raramente o tenho visto em festividades públi-cas. Seu pensamento, porém, abrange todos os círculos de serviço,sua assistência carinhosa a tudo e a todos atinge. Depois de longa pausa, o enfermeiro amigo acentuou: – Não faz muito, comemorou-se o 114º aniversário da suamagnânima direção. Calara-se Lísias, evidenciando comovida reverência, enquan-to eu a seu lado contemplava, respeitoso e embevecido, as torresmaravilhosas que pareciam cindir o firmamento...
  43. 43. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 43 9 Problema de Alimentação Enlevado na visão dos jardins prodigiosos, pedi ao dedicadoenfermeiro para descansar alguns minutos num banco próximo.Lísias anuiu de bom grado. Agradável sensação de paz me felicitava o espírito. Capricho-sos repuxos de água colorida ziguezagueavam no ar, formandofiguras encantadoras. – Quem observa esta colméia imensa de serviço - ponderei - éinduzido a examinar numerosos problemas. E o abastecimento?Não tenho notícia de um Ministério da Economia... – Antigamente - explicou o paciente interlocutor - os serviçosdessa natureza assumiam feição mais destacada. Deliberou, po-rém, o atual Governador atenuar todas as expressões de vida quenos recordassem os fenômenos puramente materiais. As ativida-des de abastecimento ficaram, assim, reduzidas a simples serviçode distribuição, sob o controle direto da Governadoria. Aliás, aprovidência constitui medida das mais benéficas. Rezam os anaisque a colônia, há um século, lutava com extremas dificuldadespara adaptar os habitantes às leis da simplicidade. Muitos recém-chegados ao "Nosso Lar" duplicavam exigências. Queriam mesaslautas, bebidas excitantes, dilatando velhos vícios terrenos. Ape-nas o Ministério da União Divina ficou imune de tais abusos,pelas características que lhe são próprias; no entanto, os demaisviviam sobrecarregados de angustiosos problemas dessa ordem. OGovernador atual, todavia, não poupou esforços. Tão logo assu-miu obrigações administrativas, adotou providências justas. Anti-gos missionários, daqui, puseram-me ao corrente de curiososacontecimentos. Disseram-me que, a pedido da Governadoria,vieram duzentos instrutores de uma esfera muito elevada, a fim de
  44. 44. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 44espalharem novos conhecimentos, relativos à ciência da respira-ção e da absorção de princípios vitais da atmosfera. Realizaram-seassembléias numerosas. Alguns colaboradores técnicos de "NossoLar" manifestavam-se contrários, alegando que a cidade é detransição e que não seria justo, nem possível, desambientar imedi-atamente os homens desencarnados, mediante exigências desseteor, sem grave perigo para suas organizações espirituais. O Go-vernador, contudo, não desanimou. Prosseguiram as reuniões,providências e atividades, durante trinta anos consecutivos. Al-gumas entidades eminentes chegaram a formular protestos decaráter público, reclamando. Por mais de dez vezes, o Ministériodo Auxílio esteve superlotado de enfermos, onde se confessavamvítimas do novo sistema de alimentação deficiente. Nesses perío-dos, os opositores da redução multiplicavam acusações. O Gover-nador, porém, jamais castigou alguém. Convocava os adversáriosda medida a palácio e expunha-lhes, paternalmente, os projetos efinalidades do regime; destacava a superioridade dos métodos deespiritualização, facilitava aos mais rebeldes inimigos do novoprocesso variadas excursões de estudo, em planos mais elevadosque o nosso, ganhando, assim, maior número de adeptos. Ante pausa mais longa, reclamei, interessado: – Continue, por favor, meu caro Lísias. Como terminou a lutaedificante? – Depois de vinte e um anos de perseverantes demonstrações,por parte da Governadoria, aderiu o Ministério da Elevação, pas-sando a abastecer-se apenas do indispensável. O mesmo nãoaconteceu com o Ministério do Esclarecimento, que demoroumuito a assumir compromisso, em vista dos numerosos espíritosdedicados às ciências matemáticas, que ali trabalham. Eram elesos mais teimosos adversários. Mecanizados nos processos deproteínas e carboidratos, imprescindíveis aos veículos físicos, nãocediam terreno nas concepções correspondentes daqui. Semanal-
  45. 45. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 45mente, enviavam ao Governador longas observações e advertên-cias, repletas de análises e numerações, atingindo, por vezes, aimprudência. O velho governante, contudo, nunca agiu por si só.Requisitou assistência de nobres mentores, que nos orientamatravés do Ministério da União Divina, e jamais deixou o menorboletim de esclarecimento sem exame minucioso. Enquanto ar-gumentavam os cientistas e a Governadoria contemporizava,formaram-se perigosos distúrbios no antigo Departamento deRegeneração, hoje transformado em Ministério. Encorajados pelarebeldia dos cooperadores do Esclarecimento, os espíritos menoselevados que ali se recolhiam entregaram-se a condenáveis mani-festações. Tudo isso provocou enormes cisões nos órgãos coleti-vos de "Nosso Lar", dando ensejo a perigoso assalto das multi-dões obscuras do Umbral, que tentaram invadir a cidade, aprovei-tando brechas nos serviços de Regeneração, onde grande númerode colaboradores entretinha certo intercâmbio clandestino, emvirtude dos vícios de alimentação. Dado o alarme, o Governadornão se perturbou. Terríveis ameaças pairavam sobre todos. Ele,porém, solicitou audiência ao Ministério da União Divina e, de-pois de ouvir o nosso mais alto Conselho, mandou fechar proviso-riamente o Ministério da Comunicação, determinou funcionassemtodos os calabouços da Regeneração, para isolamento dos recalci-trantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas imperti-nências suportou mais de trinta anos consecutivos, proibiu tempo-rariamente os auxílios às regiões inferiores e, pela primeira vez nasua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhasda cidade, para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesacomum. Não houve combate, nem ofensiva da colônia, mas resis-tência resoluta. Por mais de seis meses, os serviços de alimenta-ção, em "Nosso Lar", foram reduzidos à inalação de princípiosvitais da atmosfera, através da respiração, e água misturada aelementos solares, elétricos e magnéticos. A colônia ficou, então,sabendo o que vem a ser a indignação do espírito manso e justo.
  46. 46. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 46Findo o período mais agudo, a Governadoria estava vitoriosa. Opróprio Ministério do Esclarecimento reconheceu o erro e coope-rou nos trabalhos de reajustamento. Houve, nesse comenos, rego-zijo público e dizem que, em meio da alegria geral, o Governadorchorou sensibilizado, declarando que a compreensão geral consti-tuía o verdadeiro prêmio ao seu coração. A cidade voltou aomovimento normal. O antigo Departamento da Regeneração foiconvertido em Ministério. Desde então, só existe maior suprimen-to de substâncias alimentícias que lembram a Terra, nos Ministé-rios da Regeneração e do Auxílio, onde há sempre grande númerode necessitados. Nos demais há somente o indispensável, isto é,todo o serviço de alimentação obedece a inexcedível sobriedade.Presentemente, todos reconhecem que a suposta impertinência doGovernador representou medida de elevado alcance para nossalibertação espiritual. Reduziu-se a expressão física e surgiu mara-vilhoso coeficiente de espiritualidade. Lísias silenciou e eu me entreguei a profundos pensamentossobre a grande lição.
  47. 47. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 47 10 No Bosque das Águas Dado o meu interesse crescente pelos processos de alimenta-ção, Lísias convidou: – Vamos ao grande reservatório da colônia. Lá observará coi-sas interessantes. Verá que a água é quase tudo em nossa estânciade transição. Curiosíssimo, acompanhei o enfermeiro sem vacilar. Chegados a extenso ângulo da praça, o generoso amigo acres-centou: – Esperemos o aeróbus.2 Mal me refazia da surpresa, quando surgiu grande carro, sus-penso do solo a uma altura de cinco metros mais ou menos erepleto de passageiros. Ao descer até nós, à maneira de um eleva-dor terrestre, examinei-o com atenção. Não era máquina conheci-da na Terra. Constituída de material muito flexível, tinha enormecomprimento, parecendo ligada a fios invisíveis, em virtude dogrande número de antenas na tolda. Mais tarde, confirmei minhassuposições, visitando as grandes oficinas do Serviço de Trânsito eTransporte. Lísias não me deu tempo a indagações. Aboletados conveni-entemente no recinto confortável, seguimos Silenciosos. Experi-mentava a timidez natural do homem desambientado, entre desco-nhecidos. A velocidade era tanta que não permitia fixar os deta-lhes das construções escalonadas no extenso percurso. A distâncianão era pequena, porque só depois de quarenta minutos, incluindo2 Carro aéreo, que seria na Terra um grande funicular.
  48. 48. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 48ligeiras paradas de três em três quilômetros, me convidou Lísias adescer, sorridente e calmo. Deslumbrou-me o panorama de belezas sublimes. O bosque,em floração maravilhosa, embalsamava o vento fresco de inebri-ante perfume. Tudo em prodígio de cores e luzes cariciosas. Entremargens bordadas de grama viçosa, toda esmaltada de azulíneasflores, deslizava um rio de grandes proporções. A corrente rolavatranqüila, mas tão cristalina que parecia tonalizada em matizceleste, em vista dos reflexos do firmamento. Estradas largascortavam a verdura da paisagem. Plantadas a espaços regulares,árvores frondosas ofereciam sombra amiga, à maneira de pousosdeliciosos, na claridade do Sol confortador. Bancos de capricho-sos formatos convidavam ao descanso. Notando o meu deslumbramento, Lísias explicou: – Estamos no Bosque das Águas. Temos aqui uma das maisbelas regiões de "Nosso Lar". Trata-se de um dos locais prediletospara as excursões dos amantes, que aqui vêm tecer as mais lindaspromessas de amor e fidelidade, para as experiências da Terra. A observação ensejava considerações muito interessantes,mas Lísias não me deu azo a perguntas nesse particular. Indicandoum edifício de enormes proporções, esclareceu: – Ali é o grande reservatório da colônia. Todo o volume doRio Azul, que temos à vista, é absorvido em caixas imensas dedistribuição. As águas que servem a todas as atividades da colôniapartem daqui. Em seguida, reúnem-se novamente, abaixo dosserviços da Regeneração, e voltam a constituir o rio, que prosse-gue o curso normal, rumo ao grande oceano de substâncias invisí-veis para a Terra. Percebendo-me a indagação íntima, acrescentou: – Com efeito, a água aqui tem outra densidade. Muito maistênue, pura, quase fluídica.
  49. 49. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 49 Notando as magníficas construções que me fronteavam, inter-roguei: – A que Ministério está afeto o serviço de distribuição? – Imagine - elucidou Lísias - que este é um dos raros serviçosmateriais do Ministério da União Divina! – Que diz? - perguntei, ignorando como conciliar uma e outracoisa. O visitador sorriu e obtemperou prazenteiro: – Na Terra quase ninguém cogita seriamente de conhecer aimportância da água. Em "Nosso Lar", contudo, outros são osconhecimentos. Nos círculos religiosos do planeta, ensinam que oSenhor criou as águas. Ora, é lógico que todo serviço criadoprecisa de energias e braços para ser convenientemente mantido.Nesta cidade espiritual, aprendemos a agradecer ao Pai e aos seusdivinos colaboradores semelhante dádiva. Conhecendo-a maisintimamente, sabemos que a água é veículo dos mais poderosospara os fluidos de qualquer natureza. Aqui, ela é empregada so-bretudo como alimento e remédio. Há repartições no Ministériodo Auxílio absolutamente consagradas à manipulação de águapura, com certos princípios suscetíveis de serem captados na luzdo Sol e no magnetismo espiritual. Na maioria das regiões daextensa colônia, o sistema de alimentação tem aí suas bases.Acontece, porém, que só os Ministros da União Divina são deten-tores do maior padrão de Espiritualidade Superior, entre nós,cabendo-lhes a magnetização geral das águas do Rio Azul, a fimde que sirvam a todos os habitantes de "Nosso Lar", com a purezaimprescindível. Fazem eles o serviço inicial de limpeza e os insti-tutos realizam trabalhos específicos, no suprimento de substânciasalimentares e curativas. Quando os diversos fios da corrente sereúnem de novo, no ponto longínquo, oposto a este bosque, au-senta-se o rio de nossa zona, conduzindo em seu seio nossasqualidades espirituais.
  50. 50. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 50 Eu estava embevecido com as explicações. – No planeta - objetei -, jamais recebi elucidações desta natu-reza. – O homem é desatento, há muitos séculos - tornou Lísias -; omar equilibra-lhe a moradia planetária, o elemento aquoso forne-ce-lhe o corpo físico, a chuva dá-lhe o pão, o rio organiza-lhe acidade, a presença da água oferece-lhe a bênção do lar e do servi-ço; entretanto, ele sempre se julga o absoluto dominador do mun-do, esquecendo que é filho do Altíssimo, antes de qualquer consi-deração. Virá tempo, contudo, em que copiará nossos serviços,encarecendo a importância dessa dádiva do Senhor. Compreende-rá, então, que a água, como fluido criador, absorve, em cada lar,as características mentais de seus moradores. A água, no mundo,meu amigo, não somente carreia os resíduos dos corpos, mastambém as expressões de nossa vida mental. Será nociva nas mãosperversas, útil nas mãos generosas e, quando em movimento, suacorrente não só espalhará bênção de vida, mas constituirá igual-mente um veículo da Providência Divina, absorvendo amarguras,ódios e ansiedades dos homens, lavando-lhes a casa material epurificando-lhes a atmosfera íntima. Calou-se o interlocutor em atitude reverente, enquanto meusolhos fixavam a corrente tranqüila a despertar-me sublimes pen-samentos.
  51. 51. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 51 11 Notícias do Plano Desejaria meu generoso companheiro facultar-me observa-ções diferentes, nos diversos bairros da colônia, mas obrigaçõesimperiosas chamavam-no ao posto. – Terá você ocasião de conhecer as diversas regiões dos nos-sos serviços - exclamou bondosamente - pois, conforme vê, osMinistérios do "Nosso Lar" são enormes células de trabalho ativo.Nem mesmo alguns dias de estudo oferecem ensejo à visão deta-lhada de um só deles. Não lhe faltará oportunidade, porém. Aindaque me não seja possível acompanhá-lo, Clarêncio tem poderespara obter-lhe ingresso fácil em qualquer dependência. Voltamos ao ponto de passagem do aeróbus, que não se fezesperar. Agora, sentia-me quase à vontade. A presença de muitos pas-sageiros não me constrangia. A experiência anterior fizera-mebenefícios enormes. Esfervilhava-me o cérebro de úteis indaga-ções. Interessado em resolvê-las, aproveitei o minuto para valer-me do companheiro, quando possível. – Lísias, amigo - perguntei -, poderá informar-me se todas ascolônias espirituais são idênticas a esta? Os mesmos processos, asmesmas características? – De modo algum. Se nas esferas materiais, cada região e ca-da estabelecimento revelam traços peculiares, imagine a multipli-cidade de condições em nossos planos. Aqui, tal como na Terra,as criaturas se identificam pelas fontes comuns de origem e pelagrandeza dos fins que devem atingir; mas importa considerar quecada colônia, como cada entidade, permanece em degraus diferen-tes na grande ascensão. Todas as experiências de grupo diversifi-
  52. 52. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 52cam-se entre si e "Nosso Lar" constitui uma experiência coletivadessa natureza. Segundo nossos arquivos, muitas vezes os que nosantecederam buscaram inspiração nos trabalhos de abnegadostrabalhadores de outras esferas; em compensação, outros agrupa-mentos buscam o nosso concurso para outras colônias em forma-ção. Cada organização, todavia, apresenta particularidades essen-ciais. Observando que o intervalo se fazia mais longo, interroguei: – Partiu daqui a interessante formação de Ministérios? – Sim, os missionários da criação de "Nosso Lar" visitaramos serviços de "Alvorada Nova", uma das colônias espirituaismais importantes que nos circunvizinham e ali encontraram adivisão por departamentos. Adotaram o processo, mas substituí-ram a palavra departamento por Ministério, com exceção dosserviços regeneradores, que, somente com o Governador atual,conseguiram elevação. Assim procederam, considerando que aorganização em Ministérios é mais expressiva, como definição deespiritualidade. – Muito bem! - acrescentei. – E não é tudo - prosseguiu o enfermeiro, atencioso -, a insti-tuição é eminentemente rigorosa, no que concerne à ordem e àhierarquia. Nenhuma condição de destaque é concedida aqui atítulo de favor. Somente quatro entidades conseguiram ingressar,com responsabilidade definida, no curso de dez anos, no Ministé-rio da União Divina. Em geral, todos nós, decorrido longo estágiode serviço e aprendizado, voltamos a reencarnar, para atividadesde aperfeiçoamento. Enquanto eu ouvia essas informações, justamente curioso, Lí-sias continuava: – Quando os recém-chegados das zonas inferiores do Umbralse revelam aptos a receber cooperação fraterna, demoram no
  53. 53. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 53Ministério do Auxílio; quando, porém, se mostram refratários, sãoencaminhados ao Ministério da Regeneração. Se revelam provei-to, com o correr do tempo são admitidos aos trabalhos de Auxílio,Comunicação e Esclarecimento, a fim de se prepararem, comeficiência, para futuras tarefas planetárias. Somente alguns conse-guem atividade prolongada no Ministério da Elevação e raríssi-mos, em cada dez anos, os que alcançam intimidade nos trabalhosda União Divina. E não suponha que os testemunhos sejam vagasexpressões de atividade idealista. Já não estamos na esfera doglobo, onde o desencarnado é promovido compulsoriamente afantasma. Vivemos em círculo de demonstrações ativas. As tare-fas de Auxílio são laboriosas e complicadas, os deveres no Minis-tério da Regeneração constituem testemunhos pesadíssimos, ostrabalhos na Comunicação exigem alta noção da responsabilidadeindividual, os campos do Esclarecimento requisitam grande capa-cidade de trabalho e valores intelectuais profundos, o Ministérioda Elevação pede renúncia e iluminação, as atividades da UniãoDivina requerem conhecimento justo e sincera aplicação do amoruniversal. A Governadoria, por sua vez, é sede movimentada detodos os assuntos administrativos, numerosos serviços de controledireto, como, por exemplo, o de alimentação, distribuição deenergias elétricas, trânsito, transporte e outros. Aqui, em verdade,a lei do descanso é rigorosamente observada, para que determina-dos servidores não fiquem mais sobrecarregados que outros; masa lei do trabalho é também rigorosamente cumprida. No que con-cerne ao repouso, a única exceção é o próprio Governador, quenunca aproveita o que lhe toca, nesse terreno. – Mas, nunca se ausenta ele do palácio? - interroguei. – Somente nas ocasiões que o bem público o exige. A não serem obediência a esse imperativo, o Governador vai semanalmenteao Ministério da Regeneração, que representa a zona de "NossoLar" onde há maior número de perturbações, dada a sintonia de
  54. 54. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 54muitos dos seus abrigados com os irmãos do Umbral. Numerosasmultidões de espíritos desviados ali se encontram recolhidas.Aproveita ele, pois, as tardes de domingo, depois de orar com acidade no Grande Templo da Governadoria, para cooperar com osMinistros da Regeneração, atendendo-lhes os difíceis problemasde trabalho. Nesse mister, priva-se, às vezes, de alegrias sagradas,amparando a desorientados e sofredores. Deixara-nos o aeróbus nas vizinhanças do hospital, onde meaguardava o aposento confortador. Em plena via pública, ouviam-se, tal qual observara à saída,belas melodias atravessando o ar. Notando-me a expressão inda-gadora, Lísias explicou fraternalmente: – Essas músicas procedem das oficinas onde trabalham oshabitantes de "Nosso Lar". Após consecutivas observações, reco-nheceu a Governadoria que a música intensifica o rendimento doserviço, em todos os setores de esforço construtivo. Desde então,ninguém trabalha em "Nosso Lar", sem esse estimulo de alegria. Nesse ínterim, porém, chegáramos à Portaria. Atencioso en-fermeiro adiantou-se e notificou: – Irmão Lísias, chamam-no ao pavilhão da direita para servi-ço urgente. O companheiro afastou-se, calmo, enquanto eu me recolhiaao aposento particular, repleto de indagações íntimas.
  55. 55. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 55 12 O Umbral Após receber tão valiosas elucidações, aguçava-se-me o dese-jo de intensificar a aquisição de conhecimentos relativos a diver-sos problemas que a palavra de Lísias sugeria. As referências aespíritos do Umbral mordiam-me a curiosidade. A ausência depreparação religiosa, no mundo, dá motivo a dolorosas perturba-ções. Que seria o Umbral? Conhecia, apenas, a idéia do inferno edo purgatório, através dos sermões ouvidos nas cerimônias católi-co-romanas a que assistira, obedecendo a preceitos protocolares.Desse Umbral, porém, nunca tivera notícias. Ao primeiro encontro com o generoso visitador, minhas per-guntas não se fizeram esperar. Lísias ouviu-me, atencioso, e repli-cou: – Ora, ora, pois você andou detido por lá tanto tempo e nãoconhece a região? Recordei os sofrimentos passados, experimentando arrepiosde horror. – O Umbral - continuou ele, solícito - começa na crosta ter-restre. É a zona obscura de quantos no mundo não se resolveram aatravessar as portas dos deveres sagrados, a fim de cumpri-los,demorando-se no vale da indecisão ou no pântano dos erros nu-merosos. Quando o espírito reencarna, promete cumprir o pro-grama de serviços do Pai; entretanto, ao recapitular experiênciasno planeta, é muito difícil fazê-lo, para só procurar o que lhesatisfaça ao egoísmo. Assim é que mantidos são o mesmo ódioaos adversários e a mesma paixão pelos amigos. Mas, nem o ódioé justiça, nem a paixão é amor. Tudo o que excede, sem aprovei-tamento, prejudica a economia da vida. Pois bem: todas as multi-dões de desequilibrados permanecem nas regiões nevoentas, que
  56. 56. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 56se seguem aos fluidos carnais. O dever cumprido é uma porta queatravessamos no Infinito, rumo ao continente sagrado da uniãocom o Senhor. É natural, portanto, que o homem esquivo à obri-gação justa, tenha essa bênção indefinidamente adiada. Notando-me a dificuldade para apreender todo o conteúdo doensinamento, com vistas à minha quase total ignorância dos prin-cípios espirituais, Lísias procurou tornar a lição mais clara: – Imagine que cada um de nós, renascendo no planeta, somosportadores de um fato sujo, para lavar no tanque da vida humana.Essa roupa imunda é o corpo causal, tecido por nossas mãos, nasexperiências anteriores. Compartilhando, de novo, as bênçãos daoportunidade terrestre, esquecemos, porém, o objetivo essencial,e, ao invés de nos purificarmos pelo esforço da lavagem, man-chamo-nos ainda mais, contraindo novos laços e encarcerando-nos a nós mesmos em verdadeira escravidão. Ora, se ao voltarmosao mundo procurávamos um meio de fugir à sujidade, pelo desa-cordo de nossa situação com o meio elevado, como regressar aesse mesmo ambiente luminoso, em piores condições? O Umbralfunciona, portanto, como região destinada a esgotamento de resí-duos mentais; uma espécie de zona purgatorial, onde se queima aprestações o material deteriorado das ilusões que a criatura adqui-riu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existên-cia terrena. A imagem não podia ser mais clara, mais convincente. Não havia como disfarçar minha justa admiração. Compreen-dendo o efeito benéfico que me traziam aqueles esclarecimentos,Lísias continuou: – O Umbral é região de profundo interesse para quem estejana Terra. Concentra-se, aí, tudo o que não tem finalidade para avida superior. E note você que a Providência Divina agiu sabia-mente, permitindo se criasse tal departamento em torno do plane-ta. Há legiões compactas de almas irresolutas e ignorantes, que
  57. 57. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 57não são suficientemente perversas para serem enviadas a colôniasde reparação mais dolorosa, nem bastante nobres para seremconduzidas a planos de elevação. Representam fileiras de habitan-tes do Umbral, companheiros imediatos dos homens encarnados,separados deles apenas por leis vibratórias. Não é de estranhar,portanto, que semelhantes lugares se caracterizem por grandesperturbações. Lá vivem, agrupam-se, os revoltados de toda espé-cie. Formam, igualmente, núcleos invisíveis de notável poder,pela concentração das tendências e desejos gerais. Muita gente daTerra não recorda que se desespera quando o carteiro não vem,quando o comboio não aparece? Pois o Umbral está repleto dedesesperados. Por não encontrarem o Senhor à disposição dosseus caprichos, após a morte do corpo físico, e, sentindo que acoroa da vida eterna é a glória intransferível dos que trabalhamcom o Pai, essas criaturas se revelam e demoram em mesquinhasedificações. "Nosso Lar" tem uma sociedade espiritual, mas essesnúcleos possuem infelizes, malfeitores e vagabundos de váriascategorias. É zona de verdugos e vítimas, de exploradores e ex-plorados. Valendo-me da pausa, que se fizera espontânea, exclamei,impressionado: – Como explicar? Então não há por lá defesa, organização? Sorriu o interlocutor, esclarecendo: – Organização é atributo dos espíritos organizados. Que quervocê? A zona inferior a que nos referimos é qual a casa onde nãohá pão: todos gritam e ninguém tem razão. O viajante distraídoperde o comboio, o agricultor que não semeou não pode colher.Uma certeza, porém, posso dar-lhe: - não obstante as sombras eangústias do Umbral, nunca faltou lá a proteção divina. Cadaespírito lá permanece o tempo que se faça necessário. Para isso,meu amigo, permitiu o Senhor se erigissem muitas colônias comoesta, consagradas ao trabalho e ao socorro espiritual.
  58. 58. Francisco Cândido Xavier - Nosso Lar - pelo Espírito André Luiz 58 – Creio, então - observei -, que essa esfera se mistura quasecom a esfera dos homens. – Sim - confirmou o dedicado amigo -, e é nessa zona que seestendem os fios invisíveis que ligam as mentes humanas entre si.O plano está repleto de desencarnados e de formas-pensamentodos encarnados, porque, em verdade, todo espírito, esteja ondeestiver, é um núcleo irradiante de forças que criam, transformamou destroem, exteriorizadas em vibrações que a ciência terrestrepresentemente não pode compreender. Quem pensa, está fazendoalguma coisa alhures. E é pelo pensamento que os homens encon-tram no Umbral os companheiros que afinam com as tendênciasde cada um. Toda alma é um ímã poderoso. Há uma extensa hu-manidade invisível, que se segue à humanidade visível. As mis-sões mais laboriosas do Ministério do Auxílio são constituídas porabnegados servidores, no Umbral, porque se a tarefa dos bombei-ros nas grandes cidades terrenas é difícil, pelas labaredas e ondasde fumo que os defrontam, os missionários do Umbral encontramfluidos pesadíssimos emitidos, sem cessar, por milhares de mentesdesequilibradas, na prática do mal, ou terrivelmente flageladasnos sofrimentos retificadores. É necessário muita coragem e muitarenúncia para ajudar a quem nada compreende do auxílio que selhe oferece. Interrompera-se Lísias. Sumamente impressionado, exclamei: – Ah! como desejo trabalhar junto dessas legiões de infelizes,levando-lhes o pão espiritual do esclarecimento! O enfermeiro amigo fixou-me bondosamente e, depois demeditar em silêncio, por largos instantes, acentuou, ao despedir-se: – Será que você se sente com o preparo indispensável a seme-lhante serviço?

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