No mundo maior

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No mundo maior

  1. 1. Francisco Cândido XavierNo Mundo Maior 5o livro da Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” Ditado pelo Espírito André Luiz FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA DEPARTAMENTO EDITORIAL Rua Souza Valente, 17 20941-040 - Rio - RJ - Brasil http://www.febnet.org.br/
  2. 2. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 2 Coleção “A Vida no Mundo Espiritual” 01 - Nosso Lar 02 - Os Mensageiros 03 - Missionários da Luz 04 - Obreiros da Vida Eterna 05 - No Mundo Maior 06 - Libertação 07 - Entre a Terra e o Céu 08 - Nos Domínios da Mediunidade 09 - Ação e Reação 10 - Evolução em Dois Mundos 11 - Mecanismos da Mediunidade 12 - Sexo e Destino 13 - E a Vida Continua...
  3. 3. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 3 ÍndiceNa jornada evolutiva .................................................................... 41 Entre dois planos ...................................................................... 82 A preleção de Eusébio............................................................ 193 A Casa Mental........................................................................ 324 Estudando o cérebro ............................................................... 445 O poder do amor..................................................................... 596 Amparo fraternal .................................................................... 747 Processo redentor ................................................................... 888 No Santuário da Alma .......................................................... 1019 Mediunidade......................................................................... 11510 Dolorosa perda ................................................................... 13111 Sexo ................................................................................... 14512 Estranha enfermidade ......................................................... 15913 Psicose afetiva.................................................................... 17014 Medida salvadora ............................................................... 18115 Apelo cristão ...................................................................... 18916 Alienados mentais .............................................................. 19917 No limiar das cavernas ....................................................... 20818 Velha afeição...................................................................... 21719 Reaproximação................................................................... 22520 No lar de Cipriana .............................................................. 234
  4. 4. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 4 Na jornada evolutiva Dos quatro cantos da Terra diariamente partem viajores hu-manos, aos milhares, demandando o país da Morte. Vão-se deilustres centros da cultura européia, de tumultuárias cidades ame-ricanas, de velhos círculos asiáticos, de ásperos climas africanos.Procedem das metrópoles, das vilas, dos campos ... Raros viveram nos montes da sublimação, vinculados aos de-veres nobilitantes. A maioria constitui-se de menores de espírito,em luta pela outorga de títulos que lhes exaltem a personalidade.Não chegaram a ser homens completos. Atravessaram o “maremagnum” da humanidade em contínua experimentação. Muitavez, acomodaram-se com os vícios de toda a sorte, demorandovoluntariamente nos trilhos da insensatez. Apesar disso, porém,quase sempre se atribuíam a indébita condição de “eleitos daProvidência”; e, cristalizados em tal suposição, aplicavam a justi-ça ao próximo, sem se compenetrarem das próprias faltas, espe-rando um paraíso de graças para si e um inferno de intérminotormento para os outros. Quando perdidos nos intrincados mean-dros do materialismo cego, fiavam, sem justificativa, que notúmulo se lhes encerraria a memória; e, se filiados a escolas reli-giosas, raros excetuados, contavam, levianos e inconseqüentes,com privilégios que jamais nada fizeram por merecer. Onde albergar a estranha e infinita caravana? Como designara mesma estação de destino a viajantes de cultura, posição e ba-gagem tão diversas? Perante a Suprema Justiça, o malgache e o inglês fruem dosmesmos direitos. Provavelmente, porém, estarão distanciadosentre si, pela conduta individual, diante da Lei Divina, que distin-gue, invariavelmente, a virtude e o crime, o trabalho e a ociosida-de, a verdade e a simulação, a boa vontade e a indiferença. Da
  5. 5. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 5contínua peregrinação do sepulcro, participam, todavia, santos emalfeitores, homens diligentes e homens preguiçosos. Como avaliar por bitola única recipientes heterogêneos? Con-siderando, porém, nossa origem comum, não somos todos filhosdo mesmo Pai? E por que motivo fulminar com inapelável conde-nação os delinqüentes, se o dicionário divino inscreve a letras delogo as palavras “regeneração”, “amor” e “misericórdia”? Deter-minaria o Senhor o cultivo compulsório da esperança entre ascriaturas, ao passo que Ele mesmo, de Sua parte, desesperaria?Glorificaria a boa vontade, entre os homens, e conservar-se-ia nocárcere escuro da negação? O selvagem que haja eliminado ossemelhantes, a flechadas, teria recebido no mundo as mesmasoportunidades de aprender que felicitam o europeu superciviliza-do, que extermina o próximo à metralhadora? Estariam ambospreparados ao ingresso definitivo no paraíso de bem-aventurançainfindável tão somente pelo batismo simbólico ou graças a tardioarrependimento no leito de morte? A lógica e o bom-senso nem sempre se compadecem com ar-gumentos teológicos imutáveis. A vida nunca interrompe ativida-des naturais, por imposição de dogmas estatuídos de artifício. E,se mera obra de arte humana, cujo termo é a bolorenta placidezdos museus, exige a paciência de anos para ser empreendida erealizada, que dizer da obra sublime do aperfeiçoamento da alma,destinada a glórias imarcescíveis? Vários companheiros de ideal estranham a cooperação deAndré Luiz, que nos tece informações sobre alguns setores dasesferas mais próximas ao comum dos mortais. Iludidos na teoria do menor esforço, inexistente nos círculoselevados, contavam com preeminência pessoal, sem nenhumtestemunho de serviço e distantes do trabalho digno, em um céude gozos contemplativos, exuberante de conforto melífico. Prefe-ririam a despreocupação das galerias, em beatitude permanente,
  6. 6. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 6onde a grandeza divina se limitaria a prodigiosos espetáculos,cujos números mais surpreendentes estariam a cargo dos EspíritosSuperiores, convertidos em jograis de vestidura brilhante. A missão de André Luiz é, porém, a de revelar os tesouros deque somos herdeiros felizes na Eternidade, riquezas imperecíveis;em cuja posse jamais entraremos sem a indispensável aquisição deSabedoria e de Amor. Para isto, não lidamos em milagrosos laboratórios de felici-dade improvisada, onde se adquiram dotes de vil preço e ordiná-rias asas de cera. Somos filhos de Deus, em crescimento. Seja noscampos de forças condensadas, quais os da luta física, seja nasesferas de energias sutis, quais as do plano superior, os ascenden-tes que nos presidem os destinos são de ordem evolutiva, pura esimples, com indefectível justiça a seguirmos de perto, à claridadegloriosa e compassiva do Divino Amor. A morte a ninguém propiciará passaporte gratuito para a ven-tura celeste. Nunca promoverá compulsoriamente homens a anjos.Cada criatura transporá essa aduana da eternidade com a exclusi-va bagagem do que houver semeado e aprenderá que a ordem e ahierarquia, a paz do trabalho edificante, são característicos imutá-veis da Lei, em toda parte. Ninguém, depois do sepulcro, gozará de um descanso a quenão tenha feito jus, porque “o Reino do Senhor não vem comaparências externas”. Os companheiros que compreendem, na experiência humana,a escada sublime, cujos degraus há que vencer a preço de suor,com o proveito das bênçãos celestiais, dentro da prática incessantedo bem, não se surpreenderão com as narrativas do mensageirointeressado no servir por amor. Sabem eles que não teriam recebi-do o dom da vida para matar o tempo, nem a dádiva da fé paraconfundir os semelhantes, absorvidos, que se acham, na execuçãodos Divinos Desígnios. Todavia, aos crentes do favoritismo,
  7. 7. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 7presos à teia de velhas ilusões, ainda quando se apresentem comos mais respeitáveis títulos, as afirmativas do emissário fraternalprovocarão descontentamento e perplexidade. É natural; porém, cada lavrador respira o ar do campo que es-colheu. Para todos, contudo, exoramos a bênção do Eterno: tanto paraeles, quanto para nós. EMMANUEL Pedro Leopoldo, 25 de março de 1947.
  8. 8. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 8 1 Entre dois planos Esplendia o luar, revestindo os ângulos da paisagem de inten-sa luz. Maravilhosos cúmulos a Oeste, espraiados no horizonte,semelhavam-se a castelos de espuma láctea, perdidos no imensoazul; confinando com a amplidão, o quadro terrestre contrastavacom o doce encantamento do alto, deixando entrever a vastaplanície, recamada de arvoredo em pesado verde-escuro. Ao Sul,caprichosos cirros reclinavam-se do Céu sobre a Terra, simboli-zando adornos de gaze esvoaçante; evoquei, nesse momento, ajuventude da Humanidade encarnada, perguntando a mim mesmose aquelas bandas alvas do firmamento não seriam faixas celesti-ais, a protegerem o repouso do educandário terrestre. A solidão imponente do plenilúnio infundia-me quase terrorpela melancolia de sua majestosa e indizível beleza. A idéia de Deus envolvia-me o pensamento, arrancando-menotas de respeito e gratidão, que eu, entretanto, não chegava aemitir. Em plena casa da noite, rendia culto de amor ao Eterno,que lhe criara os fundamentos sublimes de silêncio e de paz, emrefrigério das almas encarnadas na Crosta da Terra. O luminoso disco lunar irradiava, destarte, maravilhosas su-gestões. Aos seus reflexos, iniciara-se a evolução terrena e nume-rosas civilizações haviam modificado o curso das experiênciashumanas. Aquela mesma lâmpada suspensa clareara o caminhodos seres primitivos, conduzira os passos dos conquistadores,norteara a jornada dos santos. Testemunha impassível, observara afundação de cidades suntuosas, acompanhando-lhes a prosperida-de e a decadência; contemplara as incessantes renovações dageografia política do mundo; brilhara sobre a testa coroada dospríncipes e sobre o cajado de misérrimos pastores; presenciava,
  9. 9. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 9todos os dias, há longos milênios, o nascimento e a morte demilhões de seres. Sua augusta serenidade refletia a paz divina. Cáem baixo, desencarnados e encarnados, possuidores de relativainteligência, podíamos proceder a experimentos, reparar estradas,contrair compromissos ou edificar virtudes, entre a esperança e ainquietação, aprendendo e recapitulando sempre; mas a Lua,solitária e alvinitente, trazia-nos a idéia da tranqüilidade inexpug-nável da Divina Lei. – A região do encontro está próxima. A palavra do Assistente Calderaro interrompeu-me a medita-ção. O aviso fazia-me sentir o trabalho, a responsabilidade; lem-brava, sobretudo, que não me encontrava só. Não viajávamos, ambos, sem objetivo. Em breves minutos, partilharíamos os trabalhos do InstrutorEusébio, abnegado paladino do amor cristão, em serviço de auxí-lio a companheiros necessitados. Eusébio dedicara-se, de há muito, ao ministério do socorroespiritual, com vastíssimos créditos em nosso plano. Renunciara aposições de realce e adiara sublimes realizações, consagrando-seinteiramente aos famintos de luz. Superintendia prestigiosa orga-nização de assistência em zona intermediária, atendendo a estu-dantes relativamente espiritualizados, pois ainda jungidos aocírculo carnal, e a discípulos recém-libertos do campo físico. A enorme instituição, a que dedicava direção fulgurante, re-gurgitava de almas situadas entre as esferas inferiores e as superi-ores, gente com imensidão de problemas e de indagações de todaa espécie, a requerer-lhe paciência e sabedoria; entretanto, oindefesso missionário, mau grado ao constante acúmulo de servi-ços complexos, encontrava tempo para descer semanalmente àCrosta Planetária, satisfazendo interesses imediatos de aprendizes
  10. 10. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 10que se candidatavam ao discipulado, sem recursos de elevaçãopara vir ao encontro de seu verbo iluminado, na sede superior. Não o conhecia pessoalmente. Calderaro, porém, recebia-lhea orientação, de conformidade com o quadro hierárquico, e a elese referira com o entusiasmo do subordinado que se liga ao chefe,guardando o amor acima da obediência. O Assistente, a seu turno, prestava serviço ativo na própriaCrosta da Terra, a atender, de modo direto, aos irmãos encarna-dos. Especializara-se na ciência do socorro espiritual, naquelaque, entre os estudiosos do mundo, poderíamos chamar “psiquia-tria iluminada”, setor de realizações que há muito tempo me sedu-zia. Dispondo de uma semana sem obrigações definidas, dentre osencargos que me diziam respeito, solicitei ingresso na turma deadestramento, da qual se fizera Calderaro eminente orientador,tendo-me ele aceito com a gentileza característica dos legítimosmissionários do bem e propondo-se conduzir-me carinhosamente.Encontrava-se em oportunidade favorável aos meus propósitos deaprender, pois a equipe de preparação, que lhe recebia ensinamen-tos, excursionava em outra região, a labutar em atividades edifi-cantes; à vista disso, poderia dispensar-me toda a atenção, auxili-ando-me os desejos. Os casos que lhe eram atinentes, explicou-me solícito, nãoapresentavam continuidade substancial: desdobravam-se; consti-tuíam obra de improviso, obedeciam ao inopinado das ordens deserviço ou das situações. Noutros campos de ação, fazia-se im-prescindível o roteiro, previstas as condições e as circunstâncias.No quadro de responsabilidades, porém, que lhe estavam afetas,diferiam as normas; importava acompanhar os problemas, quaisimprevistas manifestações da própria vida. Em virtude de taisflutuações, não traçava, a rigor, programas quanto a particularida-des. Executava os deveres que lhe competiam, onde, como e
  11. 11. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 11quando determinassem os desígnios superiores. O escopo funda-mental da tarefa circunscrevia-se ao socorro imediato aos infeli-zes, evitando-se, quanto possível, a loucura, o suicídio e os ex-tremos desastres morais. Para isto, o missionário atuante eracompelido a conhecer profundamente o jogo das forças psíquicas,com acendrado devotamento ao bem do próximo. Calderaro, nesteparticular, não deixava perceber qualquer dúvida. A bondadeespontânea lhe era indício da virtude e a inquebrantável serenida-de revelava-lhe a sabedoria. Não lhe gozava o convívio desde muitos dias. Abraçara-o navéspera pela primeira vez; bastou, no entanto, um minuto desintonia, para que se estabelecesse entre nós sadia intimidade.Embora lhe reconhecesse a sobriedade verbal, desde o momentodo nosso encontro permutávamos impressões como velhos ami-gos. Seguindo-lhe, pois, os passos, afetuosamente, de alma edifi-cada na fraternidade e na confiança, vi-me a reduzida distância deextenso parque, em plena natureza terrestre. Em torno, árvores robustas, de copas farfalhantes, alinhavam-se, à maneira de sentinelas adrede postadas para velar-nos pelosserviços. O vento passava cantando, em surdina; no recinto iluminadode claridades inacessíveis à faculdade receptiva do olhar humano,aglomeravam-se algumas centenas de companheiros, temporaria-mente afastados do corpo físico pela força liberativa do sono. Amigos de nossa esfera atendiam-nos com desvelo, mostran-do interesse afetivo, prazer de servir e santa paciência. Repareique muitos se mantinham de pé; outros, contudo, se acomodavamnas protuberâncias do solo alcatifado de relva macia, em palestragrave e respeitosa.
  12. 12. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 12 Ambientando-me para aquela hora de extrema beleza espiri-tual, Calderaro avisou-me: – Na reunião de hoje o Instrutor Eusébio receberá estudantesdo espiritualismo, em suas correntes diversas, que se candidatamaos serviços de vanguarda. – Oh! – exclamei, curioso – Não se trata, pois, de assembléia,que agrupe indivíduos filiados indiscriminadamente às escolas dafé? O Assistente esclareceu, de pronto: – A medida não seria aconselhável no círculo de nossa espe-cialidade. O Instrutor afeiçoou-se ao apostolado de assistência acriaturas encarnadas e a recém-libertas da zona física, em particu-lar, precisando aproveitar o tempo com as horas de preleção, parao máximo de aproveitamento. A heterogeneidade de princípios emcentenas de indivíduos, cada qual com sua opinião, obrigaria adigressões difusas, acarretando condenáveis desperdícios de opor-tunidades. Fixou a multidão demoradamente, e acrescentou: – Temos aqui, em cálculo aproximado, mil e duzentas pesso-as. Deste número oitenta per cento se constituem de aprendizesdos templos espiritualistas, em seus ramos diversos, ainda inaptosaos grandes vôos do conhecimento, conquanto nutram fervorosasaspirações de colaboração no Plano Divino. São companheiros deelevado potencial de virtudes. Exemplificam a boa vontade, exer-citam-se na iluminação interior através de esforço louvável; con-tudo, ainda não criaram o cerne da confiança para uso próprio.Tremem ante as tempestades naturais do caminho e hesitam nocírculo das provas necessárias ao enriquecimento da alma, exigin-do de nós particular cuidado, pois que, pelos seus testemunhos dediligência na obra espiritualizante, são os futuros instrumentospara os serviços da frente. Apesar da claridade que lhes assinala
  13. 13. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 13as diretrizes, ainda padecem desarmonias e angústias, que lhesameaçam o equilíbrio incipiente. Não lhes falece, porém, a assis-tência precisa. Instituições de restauração de forças abrem-lhes asportas acolhedoras em nossas esferas de ação. A libertação pelosono é o recurso imediato de nossas manifestações de amparofraterno. A princípio, recebem-nos a influência inconscientemen-te; em seguida, porém, fortalecem a mente. devagarinho, gravan-do-nos o concurso na memória, apresentando idéias, alvitres,sugestões, pareceres e inspirações beneficentes e salvadoras,através de recordações imprecisas. Fez breve pausa e concluiu: – Os demais são colaboradores de nosso plano em tarefa deauxílio. A organização dos trabalhos era digna de sincera admiração.Estávamos num campo substancialmente terrestre. A atmosfera,impregnada de aromas que o vento espargia em torno, recordava-me o lar na Terra, contornado de seu jardim, em noite cálida. Que teria eu realizado no mundo físico se recebesse, em outrotempo, aquela bendita oportunidade de iluminação? Aquele pu-nhado de mortais, sob os raios da Lua, afigurou-se-me assembléiade privilegiados, favorecidos por celestes numes. Milhões dehomens e mulheres a dormir em cidades próximas, algemados aosinteresses imediatos e ansiando a permuta das mais vis sensações,nem de longe suspeitariam a existência daquela original aglome-ração de candidatos à luz íntima, convocados à preparação inten-siva para incursões mais longas e eficientes na espiritualidadesuperior. Teriam a noção do sublime ensejo que lhes aprazia?Aproveitariam a dádiva com suficiente compreensão dos valoreseternos? Marchariam desassombrados para a frente, ou estaciona-riam ao contacto dos primeiros óbices, no esforço iluminativo? Calderaro percebeu-me as silenciosas perquirições e acres-centou:
  14. 14. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 14 – Nossa comunidade de trabalho se dedica, essencialmente, àmanifestação do equilíbrio. Não ignoras que a codificação doplano mental das criaturas ninguém jamais a impõe: é fruto detempo, de esforço, de evolução; e o edifício da sociedade humana,em o atual momento do mundo, vem sendo abalado nos própriosalicerces, compelindo imenso número de pessoas a imprevistasrenovações. Certo, não te surpreenderás se eu disser que, em facedo surto da inteligência moderna, que embate na paralisia dosentimento, periclita a razão. O progresso material atordoa a almado homem desatento. Grandes massas, há séculos, permanecemdistanciadas da luz espiritual. A civilização puramente científica éum Saturno devorador e a humanidade de agora se defronta comimplacáveis exigências de acelerado crescer mental. Daí o agravode nossas obrigações no setor da assistência. As necessidades depreparação do espírito intensificam-se em ritmo assustador. Nesse instante, alcançamos a multidão pacífica. Meu interlocutor sorriu, frisando: – O acaso não opera prodígios. Qualquer realização há queplanejar, atacar, por a termo. Para que o homem físico se convertaem homem espiritual, o milagre exige muita colaboração de nossaparte. Lançou-me olhar significativo e concluiu: – As asas sublimes da alma eterna não se expandem nos aca-nhados escaninhos de uma chocadeira. Há que trabalhar, brunir,sofrer. Nesse momento, aproximou-se alguém dirigindo-nos a pala-vra: era um solícito companheiro, informando-nos que Eusébiopenetrara o recinto. Efetivamente, em saliência próxima, compa-recia o missionário, ladeado por seis assessores, todos envoltosem halos de intensa luz.
  15. 15. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 15 O abnegado orientador não exibia os traços de venerável se-nectude com que em geral imaginamos os apóstolos das revela-ções divinas; mostrava-se-nos com a figura dos homens robustos,em plena madureza espiritual; os olhos escuros e tranqüilos pare-ciam fontes de imenso poder magnético. Contemplava-nos sorri-dente, qual simples colega. A presença dele impusera, porém, respeitoso silencio. Cessa-ram todas as conversações que aqui e ali se entretinham e, ante osfios de luz que os trabalhadores de nosso plano teciam em derre-dor, isolando-nos de qualquer assédio eventual das forças inferio-res, apenas o vento calmo erguia a voz, sussurrando algo de belo emisterioso à folhagem. Sentamo-nos todos, à escuta, enquanto o Instrutor se manti-nha de pé; observando-o, quase frente a frente, eu podia agoraapreciar-lhe a figura majestosa, respirando segurança e beleza. Dorosto imperturbável, a bondade e a compreensão, a tolerância e adoçura irradiavam simpatia inexcedível. A túnica ampla, de tomverde-claro, emitia esmeraldinas cintilações. Aquela vigorosapersonalidade infundia veneração e carinho, confiança e paz. Consolidada a quietude no ambiente, elevou a destra para oAlto e orou com inflexão comovedora: Senhor da Vida, Abençoa-nos o propósito De penetrar o caminho da Luz!... Somos Teus filhos, Ainda escravos de círculos restritos, Mas a sede do Infinito Dilacera-nos os véus do ser. Herdeiros da imortalidade,
  16. 16. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 16 Buscamos-Te as fontes eternas Esperando, confiantes, em Tua misericórdia. De nós mesmos, Senhor, nada podemos. Sem Ti, somos frondes decepadas Que o fogo da experiência Tortura ou transforma... Unidos, no entanto, ao Teu Amor, Somos condicionadores gloriosos De Tua Criação interminável. Somos alguns milhares Neste campo terrestre; E, antes de tudo, Louvamos-Te a grandeza Que não nos oprime a pequenez... Dilata-nos a percepção diante da vida, Abre-nos os olhos Enevoados pelo sono da ilusão Para que divisemos Tua glória sem fim!... Desperta-nos docemente o ouvido, A fim de percebermos o cântico De tua sublime eternidade. Abençoa as sementes de sabedoria Que os teus mensageiros esparziram No campo de nossas almas; Fecunda-nos o solo interior, Para que os divinos germens não pereçam. Sabemos, Pai, Que o suor do trabalho
  17. 17. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 17 E a lágrima da redenção Constituem adubo generoso À floração de nossas sementeiras; Todavia, Sem Tua bênção, O suor elanguesce E a lágrima desespera... Sem Tua mão compassiva, Os vermes das paixões E as tempestades de nossos vícios Podem arruinar-nos a lavoura incipiente. Acorda-nos, Senhor da Vida, Para a luz das oportunidades presentes; Para que os atritos da luta não as inutilizem, Guia-nos os pés para o supremo bem; Reveste-nos o coração Com a Tua serenidade paternal, Robustecendo-nos a resistência! Poderoso Senhor, Ampara-nos a fragilidade, Corrige-nos os erros, Esclarece-nos a ignorância, Acolhe-nos em Teu amoroso regaço. Cumpram-se, Pai Amado, Os Teus desígnios soberanos, Agora e sempre. Assim seja. Finda a comovente rogativa, o orientador baixou os olhos ne-voados de pranto e então vi, dominado de júbilo, que da incog-
  18. 18. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 18noscível altura uma claridade diferente caía sobre nós, em jorroscristalinos. Partículas semelhantes a prata eterizada choviam no recinto,infiltrando-se nas raízes das árvores mais próximas, lá fora. Ignoto encantamento fizera-se em minh’alma. Ao contactodos eflúvios divinos, reparei que minhas forças gradualmenteserenavam, em receptividade maravilhosa. Em torno, pairavam asmesmas notas de alegria e de beleza, pois a calma e a venturatranspareciam de todos os rostos, voltados, extáticos, para o Ins-trutor, em redor do qual se mostravam mais intensas as ondas deluz celeste. Sublime felicidade inundava-me todo o ser, mergulhara-meem indefinível banho de energias renovadoras. Meus olhos foram impotentes para conter as lágrimas felizesque as formosas cintilações me destilavam das fontes ocultas doespírito. E, antes que o nobre mentor retomasse a palavra, agrade-ci em silêncio a resposta do Céu, reconhecendo na prece, maisuma vez, não só a manifestação da reverência religiosa, senãotambém o recurso de acesso aos inesgotáveis mananciais do Divi-no Poder.
  19. 19. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 19 2 A preleção de Eusébio Ereto, incendido o tórax de suave luz, falou o Instrutor, co-movedoramente: – “Dirigimo-nos a vós, irmãos, que tendes, por enquanto, en-sejo de aprender na bendita escola carnal. “Tangidos pela necessidade, na sede de ciência ou na angústiado amor que transpõe abismos, vencestes pesadas fronteiras vibra-tórias, encontrando-vos na estaca zero do caminho diferente quese vos antolha. Enquanto vossa organização fisiológica repousa adistância, exercitando-se para a morte, vossas almas quase libertaspartilham conosco a fraternidade e a esperança, adestrando facul-dades e sentimentos para a verdadeira vida. “Naturalmente, não podereis guardar plena recordação destahora, em retomando o envoltório carnal, em virtude da deficiênciado cérebro, incapaz de suportar a carga de duas vidas simultâneas;a lembrança de nosso entendimento persistirá, contudo, no fundode vosso ser, orientando-vos as tendências superiores para o terre-no da elevação e abrindo-vos a porta intuitiva para que vos assistanosso pensamento fraternal.” O orador fez breve pausa, fixando-nos o olhar calmo e lúcido,e, sob a leve e incessante chuva de raios argênteos, continuou: – “Enfastiados das repetidas sensações no plano grosseiro daexistência, intentais pisar outros domínios. Buscais a novidade, oconforto desconhecido, a solução de torturantes enigmas; todavia,não olvideis que a chama do próprio coração, convertido emsantuário de claridade divina, é a única lâmpada capaz de iluminaro mistério espiritual, em nossa marcha pela senda redentora eevolutiva. Ao lado de cada homem e de cada mulher, no mundo,
  20. 20. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 20permanece viva a Vontade de Deus, relativamente aos deveresque lhes cumprem. Cada qual tem à sua frente o serviço que lhecompete, como cada dia traz consigo possibilidades especiais derealização no bem. O Universo enquadra-se na ordem absoluta.Aves livres em limitados céus, interferimos no plano divino,criando para nós prisões e liames, libertação e enriquecimento.Insta, pois, nos adaptemos ao equilíbrio divino, atendendo à fun-ção insulada que nos cabe, em plena colméia da vida. “Desde quando fazemos e desfazemos, terminamos e recome-çamos, empreendemos a viagem reparadora e regressamos, per-plexos, para o reinício? Somos, no palco da Crosta planetária, osmesmos atores do drama evolutivo. Cada milênio é ato breve,cada século um cenário veloz. Utilizando corpos sagrados, per-demos, entretanto, quais despreocupadas crianças, entretidasapenas em jogos infantis, o ensejo santificante da existência;destarte, fazemo-nos réprobos das leis soberanas, que nos enre-dam aos escombros da morte, como náufragos piratas por muitotempo indignos do retorno às lides do mar. Enquanto milhões dealmas desfrutam bons ensejos de emenda e reajustamento, denovo entregues ao esforço regenerativo nas cidades terrestres,milhões de outras deploram a própria derrota, perdidas no atrorecesso da desilusão e do padecimento. “Não nos reportamos aqui aos missionários heróicos que su-portam as sangrentas feridas dos testemunhos angustiosos, porespírito de renúncia e de amor, de solidariedade e de sacrifício;são luzes provisoriamente apartadas da Luz Divina e que voltamao domicílio celeste, como o trabalhador fiel regressa ao lar, findaa cotidiana tarefa. “Referimo-nos às bastas multidões de almas indecisas, presasda ingratidão e da dúvida, da fraqueza e da dissipação, almasformadas à luz da razão, mas escravizadas à tirania do instinto.” E num rasgo de humildade cristã, Eusébio continuou:
  21. 21. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 21 – “Falamos de todos nós, viajores que extravagamos no de-serto da própria negação; de nós, pássaros de asas partidas, quetentamos voar ao ninho da liberdade e da paz, e que, no entanto,ainda nos debatemos no chavascal dos prazeres de ínfima estofa.Porque não represar o curso das paixões corrosivas que nos flage-lam o espírito? Porque não sofrear o ímpeto da animalidade, emque nos comprazemos, desde os primeiros laivos de raciocínio?Sempre o terrível dualismo da luz e das trevas, da compaixão e daperversidade, da inteligência e do impulso bestial. Estudamos aciência da espiritualidade consoladora desde os primórdios darazão e, todavia, desde as épocas mais remotas, consagramo-nosao aviltamento e ao morticínio. “Cantávamos hinos de louvor com Krishna, aprendendo oconceito da imortalidade da alma, à sombra das árvores augustasque aspiram aos cimos do Himalaia, e descíamos, logo depois, aovale do Ganges, matando e destruindo para gozar e possuir. Sole-trávamos o amor universal com Sidarta Gautama e perseguíamosos semelhantes, em aliança com os guerreiros cingaleses e hindus.Fomos herdeiros da Sabedoria, nos tempos distantes da Esfinge, e,no entanto, da reverência aos mistérios da iniciação, passávamos àhostilidade sanguissedenta, nas margens do Nilo. Acompanhandoa arca simbólica dos hebreus, reiteradas vezes líamos os manda-mentos de Jeová, contidos nos rolos sagrados, e, desatentos, osesquecíamos, ao primeiro clangor de guerra aos filisteus. Chorá-vamos de comoção religiosa em Atenas e assassinávamos nossosirmãos em Esparta. Admirávamos Pitágoras, o filósofo, e seguía-mos Alexandre, o conquistador. Em Roma, conduzíamos oferen-das valiosas aos deuses, nos maravilhosos santuários, exaltando avirtude, para desembainhar as armas, minutos depois, no átrio dostemplos, disseminando a morte e entronizando o crime; escrevía-mos formosas sentenças de respeito à vida, com Marco Aurélio, eordenávamos a matança de pessoas limpas de culpa e úteis àsociedade. Com Jesus, o Divino Crucificado, nossa atitude não
  22. 22. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 22tem sido diferente. Sobre os despojos dos mártires, imolados noscircos, vertemos rios de sangue em vindita cruel, armando foguei-ras do sectarismo religioso. Suportamos administradores arbitrá-rios e ignominiosos, de Nero a Diocleciano, porque tínhamosfome de poder, e quando Constantino nos abriu as portas da do-minação política, convertemo-nos de servos aparentemente fiéisao Evangelho em criminosos árbitros do mundo. Pouco a poucoesquecemos os cegos de Jericó, os paralíticos de Jerusalém, ascrianças do Tiberíades, os pescadores de Cafarnaum, para afagaras testas coroadas dos triunfadores, embora soubéssemos que osvencedores da Terra não podem fugir à peregrinação ao sepulcro.Tornou-se a idéia do Reino de Deus fantasia de ingênuos, poisnão largávamos o lado direito dos príncipes, sequiosos de fastígiomundano. Ainda hoje, decorridos quase vinte séculos sobre a cruzdo Salvador, benzemos baionetas e canhões, metralhadoras etanques de assalto, em nome do Pai Magnânimo, que faz refulgiro sol da misericórdia sobre os justos e sobre os injustos. “É por esta razão que nossos celeiros de luz permanecem va-zios. O vendaval das paixões fulminantes de homens e de povospassa ululante, de um a outro pólo, a semear maus presságios. “Até quando seremos gênios demolidores e perversos? Ao in-vés de servos leais do Senhor da Vida, temos sido soldados dosexércitos da ilusão, deixando à retaguarda milhões de túmulos,abertos sob aluviões de cinza e fumo. Debalde exortou-nos oCristo a buscar as manifestações do Pai em nosso próprio íntimo.Cevamos e expandimos unicamente o egoísmo e a ambição, avaidade e a fantasia na Crosta Planetária. Contraímos pesadosdébitos e escravizamo-nos aos tristes resultados de nossas obras,deixando-nos ficar, indefinidamente, na messe dos espinhos. “Foi assim que atingimos a época moderna, em que a loucurase generaliza e a harmonia mental do homem está a pique de
  23. 23. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 23soçobro. De cérebro evolvido e coração imaturo, requintamo-nos,presentemente, na arte de esfacelar o progresso espiritual.” O excelso orientador deu à oração mais longo intervalo, du-rante o qual observei companheiros em torno. Homens e mulhe-res, segurando alguns fortemente as mãos uns dos outros, exibiamextrema palidez no semblante estarrecido. Alguns deles, por certo,compareciam ali pela primeira vez, como eu, dado o extáticoassombro que se lhes estampava no rosto. Fixando na assembléia o olhar percuciente, o Instrutor pros-seguiu: – “Nos séculos pretéritos, as cidades florescentes do mundodesapareciam pelo massacre, ao gládio dos conquistadores sementranhas, ou estacionavam sob a onda mortífera da peste desco-nhecida e não atacada. Hoje, as coletividades humanas aindasofrem o assédio da espada homicida e chuvas de bombas arreme-tem contra populações indefesas; no entanto, a febre amarela, acólera e a varíola foram dominadas; a lepra, a tuberculose e ocâncer experimentam combate sem tréguas. Existe, porém, novaameaça ao domicílio terrestre: o profundo desequilíbrio, a desar-monia generalizada, as moléstias da alma que se ingerem, sutis,solapando-vos a estabilidade. “Vossos caminhos não parecem percorridos por seres consci-entes, mas semelham-se a estranhas veredas, ao longo das quaistripudiam duendes alucinados. Como fruto de eras sombrias,caracterizadas pela opressão e maldade recíprocas, em que temosvivido, odiando-nos uns aos outros, vemos a Terra convertida emcampo de quase intérminas hostilidades. Homens e nações perse-guem o mito do ouro fácil; criaturas sensíveis abandonam-se aosdistúrbios das paixões; cérebros vigorosos perdem a visão interi-or, enceguecidos pelos enganos da personalidade e do autorita-rismo. Empenhados em disputas intermináveis, em duelos formi-dandos de opinião, conduzidos por desvairadas ambições inferio-
  24. 24. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 24res, os filhos da Terra abeiram-se de novo abismo, que o olharconturbado não lhes deixa perceber. Esse hiante vórtice, meusirmãos, é o da alienação mental, que não nos desintegra só ospatrimônios celulares da vida física, senão também nos atinge otecido sutil da alma, invadindo-nos o cerne do corpo perispiritual.Quase todos os quadros da civilização moderna se acham com-prometidos na estrutura fundamental. Precisamos, pois, mobilizartodas as forças ao nosso alcance, a serviço da causa humana, queé a nossa própria causa. “O trabalho salvacionista não é exclusividade da religião:constitui ministério comum a todos, porque dia virá em que ohomem há de reconhecer a Divina Presença em toda a parte. Arealização que nos compete não se filia ao particularismo: é obragenérica para a coletividade, esforço do servidor honesto e since-ro, interessado no bem de todos. “Se visitais a nossa companhia buscando orientação para otrabalho sublime do espírito, não vos esqueça vossa luz própria.Não conteis com archotes alheios para a jornada. Em míserosplanos de sofrimento regenerador, nas vizinhanças da carne,choram amargamente milhões de homens e de mulheres queabusaram do concurso dos bons, precipitando-se nas trevas aoperder no túmulo os olhos efêmeros com que apreciavam a paisa-gem da vida à luz do Sol. Displicentes e recalcitrantes, esquiva-ram-se a todas as oportunidades de acender a própria lâmpada.Aborreciam os atritos da luta, elegeram o gozo corporal comoobjetivo supremo de seus propósitos na Terra; e, quando a mortelhes cerrou as pálpebras saciadas, passaram a conhecer uma noitemais longa e mais densa, referta de angústias e de pavores.” Nesse momento, Eusébio interrompeu-se por mais de um mi-nuto, como a recordar cenas comovedoras que as imagens de seuverbo evocavam, demonstrando certa vaguidade no olhar.
  25. 25. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 25 Notei a ansiedade com que a assembléia aguardava o retornode sua palavra. Damas sensibilizadas ressumbravam forte impres-são nas fisionomias transfiguradas e todos nós, ante a exposiçãoleal e comovente, nos mantínhamos quedos e aturdidos. Decorridos longos segundos, o orador prosseguiu com infle-xão enérgica e patriarcal: – “Procurais conosco a precisa orientação para os trabalhosque vos tangem presentemente na Crosta da Terra. Seduzidos pelaclaridade da Esfera Superior, fascinados pelas primeiras noçõesdo amor universal, desejais a graça da cooperação na sementeirado porvir. Reclamais asas para os surtos sublimes, tendes em miracoadjuvar no esforço de elevação. “Indubitavelmente, a intenção não pode ser mais nobre; é, en-tretanto, indispensável considereis a vossa necessidade de integra-ção no dever de cada dia. Impossível é progredir no século, sematender às obrigações da hora. Torna-se imprescindível, na atuali-dade, recompor as energias, reajustar as aspirações e santificar osdesejos. “Não basta crer na imortalidade da alma. Inadiável é a ilumi-nação de nós mesmos, a fim de que sejamos claridade sublime.Não basta, para o arrojado cometimento da redenção, o simplesreconhecimento da sobrevivência da alma e do intercâmbio entreos dois mundos. Os levianos e os maus, os ignorantes e os estul-tos, podem corresponder-se igualmente a distância, de país a país.Antes de mais nada importa elevar o coração, romper as muralhasque nos encerram na sombra, esquecer as ilusões da posse, dilace-rar os véus espessos da vaidade, abster-se do letal licor do perso-nalismo aviltante, para que os clarões do monte refuljam no fundodos vales, a fim de que o sol eterno de Deus dissipe as transitóriastrevas humanas. “Vanguardeiros da fé viva, que o desejais ser doravante nomundo, não obstante os percalços que se nos defrontam, exige-se
  26. 26. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 26de vós a cabal demonstração de estardes certos da espiritualidadedivina. “O Plano Superior não se interessa pela incorporação de de-votos famintos de um paraíso beatifico. Admitiríeis, porventura,vossa permanência na Crosta Planetária, sem finalidades específi-cas? Se a erva tenra deve produzir consoante objetivos superiores,que dizer da magnífica inteligência do homem encarnado? Quenão há que esperar da razão iluminada pela fé! Receberíamos tãosagrados depósitos de conhecimento edificante para um sacrifíciopor nada? Teríamos o aljôfar de tais bênçãos para fortalecer opropósito egoístico de alcançar o céu sem escalas preparatórias,sem atividades purificadoras? “Nossa meta, meus amigos, não se compadece com o exclusi-vismo ególatra. A Porta Divina não se abre a espíritos que se nãodivinizaram pelo trabalho incessante de cooperação com o PaiAltíssimo. E o solo do Planeta, a que vos prendeis provisoriamen-te, representa o abençoado círculo de colaboração que o Senhorvos confia. Recolhei o orvalho celeste no escrínio do coraçãosedento de paz; contemplai as estrelas que nos acenam de longe,como sublimes ápices da Divindade; todavia, não olvideis o cam-po de lutas presentes. “O espiritualismo, nos tempos modernos, não pode restringirDeus entre as paredes de um templo da Terra, porque a nossamissão essencial é a de converter toda a Terra no templo augustode Deus. “Para a nossa vanguarda de obreiros decididos e valorosospassou a face de experimentação fútil, de investigações desorde-nadas, de raciocínios periféricos. Vivemos a estruturação de sen-timentos novos, argamassando as colunas do mundo vindouro,com a luz acesa em nosso campo íntimo. Natural é que os apren-dizes recém-chegados experimentem, examinem, operem sonda-gens e evoquem teorias brilhantes, em que as hipóteses concorram
  27. 27. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 27ao lado da exibição personalista: compreensível e razoável. Todaescola caracteriza-se pelos diversos cursos, que lhe formam osquadros e as disciplinas. Não nos dirigimos aqui, porém, aos queainda sonham na clausura do eu, enredados nos mil obstáculos dafantasia que lhes cristaliza as impressões. Falamos a vós outros,que sentis a sede de universalismo, anônimos companheiros dahumanidade que se esforça por emergir das trevas para a luz.Como aceitardes a estagnação como princípio e a felicidade ex-clusivista como fim? “Alimentemos a esperança renovadora. Não invoqueis Jesuspara justificar anseios de repouso indébito. Ele não atingiu asculminâncias da Ressurreição sem subir ao Calvário e as suaslições referem-se à fé que transporta montanhas. “Não reclamemos, pois, ingresso em mundos felizes, antes demelhorar o nosso próprio mundo. Esquecei o velho erro de que amorte do corpo constitui milagrosa imersão da alma no rio doencantamento. Rendamos culto à vida permanente, à justiça per-feita, e adaptemo-nos à Lei que nos apreciará o mérito sempre deconformidade com as nossas próprias obras. “Nosso ministério é de iluminação e de eternidade. “O Governo Universal não nos circunscreveu as atividades àguarda de altares perecíveis. Não fomos convocados a velar nocírculo particular duma interpretação exclusivista, senão a coope-rar na libertação do espírito encarnado, abrindo horizontes maisclaros à razão humana, refazendo o edifício da fé redentora que asreligiões literalistas esqueceram. “Sopros imensos da onda evolucionista varrem os ambientesda Terra. Todos os dias ruem princípios convencionais, mantidosa titulo de invioláveis durante séculos. A mente humana, perplexa,é compelida a transições angustiosas. A subversão de valores, aexperiência social e o processo acelerado de seleção pelo sofri-mento coletivo perturbam os tímidos e os invigilantes, que repre-
  28. 28. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 28sentam esmagadora maioria em toda parte... Como atender a essesmilhões de necessitados espirituais, se não receberdes a responsa-bilidade do socorro fraterno? Como sanar a loucura incipiente, senão vos transformardes em ímãs que mantenham o equilíbrio?Sabemos que a harmonia interior não é artigo de oferta e procuranos mercados terrestres, mas aquisição espiritual só acessível notemplo do Espírito. “Faz-se, pois, mister acendamos o coração em amor fraternal,à frente do serviço. Não bastará, em nossas realizações, a crençaque espera; indispensável é o amor que confia e atende, transfor-ma e eleva, como vaso legítimo da Sabedoria Divina. “Sejamos instrumentos do bem, acima de expectantes da gra-ça. A tarefa demanda coragem e suprema devoção a Deus. Semque nos convertamos em luz, no círculo em que estivermos, emvão acometeremos a sombra, aos nossos próprios pés. E, no pros-seguimento da ação que nos compete, não nos esqueçamos de quea evangelização das relações entre as esferas visíveis e invisíveisé dever tão natural e tão inadiável da tarefa quanto a evangeliza-ção das pessoas. “Não busqueis o maravilhoso: a sede do milagre pode viciar-vos e perder-vos. “Vinculai-vos, pela oração e pelo trabalho construtivo, aosplanos superiores e estes vos proporcionarão contacto com osArmazéns Divinos, que suprem a cada um de nós segundo a justanecessidade. “As ordenações que vos ajoujam na paisagem terrena, pormais ásperas ou desagradáveis, representam a Vontade Suprema. “Não galgueis os obstáculos, nem tenteis contorná-los pelafuga deliberada: vencei-os, utilizando a vontade e a perseverança,ensejando crescimento aos vossos próprios valores.
  29. 29. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 29 “Cuidai em não transitar sem a devida prudência nos cami-nhos da carne, em que, muita vez, imitais a mariposa estouvada.Atendei as exigências de cada dia, rejubilando-vos por satisfazeras tarefas mínimas. “Não intenteis o vôo sem haver aprendido a marcha. “Sobretudo, não indagueis de direitos prováveis que vos ca-beriam no banquete divino, antes de liquidar os compromissoshumanos. “Impossível é o título de anjos, sem serdes, antes, criaturasponderadas. “Soberanas e indefectíveis leis nos presidem aos destinos.Somos conhecidos e examinados em toda parte. “As facilidades concedidas aos espíritos santificados, queadmiramos, são prodigalizadas a nós, por Deus, em todos oslugares. O aproveitamento, porém, é obra nossa. As máquinasterrestres podem alçar-vos o corpo físico a consideráveis alturas,mas o vôo espiritual, com que vos libertareis da animalidade,jamais o desferireis sem asas próprias. “A consolação e a amizade de benfeitores encarnados e de-sencarnados enriquecer-vos-ão de conforto, quais suaves e aben-çoadas flores da alma; entretanto, fenecerão como as rosas de umdia, se não fertilizardes o coração com a fé e o entendimento, coma esperança inquebrantável e o amor imortal, sublimes adubos quelhes propiciem o desenvolvimento no terreno do vosso esforçosem tréguas. “Não cobiceis o repouso das mãos e dos pés; antes de abrigarsemelhante propósito, procurai a paz interior na suprema tranqüi-lidade da consciência. “Abandonai a ilusão, antes que a ilusão vos abandone.
  30. 30. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 30 “Empolgando a chefia da própria existência, deixai plantadoo bem na esteira de vossos passos. “Somente os servos que trabalham gravam no tempo os mar-cos da evolução; só os que se banham no suor da responsabilidadeconseguem cunhar novas formas de vida e de ideal renovador. Osdemais, chamem-se monarcas ou príncipes, ministros ou legisla-dores, sacerdotes ou generais, entregues à ociosidade, classificam-se na ordem dos sugadores da Terra; não chegam a assinalar suapermanência provisória na Crosta do Planeta; adejam como inse-tos multicores, tornando à poeira de que se alçaram por algunsminutos. “Regressando, pois, ao corpo de carne, valei-vos da luz paraas edificações necessárias. “Participemos do glorioso Espírito do Cristo. “Convertamo-nos em claridade redentora. “O desequilíbrio generalizado e crescente invade os departa-mentos da mente humana. Combatem-se, desesperadamente, asnações e as ideologias, os sistemas e os princípios. Estabelecida atrégua nas lutas internacionais, surgem deploráveis guerras civis,armando irmãos contra irmãos. A indisciplina fomenta greves, aânsia de libertação perturba o domicílio dos povos. Guerreiam-seas esferas de ação entre si; encarnados e desencarnados de ten-dências inferiores colidem ferozmente, aos milhões. Inúmeroslares transformam-se em ambientes de inconformação e desarmo-nia. Duela o homem consigo mesmo no atual processo aceleradode transição. “Equilibrai-vos, pois, na edificação necessária, convictos deque é impossível confundir a Lei ou trair-lhe os ditames univer-sais!”
  31. 31. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 31 Perorando, Eusébio proferiu bela e sentida prece, invocandoas bênçãos divinas para a assembléia. Sublimes manifestações deluz fizeram-se, então, sentir sobre nós. Encerrados os trabalhos, os companheiros ainda presos aocírculo carnal começaram a retirar-se em respeitoso silêncio. Calderaro conduziu-me à presença do Instrutor e apresentou-me. O alto dirigente recebeu-me com afabilidade e doçura, cumu-lando-me de palavras de incentivo. Precisávamos servir, explicouele, encarecendo as necessidades de assistência espiritual amonto-adas em toda a parte, reclamando cooperadores abnegados e fiéis. Quando Calderaro se referiu aos meus projetos, mostrou-meEusébio paternal sorriso e, expondo-nos providências diversas atomar, recomendou nos puséssemos em contacto com o gruposocorrista a que o Assistente emprestava ativa colaboração. Logo após, ao retirar-se, ladeado pelos assessores que lhecompunham a comitiva, o nobre mentor confortou-me, bondoso: – Sê feliz! Dirigindo a Calderaro expressivo olhar, acrescentou: – Dado ensejo, conduze-o ao serviço de assistência às caver-nas. Tomado de curiosidade, agradeci sensibilizado e dispus-me aesperar.
  32. 32. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 32 3 A Casa Mental Retomando a companhia de Calderaro, na manhã luminosa,absorvia-me o propósito de enriquecer noções pertinentes àsmanifestações da vida próxima à esfera física. Admitido à colônia espiritual, que me recebera com extrema-do carinho, conhecia de perto alguns instrutores e fiéis operáriosdo bem. Inquestionavelmente, vivíamos todos em intenso trabalho,com escassas horas reservadas a excursões de entretenimento;demais, fruíamos ambiente de felicidade e alegria a favorecer-nosa marcha evolutiva. Nossos templos constituíam, por si sós, aben-çoados núcleos de conforto e de revigoramento. Nas associaçõesculturais e artísticas encontrávamos a continuidade da existênciaterrestre, enriquecida, porém, de múltiplos elementos educativos.O campo social regurgitava de oportunidades maravilhosas para aaquisição de inestimáveis afeições. Os lares, em que situávamos oserviço diuturno, erguiam-se entre jardins encantadores, quaisninhos tépidos e venturosos em frondes perfumadas e tranqüilas. Não nos faltavam determinações e deveres, ordem e discipli-na; entretanto, a serenidade era nosso clima, e a paz, nossa dádivade cada dia. Arremessara-nos a morte a atmosfera estranha à luta física. Aprimeira sensação fora o choque. Empolgara-nos o imprevisto.Continuávamos vivendo, apenas sem a máquina fisiológica, masas novas condições de existência não significavam subtração daoportunidade de evolver. Os motivos de competição benéfica, aspossibilidades de crescimento espiritual haviam lucrado infinita-mente. Podíamos recorrer aos poderes superiores, entreter rela-ções edificantes, tecer esperanças e sonhos de amor, projetar
  33. 33. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 33experiências mais elevadas no setor reencarnacionista, aprimo-rando-nos no trabalho e no estudo e dilatando a capacidade deservir. Em suma, a passagem pelo sepulcro conduzira-nos a uma vi-da melhor; mas... e os milhões que transpunham o estreito limiarda morte, permanecendo apegados à Crosta da Terra? Incalculáveis multidões desse gênero mantinham-se na faserudimentar do conhecimento; apenas possuíam algumas informa-ções primárias da vida; exoravam amparo dos Espíritos Superio-res, como as tribos primitivas reclamam o concurso dos homenscivilizados; precisavam de desenvolver faculdades, como as cri-anças de crescer; não permaneciam chumbadas à esfera carnal pormaldade, senão que se demoravam, hesitantes, no chão terreno,como os pequeninos descendentes dos homens se conchegam aoseio materno; guardavam da existência apenas a lembrança docampo sensitivo, reclamando a reencarnação quase imediataquando lhes não era possível a matrícula em nossos educandáriosde serviço e aprendizado iniciais. Por outro lado, verdadeirasfalanges de criminosos e transviados agitavam-se, não longe denós, depois de haverem transposto as fronteiras do túmulo; con-sumiam, por vezes, inúmeros anos entre a revolta e a desespera-ção, personificando hórridos gênios da sombra, como ocorre, noscírculos terrenos, com os delinqüentes contumazes, segregados dasociedade sadia; mas sempre terminavam a corrida louca nosdesvios escuros do remorso e do sofrimento, penitenciando-se,por fim, de suas perversidades. O arrependimento é, porém, cami-nho para a regeneração e nunca passaporte direto para o céu,razão pela qual esses infelizes formavam quadros vivos de pade-cimento e de horror. Em várias experiências, via-os conturbados e aflitos, assu-mindo formas desagradáveis ao olhar.
  34. 34. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 34 Nos casos de obsessão convertiam-se em recíprocos algozes,ou, então, em verdugos frios das vítimas encarnadas; quandoerrantes ou circunscritos aos vales de punição, aterravam semprepelos espetáculos de dor e de miséria sem limites. No entanto, era forçoso convir, eles, os desventurados, e nósoutros, que continuávamos trabalhando em ritmo normal, atraves-sáramos portas idênticas. Talvez, em muitos casos, houvéssemosabandonado o invólucro material sob o assédio de doenças análo-gas. Isto considerando e por desejar conhecer a Divina Lei, quenão concede paraísos de favor nem estabelece infernos eternais,confrangia-me o contemplar as imensas fileiras de infortunados. Efetivamente, identificara numerosos deles em câmaras reti-ficadoras, através de múltiplas instituições de beneficência; toda-via, esses, situados na zona de amparo fraterno, apresentavam aseu favor sintomas de melhora quanto ao reconhecimento daspróprias falhas ou aos créditos espirituais de que gozavam, mercêde certas forças intercessoras. Os infelizes, a que aludimos, provinham, porém, de outras o-rigens. Eram os ignorantes, os revoltados, os perturbadores e osimpenitentes, de alma impermeável às advertências edificantes, osenfatuados e os vaidosos dos mais vários matizes, perseverantesno mal, dissipadores da energia anímica, em atitudes perversasdiante da vida. Meu contacto com eles, em diversas ocasiões, fora simplesencontro fortuito, sem maior significação para meu esclarecimen-to. Por que motivo se demoravam tanto no hemisfério obscuro daincompreensão? Adiavam, deliberadamente, a recepção da luz?Não lhes doeria a condição de seres condenados, por si mesmos, alongas penas? Não experimentariam vergonha pela perda voluntá-ria de tempo? Muita vez, surpreendia-me a contemplá-los... Ostraços fisionômicos de muitos desses desventurados pareciam
  35. 35. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 35monstruoso desenho, provocando ironia e piedade. Que lei regeriaa estereotipação de suas formas? Tê-los-ia olvidado a mãe-natureza, pródiga de bênçãos em todos os planos, ou recebiameles esses traços de apresentação pessoal como castigo impostopor superiores desígnios? Tais interrogações que me esfervilhavam no cérebro me pu-nham aflito por viver a possibilidade que se me oferecia. Aproximei-me de Calderaro, naquela manhã, sedento de sa-ber. Expus-lhe minhas indagações íntimas, relatei-lhe aos ouvidostolerantes minha expectativa ansiosa, longamente sofreada; pre-tendia conhecer os que se entretinham na maldade, no crime, nainconformação. Meu amigo escutou calmo, sorriu benevolamente e começoupor esclarecer: – Antes de mais nada, André, modifiquemos o conceito. Paratransformar-nos em legítimos elementos de auxílio aos Espíritossofredores, desencarnados ou não, é-nos imprescindível compre-ender a perversidade como loucura, a revolta como ignorância e odesespero como enfermidade. Ante a minha perplexidade, acrescentou, fraternal: – Entendeste? Estas definições, em verdade, não são minhas.Aprendemo-las do Cristo, em seu trato divino com a nossa posi-ção de inferioridade, na Crosta Terrestre. Julguei que o Instrutor se estendesse em longa exposição ver-balista, relativa ao assunto, trazendo referências preciosas e co-mentando experiências pessoais. Nada disto; Calderaro informou-me simplesmente: – A cegueira do espírito é fruto da espessa ignorância em ma-nifestações primárias ou do obnubilamento da razão nos estadosde aviltamento do ser. Nosso interesse, no socorro à mente dese-quilibrada, é analisar este último aspecto da sombra que pesa
  36. 36. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 36sobre as almas; assim sendo, faz-se mister saberes alguma coisada loucura no âmbito da civilização. Para isto, convém estudar-mos, mais detidamente, o cérebro do homem encarnado e o dohomem desencarnado em posição desarmônica, por situarmos aí oórgão de manifestação da atividade espiritual. Desejaria continuar ouvindo-o nas explicações claras e con-vincentes, a lhe fluírem dos lábios, mas Calderaro silenciou paraafirmar, passados alguns instantes: – Não disponho de muito tempo para discretear de matéria es-tranha aos meus serviços; todavia, lidaremos juntos, convictos deque, trabalhando nas boas obras, aprenderemos sempre a ciênciada elevação. Sorriu, fraternal, e rematou: – O verbo gasto em serviços do bem é cimento divino pararealizações imorredouras. Conversaremos, pois, servindo aosnossos semelhantes de modo substancial, e nosso lucro será cres-cente. Calei-me, edificado. Daí a minutos, acompanhando-o, penetrei vasto hospital, de-tendo-nos diante do leito de certo enfermo, que o Assistente deve-ria socorrer. Abatido e pálido, mantinha-se ele unido a deplorávelentidade de nosso plano, em míseras condições de inferioridade ede sofrimento. O doente, embora quase imóvel, acusava fortetensão de nervos, sem perceber, com os olhos físicos, a presençado companheiro de sinistro aspecto. Pareciam visceralmentejungidos um ao outro, tal a abundância de fios tenuíssimos quemutuamente os entrelaçavam, desde o tórax à cabeça, pelo que seme afiguravam dois prisioneiros de uma rede fluídica. Pensamen-tos de um deles com certeza viveriam no cérebro do outro. Como-ções e sentimentos seriam permutados entre ambos com matemá-tica precisão. Espiritualmente, estariam, de contínuo, perfeitamen-
  37. 37. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 37te identificados entre si. Observava-lhes, admirado, o fluxo decomuns vibrações mentais. Dispunha-me a comentar o fenômeno, quando Calderaro, per-cebendo-me a intenção, se adiantou, recomendando: – Examina o cérebro de nosso irmão encarnado. Concentrei-me na contemplação do delicado aparelho, centra-lizando toda a minha capacidade visual, de modo a analisá-lointeriormente. O envoltório craniano, ante meus poderes visuais intensifica-dos, não apresentava resistência. Como reparara de outras vezes,ali estava o complicado departamento da produção mental, seme-lhando-se a laboratório dos mais complexos e menos acessíveis.As circunvoluções separadas entre si, reunidas em lobos, igual-mente distanciados uns dos outros pelas cissuras, davam-me aidéia de um aparelho elétrico, quase indevassado pelos homens.Comparando os dois hemisférios, recordei as designações daterminologia clássica e demorei-me longos minutos reparando asespeciais disposições dos nervos e as características da substânciacinzenta. A voz do meu orientador quebrou o silêncio, exclamando i-nopinadamente: – Observa a sinalização. Assombrado, notei, pela primeira vez, que as irradiações emi-tidas pelo cérebro continham diferenças essenciais. Cada centromotor assinalava-se com peculiaridades diversas, através dasforças radiantes. Descobri, surpreso, que toda a província cere-bral, pelos sinais luminosos, se dividia em três regiões distintas.Nos lobos frontais, as zonas de associação eram quase brilhantes.Do córtex motor, até a extremidade da medula espinhal, a clarida-de diminuía, para tomar-se ainda mais fraca nos gânglios basais.
  38. 38. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 38 Já despendia alguns minutos na contemplação das célulasnervosas, quando o Assistente me aconselhou: – Examinaste o cérebro do companheiro que ainda se prendeao veículo denso; observa, agora, o mesmo órgão no amigo de-sencarnado que o influencia de modo direto. A entidade, que não se dava conta de nossa presença, em vir-tude do círculo de vibrações grosseiras em que se mantinha, fixa-va toda a atenção no doente, lembrando a sagacidade de um felinovigiando a presa. Observei-lhe estranha ferida na região torácica e dispunha-mea investigar-lhe a causa, sondando os pulmões, quando Calderarome corrigiu sem afetação: – Trataremos da chaga no trabalho de assistência. Concentraas possibilidades da visão no cérebro. Decorridos alguns momentos, concluí que, à parte a configu-ração das peças e o ritmo vibratório, tinha sob os olhos dois cére-bros quase idênticos. Diferia o campo mental do desencarnado,revelando alguma superioridade no terreno da substância, que, nocorpo perispiritual, era mais leve e menos obscura. Tive a impres-são de que, se lavássemos, por dentro, o cérebro do amigo estira-do no leito, escoimando-o de certos corpúsculos mais pesados,seria ele quase igual, em essência, ao da entidade que eu mantinhasob exame. As divisões luminosas, porém, eram em tudo análo-gas. Mais luz nos lobos frontais, menos luz no córtex motor equase nenhuma na medula espinhal, onde as irradiações se faziamdifusas e opacas. Interrompi o estudo comparativo, depois de acurada perquiri-ção, e fixei Calderaro em silenciosa interrogativa. O prestimoso mentor argumentou, sorridente: – Depois da morte física, o que há de mais surpreendente paranós é o reencontro da vida. Aqui aprendemos que o organismo
  39. 39. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 39perispirítico que nos condiciona em matéria mais leve e maisplástica, após o sepulcro, é fruto igualmente do processo evoluti-vo. Não somos criações milagrosas, destinadas ao adorno de umparaíso de papelão. Somos filhos de Deus e herdeiros dos séculos,conquistando valores, de experiência em experiência, de milênio amilênio. Não há favoritismo no Templo Universal do Eterno etodas as forças da Criação aperfeiçoam-se no Infinito. A crisálidade consciência, que reside no cristal a rolar na corrente do rio, aíse acha em processo liberatório; as árvores que por vezes se a-prumam centenas de anos, a suportar os golpes do inverno e aca-lentadas pelas carícias da primavera, estão conquistando a memó-ria; a fêmea do tigre, lambendo os filhinhos recém-natos, aprenderudimentos do amor; o símio, guinchando, organiza a faculdadeda palavra. Em verdade, Deus criou o mundo, mas nós nos con-servamos ainda longe da obra completa. Os seres que habitam oUniverso ressumbrarão suor por muito tempo, a aprimorá-lo.Assim também a individualidade. Somos criação do Autor Divinoe devemos aperfeiçoar-nos integralmente. O Eterno Pai estabele-ceu como lei universal que seja a perfeição obra de cooperativis-mo entre Ele e nós, os seus filhos. O mentor silenciou por instantes, sem que me acudisse ânimosuficiente para trazer qualquer comentário aos seus elevadosconceitos. Logo após, indicou-me a medula espinhal e continuou: – Creio ociosa qualquer alusão aos trabalhos primordiais donosso longo drama de vida evolutiva. Desde a ameba, na tépidaágua do mar, até o homem, vimos lutando, aprendendo e selecio-nando invariavelmente. Para adquirir movimento e músculos,faculdades e raciocínios, experimentamos a vida e por ela fomosexperimentados, milhares de anos. As páginas da sabedoria hindu-ísta são escritos de ontem e a Boa-Nova de Jesus-Cristo é matéria
  40. 40. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 40de hoje, comparadas aos milênios vividos por nós, na jornadaprogressiva. Depois de fazer com a destra significativo gesto, prosseguiu: – No sistema nervoso, temos o cérebro inicial, repositório dosmovimentos instintivos e sede das atividades subconscientes;figuremo-lo como sendo o porão da individualidade, onde arqui-vamos todas as experiências e registramos os menores fatos davida. Na região do córtex motor, zona intermediária entre os lobosfrontais e os nervos, temos o cérebro desenvolvido, consubstanci-ando as energias motoras de que se serve a nossa mente para asmanifestações imprescindíveis no atual momento evolutivo donosso modo de ser. Nos planos dos lobos frontais, silenciososainda para a investigação científica do mundo, jazem materiais deordem sublime, que conquistaremos gradualmente, no esforço deascensão, representando a parte mais nobre de nosso organismodivino em evolução. Os esclarecimentos singelos e admiráveis empolgavam-me.Calderaro era educador da mais elevada estirpe. Ensinava semcansar, sabia conduzir o aprendiz a conhecimentos profundos semnenhum sacrifício da parte do aluno. Apreciava-lhe eu a nobreza, quando prosseguiu, findo breveintervalo: – Não podemos dizer que possuímos três cérebros simultane-amente. Temos apenas um que, porém, se divide em três regiõesdistintas. Tomemo-lo como se fora um castelo de três andares: noprimeiro situamos a residência de nossos impulsos automáticos,simbolizando o sumário vivo dos serviços realizados; no segundolocalizamos o domicílio das conquistas atuais, onde se erguem ese consolidam as qualidades nobres que estamos edificando; noterceiro, temos a casa das noções superiores, indicando as emi-nências que nos cumpre atingir. Num deles moram o hábito e oautomatismo; no outro residem o esforço e a vontade; e no último
  41. 41. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 41demoram o ideal e a meta superior a ser alcançada. Distribuímos,deste modo, nos três andares, o subconsciente, o consciente e osuperconsciente. Como vemos, possuímos, em nós mesmos, opassado, o presente e o futuro. Verificando-se pausa mais longa, dei curso às ponderaçõesíntimas, segundo antigo vezo de inquirir. As preciosas explicações que ouvira não poderiam ser maissimples, nem mais lógicas. Entretanto, perquiria a mim mesmo: océrebro de um desencarnado seria também suscetível de adoecer?Sabia eu que a substância cinzenta, no mundo carnal, podia seracometida pelos tumores, pelo amolecimento, pela hemorragia;mas na esfera nova, a que a morte me conduzira, que fenômenosmórbidos assediariam a mente? Calderaro registrou-me as indagações e esclareceu: – Não discutiremos aqui as moléstias físicas propriamente di-tas. Quem acompanha, como nós, desde muito tempo, o ministériodos psiquiatras verdadeiramente consagrados ao bem do próximo,conhece, à saciedade, que todos os títulos de gratidão humanapermanecem inexpressivos ante o apostolado de um Paul Broca,que identificou a enfermidade do centro da palavra, ou de umWagner Jauregg, que se dedicou à cura da paralisia, em persegui-ção ao espiroqueta da sífilis, até encontrá-lo no recesso da matériacinzenta, perturbando as zonas motoras. Diante de fenômenoscomo estes, é compreensível a quebra da harmonia cerebral emconseqüência de compulsoriamente se arredarem das aglutinaçõescelulares do campo fisiológico os princípios do corpo perispiritu-al; essas aglutinações ficam, então, desordenadas em sua estruturae atividades normais, qual acontece ao violino incapacitado para aexecução perfeita dum trecho melódico, por trazer uma ou duascordas desafinadas. Não devemos, nem podemos ignorar as leisque regem os domínios da forma... Daí a impossibilidade de que-rermos psicologia equilibrada sem fisiologia harmoniosa, na
  42. 42. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 42esfera da ciência humana: isto é caso pacífico. Referir-nos-emostão só às manifestações espirituais em sua essência. Indagas se amente desencarnada pode adoecer... Que pergunta! Cuidas que amaldade deliberada não seja moléstia da alma? que o ódio nãoconstitua morbo terrível? Supões, porventura, não haja vermesmentais da tristeza e da inconformação? Embora tenhamos afelicidade de agir num corpo mais sutil e mais leve, graças ànatureza de nossos pensamentos e aspirações, já distantes daszonas grosseiras da vida que deixamos, não possuímos ainda océrebro dos anjos. Constitui-nos incessante trabalho a conserva-ção de nossa forma atual, a caminho de conquistas mais alcando-radas; não podemos descansar nos processos iluminativos; cum-pre-nos purificar sempre, selecionar pendores e joeirar concep-ções, de molde a não interromper a marcha. Milhões vivem aqui,na posição em que nos achamos, mas outros milhões permanecemna carne ou em nossas linhas mais baixas de evolução, sob oguante de atroz demência. É para esses que devemos cogitar dapatologia do espírito, socorrendo os mais infelizes e interferindofraternal e indiretamente na solução de problemas escabrosos emcujos fios negros se enredam. São duendes em desespero, vítimasde si mesmos, em terrível colheita de espinhos e desilusões. Ocorpo perispiritual humano, vaso de nossas manifestações, é, porora, a nossa mais alta conquista na Terra, no capítulo das formas.Para as almas esclarecidas, já iluminadas de redentora luz, repre-senta ele uma ponte para o campo superior da vida eterna, aindanão atingido por nós mesmos; para os espíritos vulgares é a restri-ção indispensável e justa; para as consciências culpadas, é cadeiaintraduzível, pois, além do mais, registra os erros cometidos,guardando-os com todas as particularidades vivas dos negrosmomentos da queda. O gênero de vida de cada um, no invólucrocarnal, determina a densidade do organismo perispirítico após aperda do corpo denso. Ora, o cérebro é o instrumento que traduz a
  43. 43. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 43mente, manancial de nossos pensamentos. Através dele, pois,unimo-nos à luz ou à treva, ao bem ou ao mal. Percebendo a atenção com que lhe seguia os preciosos escla-recimentos, Calderaro sorriu significativamente e perguntou: – Compreendeste? Indicando os dois sofredores, ao nosso lado, prosseguiu: – Examinamos aqui dois enfermos: um, na carne; outro, foradela. Ambos trazem o cérebro intoxicado, sintonizando-se absolu-tamente um com o outro. Espiritualmente, rolaram do terceiroandar, onde situamos as concepções superiores, e, entregando-seao relaxamento da vontade, deixaram de acolher-se no segundoandar, sede do esforço próprio, perdendo valiosa oportunidade dereerguer-se; caíram, destarte, na esfera dos impulsos instintivos,onde se arquivam todas as experiências da animalidade anterior.Ambos detestam a vida, odeiam-se reciprocamente, desesperam-se, asilam idéias de tormento, de aflição, de vingança. Em suma,estão loucos, embora o mundo lhes não vislumbre o supremodesequilíbrio, que se verifica no íntimo da organização perispiri-tual. Dispunha-me a desfiar longa lista de perguntas alusivas àsduas personagens em foco, mas o interlocutor iniciou o serviço deassistência direta e, impondo a destra no lobo frontal esquerdo dodoente encarnado, falou-me, afável: – Cala, meu amigo, tuas ansiosas indagações. Acalma-te. Notranscurso de nossos trabalhos explicar-te-ei quanto estiver aoalcance de meus conhecimentos.
  44. 44. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 44 4 Estudando o cérebro Com a mão fraterna espalmada sobre a fronte do enfermo,como a transmitir-lhe vigorosos fluidos de vida renovadora, Cal-deraro esclareceu-me, bondoso: – Há vinte anos, aproximadamente, este amigo pôs fim aocorpo físico do seu atual verdugo, num doloroso capitulo de san-gue. Iniciei o serviço de assistência a ele, só há três dias; no en-tanto, já me inteirei da sua comovente história. Dirigiu compassivo olhar ao algoz desencarnado e prosse-guiu: – Trabalhavam juntos, numa grande cidade, entregues ao co-mércio de quinquilharias. O homicida desempenhava funções deempregado da vítima, desde a infância, e, atingida a maioridade,exigiu do chefe, que passara a tutor, o pagamento de vários anosde serviço. Negou-se o patrão, terminantemente, a satisfazê-lo,alegando as fadigas que vivera para assisti-lo na infância e najuventude. Propiciar-lhe-ia vantajosa posição no campo dos negó-cios, conceder-lhe-ia interesses substanciais, mas não lhe pagariavintém relativamente ao passado. Até ali, guardara-o à conta deum filho, que lhe reclamava continua assistência. Estalou a con-tenda. Palavras rudes, trocadas entre vibrações de cólera, inflama-ram o cérebro do rapaz, que, no auge da ira, o assassinou, domi-nado por selvagem fúria. Antes, porém, de fugir do local, o crimi-noso correu ao cofre, em que se amontoavam fartos pacotes depapel-moeda, retirou a importância vultosa a que se supunha comdireito, deixando intacta regular fortuna que despistaria a políciano dia imediato. Efetivamente, na manhã seguinte ele próprio veioà casa comercial, onde a vítima pernoitava enquanto a pequenafamília fazia longa estação no campo, e, fingindo preocupação
  45. 45. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 45ante as portas cerradas, convidou um guarda a segui-lo, a fim deviolarem ambos uma das fechaduras. Em poucos momentos,espalhava-se a notícia do crime; no entanto, a justiça humana,emalhada nas habilidades do delinqüente, não conseguiu esclare-cer o problema na origem. O assassino foi pródigo nos cuidadosde salvaguardar os interesses do morto. Mandou selar cofres elivros. Providenciou arrolamentos laboriosos. Requisitou amparodas autoridades legais para minucioso exame da situação. Foiverdadeiro advogado da viúva e dos dois filhinhos do tutor faleci-do, os quais, mercê de seu devotamento, receberam substanciosaherança. Pranteou a ocorrência, como se o desencarnado lhe fossepai. Terminada a questão, com a inanidade do aparelho judiciáriodiante do enigma, retirou-se, discreto, para grande centro industri-al, onde aplicou os recursos econômicos em atividades lucrativas. O mentor estampou diferente brilho no olhar, fez pequenapausa e acrescentou: – Conseguiu ludibriar os homens, mas não pôde iludir a simesmo. A entidade desencarnada, concentrando a mente na idéiade vingança, passou, perseverante, a segui-lo. Aferrou-se-lhe àorganização psíquica, à maneira de hera sobre muro viscoso. Tudofez o homicida para atenuar-lhe o assédio constante. Desdobrou-se nos empreendimentos materiais, ansiando esquecimento de simesmo e pondo em prática iniciativas que lhe fizeram afluir aocofre enormes quantias, valorizando-lhe os títulos bancários.Observando, entretanto, que os altos patrimônios econômicos nãolhe arrefeciam a intranqüilidade e o sofrimento inconfessáveis,deu-se pressa em casar, aflito por sossegar o próprio íntimo. Des-posou uma jovem de alma extremamente elevada à zona superiorda vida humana, a qual lhe deu cinco filhinhos encantadores. Noclima espiritual da mulher escolhida, conseguiu, de certo modo,equilibrar-se, conquanto a vítima nunca o largasse. Ocasiõeshouve em que se engolfava nas mais cruéis depressões nervosas,
  46. 46. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 46assaltado por estranhos pesadelos aos olhos dos familiares; massempre resistia, amparado, até certo ponto, pelas afeições de que aesposa, desde muito, dispõe em nossos planos. Se as leis huma-nas, todavia, correspondem à falibilidade dos homens encarnados,as leis divinas jamais falecem. Conservando as forças tenebrosasacumuladas em seu destino, desde a noite do assassínio, nossodesventurado amigo manteve enclausuradas, no porão da persona-lidade, todas as impressões destruidoras recolhidas no instante daqueda. Repugnava-lhe uma confissão pública do crime, a qual, decerto modo, lhe mitigaria a angústia, libertando energias nefastas,que arquivara. A essa altura da narrativa, Calderaro interrompeu-se. Tocou a zona do córtex e prosseguiu: – A mente criminosa, assediada pela presença invariável davítima, a perturbar-lhe a memória. passou a fixar-se na regiãointermediária do cérebro, porque a dor do remorso não lhe permi-tia fácil acesso à esfera superior do organismo perispirítico, ondeos princípios mais nobres do ser erguem o santuário de manifesta-ções da Consciência Divina. Aterrorizado pelas recordações,transia-o irreprimível pavor em face dos juízos conscienciais. Poroutra parte, cada vez mais interessado em assegurar a felicidadeda família, seu único oásis no deserto escaldante das escabrosasreminiscências, o infeliz, então respeitado por força da posiçãosocial que o dinheiro lhe conferia, embrenhou-se em atividadefebril e ininterrupta. Vivendo mentalmente na região intermediá-ria do cérebro, em caráter quase exclusivo, só sentia alguma cal-ma agindo e trabalhando, de qualquer maneira, mesmo desorde-nadamente. Intentava a fuga através de todos os meios ao seualcance. Deitava-se, extenuado pela fadiga do corpo, levantando-se, no dia seguinte, abatido e cansado de inutilmente duelar com operseguidor invisível, nas horas de sono. Em conseqüência, pro-
  47. 47. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 47vocou o desequilíbrio da organização perispiritual, o que se refle-tiu na zona motora, implantando o caos orgânico. Fez característico movimento com o indicador e acentuou: – Repara os centros corticais. Contemplei, admirado, aquele maravilhoso mundo microscó-pico. As células piramidais, distinguindo-se pelo tamanho, diziamda importância das funções que lhes impendiam no laboratóriodas energias nervosas. Observando atentamente o quadro, não meparecia que estivesse a examinar o tecido vivo da substânciabranco-cinzenta: tive a impressão de que o córtex fosse um robus-to dínamo em funcionamento. Não estaríamos diante de algumaparelho elétrico de complicada estrutura? Mau grado essas im-pressões, reparei que a matéria cerebral ameaçava amolecimento. Continuava perplexo, sem saber como formular os comentá-rios cabíveis, quando o Assistente me veio em socorro, esclare-cendo: – Estamos diante do órgão perispiritual do ser humano, adesoà duplicata física, da mesma forma que algumas partes do corpocarnal têm estreito contacto com o indumento. Todo o camponervoso da criatura constitui a representação das potências peris-piríticas, vagarosamente conquistadas pelo ser, através de milê-nios e milênios. Em renascendo entre as formas perecíveis, nossocorpo sutil, que se caracteriza, em nossa esfera menos densa, porextrema leveza e extraordinária plasticidade, submete-se, no planoda Crosta, às leis de recapitulação, hereditariedade e desenvolvi-mento fisiológico, em conformidade com o mérito ou deméritoque trazemos e com a missão ou o aprendizado necessários. Océrebro real é aparelho dos mais complexos, em que o nosso eureflete a vida. Através dele, sentimos os fenômenos exterioressegundo a nossa capacidade receptiva, que é determinada pelaexperiência; por isto, varia ele de criatura a criatura, em virtude damultiplicidade das posições na escala evolutiva. Nem os símios ou
  48. 48. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 48os antropóides, a caminho da ligação com o gênero humano,apresentam cérebros absolutamente iguais entre si. Cada individu-alidade revela-o consoante o progresso efetivo realizado. O selva-gem apresenta um cérebro perispiritual com vibrações muitodiversas das do órgão do pensamento no homem civilizado. Sobeste ponto de vista, o encéfalo de um santo emite ondas que sedistinguem das que despede a fonte mental de um cientista. Aescola acadêmica, na Crosta Planetária, prende-se à conceituaçãoda forma tangível, em trânsito para as transformações da enfermi-dade, da velhice ou da morte. Aqui, porém, examinamos o orga-nismo que modela as manifestações do campo físico, e reconhe-cemos que todo o aparelhamento nervoso é de ordem sublime. Acélula nervosa é entidade de natureza elétrica, que diariamente senutre de combustível adequado. Há neurônios sensitivos, motores,intermediários e reflexos. Existem os que recebem as sensaçõesexteriores e os que recolhem as impressões da consciência. Emtodo o cosmo celular agitam-se interruptores e condutores, ele-mentos de emissão e de recepção. A mente é a orientadora desseuniverso microscópico, em que bilhões de corpúsculos e energiasmultiformes se consagram a seu serviço. Dela emanam as corren-tes da vontade, determinando vasta rede de estímulos, reagindoante as exigências da paisagem externa, ou atendendo às suges-tões das zonas interiores. Colocada entre o objetivo e o subjetivo,é obrigada pela Divina Lei a aprender, verificar, escolher, repelir,aceitar, recolher, guardar, enriquecer-se, iluminar-se, progredirsempre. Do plano objetivo, recebe-lhe os atritos e as influênciasda luta direta; da esfera subjetiva, absorve-lhe a inspiração, maisou menos intensa, das inteligências desencarnadas ou encarnadasque lhe são afins, e os resultados das criações mentais que lhe sãopeculiares. Ainda que permaneça aparentemente estacionária, amente prossegue seu caminho, sem recuos, sob a indefectívelatuação das forças visíveis ou das invisíveis.
  49. 49. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 49 Verificando-se pausa natural nas elucidações, ocorreram-meinúmeras e ininterruptas associações de idéias. Como interpretar todas as revelações de Calderaro? As célu-las do acervo fisiológico não se revestiam de característicos pró-prios? Não eram personalidades infinitesimais, aglomeradas sobdisciplina nos departamentos orgânicos, mas quase livres em suasmanifestações? Seriam, acaso, duplicatas de células espirituais?Como conciliar tal teoria com a liberação dos micro-organismos,em seguida à morte do corpo? E, se assim fora, não devera amemória do homem encarnado eximir-se do transitório esqueci-mento do passado? O instrutor percebeu minhas perquirições inarticuladas, por-que prosseguiu, sereno, como a responder-me: – Conheço-te as objeções e também as formulei noutro tem-po, quando a novidade me feria a observação. Posso, contudo,dizer-te hoje que, se existe a química fisiológica, temos também aquímica espiritual, como possuímos a orgânica e a inorgânica,existindo extrema dificuldade em definir-lhes os pontos de açãoindependente. Quase impossível é determinar-lhes a fronteiradivisória, porquanto o espírito mais sábio não se animaria a loca-lizar, com afirmações dogmáticas, o ponto onde termina a matériae começa o espírito. No corpo físico, diferençam-se as células demaneira surpreendente. Apresentam determinada personalidadeno fígado, outra nos rins e ainda outra no sangue. Modificam-seinfinitamente, surgem e desaparecem, aos milhares, em todos osdomínios da química orgânica, propriamente dita. No cérebro,porém, inicia-se o império da química espiritual. Os elementoscelulares, aí, são dificilmente substituíveis. A paisagem delicada esuperior é sempre a mesma, porque o trabalho da alma requerfixação, aproveitamento e continuidade. O estômago pode ser umalambique, em que o mundo infinitésimo se revele, em tumultuá-ria animalidade, aproximando-se dos quadros inferiores da vida,
  50. 50. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 50porquanto o estômago não necessita recordar, compulsoriamente,que substância alimentícia lhe foi dada a elaborar na véspera. Oórgão de expressão mental, contudo, reclama personalidadesquímicas de tipo sublimado, por alimentar-se de experiências quedevem ser registradas, arquivadas e lembradas sempre que opor-tuno ou necessário. Intervém, então, a química superior, dotandoo cérebro de material insubstituível em muitos departamentos deseu laboratório íntimo. Interrompeu-se o Assistente por alguns segundos, como adar-me tempo para refletir. Em seguida, continuou, atencioso: – Na verdade, não há nisso mistério algum. Voltemos aos as-cendentes em evolução. O princípio espiritual acolheu-se no seiotépido das águas, através dos organismos celulares, que se manti-nham e se multiplicavam por cissiparidade. Em milhares de anos,fez longa viagem na esponja, passando a dominar células autôno-mas, impondo-lhes o espírito de obediência e de coletividade, naorganização primordial dos músculos. Experimentou longo tem-po, antes de ensaiar os alicerces do aparelho nervoso, na medusa,no verme, no batráquio, arrastando-se para emergir do fundoescuro e lodoso das águas, de modo a encetar as experiênciasprimeiras, ao sol meridiano. Quantos séculos consumiu, revestin-do formas monstruosas, aprimorando-se, aqui e ali, ajudado pelainterferência indireta das inteligências superiores? Impossívelresponder, por enquanto. Sugou o seio farto da Terra, evolucio-nando sem parar, através de milênios, até conquistar a região maisalta, onde conseguiu elaborar o próprio alimento. Calderaro fixou em mim significativo olhar e perguntou: – Compreendeste suficientemente?
  51. 51. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 51 Ante o assombro das idéias novas que me fustigavam a ima-ginação, impedindo-me o minucioso exame do assunto, o esclare-cido companheiro sorriu e continuou: – Por mais esforços que envidemos por simplificar a exposi-ção deste delicado tema, o retrospecto que a respeito fazemossempre causa perplexidade. Quero dizer, André, que o princípioespiritual, desde o obscuro momento da criação, caminha semdetença para frente. Afastou-se do leito oceânico, atingiu a super-fície das águas protetoras, moveu-se em direção à lama das mar-gens, debateu-se no charco, chegou à terra firme, experimentou nafloresta copioso material de formas representativas, ergueu-se dosolo, contemplou os céus e, depois de longos milênios, durante osquais aprendeu a procriar, alimentar-se, escolher, lembrar e sentir,conquistou a inteligência... Viajou do simples impulso para airritabilidade, da irritabilidade para a sensação, da sensação para oinstinto, do instinto para a razão. Nessa penosa romagem, inúme-ros milênios decorreram sobre nós. Estamos, em todas as épocas,abandonando esferas inferiores, a fim de escalar as superiores. Océrebro é o órgão sagrado de manifestação da mente, em trânsitoda animalidade primitiva para a espiritualidade humana. O orientador, interrompendo-se, acariciou-me de leve, comocompanheiro experimentado no estudo estimulando aprendizhumilde, e acrescentou: – Em síntese, o homem das últimas dezenas de séculos repre-senta a humanidade vitoriosa, emergindo da bestialidade primária.Desta condição participamos nós, os desencarnados, em númerode muitos milhões de espíritos ainda pesados, por não havermos,até o momento, alijado todo o conteúdo de qualidades inferioresde nossa organização perispiritual; tal circunstância nos compele aviver, após a morte física, em formações afins, em sociedadesrealmente avançadas, mas semelhantes aos agrupamentos terres-tres. Oscilamos entre a liberação e a reencarnação, aperfeiçoando-
  52. 52. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 52nos, burilando-nos, progredindo, até conseguir, pelo refinamentopróprio, o acesso a expressões sublimes da Vida Superior, queainda não nos é dado compreender. Nos dois lados da existência,em que nos movimentamos e dentro dos quais se encontram onascimento e a morte do corpo denso, como portas de comunica-ção, o trabalho construtivo é a nossa bênção, aparelhando-nospara o futuro divino. A atividade, na esfera que ora ocupamos, é,para quantos se conservam quites com a Lei, mais rica de beleza ede felicidade, pois a matéria é mais rarefeita e mais obediente àsnossas solicitações de índole superior. Atravessado, contudo, o riodo renascimento, somos surpreendidos pelo duro trabalho derecapitulação para a necessária aprendizagem. Por lá semearemos,para colher aqui, aprimorando, reajustando e embelezando, atéatingir a messe perfeita, o celeiro farto de grãos sublimes, demodo a nos transferirmos, aptos e vitoriosos, para outras terras docéu. Não devemos acreditar, porém, quanto aos serviços de resga-te e de expiação, que a esfera carnal seja a única capaz de oferecero bendito ensejo de sofrimento áspero, redentor. Em regiões som-brias, fora dela, quais não podes ignorar, há oportunidade detratamento expiatório para os devedores mais infelizes, que volun-tariamente contraíram perigosos débitos para com a Lei. Verificou-se breve pausa, que não interrompi, considerando ainconveniência de qualquer indagação de minha parte. Calderaro, todavia, continuou, solícito: – Perguntas por que motivo não conserva o homem encarnadoa plenitude das recordações do longuíssimo pretérito; isto é natu-ral, em virtude da tão grande ascendência do corpo perispiritualsobre o mecanismo fisiológico. Se a forma física evoluiu e seaperfeiçoou, o mesmo terá acontecido ao organismo perispirítico,através das idades. Nós mesmos, em nossa relativa condição deespiritualidade, ainda não possuímos o processo de reminiscênciaintegral dos caminhos perlustrados. Não estamos, por enquanto,
  53. 53. Francisco Cândido Xavier - No Mundo Maior - pelo Espírito André Luiz 53munidos de suficiente luz para descer com proveito a todos osângulos do abismo das origens; tal faculdade, só mais tarde aadquiriremos, quando nossa alma estiver escoimada de todo equalquer resquício de sombra. Comparando, entretanto, a nossasituação com o estado menos lúcido de nossos irmãos encarnados,importa não nos esqueça que os nervos, o córtex motor e os lobosfrontais, que ora examinamos, constituem apenas regulares pontosde contacto entre a organização perispiritual e o aparelho físico,indispensáveis, uma e outro, ao trabalho de enriquecimento e decrescimento do ser eterno. Em linguagem mais simples, são respi-radouros dos impulsos, experiências e noções elevadas da perso-nalidade real que não se extingue no túmulo e que não suportari-am a carga de uma dupla vida. Em razão disto, e atendendo aosdeveres impostos à consciência de vigília para os serviços de cadadia, desempenham função amortecedora: são quebra-luzes, atuan-do beneficamente para que a alma encarnada trabalhe e evolva.Além disto, nascimento e morte, na esfera carnal, para a generali-dade das criaturas são choques biológicos, imprescindíveis àrenovação. Em verdade, não há total esquecimento na CrostaTerrestre, nem restauração imediata da memória nas províncias deexistência, que se seguem, naturais, ao campo da atividade física.Todos os homens conservam tendências e faculdades, que quaseequivalem a efetiva lembrança do passado; e nem todos, ao atra-vessarem o sepulcro, podem readquirir, repentinamente, o patri-mônio de suas reminiscências. Quem demasiado se materialize,demorando-se em baixo padrão vibratório, no campo de matériadensa, não pode reacender, de pronto, a luz da memória. Despen-derá tempo a desfazer-se dos pesados envoltórios a que inadverti-damente se prendeu. Dentro da luta humana, também, é indispen-sável que os neurônios se façam de luvas, mais ou menos espes-sas, a fim de que o fluxo das recordações não modere o esforçoedificante da alma encarnada, empenhada em nobres objetivos deevolução ou resgate, aprimoramento ou ministério sublime. Im-

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