Francisco                              Cândido                               Xavier                         PELO ESPIRITO ...
Esta numeração corresponde ao livro impresso, o textodigital não considerou as folhas em branco.ÍNDICEPrefácio ..............
A Regência e o segundo reinado ...................                   187A guerra do Paraguai ................................
Prefácio     Meus caros filhos. Venho falar-vos do trabalhoem que agora colaborais com o nosso amigo desen-carnado, no sen...
confusionismo amargo, consideramos de utilidadeum trabalho desta natureza e, com a permissão dosnossos maiores dos planos ...
Pátria do Cruzeiro, e que, nesta hora amarga em quese verifica a inversão de quase todos os valoresmorais, no seio das ofi...
Esclarecendo     Todos os estudiosos que percorreram o Brasil,estudando alguns detalhes dos seus oito milhões emeio de qui...
zeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim deque os seus rebentos delicados florescessem de novo,frutificando em obr...
humanidade, quando os homens, livres de todos ossímbolos sectários de separabilidade, puderem enten-der, integralmente, as...
origens profundas no plano espiritual, de onde Jesus,pelas mãos carinhosas de Ismael, acompanha desve-ladamente a evolução...
O CORAÇÃO DO MUNDO     O inundo político e social do Ocidente encon-tra-se exausto.     Desde as pregações de Pedro, o Ere...
enviados à face do orbe terrestre. No coração daUmbria haviam cessado os cânticos de amor e defraternidade cristã. De Fran...
Mas — retornou tristemente a voz compas-siva do Cordeiro — qual o lugar da Terra que nãoé santo? Em todas as partes do mun...
liberdade.    E a caravana fulgurante, deixando um rastro de luz na imensidade dos espaços, encaminhou-se ao continente qu...
a bênção de seu Pai para todos oé elementos daquelesolo extraordinário e opulento, exclama então Jesus:   — Para esta terr...
D. Filipa de Lencastre, e foi o heróico Infante deSagres, que operou a renovação das energias portugue-sas, expandindo as ...
A PÁTRIA DO EVANGELHO   D. Henrique de Sagres abandonou as suas ati-vidades na Terra em 1460.   Estava realizado, em linha...
siva a favor das empresas esperadas. Aproveitandoo sonho geral dos tesouros das índias, a personali-dade do Infante se des...
poder, nada mais se fez que atingir o fim de longae laboriosa preparação. Em 1498, Vasco da Gamadescobre o caminho marítim...
sobrenaturais e, insensivelmente, as caravelas in-quietas cedem ao impulso de uma orientação im-perceptível. Os caminhos d...
Há um contentamento intraduzível em todos os co-rações, como se um pombo simbólico trouxesse asnovidades de um mundo mais ...
cruz, com infinita misericórdia. As potências impe- rialistas da Terra esbarrarão sempre nas suas clarida- des divinas e n...
OS DEGREDADOS   Todos os espíritos edificados nas lições subli-mes do Senhor se reuniram, logo após o descobri-mento da no...
dos símbolos de perdão e de concórdia.   Dirigindo-se a um dos seus elevados mensagei-ros na face do orbe terrestre, em me...
tinta celeste inscrevera o lema imortal: "Deus,Cristo e Caridade". Todas as almas ali reunidasentoam um hosana melodiosoe ...
Mas, Afonso Ribeiro, um dos condenados aopenoso desterro, avança numa piroga desprotegidae desmantelada, sem que os olhos ...
ele obedecia a sagradas determinações do DivinoMestre. Primeiramente, surgiram os índios, que eramos simples de coração; e...
humildes, à frente dos trabalhadores que, maistarde, chegariam às terras novas.   A situação oficial perdurava com a indif...
meiro mês do ano. No sítio encantado, instala umanova Feitoria — a da Carioca, da qual não ficaramlargos vestígios, passan...
trabalhos, e a maioria terá de envergar o sambenitohumilde dos missionários penitentes, para levar oamor de Deus aos sertõ...
sentes, se oferecem como voluntários da grandecausa. Entre muitos, descobriremos José de Anchie-ta e Bartolomeu dos Mártir...
ciam as dedicações e os desveles de um pai. Anchie-ta aliou, no mundo, à suprema ternura, grande ener-gia realizadora; mas...
rosos da Terra e distanciando-se dos pobres e dosaflitos; mas, os humildes missionários da cruzouviam a voz de Ismael, no ...
alegria. Seus traços fisionômicos deixavam mesmotransparecer angelical amargura.   — Senhor — exclama ele — sinto dificuld...
essa cooperação fosse efetivada sem o atrito dasarmas, aproximei Portugal daquelas raças sofredo-ras, sem violências de qu...
Providência Divina.   Calara-se a voz de Jesus por instantes; maisconfortado, Ismael continuou:   — Senhor, não teríeis um...
Os donatários cruéis sofreram os mais tristesreveses no solo do Brasil.   Os Tupinambás e os Tupiniquins, que se loca-liza...
murus e dos Ramalhos, que os haviam precedido naação, junto dos indígenas.   Contudo, Portugal ainda não se decidira a des...
a sua mentalidade religiosa e honesta, conseguecaptar a confiança dos naturais, concedendo-lhes omesmo tratamento dispensa...
uma povoação que aí ficasse como sentinela dacosta, a fim de eliminar os derradeiros resquíciosdas influências francesas. ...
o grande filho de Narbonne, martirizado pela sua fécristã ao tempo de Diocleciano, em 288 da nossa era.Estácio de Sá reúne...
forças orgânicas. Os pontos de fixação dessas sagradasbalizas são encontrados ao longo dos seiscentos qui-lômetros de exte...
cendo aos elevados propósitos do mundo oculto,ambos ficaram irmanados junto do cérebro do país,por indefectíveis disposiçõ...
República, levando-os à inimizade e quase à ruína;mas, muito breve, quando as sombras da confusãodos tempos modernos invad...
frase de Francisco I, exprimindo o seu desejo deconhecer a disposição testamentária de Adão, quedividira o mundo entre esp...
res sofrem intensamente em seus trabalhos árduos e quase improfícuos, no sentido de organizar o Insti- tuto sagrado da fam...
Leva a essas coletividades espirituais, sinceramentearrependidas do seu passado obscuro e delituoso, atua bandeira de paz ...
devotamentos. Ali encontrareis, nos carreiros aspér-rimos da dor que depura e santif ica, a porta estreitapara o céu de qu...
terra virgem, sustentando nos ombros feridos o pesode todos os trabalhos. Nesse filão de claridades in-teriores, buscaram ...
Por toda parte, no país, há um ensinamento ca-ricioso do seu resignado heroísmo, e foi por essa razãoque a terra brasileir...
veres e de sangue coagulado. Como represália atantas crueldades, os Tamoios nunca se harmoniza-ram com os portugueses. Des...
explica:— Irmãos, não podemos tolher a liberdade dosnossos semelhantes. Não sou indiferente a esses mo-vimentos hediondos,...
mais flagelada da nova pátria, a fim de que seusexemplos possam servir aos que se encontram nadireção das atividades socia...
Em 1637, entrava em Pernambuco o generalholandês João Maurício, Príncipe de Nassau. Inu-meráveis benefícios e imensos frut...
clarão no seu caminho rotineiro e obscuro.    Em socorro da nossa afirmativa, podemos invo-car o testemunho da própria his...
à quase penúria.    Foi por esse tempo que Henrique de Sagres, o antigo Helil, mensageiro de Jesus, que levantara as energ...
Brasil, onde lançamos os fundamentos da Pátria doEvangelho, introduziram o tráfico de homens livres,forçando as falanges d...
— Essas experiências dolorosas — explicou-lhe o Divino Mestre — dotarão Portugal de novos sen- timentos, acrisolando nele ...
não constituem os mais necessários. Não acho quea Casa de Bragança esteja preparada, espiritual-mente, para a sublime real...
estabelece tratados comerciais, entre eles, alguns como o de Methuen, que mais tarde se verificou ser ruinoso para a indús...
AS BANDEIRAS    No desdobramento da ação espiritual que de-veria restaurar a pátria portuguesa, Ismael congre-gou os espír...
simplicidade, para os penosos trabalhos do cativei-ro; desvendareis, agora, as fontes de riqueza dosvastos latifúndios do ...
Infinito. É nesse vasto campo experimental que de-vemos aprender a ciência do bem e aliá-la à suadivina prática. Nos nevoe...
é preciso não esqueças a misericórdia divina, semexorbitar das funções que te forem confiadas, entre-gando a Jesus os teus...
Brasil coração do mundo pátria do evangelho
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Brasil coração do mundo pátria do evangelho

  1. 1. Francisco Cândido Xavier PELO ESPIRITO HUMBERTO DE CAMPOS A primeira edição desta obra foi publicada em 1938 FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRADEPARTAMENTO EDITORIAL E GRÁFICO Rua Souza Valente, 17 20941-040 — Rio-RJ — Brasil 1
  2. 2. Esta numeração corresponde ao livro impresso, o textodigital não considerou as folhas em branco.ÍNDICEPrefácio .......................................................... 9Esclarecendo ................................................... 13O Coração do Mundo ................................... 19A «Pátria do Evangelho» ................................ 27Os degredados .................................................. 35Os missionários ................................................. 41Os escravos ..................................................... 49A civilização brasileira ................................ 57Os negros do Brasil ......................................... 65A Invasão Holandesa........................................ 73A restauração de Portugal ........................... 81As Bandeiras ..................................................... 89Os movimentos nativistas ................................ 97No tempo dos vice-reis ................................ 103Pombal e os jesuítas ....................................... 109A Inconfidência Mineira ................................. 117A Revolução Francesa .................................. 125D. João VI no Brasil ....................................... 133Primórdios da Emancipação............................. 141No limiar da Independência ............................ 147A Independência .............................................. 153D. Pedro II......................................................... 161Fim do primeiro reinado ................................. 167Bezerra de Menezes ......................................... 175A obra de Ismael ............................................ 181 2
  3. 3. A Regência e o segundo reinado ................... 187A guerra do Paraguai ................................. 193O movimento abolicionista ............................. 201A República ...................................................... 209A Federação Espírita Brasileira ................... 217O Espiritismo no Brasil ................................ 225Pátria do Evangelho.................................... 233 3
  4. 4. Prefácio Meus caros filhos. Venho falar-vos do trabalhoem que agora colaborais com o nosso amigo desen-carnado, no sentido de esclarecer as origens remo-tas da formação da Pátria do Evangelho a quetantas vezes nos referimos em nossos diversos co-municados. O nosso irmão Humberto tem, nesseassunto, largo campo de trabalho a percorrer, comas suas facilidades de expressão e com o espíritode simpatia de que dispõe, como escritor, em faceda mentalidade geral do Brasil. Os dados que ele fornece nestas páginas foramrecolhidos nas tradições do mundo espiritual, ondefalanges desveladas e amigas se reúnem constante-mente para os grandes sacrifícios em prol da huma-nidade sofredora. Este trabalho se destina a explicara missão da terra brasileira no mundo moderno.Humboldt, visitando o vale extenso do Amazonas,exclamou, extasiado, que ali se encontrava o celeirodo mundo. O grande cientista asseverou uma grandeverdade: precisamos, porém, desdobrá-la, estenden-do-a do seu sentido econômico à sua significaçãoespiritual. O Brasil não está somente destinado asuprir as necessidades materiais dos povos maispobres do planeta, mas, também, a facultar aomundo inteiro uma expressão consoladora de crençae de fé raciocinada e a ser o maior celeiro de clari-dades espirituais do orbe inteiro. Nestes tempos de 5
  5. 5. confusionismo amargo, consideramos de utilidadeum trabalho desta natureza e, com a permissão dosnossos maiores dos planos elevados, empreendemosmais esta obra humilde, agradecendo a vossa desin-teressada e espontânea colaboração. Nossa tarefavisa a esclarecer o ambiente geral do país, argamas-sando as suas tradições de fraternidade com o ci-mento das verdades puras, porque, se a Grécia e aRoma da antigüidade tiveram a sua hora, comoelementos primordiais das origens de toda a civili-zação do Ocidente; se o império português e o espa-nhol se alastraram quase por todo o planeta; se aFrança, se a Inglaterra têm tido a sua hora proemi-nente nos tempos que assinalam as etapas evolutivasdo mundo, o Brasil terá também o seu grande mo-mento, no relógio que marca os dias da evolução dahumanidade. Se outros povos atestaram o progresso, pelasexpressões materializadas e transitórias, o Brasilterá a sua expressão imortal na vida do espírito, re-presentando a fonte de um pensamento novo, sem asideologias de separatividade, e inundando todos oscampos das atividades humanas com uma nova luz.Eis, em síntese, o porquê da nossa atuação, nessesentido. O nosso irmão encontra mais facilidade paravazar o seu pensamento em soledade com o médium,como se ainda se encontrasse no seu escritório soli-tário; daí a razão por que as páginas em apreçoforam produzidas de molde a se aproveitarem asoportunidades do momento. Pecamos a Deus queinspire os homens públicos, atualmente no leme da 6
  6. 6. Pátria do Cruzeiro, e que, nesta hora amarga em quese verifica a inversão de quase todos os valoresmorais, no seio das oficinas humanas, saibam elescolocar muito alto a magnitude dos seus precípuosdeveres. E a vós, meus filhos, que Deus vos forta-leça e abençoe, sustentando-vos nas lutas depura-doras da vida material. EMMANUEL 7
  7. 7. Esclarecendo Todos os estudiosos que percorreram o Brasil,estudando alguns detalhes dos seus oito milhões emeio de quilômetros quadrados, se apaixonarampela riqueza das suas possibilidades infinitas. Emi-nentes geólogos definiram-lhe os tesouros do solo enaturalistas ilustres lhe classificaram, a fauna e aflora, maravilhados ante as suas prodigiosas sur-presas. Nas paisagens suntuosas e inéditas, onde ocalor suave dos trópicos alimenta e perfuma todasas coisas, há sempre um traço de beleza e de origi-nalidade empolgando o espírito do viajor sedentode emoções. Afãs, se numerosos pensadores e artistas notá-veis lhe traduziram a grandiosidade de mundo novo,contando "lá fora" as inesgotáveis reservas do gi-gante da América, todo esse espírito analítico nãopassou da esfera superficial das apreciações, porquenão viram o Brasil espiritual, o Brasil evangélico,em cujas estradas, cheias de esperança, luta, sonhae trabalha o povo fraternal e generoso, cuja alma éa "flor amorosa de três raças tristes", na expressãoharmoniosa de um dos seus poetas mais eminentes. As reservas brasileiras não se circunscrevem aomundo de aço do progresso material, que impressionoufortemente o espírito de Humboldt, mas se estendem,infinitamente, ao mundo de ouro dos corações, onde opaís escreverá a sua epopéia de realizações morais, emfavor do mundo.Jesus transplantou da Palestina para a região do Cru- 8
  8. 8. zeiro a árvore magnânima do seu Evangelho, a fim deque os seus rebentos delicados florescessem de novo,frutificando em obras de amor para todas as criaturas.Ao cepticismo da época soará estranhamente uma afir-mativa desta natureza. O Evangelho ? Não seria meraficção de pensadores do Cristianismo o repositório desuas lições ? Não foi apenas um cântico de esperançado povo hebreu, que a Igreja Católica adaptou para ga-rantir a coroa na cabeça dos príncipes terrestres? Nãoserá uma palavra vazia, sem significação objetiva naatualidade do globo, quando todos os valores espiritu-ais pare-cem descer ao sepulcro caiado" da transição eda decadência? Mas, a realidade é que, não obstantetodas as surpresas das ideologias modernas, a lição doCristo aí está no planeta, aguardando a compreensãogeral do seu sentido profundo. Sobre ela, levantaram-sefilosofias complicadas e as mais extra vagantes teoriassalvacionistas. Em seu favor, muitos milhares de livrosforam editados e algumas guerras ensangüentaram oroteiro dos povos. Entretanto, a sublime exemplifica-ção do Divino Mestre, na sua expressão pura e sim-ples, só pede a humildade e o amor da criatura, para serdevidamente compreendida. Do seu entendimento decor-re aquele "Reino de Deus" em cada coração, de que fa-lava o Senhor nas suas meigas pregações do Tiberíades— reino de amor fraternal, cuja luz é o único elementocapaz de salvar o mundo, que se encaminha para osdesfiladeiros da destruição.E os verdadeiros aprendizes, os crentes sinceros nopoder e na misericórdia do Senhor, esperam, com osseus labores obscuros, o advento da cristianização da 9
  9. 9. humanidade, quando os homens, livres de todos ossímbolos sectários de separabilidade, puderem enten-der, integralmente, as maravilhas ocultas da obracristã. Nas suas dolorosas provações dos tempos moder-nos, quando quase todos os valores morais sofrem o in-sulto da mais ampla subversão, esses espíritos heróicose humildes sabem, na sua esperança e na sua crença,que, se Deus permite a prática de tantos absurdos,por parte dos poderosos da Terra, que se embriagamcom o vinho da autoridade e da ambição, é que todasessas lutas nada mais representam do que experiênci-as penosas, por abreviar a compreensão geral dasleis divinas no porvir. E, serenos na sua resignação ena sua sinceridade, conhecem, ainda, que as lições doEvangelho não são símbolos mortos e aguardam,cheios de confiança no mundo espiritual, a alvoradaluminosa do renascimento humano. Nessa abençoada tarefa de espiritualização, oBrasil caminha na vanguarda. O material a empregarnesse serviço não vem das fontes de produção origina-riamente terrena e sim do plano invisível,onde se elaboram todos os ascendentes construtoresda Pátria do Evangelho.Estas páginas modestas constituem, pois, uma contri-buição humilde à elucidação da história dacivilização brasileira em sua marcha através dostempos. Têm por único objetivo provar a excelênciada missão evangélica do Brasil no concerto dospovos e que, acima de tudo, todas as suas realiza-ções e todos os seus feitos, forros dos miseráveistroféus das glórias sanguinolentas, tiveram suas 10
  10. 10. origens profundas no plano espiritual, de onde Jesus,pelas mãos carinhosas de Ismael, acompanha desve-ladamente a evolução da pátria extraordinária, emcujos céus fulguram as estrelas da cruz. São elas,ainda, um grito de fé e de esperança aos que esta-cionam no meio do caminho. Ditadas pela voz dequem já atravessou as estradas poeirentas e tristesda Morte, dirigem-se aos meus companheiros eirmãos da mesma comunidade e da mesma família,exclamando: — Brasileiros, ensarilhemos, para sempre, asarmas homicidas das revoluções!... Consideremoso valor espiritual do nosso grande destino. Engran-deçamos a pátria no cumprimento do dever pelaordem, e traduzamos a nossa dedicação mediante otrabalho honesto pela sua grandeza! Consideremos,acima de tudo, que todas as suas realizações hão demerecer a luminosa sanção de Jesus, antes de se fi-xarem nos bastidores do poder transitório e precá-rio dos homens! Nos dias de provação, como nashoras de venturas, estejamos irmanados numa docealiança de fraternidade e paz indestrutível, dentroda qual deveremos esperar as claridades do futuro.Não nos compete estacionar, em nenhuma circuns-tância, e sim marchar, sempre, com a educação ecom a fé realizadora, ao encontro do Brasil, na suaadmirável espiritualidade e na sua grandeza impe-recível! HUMBERTO DE CAMPOS. (Espírito) 11
  11. 11. O CORAÇÃO DO MUNDO O inundo político e social do Ocidente encon-tra-se exausto. Desde as pregações de Pedro, o Eremita, até amorte do Rei Luís IX, diante de Túnis, acontecimen-to que colocara um dos derradeiros marcos nas guer-ras das Cruzadas, as sombras da idade medievalconfundiram as lições do Evangelho, ensangüentandotodas as bandeiras do mundo cristão.Foi após essa época, no último quartel do séculoXTV, que o Senhor desejou realizar uma de suasvisitas periódicas à Terra, a fim de observar os pró-gressos de sua doutrina e de seus exemplos no cora-ção dos homens. Anjos e Tronos lhe formavam a corte mara-vilhosa. Dos céus à Terra, foi colocado outro símboloda escada infinita de Jacob, formado de flores e deestrelas cariciosas, por onde o Cordeiro de Deustranspôs as imensas distâncias, clarificando os cami-nhos cheios de treva. Mas, se Jesus vinha do coraçãoluminoso das esferas superiores, trazendo nos olhosmisericordiosos a visão dos seus impérios resplan-decentes e na alma profunda o ritmo harmoniosodos astros, o planeta terreno lhe apresentava aindaaquelas mesmas veredas escuras, cheias da lama daimpenitência e do orgulho das criaturas humanas, erepletas dos espinhos da ingratidão e do egoísmo.Embalde seus olhos compassivos procuraram o ninhodoce do seu Evangelho; em vão procurou o Senhoros remanescentes da obra de um de seus últimos 12
  12. 12. enviados à face do orbe terrestre. No coração daUmbria haviam cessado os cânticos de amor e defraternidade cristã. De Francisco de Assis só haviamficado as tradições de carinho e de bondade; os pe-cados do mundo, como novos lobos de Gúbio, haviamdescido outra vez das selvas misteriosas das iniqüi-dades humanas, roubando às criaturas a paz e ani-quilando-lhes a vida.— Helil — disse a voz suave e meiga do Mestrea um dos seus mensageiros, encarregado dos proble-mas sociológicos da Terra — meu coração se enche deprofunda amargura, vendo a incompreensão doshomens, no que se refere às lições do meu Evange-lho. Por toda parte é a luta fratricida, como polvode infinitos tentáculos, a destruir todas as esperan-ças; recomendei-lhes que se amassem como irmãos,e vejo-os em movimentos impetuosos, aniquilando-seuns aos outros como Cains desvairados. — Todavia — replicou o emissário solícito,como se desejasse desfazer a impressão dolorosa eamarga do Mestre — esses movimentos, Senhor, in-tensificaram as relações dos povos da Terra, aproxi-mando o Oriente e o Ocidente, para aprenderem alição da solidariedade nessas experiências penosas;novas utilidades da vida foram descobertas; o co-mércio progrediu além de todas as fronteiras, reu-nindo as pátrias do orbe. Sobretudo, devemos con-siderar que os príncipes cristãos, empreendendo asiniciativas daquela natureza, guardavam a nobreintenção de velar pela paisagem deliciosa dos Luga-res Santos. 13
  13. 13. Mas — retornou tristemente a voz compas-siva do Cordeiro — qual o lugar da Terra que nãoé santo? Em todas as partes do mundo, por maisrecônditas que sejam, paira a bênção de Deus, con-vertida na luz e no pão de todas as criaturas. Erapreferível que Saladino guardasse, para sempre,todos os poderes temporais na Palestina, a que caísseum só dos fios de cabelo de um soldado, numa guerraincompreensível por minha causa, que, em todos ostempos, deve ser a do amor e da fraternidade uni-versal. E, como se a sua vista devassasse todos os mis-térios do porvir, continuou: — Infelizmente, não vejo senão o caminho dosofrimento para modificar tão desoladora situação.Aos feudos de agora, seguir-se-ão as coroas podero-sas e, depois dessa concentração de autoridade e depoder, serão os embates da ambição e a carnificinada inveja e da felonia, pelo predomínio do mais forte. A amargura divina empolgara toda a formosaassembléia de querubins e arcanjos. Foi quandoHelil, para renovar a impressão ambiente, dirigiu-sea Jesus com brandura e humildade: — Senhor, se esses povos infelizes, que pro-curam na grandeza material uma felicidade impos-sível, marcham irremediavelmente para os grandesinfortúnios coletivos, visitemos os continentes igno-rados, onde espíritos jovens e simples aguardam asemente de uma vida nova. Nessas terras, para alémdos grandes oceanos, poderíeis instalar o pensamen-to cristão, dentro das doutrinas do amor e da 14
  14. 14. liberdade. E a caravana fulgurante, deixando um rastro de luz na imensidade dos espaços, encaminhou-se ao continente que seria, mais tarde, o mundo americano. O Senhor abençoou aquelas matas virgens emisteriosas. Enquanto as aves lhe homenageavam ainefável presença com seus cantares harmoniosos,as flores se inclinavam nas árvores ciclópicas, aro-matizando-lhe as eterizadas sendas. O perfume domar casava-se ao oxigênio agreste da selva bravia,impregnando todas as coisas de um elemento deforça desconhecida. No solo, eram os silvícolas hu-mildes e simples, aguardando uma era nova, com oseu largo potencial de energia e bondade. Cheio de esperanças, emociona-se o coração doMestre, contemplando a beleza do sublimado espe-táculo. — Helil — pergunta ele — onde fica, nestasterras novas, o recanto planetário do qual se enxer-ga, no infinito, o símbolo da redenção humana? — Esse lugar de doces encantos, Mestre, deonde se vêem, no mundo, as homenagens dos céusaos vossos martírios na Terra, fica mais para o sul. E, quando no seio da paisagem repleta de aro-mas e de melodias, contemplavam as almas santifi-cadas dos orbes felizes, na presença do Cordeiro, asmaravilhas daquela terra nova, que seria mais tardeo Brasil, desenhou-se no firmamento, formado deestrelas rutilantes, no jardim das constelações deDeus, o mais imponente de todos os símbolos. Mãos erguidas para o Alto, como se invocasse 15
  15. 15. a bênção de seu Pai para todos oé elementos daquelesolo extraordinário e opulento, exclama então Jesus: — Para esta terra maravilhosa e bendita serátransplantada a árvore do meu Evangelho de piedadee de amor. No seu solo dadivoso e fertilíssimo,todos os povos da Terra aprenderão a lei da frater-nidade universal. Sob estes céus serão entoados oshosanas mais ternos à misericórdia do Pai Celestial.Tu, Helil, te corporificarás na Terra, no seio dopovo mais pobre e mais trabalhador do Ocidente;instituirás um roteiro de coragem, para que sejamtranspostas as imensidades desses oceanos perigosose solitários, que separam o velho do novo mundo.Instalaremos aqui uma tenda de trabalho para anação mais humilde da Europa, glorificando os seusesforços na oficina de Deus. Aproveitaremos o ele-mento simples de bondade, o coração fraternal doshabitantes destas terras novas, e, mais tarde, orde-narei a reencarnação de muitos Espíritos já purifi-cados no sentimento da humildade e da mansidão,entre as raças oprimidas e sofredoras das regiõesafricanas, para formarmos o pedestal de solidarie-dade do povo fraterno que aqui florescerá, no fu-turo, a fim de exaltar o meu Evangelho, nos séculosgloriosos do porvir. Aqui, Helil, sob a luz miseri-cordiosa das estrelas da cruz, ficará localizado ocoração do mundo! Consoante a vontade piedosa do Senhor, todas as suas ordens foram cumpridas integralmente. Daí a alguns anos, o seu mensageiro se estabe-lecia na Terra, em 1394, como filho de D. João I e de 16
  16. 16. D. Filipa de Lencastre, e foi o heróico Infante deSagres, que operou a renovação das energias portugue-sas, expandindo as suas possibilidades realizado-ras para além dos mares. O elemento indígena foi cha-mado a colaborar na edificação da pátria nova; almasbem-aventuradas pelas suas renúncias se corporifi-caram nas costas da África flagelada e oprimida e,juntas a outros Espíritos em prova, formaram a fa-lange abnegada que veio escrever na Terra de SantaCruz, com os seus sacrifícios e com os seus sofrimen-tos, um dos mais belos poemas da raça negra emfavor da humanidade. Foi por isso que o Brasil, onde confraterni-zam hoje todos os povos da Terra e onde será mode-lada a obra imortal do Evangelho do Cristo, muito an-tes do Tratado de Tordesilhas, que fincou as balizas daspossessões espanholas, trazia já, em seus contornos, aforma geográfica do coração do mundo. NOTA DA EDITORA — O Autor preferiu aforma árabe.— Helil, em vez de Hilel, forma hebraica geral-mente usada. 17
  17. 17. A PÁTRIA DO EVANGELHO D. Henrique de Sagres abandonou as suas ati-vidades na Terra em 1460. Estava realizado, em linhas gerais, o seu grandedestino. Da sua casa modesta da Vila-Nova do In-fante, onde se encontra ainda hoje uma placa come-morativa, como perene homenagem ao grande nave-gador, desenvolvera ele, no mundo inteiro, um sen-timento novo de amor ao desconhecido. Desde aexpedição de Ceuta, o Infante deixou transparecer,em vários documentos que se perderam nos arquivosda Casa de Avis, que tinha a certeza da existência das terras maravilhosas, cuja beleza haviam con-templado os seus olhos espirituais, no passado lon-gínquo. Toda a sua existência de abnegação e asce-tismo constituíra uma série de relâmpagos luminososno mundo de suas recordações. A prova de que osseus estudos particulares falavam da terra desco-nhecida é que o mapa de André Bianco, datado de1448, mencionava uma região fronteira à África.Para os navegadores portugueses, portanto, a exis-tência da grande ilha austral já não era assuntoignorado. Novamente no Além, o antigo mensageiro doMestre não descansou, chamando a colaborar comele numerosas falanges de trabalhadores devotadosà causa do Evangelho do Senhor. Procura influen-ciar sobre o curto reinado de D. Duarte estendendo,com os seus cooperadores, essa mesma atuação aotempo de D. Afonso V, sem lograr uma ação deci- 18
  18. 18. siva a favor das empresas esperadas. Aproveitandoo sonho geral dos tesouros das índias, a personali-dade do Infante se desdobra, com o objetivo de des-cortinar o continente novo ao mundo político doOcidente. Enquanto a sua atuação encontra fracoeco junto às administrações de sua terra, o povo deCastela começa a preocupar-se seriamente com asidéias novas, lançando-se à disputa das riquezasentrevistas. Eleva-se então ao poder D. João U, cujoreinado se caracterizou pela previdência e pela ener-gia realizadora. Junto do seu coração, o emissárioinvisível encontra grandes aspirações, irmãs dassuas. O Príncipe Perfeito torna-se o dócil instru-mento do mensageiro abnegado. A mesma sede dealém lhe devora o pensamento. Expedições diversasse organizam. O castelo de São Jorge é fundado porDiogo de Azambuja, na Costa da Mina; Diogo Cãodescobre toda a costa de Angola; por toda parte,sob o olhar protetor do grande rei, aventuram-se osexpedicionários. Mas o espírito, em todos os planose circunstâncias da vida, tem de sustentar as maio-res lutas pela sua purificação suprema. Entidadesatrasadas na sua carreira evolutiva se unem contraas realizações do príncipe ilustre. Depois do desas-tre no Campo de Santarém, no qual o filho perde avida em condições trágicas, surgem outras compli-cações entre a sua direção justiceira e os nobres daépoca, e D. João II morre envenenado em Alvor, noano de 1495. Todavia, os planos da Escola de Sagres estavamconsolidados. Com a ascensão de D. Manuel I ao 19
  19. 19. poder, nada mais se fez que atingir o fim de longae laboriosa preparação. Em 1498, Vasco da Gamadescobre o caminho marítimo das índias e, um poucomais tarde, Gaspar de Corte Real descobre o Cana-dá. Todos os navegadores saem de Lisboa com ins-truções secretas quanto à terra desconhecida, quese localizava fronteira à África e que já havia sidoobjeto de protesto de D. João n contra a bula deAlexandre VI, que pretendia impor-lhe restrições aolongo do Atlântico, por sugestão dos reis católicosda Espanha. No dia 7 de março de 1500, preparada a grandeexpedição de Cabral ao novo roteiro das índias,todos os elementos da expedição, encabeçados pelocapitão-mor, visitaram o Paço de Alcáçova, e navéspera do dia 9, dia este em que se fizeram ao mar,imploraram os navegadores a bênção de Deus, naermida do Restelo, pouso de meditação que a fé sin-cera de D. Henrique havia edificado. O Tejo estavacoberto de embarcações engalanadas e, entre mani-festações de alegria e de esperança, exaltava-se opendão glorioso das quinas. No oceano largo, o capitão-mor considera a pos-sibilidade de levar a sua bandeira à terra desconhe-cida do hemisfério sul. O seu desejo cria a necessá-ria ambientação ao grande plano do mundo invisível.Henrique de Sagres aproveita esta maravilhosa pos-sibilidade. Suas falanges de navegadores do Infinitose desdobram nas caravelas embandeiradas e ale-gres. Aproveitam-se todos os ascendentes mediúni-cos. As noites de Cabral são povoadas de sonhos 20
  20. 20. sobrenaturais e, insensivelmente, as caravelas in-quietas cedem ao impulso de uma orientação im-perceptível. Os caminhos das índias são abandona-dos. Em todos os corações há uma angustiosa expec-tativa. O pavor do desconhecido empolga a almadaqueles homens rudes, que se viam perdidos entreo céu e o mar, nas imensidades do Infinito. Mas, aassistência espiritual do mensageiro invisível, que,de fato, era ali o divino expedicionário, derrama umclaror de esperança em todos os ânimos. As primei-ras mensagens da terra próxima recebem-nas comalegria indizível. As ondas se mostram agora, amiú-de, qual colcha caprichosa de folhas, de flores e deperfumes. Avistam-se os píncaros elegantes da plagado Cruzeiro e, em breves horas, Cabral e sua gentese reconfortam na praia extensa e acolhedora. Osnaturais os recebem como irmãos muito amados.A palavra religiosa de Henrique Soares, de Coimbra,eles a ouvem com veneração e humildade. Colocamsuas habitações rústicas e primitivas à disposiçãodo estrangeiro e reza a crônica de Caminha queDiogo Dias dançou com eles nas areias de Porto Se-guro, celebrando na praia o primeiro banquete defraternidade na Terra de Vera Cruz. A bandeira das quinas desfralda-se então glo-riosamente nas plagas da terra abençoada, paraonde transplantara Jesus a árvore do seu amor e dasua piedade, e, no céu, celebra-se o acontecimentocom grande júbilo. Assembléias espirituais, sob asvistas amorosas do Senhor, abençoam as praiasextensas e claras e as florestas cerradas e bravias. 21
  21. 21. Há um contentamento intraduzível em todos os co-rações, como se um pombo simbólico trouxesse asnovidades de um mundo mais firme, após novodilúvio. Henrique de Sagres, o antigo mensageiro doDivino Mestre, rejubila-se com as bênçãos recebidasdo céu. Mas, de alma alarmada pelas emoções maiscarinhosas e mais doces, confia ao Senhor as suasvacilações e os seus receios: — Mestre — diz ele — graças ao vosso coraçãomisericordioso, a terra do Evangelho florescerá agorapara o mundo inteiro. Dai-nos a vossa bênção para quepossamos velar pela sua tranqüilidade, no seio da pi-rataria de todos os séculos. Temo, Senhor, que as na-ções ambiciosas matem as nossas esperanças, invali-dando as suas possibilidades e destruindo os seus te-souros... Jesus, porém, confiante, por sua vez, na proteçãode seu Pai, não hesita em dizer com a certezae a alegria que traz em si:— Helil, afasta essas preocupações e receiosinúteis. A região do Cruzeiro, onde se realizará aepopéia do meu Evangelho, estará, antes de tudo,ligada eternamente ao meu coração. As injunçõespolíticas terão nela atividades secundárias, porque,acima de todas as coisas, em seu solo santificado eexuberante estará o sinal da fraternidade universal,unindo todos os espíritos. Sobre a sua volumosaextensão pairará constantemente o signo da minhaassistência compassiva e a mão prestigiosa e poteh-tíssima de Deus pousará sobre a terra de minha 22
  22. 22. cruz, com infinita misericórdia. As potências impe- rialistas da Terra esbarrarão sempre nas suas clarida- des divinas e nas suas ciclópicas realizações. Antes de o estar ao dos homens, é ao meu coração que ela se en- contra ligada para sempre. Nos céus imensos, havia clarões estranhos de umabênção divina. No seu sólio de estrelas e de flores, oSupremo Senhor sancionara, por certo, as bondosaspromessas de seu Filho. E foi assim que o minúsculo Portugal, atravésde três longos séculos, embora preocupado com asfabulosas riquezas das índias, pôde conservar, contraflamengos e ingleses, franceses e espanhóis, a uni-dade territorial de uma pátria com oito milhões emeio de quilômetros quadrados e com oito mil qui-lômetros de costa marítima. Nunca houve exemplocomo esse em toda a história do mundo. As posses-sões espanholas se fragmentaram, formando cercade vinte repúblicas diversas. Os Estados americanosdo norte devem sua posição territorial às anexaçõese às lutas de conquista. A Louisiana, o Novo México,o Alasca, a Califórnia, o Texas, o Oregon, surgiramdepois da emancipação das colônias inglesas. Só oBrasil conseguiu manter-se uno e indivisível naAmérica, entre os embates políticos de todos ostempos. Ê que a mão do Senhor se alça sobre a sualonga extensão e sobre as suas prodigiosas riquezas.O coração geográfico do orbe não se podia fracionar. 23
  23. 23. OS DEGREDADOS Todos os espíritos edificados nas lições subli-mes do Senhor se reuniram, logo após o descobri-mento da nova terra, celebrando o acontecimentonos espaços do Infinito. Grandes multidões donairo-sas e aéreas formavam imensos hifens de luz, entrea terra e o céu. Uma torrente impetuosa de per-fumes se elevava da paisagem verde e florida, embusca do firmamento, de onde voltava à superfíciedo solo, saturada de energias divinas. Nos ninhosquentes das árvores, pousavam as vibrações reno-vadoras das esperanças santificantes, e, no Além,ouviam-se as melodias evocadoras da Galiléia, uber-tosa e agreste antes das lutas arrasadoras das Cru-zadas, que lhe talaram todos os campos, transfor-mando-a num montão de ruínas. Afigurava-se que aregião dos pescadores humildes, que conheceu, bas-tante assinalados, os passos do Divino Mestre, sehavia transplantado igualmente para o continentenovo, dilatada em seus suaves contornos. Uma alegria paradisíaca reinava em todas asalmas que comemoravam o advento da Pátria doEvangelho, quando se fez presente, na assembléiaaugusta, a figura misericordiosa do Cordeiro. Complacente sorriso lhe bailava nos lábios an-gélicos e suas mãos liriais empunhavam largo estan-darte branco, como se um fragmento de sua almaradiosa estivesse ali dentro, transubstanciado na-quela bandeira de luz, que era o mais encantador 24
  24. 24. dos símbolos de perdão e de concórdia. Dirigindo-se a um dos seus elevados mensagei-ros na face do orbe terrestre, em meio do divinosilêncio da multidão espiritual, sua voz ressoou comdoçura:— Ismael, manda o meu coração que doravantesejas o zelador dos patrimônios imortais que consti-tuem a Terra do Cruzeiro. Recebe-a nos teus braçosde trabalhador devotado da minha seara, como arecebi no coração, obedecendo a sagradas inspira-ções do Nosso Pai. Reúne as incansáveis falangesdo Infinito, que cooperam nos ideais sacrossantosde minha doutrina, e inicia, desde já, a construçãoda pátria do meu ensinamento. Para aí transplanteia árvore da minha misericórdia e espero que a culti-ves com a tua abnegação e com o teu sublimadoheroísmo. Ela será a doce paisagem dilatada doTiberíades, que os homens aniquilaram na sua vora-cidade de carnificina. Guarda este símbolo da paze inscreve na sua imaculada pureza o lema da tuacoragem e do teu propósito de bem servir à causade Deus e, sobretudo, lembra-te sempre de que esta-rei contigo no cumprimento dos teus deveres, comos quais abrirás para a humanidade dos séculosfuturos um caminho novo, mediante a sagrada revi-vescência do Cristianismo. Ismael recebe o lábaro bendito das mãos com-passivas do Senhor, banhado em lágrimas de reco-nhecimento, e, como se entrara em ação o impulsosecreto da sua vontade, eis que a nívea bandeira temagora uma insígnia. Na sua branca substância, uma 25
  25. 25. tinta celeste inscrevera o lema imortal: "Deus,Cristo e Caridade". Todas as almas ali reunidasentoam um hosana melodiosoe intraduzível à sabe-doria do Senhor do Universo. São vibrações gloriosasda espiritualidade, que se elevam pelos espaços ili-mitados, louvando o Artista Inimitável e o Matemá-tico Supremo de todos os sóis e de todos os mundos. O emissário de Jesus desce então à Terra, ondeestabelecerá a sua oficina. Os exércitos dos seres re-dimidos e luminosos lhe seguem a esplêndida trajetó-ria e, como se o chão do Brasil fosse a superfíciede um novo Hélicon da imortalidade, a natureza,macia e cariciosa, toda se enfeita de luzes e sombras,de sinfonias e de ramagens odoríferas, preparan-do-se para um banquete de deuses. Os caminhos agrestes tornam-se sendas de ma-ravilhosa beleza, rasgadas pelas coortes do invisível. Nessa hora, a frota de Cabral foge das águasverdes e fartas da Baía de Porto Seguro. Entretanto, nas fitas extensas da praia choram,desesperadamente, os dois degredados, dos vintepárias sociais que o Rei D. Manuel I destinara aoexílio. Os homens do mar se distanciam daqueles sítios,levando amostras da sua extraordinária riqueza. Emtoda a paisagem há um largo ponto de interrogação,enquanto os dois infelizes se lastimam sem consoloe sem esperança. Os silvícolas amáveis e fraternoslhes abrem os braços; é dos seus corações rudes esimples que desabrocham, para a amargura deles,as flores amigas de um brando conforto. 26
  26. 26. Mas, Afonso Ribeiro, um dos condenados aopenoso desterro, avança numa piroga desprotegidae desmantelada, sem que os olhos da História lheanotassem o gesto de profunda desesperação, a ca-minho do mar alto. Ao longe, percebem-se ainda osderradeios mastros das caravelas itinerantes. O infe-liz degredado anseia por morrer. Os últimos gemidosabafados lhe saem da garganta exausta. Seus olhos, inchados de pranto, contemplam as duas imensida-des, a do oceano e a do céu, e, esperando na morteo socorro bondoso, exclama, do íntimo do coração: — Jesus, tende piedade da minha infinita amar-gura! Enviai a morte ao meu espírito desterrado.Sou inocente, Senhor, e padeço a tirania da injustiçados homens. Mas, se a traição e a covardia me arre-bataram da pátria, afastando dos meus olhos aspaisagens queridas e os afetos mais santos do cora-ção, essas mesmas calúnias não me separaram davossa misericórdia! Nesse instante, porém, o pobre exilado senteque uma alvorada de luz estranha lhe nasce noâmago da alma atribulada. Uma esperança nova seapossa de todas as suas fibras emotivas e, como pordelicado milagre, a sua jangada rústica regressa, cele-remente, à praia distante. Em vão as ondas sinistrase poderosas tentam arrebatá-lo para o oceano largo.Uma força misteriosa o conduz a terra firme, ondeo seu coração encontrará uma família nova. Ismael havia realizado o seu primeiro feito nasTerras de Vera Cruz. Trazendo um náufrago e ino-cente para a base da sociedade fraterna do porvir, 27
  27. 27. ele obedecia a sagradas determinações do DivinoMestre. Primeiramente, surgiram os índios, que eramos simples de coração; em segundo lugar, chegavamos sedentos da justiça divina e, mais tarde, viriamos escravos, como a expressão dos humildes e dosaflitos, para a formação da alma coletiva de um povo bem-aventurado por sua mansidão e fraternidade.Naqueles dias longínquos de 1500, já se ouviam noBrasil os ecos acariciadores do Sermão da Montanha. OS MISSIONÁRIOS D. Manuel I recebeu sem grande surpresa a no-tícia do descobrimento das terras novas. Seu espíritose achava voltado para os tesouros inesgotáveis dasíndias, que faziam da Lisboa daquele tempo umadas mais poderosas cidades marítimas da Europa. Contudo, o êxito do capitão-mor provocou umlargo movimento de curiosidade no círculo dos na-vegadores portugueses. Quase todas as expediçõesque se dirigiam aos régulos da Ásia tocavam nosportos vastos de Vera Cruz, cujo nordeste já cen-tralizava as atenções dos comerciantes franceses, queaí se abasteciam de vastas provisões de pau--brasil. Geralmente, as caravelas lusitanas que deman-davam Calicut traziam consigo grande número deexilados e de aventureiros. Muitos deles foram aban-donados no extenso litoral do país inexplorado edesconhecido, ao influxo das inspirações do mundoinvisível; essas criaturas vinham como batedores 28
  28. 28. humildes, à frente dos trabalhadores que, maistarde, chegariam às terras novas. A situação oficial perdurava com a indiferençado monarca, distraído pelas suas conquistas noOriente; mas, entre as autoridades administrativasdo Reino, comentava-se a questão da nova colôniaabandonada aos exploradores franceses e espanhóis.Compelido pela opinião do seu tempo, D. Manuelprovidencia as primeiras expedições oficiais, a fimde que se colocasse nas suas praias extensas o sinaldas armas portuguesas. Prepara-se a expedição deGonçalo Coelho, que, além de alguns cosmógrafosnotáveis, levava consigo Américo Vespúcio, famosona história americana pelas suas cartas acerca doNovo Mundo, nas quais, infelizmente, reside grandepercentagem de literatura e de pretensiosa imagina-ção. Chegando ao litoral baiano, Gonçalo Coelho or-ganiza a Feitoria de Santa Cruz, primeiro núcleo dacivilização ocidental nas plagas brasileiras. O nomedo país é agora Terra de Santa Cruz, pelo qual sefaz conhecido nos documentos da metrópole. Depois de graves incidentes, nos quais Vespú-cio se entrega a aventuras pelo interior da colônia,sedento de posição e de glória, o expedicionário por-tuguês, pobre de possibilidades e com raros compa-nheiros, lança marcos de Portugal ao longo de todaa costa brasileira. Uma das emoções mais gratas aoseu espírito é o quadro maravilhoso da Baía deGuanabara. Julgando-se no estuário de um rio es-plêndido, denomina Rio de Janeiro o local, em vir-tude de se encontrar ali nos primeiros dias do pri- 29
  29. 29. meiro mês do ano. No sítio encantado, instala umanova Feitoria — a da Carioca, da qual não ficaramlargos vestígios, passando aí meses a fio, a retem-perar suas energias em contacto com a paisagemmagnífica. Prossegue na sua tarefa de reconheci-mento e volta depois à metrópole, sem conseguirinteressar o monarca no que se referia à exploraçãoda terra nova. Limitou-se o rei português a permitiro estabelecimento de feiras de pau-brasil, na colônialongínqua, o que facultou aos elementos estrangei-ros o mais largo desenvolvimento de comércio comos indígenas da região litorânea. De Portugal, somente aportavam no Brasil, devez em quando, alguns aventureiros e degredados,obedecendo a um apelo inexplicável e desconhecido. Foi, aproximadamente, por essa época, queIsmael reuniu em grande assembléia os seus cola-boradores mais devotados, com o objetivo de insti-tuir um programa para as suas atividades espirituaisna Terra de Santa Cruz:— Irmãos — exclamou ele no seio da multidãode companheiros abnegados — plantamos aqui, sobo olhar misericordioso de Jesus, a sua bandeira depaz e de perdão. Todo um campo de trabalhos sedesdobra às nossas vistas. Precisamos de colabora-dores devotados que não temam a luta e o sacrifí-cio. Voltemo-nos para os centros culturais de Coim-bra e de Lisboa, a regenerar as fontes do pensa-mento, no elevado sentido de ampliarmos a nossaação espiritual. Alguns de vós ficareis em Portugal,mantendo de pé os elementos protetores dos nossos 30
  30. 30. trabalhos, e a maioria terá de envergar o sambenitohumilde dos missionários penitentes, para levar oamor de Deus aos sertões ínvios e carecidos de todoo conforto. Temos de buscar no seio da igreja asroupagens exteriores de nossa ação regeneradora.Infelizmente, a dolorosa situação do mundo europeu,em virtude do fanatismo religioso, tão cedo não serámodificada. Somente as grandes dores realizarão afraternidade no seio da instituição que deverá repre-sentar o pensamento do Senhor na face da Terra, aigreja que, desviada dos seus grandes princípios pelamais terrível de todas as fatalidades históricas, foiobrigada a participar do organismo mundano e pe-recível dos Estados. Um sopro de reformas se anun-cia, impetuoso, no âmago das organizações religio-sas da Europa e, em breves dias, Roma conhecerámomentos muito amargos, não obstante os sonhosde arte e de grandeza de Leão X, que detém nesteinstante uma coroa injustificável, porquanto o reinode Jesus ainda não é desse mundo; mas, temos deaproveitar as possibilidades que o seu campo nosoferece para encetar essa obra de edificação dapátria do Cordeiro de Deus. Pregareis, em Portugal, a verdade e o despren-dimento das riquezas terrestres e trabalhareis, sob aminha direção, nas florestas imensas de Santa Cruz,arrebanhando as almas para o Ünico Pastor. O ca-racterístico de vossa ação, como missionários do PaiCelestial, será um testemunho legítimo de renúnciaa todos os bens materiais e uma consoladora pobreza. Quase todos os Espíritos santificados, ali pre- 31
  31. 31. sentes, se oferecem como voluntários da grandecausa. Entre muitos, descobriremos José de Anchie-ta e Bartolomeu dos Mártires, Manuel da Nóbrega,Diogo Jácome, Leonardo Nunes e muitos outros, quetambém foram dos chamados para esse conclaveno mundo invisível. Em 1531, após Portugal ter resolvido, sob adireção de D. João III, a primeira tentativa de colo-nização da Terra de Santa Cruz, alguns dos convo-cados, participantes daquela augusta assembléia,chegavam ao Brasil com Martim Afonso de Sousa ea sua companhia de trezentos homens, a tomar parteativamente na fundação de S. Vicente e na de Pira-tininga. Nóbrega aportava mais tarde, na Bahia, comTome de Sousa, o primeiro governador-geral da co-lônia, em 1549, chefiando grande número dessesirmãos dos simples e dos infelizes, a fim de estabe-lecer novos elementos de progresso e dar início àcidade do Salvador. Anchieta veio depois, em 1553, com Duarte daCosta, e se transformou no desvelado apóstolo doBrasil. Designado para desenvolver, particularmen-te, os núcleos de civilização já existentes em Pira-tininga, aí se manteve no seu respeitável colégio,que todos os governos paulistas conservaram comveneração carinhosa, como tradição de sua culturae de sua bondade. Alguns historiadores falam comseveridade da energia vigorosa do apóstolo que,muitas vezes, foi obrigado a assumir atitudes corre-tivas no seio das tribos, que, entretanto, lhe mere- 32
  32. 32. ciam as dedicações e os desveles de um pai. Anchie-ta aliou, no mundo, à suprema ternura, grande ener-gia realizadora; mas, aqueles que, na história oficial,lhe descobrem os gestos enérgicos, não lhe notam asuavidade do coração e a profundeza dos sacrifícios,nem sabem que, depois, foi ainda ele a maior expres-são de humildade no antigo convento de Santo An-tônio do Rio de Janeiro, onde, com o hábito singelode frade, adoçou ainda mais as suas concepções deautoridade. A edificadora humildade de um Fabianode Cristo, aliada a um sentimento de renúncia total desi mesmo, constituía a última pedra que faltavana sua coroa de apóstolo da imortalidade. D. João m teve a infelicidade de introduzir emPortugal o organismo sinistro da Inquisição. Como tribunal da penitência, vieram os Jesuítas. Não constitui objeto do nosso trabalho o examedos erros profundos da condenável instituição, quefez da Igreja, por muitos séculos, um centro de per-versidade e de sombras compactas, em todas asnações européias, que a abrigaram à sombra da má-quina do Estado. O que nos importa é a exaltaçãodaqueles missionários de Deus, que afrontavam anoite das selvas para aclarar as consciências com alição suave do Mártir do Calvário. Esses homensabnegados eram, de fato, "o sal da nova terra". Os falsos sacerdotes poderiam continuar mas-sacrando, em nome do Senhor, que é a misericórdiasuprema; poderiam prosseguir ostentando as púrpurasluxuosas e todas as demais suntuosidades doreino mentiroso desse mundo, incensando os pode- 33
  33. 33. rosos da Terra e distanciando-se dos pobres e dosaflitos; mas, os humildes missionários da cruzouviam a voz de Ismael, no âmago de suas almas;aos seus sagrados apelos, abandonaram todos osbens, para seguir os rastros luminosos dAquele quefoi e será sempre a luz do mundo. Foram eles osprimeiros traços luminosos das falanges imortais doInfinito, corporificadas na terra do Evangelho, e,com a sua divina pobreza, se fizeram os iniciadores dagrande missão apostólica do Brasil no seio domundo moderno, inaugurando aqui um caminho res-plandecente para todas as almas, transformando aterra do Cruzeiro numa dourada e eterna Porciúncula. OS ESCRAVOS Certo dia, preparava-se, numa das esferas supe-riores do Infinito, o encontro de Ismael com Aqueleque será sempre caminho, verdade e vida. Por toda parte, abriam-se flores evanescentes,oriundas de um solo de radiosas neblinas. Luzes po-licrômicas enfeitavam todas as paisagens celestes,que se perdiam na incomensurável extensão dos espaçosfelizes. Rodeado dos seres santificados e venturosos queconstituem a coorte luminosa de seus mensageirosabnegados, recebeu o Senhor, com a sua complacência,o emissário dileto do seu amor nas terras doCruzeiro. Ismael, porém, não trazia no coração o sinal da 34
  34. 34. alegria. Seus traços fisionômicos deixavam mesmotransparecer angelical amargura. — Senhor — exclama ele — sinto dificuldadespara fazer prevaleçam os vossos desígnios nos ter-ritórios onde pairam as vossas bênçãos dulcificantes.A civilização, que ali se inicia sob os imperativos davossa vontade compassiva e misericordiosa, acabade ser contaminada por lamentáveis acontecimentos.Os donatários dos imensos latifúndios de Santa Cruzfizeram-se à vela, escravizando os negros indefesosda Luanda, da Guiné e de Angola. Infelizmente, ospobres cativos, miseráveis e desditosos, chegam àpátria do vosso Evangelho como se fossem animaisbravios e selvagens, sem coração e sem consciência. O mensageiro, porém, não conseguiu continuar.Soluços divinos lhe rebentaram do peito opresso,evocando tão amargas lembranças... O Divino Mestre, porém, cingindo-o ao seu co-ração augusto e magnânimo, explicou brandamente: — Ismael, asserena teu mundo íntimo nocumprimento dos sagrados deveres que te foramconfiados. Bem sabes que os homens têm a sua res-ponsabilidade pessoal nos feitos que realizam emsuas existências isoladas e coletivas. Mas, se nãopodemos tolher-lhes aí a liberdade, também não po-demos esquecer que existe o instituto imortal dajustiça divina, onde cada qual receberá de confor-midade com os seus atos. Havia eu determinado quea Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildesdo planeta, buscando-se a colaboração dos povos so-fredores das regiões africanas; todavia, para que 35
  35. 35. essa cooperação fosse efetivada sem o atrito dasarmas, aproximei Portugal daquelas raças sofredo-ras, sem violências de qualquer natureza. A colabo-ração africana deveria, pois, verificar-se sem abalosperniciosos, no capítulo das minhas amorosas deter-minações. O homem branco da Europa, entretanto,está prejudicado por uma educação espiritual con-denável e deficiente. Desejando entregar-se ao prazerfictício dos sentidos, procura eximir-se aos traba-lhos pesados da agricultura, alegando o pretexto dosclimas considerados impiedosos. Eles terão a liber-dade de humilhar os seus irmãos, em face da grandelei do arbítrio independente, embora limitado, insti-tuído por Deus para reger a vida de todas as cria-turas, dentro dos sagrados imperativos da respon-sabilidade individual; mas, os que praticarem o ne-fando comércio sofrerão, igualmente, o mesmo mar-tírio, nos dias do futuro, quando forem tambémvendidos e flagelados em identidade de circunstân-cias. Na sua sede nociva de gozo, os homens brancosainda não perceberam que a evolução se processapela prática do bem e que todo o determinismo deNosso Pai deve assinalar-se pelo "amai o próximocomo a vós mesmos". Ignoram voluntariamente que omal gera outros males com um largo cortejo desofrimentos. Contudo, através dessas linhas tortuo-sas, impostas pela vontade livre das criaturas hu-manas, operarei com a minha misericórdia. Colocareia minha luz sobre essas sombras, amenizando tãodolorosas crueldades. Prossegue com as tuas renún-cias em favor do Evangelho e confia na vitória da 36
  36. 36. Providência Divina. Calara-se a voz de Jesus por instantes; maisconfortado, Ismael continuou: — Senhor, não teríeis um meio direto de orien-tar a política dominante, no sentido de se purificaro ambiente moral da Terra de Santa Cruz? Ao que o Divino Mestre ponderou sabiamente: — Não nos compete cercear os atos e intençõesdos nossos semelhantes e sim cuidar intensamentede nós mesmos, considerando que cada um será jus-tiçado na pauta de suas próprias obras. Infelizmen-te, Portugal, que representa um agrupamento deespíritos trabalhadores e dedicados, remanescentedos antigos fenícios, não soube receber as facilida-des que a misericórdia do Supremo Senhor do Uni-verso lhe outorgou nestes últimos anos. Até aos meusouvidos têm chegado as súplicas dolorosas das raçasflageladas por sua prepotência e desmesuradas am-bições. Na velha Península já não existe o povo maispobre e mais laborioso da Europa. O luxo das con-quistas lhe amoleceu as fibras criadoras e todas assuas preciosas energias e qualidades de trabalhovêm esmorecendo sob o amontoado de riquezas fa-bulosas. Entretanto, o tempo é o grande mestre detodos os homens e de todos os povos, e, se não nosé possível cercear o arbítrio livre das almas, pode-remos mudar o curso dos acontecimentos, a fim deque o povo lusitano aprenda, na dor e na miséria,as lições sagradas da experiência e da vida. Ismael retornou à luta, cheio de fervorosa co-ragem e os acontecimentos foram modificados. 37
  37. 37. Os donatários cruéis sofreram os mais tristesreveses no solo do Brasil. Os Tupinambás e os Tupiniquins, que se loca-lizavam na Bahia e haviam recebido Cabral com asmelhores expressões de fraternidade, reagiram con-tra os colonizadores, transformados, para eles, emdesalmados verdugos. Lutas cruentas desencadearamcontra os brancos, que lhes depravavam os costumes. A luxuosa expedição de João de Barros, que sedestinava ao Maranhão, mas que saíra de Lisboa cominstruções secretas para conquistar o ouro dos incas,no Peru, dispersou-se no mar, sofrendo os seus com-ponentes infinitos martírios e resgatando com ele-vados tributos de sofrimento as suas criminosasintenções, na condenável aventura. Os tesouros das índias levaram o povo portu-guês à decadência e à miséria, pela disseminação dosartifícios do luxo e pelas campanhas abomináveis daconquista, cheias de crueldade e de sangue. A sedede ouro acarretava o abandono de todos os campos. A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA Nas praias largas e fartas de Santa Cruz, flo-resciam cidades prestigiosas. Com o feudalismo dascapitanias, as cidades e as vilas modernas do litoraldo Brasil estavam já em seus primórdios, destacan-do-se dentre todas os núcleos populosos do Salvadore de São Vicente, em vista das facilidades encon-tradas pelos colonizadores, com o auxílio dos Cara- 38
  38. 38. murus e dos Ramalhos, que os haviam precedido naação, junto dos indígenas. Contudo, Portugal ainda não se decidira a des-tacar os seus elementos mais valorosos para os tra-balhos da colônia, preferindo enviar-lhe criminosose homens sem escrúpulos. Por toda parte, buscavamos naturais os recantos desconhecidos das florestasremotas, fugindo à escravidão e às torturas injusti-ficáveis que lhes infligiam os homens brancos, poreles, um dia, acolhidos com as mais altas manifes-tações de fraternidade. O atrito das raças dava ensejo aos quadros maisdolorosos e mais lamentáveis. Tome de Sousa estava substituído por Duarteda Costa, que, como o primeiro governador-geral,trouxera também consigo alguns dos missionáriosconcitados por Ismael ao novo apostolado nas flo-restas americanas. Por essa época, os franceses desejaram apro-veitar a encantadora beleza da Baía de Guanabara eestabeleceram aí uma feitoria, nos mesmos sítios poronde se havia retemperado Gonçalo Coelho, nos pri-meiros anos decorridos após o descobrimento. Coma proteção do Almirante Coligny, então favorito doRei Henrique II de França, Nicolau de Villegaignonaporta à baía maravilhosa, em 1555, e funda umacolônia na Hha de Serigipe, que tomou, mais tarde,o seu nome. Das árvores de Uruçumirim, que é hojea praia elegante do Flamengo, os Tamoios valentescontemplavam, receosos, a intromissão dos europeusna sua região privilegiada. Mas, Villegaignon, com 39
  39. 39. a sua mentalidade religiosa e honesta, conseguecaptar a confiança dos naturais, concedendo-lhes omesmo tratamento dispensado aos seus companhei-ros. Os indígenas recebem carinhosamente a orien-tação de Paicolás e se tornam devotados colabora-dores da sua obra. Enquanto os franceses se vão apoderando dacosta, D. Duarte, na Bahia, lhes observa os movi-mentos, impossibilitado de adotar quaisquer provi-dências. A metrópole portuguesa não se digna deenviar à colônia distante os elementos necessáriosà sua conservação e defesa. Villegaignon, localizadona Guanabara, edifica a sua obra; mas, os padrescalvinistas, que lhe acompanharam a expedição, inu-tilizam-lhe muitas vezes o trabalho construtivo, comas suas discussões estéreis. Em 1559, Villegaignonregressa à França, no propósito de buscar recursosoficiais, sem jamais tornar ao Brasil, ficando os seuscompatriotas abandonados na colônia nascente. Em 1558, havia assumido o governo-geral deSanta Cruz, Mem de Sá, que combate sem tréguas ainfluência dos estrangeiros. Com a sua energia,expele os franceses do Rio de Janeiro, destruin-do-lhes as fortificações. Mal, porém, se havia reti-rado o governador, voltaram os franceses dispersosa reassumir a sua posição na Ilha de Serigipe, como auxílio dos Tamoios, reunidos a esse tempo namaior confederação indígena que já existiu em ter-ras do Brasil, sob a direção de Cuhambebe, contraas perversidades dos colonizadores portugueses. O go-vernador-geral reconhece a necessidade de fundar-se 40
  40. 40. uma povoação que aí ficasse como sentinela dacosta, a fim de eliminar os derradeiros resquíciosdas influências francesas. O grande projeto aguardaensejo favorável para a sua concretização. Estáciode Sá, sobrinho do governador, é então incumbidode comandar uma guarnição que ali se planta, emdefesa da cidade; a povoação se reparte em peque-nas guarnições de militares, junto ao Pão de Açúcare numa das numerosas ilhas do golfo esplêndido. Osfranceses, todavia, unem-se aos índios e Estácio deSá morre, em 1567, empenhado com eles em guerras.O combate, em tais circunstâncias, assume propor-ções aspérrimas e rudes. Mem de Sá reúne todas asforças disponíveis nas cidades da colônia e atacatodas as fortificações que existiam onde hoje sesituam a praia do Flamengo e a Ilha do Governador;obtém a mais completa vitória sobre o inimigo, maspermitiu, lamentavelmente, que aí se consumasseminauditas crueldades com os vencidos. Os portugueses transferem, então, a cidade, que fica definitivamente fundada no Morro de São Ja- nuário, mais tarde do Castelo. Em homenagem ao mártir do Cristianismo, recebeu a cidade o nome de São Sebastião, ficando outro sobrinho do governa- dor na sua administração. Nas esferas superiores do infinito, Ismael e suasabnegadas falanges choram sobre tão lamentáveisacontecimentos, quais o suplício imposto a João deBoles pelos elementos de mais confiança dos maio-rais da espiritualidade. A cidade fica sob a proteção espiritual de Sebastião, 41
  41. 41. o grande filho de Narbonne, martirizado pela sua fécristã ao tempo de Diocleciano, em 288 da nossa era.Estácio de Sá reúne-se às falanges invisíveis, encarre-gadas de cooperar no progresso daqueles sítios. Sob asvistas amorosas do desvelado patrono da cidade, desdo-bra-se em dedicação a favor do seu progresso, entre osnúcleos florescentes. Muitas vezes voltou Estácio a se corporificar naPátria do Evangelho, para viver na paisagem predi-leta dos seus olhos. Sua personalidade aí adquiriuelementos de ciência e de virtude e, ainda há poucosanos, podia ser encontrada na figura do grande be-nemérito do Rio de Janeiro, que foi Osvaldo Cruz. Depois das lutas sanguinolentas nas praias dabaía mais bela do mundo, onde os vícios europeus,desencadeando nefandas guerras religiosas, batalha-vam entre si, estendendo suas crueldades até aoNovo Mundo, Ismael considerou a necessidade deestabelecer uma diretriz para a organização econô-mica da terra do Cruzeiro. Após a elaboração delargos projetos de ação do plano invisível, o sábiomensageiro do Senhor discrimina as funções de cadaregião da pátria brasileira. Junto do golfo enorme,onde os contornos da paisagem assumem as cam-biantes mais delicadas e mais espantosas, desdo-brando-se nos mais graciosos caprichos da Natureza,traça ele as linhas de uma urbe maravilhosa, queserá a sede do pensamento brasileiro e, mais funda-mente, no coração da terra moça e bravia, tracejaas plantas magníficas das duas usinas mais podero-sas, onde se guardará o profundo manancial de suas 42
  42. 42. forças orgânicas. Os pontos de fixação dessas sagradasbalizas são encontrados ao longo dos seiscentos qui-lômetros de extensão do Paraíba do Sul e nas cabe-ceiras do São Francisco, cuja corrente deverá lançar,pelo seu percurso de quase três mil quilômetros, todasas sementes da brasilidade mais pura. Aproveitou também Ismael os núcleos orienta-dores de Piratininga, que se expandiriam, mais tarde,com as audaciosas bandeiras. A linha do coração doBrasil, até hoje, se encontra aí traçada. Ninguém pode negar a hegemonia da intelectua-lidade carioca e fluminense, desde os tempos emque a cidade de São Sebastião se derramou do Morrodo Castelo, invadindo as ilhas, absorvendo as praiaslongas e elevando-se pelos outeiros vizinhos. SãoPaulo e Minas de hoje foram as regiões escolhidascomo as duas fontes poderosas que guardariam opotencial de energias orgânicas da terra, formandoos primeiros índices da etnologia brasileira. Aságuas do Paraíba do Sul e as de todo o percurso doSão Francisco ainda constituem roteiro singular,onde se descobrem os característicos mais fortes dopovo fraternal da terra do Cruzeiro. Cada Estado doBrasil tem a sua função essencial no corpo ciclópicoda pátria que representa o coração geográfico domundo; mas, em S. Paulo e em Minas Gerais se assen-taram, por determinação do invisível, os elementosindispensáveis à organização da pátria esplêndida.Ambos serão ainda, por muito tempo, as conchas dabalança política e econômica da nacionalidade e osdínamos mais poderosos da sua produção. Obede- 43
  43. 43. cendo aos elevados propósitos do mundo oculto,ambos ficaram irmanados junto do cérebro do país,por indefectíveis disposições do determinismo geo-gráfico, que os reúne para sempre. Os Espíritos in-felizes e perturbados, inimigos da obra de Jesus,que, entretanto, se converterão um dia ao supremobem, pela sua infinita piedade, agem de preferêncianos bastidores administrativos dos dois grandes Es-tados brasileiros, provocando a vaidade dos seushomens públicos, levantando tricas políticas e con-duzindo-os, muitas vezes, a lutas fratricidas e tene-brosas, no sentido de atrasar os triunfes divinos doEvangelho, no coração de todas as almas. Mas, os devotados obreiros do Além não des-cansam em sua faina de abnegação e renúncia e,ainda agora, em 1932, quando um distinto jorna-lista da atualidade rasgava a bandeira nacional nacapital paulista, em seu famoso discurso sem pala-vras, José de Anchieta, de quem João de Boles éagora dedicado colaborador, e vários outros gêniosespirituais da terra brasileira se reuniam no Colégio dePiratininga, implorando a Jesus derramasse odoce bálsamo da sua humildade sobre o orgulhoferido dos valorosos piratininganos, e Ismael esten-de o seu lábaro de perdão e de concórdia sobre osmovimentos fratricidas e reúne de novo os irmãosdos dois grandes Estados centrais do país, para arealização da sua obra em prol do Evangelho. As fraquezas e vaidades humanas, fermentadaspor forças maléficas do mundo, têm separado muitasvezes as coletividades dos dois grandes Estados da 44
  44. 44. República, levando-os à inimizade e quase à ruína;mas, muito breve, quando as sombras da confusãodos tempos modernos invadirem ameaçadoramenteos céus da pátria, ambos compreenderão a imperiosanecessidade de se unirem para sempre, como irmãosmuito amados e, novos símbolos de Castor e Pólux,expandirão juntos as suas energias étnicas, modela-doras da terra do Evangelho, absorvendo nos seussurtos extraordinários as expressões excessivamenteindiáticas do Amazonas, ao Norte, e as platinas in-fluências nas planícies do Rio Grande, por cumpri-rem, de mãos dadas, os imperativos da sua grandemissão histórica. Nesse tempo que não vem muito longe, as men-sagens de fraternidade e de amor, expedidas pelosgênios inspiradores do Brasil, do sagrado Colégiode Piratininga, tocarão, primeiramente, na coroa detênues neblinas das montanhas, antes de ascende-rem aos céus. OS NEGROS DO BRASIL Sob o domínio espanhol, Portugal sofria todasas conseqüências da sua desídia e imprevidência.A Espanha guardava o cetro de um império resplan-decente e maravilhoso. Suas frotas poderosas co-briam as águas de todos os mares, carregando ostesouros do México e do Peru, do Brasil e das índias,os quais faziam afluir para Madrid a mais elevadaporcentagem de ouro do mundo inteiro. Até hoje, comenta-se com espírito a célebre 45
  45. 45. frase de Francisco I, exprimindo o seu desejo deconhecer a disposição testamentária de Adão, quedividira o mundo entre espanhóis e portugueses eo deserdara. A esse tempo, a terra do Evangelho não é maisconhecida pelo nome suave de Santa Cruz. Ã forçadas expressões comuns, dos negociantes que vinhambuscar as suas fartas provisões de pau-brasil, seunome se prende agora ao privilégio das suas madeiras.Os missionários da colônia protestaram contra a ino-vação adotada; mas, as falanges do Infinito sancio-naram a novidade imposta pelo espírito geral, consi-derando as terríveis crueldades cometidas na Baíade Guanabara, em nome do mais caricioso dos sím-bolos. A sanção de Ismael à escolha da nova expres-são objetivava resguardar a pátria do Cruzeiro dosperigos da Inquisição, que na Europa fomentava osmais hediondos movimentos em nome do Senhor. A situação, no Brasil, sob todos os pontos devista, como a da metrópole portuguesa, era dolorosae cruel, embora governado por funcionário de Lis-boa, segundo as combinações estipuladas na Pe-nínsula. A raça aborígine e a raça negra sofriam toda sorte de humilhações e vexames. Os índios procura- vam o Norte, em busca dos seus amigos franceses, que, expulsos do Rio por Mem de Sá, concentravam suas atividades no Maranhão, onde pretendiam fun- dar a França Equinocial, preocupando seriamente as autoridades da colônia. A situação geral era a mais deplorável. Ismael e seus abnegados colabora do- 46
  46. 46. res sofrem intensamente em seus trabalhos árduos e quase improfícuos, no sentido de organizar o Insti- tuto sagrado da família nas florestas inóspitas, onde os brancos não dispensavam consideração às leis humanas ou divinas, na condição de superioridade que se atribuíam. Aos céus ascendem os aflitivos apelos dosobreiros invisíveis: — Senhor! — exclama Ismael nas suas preo-cupações — estendei até nós o manto da vossa infi-nita misericórdia. Enviai-nos o socorro das vossasbênçãos divinas, para que as nossas vozes sejamouvidas pelos espíritos que aqui procuram edificaruma pátria nova. Nosso coração se comove ante osquadros deploráveis que se deparam às nossas vistas.Por toda parte, vêem-se os infortúnios das raçasflageladas e sofredoras. Uma voz suave e meiga lhe responde do Infinito: — Ismael, nas tuas obrigações e trabalhos, con-sidera que a dor é a eterna lapidaria de todos osespíritos e que o Nosso Pai não concede aos filhosfardo superior às suas forças, nas lutas evolutivas.Abriga aí, na sagrada extensão dos territórios dopaís do Evangelho, todos os infortunados e todosos infelizes. No meu coração ecoam as súplicas dolo-rosas de todos os seres sofredores, que se agrupamnas regiões inferiores dos espaços próximos daTerra. Agasalha-os no solo bendito que recebe asirradiações do símbolo estrelado, alimentando-os com opão substancioso dos sofrimentos depuradores edas lágrimas que lavam todas as manchas da alma. 47
  47. 47. Leva a essas coletividades espirituais, sinceramentearrependidas do seu passado obscuro e delituoso, atua bandeira de paz e de esperança; ensina-lhes a leros preceitos da minha doutrina, nos códigos doura-dos do sofrimento. Ismael sente que luzes compassivas e miseri-cordiosas lhe visitam o coração e parte com os seuscompanheiros, em busca dos planos da erraticidademais próximos da Terra. Aí se encontram antigosbatalhadores das cruzadas, senhores feudais da Ida-de Média, padres e inquisidores, espíritos rebeldes erevoltados, perdidos nos caminhos cheios da trevadas suas consciências polutas. O emissário do Senhordesdobra nessas grutas do sofrimento a sua ban-deira de luz, como uma estrela dalva, assinalandoo fim de profunda noite.— Irmãos — exorta ele comovido — até aocoração do Divino Mestre chegaram os vossos apelosde socorro espiritual. Da sua esfera de brandos arre-bóis cristalinos, ordena a sua misericórdia que asvossas lágrimas sejam enxugadas para sempre. Umensejo novo de trabalho se apresenta para a reden-ção das vossas almas, desviadas nos desfiladeiros doremorso e do crime. Há uma terra nova, onde Jesusimplantará o seu Evangelho de caridade, de perdãoe de amor indefiníveis. Nos séculos futuros, essapátria generosa será a terra da promissão para todos osinfelizes. Dos seus celeiros inesgotáveis sairá opão de luz para todas as almas; mas, preciso se faznos voltemos para o seu solo virgem e exuberante aconstruir-lhe as bases com os nossos sacrifícios e 48
  48. 48. devotamentos. Ali encontrareis, nos carreiros aspér-rimos da dor que depura e santif ica, a porta estreitapara o céu de que nos fala Jesus nas suas liçõesdivinas. Aprendereis, no livro dos padecimentos sal-vadores, a gravar na consciência os sagrados pará-grafos da virtude e do amor, na epopéia de luz dasolidariedade, na expiação e no sofrimento. Sabeique todas as aquisições da filosofia e da ciência ter-restres são flores sem perfume, ou luzes sem calore sem vida, quando não se tocam das claridades dosentimento. Aqueles de vós que desejarem o supre-mo caminho venham para a nossa oficina de amor,de humildade e redenção. E aí, nas estradas escuras e tristes da angústiaespiritual, viu-se, então, que falanges imensas, an-siosas e extasiadas, avançavam com fervorosa cora-gem para as clareiras abertas naquela mansão dedor e de sombras. Todos queriam, no seu testemu-nho de agradecimento, beijar a bandeira sacrossantado mensageiro divino. O seu emblema — Deus,Cristo e Caridade — refulgia agora nas penumbras,iluminando todas as coisas e clarificando todos oscaminhos. As esperanças reunidas, daqueles seresinfortunados e sofredores, faziam a vibração de luzque então aclarava todas as sendas e abria todos osentendimentos para a compreensão das finalidades,das determinações sublimes do Alto. Essas entidades evolvidas pela ciência, maspobres de humildade e de amor, ouviram os apelosde Ismael e vieram construir as bases da terra doCruzeiro. Foram elas que abriram os caminhos da 49
  49. 49. terra virgem, sustentando nos ombros feridos o pesode todos os trabalhos. Nesse filão de claridades in-teriores, buscaram as pérolas da humildade e dosentimento com que se apresentaram mais tarde aJesus, no dia, que lhes raiou, de redenção e de glória. Foi por isso que os negros do Brasil se incor-poraram à raça nova, constituindo um dos baluartesda nacionalidade, em todos os tempos. Com as suasabnegações santificantes e os seus prantos abençoa-dos, fizeram brotar as alvoradas do trabalho, depoisdas noites primitivas. Na Pátria do Evangelho têmeles sido estadistas, médicos, artistas, poetas e es-critores, representando as personalidades mais emi-nentes. Em nenhuma outra parte do planeta alcan-çaram, ainda, a elevada e justa posição que lhescompete junto das outras raças do orbe, como acon-tece no Brasil, onde vivem nos ambientes da maispura fraternidade. É que o Senhor lhes assinalou opapel na formação da terra do Evangelho e foi poresse motivo que eles deram, desde o princípio desua localização no país, os mais extraordináriosexemplos de sacrifício à raça branca. Todos os gran-des sentimentos que nobilitam as almas humanas eles osdemonstraram e foi ainda o coração deles, dedi-cado ao ideal da solidariedade humana, que ensinouaos europeus a lição do trabalho e da obediência, nacomuna fraterna dos Palmares, onde não havia nemricos nem pobres e onde resistiram com o seu esforçoe a sua perseverança, por mais de setenta anos, es-crevendo, com a morte pela liberdade, o mais belopoema dos seus martírios nas terras americanas. 50
  50. 50. Por toda parte, no país, há um ensinamento ca-ricioso do seu resignado heroísmo, e foi por essa razãoque a terra brasileira soube reconhecer-lhes as abne-gações santificadas, incorporando-os definitivamenteà grande família, de cuja direção muitas vezes par-ticipam, sem jamais se esquecer o Brasil de que osseus maiores filhos se criaram para a grandeza dapátria, no generoso seio africano. A INVASÃO HOLANDESA Se à raça negra eram impostas as mais dolo-rosas torturas, nos primórdios da organização doBrasil, não menores sacrifícios se exigiam dos in-dígenas, acostumados à amplitude da terra, proprie-dade deles. As "entradas" pelo sertão, com o fito de escra-vizar os selvagens indefesos, se realizavam, naqueletempo, em todos os recantos. Tabas prósperas eram incendiadas de surpresa,no silêncio da noite. São famosas e comovedoras asdescrições que desses fatos guardam os documentosantigos. Somente de uma vez, uma caravana de por-tugueses capturou mais de sete mil homens válidos,mulheres, velhos e crianças. E quando os mamelucosguiadores não convenciam os naturais de que deviamacompanhá-los às cidades mais próximas, para queas caçadas humanas se verificassem com pleno êxito,as cenas de selvajaria nodoavam a floresta virgem,enchendo de pavor os caminhos atapetados de cadá- 51
  51. 51. veres e de sangue coagulado. Como represália atantas crueldades, os Tamoios nunca se harmoniza-ram com os portugueses. Desde o princípio da açãodestes, foram seus declarados inimigos. No seio dessas lutas devastadoras, em que ven-ciam, a maior parte das vezes, as criminosas astúciasdos colonos, eram os padres piedosos os que maissofriam, experimentando a angústia de se veremdesprezados pelos seus próprios companheiros daraça branca, nos sertões ínvios e hostis. A almasimples dos naturais se mostrava maleável aos seusensinamentos. Aos seus apelos, aproximavam-se dosnúcleos de civilização. Aldeavam-se para uma vidaordeira que os colonizadores destruíam com as suastaras infames e seculares. Anchieta e quase todos osoutros missionários das selvas brasileiras sustenta-ram demoradas lutas, defendendo os indígenas fra-ternos. A verdade, porém, é que, embora esfacelas-sem os púlpitos na pregação da piedade cristã, suasvozes se perdiam na imensidade do céu, sem que seusirmãos da terra as escutassem com a idéia generosade lhes praticar os carinhosos ensinos. Os primeirosbrancos que aportaram à América do Sul, na suageneralidade, não tinham em conta a existência dalei nas extensas florestas do Novo Mundo. Os portugueses prosseguiam, incessantemente,na faina ingrata de "descer os índios". Regressando ao Além, os primeiros missionáriosda caravana luminosa de Ismael pedem a sua cola-boração misericordiosa, para que semelhante situa-ção se modifique. Mas, o grande apóstolo de Jesus 52
  52. 52. explica:— Irmãos, não podemos tolher a liberdade dosnossos semelhantes. Não sou indiferente a esses mo-vimentos hediondos, nos quais os índios, simples ebons, são capturados para os duros trabalhos docativeiro. Esperemos no Senhor, cujo coração mise-ricordioso e augusto agasalhará todos aqueles quese encontram famintos de justiça. Contudo, podere-mos, com os nossos esforços, auxiliar os encarnadosna compreensão das leis fraternas, avisando-lhes ocoração de modo indireto, quanto aos seus divinosdeveres. Infelizmente, não encontramos, na atuali-dade do planeta, outro povo que substitua os portu-gueses na grande obra de edificação da Pátria doEvangelho. Todas as demais nações, como o próprioPortugal, se encontram presas da cobiça, da invejae da ambição. Os vícios de todas as identificam per-feitamente umas com as outras, e no povo lusitanotemos de considerar a austera honradez aliada agrandes qualidades de valor e de sentimento, que ohabilitam, conforme a vontade do Senhor, a povoaros vastos latifúndios que constituirão mais tarde opouso abençoado da lição de Jesus. Colonizadoresdesalmados estão em todos os países dos temposmodernos, que não reconhecem outro direito a nãoser o da força desumana e impiedosa. Recorrendo,pois, às possibilidades ao nosso alcance, buscaremos,na Europa, um príncipe liberal, trabalhador e justo,que não esteja subordinado à política romana, a fimde caracterizar a nossa ação indireta. Traremos asua personalidade de administrador para a parte 53
  53. 53. mais flagelada da nova pátria, a fim de que seusexemplos possam servir aos que se encontram nadireção das atividades sociais e políticas da colôniae beneficiem, ide maneira geral, a nação inteira. Elevirá na qualidade de invasor, porquanto não encon-tramos outros recursos para a adoção de providên-cias dessa natureza; mas, a sua permanência noBrasil será curta e eventual, apenas durante os anosnecessários a que suas lições sejam prodigalizadasaos administradores da nova terra. Preliminarmen-te, porém, devemos considerar que os seus compa-nheiros não serão melhores que os portugueses, nosentido da educação espiritual. A época é de pro-fundo atraso de quase todos os indivíduos e é paraexpelir essas trevas da consciência do mundo quenos teremos de sacrificar nas atmosferas próximas daTerra, trabalhando pela vitória do Senhor emtodos os corações. Os fatos se verificaram, consoante as afirma- ções do iluminado preposto de Jesus. Em 1624, a pretexto de sua guerra com a Espa- nha, os holandeses tomavam de assalto a Bahia, sob o comando de Johan Van Dorth. Importa notar que as cenas dolorosas e lasti- máveis, decorrentes da invasão, não foram organi- zadas pelas abnegadas falanges do mundo invisível. As causas profundas desses fatos residiam no estado evolutivo da época. Os morticínios nas praças incen- diadas e destruídas se verificavam, todos os dias, entre inevitáveis atritos das raças chamadas a po- voar aqueles recantos desconhecidos. 54
  54. 54. Em 1637, entrava em Pernambuco o generalholandês João Maurício, Príncipe de Nassau. Inu-meráveis benefícios e imensos frutos produziu a suaadministração no Norte do Brasil, que foi semprea zona mais sacrificada do país. O Recife se ostenta diante da Europa, comouma das mais belas cidades da América do Sul.Olinda é reedificada. Uma assembléia de mecânicos,de pintores, de arquitetos e artistas acompanha oPríncipe de Nassau, enchendo a sua cidade de sin-gulares esplendores. Mas, o espírito construtivo doadministrador holandês não se cristaliza nas expres-sões materiais da sua cidade predileta. O amor e orespeito que vota à liberdade fazem-no venerado detodos os brasileiros e portugueses de Pernambuco,cujas terras, naquela época, desciam até à região doParacatu, em Minas Gerais. Todos os escravos queprocuram abrigo à sombra da sua bandeira de tole-rância ele os declara livres para sempre, e os índiosencontram, no seu coração, o apoio de um nobre eleal amigo. Maurício de Nassau estabelece a liber-dade religiosa e administra Pernambuco, inauguran-do aí a primeira liberal-democracia nas terras ame-ricanas, tais a justiça e a liberdade com que se houveem seu governo. Os Albuquerques e outros elementos em evi- dência no Norte muito aprenderam com ele para as suas atividades do porvir. A realidade, todavia, é que a lição de Nassau fora preparada no plano invisível, para que os colo- nizadores da terra brasileira recebessem um novo 55
  55. 55. clarão no seu caminho rotineiro e obscuro. Em socorro da nossa afirmativa, podemos invo-car o testemunho da própria história, porque, ter-minado o tempo necessário à sua administração noBrasil, o grande príncipe holandês regressava àpátria, por imposição dos espíritos avarentos, quemilitavam, nessa época da Companhia das índias,na política holandesa, sem que encontrassem subs-tituto para a sua obra na América. Apesar de suasfrotas extraordinárias e poderosas, a Holanda reti-rou-se do Brasil sem a intervenção de Portugal, bas-tando, para isso, o concurso dos habitantes da colô-nia. Quando a questão ficou definitivamente resol-vida na Corte de Haia, em 1661, os holandeses, em-bora a sua soberania marítima perdurasse até então,em troca dos seus imensos trabalhos no Norte doBrasil e dos milhões de florins aí abandonados,apenas receberam, a título de indenização, a impor-tância de cinco milhões de cruzados. A RESTAURAÇÃO DE PORTUGAL No primeiro quartel do século XVII, a situaçãode Portugal era de profunda decadência. Sob o rei-nado de Filipe m, de Espanha, príncipe apático edoente, que entregara a direção de todos os negóciosao Duque de Lerma, os esplendores das conquistasportuguesas haviam desaparecido. Aquele povo minúsculo e heróico, cuja coragemacendera nova luz em todos os departamentos detrabalho do Ocidente, encontrava-se agora reduzido 56
  56. 56. à quase penúria. Foi por esse tempo que Henrique de Sagres, o antigo Helil, mensageiro de Jesus, que levantara as energias portuguesas com a sua escola de navega- ção, procurou o Senhor, tocado de compaixão e de angústia, a implorar a bênção da sua misericórdia para a nação de que se tornara o gênio renovador. — Mestre — diz ele compungidamente — venhopedir o vosso auxílio paternal para a terra portu-guesa, cujas experiências amargas tocam, agora, aoauge das penosas provações coletivas. Humilhada evencida, ela implora a vossa divina providência,através de minhas palavras, no sentido de lhe serpossível aproveitar as forças derradeiras, para umareorganização política e econômica que a possa es-quivar de tão angustiosa situação.— Helil — replicou-lhe Jesus — sabes que aminha piedade não se reveste de excessivas exigên-cias. Enviei-te a Portugal com o fim de lhe reergueras energias, compensando os seus grandes esforçosde povo humilde e laborioso. Infelizmente, apesar desuas grandes qualidades de coração, os portuguesesnão souberam corresponder à nossa expectativa,provocando, eles próprios, a situação em que seencontram, pela fraqueza com que se entregaram àsinistra embriaguez da fortuna e da posse. Depoisde teres ajudado Vasco da Gama a franquear o cami-nho marítimo das índias, as forças lusas, após rece-berem os favores da cidade de Calicut, ali regres-sam, algum tempo mais tarde, para bombardeá-la,inundando-a num mar de crueldade e sangue. No 57
  57. 57. Brasil, onde lançamos os fundamentos da Pátria doEvangelho, introduziram o tráfico de homens livres,forçando as falanges de Ismael a despender todosos esforços possíveis para que as ordens divinas nãose subvertessem pelas iniqüidades humanas. EmLisboa, permitiram a entrada do terrível institutoda inquisição, que comete no mundo todos os crimesem meu nome, que deveria ser, para todas as cria-turas, um sinônimo de brandura e de amor.— É verdade, Senhor — exclama Helil amar-gurado — quando o primeiro português aprisionou,nas Canárias, alguns pobres africanos, para ven-dê-los como escravos aos brancos da Europa, ordeneifossem imediatamente repatriados, enchendo-se-meo coração de amargura após tantos entusiasmos noperíodo dos descobrimentos, quando eu vos confia-va, no Restelo, as lágrimas do meu reconhecimentoe da minha esperança. Mas, a grande pátria que meconfiaste, Senhor, muito tem aprendido no caminhodas experiências dolorosas. Nas suas cidades impor-tantes escasseiam os espíritos de eleição, aptos àtarefa do governo; as nações ambiciosas se asse-nhoreiam de todas as suas possibilidades econômi-cas; suas riquezas são pilhadas pela pirataria doséculo; seu povo se acha esmagado pelos impostos;seus filhos abatidos e humilhados. Apiedai-vos, meuJesus, de tanta miséria que nos enche o coração deinfinita amargura! Permiti possamos restaurar-lhe asforças políticas, a fim de que ela cumpra asvossas determinações sábias e justas, na terra doEvangelho! 58
  58. 58. — Essas experiências dolorosas — explicou-lhe o Divino Mestre — dotarão Portugal de novos sen- timentos, acrisolando nele as concepções de bran- dura e de fraternidade, a fim de que possa corres- ponder ao nosso esforço, na edificação da pátria dos meus ensinamentos. Quais os elementos encarnados que utilizarás nessa restauração? — Senhor, com o vosso apoio e com o vosso amparo, esperamos realizar essa reorganização bus- cando para o trono os descendentes de D. Afonso, primeiro Duque de Bragança, que atualmente detêm a maior fortuna portuguesa e em cuja Casa vivem mais de oitenta mil vassalos. Quanto ao nosso plano, constará de uma larga ação dos agrupamentos espi- rituais sob a minha direção, combinados com as fa- langes de Ismael, no sentido de intensificarmos o pensamento cristão em Portugal, projetando as mais nobres realizações no Brasil, disseminando-nos entre os colonizadores, a fim de que as concepções de fra- ternidade se intensifiquem, cimentando as bases da pátria das vossas lições divinas. Nossos apelos se es- tenderão aos companheiros reencarnados, que se en- contram nas cortes espanholas e nas selvas america- nas, para levantarmos a bandeira de Ismael sobre todas as frontes, como sublime legado do vosso co- ração compassivo e misericordioso. — Sim, Helil — retrucou Jesus, bondoso —teu plano se realizará com a minha bênção, efetuan-do-se essa ação espiritual conforme a idealizas. Te-mos, no entanto, de considerar que os elementos aserem utilizados são os mais representativos, porém, 59
  59. 59. não constituem os mais necessários. Não acho quea Casa de Bragança esteja preparada, espiritual-mente, para a sublime realização; todavia, somosobrigados, igualmente, a reconhecer que pesadastrevas invadem atualmente todas as atividades po-líticas da Terra e tu te esforçarás por ampará-la nosgrandes deveres que assumirá, neste e nos próximosséculos. Terás o cuidado de inspirá-la, no propósitode se organizarem as precisas combinações com asoutras nacionalidades do mundo, para que a Pátriado Evangelho não sofra novos choques de raças,além dos até agora sofridos. Bem sabes que, en-quanto os homens não se integrarem no conheci-mento pleno da minha doutrina de amor e de frater-nidade, os tratados comerciais serão os necessáriosjogos de interesses a equilibrarem as ambições, emproveito dos setores da verdadeira evolução espi-ritual. Auxiliarei os teus empreendimentos com aminha misericórdia, pedindo a Nosso Pai que sedigne de guardar-nos sob o palio da sua bondadeinfinita. Henrique de Sagres organizou as suas falan-ges e, em 1640, Portugal era restaurado, subindo aotrono D. João IV, chamado dos seus regalos e pra-zeres de Vila Viçosa, para os cuidados do reino. Ao cabo de um período de lutas ferrenhas, arestauração se consolida na batalha de Montijo e agrande nação do Ocidente prossegue em seu laborabençoado por Jesus, na formação da Pátria doCruzeiro. Sob a orientação do mundo invisível, Portugal 60
  60. 60. estabelece tratados comerciais, entre eles, alguns como o de Methuen, que mais tarde se verificou ser ruinoso para a indústria portuguesa, mas colocava o Brasil a salvo de lutas com o poderio da Inglaterra. Toda uma ação espiritual se conjuga, harmo- niosamente, nessa época, e as falanges de Ismael e de Helil buscam, no silêncio e na obscuridade, o grande coração de Antônio Vieira, que se constituiu poderoso organismo mediúnico para as revelações de suas verdades. Vieira toma posição ascendente na corte deD. João IV e, daí a algum tempo, contra a vontadedo soberano, que desejava conservar a sua palavrade sabedoria e de amor junto do seu coração, ogrande missionário embarca para o Brasil. Sua voz, saturada de suave magnetismo, ilumi-na todas as consciências, esclarecendo todos os co-rações. Em momento de sagrada eloqüência, exclamaele: — No Evangelho de Jesus, ofereceu o demôniotodos os seus reinos pela posse de uma alma; mas,no Maranhão, não é necessário ao demônio tantabolsa, para comprá-las todas. Basta acenar o diabocom um tijupar de pindoba e dois tapuias para queseja adorado com ambos os joelhos. E não foram poucos os senhores que, tocadosdessas claridades divinas, cuja origem profunda es-tava nas lições de Ismael e de seus abnegados men-sageiros, correram às suas propriedades, envergo-nhados do crime de manter escravos os seus irmãos,e devolveram para sempre, aos pobres cativos, aliberdade. 61
  61. 61. AS BANDEIRAS No desdobramento da ação espiritual que de-veria restaurar a pátria portuguesa, Ismael congre-gou os espíritos que chegavam aos espaços depoisdo primeiro contacto com a vida de Piratininga, a fimde elaborar novos projetos de trabalho naquele setorda Pátria do Evangelho. Almas decididas e heróicas, postas ali para aconstrução da grande obra, apesar dos seus caracte-rísticos de bondade e de energia, necessitavam re-gressar à luta terrestre, em seu próprio benefício. O mensageiro divino as reuniu em grandes cír-culos, de onde lhe ouviram a palavra amiga e escla-recedora. — Meus irmãos — disse ele — regressareisdentro de breves dias aos núcleos de trabalho esta-belecidos no planalto piratiningano. Prosseguireisatuando no mesmo campo de labor e liberdade comque caracterizastes as primeiras iniciativas aí desen-volvidas. Agora, levareis mais longe a vossa cora-gem e o vosso heroísmo. Penetrareis o coração daterra do Cruzeiro, rasgando as sombras de suas flo-restas imensuráveis. Com a vossa dedicação, novasatividades serão descobertas e novas possibilidadeshão de felicitar a existência dos colonizadores dopaís, onde nos desvelaremos pela conservação dabandeira de Jesus, desfraldada lá sobre todas asfrontes e sobre todos os corações. Até hoje, têm-semultiplicado as tristes caçadas humanas em que osíndios misérrimos são colhidos de surpresa, na sua 62
  62. 62. simplicidade, para os penosos trabalhos do cativei-ro; desvendareis, agora, as fontes de riqueza dosvastos latifúndios do Brasil, interessando a coloni-zação e fazendo desabrochar com mais intensidadeos núcleos valorosos desse movimento de intensifi-cação dos órgãos de progresso da pátria e do seupovo. Muitos de vós conhecereis a penúria e o sofri-mento; sacrificareis a fortuna e os afetos maissantos da família, para construirdes a base do porvircom as lágrimas abençoadas dos vossos martírios edas vossas renúncias exemplares. Vossa tarefaserá rasgar as selvas remotas, patenteando o ourodepositado no seio da terra generosa. Houve um interregno na sua alocução. Ali se encontravam as entidades que seriam,mais tarde, entre muitos outros, Antônio RodriguesArzão, Marcos de Azeredo, Bartolomeu Bueno eFernão Dias Paes. Este último, quebrando o silêncioda grande assembléia, exclamou, provocando geralinteresse: — Anjo bom, que faremos com o ouro da terra,se no mundo ele é a causa sinistra de todas as lutase o demônio de todas as ambições? Aqui, na vidaespiritual, compreendemos semelhantes realidades;mas, no orbe das sombras, a nossa consciência mer-gulha nas mais aflitivas perturbações e bem sabeisque a água mais pura, misturando-se com a terra,se reduz quase sempre a um punhado de lama. Ismael não se demorou para esclarecer: — A Terra é a escola abençoada, onde aplica-mos todos os elevados conhecimentos adquiridos no 63
  63. 63. Infinito. É nesse vasto campo experimental que de-vemos aprender a ciência do bem e aliá-la à suadivina prática. Nos nevoeiros da carne, todas astrevas serão desfeitas pelos nossos próprios esfor-ços individuais; dentro delas, o nosso espírito an-dará esquecido de seu passado obscuro, para quetodas as nossas iniciativas se valorizem. Precisamosentender essas brandas disposições das leis divinas,para que o determinismo do amor e da fraternidadeconstitua a lei da existência de todas as coisas e detodos os seres. Quanto ao ouro escondido no seio daterra exuberante, sua existência não significa senãoum estímulo à ilusão dos homens, ainda muito dis-tantes da concepção da verdadeira fraternidade, afim de que as criaturas possam buscar os tesourosespirituais pelo trabalho fecundante da evolução domundo. Procurando a grandeza ilusória do ouro, edi-ficareis as cidades novas, fomentareis a pecuária ea agricultura, desbravando caminhos inóspitos emfavor de outras almas. Um mundo novo se erguerásobre os vossos ombros dilacerados nas disciplinasausteras, ao sol causticaste das caminhadas peno-sas; mas, o futuro se voltará para os vossos esfor-ços, com as suas bênçãos de agradecimento. Dirigindo-se mais particularmente a FernãoDias, Ismael sentenciou: — Serás o chefe da expedição mais difícil detodas; porém, da tua coragem há de surgir um ca-minho novo para todos os espíritos. Muitas vezesserás compelido a exercer a mais rigorosa justiça,despendendo todas as tuas reservas de energia; mas, 64
  64. 64. é preciso não esqueças a misericórdia divina, semexorbitar das funções que te forem confiadas, entre-gando a Jesus os teus trabalhos de cada dia. O grande bandeirante recebeu submisso a de-terminação do divino emissário. Daí a alguns anos,nos dois últimos quartéis do século XVH, as bandeiraspaulistas se espalharam por todas as regiões daterra virgem. Através das selvas bravias, marcham,como se o fizessem ao longo de largos e desconheci-dos oceanos. As noites estreladas lhes servem deorientação e de bússola. A cruz do Cristo vai, comoum símbolo, à frente de todos os expedicionários dasnovas tentativas de conquista. De Sorocaba, sobempor Goiás até ao Amazonas longínquo; e de Taubatédemandam a Paraíba do Norte. Em 1672, FernãoDias Paes organiza, com todos os elementos de suafortuna, a mais célebre das expedições saídas deSão Paulo. Caçando as esmeraldas, que constituíamobjeto das lendas de muitos aventureiros, visitatodas as regiões auríferas de Minas Gerais. Rebe-liões e discórdias são dominadas pela sua energiaconstante e severa. Para fortalecer a disciplina, obandeirante audacioso manda enforcar o própriofilho, que participara da rebeldia geral, como escar-mento aos companheiros, próximo à povoação doSumidouro. As jóias da mulher e das filhas sãoempregadas no seu arrojado empreendimento, arrui-nando-se a família inteira. Fernão Dias, porém,segue um roteiro luminoso. Por onde passa com assuas caravanas, florescem povoações asseadas e ale-gres. Seus pontos de contacto com a terra paulista 65

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