7168534 honra-perdida

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7168534 honra-perdida

  1. 1. o relato que se segue tem v�rias fontes secund�rias e tr�s fontes principais, que s�o referidas uma vez aqui, no princ�pio, e n�o voltam a ser mencionadas. as fontes principais s�o: os autos dos interrogat�rios da pol�cia, o doutor hubert blorna, advogado, e o doutor peter hach, colega do liceu e da universidade de hubert blorna e agente do minist�rio p�blico, que # confidencialmente, entenda#se # complementou os autos dos interrogat�rios e os resultados das investiga��es; n�o # apressamo#nos a acrescentar sem reserva # para fins oficiais, mas unicamente para uso privado, pois peter hach sentia#se sinceramente penalizado com o desgosto sofrido pelo seu amigo blorna, que n�o conseguia encontrar explica��o para o caso e, no entanto, quando penso nele, acho#o n�o inexplic�vel, mas quase l�gico". uma vez que o caso de katharina blum h�#de, em qualquer circunst�ncia, permanecer como mais ou menos fict�cio, em virtude da atitude da acusada e da posi��o melindrosa do seu defensor, o doutor blorna, talvez que certos lapsos menores e muito humanos, como os que hach cometeu, sejam n�o s� compreens�veis, mas at� desculp�veis. as fontes secund�rias, umas de maior, outras de menor significado, n�o carecem de ser aqui mencionadas, uma vez que o seu envolvimento, implica��o, relev�ncia, parcialidade, confus�o e testemunho h�o#de emergir deste mesmo relato. 2 se este relato # uma vez que se fala aqui tanto de fontes # for sentido, aqui e ali, como fluido, pedimos perd�o ao leitor: era inevit�vel. perante as fontes e a fluidez n�o se pode falar de composi��o, mas dever#se#� antes introduzir o conceito , de reuni�o, de condu��o, conceito elucidativo para qualquer pessoa que, em crian�a (ou at� em adulto), tenha brincado em, junto de ou com charcos, drenando#os, ligando#os por meio de canais, esgotando#os, conduzindo#os 8 ou mudando#lhes a orienta��o, at� que todo o potencial de �gua existente no charco seja reunido num canal comum, que ser� orientado para um n�vel mais baixo ou talvez ordenada ou ordeiramente conduzido para uma sarjeta ou canal da responsabilidade das autoridades locais. o �nico objectivo aqui � efectuar uma esp�cie de drenagem ou secagem. declaradamente um processo de ordem. por conseguinte, se esta narrativa vier, aqui e ali, a atingir o estado fluido em que desempenham algum papel as diferen�as e as compensa��es de n�vel, solicitamos a indulg�ncia do leitor, pois, ao cabo e ao resto, tamb�m h� interrup��es, diques, assoreamentos, condu��es falhadas e fontes que nunca se encontram, para n�o falarmos de correntes subterr�neas, etc. 3
  2. 2. os factos que devem ser apresentados em primeiro lugar s�o brutais: na quarta#feira 20 de fevereiro de 1974, v�spera de carnaval, uma jovem de 27 anos sai de sua casa, em certa cidade, por volta das 18.45, para participar num baile particular. quatro dias mais tarde, depois de uma evolu��o dram�tica # n�o podemos deixar de empregar esta palavra (e aqui temos um exemplo dos v�rios n�veis que permitem o fluir do rio) #, no domingo � noite, quase � mesma hora, mais precisamente cerca das 19.04, a jovem toca � campainha da casa de walter moeding, comiss�rio da pol�cia, que est� precisamente a disfar�ar#se de xeque, n�o por motivos particulares, mas por raz�es de servi�o, e moeding, assustado, ouve a jovem declarar que cerca das 12.15 desse mesmo dia abatera a tiro, em sua casa, o jornalista werner t�tges e que lhe solicitava que mandasse arrombar a porta do apartamento e remover o jornalista; quanto a ela, vagueara pela cidade entre as 12.15 e as 19 horas, tentando sentir remorsos, mas em v�o; al�m disso, solicitava#lhe que a mandasse prender, pois ela gostaria de se encontrar no mesmo lugar que o seu querido ludwig". moeding, que conhecia a jovem de v�rios interrogat�rios e que experimentava uma certa simpatia por ela, nem por momentos duvidou das suas declara��es, conduziu#a no seu pr�prio carro ao pres�dio da pol�cia, informou da situa��o o comiss�rio#chefe beizmenne, seu superior hier�rquico, mandou meter a jovem numa cela e, um quarto de hora mais tarde, encontra#se com beizmenne diante da casa dela, 9 onde um comando especializado da pol�cia arromba a porta e v� confirmadas as declara��es da jovem. n�o falemos aqui muito de sangue, uma vez que s� as necess�rias diferen�as de n�vel devem ser tidas como inevit�veis; tamb�m gostar�amos de remeter o leitor para a televis�o e para o cinema, para os musicais e para os filmes de horror apropriados. se alguma coisa tem aqui de correr, que n�o seja o sangue. talvez dev�ssemos apenas apontar certos efeitos de cor: t�tges, o assassinado, trazia um traje de xeque, que fora improvisado com um len�ol bastante usado, e toda a gente sabe muito bem o efeito de uma quantidade de sangue sobre uma superf�cie branca; nestas circunst�ncias, a pistola quase faz o efeito de uma pistola de spray e, como no caso deste disfarce se trata de um rect�ngulo de algod�o, parece aqui mais apropriado falar de pintura moderna e efeitos de palco do que de drenagem. muito bem. s�o estes os factos. 4 durante algum tempo n�o pareceu improv�vel que adolf sch�nner, fot�grafo de imprensa que tamb�m foi encontrado morto, mas s� na quarta#feira de cinzas, numa zona arborizada a oeste da cidade festiva, houvesse igualmente sido v�tima da
  3. 3. blum. mais tarde, por�m, quando foi poss�vel estabelecer uma certa ordem cronol�gica nos acontecimentos, esta ideia provou ser infundada". um motorista de t�xi declarou posteriormente que transportara sch�nner, igualmente disfar�ado de xeque e acompanhado de uma jovem vestida de andaluza. mas t�tges fora abatido no domingo, enquanto sch�nner fora assassinado s� na ter�a#feira, ao meio#dia. embora em breve se descobrisse que a arma encontrada ao lado de t�tges de modo algum poderia ter sido a arma que abatera sch�nner, durante algumas horas a suspeita andou � volta da blum, designadamente em raz�o do motivo. se se podia dizer que ela tinha raz�es para se vingar de t�tges, tinha pelo menos os mesmos motivos para se vingar de sch�nner. mas aos investigadores parecia improv�vel que ela tivesse duas armas. a blum cometera o seu crime com uma intelig�ncia fria. quando mais tarde lhe perguntaram se tamb�m havia assassinado sch�nner, deu uma resposta cr�ptica disfar�ada de pergunta: "e ent�o porque n�o?" 10 depois, por�m, a pol�cia desistiu de a incriminar pelo assass�nio de sch�nner, tanto mais que ela possu�a um �libi que indiscutivelmente a ilibava. ningu�m que conhecesse katharina blum, ou que, no decurso das investiga��es, tivesse ficado a compreender o seu car�cter, duvidava que, caso ela tivesse assassinado sch�nner, o reconheceria sem hesita��o. o motorista que conduzira o parzinho � zona arborizada ("antes lhe chamaria uma mata selvagem", disse ele) de modo nenhum reconheceu a blum nas fotografias. "deus do c�u, estas meninas de cabelo castanho, entre 1,63 e 1,68 de altura, esguias e entre os 24 e os 27 anos aparecem aos milhares durante o carnaval." na resid�ncia de sch�nner, n�o se encontraram quaisquer vest�gios da blum nem da andaluza. outros fot�grafos de imprensa e amigos de sch�nner s� sabiam que, na ter�a#feira, por volta do meio#dia, ele sa�ra de um bar frequentado por jornalistas acompanhado de uma vamp. 5 um dos animadores do carnaval, comerciante de vinhos e champanhes, que se orgulhava dos seus bem sucedidos esfor�os para restaurar a alegria ao carnaval, ficou bastante aliviado com o facto de os dois acontecimentos s� serem conhecidos respectivamente na segunda e na quarta#feira. "uma coisa destas, quando as festas est�o a come�ar, rebenta com a boa disposi��o e com o neg�cio. se se concluir que as fantasias podem ser desviadas para fins criminosos, l� se vai a boa disposi��o e o neg�cio fica arruinado. este g�nero de coisas � um aut�ntico sacril�gio. a alegria e a boa disposi��o requerem confian�a. � essa a sua base." 6
  4. 4. zeitung comportou#se de uma maneira bastante bizarra depois que o assass�nio dos seus dois jornalistas foi conhecido. uma excita��o doida. t�tulos garrafais. primeiras p�ginas. edi��es especiais. participa��es dos �bitos de propor��es gigantescas. como se # num mundo em que j� h� tantos tiros # o assass�nio de um jornalista fosse alguma coisa de especial, mais importante, por exemplo, do que o assass�nio do director de um banco, de um empregado banc�rio ou de um assaltante de um banco. 11 deve assinalar#se aqui a excessiva aten��o da imprensa, porque n�o s� o zeitung, mas tamb�m os outros jornais, trataram o assass�nio de um jornalista como qualquer coisa de mau, terr�vel, quase solene, poder#se#ia quase falar de um assass�nio ritual. at� falaram de "v�tima da profiss�o", e, evidentemente, o zeitung permaneceu teimosamente agarrado � vers�o segundo a qual sch�nner teria sido v�tima da blum tamb�m e, ainda que tenhamos de admitir que, se t�tges n�o fosse rep�rter, mas, por exemplo, sapateiro ou padeiro, provavelmente n�o teria sido abatido, talvez dev�ssemos tirar a limpo se n�o seria mais apropriado falarmos aqui de uma morte resultante de uma profiss�o, pois ent�o h�#de surgir uma explica��o para o facto de uma pessoa t�o inteligente como a blum n�o s� ter planeado um assass�nio, mas t�#lo tamb�m levado a cabo e, no momento decisivo, por ela pr�pria engendrado, n�o s� ter agarrado na pistola, mas tamb�m ter puxado o gatilho. 7 passemos agora deste n�vel, que � o mais baixo, para planos superiores. fora com o sangue! esque�amos a excita��o da imprensa! o apartamento de katharina foi entretanto limpo, os tapetes inaproveit�veis foram deitados para o lixo e os m�veis aspirados e postos no seu lugar, tudo isto � custa e por instru��es do doutor blorna, com plenos poderes dados pelo seu amigo hach, embora se esteja ainda longe de saber se blorna ser� nomeado administrador dos bens. de qualquer modo, a verdade � que esta katharina blum conseguiu, num espa�o de cinco anos, investir sessenta mil marcos numa habita��o pr�pria que tem o valor global de cem mil marcos. por conseguinte, e para citarmos o irm�o dela, que cumpre de momento uma ligeira pena de pris�o, h� por l� muita coisa para "limpar",. mas ent�o quem � que se responsabilizaria pelos juros e amortiza��o, ainda que seja de prever que a propriedade venha a beneficiar de um consider�vel aumento de valor? � que n�o h� s� activo: tamb�m h� passivo. seja como for, t�tges j� h� muito que foi enterrado (com uma pompa excessiva, na opini�o de muitos). curiosamente, a morte e o futuro de sch�nner n�o foram objecto de tanta aten��o e
  5. 5. pompa. 12 mas ent�o porqu�, poder#se#� perguntar. porque ele n�o foi v�tima da profiss�o, mas provavelmente de um crime passional? o traje de xeque encontra#se no dep�sito da pol�cia, assim como a pistola. s� Blorna � que sabe qual a origem da pistola, mist�rio que a pol�cia e o agente do minist�rio p�blico tentaram em v�o desvendar. 8 as investiga��es sobre as actividades da blum durante os quatro dias em quest�o progrediram lindamente ao princ�pio, mas emperraram quando se chegou a domingo. na quarta#feira � tarde, o pr�prio blorna tinha pago a katharina blum o correspondente a duas semanas de sal�rio, no montante de 280 marcos, relativo � semana em curso e � semana seguinte, uma vez que se preparava para partir de f�rias com a mulher na quarta#feira � tarde. katharina n�o s� tinha prometido aos blorna, mas tinha mesmo jurado, que desta vez ia fazer f�rias a valer e divertir#se no carnaval e n�o fazer trabalho extra, como acontecera nos anos anteriores. muito bem disposta, participara aos blorna que fora convidada pela madrinha, amiga e confidente else woltersheim para uma pequena festa e que era com grande satisfa��o que encarava esta oportunidade, pois havia muito que n�o dan�ava. e frau blorna dissera: # quando viermos, kathrinchen, tamb�m vamos dar uma festa e vais novamente ter oportunidade de dan�ar. desde que vivia na cidade, havia quatro ou cinco anos, katharina lamentava#se muitas vezes de n�o ter oportunidade de ir dan�ar a qualquer lado,. havia, dizia ela aos blorna, aquelas bai�cas onde os estudantes sedentos de sexo procuravam uma prostituta gr�tis, depois eram aqueles lugares de tipo bo�mio que n�o eram do gosto dela e, finalmente, os bailes organizados pela igreja, que ela abominava. na tarde de quarta#feira, como fora f�cil de provar, katharina ainda trabalhara durante duas horas em casa dos hiepertz, que, por vezes, lhe pediam a colabora��o. como o casal tamb�m n�o passava o carnaval na cidade e ia de visita � filha em lemgo, katharina levou#os � esta��o no seu volkszvagen. apesar das grandes dificuldades para arranjar um lugar onde estacionar, katharina fizera quest�o em os acompanhar � gare para lhes levar a bagagem "(n�o por dinheiro, oh n�o! 13 n�o h� dinheiro que pague gentilezas destas e ela at� ficaria
  6. 6. muito ofendida", explicou frau hiepertz). confirmou#se que o comboio partira �s 17.30. se se quiser conceder cinco ou dez minutos a katharina para encontrar o carro no meio da barafunda do carnaval e mais vinte a vinte e cinco minutos para chegar a casa que ficava nos sub�rbios, onde dever� ter chegado entre as 18 e as 18.15, n�o fica por explicar um �nico minuto, admitindo que ela se dever� ter lavado, mudado de roupa e comido qualquer coisa, pois �s 19.25 apareceu em casa de frau woltersheim, n�o de autom�vel, mas de carro el�ctrico, n�o vestida de bedu�na ou de andaluza, mas apenas com um cravo vermelho na cabe�a, sapatos e meias vermelhas, uma blusa de gola alta de seda cor de mel e uma saia simples de tweed da mesma cor. pode parecer sem interesse a circunst�ncia de katharina ter ido para a festa de autom�vel ou de el�ctrico, mas o facto deve ser mencionado aqui, porque, no decurso das investiga��es, veio a assumir consider�vel import�ncia. 9 desde o momento em que entrou em casa de frau woltersheim, as investiga��es ficaram consideravelmente facilitadas, pois, a partir das 19, 25, katharina ficou, sem o saber, sob vigil�ncia policial. toda a noite, das 19.30 at� �s 22, hora a que saiu de casa de frau woltersheim, acompanhada de um tal ludwig g�tten, katharina s� com ele dan�ou exclusiva e ardentemente, como ela veio a dizer mais tarde. 10 n�o nos devemos esquecer aqui de pagar um tributo de gratid�o a peter hach, o agente do minist�rio p�blico, porque � a ele, e s� a ele, que temos de agradecer a informa��o, que toca as raias da bisbilhotice judici�ria, de que, a partir do momento em que a blum saiu de casa de frau woltersheim acompanhada de g�tten, o comiss�rio erwin beizmenne p�s sob escuta os telefones da blum e da woltersheim. o caso passou#se de uma maneira que vale a pena referir. beizmenne, como em casos id�nticos, telefonou ao superior hier�rquico e disse: "preciso novamente das minhas tomadas. duas desta vez." 14 parece que g�tten, n�o ter� feito chamadas de casa de katharina. pelo menos hach n�o tinha conhecimento de nenhuma. mas uma coisa � certa: a resid�ncia de katharina ficou sob rigorosa observa��o e quando, �s 10.30 da manh� de quinta#feira, sem ter havido chamadas telef�nicas nem g�tten ter sa�do de casa de katharina, beizmenne perdeu a paci�ncia e a calma e, com oito agentes da pol�cia rigorosamente armados, mas tomando severas medidas de precau��o, invadiu a casa, que
  7. 7. passou a pente fino, n�o encontrou rastos de g�tten, mas somente katharina, que parecia extremamente calma e quase feliz", sentada junto do balc�o da cozinha a beber uma grande ch�vena de caf� e a comer uma fatia de p�o branco barrada de manteiga e mel. katharina levantou as suspeitas da pol�cia por n�o parecer surpreendida, mas calma, para n�o dizer triunfante. vestia um roup�o de algod�o verde bordado com malmequeres e n�o trazia roupa por baixo, e, quando o comiss�rio beizmenne a interrogou (muito rudemente", como ela havia de declarar mais tarde) sobre o paradeiro de g�tten, ela disse que n�o sabia quando � que ludwig tinha deixado a casa. ela tinha acordado por volta das 9.30 e ele j� tinha partido. "sem se despedir?" "sim." 12 neste momento cabe indagar acerca de uma pergunta altamente contestada e posta pelo comiss�rio beizmenne, repetida por hach, retirada, posteriormente repetida e novamente retirada. blorna acredita que a pergunta � importante porque, se realmente foi feita, foi aqui, e em nenhum outro lugar, que come�ou a amargura, a vergonha e a f�ria de katharina. uma vez que tanto blorna como a mulher descrevem katharina como extremamente sens�vel, quando n�o menos puritana, em quest�es de sexo, � de admitir a possibilidade de beizmenne, furioso como estava por ver escapar#se#lhe g�tten, que ele supunha ter apanhado, ter feito a pergunta contestada. beizmenne ter� alegadamente perguntado a katharina, que se encontrava calmamente encostada ao balc�o: "ele fornicou#te, n�o?" 15 ao que katharina, n�o s� muito corada, mas com uma express�o triunfante, replicou: "n�o, n�o o diria dessa maneira." pode seguramente concluir#se que, se beizmenne realmente fez a pergunta, a partir desse momento n�o podiam mais subsistir quaisquer sentimentos de confian�a entre ele e katharina. o facto de realmente n�o se ter estabelecido entre eles uma rela��o de confian�a # embora haja provas de beizmenne, de quem se diz n�o ser mau tipo,, ter tentado estabelec�#la # n�o deve ser encarado como prova conclusiva de que ele ter� feito a pergunta fat�dica. a verdade � que hach, que estava presente quando foi passada revista � casa, � tido entre os amigos e conhecidos como um doido por sexo", sendo bastante prov�vel que este pensamento cru lhe tenha ocorrido quando viu a blum, t�o atraente e negligentemente vestida, encostada ao balc�o e que lhe tenha apetecido fazer a mesma pergunta ou praticar com ela o acto designado com tanta crueza. 13
  8. 8. o apartamento foi seguidamente passado a pente fino e algumas coisas confiscadas, designadamente pap�is escritos. katharina blum foi autorizada a vestir#se na casa de banho, na presen�a de uma mulher#pol�cia de nome pletzer. contudo, n�o foi autorizada a fechar completamente a porta da casa de banho, que ficou sob a vigil�ncia rigorosa de dois pol�cias armados. katharina foi autorizada a levar consigo a carteira e, como n�o estava exclu�da a possibilidade de ela ser presa, tamb�m devia levar consigo roupa de dormir, artigos de toilette e qualquer coisa para ler. a biblioteca dela era constitu�da por quatro romances de amor, tr�s romances policiais, mais uma biografia de napole�o e uma biografia de cristina da su�cia. todos estes livros provinham de um clube de livros. como ela insistisse em perguntar: "mas porqu�, porqu�? que � que eu fiz contra a lei?", pletzer, a mulher#pol�cia, respondeu#lhe delicadamente que ludwig g�tten era um bandido h� muito procurado pela pol�cia, quase condenado por assalto a um banco e suspeito de assass�nio e outros crimes. 16 14 quando, cerca das 11.25, katharina blum foi finalmente levada para ser interrogada, desistiram de lhe p�r algemas. beizmenne estava inclinado a insistir nas algemas, mas, depois de uma breve conversa com a pletzer e com moeding, seu assistente, desistiu da ideia. uma vez que esse dia marcava o in�cio do carnaval, muitos residentes do pr�dio n�o tinham ido para o trabalho. tamb�m ainda n�o tinham come�ado os cortejos e festejos anuais do carnaval, por isso se viam no vest�bulo algumas pessoas trajando casacos, roup�es, roupas matinais, e sch�nner, fot�grafo da imprensa, estava precisamente em frente do ascensor quando katharina saiu de l� de dentro entre beizmenne e moeding, com pol�cias armados de ambos os lados. sch�nner fotografou#a de frente, de tr�s, de lado, v�rias vezes, e finalmente, como ela, envergonhada e confusa, procurasse esconder o rosto e se atrapalhasse com a carteira, a malinha de toilette e um saco de pl�stico contendo os livros e os objectos de escrita, sch�nner apanhou#a desgrenhada e com uma express�o de f�ria no rosto. 15 meia hora mais tarde, depois de lhe terem explicado os seus direitos e de lhe haverem dado oportunidade para ela se compor um pouco, come�ou o interrogat�rio na presen�a de beizmenne, moeding, frau pletzer, al�m dos agentes do minist�rio p�blico, doutores korten e hach. dos autos consta o seguinte: "o meu nome � Katharina brettloh (apelido de solteira: blum). nasci em gemmelsbroich, na prov�ncia de kuir, a 2 de mar�o de 1947. o meu pai, peter blum, era mineiro. morreu, tinha eu 6 anos,
  9. 9. com a idade de 37 anos, de uma afec��o pulmonar contra�da na guerra. depois da guerra, o meu pai voltou a trabalhar numa mina de lousa, onde deve tamb�m ter contra�do silicose. depois da morte dele, a minha m�e teve dificuldade em conseguir uma pens�o de sobreviv�ncia devido � falta de acordo entre o minist�rio dos assuntos sociais e o corpo dos mineiros. comecei muito cedo a ajudar na lida dom�stica, porque meu pai estava muitas vezes doente, e por isso recebia sal�rio reduzido, e a minha m�e trabalhava como mulher a dias. 17 na escola n�o tive quaisquer dificuldades, embora durante o tempo escolar tamb�m tivesse de trabalhar, n�o s� em minha casa, mas tamb�m em casa de vizinhos e de outros habitantes da aldeia, onde ajudava a fazer o p�o, a cozinhar, a fazer conservas e na matan�a. tamb�m fazia muito trabalho dom�stico e ajudava nas colheitas. quando sa� da escola, em 1961, a minha madrinha, frau else woltersheim, de kuir, arranjou#me um lugar de criada no talho gerbers, onde �s vezes tamb�m ajudava ao balc�o. de 1962 a 1965, apoiada e ajudada financeiramente pela minha madrinha, frequentei uma escola de economia dom�stica em kuir, onde a minha madrinha era instrutora e onde me formei com muito boas notas. de 1966 a 1967 trabalhei como ec�noma no jardim#escola da firma koeschler, na povoa��o vizinha de oftersbroich, e depois em casa do m�dico doutor kluthen, tamb�m em oftersbroich, onde apenas permaneci um ano, porque o doutor me assediava constantemente, coisa de que a mulher n�o gostava e que a mim tamb�m me desagradava e at� repugnava. em 1968, encontrando#me eu desempregada havia semanas e a dar ajuda � minha m�e na lida dom�stica, ia uma vez por outra colaborar nas reuni�es e noites desportivas da banda de tambores de gemmelsbroich. foi a� que, por interm�dio do meu irm�o mais velho, kurt blum, conheci wilhelm brettloh, oper�rio t�xtil, com quem casei alguns meses mais tarde. vivemos em gemmelsboich, onde, �s vezes, aos fins#de#semana, quando havia muita aflu�ncia de turistas, trabalhava na cozinha do restaurante kloog, outras vezes como empregada de mesa. ainda n�o tinham passado seis meses e j� eu sentia uma avers�o insuport�vel pelo meu marido. n�o quero entrar em pormenores. deixei o meu marido e fui para a cidade. fui considerada culpada do div�rcio por abandono do lar e retomei o meu nome de solteira. comecei por ir viver com frau woltersheim, at� que, passadas semanas, arranjei um lugar de governanta em casa do doutor fehnern, perito contabilista. o doutor fehnern facultou#me a possibilidade de frequentar uma escola nocturna para adultos, onde obtive o diploma como governanta. o doutor fehnern era muito simp�tico e generoso, de modo que continuei a trabalhar em casa dele depois de ter obtido o diploma. nos finais de 1960, o doutor fehnern foi preso sob a acusa��o de consider�veis fraudes fiscais nas firmas para onde trabalhava. antes de o levarem entregou#me um envelope com tr�s meses de sal�rio e pediu#me que continuasse a olhar#lhe pelas coisas. ele n�o tardaria a voltar, dizia.
  10. 10. 18 ainda fiquei um m�s, tomava#lhe conta dos empregados que trabalhavam no escrit�rio sob a vigil�ncia de funcion�rios fiscais, mantinha a casa limpa e o jardim em ordem e tratava#lhe da roupa. levava#lhe a roupa lavada � pris�o e tamb�m lhe levava comida, sobretudo p�t� das ardenas, que me acostumara a encomendar no talho gerbers, em kuir. mais tarde, o escrit�rio foi encerrado, a casa confiscada e eu tive de deixar o meu quarto. parece que tinham conseguido fazer prova de que o doutor fehnern teria praticado um desfalque com falsifica��o, pelo que foi mandado para uma pris�o comum, onde continuei a visit�#lo. quis tamb�m ainda devolver#lhe os dois meses de ordenado que ele me pagara a mais, mas ele recusou terminantemente. depressa arranjei outro lugar em casa do doutor blorna, que eu tinha conhecido atrav�s do doutor fehnern. os blorna habitam uma casa na nova urbaniza��o lado sul. embora eu tivesse possibilidades de ficar a viver com eles, decidi permanecer independente e, finalmente, exercer livremente a minha profiss�o. os blorna foram muito bondosos comigo. frau blorna, que trabalha num atelier de arquitectura, ajudou#me a arranjar uma casa pr�pria na cidade#sat�lite do sul que era anunciada como resid�ncias elegantes da beira#rio. o doutor blorna e a mulher, respectivamente como advogado e como arquitecta, tinham colaborado no projecto. com o doutor blorna calculei o financiamento, juro e amortiza��o por um apartamento de duas divis�es com cozinha e casa de banho, no oitavo andar, e, uma vez que eu tinha conseguido poupar 7000 marcos e os blorna ficaram como fiadores do empr�stimo de 30.000 marcos que pedi ao banco, n�o demorei muito a mudar#me para a minha casa nova. a princ�pio, os meus encargos mensais m�nimos atingiam 1100 marcos, mas como o doutor e frau blorna n�o me deduziam nada pela alimenta��o e frau blorna at� me dava alguma coisa de comer e beber para eu levar para casa vivia muito economicamente. consegui assim amortizar o empr�stimo mais depressa do que a princ�pio calculara. h� quatro anos que trato da casa dos blorna. o meu dia de trabalho come�a �s 7 horas da manh� e termina por volta das 16.30, depois de ter feito as limpezas da casa e as compras e deixado o jantar preparado. tamb�m tenho a responsabilidade da roupa. entre as 16.30 e as 17.30 trato da minha pr�pria casa e, depois disso, ainda trabalho geralmente entre uma hora e meia e duas horas em casa dos hiepertz, um casal idoso. em ambas as casas recebo pagamento suplementar pelo trabalho realizado ao s�bado e ao domingo. 19 nas minhas horas livres trabalho para kloft, o aprovisionador, ou colaboro na prepara��o de recep��es, festas, casamentos, bailes, geralmente por minha conta e risco, de acordo com um pagamento previamente fixado, ou ent�o em representa��o da firma kloft. fa�o os c�lculos, o planeamento geral, mas, por
  11. 11. vezes, tamb�m trabalho como cozinheira ou como empregada de mesa. as minhas receitas brutas atingem, em m�dia, 1800 a 2300 marcos. perante a reparti��o de finan�as sou trabalhadora independente. pago os meus pr�prios impostos e seguro. todas estas coisas, declara��es de impostos, etc., s�o tratadas, sem encargos para mim, no escrit�rio do doutor blorna. desde 1972 possuo um volkswagen de 1968, que me foi vendido por bom pre�o por werner klomer, chefe de cozinha da firma kloft. estava a ter muitas dificuldades em chegar aos v�rios lugares onde trabalho nos transportes p�blicos. com o carro passei a ter mais facilidade em trabalhar em festas e recep��es dadas em hot�is distantes." 16 levou das 11 horas �s 12.30 e da 1.30 �s 5.30, com uma hora de intervalo para almo�o, esta parte do interrogat�rio. durante o intervalo para almo�o, katharina recusou aceitar o caf� e a sandu�che de queijo que a pol�cia lhe ofereceu, e nem as palavras persuasivas e aparentemente bem#intencionadas de frau pletzer e do assistente moeding conseguiram demov�#la. "era#lhe obviamente imposs�vel" # disse hach # "distinguir entre as rela��es oficiais e as particulares, compreender a necessidade do interrogat�rio." quando beizmenne, que, de colarinho desabotoado e gravata solta, saboreava o caf� com a sandu�che, assumiu uma atitude paternal e at� pretendeu agir paternalmente, katharina insistiu em ser levada para uma cela. � facto comprovado que os dois agentes destacados para a acompanharem se esfor�aram por a persuadir a aceitar o caf� e as sandu�ches, mas ela abanava teimosamente a cabe�a, permaneceu sentada no catre a fumar um cigarro e, de nariz franzido e com uma express�o de repugn�ncia, manifestou de forma inconfund�vel a sua avers�o pelos restos de vomitado que se encontravam espalhados no lavabo da cela. mais tarde, a pedido de frau pletzer e dos dois jovens agentes, condescendeu em que aquela lhe tomasse o pulso e, como fosse normal, 20 admitiu mandar vir de um caf� pr�ximo um ch� e uma fatia de bolo areado, mas insistiu em pagar do seu pr�prio bolso, embora um dos jovens agentes, aquele que, de manh�, vigiara a porta da casa de banho enquanto ela se vestia, se preparasse para lhe pagar tudo. opini�o dos dois agentes e de frau pletzer acerca deste incidente com katharina blum: destitu�da de sentido de humor. 17 das 13.30 �s 17.45 continuou o interrogat�rio. beizmenne bem
  12. 12. gostaria de o encurtar, mas a blum insistiu em dar todos os pormenores referentes � sua pessoa, para o que deram o seu consentimento os dois agentes do minist�rio p�blico. e, por fim, tamb�m beizmenne concordou, a princ�pio com relut�ncia e depois com ast�cia, tendo em vista certos pormenores do passado dela que se lhe afiguraram importantes. pelas 17.45 levantou#se a quest�o de saber se o interrogat�rio deveria continuar ou ser suspenso, se deveriam p�r a blum em liberdade ou mand�#la recolher a uma cela. cerca das 17 horas ela deixou#se persuadir a aceitar mais uma ch�vena de ch� com uma sandu�che de presunto e declarou#se de acordo em que o interrogat�rio prosseguisse, depois de beizmenne lhe ter prometido que a poria em liberdade no fim. o assunto seguinte foram as rela��es dela com frau woltersheim. katharina declarou que else woltersheim era sua madrinha, que sempre se interessara por ela e que era uma parente distante de sua m�e. assim que katharina chegara � cidade, logo se pusera em contacto com ela. "no dia 20 de fevereiro fui convidada para aquele baile, que, em princ�pio, se deveria realizar no dia 21, v�spera de carnaval, mas que foi adiado porque frau woltersheim ficou impedida por raz�es profissionais. era o primeiro baile a que eu ia havia quatro anos. quero dizer, desejo corrigir estas declara��es: em v�rias ocasi�es, talvez duas ou tr�s, o m�ximo quatro, dancei em casa dos blorna, em festas que eles deram e a que eu ajudei. no fim da noite, depois de ter lavado a loi�a e servido o caf� e de o doutor blorna ter tomado conta do bar, iam chamar#me para o sal�o e eu dan�ava com o doutor blorna e com os outros h�spedes, cavalheiros da universidade, da economia e da pol�tica. mais tarde comecei a n�o gostar muito disto e acabei por deixar completamente de aceitar estes convites: � que, muitas vezes, os cavalheiros tinham bebido de mais e come�avam com impertin�ncias. 21 para ser mais exacta: depois de comprar o meu autom�vel, nunca mais aceitei estes convites para dan�ar. anteriormente estava dependente de um deles me levar de autom�vel a casa. tamb�m dancei algumas vezes com aquele cavalheiro ali", e apontou para hach, que corou vivamente. n�o lhe perguntaram se hach fazia parte dos que lhe tinham feito propostas impertinentes. 18 o interrogat�rio demorou tanto tempo porque katharina exigiu, com extremo rigor, que lhe lessem em voz alta tudo o que ficava registado nos autos. por exemplo, no �ltimo cap�tulo, quando ela referiu as impertin�ncias dos cavalheiros, a vers�o original registada falava de ternuras, os cavalheiros tornavam#se ternos". katharina indignou#se e protestou energicamente contra isto, e o facto deu lugar a controv�rsias de defini��o entre ela e os agentes do
  13. 13. minist�rio p�blico, entre ela e beizmenne, pois katharina sustentava que ternura era uma ac��o rec�proca, enquanto impertin�ncias implicavam uma ac��o unilateral, e era esta que sempre estivera em causa. como os cavalheiros achassem que isso era coisa de pouca import�ncia e que era ela quem tinha a culpa de o interrogat�rio demorar mais que o habitual, katharina declarou que n�o assinaria nenhum auto em que em vez de impertin�ncias figurasse ternuras. para ela, a diferen�a tinha um significado crucial e era uma das raz�es por que ela se tinha divorciado do marido: � que ele nunca tinha sido terno com ela, mas sempre impertinente. surgiram outras controv�rsias do g�nero quanto � palavra bondoso aplicada aos blorna. nos autos haviam registado simp�ticos para comigo. katharina insistia na palavra bondoso. e, quando lhe sugeriram a palavra am�veis em vez de bondosos, com o argumento de que bondosos tinha um ar antiquado, katharina mostrou#se indignada e declarou que simpatia e amabilidade n�o tinham nada a ver com bondade e era com bondade que ela achava que os blorna sempre a haviam tratado. 22 19 entretanto foram interrogados os outros habitantes do edif�cio. a maior parte deles pouco ou nada sabiam de katharina blum. haviam#na encontrado e cumprimentado algumas vezes no elevador, sabiam que lhe pertencia o volkswagen vermelho, alguns julgavam#na uma esp�cie de secret�ria particular, outros supunham#na chefe de sec��o de um armaz�m. sempre a haviam achado jeitosa, simp�tica, mas um tanto reservada. entre os habitantes dos cinco apartamentos do oitavo andar, onde ficava o apartamento de katharina, s� dois puderam adiantar mais alguns pormenores. um era a propriet�ria de um sal�o de cabeleireiro, frau schmill, e o outro era um reformado dos servi�os el�ctricos, chamado ruhwiedel. o mais surpreendente foi a afirma��o comum aos dois de que, de vez em quando, katharina levava para casa ou recebia a visita de um cavalheiro. frau schmill asseverava que o cavalheiro vinha regularmente, a� de duas em duas ou de tr�s em tr�s semanas, era um homem dos seus 40 anos, de tipo atl�tico e de um n�vel nitidamente superior, enquanto o senhor ruhwiedel descrevia o visitante como um tipo ainda bastante novo, que algumas vezes entrava sozinho no apartamento, outras vezes acompanhando fraulein blum. no decorrer dos �ltimos dois anos teria aparecido umas oito ou nove vezes. "e s�o estas as visitas que eu observei. sobre as que n�o observei n�o posso evidentemente dizer nada." quando, l� para o fim da tarde, katharina foi confrontada com estas afirma��es e solicitada a responder#lhes, foi hach quem, mesmo ainda antes de formular propriamente a pergunta, procurou facilitar#lhe as coisas, sugerindo que estes visitantes poderiam ser aqueles que algumas vezes a levavam de casa dos blorna a sua casa. katharina, corando vivamente de humilha��o e ira, perguntou mordazmente se era contra a lei
  14. 14. receber visitas de cavalheiros e, como ela se recusasse a fazer uso ou n�o reconhecesse a ponte que hach gentilmente lhe lan�ara, o pr�prio hach lhe replicou tamb�m com mordacidade que ela devia compreender que o caso que estava aqui a ser investigado, designadamente o de ludwig g�tten, era um caso extremamente s�rio, com muitas ramifica��es, e que havia j� mais de um ano que ocupava as aten��es da pol�cia e do minist�rio p�blico. perguntava#lhe, pois, se as visitas, que ela obviamente n�o negava, tinham sempre sido de uma e mesma pessoa. e aqui beizmenne interveio brutalmente para dizer: 23 # conhece ent�o g�tten, h� dois anos. katharina ficou t�o surpreendida com esta afirma��o que n�o encontrou resposta imediata. limitou#se a olhar para beizmenne abanando a cabe�a e acabando por dar uma resposta surpreendentemente suave e hesitante: # mas n�o, n�o. encontrei#o ontem pela primeira vez. resposta que soou pouco convincente. como em seguida fosse convidada a identificar o visitante, katharina abanou a cabe�a quase horrorizada" e recusou#se a dar nomes. ent�o, beizmenne assumiu mais uma vez ares paternais e tentou persuadi#la, dizendo que n�o havia nada de mal em ela ter um amigo que fosse # e aqui comet�u um erro psicol�gico crucial # n�o atrevido, mas terno para com ela, ela era divorciada e n�o estava portanto obrigada a fidelidade e nem sequer seria censur�vel # terceiro erro decisivo # se dessas rela��es eventualmente lhe resultassem algumas vantagens materiais. e aqui o passo em falso foi definitivo. katharina recusou#se terminantemente a continuar a prestar declara��es e insistiu em que a metessem numa cela ou levassem para casa. ent�o, com grande surpresa dos presentes, beizmenne, com voz suave e exausta # eram agora 20.40 #, declarou que ia mandar um agente acompanh�#la a casa. j� katharina estava de p� a reunir a carteira, a bolsa de toilette e o saco de pl�stico quando ele lhe perguntou s�bita e incisivamente: # como � que o seu doce ludwig conseguiu escapar#se de casa a noite passada? todas as entradas e sa�das estavam guardadas. voc� com certeza conhecia um caminho que lhe indicou e eu vou descobrir como foi. adeus. 20 moeding, assistente de beizmenne, que acompanhou katharina a casa, relatou mais tarde que ficara muito inquieto com o estado da jovem e at� receou que ela praticasse algum acto desesperado. estava absolutamente desfeita e, curiosamente, foi neste estado que ela revelou ou desenvolveu um certo sentido de humor. iam a atravessar a cidade quando ele lhe perguntou gracejando se n�o seria uma boa ideia irem a qualquer lado tomar uma bebida e dan�ar, � vontade e sem
  15. 15. pensamentos reservados, ao que ela replicou, acenando com a cabe�a, que n�o seria m� ideia e talvez at� fosse agrad�vel, 24 e mais tarde, j� diante do pr�dio onde ela morava, quando ele se ofereceu para a acompanhar at� l� acima, ela teria respondido sarcasticamente: # � melhor n�o. como sabe, j� tenho visitas de cavalheiros que cheguem. mas, de qualquer modo, obrigada. moeding tentou durante todo o ser�o e metade da noite convencer beizmenne de que deveria prender katharina para sua pr�pria seguran�a, e quando beizmenne lhe perguntou se ele n�o estaria apaixonado por ela, moeding replicou que n�o, que gostava simplesmente dela, que eram os dois da mesma idade e que n�o acreditava na teoria de beizmenne de uma grande conspira��o em que katharina estivesse envolvida. o que ele n�o contou e que blorna soube atrav�s de frau woltersheim foram os dois conselhos que deu a katharina quando, apesar da recusa inicial dela, a acompanhou at� ao elevador, dois conselhos que lhe poderiam ter custado caro e que, al�m disso, eram at� perigosos para ele e para os colegas. disse designadamente o seguinte diante do elevador: # n�o toque no telefone e amanh� n�o abra o jornal. com isto n�o se ficou a saber se ele se referia ao zeitung(1) ou aos jornais em geral. 21 eram mais ou menos 3.30 da tarde do mesmo dia (quinta#feira 21#2#74) quando, pela primeira vez depois da sua chegada ao local da vilegiatura, o doutor blorna decidiu afivelar os esquis e preparar#se para uma grande volta. a partir desse momento, as suas t�o ambicionadas f�rias estavam decididamente estragadas. bem agrad�vel tinha sido o longo passeio na noite anterior, logo ap�s a chegada. durante duas horas caminhara na neve com a trude, depois fora a bela garrafa de vinho e o sono repousante com a janela aberta. e, de manh�, o primeiro pequeno#almo�o das f�rias t�o longamente adiadas e o repouso no terra�o, durante algumas horas, bem embrulhado na roupa quente. eis sen�o quando, precisamente quando ele se preparava para iniciar o passeio, aparecera aquele tipo do zeitung, que, sem mais nem menos, desatara a falar de katharina. 25 o doutor blorna considerava#a capaz de um crime? ao que ele replicara: # que � que quer dizer com isso? sou advogado e sei que toda a gente � capaz de cometer um crime. de que crime � que fala? de katharina? imposs�vel! como � que lhe veio essa ideia? de
  16. 16. onde � que a conhece? quando foi finalmente informado de que um bandido h� muito procurado pela pol�cia passara a noite em casa de katharina e que esta estava a ser interrogada desde as 11 horas da manh�, o doutor blorna tomou logo a decis�o de regressar para lhe prestar assist�ncia, mas o tipo do zeitung # ele tinha realmente um ar assim t�o sujo ou essa impress�o nascera#lhe mais tarde? # assegurara#lhe que as coisas ainda n�o tinham chegado a esse ponto e perguntou se o doutor blorna n�o quereria dar#lhe alguns pormenores da personalidade dela. como ele recusasse, o homem achou que era mau sinal e que podia ser mal#interpretado, pois o sil�ncio sobre tal assunto # e tratava#se de uma hist�ria de primeira p�gina # era um ind�cio claro de um mau car�cter. ent�o blorna, muito furioso e irritado, disse: # katharina � uma pessoa muito inteligente e de cabe�a fria. e ficou aborrecido, porque isto tamb�m n�o correspondia � verdade nem exprimia o que ele queria e devia dizer. nunca tivera nada a ver com jornais e menos ainda com o zeitung. quando o tipo se foi embora no seu porsche, blorna desafivelou os esquis e percebeu que as f�rias tinham terminado. foi ter com trude, que estava deitada ao sol, na varanda, semiadormecida e bem embrulhada nos cobertores. contou#lhe o que se passava. # telefona#lhe # disse ela. ele tentou realmente telefonar#lhe, tr�s, quatro, cinco vezes, mas a resposta da funcion�ria era sempre a mesma: "o n�mero que deseja n�o responde." por volta das 11 horas tentou mais uma vez, sem �xito. bebeu muito e dormiu mal. 22 na sexta#feira de manh�, quando, por volta das 10 horas, apareceu mal#humorada para tomar o pequeno#almo�o, trude estendeu#lhe o zeitung. katharina em primeira p�gina, grande fotografia, letras garrafais. *1. jornal em alem�o. (n. da t.) 26 katharina blum. namorado salteador. katharina recusa informa��es sobre visitantes masculinos ludwig g�tten, bandido e assassino h� mais de ano e meio procurado pela pol�cia, poderia ter sido capturado ontem se a amante, katharina blum, empregada dom�stica, lhe n�o tivesse protegido a fuga e destru�do a pista. a pol�cia suspeita que a blum h� muito est� envolvida no caso. (mais pormenores na �ltima p�gina sob o t�tulo: visitas de cavalheiros.) na �ltima p�gina viu que o zeitung transformara a sua
  17. 17. afirma��o de que katharina era uma pessoa inteligente e de cabe�a fria, em "gelada e calculista" e das suas afirma��es de car�cter geral sobre a criminalidade deduziam que ela era inteiramente capaz de cometer um crime. o pastor de gemmelbroich declarou o seguinte: "dela espero tudo. o pai era um comunista encapotado e a m�e, a quem dei emprego por compaix�o, roubava o vinho da consagra��o e entregava#se a orgias na sacristia com os amantes." h� dois anos que a blum recebe regularmente visitas de cavalheiros. a casa dela ter� sido centro de conspira��o, ponto de encontro do bando, esconderijo de armas? como � que uma empregada dom�stica de 27 anos ter� conseguido comprar uma casa pr�pria com o valor aproximado de 110 mil marcos? teria parte no saque do bando? a pol�cia continua as investiga��es. o gabinete do minist�rio p�blico trabalha sem hor�rio. amanh� mais not�cias. o zeitungh, como sempre, em cima do acontecimento. hist�ria completa na edi��o semanal de amanh�. nessa tarde, no aeroporto, o doutor blorna reconstruiu esta sequ�ncia r�pida de acontecimentos: 10.25: telefonema de l�ding, muito excitado, solicitando#me o regresso imediato e a entrada em contacto com alois, que estaria igualmente muito excitado. alois, que, na descri��o de l�ding, estaria absolutamente fora de si # coisa que me parece improv�vel, pois nunca o vi nesse estado #, 27 encontra#se presentemente a assistir a um semin�rio para homens de neg�cios crist�os em bad bedelig, onde ele � o principal orador e moderador. 10.40: telefonema de katharina a inquirir se eu tinha realmente dito o que vinha no zeitung. fiquei contente por poder esclarecer a situa��o. katharina ter� dito (estou a citar de mem�ria) qualquer coisa deste g�nero: "acredito. acredito realmente no que diz. agora sei como � que esses malandros trabalham. esta manh� at� foram descobrir a minha m�e, que est� t�o doente, o brettloh e outras pessoas. quando lhe perguntei onde � que estava, disse#me: em casa da else. e agora tenho de ir novamente para o interrogat�rio." 11.00: chamada de alois, a quem pela primeira vez, em vinte anos, vi num estado de grande agita��o e alarme. pediu#me que regressasse imediatamente para o representar num assunto muito delicado. tinha de ir agora apresentar a sua comunica��o, depois ia almo�ar com os homens de neg�cios, em seguida ia dirigir os debates e � noite teria de participar numa reuni�o informal, mas teria possibilidades de aparecer em nossa casa entre as 7.30 e as 9.30 e de dar um salto � reuni�o informal mais tarde. 11.30: trude � tamb�m de opini�o de que deveremos partir imediatamente para darmos assist�ncia a katharina. deduzo do seu sorriso ir�nico que ela j� tem (provavelmente correcta, como sempre) uma teoria sobre as dificuldades de alois. 12.15: reservas feitas, malas arranjadas, conta paga. depois de umas f�rias que pouco mais duraram do que 40 horas, corrida de t�xi para o aeroporto. aqui aguardo das 14 �s 15 horas que o nevoeiro levante. longa conversa com trude acerca de
  18. 18. katharina, de quem sou muito, muito amigo, como � do conhecimento de trude. discutimos o modo como encoraj�mos katharina a n�o ser suscept�vel, a esquecer a sua inf�ncia infeliz e o seu casamento mal sucedido, como tent�mos vencer o orgulho de katharina em quest�es de dinheiro, levando#a a aceitar um empr�stimo da nossa pr�pria conta a juros mais baixos do que os do banco. mesmo tendo#lhe n�s explicado que, se ela nos pagasse 9% em vez de 14% ao banco, n�s n�o ficar�amos a perder nada, enquanto ela pouparia muito, n�o pareceu muito convencida. discutimos quanto devemos a katharina: desde que ela dirige o governo da nossa casa de forma t�o calma e simp�tica, diminu�ram as despesas e temos podido dedicar#nos livremente ao trabalho profissional por uma forma que n�o h� dinheiro que a pague. 28 libertou#nos do caos que durante cinco anos afectou o nosso casamento e trabalho profissional. �s 16.30, como o nevoeiro ainda n�o parecesse em vias de levantar, decidimos ir de comboio. a conselho de trude, n�o telefono ao alois str�ubleder. de t�xi para a esta��o, onde ainda apanh�mos o comboio das 17.45 para francoforte. viagem medonha # n�usea, nervos esfrangalhados. at� a trude est� s�ria e excitada. est� a prever grande fatalidade. em munique fazemos transbordo para um outro comboio, onde conseguimos um vag�o#cama. estamos ambos a antever complica��es com a katharina e aborrecimentos com o l�ding e o str�ubleder. 23 logo no s�bado de manh�, ao chegarem � esta��o da cidade, que continuava com as decora��es do carnaval, os blorna, esgotados e infelizes, viram logo na gare da esta��o o zeitung, de novo com katharina na primeira p�gina, desta vez acompanhada de um agente � civil e a descer as escadas do pres�dio. noiva do assassino recusa#se a falar nenhum ind�Cio do paradeiro de g�TTEn pol�Cia em grande alerta trude comprou o pasquim e, em sil�ncio, seguiram de t�xi para casa. ia ele para pagar, enquanto trude se preparava para abrir a porta, quando o motorista disse, apontando para o zeitung: # o senhor tamb�m vem a� no jornal. conheci#o logo. � o advogado e patr�o da tipinha. blorna deu ao homem uma gorjeta farta e o motorista, com um sorriso menos malicioso que o tom de voz, ajudou#o a levar as malas, sacos e esquis at� ao vest�bulo, onde se despediu com amistoso "adeusinho". trude j� tinha ligado a m�quina do caf� e estava a lavar as
  19. 19. m�os na casa de banho. o zeitung estava na sala em cima da mesa e, ao lado, dois telegramas, um de l�ding e outro de str�ubleder. o de l�ding dizia: "no m�nimo desapontado falta de contacto. l�ding." 29 o de str�ubleder. "n�o posso compreender que me abandonas nesta situa��o. espero telefonema breve. alois." eram precisamente 8.15, quase a hora a que katharina lhes servia o pequeno#almo�o: arranjava sempre a mesa t�o bem! com flores, guardanapos e toalha, lavados, v�rias esp�cies de p�o e mel, ovos e caf� e, para trude, torradas e marmelada inglesa. at� Trude estava quase sentimental quando trouxe o caf� com um pouco de p�o de centeio, mel e manteiga. # as coisas nunca mais voltam a ser o que eram. v�o dar cabo daquela pobre rapariga. se n�o for a pol�cia, � o zeitung, e, quando o zeitung perder o interesse nela, ser� o p�blico. olha, l� isto aqui e depois telefona l� �queles senhores. ele leu o seguinte: o zeitung, no seu constante esfor�o para manter os seus leitores a par dos acontecimentos, conseguiu reunir algumas informa��es que lan�am nova luz sobre o car�cter e o passado pouco transparente da blum. os rep�rteres do zeitung conseguiram descobrir a m�e da blum, que se encontra gravemente doente e que se lamenta de a filha n�o a visitar h� muito. seguidamente, confrontada com os factos irrefut�veis, disse: "tinha de acontecer. tinha de acabar assim." o ex#marido da blum, wilhelm brettloh, um respeit�vel oper�rio t�xtil (o casal divorciou#se, tendo a blum sido considerada culpada do div�rcio por abandono do lar), fez voluntariamente as seguintes declara��es ao zeitung: "agora sei porque � que ela me deixou", disse ele, contendo as l�grimas a custo, "porque � que me repeliu. foi isso que aconteceu. agora percebo tudo. a nossa modesta felicidade n�o lhe bastava. queria mais. e como � que um modesto e honesto oper�rio poderia arranjar um porsche? talvez", acrescentou ele sensatamente, "o senhor possa transmitir o meu conselho aos seus leitores: � assim que acabam as ideias erradas acerca do socialismo. eu pergunto ao senhor e aos seus leitores: como � que uma criada p�de conseguir tal fortuna? honestamente n�o foi. agora sei porque � que eu sempre temi o seu radicalismo e �dio � Igreja. dou gra�as a deus por n�o nos ter dado filhos. e, se agora sei que ela prefere as car�cias de um assassino e ladr�o � minha afei��o simples, esse cap�tulo tamb�m fica explicado. e, no entanto, sinto vontade de lhe dizer: 30 31
  20. 20. "minha pequena katharina, se ao menos tivesses ficado ao p� de mim! com o tempo tamb�m n�s ter�amos podido conseguir uma casa e um carrinho! um porsche n�o teria sido poss�vel, mas uma felicidade modesta como pode oferecer um honesto trabalhador que n�o confia nos sindicatos. ah, katharina..." na �ltima p�gina, sob o t�tulo "casal de reformados est� horrorizado, mas n�o surpreendido", blorna encontrou uma coluna marcada a vermelho: o doutor benhold hiepertz, director de um liceu, reformado, e sua mulher, frau erna hiepertz, mostraram#se horrorizados com as actividades da blum, mas n�o particularmente surpreendidos". em lemgo, onde o doutor hiepertz, fil�logo e historiador, se encontra de visita a uma filha que dirige um hospital, uma colaboradora do zeitung obteve dele as seguintes declara��es a prop�sito da blum, que trabalhou em sua casa durante tr�s anos: "uma pessoa radical em todos os aspectos que nos enganou muito bem!" "(hiepertz, a quem blorna telefonou mais tarde, jurou que o que dissera fora o seguinte: "se katharina � uma radical, ent�o � radical na sua solidariedade, capacidade de organiza��o e intelig�ncia, ou ent�o estou muito enganado com ela, coisa que raramente me aconteceu na minha experi�ncia de 40 anos como professor.") continua��o da p�gina 1: o ex#marido da blum, hoje um homem completamente destro�ado, que foi procurado pelo zeitung durante um ensaio da banda de tambores e p�faros de gemmelsbroich, voltou#se para disfar�ar as l�grimas. tamb�m os outros membros da banda, para usar as palavras de meffels, um velho campon�s, viraram as costas de repulsa a katharina, que sempre fora t�o estranha e pretendera passar por puritana. os inocentes divertimentos carnavalescos de um honesto trabalhador podem agora considerar#se estragados. por fim vinha uma fotografia de blorna e trude no jardim � beira da piscina. legenda: "que papel desempenha a mulher outrora conhecida como a "trude vermelha" e o respectivo marido, que tamb�m por vezes se apresenta como esquerdista? o doutor blorna, advogado bem pago da grande ind�stria, e frau trude blorna diante da piscina da sua luxuosa mans�o." 24 agora devemos empreender uma esp�cie de retrospectiva, qualquer coisa como aquilo que no cinema e na literatura costuma designar#se como flash#back: desde a manh� de s�bado em que o casal blorna, esgotado e bastante exasperado, regressou das f�rias � manh� de sexta#feira em que katharina foi mais uma vez convocada para interrogat�rio no pres�dio. desta vez foi acompanhada por frau pletzer e por um agente mais velho, que levava apenas uma arma ligeira, e n�o saiu de sua pr�pria casa, mas da resid�ncia de frau woltersheim, para
  21. 21. onde katharina se dirigira pelas 5 da manh�, desta vez no seu pr�prio carro. a agente n�o fez segredo de que sabia que iria encontrar katharina, n�o em sua pr�pria casa, mas em casa de frau woltersheim. (� de justi�a lembrar aqui os sacrif�cios e ma�adas sofridos pelo casal blorna: interrup��o das f�rias, corrida de t�xi para o aeroporto, espera por causa do nevoeiro, t�xi para a esta��o, comboio para francoforte, transbordo em munique, sacudidos no vag�o#cama e, de manh� cedo, mal chegaram a casa, confrontados com o zeitung! mais tarde # demasiado tarde, evidentemente #, blorna arrependeu#se de n�o ter telefonado ao hach em vez de telefonar a katharina, que sabia ter sido interrogada pelo tipo do zeitung.) o que impressionou todos os que participaram no segundo interrogat�rio de katharina, na sexta#feira# de novo moeding, a pletzer, os agentes do minist�rio p�blico, doutores korten e hach e a esten�grafa anna lockster, que se irritou com a sensibilidade lingu�stica da blum e lhe chamou afectada" #, a que impressionou todos foi a boa disposi��o radiosa de beizmenne. entrou na sala a esfregar as m�os, tratou katharina com todo o respeito, pediu desculpa por certas grosserias que eram imput�veis, n�o � fun��o, mas � sua pr�pria personalidade # � que ele era um tipo pouco polido #, e depois come�ou a ler a lista dos objectos confiscados: 32 1. uma pequena agenda bastante gasta, de capa verde, que apenas continha n�meros de telefone, que entretanto haviam sido verificados e n�o apresentavam nada de comprometedor. katharina blum usava este livrinho havia quase dez anos, era �bvio. um perito em caligrafia que procurava vest�gios de g�tten atrav�s da letra (g�tten, fora, entre outras coisas, desertor do ex�rcito e trabalhara num escrit�rio, tendo deixado, por conseguinte, muitos vest�gios escritos) descrevera o desenvolvimento da letra de katharina como um exemplo cl�ssico: aos 16 anos, a rapariga tomara nota do n�mero do telefone do talho gerbers, aos 17 registara o n�mero do telefone do doutor kluthen, aos 20 o do doutor fehnern e mais tarde os telefones e direc��es de aprovisionadores, restaurantes, colegas. 2. extractos da conta banc�ria, em que todas as transac��es tinham sido meticulosamente identificadas na letra da blum. pagamentos, transfer�ncias # tudo correcto, nenhum movimento suspeito. o mesmo se aplicava �s entradas e notas contidas num pequeno arquivo onde ela registara as suas responsabilidades para com a firma haftex, � qual comprara o apartamento nas resid�ncias elegantes da beira#rio. tamb�m foram meticulosamente examinadas e verificadas as suas declara��es de impostos, informa��es e pagamentos, mas o perito em parte nenhuma encontrou qualquer soma maior sonegada. beizmenne fizera quest�o em que fossem examinadas com especial cuidado as suas transac��es dos �ltimos dois anos, a que ele chamava por piada o per�odo das visitas dos cavalheiros. nada. mas resultou do exame que katharina todos os meses enviava � m�e 150 marcos e que tinha um contrato com a firma kolter de kuir para lhe cuidarem do t�mulo do pai, em gemmelsbroich. os
  22. 22. m�veis que ela adquirira, utens�lios dom�sticos, vestu�rio, roupa interior, contas de gasolina, tudo verificado e nenhuma discrep�ncia. o contabilista, ao devolver os documentos a beizmenne, dissera: # quando ela for libertada, se andar � procura de emprego, fale comigo. � de uma pessoa assim que a gente anda sempre � procura e nunca encontra. tamb�m as contas de telefone da blum n�o deram qualquer raz�o de suspeita. era �bvio que fazia poucas chamadas interurbanas. tamb�m foi observado que, de vez em quando, katharina enviava pequenas quantias, entre 15 e 30 marcos, ao irm�o, que se encontrava a cumprir uma pena de pris�o por assalto a uma resid�ncia, para lhe aumentar um pouco o dinheiro para despesas mi�das. 33 para a igreja, a blum n�o pagava quaisquer taxas. via#se pelos seus registos que abandonara a igreja cat�lica com a idade de 19 anos. 3. uma outra agenda com v�rios registos, sobretudo n�meros, que continha quatro colunas: uma respeitante � casa dos blorna, com as contas da mercearia, detergentes, limpeza a seco, lavandaria. via#se por aqui que era a pr�pria katharina quem passava a ferro. a segunda coluna dizia respeito � casa dos hiepertz, com os mesmos pormenores e contas. a terceira era da sua pr�pria casa, que ela claramente governava com um or�amento limitado: havia meses em que quase n�o gastava mais de 30 a 50 marcos em v�veres. contudo, parecia que ia muitas vezes ao cinema # televis�o n�o tinha # e que de vez em quando comprava chocolate e at� bombons. a quarta coluna continha notas de receitas e despesas respeitantes a trabalhos extra que ela fazia # compra e limpeza de uniformes e uma percentagem das despesas do seu volkswagen. neste ponto # as contas da gasolina #, beizmenne interveio, com uma brandura que surpreendeu toda a gente, para lhe perguntar qual a raz�o das contas relativamente elevadas da gasolina, contas que, de resto, estavam de acordo com os n�meros indicados no conta#quil�metros. tinha#se verificado que o caminho # ida e volta # para casa dos blorna era de cerca de 6 quil�metros, que a dist�ncia da casa dos hiepertz era de 8 quil�metros e a de frau woltersheim era de 4 quil�metros. se se quisesse admitir que ela fazia um trabalho extra por semana # isto num c�lculo generoso #, para o qual se atribu�ssem 20 quil�metros, com igual generosidade, isto daria uma m�dia de 3 quil�metros di�rios. no total atingir#se#iam 21#22 quil�metros di�rios. e era preciso considerar que ela n�o visitava frau woltersheim diariamente, mas com isso n�o se entrava em considera��o. por outras palavras, chegava#se a uma estimativa de 8000 quil�metros por ano. ora ela, katharina blum, tinha adquirido o carro com 56 mil quil�metros, como se podia ver pelo contrato escrito com klomer, o chefe de cozinha. fazendo agora as contas a 2 vezes 8000, o conta#quil�metros deveria agora marcar 72 mil, e a verdade �
  23. 23. que marcava quase 102 mil. � verdade que ela fora algumas vezes visitar a m�e a gemmelsbroich e, mais tarde, ao hospital de kuir#hochsackel,. e tamb�m fora algumas vezes ver o irm�o � pris�o, mas a dist�ncia de gemmelsbroich ou kuir#hochsackel era de cerca de 50 quil�metros ida e volta e a pris�o do irm�o ficava a 60 quil�metros. 34 se agora # querendo ser generoso # se contasse com duas visitas por m�s ao irm�o, que estava preso havia ano e meio (anteriormente vivia com a m�e), chegava#se # sempre fazendo as contas a dois anos # a mais 4000#5000 quil�metros e ainda restavam por explicar, que � como quem diz por descobrir, 25 mil. por conseguinte, para onde � que ela ia tantas vezes? teria ela # ele n�o queria vir de novo com sugest�es grosseiras, mas ela devia compreender a pergunta # ido a algum s�tio encontrar#se com uma ou mais pessoas? e, em caso afirmativo, onde? fascinada e tamb�m chocada, ouviu katharina estes c�lculos apresentados pela voz suave de beizmenne, e n�o s� Katharina, mas tamb�m todos os outros presentes. dir#se#ia que, enquanto beizmenne fazia as contas e as apresentava, katharina n�o sentia ira, mas simplesmente uma tens�o mista de horror e fascina��o, porque, enquanto ele falou, ela n�o procurou encontrar explica��o para os 25 mil quil�metros, mas tentava compreender onde, quando e porqu� teria ido de carro a qualquer lado. no come�o do interrogat�rio, ela mostrara#se surpreendentemente acess�vel, quase branda, at� tinha dado a impress�o de estar com medo, tinha tomado ch� e n�o fizera quest�o de ser ela pr�pria a pag�#lo. e agora, quando beizmenne acabara com as contas e as perguntas, reinava # no dizer de v�rios, de quase todos os presentes # um sil�ncio sepulcral, como se houvesse a sensa��o de que, com base numa descoberta que (se n�o fossem as contas da gasolina) poderia ter passado despercebida, algu�m aqui penetrara num segredo �ntimo de katharina, cuja vida at� �quele momento parecera t�o transparente. "sim" # disse katharina blum, e daqui em diante as suas declara��es foram registadas em acta de que temos a transcri��o #, "est� conforme. fiz agora as contas rapidamente, de cabe�a. d� por dia mais de 30 quil�metros. nunca tinha pensado nisso nem nos custos que acarretava, mas muitas vezes metia#me no carro e sa�a sem destino, por a� fora, para onde calhava, �s vezes para sul, na direc��o de coblen�a, ou para oeste, no sentido de aachen, ou para baixo, para o reno inferior. n�o todos os dias. n�o poderei dizer quantas vezes nem com que intervalos. na maior parte das vezes era quando chovia e eu tinha a noite livre e estava s�. N�o. desejo corrigir as minhas declara��es: 35
  24. 24. era s� quando chovia que eu sa�a para estes passeios de carro. n�o sei explicar bem porqu�. os senhores devem saber que, muitas vezes, quando n�o fazia servi�o em casa da fam�lia hiepertz e n�o tinha qualquer trabalho extra, j� estava em casa �s cinco horas e n�o tinha nada que fazer. n�o queria ir sempre para casa da else especialmente agora, que ela tem o konrad, e ir sozinha para o cinema nem sempre � muito seguro para uma mulher. �s vezes entrava numa igreja, n�o por raz�es religiosas, mas por causa do sil�ncio, mas hoje nem na igreja se est� sossegado e n�o s�o apenas os leigos que importunam. evidentemente que tenho alguns amigos: werner klormer, por exemplo, aquele que me vendeu o carro, e a mulher dele, e outros empregados da firma kloft, mas � dif�cil e habitualmente bastante embara�oso para uma pessoa que aparece sozinha n�o aceitar automaticamente, ou, antes, incondicionalmente, qualquer sugest�o que se ofere�a. � por isso que eu me metia no carro, ligava o r�dio e ia por a� fora, sempre por estradas secund�rias, sempre � chuva, de prefer�ncia por estradas com �rvores, �s vezes ia at� � holanda ou � B�lgica, bebia um caf� ou uma cerveja e voltava. sim. agora que me pergunta, estou a ver tudo. pois. agora se me perguntassem quantas vezes, eu diria: duas, tr�s vezes por m�s, algumas vezes menos, outras mais, e geralmente conduzia durante horas, a� at� �s nove, dez horas, quando n�o mesmo at� �s onze. regressava ent�o a casa morta de fadiga. era tamb�m por medo: conhe�o tantas mulheres solit�rias que passam o ser�o a beber diante da televis�o!" o sorriso gentil com que beizmenne ouviu esta declara��o n�o dava qualquer ideia do que lhe ia no pensamento. acenava com a cabe�a e, se esfregava as m�os, devia ser porque as declara��es de katharina blum confirmavam alguma das suas teorias. fez#se um momento de sil�ncio como se os presentes estivessem surpreendidos ou embara�ados. parecia que pela primeira vez a blum revelara qualquer coisa da sua esfera �ntima. depois disso procedeu#se rapidamente � listagem dos restantes objectos apreendidos. 4. um �lbum de fotografias que continha apenas retratos de pessoas facilmente identific�veis: o pai de katharina blum, que parecia doente e amargurado e muito mais velho do que devia ser; a m�e, que se sabia estar a morrer de cancro; o irm�o; a pr�pria katharina com 4 e 6 anos de idade; vestida para fazer a primeira comunh�o aos 10 anos; vestida de noiva aos 20 anos; o marido, o padre de gemmelsbroich, vizinhos, parentes, diversas fotografias de else woltersheim, 36 depois um cavalheiro mais velho, de aspecto jovial, que n�o foi logo identificado e que se veio a saber ser o doutor fehnern, perito fiscal condenado. nenhuma fotografia de qualquer pessoa que pudesse ser relacionada com as teorias de beizmenne. 5. um passaporte em nome de katharina brettloh (nome de solteira: blum). relacionadas com o passaporte, foram#lhe feitas diversas perguntas sobre viagens e ficou provado que katharina nunca viajara propriamente, e, exceptuando uns dias
  25. 25. em que estivera doente, sempre trabalhara. os fehnern e os blorna pagavam#lhe realmente as f�rias, mas ela ou continuava a trabalhar ou executava trabalhos extra. 6. uma velha caixa de chocolates. conte�do: cartas, a� uma d�zia # da m�e, do irm�o, do marido, de frau woltersheim. nenhuma carta que pudesse ter rela��o com a suspeita que agora pesava sobre ela. para al�m disto, a caixa continha umas fotografias do pai fardado de cabo do ex�rcito alem�o e do marido com o uniforme da banda de tambores, umas quantas folhas rasgadas de um calend�rio com prov�rbios, mais uma consider�vel colec��o de receitas manuscritas e uma brochura intitulada: o uso do sherry em molhos. 7. uma pasta contendo certificados, diplomas e documentos, todos os documentos do seu div�rcio e os documentos notariais respeitantes ao condom�nio. 8. tr�s molhos de chaves, que entretanto tinham sido investigadas e se verificou serem as chaves da casa e do roupeiro da sua pr�pria casa e as da casa dos hiepertz e dos blorna. verificou#se, e ficou nos autos, que, entre os objectos acima mencionados, nada se encontrara de suspeito; a declara��o de katharina sobre os consumos de gasolina e a quilometragem foi aceite sem coment�rios. s� nesta altura � que beizmenne tirou do bolso um anel com um rubi e diamantes, que aparentemente tinha guardado sem estojo, porque o poliu com a manga do casaco antes de o mostrar a katharina. # conhece este anel? # sim # respondeu ela sem hesita��o nem embara�o. # pertence#lhe? # sim. # sabe que valor tem? # com rigor, n�o. n�o deve ser muito. # bom # disse beizmenne com um ar cordial. # mand�mo#lo avaliar e, como medida de precau��o, n�o s� pelo nosso avaliador oficial, mas igualmente num joalheiro da cidade, 37 para nos garantirmos e tamb�m para lhe n�o fazermos qualquer injusti�a. este anel vale entre oito mil e dez mil marcos. n�o sabia? acredito no que diz, mas tenho de lhe pedir que explique onde � que o arranjou. numa investiga��o desta natureza, em que est� em causa um criminoso acusado de assalto e fortemente suspeito de assassinato, um anel assim n�o � uma trivialidade e tamb�m n�o � uma coisa privada, �ntima, como umas centenas de quil�metros ou umas horas a conduzir autom�vel debaixo de chuva. de quem recebeu este anel? de g�tten, ou de um visitante masculino? ou seria g�tten o visitante masculino? e, se assim n�o foi, onde � que ia a senhora como visitante feminina,, se me � permitido usar a express�o por gracejo, quando conduzia milhares de quil�metros � chuva? seria para n�s coisa de nada descobrir em que joalharia � que o anel foi comprado ou roubado, mas gostaria de lhe dar uma possibilidade # bem v�, n�o a considero directamente envolvida numa ac��o criminosa, mas apenas ing�nua e um pouquinho rom�ntica. quer fazer o favor de me, de
  26. 26. nos, explicar como � que a senhora, que � tida como uma pessoa de melindres, quase pudibunda, de tal modo que os amigos e conhecidos lhe deram a alcunha de a freira,, que evita discotecas, que se separou do seu marido porque ele era impertinente,, querer� fazer o favor de esclarecer como � que, a julgar pelas apar�ncias, tendo conhecido g�tten apenas ontem, logo nesse mesmo dia # poder�amos dizer, sem mais nem menos # o lev a para casa e ali se tornou, bem digamos, �ntima com ele? que nome � que d� a isto? amor � primeira vista? paix�o? ternura? n�o v� que h� certas incongru�ncias que n�o eliminam completamente a suspeita? mas h� mais. # e beizmenne, metendo a m�o no bolso do casaco, tirou um envelope branco e grande e de dentro deste um outro de dimens�es normais, bastante extravagante, cor de violeta e com forro creme. # este envelope vazio, que encontr�mos na gaveta da sua mesa#de#cabeceira ao lado do anel, foi carimbado nos correios de dusseld�rfia no dia 12 de fevereiro de 1974, �s 18 horas, e est�#lhe endere�ado. meu deus # disse beizmenne a concluir #, se a senhora tem um amigo que de vez em quando a visitava e a casa de quem ia por vezes de autom�vel, que lhe escrevia cartas e que por vezes lhe dava presentes, n�o hesite, diga#nos, n�o � nenhum crime. s� seria coisa para a incriminar se tivesse alguma rela��o com g�tten. 38 todos os presentes tinham como certo que katharina reconhecia o anel, mas lhe ignorava o valor; que mais uma vez aqui se inseria o assunto melindroso das visitas do cavalheiro. sentir#se#ia ela envergonhada por ver a sua reputa��o em perigo, ou via perigo para algu�m que ela n�o desejaria implicado no assunto? desta vez apenas corou ligeiramente. n�o confessaria ela ter recebido o anel de g�tten, por saber ser inveros�mil apresentar assim g�tten, transformado num cavalheiro desta categoria? permaneceu calma, quase mansa", quando prestou as seguintes declara��es, que ficaram nos autos: # � verdade que no baile em casa de frau woltersheim dancei exclusiva e fervorosamente com ludwig g�tten, que vi pela primeira vez na minha vida e cujo apelido s� ouvi no interrogat�rio policial de quinta#feira de manh�. senti grande ternura por ele e ele por mim. sa� de casa de frau woltersheim por volta das 10 horas e fui para minha casa de autom�vel com ludwig g�tten. sobre a proveni�ncia da j�ia, n�o posso # n�o, desejo corrigir #, n�o quero prestar declara��es. uma vez que ela n�o veio para a minha posse por meios ilegais, n�o me sinto obrigada a declarar a sua proveni�ncia. o remetente do envelope que me foi apresentado �#me desconhecido. deve tratar#se de um esp�cime de material de propaganda habitual. sou relativamente conhecida nos meios gastron�micos. porque � que me ter�o enviado um an�ncio num envelope de fantasia sem indica��o de remetente, � coisa que n�o posso explicar. gostaria, no entanto, de chamar a aten��o para o facto de certas firmas gastron�micas gostarem de projectar uma imagem de distin��o.
  27. 27. quando lhe perguntaram por que motivo � que, gostando ela tanto de conduzir, como parecia e ela mesmo reconhecia, tinha decidido naquele dia ir de el�ctrico para casa de frau woltersheim, katharina disse que n�o sabia se beberia muito ou pouco �lcool e que lhe parecera mais seguro n�o ir no seu pr�prio carro. perguntada se bebia muito e se at� alguma vez se tinha embriagado, ela disse que n�o, que bebia pouco e que nunca se tinha embriagado; s� uma vez � que fora levada a embriagar#se # designadamente na presen�a e por instiga��o do marido, durante uma confraterniza��o da banda de gemmelsbroich # com um copo de anis que parecia limonada. mais tarde tinham#lhe dito que esta bebida relativamente cara era muito usada para levar pessoas � embriaguez. 39 quando lhe apontaram que esta explica��o # de ter medo de beber demasiado # n�o colhia, porque ela nunca bebia muito, e se ela n�o via que tudo dava a entender que ela tinha feito uma combina��o com g�tten, pela qual sabia que n�o ia precisar do seu pr�prio carro, porque iria para casa no carro dele, ela abanou a cabe�a e disse que as coisas se tinham passado exactamente como dissera. � verdade que lhe tinha apetecido beber um pouco mais do que habitualmente, mas acabara por n�o o fazer. restava um ponto por explicar antes do almo�o: porque � que ela n�o tinha uma caderneta ou um livro de cheques. talvez, afinal, ela tivesse uma conta banc�ria em algum s�tio. n�o, a �nica conta banc�ria que possu�a era a da caixa econ�mica. qualquer quantia, por mais insignificante, de que pudesse dispor imediatamente a utilizava para abater no empr�stimo, cujos juros eram t�o elevados; por vezes, esses juros atingiam o dobro dos das suas economias e nas contas correntes quase n�o h� juros. al�m disso, achava demasiado dispendioso e complicado usar cheques. as despesas correntes, as do governo da casa e as do autom�vel pagava#as a dinheiro. 25 certas blocagens, a que tamb�m se chama tens�es, s�o inevit�veis, porque nem todas podem ser desviadas ou reorientadas de uma assentada, de modo a ficar � vista o terreno seco. no entanto, devem evitar#se as tens�es desnecess�rias e vamos agora explicar porque � que naquela sexta#feira de manh� tanto beizmenne como katharina se comportaram de maneira t�o suave, para n�o dizer mesmo doce ou at� humilde. katharina at� parecia receosa ou intimidada. se � verdade que o zeitung, que uma vizinha simp�tica introduzira em casa de frau woltersheim, suscitara nas duas mulheres ira, zanga, indigna��o, vergonha, medo, a conversa telef�nica com blorna que imediatamente se seguira acalmara#as, e, como logo a seguir � r�pida leitura do zeitung e � conversa telef�nica com blorna aparecera frau pletzer, que confessara abertamente
  28. 28. que a casa de katharina estava evidentemente sob vigil�ncia e que era por isso que ela sabia que a encontraria em casa de frau woltersheim e tamb�m que agora, infelizmente, katharina # e infelizmente tamb�m frau woltersheim # tinha de ir ser ouvida em interrogat�rio, o choque causado pelo zeitung cedeu perante o ar simp�tico e aberto da agente frau pletzer. 40 katharina p�de ent�o novamente demorar o seu pensamento numa coisa que ocorrera durante a noite e que a fizera muito feliz: ludwig tinha#lhe telefonado e de l�. fora t�o terno que, por isso, ela n�o lhe contara nada daquelas arrelias, para ele n�o ficar com a ideia de que era causa de qualquer infelicidade. tamb�m n�o tinham falado de amor, ela proibira#lho expressamente logo quando iam a caminho de casa no autom�vel. n�o, n�o, estava �ptima, claro que preferiria estar ao p� dele e ficar com ele para sempre, ou, pelo menos, durante muito tempo, de prefer�ncia eternamente, ia descansar durante o carnaval e nunca, nunca mais dan�aria sen�o com ele e s� ritmos sul#americanos, e s� com ele. e como iam as coisas por l�? estava muito bem instalado e muito bem tratado, e, como ela lhe proibira falar de amor, gostaria de lhe dizer que lhe queria muito, muito bem e que um dia # ainda n�o sabia quando, podiam ser meses ou um ano ou mesmo dois # havia de vir busc�#la para a levar, n�o sabia ainda para onde. e assim por diante, dizendo as coisas que costumam dizer ao telefone as pessoas que sentem grande afei��o uma pela outra. nenhuma men��o de intimidades e ainda menos qualquer refer�ncia �quele acontecimento que beizmenne (ou, como agora parece mais prov�vel, hach) definira de forma t�o rude. e assim por diante. simplesmente as coisas que costumam dizer as pessoas que experimentam este g�nero de sentimentos ternos. durante bastante tempo. "uns dez minutos. talvez at� mais", disse katharina a else. talvez, no que diz respeito ao vocabul�rio concreto dos dois apaixonados, se devesse procurar a refer�ncia em certos filmes modernos, onde se fala muito e, aparentemente, de forma inconsequente ao telefone # muitas vezes de grandes dist�ncias. esta conversa telef�nica entre katharina e ludwig fora tamb�m a causa da normaliza��o, da cordialidade e da suavidade dos modos de beizmenne, e, embora ele suspeitasse de porque � que katharina tinha abandonado a sua atitude de esquiva obstina��o, evidentemente que ela n�o podia adivinhar que era com o mesmo ponto de partida, embora n�o pela mesma raz�o, que ele estava t�o satisfeito. (este acontecimento curioso e memor�vel deveria levar#nos a telefonar mais vezes, mesmo, se necess�rio, sem murm�rios ternos, porque nunca se sabe a quem � que uma tal chamada vai dar prazer.) beizmenne, por�m, tamb�m conhecia a causa da inquieta��o de katharina, porque tamb�m tinha conhecimento de uma outra chamada, esta an�nima. 41
  29. 29. solicitamos ao leitor que n�o procure explorar as fontes das informa��es confidenciais que est�o contidas neste cap�tulo: trata#se apenas de um furo aberto na parede de areia amadoristicamente constru�da numa represa cuja �gua se pretende escoar, designadamente juntando#a num rio, antes que se d� o colapso da fr�gil parede e toda a tens�o desapare�a. 26 para evitar mal#entendidos, deve aqui ficar anotado que tanto else como blorna sabiam que, ao ajudar g�tten, a escapar de sua casa sem ser notado, katharina tinha cometido uma falta; efectivamente, ao possibilitar#lhe a fuga, ela passara a ser conivente em certos actos pun�veis, ainda que n�o os relevantes neste caso. else woltersheim disse#lho sem rodeios pouco antes da chegada de frau pletzer para as levar para o interrogat�rio. blorna aproveitou a primeira oportunidade para lhe chamar a aten��o para a natureza criminal do seu acto. tamb�m n�o devemos omitir o que katharina disse a frau woltersheim acerca de g�tten: # mas n�o v�? era ele aquele por quem eu esperava, e com quem teria casado, e de quem teria tido filhos, ainda que para isso tivesse de esperar anos at� ele sair da cadeia. 27 o interrogat�rio de katharina blum podia agora dar#se por terminado; tinha apenas de se manter � disposi��o da justi�a para uma poss�vel acarea��o com os restantes participantes na festa de frau woltersheim. � que estava ainda por esclarecer uma quest�o que se apresentava como bastante importante no contexto da teoria de beizmenne de uma combina��o previamente preparada e de uma conspira��o: como � que ludwig g�tten entrara na festa de frau woltersheim? foi dito a katharina blum que ela podia escolher entre ir para casa e esperar num local � sua escolha, mas ela recusou ir para casa, dizendo que para ela a casa estava definitivamente estragada e que preferia esperar numa cela pelo fim do interrogat�rio de frau woltersheim, depois do que iria para casa com ela. 42 foi s� nesta altura que katharina tirou da bolsa os dois n�meros do zeitung e perguntou se o estado # foi assim que ela disse # n�o poderia fazer alguma coisa para a proteger contra esta imund�cie e recuperar a sua honra perdida. ela sabia perfeitamente que o interrogat�rio se justificava, embora n�o entendesse muito bem esta necessidade de irem at� aos �ltimos pormenores da sua vida, mas o que ela n�o podia compreender era como certos pormenores do interrogat�rio # como, por
  30. 30. exemplo, a quest�o das visitas do cavalheiro # poderiam ter chegado ao conhecimento do zeitung, para al�m de todas aquelas afirma��es falsas e fraudulentas. neste ponto interveio hach, o agente do minist�rio p�blico, para dizer que, em vista do enorme interesse p�blico suscitado pelo caso g�tten, tinha sido evidentemente necess�rio fazer declara��es � imprensa; contudo, n�o tinha havido uma confer�ncia de imprensa, mas, devido � excita��o e apreens�o causadas pela fuga de g�tten # lembrasse#se katharina de que fora ela que a tornara poss�vel #, essa confer�ncia agora j� n�o podia ser evitada. al�m disso, a circunst�ncia de conhecer g�tten fizera dela uma figura p�blica e, consequentemente, objecto de justific�vel interesse p�blico. � claro que poderia mover uma ac��o contra o jornal por afirma��es caluniosas e ofensivas e, se se viesse a provar que tinha havido fugas de informa��o em sectores oficiais, poderia estar certa de que as autoridades policiais deduziriam acusa��o contra pessoa ou pessoas desconhecidas e a assistiriam na restitui��o dos seus direitos. katharina blum foi seguidamente levada para uma cela. n�o foi considerado necess�rio p�#la sob vigil�ncia rigorosa. limitaram#se a p�r#lhe uma jovem agente desarmada, renate z�ndach, que informou mais tarde que, durante todo o tempo # para a� duas horas e meia #, katharina n�o fizera outra coisa sen�o ler as duas edi��es do zeitung. ch�, sandu�ches, tudo isso ela recusara, n�o de forma agressiva, mas de uma maneira quase cordial como que ap�tica,. todas as tentativas que renate z�ndach fez para falarem de modas, cinema, dan�as, com vista a distrair katharina, foram por esta repelidas. depois, disse a agente z�ndach, para ajudar a blum, que parecia positivamente hipnotizada pelo zeitung, pedira ao colega h�ften que a substitu�sse por momentos na vigil�ncia e foi aos arquivos buscar outros jornais em que o envolvimento e o interrogat�rio da blum e o seu papel potencial vinham relatados de forma inteiramente objectiva. apresentavam reportagens breves, na terceira ou quarta p�ginas, nas quais nem se quer o nome blum vinha impresso por inteiro; 43 a refer�ncia que vinha era apenas a uma tal katharina b., empregada dom�stica. por exemplo, na revista figurava apenas uma alus�o de dez linhas, naturalmente sem fotografia, em que se falava do infeliz envolvimento de uma pessoa totalmente inocente. nada disto # a agente colocara quinze recortes de jornais em frente da blum # a tinha, conseguido consolar. katharina limitara#se a perguntar: # quem � que l� estas coisas? toda a gente que eu conhe�o s� l� o zeitung. 28 para tirar a limpo como � que g�tten fora � festa de frau woltersheim, a primeira pessoa a ser interrogada fora a pr�pria frau woltersheim, e logo desde o primeiro momento se
  31. 31. tornou �bvio que, relativamente ao conjunto dos funcion�rios que estavam a interrog�#la, frau woltersheim se apresentava, quando n�o absolutamente hostil, pelo menos mais hostil que katharina. declarou ter nascido em 1930, tendo portanto 44 anos, era solteira, de profiss�o ec�noma n�o diplomada. antes de prestar testemunho sobre o caso em si exteriorizou a sua opini�o num tom de voz objectivo, seco, que ainda conferia mais intensidade � sua indigna��o do que se ela tivesse gritado ou insultado, devido ao modo como o zeitung tratava o caso de katharina blum e ao facto de terem transpirado para a imprensa pormenores do interrogat�rio. era evidente que era preciso investigar o papel desempenhado por katharina, mas o que ela se perguntava era se era leg�timo destruir uma jovem vida,, como estavam realmente a fazer. conhecia katharina desde o dia em que nascera e j� notava os sinais da destrui��o e da perturba��o que se faziam sentir nela desde o dia anterior. n�o era psic�loga, mas o facto de katharina ter perdido o interesse pela casa, de que tanto gostava e pela qual tanto trabalhara, era, em seu entender, um sinal alarmante. n�o era f�cil interromper a torrente acusat�ria de frau woltersheim, nem sequer beizmenne conseguiu faz�#la calar, excepto quando a interrompeu para a censurar por ter recebido g�tten em sua casa, ao que ela replicou que nem sequer sabia como � que ele se chamava, que ele n�o se tinha apresentado e ningu�m lho tinha apresentado. 44 ela apenas sabia que, na quarta#feira em quest�o, ele chegara por volta das 19.30 na companhia de hertha scheumel e juntamente com claudia sterm, amiga desta, e, por seu lado, acompanhada de um cavalheiro vestido de xeque, do qual a �nica coisa que ela sabia � que ele se chamava karl e que posteriormente se comportara de uma forma bastante esquisita. estava fora de quest�o que pudesse ter havido qualquer combina��o pr�via com o tal g�tten, nome que, ali�s, nunca tinha ouvido anteriormente, sendo certo que conhecia intimamente a vida de katharina. ao ser confrontada com as misteriosas sa�das de autom�vel, de katharina, teve de admitir n�o saber nada delas e, deste modo, a sua afirma��o de conhecer intimamente a vida de katharina sofreu um rude golpe. ao mencionarem#lhe o assunto das visitas do cavalheiro, pareceu embara�ada e declarou que katharina nunca lhe falara delas, mas recusou#se a fazer declara��es. a �nica coisa que podia dizer a esse respeito era que uma delas fora um assunto bastante sujo e, quando digo sujo, n�o me refiro a katharina, mas ao visitante. se katharina a autorizasse, diria tudo o que sabia a esse respeito; considerava fora de quest�o que as viagens de katharina a levassem junto de tal pessoa. sim, existia um tal cavalheiro e, se hesitava em falar mais a esse respeito, era porque n�o queria que ele fosse objecto de rid�culo. de qualquer modo, o papel de katharina em ambos os casos # o de g�tten e o do cavalheiro # estava acima de qualquer censura. katharina fora sempre uma rapariga activa,
  32. 32. respeit�vel, um pouco t�mida, ou, antes, metida consigo; em crian�a fora at� bastante piedosa e dada � Igreja. mas depois a m�e, que costumava fazer a limpeza da igreja de gemmelsbroich, fora admoestada v�rias vezes por comportamento incorrecto e uma vez at� fora apanhada na sacristia a beber o vinho sacramental em companhia do sacrist�o. isto fora transformado numa orgia e num esc�ndalo, e katharina passara um mau bocado na escola �s m�os do pastor. sim, frau blum, a m�e de katharina, era uma mulher muito inst�vel e por vezes at� alco�lica, mas era preciso n�o esquecer que o pai de katharina era um homem muito doente, sempre a queixar#se e a gemer, que voltara da guerra completamente inv�lido, a mulher tornara#se amarga e depois havia ainda o irm�o, que valha a verdade, sa�ra uma m� pe�a. tamb�m sabia a hist�ria do casamento, que resultara t�o mal. desde o princ�pio que procurara dissuadi#la, brettloh era um aut�ntico lambe#botas # desculpassem a express�o #, daqueles que acenam servilmente com a cabe�a a todas as autoridades civis e religiosas. 45 al�m do mais um fanfarr�o repugnante. para ela, o primitivo casamento de katharina fora uma fuga ao meio terr�vel da casa dela, e, como depois se viu, assim que katharina se libertou do meio familiar e do seu imprudente casamento, transformou#se numa pessoa maravilhosa. as suas qualifica��es profissionais eram indiscut�veis, coisa que ela, frau woltersheim, poderia atestar verbalmente e, se necess�rio, por escrito, uma vez que era membro da c�mara dos art�fices. com as novas formas que assumia a hospitalidade tanto de entidades privadas como p�blicas, que agora come�ava a designar#se como hospitalidade organizada, abriam#se grandes possibilidades a uma senhora como katharina blum, dada a sua forma��o tanto no que respeita a aspectos organizativos como a c�lculo e a sua boa apresenta��o. agora, por�m, se ela n�o conseguisse a devida repara��o do zeitung, com a perda do interesse pela casa desaparecia tamb�m o interesse de katharina pela profiss�o. neste ponto das suas declara��es, frau woltersheim foi informada de que n�o era miss�o da pol�cia nem do minist�rio p�blico deduzir acusa��es para perseguir certas formas, sem d�vida repreens�veis, de jornalismo. a liberdade de imprensa n�o poderia ser levianamente posta em risco, mas ela poderia ficar certa de que seria feita justi�a se fosse apresentada uma queixa particular e deduzida acusa��o contra pessoa ou pessoas desconhecidas por abuso de liberdade de imprensa. aqui o doutor korten, jovem agente do minist�rio p�blico, fez uma defesa quase apaixonada da liberdade de imprensa e do direito ao sigilo profissional, acentuando expressamente que uma pessoa que n�o andasse em m�s companhias n�o poderia dar ocasi�o a que a imprensa fizesse descri��es inconvenientes. a hist�ria toda, que � como quem diz o aparecimento de g�tten e da figura nebulosa de karl, o tal que ia vestido de xeque, permitia concluir da exist�ncia de uma estranha neglig�ncia nas rela��es sociais. essa quest�o ainda n�o lhe tinha sido convenientemente explicada e ele contava obter explica��es plaus�veis durante o interrogat�rio das duas
  33. 33. jovens em causa. a frau woltersheim ele n�o poderia poupar uma censura por ela n�o ser mais exigente na selec��o dos seus visitantes. frau woltersheim repeliu esta li��o dada por uma pessoa essencialmente mais nova do que ela e explicou que tinha convidado as duas raparigas a trazerem os seus amigos e tinha de dizer que n�o era seu h�bito pedir aos h�spedes que apresentassem o bilhete de identidade dos amigos ou um certificado de bom comportamento passado pela pol�cia. 46 nesse momento foi repreendida e chamaram#lhe a aten��o para o facto de n�o ser a idade o que importava neste caso, mas sim o alto cargo desempenhado pelo agente do minist�rio p�blico. al�m do mais, o caso aqui sob investiga��o e em que g�tten estava provadamente envolvido era bastante s�rio e grave, embora n�o dos de mais extrema gravidade. era ao representante legal que cabia decidir quais os pormenores e advert�ncias que tinha por convenientes. novamente perguntada se g�tten e o visitante masculino eram uma e a mesma pessoa, a woltersheim disse que n�o, a esse respeito poderia ser absolutamente positiva. mas, quando lhe foi perguntado se conhecia pessoalmente o visitante masculino, designadamente se alguma vez o tinha visto, se o tinha encontrado, teve de dizer que n�o, e, uma vez que mostrou desconhecimento de uma coisa t�o �ntima como as estranhas viagens de autom�vel, o seu depoimento foi designado como pouco satisfat�rio e ela mandada retirar com um tom de desconfian�a. antes de sair da sala, visivelmente irritada, frau woltersheim ainda declarou para os autos que o homem que apareceu disfar�ado de xeque lhe parecera pelo menos t�o suspeito como g�tten. de qualquer modo, tinha#o ouvido falar sozinho nos lavabos e desaparecera sem se despedir. 29 como fora hertha scheumel, caixeira, de 17 anos, quem provadamente levara g�tten � festa, foi ela a pr�xima a ser interrogada. era �bvio que estava nervosa, dizia que nunca tivera nada a ver com a pol�cia, mas deu uma explica��o relativamente plaus�vel para o seu conhecimento com g�tten: # moro # disse ela # com a minha amiga claudia sterm, que trabalha numa f�brica de chocolates. ocupamos um apartamento constitu�do por uma sala, cozinha e casa de banho. somos as duas de kuir#oftersbroich e ainda aparentadas de longe tanto com frau woltersheim como com katharina blum. (embora a scheumel pretendesse dar mais pormenores do parentesco, mencionando av�s que eram primos de av�s, as autoridades n�o se interessaram por eles, dando#se por satisfeitas com o termo "de longe".) chamamos tia a frau woltersheim e consideramos a katharina como prima.
  34. 34. 47 naquela noite, na quinta#feira 20 de fevereiro de 1974, n�s duas, a claudia e eu, est�vamos muito atrapalhadas. t�nhamos prometido � tia else levar os nossos namorados � festa, porque, de outro modo, haveria falta de pares. mas aconteceu que o meu namorado, que est� a prestar servi�o militar, em sapadores, para ser mais exacta, foi subitamente, como de costume, notificado de que ficava de servi�o e, embora eu lhe tivesse sugerido que se escapasse, ele n�o quis fazer isso, porque j� o fizera mais de uma vez e tinha medo de se meter em complica��es disciplinares. quanto ao namorado da claudia, estava t�o b�bedo logo ao princ�pio da tarde que tivemos de o meter na cama. decidimos ent�o ir ao caf� Polkt para ver se pesc�vamos algu�m simp�tico, porque n�o quer�amos que a tia else nos censurasse. no caf� Polkt h� sempre movimento durante o carnaval. as pessoas encontram#se ali antes e depois dos bailes e dos festejos do carnaval e pode#se ter a certeza de que se vai encontrar l� gente jovem. �quela hora do fim de tarde daquela quarta#feira reinava j� grande anima��o no caf� polkt. por duas vezes fui convidada para dan�ar por esse rapaz que agora sei chamar#se ludwig g�tten e ser um criminoso pretendido pela pol�cia. da segunda vez que dan��mos perguntei#lhe se n�o queria ir a uma festa comigo. aceitou prontamente, encantado. disse que estava de passagem, n�o tinha aonde ir e n�o fazia ideia de onde � que havia de passar o ser�o. no momento em que eu estava a combinar as coisas com ele, a claudia passou por mim a dan�ar com um rapaz disfar�ado de xeque. suponho que eles devem ter ouvido a nossa conversa, porque o xeque, que eu soube mais tarde chamar#se karl, perguntou imediatamente a claudia, com um ar muito humilde, a fazer#se engra�ado, se n�o havia na nossa festa um cantinho para ele; tamb�m estava sozinho e n�o sabia onde � que havia de ir. ora bem, t�nhamos conseguido o que pretend�amos e pouco depois dirigimo#nos para casa da tia else no carro do ludwig, quero dizer, no carro do senhor g�tten. era um porsche, n�o muito confort�vel para quatro pessoas, mas a dist�ncia tamb�m n�o era grande. � pergunta se katharina blum sabia que n�s �amos ao caf� Polkt para vermos se ca��vamos algu�m, respondo que sim. nessa manh� telefonei � Katharina para casa do doutor blorna, onde ela trabalha, e contei#lhe que a claudia e eu ter�amos de ir sozinhas se n�o descobr�ssemos algu�m para nos acompanhar. tamb�m lhe disse que ir�amos ao caf� Polkt. 48 ela n�o achou bem e disse que n�s �ramos demasiado cr�dulas e irrespons�veis. mas todos sabemos que a katharina � muito esquisita nestas coisas. foi por isso que fiquei t�o admirada de ver a katharina agarrada ao g�tten logo de princ�pio e de ter dan�ado com ele toda a noite, como se se conhecessem de sempre.
  35. 35. 30 as declara��es de hertha scheumel foram quase textualmente confirmadas pela amiga claudia sterm. s� num ponto, ali�s n�o essencial, � que n�o houve concord�ncia. � que ela tinha dan�ado n�o duas, mas tr�s vezes, com o karl, o tal vestido de xeque, porque o karl tinha#a convidado para dan�ar antes de o g�tten convidar a hertha. e tamb�m ela se surpreendera com a rapidez com que a katharina, geralmente tida na conta de puritana, se familiarizara com o g�tten, quase se diria com intimidade. 31 faltava ainda ouvir tr�s participantes no baile: konrad beiters, negociante de t�xteis, de 56 anos de idade, amigo de frau woltersheim, e o casal hedwig e georg plotten, respectivamente de 36 e de 42 anos de idade, ambos funcion�rios administrativos. os tr�s descreveram o ser�o da mesma forma, falando da chegada de katharina, da entrada de hertha scheumel acompanhada de ludwig g�tten, e da de claudia sterm acompanhada de karl vestido de xeque. de resto, fora um ser�o agrad�vel: tinham dan�ado, conversado e o karl at� se mostrara cheio de humor. a �nica nota destoante # se � que se podiam exprimir as coisas deste modo, pois os dois visados de certeza n�o eram da mesma opini�o #, disse georg plotten, fora o total monop�lio de katharina por parte de ludwig g�tten", facto que conferira ao ser�o um ar s�rio, quase solene, que n�o se ajustava aos festejos carnavalescos. "tamb�m a ela" # disse frau plotten # "dera nas vistas o comportamento de karl, que ela ouvira falar sozinho nos lavabos quando fora � cozinha buscar mais gelo, j� depois de katharina ter sa�do com g�tten. al�m disso, pouco depois, o tal karl fora#se embora sem ao menos dizer adeus. 32 katharina blum, mais uma vez chamada para interrogat�rio, confirmou a conversa telef�nica com hertha scheumel, mas continuou a negar que tivesse havido qualquer combina��o com g�tten, porque lhe foi sugerido, n�o por beizmenne, mas por korten, o mais novo dos dois agentes do minist�rio p�blico, que ela faria bem em admitir que g�tten lhe tinha telefonado depois da conversa telef�nica com hertha e que ela teria tido a esperteza de o mandar ao caf� Polkt meter conversa com hertha para se poderem encontrar em casa de frau woltersheim sem darem nas vistas. tinha sido muito f�cil, porque a scheumel era uma loira vistosa, que usava roupa bastante garrida. katharina blum, agora quase completamente ap�tica, limitava#se a abanar a cabe�a, enquanto continuava sentada a agarrar com a m�o direita os dois n�meros do zeitung. mandaram#na ent�o retirar#se, e ela saiu do pres�dio na

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