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A influência dos níveis de percepção de riscos


                                                                    Prof. Antonio Fernando Navarro


Introdução:


                  Percepção é o ato ou o efeito de perceber-se algo. De acordo com os conceitos
emitidos pelos dicionários, trata-se de uma reação a um estímulo exterior, que se manifesta por
fenômenos químicos, neurológicos, e por diversos mecanismos psíquicos tendentes a adaptar esta
reação a seu objeto, como a identificação do objeto percebido (ou seu reconhecimento), sua
diferenciação por ligação aos outros objetos. Ou seja, muito da percepção é proveniente de
experiências anteriores ou mesmo de memória genética, hoje plenamente comprovada com animais,
onde o filho de um predador já nasce predador.
                  O bebê, desde que nasce, começa a perceber o que está ao seu redor através do
olhar, tato, sentido degustativo, pele, enfim, por uma própria sensibilidade não de todo explicada,
bastante semelhante à sensibilidade e percepção da mãe para com seus filhos. Nessa fase, leva tudo
à boca, pega tudo, olha tudo com medo ou admiração, assusta-se com o desconhecido.
                  Quando evoluímos ainda continuamos a perceber o que está ao nosso redor, quase
sempre através do olhar introspectivo. Se a curiosidade é grande e não tem ninguém perto para nos
explicar, ou seja, depois da fase dos porquês, procuramos as interpretações nas revistas ou livros.
                  Quando entramos para a Faculdade, muitas coisas nos são desconhecidas.
Passamos a preferir as matérias mais práticas a aquelas mais teóricas, que nos fazem pensar mais.
Assim, passa a ser comum que em muitas das disciplinas temos as matérias teóricas e as práticas,
para que os alunos saiam com melhor nível de aprendizado.
                  Ao sairmos da Faculdade, já nos imaginamos conhecedores de tudo, ou quase
tudo. É aí que começam os problemas.
                  Este pequeno artigo, tratado de uma forma mais coloquial, nos conduz a uma
reflexão e ao mesmo tempo nos traz alguns alertas para que tenhamos o sucesso em nossas
profissões, empregando nossas percepções.
                  Podemos estar vendo uma construção e muitas vezes não estamos percebendo que
suas colunas estão desaprumadas. Podemos estar vendo uma experiência química e não estarmos
percebendo que a reação produzida poderá nos atingir. Podemos estar nos debruçando sobre um
projeto arquitetônico e não nos dar conta das necessidades de espaços da família.
Foto 1 – Arquivo pessoal de AFANP-2011
                  A foto 1 apresenta uma atividade em uma obra. Somente pela fotografia vê-se que
há três operários envolvidos na atividade a qual, presume-se, seja a da verticalização de uma forma
de pilar de concreto armado. Todos os três envolvidos na atividade estão com cintos de segurança.
Todavia, não se observa uma linha de vida onde os talabartes desses cintos estejam “atracados”, ou
seja, não se encontram protegidos contra o risco de queda. Também se vê que há um dos operários
correndo mais risco de queda do que os demais. Para um engenheiro/arquiteto que esteja iniciando
suas atividades, qual deverá ser a abordagem de proteger os trabalhadores sem, contudo, o assustá-
los, aumentando os riscos? Situação difícil essa, não é?
                  O risco deixa de existir, ou passa a ser mitigado, quando há planejamento da
atividade e no planejamento discutem-se as estratégias, proteções e riscos. É nessa fase, sem riscos,
que se discutem os riscos. Ë bom esclarecer que uma coisa é eliminar um risco – algo bem difícil –
outra, de mitigá-lo – quando são empregados meios que atenuam os efeitos dos mesmos,
principalmente sobre o ser humano. Mitigam-se riscos quando se fornece o EPI – equipamento de
proteção individual correto.
                  Não queremos apresentar um texto que retrate questões de segurança do trabalho,
mas sim, que envolve as percepções individuais como um fator importante para o sucesso
profissional.
Foto 2 – Arquivo pessoal de AFANP - 2010
                 Na fotografia 2, vê-se que há um trabalhador sobre um imóvel, demolindo parte
de uma parede. Percebe-se, contudo, que ele está com cinto de segurança e o talabarte do cinto está
preso atrás de si. Todavia, ele está manuseando uma marreta pesada e batendo contra a parede. Um
simples desequilíbrio pode fazer com que ele venha a baixo, mesmo com o cinto e sofra lesões.
                 Mais uma vez vem a questão: Como abordá-lo para que ele não se machuque? A
resposta pode estar no planejamento da atividade.




                           Foto 3 – Arquivo pessoal de AFANP - 1979
                 A foto 3 retrata um operário trabalhando na desfôrma de lingotes de aço, exposto
não só às elevadas temperaturas como também a outros riscos provocados pela excessiva
proximidade dos materiais, a mais de 350°C.
Mesmo considerando a época em que a fotografia foi tirada, a visão da
“percepção” é a mesma. A falta de um adequado planejamento, associada à cultura da empresa
podem ser um grande diferencial para o agravamento dos riscos.




                            Foto 4 – Arquivo pessoal de AFANP - 1985
                 A foto 4 representa uma situação bastante comum, a de trabalhadores passando
próximo a cargas içadas ou sob essas. Neste caso, peças que seriam incorporadas à Usina de Angra
II. Pela foto os riscos são muito claros, não só para quem observa a atividade, como também para
quem encontra-se exposto a ela. A questão da abordagem ainda é a mesma: como evitar que alguém
sofra lesões? Uma das respostas é a do planejamento das atividades.
                 A percepção é fruto da soma de experiências passadas e apreendidas,
conhecimento, discernimento, entre outros aspectos. Muitas vezes vai-se ao campo com o
encarregado de uma planta industrial e ele ao passar por um motor em funcionamento “percebe”
algo estranho. Esse algo é fruto de uma audição acurada para a percepção de defeitos, que
decodifica os ruídos.
                 Quando estávamos terminando o curso de engenharia civil, no início da década de
70, recebemos como missão analisar um projeto de escoramento metálico para a construção de uma
ponte ferroviária. Como já éramos graduado em física e matemática, pela atual Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (antiga Universidade do Estado da Guanabara), e estávamos concluindo
Engenharia Civil, não queríamos “dar o braço a torcer”, ainda mais para um desenhista projetista. O
que hoje podemos chamar de “cadista”, com capacidade de realizar projetos.
                 Pois bem, ficamos com aquelas pranchas sobre a mesa por uma semana, no início,
sem entender bem a que se referiam. Depois, sem entender o encadeamento entre elas, e por fim
sem saber o que analisar.
Depois de uma semana de sofrimento, pois era um projeto complexo, empregando
um tipo de estrutura denominado vigas Bailey, nossos conhecimentos na universidade já nos
propiciavam algum entendimento.
                  Quando o desenhista projetista, com 65 anos de idade e quase 50 de experiência
aproximou-se de nós, perguntou: “engenheiro”, o que está errado? Balbuciamos: Por enquanto não
vimos nada de errado. A estrutura está boa, os encaixes e apoios também e a seqüência de
montagem está OK. Ele sorriu e perguntou? O senhor conferiu se os parafusos de ligação dos
painéis suportam todo esse peso? Naquele momento relutamos a confessar. Por fim dissemos: não,
não verificamos. Ou seja, o principal item da estrutura de suportação não havia sido analisado. Seria
algo como o alpinista avaliar a qualidade da corda e não se preocupar com os nós.
                  Ele então se sentou ao nosso lado e juntos começamos a analisar os esforços
atuantes sobre os parafusos, pois havia o risco de cisalhamento da estrutura.
                  Não precisamos dizer que a conversa ficou só entre nós, e agora com vocês, mas,
naquele dia, entendemos que a primeira lição que um engenheiro tinha que ter era a da humildade,
pois seu conhecimento não era maior do que a experiência acumulada por muitos daqueles que
trabalhavam na mesma obra. Essa humildade era representada não só por permitir que outros
podessem ter mais conhecimento do que nós, assim como o de ouvir e aceitar o que nos diziam.
                  Seguindo sábias orientações (Pr: 9, 8-9) passamos a entender melhor o sentido
dessa humildade: não repreenda o zombador, porque ele odiará você. Repreenda o sábio, pois ele o
agradecerá. Dê conselhos ao sábio e ele se tornará mais sábio ainda. Dê instruções ao justo e ele
aprenderá ainda mais.
                  Muitas vezes o profissional recém graduado não tem condições de perceber aquele
que o ajudará a subir ou galgar espaços maiores e aquele que o ajudará a perder esses espaços.
                  Em empreendimentos muito grandes isso é muito comum. Assim, o melhor é
antes de tudo, familiarizar-se com a cultura e empreendimentos da empresa e como é composta sua
estrutura funcional.


A postura do Profissional


                  Quando dissemos que a percepção é fruto da soma de experiências passadas e
apreendidas, conhecimento, discernimento, etc., dizemos que a graduação fornece o conhecimento
necessário para a compreensão ou entendimento dos problemas.
                  As experiências passadas vêm com os estágios, leituras, discussões e aprendizado
com o que é dito ou escrito por profissionais experientes. O discernimento surge com o bom senso,
com a visão comparativa ou o equilíbrio de decisões. A humildade, é demonstrada com a certeza de
que, apesar de termos acumulado muito conhecimento, esse por si só ainda não é o suficiente.
                  Discernir parece ser algo fácil, já que depende de escolhas. Pode ser o certo ou o
errado, o direito ou esquerdo, o bom ou o mau. Mas, há o discernimento de que algo pode não estar
certo. Algumas vezes, o professor ao ser consultado pelo aluno a respeito de um exercício, olha o
raciocínio inicial e já diz: está errado. Será? A experiência dele já é suficiente para discernir que o
resultado não será o esperado.
                  E a humildade? Como se consegue?
                  É muito difícil tratar-se do tema, já que envolve sentimentos, como orgulho,
soberba, nível salarial, educação familiar, e outras causas. Em nossos anos de trabalho como
engenheiro ou coordenador de QSMS (qualidade, segurança, meio ambiente e saúde), verificamos
que muitos dos acidentes pessoais, ou envolvendo uma obra, encontra-se relacionada ao tratamento
e a forma de como o trabalhador é tratado. Em programas de auditoria comportamental nos anos de
2007 e 2008, com mais de 42.000 desvios apontados, em mais de 15% desses a causa básica
provinha da insatisfação do trabalhador com suas chefias.
                  O engenheiro recém graduado sente-se orgulhoso de haver galgado mais um
degrau em sua formação. Chega às obras bem intencionado, e com algum conhecimento para por
em prática. Todavia, ainda há uma longa caminhada para se chegar ao estágio de evolução
necessário.
                  Somente no ano passado, no município de Niterói estavam sendo construídos mais
de 80 empreendimentos, além daqueles em execução nos Campi da UFF. O COMPERJ será um dos
grandes sorvedouros de mão de obra especializada, com capacidade de absorver minimamente
3.000 engenheiros, direta e indiretamente, e um número pelo menos cinco vezes maior de técnicos
de todos os níveis. Na falta dessa mão de obra especializada, entendida como aquela onde o
trabalhador possui experiência profissional de 3 a 5 anos, muitos recém formados são postos na
“fogueira” tendo que exercitar seus conhecimentos de modo rápido.
                  É natural que muitos pequenos deslizes ocorram. Entretanto, temos que ter em
mente que o nosso sucesso ou fracasso depende mais de nós mesmos do que dos outros. Dizemos
que é a época em que ouvir é ouro e calar é prata.


A postura do Profissional, fiscal


                  Em excelente apresentação sobre a postura da fiscalização de construção e
montagem, elaborada pelos profissionais Carlos Manzano e Júlio Almeida, ambos da Petrobras,
neste ano, eles apresentam, em uma visão macro, como ressalte, a eficiência e eficácia, as
competências individuais, os desempenhos individuais e coletivos, ou seja, o trabalho harmonioso
com os colegas, a produtividade, postura e capacidade de liderança positiva.
                  Continuando, associam palavras chave: Eficiente com Prontidão, Efetividade com
Inovação, Eficácia com Resultados, Eficiência com Procedimentos.
                  De maneira bem simples eles nos dizem quais são as qualidades de um bom
profissional, qual seja: a de estar pronto a aprender, a de ter capacidade de inovar, a de ter objetivos
e metas associados a obtenção de resultados e a de conhecer e saber cumprir os procedimentos.
                  À reboque das necessidades da Petrobras vêm as necessidades das empresas que
trabalham em seus projetos. A relação entre pessoas envolvidas diretamente nos projetos e aqueles
que atuam para os projetos segue uma relação de 1:6 a 1:12, dependendo nos níveis de
especialização exigidos.
                  Nosso futuro profissional deve estar atento ao que o mercado espera dele. As
empresas nutrem expectativas de que as Universidades Públicas preparam melhor seus alunos do
que outras. Também avaliam seus candidatos abordando questões como trabalhos sociais, entre
outros. A visão da percepção, do nível de amadurecimento de tomar-se uma decisão, mesmo que
não seja a melhor, de saber conviver harmoniosamente com as equipes não são relevantes assim. As
universidades, antigamente, formavam engenheiros melhor preparados para as adversidades. Hoje
as universidades formam profissionais cada vez mais voltados para atividades específicas. Há
espaços para os profissionais generalistas e para os especialistas. Quem dirá se se enquadra melhor
em uma área ou em outra é o próprio profissional e sua capacidade de empreendimento e
aprendizado.

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A influência dos níveis de percepção de riscos na carreira profissional

  • 1. A influência dos níveis de percepção de riscos Prof. Antonio Fernando Navarro Introdução: Percepção é o ato ou o efeito de perceber-se algo. De acordo com os conceitos emitidos pelos dicionários, trata-se de uma reação a um estímulo exterior, que se manifesta por fenômenos químicos, neurológicos, e por diversos mecanismos psíquicos tendentes a adaptar esta reação a seu objeto, como a identificação do objeto percebido (ou seu reconhecimento), sua diferenciação por ligação aos outros objetos. Ou seja, muito da percepção é proveniente de experiências anteriores ou mesmo de memória genética, hoje plenamente comprovada com animais, onde o filho de um predador já nasce predador. O bebê, desde que nasce, começa a perceber o que está ao seu redor através do olhar, tato, sentido degustativo, pele, enfim, por uma própria sensibilidade não de todo explicada, bastante semelhante à sensibilidade e percepção da mãe para com seus filhos. Nessa fase, leva tudo à boca, pega tudo, olha tudo com medo ou admiração, assusta-se com o desconhecido. Quando evoluímos ainda continuamos a perceber o que está ao nosso redor, quase sempre através do olhar introspectivo. Se a curiosidade é grande e não tem ninguém perto para nos explicar, ou seja, depois da fase dos porquês, procuramos as interpretações nas revistas ou livros. Quando entramos para a Faculdade, muitas coisas nos são desconhecidas. Passamos a preferir as matérias mais práticas a aquelas mais teóricas, que nos fazem pensar mais. Assim, passa a ser comum que em muitas das disciplinas temos as matérias teóricas e as práticas, para que os alunos saiam com melhor nível de aprendizado. Ao sairmos da Faculdade, já nos imaginamos conhecedores de tudo, ou quase tudo. É aí que começam os problemas. Este pequeno artigo, tratado de uma forma mais coloquial, nos conduz a uma reflexão e ao mesmo tempo nos traz alguns alertas para que tenhamos o sucesso em nossas profissões, empregando nossas percepções. Podemos estar vendo uma construção e muitas vezes não estamos percebendo que suas colunas estão desaprumadas. Podemos estar vendo uma experiência química e não estarmos percebendo que a reação produzida poderá nos atingir. Podemos estar nos debruçando sobre um projeto arquitetônico e não nos dar conta das necessidades de espaços da família.
  • 2. Foto 1 – Arquivo pessoal de AFANP-2011 A foto 1 apresenta uma atividade em uma obra. Somente pela fotografia vê-se que há três operários envolvidos na atividade a qual, presume-se, seja a da verticalização de uma forma de pilar de concreto armado. Todos os três envolvidos na atividade estão com cintos de segurança. Todavia, não se observa uma linha de vida onde os talabartes desses cintos estejam “atracados”, ou seja, não se encontram protegidos contra o risco de queda. Também se vê que há um dos operários correndo mais risco de queda do que os demais. Para um engenheiro/arquiteto que esteja iniciando suas atividades, qual deverá ser a abordagem de proteger os trabalhadores sem, contudo, o assustá- los, aumentando os riscos? Situação difícil essa, não é? O risco deixa de existir, ou passa a ser mitigado, quando há planejamento da atividade e no planejamento discutem-se as estratégias, proteções e riscos. É nessa fase, sem riscos, que se discutem os riscos. Ë bom esclarecer que uma coisa é eliminar um risco – algo bem difícil – outra, de mitigá-lo – quando são empregados meios que atenuam os efeitos dos mesmos, principalmente sobre o ser humano. Mitigam-se riscos quando se fornece o EPI – equipamento de proteção individual correto. Não queremos apresentar um texto que retrate questões de segurança do trabalho, mas sim, que envolve as percepções individuais como um fator importante para o sucesso profissional.
  • 3. Foto 2 – Arquivo pessoal de AFANP - 2010 Na fotografia 2, vê-se que há um trabalhador sobre um imóvel, demolindo parte de uma parede. Percebe-se, contudo, que ele está com cinto de segurança e o talabarte do cinto está preso atrás de si. Todavia, ele está manuseando uma marreta pesada e batendo contra a parede. Um simples desequilíbrio pode fazer com que ele venha a baixo, mesmo com o cinto e sofra lesões. Mais uma vez vem a questão: Como abordá-lo para que ele não se machuque? A resposta pode estar no planejamento da atividade. Foto 3 – Arquivo pessoal de AFANP - 1979 A foto 3 retrata um operário trabalhando na desfôrma de lingotes de aço, exposto não só às elevadas temperaturas como também a outros riscos provocados pela excessiva proximidade dos materiais, a mais de 350°C.
  • 4. Mesmo considerando a época em que a fotografia foi tirada, a visão da “percepção” é a mesma. A falta de um adequado planejamento, associada à cultura da empresa podem ser um grande diferencial para o agravamento dos riscos. Foto 4 – Arquivo pessoal de AFANP - 1985 A foto 4 representa uma situação bastante comum, a de trabalhadores passando próximo a cargas içadas ou sob essas. Neste caso, peças que seriam incorporadas à Usina de Angra II. Pela foto os riscos são muito claros, não só para quem observa a atividade, como também para quem encontra-se exposto a ela. A questão da abordagem ainda é a mesma: como evitar que alguém sofra lesões? Uma das respostas é a do planejamento das atividades. A percepção é fruto da soma de experiências passadas e apreendidas, conhecimento, discernimento, entre outros aspectos. Muitas vezes vai-se ao campo com o encarregado de uma planta industrial e ele ao passar por um motor em funcionamento “percebe” algo estranho. Esse algo é fruto de uma audição acurada para a percepção de defeitos, que decodifica os ruídos. Quando estávamos terminando o curso de engenharia civil, no início da década de 70, recebemos como missão analisar um projeto de escoramento metálico para a construção de uma ponte ferroviária. Como já éramos graduado em física e matemática, pela atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (antiga Universidade do Estado da Guanabara), e estávamos concluindo Engenharia Civil, não queríamos “dar o braço a torcer”, ainda mais para um desenhista projetista. O que hoje podemos chamar de “cadista”, com capacidade de realizar projetos. Pois bem, ficamos com aquelas pranchas sobre a mesa por uma semana, no início, sem entender bem a que se referiam. Depois, sem entender o encadeamento entre elas, e por fim sem saber o que analisar.
  • 5. Depois de uma semana de sofrimento, pois era um projeto complexo, empregando um tipo de estrutura denominado vigas Bailey, nossos conhecimentos na universidade já nos propiciavam algum entendimento. Quando o desenhista projetista, com 65 anos de idade e quase 50 de experiência aproximou-se de nós, perguntou: “engenheiro”, o que está errado? Balbuciamos: Por enquanto não vimos nada de errado. A estrutura está boa, os encaixes e apoios também e a seqüência de montagem está OK. Ele sorriu e perguntou? O senhor conferiu se os parafusos de ligação dos painéis suportam todo esse peso? Naquele momento relutamos a confessar. Por fim dissemos: não, não verificamos. Ou seja, o principal item da estrutura de suportação não havia sido analisado. Seria algo como o alpinista avaliar a qualidade da corda e não se preocupar com os nós. Ele então se sentou ao nosso lado e juntos começamos a analisar os esforços atuantes sobre os parafusos, pois havia o risco de cisalhamento da estrutura. Não precisamos dizer que a conversa ficou só entre nós, e agora com vocês, mas, naquele dia, entendemos que a primeira lição que um engenheiro tinha que ter era a da humildade, pois seu conhecimento não era maior do que a experiência acumulada por muitos daqueles que trabalhavam na mesma obra. Essa humildade era representada não só por permitir que outros podessem ter mais conhecimento do que nós, assim como o de ouvir e aceitar o que nos diziam. Seguindo sábias orientações (Pr: 9, 8-9) passamos a entender melhor o sentido dessa humildade: não repreenda o zombador, porque ele odiará você. Repreenda o sábio, pois ele o agradecerá. Dê conselhos ao sábio e ele se tornará mais sábio ainda. Dê instruções ao justo e ele aprenderá ainda mais. Muitas vezes o profissional recém graduado não tem condições de perceber aquele que o ajudará a subir ou galgar espaços maiores e aquele que o ajudará a perder esses espaços. Em empreendimentos muito grandes isso é muito comum. Assim, o melhor é antes de tudo, familiarizar-se com a cultura e empreendimentos da empresa e como é composta sua estrutura funcional. A postura do Profissional Quando dissemos que a percepção é fruto da soma de experiências passadas e apreendidas, conhecimento, discernimento, etc., dizemos que a graduação fornece o conhecimento necessário para a compreensão ou entendimento dos problemas. As experiências passadas vêm com os estágios, leituras, discussões e aprendizado com o que é dito ou escrito por profissionais experientes. O discernimento surge com o bom senso,
  • 6. com a visão comparativa ou o equilíbrio de decisões. A humildade, é demonstrada com a certeza de que, apesar de termos acumulado muito conhecimento, esse por si só ainda não é o suficiente. Discernir parece ser algo fácil, já que depende de escolhas. Pode ser o certo ou o errado, o direito ou esquerdo, o bom ou o mau. Mas, há o discernimento de que algo pode não estar certo. Algumas vezes, o professor ao ser consultado pelo aluno a respeito de um exercício, olha o raciocínio inicial e já diz: está errado. Será? A experiência dele já é suficiente para discernir que o resultado não será o esperado. E a humildade? Como se consegue? É muito difícil tratar-se do tema, já que envolve sentimentos, como orgulho, soberba, nível salarial, educação familiar, e outras causas. Em nossos anos de trabalho como engenheiro ou coordenador de QSMS (qualidade, segurança, meio ambiente e saúde), verificamos que muitos dos acidentes pessoais, ou envolvendo uma obra, encontra-se relacionada ao tratamento e a forma de como o trabalhador é tratado. Em programas de auditoria comportamental nos anos de 2007 e 2008, com mais de 42.000 desvios apontados, em mais de 15% desses a causa básica provinha da insatisfação do trabalhador com suas chefias. O engenheiro recém graduado sente-se orgulhoso de haver galgado mais um degrau em sua formação. Chega às obras bem intencionado, e com algum conhecimento para por em prática. Todavia, ainda há uma longa caminhada para se chegar ao estágio de evolução necessário. Somente no ano passado, no município de Niterói estavam sendo construídos mais de 80 empreendimentos, além daqueles em execução nos Campi da UFF. O COMPERJ será um dos grandes sorvedouros de mão de obra especializada, com capacidade de absorver minimamente 3.000 engenheiros, direta e indiretamente, e um número pelo menos cinco vezes maior de técnicos de todos os níveis. Na falta dessa mão de obra especializada, entendida como aquela onde o trabalhador possui experiência profissional de 3 a 5 anos, muitos recém formados são postos na “fogueira” tendo que exercitar seus conhecimentos de modo rápido. É natural que muitos pequenos deslizes ocorram. Entretanto, temos que ter em mente que o nosso sucesso ou fracasso depende mais de nós mesmos do que dos outros. Dizemos que é a época em que ouvir é ouro e calar é prata. A postura do Profissional, fiscal Em excelente apresentação sobre a postura da fiscalização de construção e montagem, elaborada pelos profissionais Carlos Manzano e Júlio Almeida, ambos da Petrobras, neste ano, eles apresentam, em uma visão macro, como ressalte, a eficiência e eficácia, as
  • 7. competências individuais, os desempenhos individuais e coletivos, ou seja, o trabalho harmonioso com os colegas, a produtividade, postura e capacidade de liderança positiva. Continuando, associam palavras chave: Eficiente com Prontidão, Efetividade com Inovação, Eficácia com Resultados, Eficiência com Procedimentos. De maneira bem simples eles nos dizem quais são as qualidades de um bom profissional, qual seja: a de estar pronto a aprender, a de ter capacidade de inovar, a de ter objetivos e metas associados a obtenção de resultados e a de conhecer e saber cumprir os procedimentos. À reboque das necessidades da Petrobras vêm as necessidades das empresas que trabalham em seus projetos. A relação entre pessoas envolvidas diretamente nos projetos e aqueles que atuam para os projetos segue uma relação de 1:6 a 1:12, dependendo nos níveis de especialização exigidos. Nosso futuro profissional deve estar atento ao que o mercado espera dele. As empresas nutrem expectativas de que as Universidades Públicas preparam melhor seus alunos do que outras. Também avaliam seus candidatos abordando questões como trabalhos sociais, entre outros. A visão da percepção, do nível de amadurecimento de tomar-se uma decisão, mesmo que não seja a melhor, de saber conviver harmoniosamente com as equipes não são relevantes assim. As universidades, antigamente, formavam engenheiros melhor preparados para as adversidades. Hoje as universidades formam profissionais cada vez mais voltados para atividades específicas. Há espaços para os profissionais generalistas e para os especialistas. Quem dirá se se enquadra melhor em uma área ou em outra é o próprio profissional e sua capacidade de empreendimento e aprendizado.