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FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ
 Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94
       CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM
             CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
         Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho




        BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS
             DA EDUCAÇÃO FÍSICA




              QUIXERAMOBIM – CEARÁ
                ABRIL E MAIO – 2011
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            FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ
             Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94
                   CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM
                         CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA
                     Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho


                                        EMENTA DA DISCIPLINA


      Professor: Antônio Martins de Almeida Filho
      Disciplina: BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA
      Campus Avançado de Quixeramobim
      Período de oferta: abril e maio de 2011
      Turma - 260130

              DISCIPLINA                   CARGA            CRÉDITOS          PRÉ-REQUISITO
                                          HORÁRIA
BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS                      60                  04                        -
  DA EDUCAÇÃO FÍSICA

Professor: Antônio Martins de Almeida Filho

Ementa
Discussão das condições históricas e das grandes correntes do pensamento social que tornaram
possível o surgimento da Sociologia como ciência. Debate das polêmicas que constituem o campo de
reflexão desta Unidade Educacional (objeto e método). Visão geral e crítica das grandes correntes
sociológicas e de seus respectivos conceitos, relacionando-as com o mundo de trabalho, a sociedade,
o ser humano e a cultura corporal enquanto objeto de estudo da Educação Física.

Objetivos

1 GERAL:
Consolidar um “quadro histórico-epistemológico” sobre a “atividade física/Educação Física” no Brasil
que possibilite sínteses provisórias sobre a gênese da Educação Física, o que ela vem sendo e
perspectivas futuras, tendo como referência o “olhar” sobre seu objeto de estudo.

2 ESPECÍFICOS:
   • Promover a reflexão histórica das bases sócio-filosóficas da atividade física.
   • Analisar as principais correntes das ciências sociais: Positivismo, Historicismo e Materialismo
      Histórico-dialético.
   • Promover o estudo das bases da Educação Física enquanto campo acadêmico.
   • Realizar a análise do(s) objeto(s) de estudo que se propõem singularizar a Educação Física
      enquanto campo acadêmico.
   • Promover a reflexão e investigação de como se constrói a identidade da Educação Física da
      região.
3



Conteúdo Programático

        Positivismo, Historicismo e o Materialismo Histórico-dialético.
        Bases sócio-filosóficas da atividade física.
        A crise de identidade da Educação Física em sua função social – década de 1980.
        A transformação da crise de identidade da Educação Física em sua função social para a crise
        de identidade epistemológica – década de 1990.
        Perspectivas de campos acadêmicos na Educação Física.


Metodologia

A unidade pedagógica terá 30 h/a professor presencial e 15 h/a de atividades com orientação. A
primeira terá caráter de produção teórica-reflexiva utilizando-se de procedimentos metodológicos tais
como exposições dialogadas, estudos dirigidos, discussões a partir de estudos teóricos, reflexões
acerca da prática pedagógica, leituras individuais e em grupos, debates, produções escritas. O
segundo terá caráter de investigação prática e se utilizando-se de procedimentos metodológicos tais
como relatórios, entrevistas e investigação de problemáticas. Ao término da unidade ocorrerá o festival
da docência onde os grupos apresentarão a consolidação do conhecimento construído na unidade.

Recursos

Data show, retroprojetor, transparências, textos, painéis, quadro, pincéis, apagador e giz.


Avaliação

A avaliação será construída através das observações realizadas durante as aulas consolidadas em um
memorial da unidade construído pelo professor considerando-se a participação, a evolução da
aprendizagem, a responsabilidade e o compromisso do aluno. A cada unidade haverá uma
consolidação de notas individuais que inclui auto avaliação, produção textual individual, docência em
grupo ou individual sobre o conteúdo.


Bibliografia

_____________. A construção do campo acadêmico “Educação Física” no período de 1960 até nossos
dias: onde ficou a Educação Física?, in: Anais do IV Encontro Nacional de História do Esporte, Lazer e
Educação Física. Belo Horizonte, MG, 22 a 26 de outubro de 1996.

_____________. Educação Física & Ciência: cenas de um casamento (in) feliz. Ijuí, Unijuí, 1999.

ALEXANDRE, Júlio César da Costa. Epistemologia e Educação Física: significado e importância
(artigo).

BOTTOMORE. Introdução à Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1977.

BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto alegre, Magister, 1992.
4




CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª. Edição. Editora Ática. São Paulo – SP, 2004.

COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à Ciência da Sociedade. 2ª. Edição. Editora Moderna . São
Paulo – SP, 2002.

CRISÓRIO, Ricardo & Valter Bracht (coords.). A Educação Física no Brasil e na Argentina: Identidade,
Desafios e Perspectivas. Campinas, SP, Autores Associados, 2003.

HELAL, Ronald. O que é Sociologia do Esporte, São Paulo, Editora Brasiliense, 1990.

HOKHEIMER, Max e Adorno, Theodor (Org.). Temas Básicos da Sociologia. São Paulo, Cultrix, 1977.

LAPLANTINE, François. O Campo e a Abordagem Antropológica, In: Laplantine, F. Aprender
Antropologia (1987). São Paulo, Brasiliense, 1988.

LARAIA, Roque de Barros. Como opera a cultura, In: Laraia, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito
Antropológico. Rio de Janeiro, Zahar, 1986.

LÁZARO, André. Metamorfoses do Corpo, In: Lázaro, André. Amor do Mito ao Mercado. São Paulo,
Vozes, 1997.

LIMA, Homero Luis Alves de. Tendências Epistemológicas em torno do “movimento humano” e suas
implicações para o campo acadêmico da Educação Física. (artigo).

LINO, Castellani, Filho. Educação Física Escolar: temos o que ensinar? Ou considerações acerca do
conhecimento (re) conhecido pela Educação Física Escolar, in: Política Educacional e Educação Física.
Campinas, SP, Autores Associados, 1998.

LOWY, Michael. Ideologia e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista. São PAULO.
Cortez, 1985.

PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Rio de Janeiro, Ed. Cortez, Autores Associados, 1989.
5



        UNIDADE I

        POSITIVISMO, HISTORICISMO E O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO

        TEXTO 01


        1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE POSITIVISMO




                                              AUGUSTO COMTE

        Positivismo é um conceito utópico que possui distintos significados, englobando tanto
perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, com
Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da
palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muito deles opostos ou contraditórios
entre si. Nesse sentido, há correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem
guardar nenhuma relação com a obra de Comte. Exemplos paradigmáticos disso são o Positivismo
Jurídico, do austríaco Hans Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap,
Otto Neurath e seus associados.

        Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como
desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do
nascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa
(1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos,
afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história).
Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a
uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte.

        1.1 Método do Positivismo de Augusto Comte

         O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos,
opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, através da promoção do primado da experiência sensível,
única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepção
positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação e à observação,
tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer
possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de
pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes
entre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores (1855), Comte definiu a
palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático.

       O Positivismo defende a idéia de que o conhecimento científico é a única forma de
conhecimento verdadeiro. Assim sendo, desconsideram-se todas as outras formas do conhecimento
humano que não possam ser comprovadas cientificamente. Tudo aquilo que não puder ser provado
6



pela ciência é considerado como pertencente ao domínio teológico-metafísico caracterizado por
crendices e vãs superstições. Para os Positivistas o progresso da humanidade depende única e
exclusivamente dos avanços científicos, único meio capaz de transformar a sociedade e o planeta
Terra no paraíso que as gerações anteriores colocavam no mundo além-túmulo.

        O Positivismo é uma reação radical ao Transcendentalismo idealista alemão e ao Romantismo,
no qual os afetos das individuais, coletivos e a subjetividade são completamente ignoradas, limitando a
experiência humana ao mundo sensível e ao conhecimento aos fatos observáveis. Substitui-se a
Teologia e a Metafísica pelo Culto à Ciência, o Mundo Espiritual pelo Mundo Humano, o Espírito pela
Matéria, a fé pela razão.

         A idéia-chave do Positivismo Comtiano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o
homem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suas
idéias e a realidade, quais sejam:

    1. Teológico: o ser humano explica a realidade apelando para entidades supranaturais (os
       deuses"), buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?";
       além disso, busca-se o absoluto;

    2. Metafísico: é uma espécie de meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos
       deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado
       financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para
       onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas. é o meio
       termo entre teológico e metafísico.

    3. Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como",
       através da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão
       ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo
       observável e concreto.

         Na obra "Discurso sobre o espírito positivo" (1848), Comte explicitou que o espírito positivo é
maior e mais importante que a mera cientificidade, na medida em que esta abrange apenas questões
intelectuais e aquele compreende, além da inteligência, também os sentimentos (ou, em termos
contemporâneos, a subjetividade em sentido amplo) e as ações práticas.

         Auguste Comte - através da obra Sistema de Política Positiva (1851-1854) - institui a Religião
da Humanidade. Após a elaboração de sua filosofia, Comte concluiu que deveria criar uma nova
religião: afinal, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeira
religião : a religião positiva. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural,
pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento de
uma nova Religião que apresenta um novo conceito do Ser Supremo, a Religião da Humanidade.
Comte foi profundamente influenciado a tal pela figura de sua amada Clotilde de Vaux.

        Segundo os Positivistas, a Teologia e a Metafísica, nunca inspiraram uma religião
verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo.
Estabelecendo a unidade espiritual através da ciência, a Religião da Humanidade possui como
principal objetivo a Regeneração Social e Moral.
7



        Assim como o catolicismo está fundamentado na filosofia escolástica de São Tomás de Aquino,
a Religião da Humanidade está fundamentada na filosofia positivista de Auguste Comte.

       A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade Personificada, tida como
Deusa pelos positivistas. Ela representa o conjunto de seres convergente de todas as gerações,
passadas, presentes e futuras que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para o
desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.

         A Ciência Clássica se constitui no dogma da Religião da Humanidade. Também existem
templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade (chamada Grão-Ser pelos
positivistas). A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes
litúrgicas, dias de santos (grandes tipos humanos), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso de
um calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário lunar composto por 13 meses de 28
dias).

        O lema da religião positivista é : "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por
fim". Seu regime é: "Viver às Claras" e "Viver para Outrem".

         Auguste Comte foi o criador da palavra "altruísmo", palavra que segundo o fundador, resume o
ideal de sua Nova Religião. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Positivismo Acesso em 18 de
abril de 2011.


       TEXTO 02

       1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE HISTORICISMO




                                            ERNST TROELTSCH

           Historicismo (ou ainda historismo) designa, em termos gerais, uma forma de abordagem dos
fenômenos e das culturas humanas. De acordo com Ernst Troeltsch, o termo remete a uma
"Historicização fundamental de todo o pensamento acerca dos seres humanos, sua cultura e seus
valores". O Historicismo constitui, assim, a base de uma visão de mundo tipicamente moderna e
ocidental. Esta fundamenta-se na noção de que as configurações do mundo humano, num dado
momento presente, sempre são o resultado de processos históricos de formação, os quais são
passíveis de ser mentalmente reconstruídos e, portanto, compreendidos.

        A perspectiva historicista surgiu no espaço acadêmico da Europa ocidental na segunda metade
do século XVIII. Ao longo do século XIX e até as primeiras décadas do século XX, o Historicismo
obteve um forte impacto social, sobretudo na Alemanha.
8



         O posicionamento historicista proposto por Hegel sugere que não há um critério objetivo para
determinar a melhor teoria de análise de um determinado objeto de estudo. De acordo com esse viés, a
ciência, filosofia ou quaisquer outras disciplinas, estão fadadas à sua historicidade.

         Desde a década de 1990, alguns pensadores pós-modernos têm utilizado o termo Historicismo
para descrever a visão de uma verdade absoluta, principalmente sobre questões filosóficas que
persistiram ao longo dos séculos.

         O termo "novo Historicismo" é também empregado para a vertente do pensamento literário que
interpreta os poemas, as peças de teatro e as demais produção desta área como a expressão de
super-estruturas da sociedade. Stephen Greenblatt é o nome mais proeminente desse pensamento.
Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Historicismo. Acesso em 18 de abril de 2011.



        TEXTO 03

        1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE MATERIALISMO HISTÓRICO-
           DIALÉTICO




                                                       KARL MARX

         No século XIX, houve a efetivação da sociedade burguesa e a implantação do capitalismo
industrial, que trouxe a implantação de um novo modelo de sociedade, que desde o seu surgimento já
é criticada pelas suas contradições internas e principalmente pelas desigualdades sociais que traz
consigo. Na linha destas críticas e do estudo da sociedade capitalista destacam-se dois pensadores:
Karl Marx e Friedrich Engels. Ambos elaboram uma nova concepção filosófica do mundo, o
“materialismo histórico e dialético”, e ao fazerem a crítica da sociedade em que vivem, apresentam
propostas para sua transformação: o socialismo científico. Seu método de explicação da sociedade,
aplicado à história é o “materialismo histórico e dialético”.

        3.1 O que afirma o Materialismo?

        “As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças
produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam
todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor,
a sociedade com o capitalismo industrial.” Afirma que o modo pelo qual a produção material de uma
sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações
9



intelectuais de uma época. Assim, a base material ou econômica constitui a "infra-estrutura" da
sociedade, que exerce influência direta na "super-estrutura", ou seja, nas instituições jurídicas, políticas
(as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. Segundo Marx, a base material
é formada por forças produtivas (que são as ferramentas, as máquinas, as técnicas, tudo aquilo que
permite a produção) e por relações de produção (relações entre os que são proprietários dos meios de
produção, as terras, as matérias primas, as máquinas e aqueles que possuem apenas a força de
trabalho.

        3.2 O que afirma a Dialética?

         A dialética marxista postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade. A
dialética não é só pensamento: é pensamento e realidade a um só tempo. Mas, a matéria e seu
conteúdo histórico ditam a dialética do marxismo: a realidade é contraditória com o pensamento
dialético. A contradição dialética não é apenas contradição externa, mas unidade das contradições,
identidade: "a dialética é ciência que mostra como as contradições podem ser concretamente idênticas,
como passam uma na outra, mostrando também porque a razão não deve tomar essas contradições
como coisas mortas, petrificadas, mas como coisas vivas, móveis, lutando uma contra a outra em e
através de sua luta." (Henri Lefebvre, Lógica formal/ Lógica dialética, trad. Carlos N. Coutinho, 1979, p.
192). Os momentos contraditórios são situados na história com sua parcela de verdade, mas também
de erro; não se misturam, mas o conteúdo, considerado como unilateral é recaptado e elevado a nível
superior.

          A dinâmica HIPÓTESE+DESENVOLVIMENTO+TESE+ANTITESE+DIALÉTICA=SÍNTESE, que
expressa a contundência deste ensinamento, afirmando que tudo é fruto da luta de idéias e forças, que
na sua oposição geram a realidade concreta, que uma vez sendo síntese da disputa, torna-se
novamente tese, que já carrega consigo o seu oposto da sua antítese, que numa nova luta de um ciclo
infinito gerará o novo. A nova síntese. A hipótese fundamental da dialética é de que não existe nada
eterno, fixo, pois tudo está em perpétua transformação, em movimento, tudo está sujeito ao contexto
histórico do dinâmico e da transformação. Outro elemento é a idéia de totalidade, a percepção da
realidade social como um todo que está relacionado entre si. Há também as contradições internas da
realidade, em relação ao valor e não valor, lucro ou não lucro, a mais valia, por exemplos, dentro da
Produção, seja essa positiva ou negativa.

         Marx utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história da
humanidade através dos tempos. Ao estudar determinado fato histórico, ele procurava seus elementos
contraditórios, buscando encontrar aquele elemento responsável pela sua transformação num novo
fato, dando continuidade ao processo histórico. No Prefácio do livro "Contribuição à crítica da economia
política", Marx identificou na História, de maneira geral, os seguintes estágios de desenvolvimento das
forças produtivas, ou modos de produção: comunismo primitivo, o asiático, o escravista (da Grécia e de
Roma), o feudal e o burguês. Ou seja, dividiu a história em períodos conforme a organização do
trabalho humano e quem se beneficiasse dele.

         Marx desenvolveu uma concepção materialista da História, afirmando que o modo pelo qual a
produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política
e das representações intelectuais de uma época. Se a realidade não é estática, mas dialética e está em
transformação pelas suas contradições internas. Assim, a base material ou econômica constitui a
"infra-estrutura" da sociedade, que exerce influência direta na "superestrutura", ou seja, nas instituições
jurídicas, políticas (as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. No processo
histórico, essas contradições são geradas pelas lutas entre as diferentes classes sociais. Ao chamar a
10



atenção para a sociedade como um todo, para sua organização em classes, para o condicionamento
dos indivíduos à classe a que pertencem, esses autores também exercem uma influência decisiva nas
formas posteriores de se escrever a história. A evolução de um modo de produção para o outro ocorreu
a partir do desenvolvimento das forças produtivas e da luta entre as classes sociais predominantes em
cada período. Assim, o movimento da História possui uma base material, econômica e obedece a um
movimento dialético. E conforme muda esta relação, mudam-se por conseguinte as leis, a cultura, a
literatura, a educação, as artes...

          Propõem uma disputa que não mais seja baseada em coletividade, mas sim nos indivíduos e
nos interesses que têm. Bem como a relação destas faz gerar de forma dialética a destruição dos
atuais modelos de sociedade, de produção, de pensamento, e de poder econômico e político. Fazer-
nos pensar em como estas relações fazem com que pequenos homens possam ser considerados
grandes objetos da história, ao invés de se tornarem meros seres alienados e guiados pelas
consciências                 dominantes            contrário.          Disponível             em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Materialismo_dial%C3%A9tico#O_que_afirma_o_Materialismo.3F. Acesso
em 17 de abril de 2011.
11



        UNIDADE II

        TEXTO 01

        1. INTRODUÇÃO ÀS BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA

        1.1 Educação? Educações?

        Seja bem-vindo(a) à disciplina Bases Sócio-Filosóficas da Educação Física. Esta disciplina
integra a base curricular e teórica do Curso de Habilitação em Educação Física da universidade
Estadual Vale do Acaraú – UVA, através do Instituto Dom José de Educação e Cultura, Campus
Avançado da Cidade de Quixeramobim – Ceará.

         Esta apostila elaborada pelo professor Antônio Martins de Almeida Filho compreenderá uma
série de reflexões em torno de questionamentos acerca da educação universal e principalmente da
educação brasileira. Abordará conteúdos relevantes pra a formação profissional e, ao mesmo tempo,
será ponte para o estudo de outras disciplinas contidas no currículo acadêmico, em especial para a
formação dos novos educadores físicos e áreas afins, propiciando uma ampla compreensão,
preparação humana e acadêmica dos futuros profissionais integrantes desta Universidade.
Identificaremos e analisaremos os fundamentos teóricos, históricos, sociais, filosóficos e as políticas
publicas voltada para a educação, com foco na educação física escolar.

        Alguns de vocês já são professores, educadores físicos e outros estão se preparando para
isso. Todos juntos vão construir e reconstruir conceitos, atitudes, habilidades e valores imprescindíveis
à atuação como profissionais de educação, conscientes de seu papel pedagógico, político e social.

        Diante das considerações anteriores vamos iniciar o aprofundamento dos conteúdos
programáticos propostos para esta disciplina.
        Aprender e ensinar - Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma
coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre. (PAULO FREIRE. Pedagogia
da Autonomia. P. 34. 1998).

        Segundo Ghiraldelli Jr. (2003, p. 1), “a palavra educação foi derivada, de duas palavras do
latim: educere, que significa “conduzir de fora”, “dirigir exteriormente”, e educare que significa
“sustentar, alimentar, criar”.

        Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, todos nós envolvemos
pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazer
ou para conviver com uma ou com várias: Educação? Educações?

       Presente em todos os espaços, de diferentes formas, nos diferentes contextos, a educação
invade nossas vidas. Nessa perspectiva, sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre
educação. Assim, iniciamos nossa reflexão com o que alguns índios, certa vez, escreveram:

        Há muitos anos, nos Estados Unidos, os estados da Virgínia e Maryland assinaram um tratado
de paz com os índios das Seis Nações. Sabendo que as promessas e os símbolos da educação
sempre foram muito adequados em momentos solenes como aquele, logo depois dos termos do
tratado serem assinados, os governantes americanos mandaram cartas aos índios convidando-os para
12



que enviassem alguns dos seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes indígenas responderam
agradecendo e recusando. Veja, abaixo, alguns trechos da justificativa.

                          ... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e
                          agradecemos de todo o coração. Mas daqueles que são sábios reconhecem que diferentes
                          nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão
                          ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa.

                          ... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formandos nas escolas do Norte e aprenderam
                          toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores,
                          ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como
                          caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal.
                          Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou
                          como conselheiros.

                          Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la,
                          para mostrar a nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores que nos enviem alguns dos
                          seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles,
                          homens.(BRANDÃO, 1998, p.18-19)

       Essa carta acabou conhecida porque, alguns anos mais tarde, Benjamim Franklin adotou o
costume de divulgá-la. A carta dos índios que vocês acabaram de ler apresenta algumas das questões
importantes que vêm sendo objeto de estudo, reflexão e discussão de pesquisadores/as e
educadores/as.

         Benjamin Franklin (1706-1790) Franklin tornou-se o primeiro Postmaster General (ministro
dos correios) dos Estados Unidos da América. Foi um jornalista, editor, autor, filantropo, abolicionista,
funcionário público, cientista, diplomata e inventor estadunidense, que foi também um dos líderes da
Revolução Americana, e é muito conhecido pelas suas muitas citações e pelas experiências com a
eletricidade. Um homem religioso, calvinista, é ao mesmo tempo uma figura representativa do
Iluminismo.


        1.2 Será que há uma forma única, um único modelo de educação?

        Acreditamos que não. Aprende-se e ensina-se em todos os lugares. Nesse sentido, a escola
não é o único espaço educacional; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor não é o
único praticante.

        Parafraseando (MCLUHAN, 1964), estamos vendo que chegará o dia – e talvez este já seja
uma realidade – em que nossas crianças aprenderão muito mais e com maior rapidez em contato com
o mundo exterior do que no recinto da escola. Isso nós já podemos observar no cotidiano. Uma vez que
já assistimos a jovens e adultos que nos perguntam: Por que retornar à escola e deter minha
educação? Este questionamento é feito por jovens que interrompem prematuramente seus estudos.
Parece uma pergunta arrogante, mas como nos diz o autor acerta no alvo: o meio urbano poderoso
explode de energia e de uma massa de informações diversas, insistentes, irreversíveis.

         A Educação, entendida como construção coletiva de produção do conhecimento, da ação
social, busca intencional de sentidos e significados, diálogo e interação, perpassa todas as práticas
sociais.
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        Em casa, na rua, na igreja, no sindicato, no clube, de um modo ou de muitos, todos nós
envolvemos pedaços da vida com ela: para fazer, para saber, para ensinar, para ser ou conviver. Mas a
educação (o processo educativo) carece de definições quanto às suas finalidades e caminhos usados
na sua concretização, conforme as opções que se façam quanto ao tipo de homem/mulher – ser que se
quer formar, que tipo de sociedade se deseja e se quer construir.

         Nesse sentido, a educação, conceitualmente e na prática, passa a sofrer as diversas
influências das diferentes forças sociais e políticas que a percebem como objeto de poder e das
Ideologias. Passa então a ser um instrumento fundamental no campo das disputas políticas e das
intenções ideológicas.

       Ideologia - De acordo com os escritos de Karl Marx, é aquele sistema ordenado de normas e
de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se
segundo as vontades “do sistema”, mas como se estivessem se comportando segundo a sua própria
vontade. Ou seja, o homem está sendo manobrado e explorado e na se percebe como tal, aceita
passivamente sem nenhum questionamento.

        1.3 E por que essa disputa ideológica e sócio-política acontece?

         Porque, quando homens e mulheres têm acesso à educação, a um “tipo” de educação e ao
conhecimento podem desvendar os motivos das desigualdades. Bem informados, podemos reivindicar
e exigir nossos direitos em todos os espaços sociais: na família, na escola, no mercado, no ônibus, nos
serviços de saúde. Enfim, em todos os espaços sociais nos quais estamos inseridos.

         Podemos ainda mais, quando qualificarmos melhor nossa participação nos espaços sociais de
decisão: conselhos escolares, associação de moradores, sindicatos, partidos políticos, igreja etc. A
socialização deste conhecimento e deste saber não interessa à classe dirigente que nós tenhamos
acesso. Isso pode se tornar perigoso, libertar o homem de sua própria consciência é dá-lo ferramentas
para que ele venha a ser ativo e participativo. Esse conhecimento não interessa a todos, afinal, quando
não sabemos, podemos ser manipulados. O saber liberta o homem da ignorância e uma vez liberto
desta ignorância o homem é levado a questionar, a participar, a reivindicar. É esse entendimento que
vamos aprofundar ao longo da leitura dos diferentes conceitos e do contexto histórico em que foram
elaborados.

         As diferentes concepções e teorias, ao longo da história, têm focado a Educação com ênfase,
ora no conhecimento, ora nos métodos de ensino, ora no aluno, ora no educador, ora em ambos.
Essas diferentes formas de “pensar” trouxeram e trazem conseqüências diversas em cada momento
histórico, para os grupos hegemônicos de cada sociedade e todas se revestem de uma
intencionalidade, de objetivos, que exercem forte influência sobre nosso jeito de fazer Educação e no
modo como nos organizamos socialmente.

        Você perceberá que o Conceito de Educação não é consenso, ao contrário, abrange uma
diversidade significativa de concepções e correntes de pensamento, que estão relacionadas
diretamente ao período histórico, ao movimento social, econômico, cultural, político nacional e
internacional.

       Quer conhecer o que alguns pensadores e educadores dizem sobre o que é educação e qual o
seu papel social, político e cultural?
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       Então preste atenção às idéias, que lhe apresentaremos logo a seguir, que foram ou são
fundamentos para as práticas pedagógicas, que veremos mais profundamente em outros trechos do
nosso percurso.

         Vamos iniciar conhecendo o pensamento de Émile Durkheim, para quem a Educação é
essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Educação é
socialização! É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. E, afirma que
existem certos costumes, regras que precisam e devem ser obrigatoriamente transmitido no processo
educacional, gostemos ou não deles.

        Émile Durkheim (1858 - 1917), sociólogo francês, positivista, viveu em um rico e conturbado
momento histórico: de um lado, a Revolução Francesa, e de outro, a Revolução Industrial. “Bebeu” na
fonte do pensamento de Auguste Comte (1798 - 1857), pai do Positivismo e filho do Iluminismo que
enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Para Durkheim, a tarefa da
educação era buscar “soluções” para a crise da burguesia do final de século XIX, que lutava para
continuar como detentora do poder político e econômico.

        Seu pensamento refletia diferentes “educações”. Cada casta, classes ou grupo social deveria
ter sua própria educação para adequar cada um a seus meios específicos de vida, ou seja, aqueles
que nascessem pobres deveriam adaptar-se à sua realidade, e aqueles que nascessem ricos deveriam
adaptar-se à sua condição e, assim, cada um desempenharia o seu papel social de forma harmoniosa.
Suas idéias influenciaram grandemente as correntes pedagógicas até os dias atuais.

        Outro importante pensador, Karl Marx, dizia que a educação é diretamente relacionada aos
interesses de classe. “Conforme o conteúdo de classe ao qual estiver exposta, ela pode ser uma
educação para a alienação ou para a emancipação”.

         Karl Marx (1818 - 1883), intelectual alemão, é considerado um dos fundadores da Sociologia,
mas, que contribuiu com várias outras áreas: filosofia, economia, história. Elaborou, em parceria com
Friedrich Engels (1820-1895) também filósofo alemão, a Doutrina dos teóricos do Socialismo Científico
ou Marxismo e escrevem juntos o Manifesto Comunista, “historicamente um dos tratados políticos de
maior influência mundial, publicado pela primeira vez em 21/02/1848, em que os autores partem de
uma análise histórica, distinguindo as várias formas de opressão social durante os séculos e situa na
burguesia moderna como nova classe opressora, que super-valoriza a liberdade econômica em
detrimento das relações pessoais e sociais, assim tratando o operário como uma simples peça de
trabalho que o deixa completamente desmotivado e contribuindo para a sua miserabilidade e
coisificação.

       O professor Tosi Rodrigues (2002) coloca que Marx, a partir de seus estudos sobre as
conseqüências da Revolução Industrial, na vida dos trabalhadores ingleses, concluiu que o tipo de
educação dado às crianças operárias era tão precário que só poderia servir para perpetuar as relações
de opressão às quais as crianças e seus pais estavam sujeitos.

        Segundo relato citado por Marx, em seu livro sobre a realidade de uma das escolas que visitou,
“a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés de largura e continha 75 crianças que
grunhiam algo ininteligível (...) Além disso, o mobiliário escolar era pobre, faltavam livros e material de
ensino e uma atmosfera viciada e fétida exercia efeito deprimente sobre as infelizes crianças. Estive
em muitas dessas escolas e nelas vi filas inteiras de crianças que não faziam absolutamente nada, e a
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isso se dá o atestado de freqüência escolar; e a esses meninos figuram na categoria de instruídos de
nossas estatísticas oficiais” (O Capital, 1968, Vol. 1, Livro 1).

        Os estudos de Marx tiveram e têm uma forte influência nas idéias pedagógicas no mundo e
aqui no Brasil. Dessa corrente de pensamento sociológico, decorre as chamadas pedagogias críticas,
que estudaremos mais adiante.

         Seguindo a coerência em nossa linha de raciocínio encontramos na França o pensamento de
Durkheim, depois, na Alemanha onde encontramos Marx. Agora, seguindo a coerência cronológica da
história, vamos conhecer outro importante pensador na Suíça e, logo em seguida, voltaremos ao Brasil.

        Jean-Jaques Rousseau afirmava que “nascemos fracos, precisamos de força; nascemos
desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo.
Tudo que não temos ao nascer e de que precisamos, quando adultos, nos é transmitido pela
educação”. Seria, para ele, a educação responsável pela formação do cidadão em todos os sentidos.
Pois acreditava que o homem nasce bom, mas a sociedade o perverte.

         Jean-Jaques Rousseau (1712 - 1978), filósofo e escritor suíço, foi uma das principais
inspirações ideológicas da segunda fase da Revolução Francesa: inspirou fortemente os
revolucionários, que defendiam o princípio da soberania popular e da igualdade de direitos. Apontava a
desigualdade e a injustiça como frutos da competição e da hierarquia mal constituída. Segundo suas
idéias, o grande objetivo do governo deveria ser assegurar liberdade, igualdade e justiça para todos,
independentemente da vontade da maioria. Estudioso da filosofia da educação enalteceu a “educação
natural”, defendendo um acordo livre entre o mestre e o aluno. Seu trabalho se tornou a diretriz das
correntes pedagógicas nos séculos seguintes. Lançou sua filosofia, não somente através de escritos
filosóficos formais, mas também de romances, cartas e de sua autobiografia.

       Após conhecer os principais acontecimentos sócio-filosóficos que nortearam as correntes e
concepções de pensamentos do mundo vamos conhecer as influências destes pensamentos no Brasil.


       1.4 Influências destes pensamentos filosóficos no Brasil

       Vamos conhecer os liberais e suas idéias sobre a educação, que eram defendidas com um
grande otimismo pedagógico: eles queriam reconstruir a sociedade por meio da educação (GADOTTI,
1993).

        Vocês já ouviram falar dos liberais? Se não, prestem atenção. Era um grupo de intelectuais
profundamente enraizados na classe burguesa, que defendiam e justificavam o modelo econômico da
época, que privilegiavam alguns, em detrimento da maioria. Defendiam, apenas, alterações no como
ensinar, e não, no modelo de educação excludente.

        Para os Liberais, o homem é produto do meio; ele e sua consciência se formam em suas
relações acidentais, que podem e devem ser controladas pela educação, a qual deve trabalhar para a
manutenção da ordem vigente, atuando diretamente com o sistema produtivo. O objetivo primeiro da
educação é produzir indivíduos competentes para o mercado de trabalho, transmitindo eficientemente
informações precisas, objetivas e rápidas. (LÍBANEO, 1989).
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         Parafraseando Paulo Freire, a educação é o fator mais importante para se alcançar a
felicidade. O autor destacava ainda em seus escritos a educação como ação de conhecimento, como
ato político, como direito de cidadania e, nesse sentido, o conhecimento, como construção social. Ainda
segundo o autor, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, as pessoas se educam entre
si, mediatizadas pelo mundo. (2002 p.68).

        Paulo Freire: Biografia resumida - O caminho de um Educador. Nasceu em Recife em 1921 e
faleceu em 1997. É considerado um dos grandes educadores da atualidade e respeitado
mundialmente. Publicou várias obras que foram traduzidas e comentadas em vários países. Suas
primeiras experiências educacionais foram realizadas em 1962 em Angicos, no Rio Grande do Norte,
onde 300 trabalhadores rurais se alfabetizaram em 45 dias. Participou ativamente do MCP (Movimento
de Cultura Popular) do Recife.

         Suas atividades são interrompidas com o golpe militar de 1964, que determinou sua prisão.
Exila-se por 14 anos no Chile e posteriormente vive como cidadão do mundo. Com sua participação, o
Chile, recebe uma distinção da UNESCO, por ser um dos países que mais contribuíram à época, para
a superação do analfabetismo. Em 1970, junto a outros brasileiros exilados, em Genebra, Suíça, cria o
IDAC (Instituto de Ação Cultural), que assessora diversos movimentos populares, em vários locais do
mundo. Retornando do exílio, Paulo Freire continua com suas atividades de escritor e debatedor,
assume cargos em universidades e ocupa, ainda, o cargo de Secretário Municipal de Educação da
Prefeitura de São Paulo, na gestão da Prefeita Luisa Erundina.

       Algumas de suas principais obras: Educação como Prática de Liberdade, Pedagogia do
Oprimido, Cartas à Guiné Bissau, Vivendo e Aprendendo, A importância do ato de ler, Pedagogia da
Autonomia.

         Freire (1997), também nos ensina que a educação não é neutra, ao contrário, é um dos
instrumentos capazes de: garantir aos cidadãos o atendimento às necessidades que permitem o seu
desenvolvimento integral, que possibilita a integração entre o pensar e o agir, porque quando o pensar
é privado de realidade e o agir, de sentido, ambos ficam sem significado. Caso contrário, podemos
reproduzir uma educação que se coloca como mera transmissora de informações descontextualizadas
historicamente, sem autor, sem intencionalidade “clara” e privada de sentido, a que o autor denominou
de educação bancária. Minha presença no mundo não é a de quem nele se adapta, mas de quem nele
se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história.
(FREIRE, 1983, p. 57).

       Sendo assim, educar é construir, é libertar o homem do determinismo, passando a reconhecer
o seu papel na História e onde a questão da identidade cultural, tanto em sua dimensão individual,
como em relação à classe dos educandos é essencial à prática pedagógica libertadora.

        Sem respeitar essa identidade, sem autonomia, sem levar em conta as experiências vividas
pelos educandos antes de chegarem à escola, o processo será inoperante, somente meras palavras
despidas de significação real. Temos que lutar por uma educação dialógica, pois só assim se pode
estabelecer a verdadeira comunicação da aprendizagem entre seres constituídos de alma, prazer,
sentimentos.

       Em seus escritos, Freire destaca o ser humano como um ser autônomo, livre, criativo, ativo,
capaz de significar e ressignificar suas ações. Essa autonomia está presente na definição de vocação
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ontológica de ‘ser mais’ que está associada à capacidade de transformar o mundo. É exatamente aí
que o homem se diferencia do animal. Afinal, animal não tem história.

       1.5 Educação? Educações? Educar?

         Vamos conhecer uma pequena parte do relatório da UNESCO de 1996, sobre educação, e
seguir, conhecendo Educação/Educações.

       Segundo Moran, (2000, p. 3), educar:


                         É colaborar para que professores e alunos – nas escolas e organizações – transformem suas
                         vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção de
                         sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional – do seu projeto de vida, no
                         desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção, comunicação que lhes
                         permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais e profissionais e tornarem-se cidadão
                         realizados e produtivos.



      No relatório da UNESCO, organizado e escrito pelo francês Jacques Delors, intitulado:
Educação um tesouro a descobrir, de 1996, a Educação precisa de uma concepção mais ampla, ou
seja:

         Uma concepção ampliada de educação deveria fazer com que todos pudessem descobrir,
reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós. Isso
supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação considerada a via obrigatória
para obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordem
econômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua
totalidade, aprende a ser (DELORS, 2003, p. 90).

        As diferentes concepções de educação têm reflexos profundos em nosso cotidiano. Como você
deve ter percebido, todos nós temos memória, uns mais, outros menos, da infinidade de informações
que recebemos ao longo de nossas vidas como estudantes.

        Muitos de nós estudamos em escolas que reproduziam informações e conhecimentos, e nós
não sabíamos para que serviriam, nem imaginávamos quem produziu esse conhecimento, nem em que
contexto histórico. Não víamos sentido para os conteúdos, que eram apenas para ser decorados e para
que respondêssemos questões dos questionários, das provas, que depois esquecíamos – a “educação
bancária”. Não queremos dizer com isso que informação/ conhecimento não é importante, ao contrário,
têm importância e significam poder.

        A esse respeito, o cientista político, americano Emir Sader, indagou em sua palestra proferida
no Fórum Mundial da Educação (2003): “se o conhecimento não serve para inserir os homens de forma
consciente na sociedade, para que serve então”? (...) “o excesso de informação existente hoje
disseminada, porém descontextualizada e sem história, sem o conhecimento de quem a produziu, vem
banalizando o processo educacional e fragmentando o saber, colaborando para a produção de um
novo tipo de analfabetismo”.
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       UNIDADE III


       TEXTO 01 - A FILOSOFIA EM BUSCA DE RESPOSTAS


         Certamente você deve estar-se perguntando por que estudar fundamentos sócio-filosóficos da
educação para compreender as Políticas públicas em Educação e Educação Física? Qual o
significado?

         Para saber mais sobre essa questão vamos fazer um estudo breve que nos ajudará a entender
o significado dessas palavras e a importância de estudá-las para sua formação, enquanto um futuro
profissional da área de Educação Física.

   • Fundamentos - Vamos juntos tentar entender o que são fundamentos? De forma geral, e aqui
     em especial, fundamentos são os princípios básicos, nosso porto seguro, aquilo que nos dará
     base para entender o que vem a seguir, ou seja, alicerce para o entendimento de outras
     disciplinas e a nossa postura enquanto futuro profissional.

   • Sócio - nesse caso, remete-nos à sociologia, ciência que se dedica a estudar a sociedade e
     suas transformações ao longo da história, e as transformações pelas quais temos passado.
     Afinal, estamos vivendo uma verdadeira revolução educacional, com o apoio significativo das
     novas tecnologias.

   • Filosófico - é a junção de duas palavras gregas: filos/amante + sofia/sabedoria = amor pela
     sabedoria. Na prática pedagógica, representa aquele olhar indagador e crítico sobre a
     realidade, na busca de respostas sobre os porquês dos fenômenos, nesse caso, relacionados
     à educação.

   • Em síntese, Fundamentos Sócio-Filosófico é a base para o entendimento da educação na
     sociedade, de forma crítica, construída através da reflexão, da pesquisa, da observação.

   • Políticas Públicas em Educação e Educação Física são definidas como o conjunto de ações
     desencadeadas pelo Estado, no caso brasileiro, nas escalas federal, estadual e municipal, com
     vistas ao bem coletivo. Elas podem ser desenvolvidas em parcerias com organizações não
     governamentais e, como se verifica mais recentemente, com a iniciativa privada.

        E por que estudar os fundamentos de áreas pedagógicas? Porque as demais ciências da
educação e em especial a pedagogia são como bússolas que auxiliam o professor a agir diante da
grande diversidade que caracteriza o povo brasileiro. Diante dessa afirmativa e estando o Curso de
Educação Física ligado à área da Educação somos desafiados a conhecer a Pedagogia enquanto
Ciência da Educação.

      Nossa cultura é muito rica e diversa, nosso povo – crianças, jovens, adultos – faz a diferença
em cada comunidade, município, estado ou região. É muita diversidade para uma única ação
pedagógica.

       Como trabalhar com essa diversidade? Como devemos ser educadores reflexivos e críticos?
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        2.1 O Filósofo e o Filosofar

       O verdadeiro filósofo é, antes de tudo, um observador atento da realidade, um pensador
dedicado e que tenta, pelo seu próprio esforço, desvendar o Universo que o cerca. E o que é filosofar?

        É pensar livremente, é não se deixar guiar por ideologias, religiões, crenças, pelas opiniões dos
outros, sem reflexão. É colocar tudo como objeto a ser refletido, perguntar sobre tudo, por exemplo:
Quais os motivos que guiaram as diferentes escolhas humanas ao longo da história? Por que agimos
assim, e não, de outro jeito?

       Para o professor/educador, é fundamental filosofar sobre sua prática, pensar sobre o seu fazer
pedagógico diário, buscar respostas para as dificuldades e para as conquistas do dia-a-dia. Assim, o
educador ao superar as dificuldades, socializa as conquistas e contribui com a comunidade onde está
atuando.

        Embora a Filosofia, em geral, não seja produzida para resultados concretos e imediatos, crer
que ela não tenha aplicação prática não é correto. A forma de compreender o mundo é que determina o
modo como se produzem as coisas, investiga-se a natureza, propõem-se as leis. Ética, Política, Moral,
Esporte, Arte, Ciência, Religião, tudo tem a ver com Filosofia.

       O pensamento humano não apenas influenciou e influencia o mundo, na verdade, é ele que o
determina. Todos os movimentos sociais, econômicos, políticos, religiosos da história têm origem no
pensamento humano, na Filosofia.

         Aquele que se dedica à Filosofia não se abstém da realidade, não é um alienado. É aquele que
procura compreender a realidade e busca dar o primeiro passo para interagir com ela, ou mesmo
alterá-la, da melhor forma possível.

       Saberemos mais sobre Filosofia e as principais correntes filosóficas. Elas nos ajudarão a
entender melhor onde estão ancoradas algumas práticas pedagógicas, que estudaremos mais adiante.

         Bem, recapitulando, Filosofia é uma palavra grega “philosophia” – sophia, que significa
sabedoria; philo significa amor, ou amizade. Então, literalmente, um filósofo é um amigo ou amante de
sophia, alguém que admira e busca a sabedoria. Logo, todos somos filósofos, podemos e devemos
filosofar. Mas, o que são filosofia e filosofar?

    • O termo philosofia foi empregado, pela primeira vez, pelo famoso filósofo grego
      PITÁGORAS, por volta do século V a.C, ao responder a um de seus discípulos que ele não era
      um “Sábio”, mas apenas alguém que amava a Sabedoria. Filosofia é, então, a busca pelo
      conhecimento último e primordial, a Sabedoria Total.

        Embora, de um modo ou de outro, o Ser Humano sempre tenha exercido seus dons filosóficos,
a Filosofia Ocidental, como um campo de conhecimento coeso e estabelecido, surge, na Grécia Antiga,
com a figura de TALES de MILETO, que foi o primeiro a buscar uma explicação para os fenômenos da
natureza usando a Razão e a Lógica, e não, os Mitos como eram de costume.

    • Mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente
      relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais
      acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do Mundo e do Homem por meio
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        de deuses, semi-deuses e heróis (todas elas são criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o
        mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade.

    • Razão é a faculdade de raciocinar, de apreender, de compreender, de ponderar, de
      julgar...Disponível em: http://pt.wikipedia. org/wiki/Raz%C3%A3o. Acesso em: 28 julho de
      2010.

    • Lógica é o ramo da Filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto,
      sendo, portanto, um instrumento do pensar. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/
      L%C3%B3gica Acesso em: 28 julho de 2010.

         Mas você sabe que, como o resto das coisas da vida, nem tudo foi flores na constituição da
história da Filosofia, assim como na Religião.

        Ela também já teve sua morte decretada. No entanto, a Filosofia Ocidental perdura há mais de
2.500 anos, tendo sido a “Mãe” de quase todas as Ciências: Psicologia, Antropologia, História, Física,
Astronomia e, praticamente, todas as outras que derivam direta ou indiretamente da Filosofia.
Entretanto, as “filhas” ciências se ocupam de objetos de estudo específicos, e a “Mãe” se ocupa do
“Todo”, da totalidade do real.

        Nada escapa à investigação filosófica. A amplitude de seu objeto de estudo é tão vasta que
foge à compreensão de muitas pessoas, que chegam a pensar ser a Filosofia uma atividade inútil.
Além disso, seu significado também é muito distorcido no conhecimento popular que, muitas vezes, a
reduz a qualquer conjunto simplório de idéias específicas, as “filosofias de vida” ou, basicamente, a um
exercício poético.

        Entretanto, como sendo praticamente o ponto de partida de todo o conhecimento humano
organizado, a Filosofia estuda tudo o que pode, estimulando e produzindo os mais vastos campos do
saber. Mas, diferente da Ciência, a Filosofia não é empírica, ou seja, não faz experiências, mesmo
porque geralmente, seus objetos de estudo não são acessíveis ao Empirismo.

    • A RAZÃO e a INTUIÇÃO são as principais ferramentas da Filosofia, que tem como
      fundamento a contemplação, o deslumbramento pela realidade, a vontade de conhecer e,
      como método primordial, a rigorosidade do raciocínio, para atingir a estruturação do
      pensamento e a organização do saber.

        Vamos conhecer um dos principais textos da Filosofia, escrito por Platão, no século IV a.C.: O
Mito da Caverna ou Alegoria da Caverna.

        O Mito da Caverna de autoria de Platão e escrito no livro VII do República é, talvez, uma das
mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia. O autor descreve a situação geral em que se
encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente
e tomá-las como verdadeiras. Uma critica poderosa à condição dos homens, escrita há quase 2500
anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões por todos que o lêem.

        Trecho de: O Mito da Caverna Extraído de A República, de Platão(1987)

      Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres
humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são
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forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas à frente, não podendo girar a cabeça
nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de
modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

        A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ele e os prisioneiros -
no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se
fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam
estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

        Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na
parede, no fundo da caverna, as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as
próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

        Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginavam que as sombras vistas são as
próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens
(estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem
saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade
possível é a que reina na caverna. Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os
prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os
outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de
imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho
ascendente, nele adentraria.

         Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol,
e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens
que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo
que, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens (as sombras das estatuetas
projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade.

        Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela
escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

        Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam
em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo
espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da
caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra a
vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. Após a leitura, escreva um
depoimento articulando-o com o que você estudou sobre educação / escola / aprendizagem. Disponível
em:http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=796 Acesso em: 28 de julho de 2010.


        2.2 As Correntes Filosóficas

        Vamos agora estudar as principais correntes filosóficas. Nos grandes períodos da história:
Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Contemporânea, viveu-se à influência de vários
pensadores. Na Antiguidade, destacam-se os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles. O
primeiro, no estudo da ética; o segundo preconiza o idealismo; e o último, o realismo.
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   • Na Idade Média, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são pensadores cristãos que
     ocupam papel de realce. Santo Agostinho é tido como filósofo da fé e São Tomás de Aquino,
     como embasador do catolicismo, afirma que o conhecimento tem primazia sobre a ação.

   • Na Idade Moderna, começa-se a negar a fé e a ampliar os caminhos da ciência. Projetam- se
     vários filósofos, como Descartes, no racionalismo, Bacon, no empirismo, Hegel, na dialética,
     Kant, na epistemologia, na metafísica e na antropologia e Comte, no positivismo. Na época
     contemporânea, acentua-se uma reação à Filosofia do século XIX, idealista e positivista, bem
     como a Filosofia moderna geral. Destacam-se: Kierkegaard, considerado o fundador do
     Existencialismo, Hidegeer, que analisou a existência humana e Husserl, que dá ênfase ao
     estudo dos fenômenos – a fenomenologia.


       2.3 E a Filosofia Oriental?

       Ainda nessa rota, vamos entrar em um canal que nos leva até a filosofia oriental.

        Estamos prontos? Lá vamos nós! Embora não seja aceito como Filosofia pela maior parte dos
acadêmicos, o pensamento produzido no Oriente, especificamente na China e na Índia por budistas e
hinduístas, possui qualidades equivalentes à da Filosofia Ocidental.

        A questão é basicamente a definição do que vem a ser a Filosofia e suas características
principais que, da maneira como é colocada pelos acadêmicos ocidentais, de fato exclui a Filosofia
Oriental. Mas nada impede que se considere Filosofia num conceito mais amplo, como faremos aqui.

        A Filosofia Oriental é mais intuitiva que a Ocidental e menos racional, o que contribui para
sua inclinação mística e hermética. No entanto, vemos os paralelos que ela possui, principalmente,
com a Filosofia Antiga.

       Ambas surgiram por volta do século VI a.C, tratando de temas muito semelhantes, e há de se
considerar que Grécia e Índia não são tão distantes uma da outra a ponto de inviabilizar um contato.

        Veja o mapa mundial. A maioria dos estudiosos considera que não há qualquer relação entre
os pré-socráticos e os filósofos orientais. O que, na realidade, pouco importa nesse momento.

         O fato é que, assim como a Ciência, a Arte e a Mística, a Filosofia sempre existiu em forma
latente no ser humano. Nós sempre pensamos. Logo, existimos.
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        UNIDADE IV


        TEXTO 01 - OS CAMINHOS DA SOCIOLOGIA

        A Sociologia é a ciência que estuda o comportamento humano em função do meio e os
processos que interligam o indivíduo em associações, grupos e instituições. Ou seja, a sociologia surge
na história como o resultado da tentativa de compreender situações sociais novas, criadas pela, então,
nascente sociedade capitalista.

    • Capitalismo – é comumente definido como um sistema de organização de sociedade baseado
      na propriedade privada dos meios de produção, na propriedade intelectual e na liberdade de
      contrato sobre estes bens, o chamado livre-mercado.

    • Karl Marx – observa o Capitalismo através da dinâmica da lutas de classes, incluindo aí a
      estrutura de estratificação de diferentes segmentos sociais, dando ênfase às relações entre
      proletariado (classe trabalhadora) e burguesia (classe dominante). Disponível em:
      http://www.renascebrasil.com.br/f_capitalismo2.htm. Acesso em: 28 de julho de 2010.

       Apesar do termo “sociologia” ter sido criado por Auguste Comte em 1837, que inicialmente a
denominou de “física social”, existem controvérsias sobre quem é seu verdadeiramente e real fundador.

         Em geral, nessas escolhas, pesam motivos nacionais, cada qual tentando ver num inglês, num
alemão ou num francês, o verdadeiro criador da sociologia. Raymond Aron (1992), por exemplo, aponta
Montesquieu, enquanto Salvador Giner indica uma série de outros nomes (Saint-Simon, Proudhom,
J.S.Mill, o já citado Comte e Marx).

        A maioria dos anglo-saxãos, defendem o nome de Herbert Spencer que consagrou o termo em
caráter definitivo com a obra -The Study of Sociology, 1880 -, enquanto os alemães asseveram que o
fundador é Max Weber.

        Do rol dos fundadores intelectuais ainda constam nomes como: Jane Addams, Charles
H.Cooley, William E. DuBois, George H. Mead e Robert Merton. Vale ressaltar, que talvez a sociologia
tardasse bem mais em surgir no cenário cultural e científico europeu caso não tivessem surgido as
doutrinas sociais de Jean-Jacques Rousseau - o grande revolucionário do Século das Luzes.

    • O Surgimento - Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento
      moderno. É importante colocar que, a sociologia veio preencher a lacuna do saber social,
      surgindo após, a constituição das ciências naturais e de várias ciências sociais. Seu
      surgimento coincide com os últimos momentos da desagregação da sociedade feudal e da
      consolidação da civilização capitalista.

    • A criação da sociologia não é obra de um só filósofo ou cientista, mas o trabalho de vários
      pensadores empenhados em compreender as situações novas de existência que estavam em
      curso, quais sejam, as transformações econômicas, políticas e culturais verificadas no século
      XVII.

    • A Revolução Industrial, a Revolução Gloriosa Inglesa, a Independência dos EUA e a
      Revolução Francesa patrocinam a instalação definitiva da sociedade capitalista. Mas, somente
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        por volta de 1830, um século depois, surge a palavra sociologia, fruto dos acontecimentos das
        duas revoluções citadas.

    • A Revolução Industrial, com a introdução da máquina a vapor e os aperfeiçoamentos dos
      métodos produtivos, determinou o triunfo da indústria capitalista, especialmente, pela
      concentração e controle de máquinas, terras e ferramentas onde a grande massa de
      trabalhadores, era obrigada a produzir. As máquinas não simplesmente destruíam os
      pequenos artesãos, mas os obrigava à forte disciplina nas fábricas, surge uma nova conduta e
      uma relação de trabalho até então desconhecidas.

        Este fenômeno, o da Revolução Industrial, determinou o aparecimento da chamada classe
trabalhadora ou proletariado. Os seus efeitos catastróficos para a classe trabalhadora geraram, no
primeiro momento, sentimentos de revolta traduzidos externamente na forma de destruição de
máquinas, sabotagens, explosão de oficinas, roubos e outros crimes, no segundo momento, deram
lugar a busca pela organização, defendida pelos socialistas e comunistas, através da constituição de
associações livres e de sindicatos, que abriram espaço, com muita luta, para o diálogo de classes
organizadas, de um lado a classe trabalhadora – proletariado e de outro, a classe proprietária -
burguesia, cientes de seus interesses e desejos.


        Indicação de Filme - Tempos Modernos

        Sinopse – O Filme dirigido e estrelado por Charles Chaplin e com Paulette Goddard no elenco.
Foi lançado nos Estados Unidos em 1936 a partir do qual o seu sucesso espalhou-se pelo mundo. Um
operário de uma linha de montagem, que testou uma “máquina revolucionária” para evitar a hora do
almoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em um
sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar
sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador
comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba
comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delas
está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das
órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar.

       Após assistirmos ao filme vamos continuar conhecendo os acontecimentos sociológicos. Estes
importantes acontecimentos e as transformações sociais verificadas foram as bases para a
necessidade de investigação sociológica.

       Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas se
preocupavam não eram homens de ciência ou sociólogos profissionais. Eram homens de atitude que
desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade.

         Os precursores da sociologia se encontravam entre militantes políticos e entre as pessoas que
se preocupavam e/ou vivenciavam os problemas sociais e desejavam conservar, modificar
radicalmente ou reformar a sociedade de seu tempo. Estes pertenciam a diferentes correntes
ideológicas: conservadoras, liberais, socialistas/marxistas. Foi com o aparecimento das cidades
industriais, das transformações tecnológicas, da organização do trabalho na fábrica, e da formação de
uma estrutura social específica – a sociedade capitalista – que se impôs uma reflexão sobre a
sociedade, suas transformações, suas crises, e sobre seus antagonismos de classe.
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         O “progresso” das formas de pensar, a partir do uso da razão e da lógica, contribuiu para
afastar interpretações baseadas em suposições, superstições e crenças, representou uma mudança de
paradigma e abriu espaço para a constituição de um novo saber sobre os fenômenos histórico-sociais.
E, conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da
natureza e da cultura.

        A lógica é uma ciência de índole matemática e fortemente ligada à Filosofia. Já que o
pensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é preciso
estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. O principal organizador da lógica
clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Organon. Ele divide a lógica em formal e material.
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%B3gica Acesso em: 28 de julho de 2010.

      Esta postura influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume (1711- 1776)
e Adam Ferguson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e amadurecida por Hegel e Karl
Marx.

        Foi também dessa época a disposição de tratar a sociedade, a partir do estudo de seus grupos
e não dos indivíduos isolados. Frutifica o entendimento de que os homens e as mulheres produzem ao
longo de suas vidas: conhecimentos, crenças, valores, linguagem, arte, música. Criamos, destruímos,
inventamos, re-inventamos. Enfim, fazemos Cultura. Sendo assim, a sociologia se debruça sobre todos
os aspectos da vida social e tem como preocupação estudar desde o funcionamento de macro-
estruturas (o estado, a classe social) até o comportamento dos indivíduos.

         Ela, em parceria com a filosofia, dão fundamento para entendermos o que é educação, sua
história e suas mudanças ao longo do tempo.

          O pensamento de alguns sociólogos voltados para a educação - Vamos pensar o que se
refletiu e reflete no pensar e no fazer dos educadores.

        Para Durkheim, o objeto da sociologia é o fato social. Sendo a educação considerada como o
fato social, isto é, se impõe, coercitivamente, como uma norma jurídica ou como uma lei. A doutrina
pedagógica se apóia na concepção do homem e de sociedade, onde o processo educacional emerge
através da família, igreja, escola e comunidade. Para o autor as gerações adultas exercem uma forte
pressão sobre os mais novos, que tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança determinados
números de estados físicos, intelectuais e morais (DURKHEIM, 1973).

       Já para um divulgador da obra de Durkheim, Talcott Parsons (1965), sociólogo americano, a
educação é entendida como socialização.

        Nessa perspectiva, ela é o mecanismo básico de constituição dos sistemas sociais e de
manutenção e perpetuação dos mesmos, em formas de sociedades, e destaca que sem a socialização,
o sistema social é ineficaz de manter-se integrado, de preservar sua ordem, seu equilíbrio e conservar
seus limites.

    • Parsons, afirma que é necessário uma complementação do sistema social e do sistema de
      personalidade. Ambos têm necessidades básicas que podem ser resolvidas de forma
      complementar. A criança aceita o marco normativo do sistema social em troca do amor e do
      carinho maternos. Este processo se desenvolve através de mediações primárias: os próprios
      pais, através da internalização de normas, inicia o processo de socialização primária. A criança
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        não percebe que as necessidades do sistema social estão se tornando suas próprias
        necessidades.

        Dessa forma, para o autor, o indivíduo é funcional para o sistema social. De acordo com
Durkheim e Parsons, a educação não é um elemento para a mudança social, mas sim , pelo contrario,
é um elemento fundamental para a conservação e funcionamento do sistema social.

       Mas existem autores que têm pensamento oposto, entre eles, destacamos Dewey e Mannheim.
O ponto de partida desses autores é que a educação constitui um mecanismo dinamizador das
sociedades através de um indivíduo que promove mudanças.

         Para estes dois sociólogos, o processo educacional possibilita ao indivíduo atuar na sociedade
sem reproduzir experiências anteriores, acriticamente. Pelo contrario, elas serão avaliadas
criticamente, com o objetivo de modificar seu comportamento e desta maneira, produzir mudanças
sociais.

       Muito conhecida e difundida no Brasil a obra de Dewey, o autor defende ser impossível separar
a educação do mundo da vida. Suas idéias tiveram grande influência na nossa educação que veremos
em aulas a seguir. “A educação não é preparação nem conformidade. Educação é vida, é viver, é
desenvolver, é crescer” (DEWEY, 1971, p. 29). Para o autor, os indivíduos deveriam ter chances iguais.
Em outras palavras, igualdade de oportunidades dentro dum universo social de diferenças individuais.

        Outro sociólogo, Mannheim, (1971, p. 34) define a educação como:

                         O processo de socialização dos indivíduos para uma sociedade harmoniosa, democrática
                         porem controlada, planejada, mantida pelos próprios indivíduos que a compõe. A pesquisa é
                         uma das técnicas sociais necessárias para que se conheçam as constelações históricas
                         especificas. O planejamento é a intervenção racional, controlada nessas constelações para
                         corrigir suas distorções e seus defeitos. O instrumento que por excelência põe em pratica os
                         planos desenvolvidos é a Educação.


        Você viu? Como estes autores têm diferentes idéias não é mesmo?

       Veja as diferenças separam os sociólogos que se ocuparam da questão educacional. Você
reparou? Prestou atenção?

        Mas apesar das divergências, não podemos ignorar, que: Existe entre elas um ponto de
encontro: a educação constitui um processo de transmissão cultural no sentido amplo do termo
(valores, normas, atitudes, experiências, imagens, representações) cuja função principal é a
reprodução do sistema social.

         Isto é claro no pensamento durkheimiano, que podemos resumir como: longe de a educação
ter por objeto único e principal o indivíduo e seus interesses, ela é antes de tudo o meio pelo qual a
sociedade renova perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver se
dentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade. A educação perpetua e reforça essa
homogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as semelhanças essenciais que a vida
coletiva supõe (DURKHEIM, 1973).
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         Também verificamos que tanto Durkheim, como seus seguidores, se esforçavam por assinalar
que a importância do processo educacional se baseava no fato de que o mesmo tinha como função
principal a transmissão da cultura na sociedade. Esta cultura era assim apresentada como única,
indivisa, propriedade de todos os membros que compõem o conjunto social.

        Entretanto, outros dois sociólogos Bourdieu e Passeron, também famosos pelos seus estudos
e sua preocupação com a questão educacional, tiveram pretensões de justamente demonstrar a não
existência de uma cultura única, mas que:


                        Na realidade, devido ao fato de que elas correspondem a interesses materiais e simbólicos
                        de grupos ou classes diferentemente situadas nas relações de força, esses agentes
                        pedagógicos tendem sempre a reproduzir a estrutura de distribuição do capital cultural entre
                        esses grupos ou classes, contribuído do mesmo modo para a reprodução da estrutura social:
                        com efeito, as leis do mercado em que se forma o valor econômico ou simbólico, isto é, o
                        valor enquanto capital cultural, dos arbítrios culturais reproduzidos pelas diferentes ações
                        pedagógicas (indivíduos educados) constituem um dos mecanismos mais o menos
                        determinantes segundo os tipos de formação social, pelos quais se acha assegurada a
                        reprodução social, definida como reprodução das relações de força entre classes sociais
                        (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 218).



         Para os autores citados, sistema escolar reproduz, assim, em nível social, os diferentes
capitais culturais das classes sociais e, por fim, as próprias classes sociais.

        Os mecanismos de reprodução encontram sua explicação ultima nas relações de poder,
relações essas de domínio e subordinação que não podem ser explicadas por um simples
reconhecimento de consumos diferenciais.

        Nessa perspectiva, quando analisam a função ideológica do sistema escolar, uma de suas
preocupações é justamente a da possível autonomia que pode ser atribuída a ele, em relação à
estrutura de classes. Com efeito, Bourdieu e Passeron se perguntam:


                        Como levar em conta a autonomia relativa que a Escola deve à sua função específica, sem
                        deixar escapar as funções de classes que ela desempenha, necessariamente, em uma
                        sociedade dividida em classes? (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 219).



       E os autores respondem:

                        Se não é fácil perceber simultaneamente a autonomia relativa do sistema escolar, e sua
                        dependência relativa à estrutura das relações de classe, é porque, entre outras razões, a
                        percepção das funções de classe do sistema escolar está associada, na tradição teórica, a
                        uma representação instrumentalista das relações entre a escola e as classes dominantes
                        como se a comprovação da autonomia supusesse a ilusão de neutralidade do sistema de
                        ensino. (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 220).

       Concluímos, que existem pontos divergentes e pontos comuns entre as idéias dos autores que
estudamos. Sejam elas no que diz respeito à concepção de educação, de sociedade, de escola.
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        UNIDADE V


     TEXTO 01 - A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ENQUANTO PRODUÇÃO HUMANA – DA
EDUCAÇÃO UNIVERSAL À EDUCAÇÃO BRASILEIRA

        1.1 A Educação Primitiva

        A educação entre os povos primitivos constitui a forma mais rudimentar do tradicionalismo
pedagógico. Entre os povos selvagens vamos encontrar as formas mais simples e elementares de
educação e facilmente se pode determinar a natureza geral, o fim, o método, a organização e o
resultado da educação.

       Vamos encontrar nos povos situados no mais ínfimo grau da civilização, as formas mais puras,
mais elevadas e mais espiritualizadas de religião, de moral e de educação. Já nos povos pigmeus,
pertencentes às “culturas iniciais”, deparamos com uma educação intencional realizada pela família e
pela comunidade, visando ideais éticos e espirituais.

         Nas civilizações primitivas a família é que desempenha o papel primordial na formação
educativa das novas gerações até a puberdade. Após a puberdade, a educação vai variar nas diversas
civilizações. Nas civilizações totêmicas, a educação masculina assume um caráter antifamiliar, as
mulheres são desprezadas. Nas civilizações matriarcais, a educação feminina é preponderante devido
à primazia da mulher. Nas civilizações pastoris, a família patriarcal conserva o seu privilégio educativo.

       O estudo da educação primitiva nos faz entrar em contato com a alma do homem primitivo e
conhecer a estrutura da sua personalidade.

         O homem primitivo não é um ser animalizado. Não há educação sistemática, nem instituições
escolares. A escola teria surgido pela primeira vez entre os Incas e os Astecas. Os povos possuem
épocas próprias e lugares determinados para a realização da educação intencional. A época preferida
é a da puberdade dos educandos e quanto aos lugares há as chamadas casas dos homens dos povos
primitivos, os santuários do bosque ou os bosques sagrados. Há uma preocupação clara pela formação
das novas gerações, embora o objetivo imediato da educação seja a satisfação de necessidades
materiais, relativas à alimentação, ao vestuário e ao abrigo. Daí a possibilidade de se caracterizarem
entre os povos primitivos, ainda que de forma rudimentar, as 3 formas fundamentais da educação: a
educação física, a educação intelectual e a educação moral.

        Educação física: os selvagens dão grande liberdade às crianças que se aproveitam para o
exercício dos seus jogos naturais. O jogo e a imitação têm papel importante e considerável na
educação primitiva. As crianças de tribos guerreiras fazem espadas, arcos, escudos. Nas pacíficas
imitam as atividades de tecelagem, construção de cabanas, confecção de vasos e adornos, trabalhos
no capo, a caça, a pesca e a navegação.

         Educação intelectual: é prática e visa tornar a criança capaz de prover às suas necessidades
individuais, mais tarde às da família e da comunidade. Esta educação começa cedo conforme o sexo e
a maneira de viver da tribo. Os jovens aprendem a conhecer hábitos dos animais e peixes, a
confeccionar instrumentos de caça e de pesca, a manejar armas e construir embarcações, a
desenvolver sua agilidade física, aperfeiçoar sua acuidade sensorial. Assim suas faculdades
intelectuais se tornam precisas, ágeis e eficazes. As mulheres são preparadas para o lar, criação dos
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filhos e auxiliar o marido nas ocupações. Nos povos selvagens a memória se revela pronta, rica e fiel.
Sua imaginação é exuberante e colorida. Sua inteligência é viva, engenhosa e inventiva.

         Educação moral: o senso moral dos selvagens se encontra mais ou menos obscurecido e
desfigurado, mas sua alma guarda a marca indelével da lei natural. A sua consciência é lúcida. Eles
compreendem o dever que possuem de transmitir aos descendentes preceitos morais e espirituais.
Esses preceitos se referem ao respeito aos pais e aos velhos ao culto dos antepassados, ao
sentimento da honra, à fidelidade à palavra empenhada, à obediência às autoridades legítimas. O
acontecimento de maior importância na educação dos povos primitivos é a iniciação da puberdade, que
se reveste de um caráter de formação moral. A iniciação representa a recepção solene dos
adolescentes na comunidade dos adultos. Os jovens nesta cerimônia são separados da comunidade e
enviados a uma residência especial onde permanecem sob a vigilância dos anciãos da tribo. Lá, são
realizadas solenidades de caráter purificatório, depois ritos de iniciação. Recebem novo nome, são
submetidos a provas cruéis e brutais que servem para aferir a coragem e a resistência ao sofrimento.
Recebem instruções relativas ao matrimônio, às tradições sagradas da tribo, aos limites do território, à
fidelidade ao chefe da nação. Os jovens recebem conselhos sobre guerra, caça, pesca, artes manuais.
Exortam-nos a combater com coragem, proteger os fracos e defender os humildes.

          As noções religiosas que os povos primitivos transmitem às novas gerações variam com o tipo
de civilização.

         Os pigmeus, por exemplo, possuem uma religião monotéica, constituída pela crença num Deus
único, criador do céu e da terra, infinitamente bom e justo, ao qual terão de prestar contas dos seus
atos. Os caracteres fundamentais das religiões professadas pelos povos primitivos são: crença num
poder supremo; crença em espíritos independentes; crença na alma humana, distinta do corpo e
separando-se do mesmo com a morte; crença num mundo do Além, mundo das almas e dos espíritos;
sentido de puder, de justiça, de responsabilidade, de liberdade, de dever; reconhecimento da
consciência moral; noção do pecado com sanção aplicada pela autoridade do mundo invisível;
organização do culto; oração, oferenda, sacrifícios, ritos, cerimônias; sacerdócio; distinção entre o
sagrado e o profano; organização da família, procurando conservar a pureza do sangue, impondo leis,
fortalecendo-se por alianças e transmitindo suas tradições.

        1.2 A Educação Hindu

         A Gramática foi a disciplina que serviu de base para a educação intelectual dos hindus, não a
meramente alfabética, reduzida à leitura e à escrita, mas fonética, isto é, orientada para a análise dos
sons que constituem a linguagem. A veneração dos hindus pela linguagem dos Vedas, que
consideravam divina, fez com que os mesmos se esforçassem para conservar a pronúncia exata dos
seus hinos e, para preservá-la guardavam listas de palavras antigas, com a respectiva pronúncia
correta. E foi assim que teve origem a mais remota e perfeita gramática, que deu lugar à formação da
gramática moderna que parte do estudo das raízes dos vocábulos e das leis fonéticas que presidem à
sua composição e modificação. Faziam parte da educação intelectual dos hindus os provérbios e as
fábulas. Os hindus cultivaram a Lógica, a Álgebra e a Astronomia. Recebemos deles o sistema métrico
e o jogo do xadrez.

        As escolas elementares hindus eram numerosas, porém, não possuíam organização oficial. Os
discípulos se reuniam em torno do mestre, ao ar livre, à sombra de uma árvore e, quando chovia, sob
uma tenda. Aí aprendiam a escrever, primeiro sobre a areia e, em seguida, sobre folhas de palmeiras
ou de plátano. O ensino era realizado por memorização, os alunos repetiam em voz alta o que lhes era
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ditado pelo mestre. Quando as classes eram numerosas, era comum empregar como auxiliares de
ensino o alunos mais adiantados. Daí a origem do ensino mútuo ou monitorial.

        O ensino era feito segundo certas fórmulas rituais.

        O mestre pertencia à casta dos brâmanes e era objeto de profunda veneração. Não recebia
remuneração dado o caráter espiritual da sua obra. Os alunos podiam oferecer presentes ao mestre. O
ensino revestia-se de uma orientação essencialmente religiosa. Os alunos eram instruídos oralmente,
para em seguida, estudarem nos livros sagrados; os Vedas ou o catecismo budista. A moral era
ensinada por meio de provérbios e de fábulas. Outras matérias: leitura, escrita, aritmética.

        O ensino superior era limitado aos brâmanes e tinha por objetivo o estudo dos Vedas e das
suas ciências auxiliares. Para aprender cada um dos Vedas eram necessários 12 anos, e para os
quatro, 48 anos.

        Os hindus não consideram a ciência como um valor em si mesma, mas sim como um meio
para conseguir a união com a divindade. O jovem devia aprender a sabedoria, o varão praticá-la e o
ancião olvidá-la. A vida intelectual do hindu começava nas intrincadas análises da gramática para
terminar na síntese suprema do misticismo.

        A educação elementar hindu era eivada de graves defeitos: rotina excessiva dos mestres,
cultura exclusiva da memória, negligência na educação das mulheres e das crianças, preconceito
extremado contra a educação dos serviços e dos párias, desinteresse pela formação do caráter,
preocupação exclusiva pelo cultivo da inteligência.

        1.3 A Educação Chinesa

        O povo chinês possui um espírito positivo e prático, despido de qualquer idealismo.

        A China parece ter sido o primeiro país a considerar o ensino como função do Estado. Já sob o
imperador Yu, foi destinada a manutenção do ensino parte dos fundos comunais. Em 1097 a.C., o
imperador Tcheu mandou instalar escolas em todos os seus domínios. No período do antigo império as
escolas foram consideradas como estabelecimentos do Estado e o ensino teve caráter
acentuadamente político. Daí por diante, ficou livre a iniciativa particular, mas, desde 650, esta sofreu a
intervenção do Estado que a regularizou por meio de um complicado sistema de exames. Estas provas
constituem a peça central da máquina educativa chinesa, pois era através das mesmas que se
realizava a seleção de todos os funcionários e dignitários da China.

        Havia três exames de dificuldade crescente que conferiam os graus de “talento florido”,
“homem promovido” e “completo erudito”, ou “apto para o cargo”. A aprovação nesses exames
proporcionava recompensa sob a forma de adornos para o vestuário, sinais de distinção para a
residência, direito a lugar de honra nas festas, isenção de punição corporal etc. As provas dos exames
consistiam na redação de trabalhos em prosa e verso sobre temas tirados dos livros clássicos.

        A complexidade da escrita chinesa muito contribuiu para dificultar o ensino. Os caracteres
gráficos da linguagem chinesa representam idéias e não sons. É uma escrita ideográfica e não fonética
como o ocidental. Os caracteres arcaicos só eram ensinados aos letrados, os símbolos ideográficos
atingem o número de 25.000.
31



          A Gramática chinesa é de difícil aprendizagem, pois, os verbos não possuem tempo, voz e
modo e os substantivos não têm gênero, número ou caso. A significação das palavras depende do tom
da voz e da sua posição na frase. Há na escrita chinesa 6 tipos de caligrafia: o ornamental, o oficial, o
literário, o manual comum, o corrente e o angular. O uso de estilo literário só pode ser aprendido depois
de longos anos de rígida e mecânica imitação dos modelos clássicos. A Literatura chinesa é rica e
variada sendo constituída de obras históricas, filosóficas, teatrais, poéticas, contos e romances.

        A educação chinesa deve ser estudada principalmente pelos ensinamentos negativos que
oferece. Tudo o que é condenável em matéria de ensino foi cultivado pelos chineses: abuso excessivo
da memória, desprezo pela formação da inteligência e do caráter, desinteresse pelas necessidades
reais da vida, passividade do educando. A China foi o país do Antigo Oriente que possui maior número
de escolas. Isso não impediu que a sua civilização se cristalizasse em formas rígidas e mumificadas. O
que nos mostra que o problema educacional de um povo pode ser considerado do ponto de vista
quantitativo. De nada vale abrirem-se muitas escolas, sem que as mesmas se encontrem preparadas
para o exercício integral da função educativa. O progresso educacional de um povo não resulta do
número de suas escolas, mas sim do valor intelectual e moral dos seus mestres.

        A partir do século XX, a educação tradicionalista da China começou a sofrer a influência das
idéia educativas do Japão e do Ocidente, iniciada pelas missões cristãs. Em 1911, já se encontrava o
ensino chinês completamente transformado, com grande número de escolas do tipo ocidental onde
lecionavam professores estrangeiros contratados. Ao mesmo tempo, milhares de estudantes chineses
seguiam para a França, Alemanha, Estados Unidos e Japão, a fim de aperfeiçoarem seus estudos.

        1.4 A Educação Egípcia

        Um dos traços marcantes da cultura egípcia foi o seu realismo. Esse aspecto se evidencia
quando analisamos o espírito e a organização da educação dos egípcios. Como todos os sistemas
pedagógicos orientais, a educação egípcia visou à transmissão às novas gerações de uma tradição
revelada, de um tesouro cultural, considerado como de origem divina.

        A formação religiosa e espiritual representou um dos objetivos primaciais da educação egípcia.

         A sociedade egípcia era dividida em numerosas classes, ainda que sem a fixidez e a
impenetrabilidade das castas hindus: sacerdotes, guerreiros, escribas, comerciantes, operários,
camponeses. A classe sacerdotal era a mais elevada e tinha a seu cargo a direção intelectual, moral e
religiosa da nação, como “detentora que era das tradições, da literatura, da filosofia, das ciências,
consideradas como patrimônio sagrado e inalienável, de que só a pessoas reais podiam de certo modo
compartilhar”. Sucedia à casta sacerdotal, a classe guerreira, embora grande parte fosse constituída de
estrangeiros mercenários. Os escribas eram letrados que tinham estudado e sabiam ler, escrever e
calcular. Desempenhavam cargos públicos, eram sustentados pelos faraós, recebiam doações de
terras e gozavam de certos privilégios à maneira dos mandarins chineses.

         A mulher egípcia ocupava uma situação social superior à da mulher chinesa e hindu, embora a
poligamia fosse praticada em todas as classes, com exceção da sacerdotal. Era considerada senhora
do lar, possuía alguma educação e tinha papel saliente na formação das novas gerações. As crianças
eram cercadas de todos os cuidados pela família e envolvidas numa atmosfera de carinho e de amor.
Dado o espírito religioso da sociedade egípcia, eram habituadas à prática da piedade e da obediência.
Para se tornarem sadias e resistentes de corpo e espírito, eram submetidas a um regime de vida
simples e sóbrio.
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Bases sócio-filosóficas da Educação Física

  • 1. FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94 CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA QUIXERAMOBIM – CEARÁ ABRIL E MAIO – 2011
  • 2. 2 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE ESTADUAL VALE DO ACARAÚ Reconhecida pela Portaria nº. 821/MEC – D.O.U. de 01.06.94 CAMPUS AVANÇADO DE QUIXERAMOBIM CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA Prof.: Antonio Martins de Almeida Filho EMENTA DA DISCIPLINA Professor: Antônio Martins de Almeida Filho Disciplina: BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA Campus Avançado de Quixeramobim Período de oferta: abril e maio de 2011 Turma - 260130 DISCIPLINA CARGA CRÉDITOS PRÉ-REQUISITO HORÁRIA BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS 60 04 - DA EDUCAÇÃO FÍSICA Professor: Antônio Martins de Almeida Filho Ementa Discussão das condições históricas e das grandes correntes do pensamento social que tornaram possível o surgimento da Sociologia como ciência. Debate das polêmicas que constituem o campo de reflexão desta Unidade Educacional (objeto e método). Visão geral e crítica das grandes correntes sociológicas e de seus respectivos conceitos, relacionando-as com o mundo de trabalho, a sociedade, o ser humano e a cultura corporal enquanto objeto de estudo da Educação Física. Objetivos 1 GERAL: Consolidar um “quadro histórico-epistemológico” sobre a “atividade física/Educação Física” no Brasil que possibilite sínteses provisórias sobre a gênese da Educação Física, o que ela vem sendo e perspectivas futuras, tendo como referência o “olhar” sobre seu objeto de estudo. 2 ESPECÍFICOS: • Promover a reflexão histórica das bases sócio-filosóficas da atividade física. • Analisar as principais correntes das ciências sociais: Positivismo, Historicismo e Materialismo Histórico-dialético. • Promover o estudo das bases da Educação Física enquanto campo acadêmico. • Realizar a análise do(s) objeto(s) de estudo que se propõem singularizar a Educação Física enquanto campo acadêmico. • Promover a reflexão e investigação de como se constrói a identidade da Educação Física da região.
  • 3. 3 Conteúdo Programático Positivismo, Historicismo e o Materialismo Histórico-dialético. Bases sócio-filosóficas da atividade física. A crise de identidade da Educação Física em sua função social – década de 1980. A transformação da crise de identidade da Educação Física em sua função social para a crise de identidade epistemológica – década de 1990. Perspectivas de campos acadêmicos na Educação Física. Metodologia A unidade pedagógica terá 30 h/a professor presencial e 15 h/a de atividades com orientação. A primeira terá caráter de produção teórica-reflexiva utilizando-se de procedimentos metodológicos tais como exposições dialogadas, estudos dirigidos, discussões a partir de estudos teóricos, reflexões acerca da prática pedagógica, leituras individuais e em grupos, debates, produções escritas. O segundo terá caráter de investigação prática e se utilizando-se de procedimentos metodológicos tais como relatórios, entrevistas e investigação de problemáticas. Ao término da unidade ocorrerá o festival da docência onde os grupos apresentarão a consolidação do conhecimento construído na unidade. Recursos Data show, retroprojetor, transparências, textos, painéis, quadro, pincéis, apagador e giz. Avaliação A avaliação será construída através das observações realizadas durante as aulas consolidadas em um memorial da unidade construído pelo professor considerando-se a participação, a evolução da aprendizagem, a responsabilidade e o compromisso do aluno. A cada unidade haverá uma consolidação de notas individuais que inclui auto avaliação, produção textual individual, docência em grupo ou individual sobre o conteúdo. Bibliografia _____________. A construção do campo acadêmico “Educação Física” no período de 1960 até nossos dias: onde ficou a Educação Física?, in: Anais do IV Encontro Nacional de História do Esporte, Lazer e Educação Física. Belo Horizonte, MG, 22 a 26 de outubro de 1996. _____________. Educação Física & Ciência: cenas de um casamento (in) feliz. Ijuí, Unijuí, 1999. ALEXANDRE, Júlio César da Costa. Epistemologia e Educação Física: significado e importância (artigo). BOTTOMORE. Introdução à Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1977. BRACHT, Valter. Educação Física e Aprendizagem Social. Porto alegre, Magister, 1992.
  • 4. 4 CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª. Edição. Editora Ática. São Paulo – SP, 2004. COSTA, Cristina. Sociologia – Introdução à Ciência da Sociedade. 2ª. Edição. Editora Moderna . São Paulo – SP, 2002. CRISÓRIO, Ricardo & Valter Bracht (coords.). A Educação Física no Brasil e na Argentina: Identidade, Desafios e Perspectivas. Campinas, SP, Autores Associados, 2003. HELAL, Ronald. O que é Sociologia do Esporte, São Paulo, Editora Brasiliense, 1990. HOKHEIMER, Max e Adorno, Theodor (Org.). Temas Básicos da Sociologia. São Paulo, Cultrix, 1977. LAPLANTINE, François. O Campo e a Abordagem Antropológica, In: Laplantine, F. Aprender Antropologia (1987). São Paulo, Brasiliense, 1988. LARAIA, Roque de Barros. Como opera a cultura, In: Laraia, Roque de Barros. Cultura: Um Conceito Antropológico. Rio de Janeiro, Zahar, 1986. LÁZARO, André. Metamorfoses do Corpo, In: Lázaro, André. Amor do Mito ao Mercado. São Paulo, Vozes, 1997. LIMA, Homero Luis Alves de. Tendências Epistemológicas em torno do “movimento humano” e suas implicações para o campo acadêmico da Educação Física. (artigo). LINO, Castellani, Filho. Educação Física Escolar: temos o que ensinar? Ou considerações acerca do conhecimento (re) conhecido pela Educação Física Escolar, in: Política Educacional e Educação Física. Campinas, SP, Autores Associados, 1998. LOWY, Michael. Ideologia e Ciências Sociais: elementos para uma análise marxista. São PAULO. Cortez, 1985. PONCE, Aníbal. Educação e Luta de Classes. Rio de Janeiro, Ed. Cortez, Autores Associados, 1989.
  • 5. 5 UNIDADE I POSITIVISMO, HISTORICISMO E O MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO TEXTO 01 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE POSITIVISMO AUGUSTO COMTE Positivismo é um conceito utópico que possui distintos significados, englobando tanto perspectivas filosóficas e científicas do século XIX quanto outras do século XX. Desde o seu início, com Augusto Comte (1798-1857) na primeira metade do século XIX, até o presente século XXI, o sentido da palavra mudou radicalmente, incorporando diferentes sentidos, muito deles opostos ou contraditórios entre si. Nesse sentido, há correntes de outras disciplinas que se consideram "positivistas" sem guardar nenhuma relação com a obra de Comte. Exemplos paradigmáticos disso são o Positivismo Jurídico, do austríaco Hans Kelsen, e o Positivismo Lógico (ou Círculo de Viena), de Rudolph Carnap, Otto Neurath e seus associados. Para Comte, o Positivismo é uma doutrina filosófica, sociológica e política. Surgiu como desenvolvimento sociológico do Iluminismo, das crises social e moral do fim da Idade Média e do nascimento da sociedade industrial - processos que tiveram como grande marco a Revolução Francesa (1789-1799). Em linhas gerais, ele propõe à existência humana valores completamente humanos, afastando radicalmente a teologia e a metafísica (embora incorporando-as em uma filosofia da história). Assim, o Positivismo associa uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma ética humana radical, desenvolvida na segunda fase da carreira de Comte. 1.1 Método do Positivismo de Augusto Comte O método geral do positivismo de Auguste Comte consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo e ao idealismo, através da promoção do primado da experiência sensível, única capaz de produzir a partir dos dados concretos (positivos) a verdadeira ciência (na concepção positivista), sem qualquer atributo teológico ou metafísico, subordinando a imaginação e à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. O Positivismo nega à ciência qualquer possibilidade de investigar a causa dos fenômenos naturais e sociais, considerando este tipo de pesquisa inútil e inacessível, voltando-se para a descoberta e o estudo das leis (relações constantes entre os fenômenos observáveis). Em sua obra Apelo aos conservadores (1855), Comte definiu a palavra "positivo" com sete acepções: real, útil, certo, preciso, relativo, orgânico e simpático. O Positivismo defende a idéia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro. Assim sendo, desconsideram-se todas as outras formas do conhecimento humano que não possam ser comprovadas cientificamente. Tudo aquilo que não puder ser provado
  • 6. 6 pela ciência é considerado como pertencente ao domínio teológico-metafísico caracterizado por crendices e vãs superstições. Para os Positivistas o progresso da humanidade depende única e exclusivamente dos avanços científicos, único meio capaz de transformar a sociedade e o planeta Terra no paraíso que as gerações anteriores colocavam no mundo além-túmulo. O Positivismo é uma reação radical ao Transcendentalismo idealista alemão e ao Romantismo, no qual os afetos das individuais, coletivos e a subjetividade são completamente ignoradas, limitando a experiência humana ao mundo sensível e ao conhecimento aos fatos observáveis. Substitui-se a Teologia e a Metafísica pelo Culto à Ciência, o Mundo Espiritual pelo Mundo Humano, o Espírito pela Matéria, a fé pela razão. A idéia-chave do Positivismo Comtiano é a Lei dos Três Estados, de acordo com a qual o homem passou e passa por três estágios em suas concepções, isto é, na forma de conceber as suas idéias e a realidade, quais sejam: 1. Teológico: o ser humano explica a realidade apelando para entidades supranaturais (os deuses"), buscando responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?"; além disso, busca-se o absoluto; 2. Metafísico: é uma espécie de meio-termo entre a teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade: "o Éter", "o Povo", "o Mercado financeiro", etc. Continua-se a procurar responder a questões como "de onde viemos?" e "para onde vamos?" e procurando o absoluto é a busca da razão e destino das coisas. é o meio termo entre teológico e metafísico. 3. Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o "porquê" das coisas, mas sim o "como", através da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação subordina-se à observação e busca-se apenas pelo observável e concreto. Na obra "Discurso sobre o espírito positivo" (1848), Comte explicitou que o espírito positivo é maior e mais importante que a mera cientificidade, na medida em que esta abrange apenas questões intelectuais e aquele compreende, além da inteligência, também os sentimentos (ou, em termos contemporâneos, a subjetividade em sentido amplo) e as ações práticas. Auguste Comte - através da obra Sistema de Política Positiva (1851-1854) - institui a Religião da Humanidade. Após a elaboração de sua filosofia, Comte concluiu que deveria criar uma nova religião: afinal, para ele, as religiões do passado eram apenas formas provisórias da única e verdadeira religião : a religião positiva. Segundo os positivistas, as religiões não se caracterizam pelo sobrenatural, pelos "deuses", mas sim pela busca da unidade moral humana. Daí a necessidade do surgimento de uma nova Religião que apresenta um novo conceito do Ser Supremo, a Religião da Humanidade. Comte foi profundamente influenciado a tal pela figura de sua amada Clotilde de Vaux. Segundo os Positivistas, a Teologia e a Metafísica, nunca inspiraram uma religião verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo. Estabelecendo a unidade espiritual através da ciência, a Religião da Humanidade possui como principal objetivo a Regeneração Social e Moral.
  • 7. 7 Assim como o catolicismo está fundamentado na filosofia escolástica de São Tomás de Aquino, a Religião da Humanidade está fundamentada na filosofia positivista de Auguste Comte. A Religião da Humanidade possui como Ser Supremo a Humanidade Personificada, tida como Deusa pelos positivistas. Ela representa o conjunto de seres convergente de todas as gerações, passadas, presentes e futuras que contribuíram, que contribuem e que contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano. A Ciência Clássica se constitui no dogma da Religião da Humanidade. Também existem templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à Humanidade (chamada Grão-Ser pelos positivistas). A religião positivista caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes litúrgicas, dias de santos (grandes tipos humanos), sacramentos, comemorações cívicas e pelo uso de um calendário próprio, o Calendário Positivista (um calendário lunar composto por 13 meses de 28 dias). O lema da religião positivista é : "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". Seu regime é: "Viver às Claras" e "Viver para Outrem". Auguste Comte foi o criador da palavra "altruísmo", palavra que segundo o fundador, resume o ideal de sua Nova Religião. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Positivismo Acesso em 18 de abril de 2011. TEXTO 02 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE HISTORICISMO ERNST TROELTSCH Historicismo (ou ainda historismo) designa, em termos gerais, uma forma de abordagem dos fenômenos e das culturas humanas. De acordo com Ernst Troeltsch, o termo remete a uma "Historicização fundamental de todo o pensamento acerca dos seres humanos, sua cultura e seus valores". O Historicismo constitui, assim, a base de uma visão de mundo tipicamente moderna e ocidental. Esta fundamenta-se na noção de que as configurações do mundo humano, num dado momento presente, sempre são o resultado de processos históricos de formação, os quais são passíveis de ser mentalmente reconstruídos e, portanto, compreendidos. A perspectiva historicista surgiu no espaço acadêmico da Europa ocidental na segunda metade do século XVIII. Ao longo do século XIX e até as primeiras décadas do século XX, o Historicismo obteve um forte impacto social, sobretudo na Alemanha.
  • 8. 8 O posicionamento historicista proposto por Hegel sugere que não há um critério objetivo para determinar a melhor teoria de análise de um determinado objeto de estudo. De acordo com esse viés, a ciência, filosofia ou quaisquer outras disciplinas, estão fadadas à sua historicidade. Desde a década de 1990, alguns pensadores pós-modernos têm utilizado o termo Historicismo para descrever a visão de uma verdade absoluta, principalmente sobre questões filosóficas que persistiram ao longo dos séculos. O termo "novo Historicismo" é também empregado para a vertente do pensamento literário que interpreta os poemas, as peças de teatro e as demais produção desta área como a expressão de super-estruturas da sociedade. Stephen Greenblatt é o nome mais proeminente desse pensamento. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Historicismo. Acesso em 18 de abril de 2011. TEXTO 03 1. A CORRENTE FILOSÓFICA DENOMINADA DE MATERIALISMO HISTÓRICO- DIALÉTICO KARL MARX No século XIX, houve a efetivação da sociedade burguesa e a implantação do capitalismo industrial, que trouxe a implantação de um novo modelo de sociedade, que desde o seu surgimento já é criticada pelas suas contradições internas e principalmente pelas desigualdades sociais que traz consigo. Na linha destas críticas e do estudo da sociedade capitalista destacam-se dois pensadores: Karl Marx e Friedrich Engels. Ambos elaboram uma nova concepção filosófica do mundo, o “materialismo histórico e dialético”, e ao fazerem a crítica da sociedade em que vivem, apresentam propostas para sua transformação: o socialismo científico. Seu método de explicação da sociedade, aplicado à história é o “materialismo histórico e dialético”. 3.1 O que afirma o Materialismo? “As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial.” Afirma que o modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações
  • 9. 9 intelectuais de uma época. Assim, a base material ou econômica constitui a "infra-estrutura" da sociedade, que exerce influência direta na "super-estrutura", ou seja, nas instituições jurídicas, políticas (as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. Segundo Marx, a base material é formada por forças produtivas (que são as ferramentas, as máquinas, as técnicas, tudo aquilo que permite a produção) e por relações de produção (relações entre os que são proprietários dos meios de produção, as terras, as matérias primas, as máquinas e aqueles que possuem apenas a força de trabalho. 3.2 O que afirma a Dialética? A dialética marxista postula que as leis do pensamento correspondem às leis da realidade. A dialética não é só pensamento: é pensamento e realidade a um só tempo. Mas, a matéria e seu conteúdo histórico ditam a dialética do marxismo: a realidade é contraditória com o pensamento dialético. A contradição dialética não é apenas contradição externa, mas unidade das contradições, identidade: "a dialética é ciência que mostra como as contradições podem ser concretamente idênticas, como passam uma na outra, mostrando também porque a razão não deve tomar essas contradições como coisas mortas, petrificadas, mas como coisas vivas, móveis, lutando uma contra a outra em e através de sua luta." (Henri Lefebvre, Lógica formal/ Lógica dialética, trad. Carlos N. Coutinho, 1979, p. 192). Os momentos contraditórios são situados na história com sua parcela de verdade, mas também de erro; não se misturam, mas o conteúdo, considerado como unilateral é recaptado e elevado a nível superior. A dinâmica HIPÓTESE+DESENVOLVIMENTO+TESE+ANTITESE+DIALÉTICA=SÍNTESE, que expressa a contundência deste ensinamento, afirmando que tudo é fruto da luta de idéias e forças, que na sua oposição geram a realidade concreta, que uma vez sendo síntese da disputa, torna-se novamente tese, que já carrega consigo o seu oposto da sua antítese, que numa nova luta de um ciclo infinito gerará o novo. A nova síntese. A hipótese fundamental da dialética é de que não existe nada eterno, fixo, pois tudo está em perpétua transformação, em movimento, tudo está sujeito ao contexto histórico do dinâmico e da transformação. Outro elemento é a idéia de totalidade, a percepção da realidade social como um todo que está relacionado entre si. Há também as contradições internas da realidade, em relação ao valor e não valor, lucro ou não lucro, a mais valia, por exemplos, dentro da Produção, seja essa positiva ou negativa. Marx utilizou o método dialético para explicar as mudanças importantes ocorridas na história da humanidade através dos tempos. Ao estudar determinado fato histórico, ele procurava seus elementos contraditórios, buscando encontrar aquele elemento responsável pela sua transformação num novo fato, dando continuidade ao processo histórico. No Prefácio do livro "Contribuição à crítica da economia política", Marx identificou na História, de maneira geral, os seguintes estágios de desenvolvimento das forças produtivas, ou modos de produção: comunismo primitivo, o asiático, o escravista (da Grécia e de Roma), o feudal e o burguês. Ou seja, dividiu a história em períodos conforme a organização do trabalho humano e quem se beneficiasse dele. Marx desenvolveu uma concepção materialista da História, afirmando que o modo pelo qual a produção material de uma sociedade é realizada constitui o fator determinante da organização política e das representações intelectuais de uma época. Se a realidade não é estática, mas dialética e está em transformação pelas suas contradições internas. Assim, a base material ou econômica constitui a "infra-estrutura" da sociedade, que exerce influência direta na "superestrutura", ou seja, nas instituições jurídicas, políticas (as leis, o Estado) e ideológicas (as artes, a religião, a moral) da época. No processo histórico, essas contradições são geradas pelas lutas entre as diferentes classes sociais. Ao chamar a
  • 10. 10 atenção para a sociedade como um todo, para sua organização em classes, para o condicionamento dos indivíduos à classe a que pertencem, esses autores também exercem uma influência decisiva nas formas posteriores de se escrever a história. A evolução de um modo de produção para o outro ocorreu a partir do desenvolvimento das forças produtivas e da luta entre as classes sociais predominantes em cada período. Assim, o movimento da História possui uma base material, econômica e obedece a um movimento dialético. E conforme muda esta relação, mudam-se por conseguinte as leis, a cultura, a literatura, a educação, as artes... Propõem uma disputa que não mais seja baseada em coletividade, mas sim nos indivíduos e nos interesses que têm. Bem como a relação destas faz gerar de forma dialética a destruição dos atuais modelos de sociedade, de produção, de pensamento, e de poder econômico e político. Fazer- nos pensar em como estas relações fazem com que pequenos homens possam ser considerados grandes objetos da história, ao invés de se tornarem meros seres alienados e guiados pelas consciências dominantes contrário. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Materialismo_dial%C3%A9tico#O_que_afirma_o_Materialismo.3F. Acesso em 17 de abril de 2011.
  • 11. 11 UNIDADE II TEXTO 01 1. INTRODUÇÃO ÀS BASES SÓCIO-FILOSÓFICAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA 1.1 Educação? Educações? Seja bem-vindo(a) à disciplina Bases Sócio-Filosóficas da Educação Física. Esta disciplina integra a base curricular e teórica do Curso de Habilitação em Educação Física da universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, através do Instituto Dom José de Educação e Cultura, Campus Avançado da Cidade de Quixeramobim – Ceará. Esta apostila elaborada pelo professor Antônio Martins de Almeida Filho compreenderá uma série de reflexões em torno de questionamentos acerca da educação universal e principalmente da educação brasileira. Abordará conteúdos relevantes pra a formação profissional e, ao mesmo tempo, será ponte para o estudo de outras disciplinas contidas no currículo acadêmico, em especial para a formação dos novos educadores físicos e áreas afins, propiciando uma ampla compreensão, preparação humana e acadêmica dos futuros profissionais integrantes desta Universidade. Identificaremos e analisaremos os fundamentos teóricos, históricos, sociais, filosóficos e as políticas publicas voltada para a educação, com foco na educação física escolar. Alguns de vocês já são professores, educadores físicos e outros estão se preparando para isso. Todos juntos vão construir e reconstruir conceitos, atitudes, habilidades e valores imprescindíveis à atuação como profissionais de educação, conscientes de seu papel pedagógico, político e social. Diante das considerações anteriores vamos iniciar o aprofundamento dos conteúdos programáticos propostos para esta disciplina. Aprender e ensinar - Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre. (PAULO FREIRE. Pedagogia da Autonomia. P. 34. 1998). Segundo Ghiraldelli Jr. (2003, p. 1), “a palavra educação foi derivada, de duas palavras do latim: educere, que significa “conduzir de fora”, “dirigir exteriormente”, e educare que significa “sustentar, alimentar, criar”. Ninguém escapa da educação. Em casa, na rua, na igreja ou na escola, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender e ensinar. Para saber, para fazer ou para conviver com uma ou com várias: Educação? Educações? Presente em todos os espaços, de diferentes formas, nos diferentes contextos, a educação invade nossas vidas. Nessa perspectiva, sempre achamos que temos alguma coisa a dizer sobre educação. Assim, iniciamos nossa reflexão com o que alguns índios, certa vez, escreveram: Há muitos anos, nos Estados Unidos, os estados da Virgínia e Maryland assinaram um tratado de paz com os índios das Seis Nações. Sabendo que as promessas e os símbolos da educação sempre foram muito adequados em momentos solenes como aquele, logo depois dos termos do tratado serem assinados, os governantes americanos mandaram cartas aos índios convidando-os para
  • 12. 12 que enviassem alguns dos seus jovens às escolas dos brancos. Os chefes indígenas responderam agradecendo e recusando. Veja, abaixo, alguns trechos da justificativa. ... Nós estamos convencidos, portanto, que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração. Mas daqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa idéia de educação não é a mesma que a nossa. ... Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formandos nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando eles voltaram para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportarem o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros. Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceitá-la, para mostrar a nossa gratidão, oferecemos aos nobres senhores que nos enviem alguns dos seus jovens, que lhes ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens.(BRANDÃO, 1998, p.18-19) Essa carta acabou conhecida porque, alguns anos mais tarde, Benjamim Franklin adotou o costume de divulgá-la. A carta dos índios que vocês acabaram de ler apresenta algumas das questões importantes que vêm sendo objeto de estudo, reflexão e discussão de pesquisadores/as e educadores/as. Benjamin Franklin (1706-1790) Franklin tornou-se o primeiro Postmaster General (ministro dos correios) dos Estados Unidos da América. Foi um jornalista, editor, autor, filantropo, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata e inventor estadunidense, que foi também um dos líderes da Revolução Americana, e é muito conhecido pelas suas muitas citações e pelas experiências com a eletricidade. Um homem religioso, calvinista, é ao mesmo tempo uma figura representativa do Iluminismo. 1.2 Será que há uma forma única, um único modelo de educação? Acreditamos que não. Aprende-se e ensina-se em todos os lugares. Nesse sentido, a escola não é o único espaço educacional; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor não é o único praticante. Parafraseando (MCLUHAN, 1964), estamos vendo que chegará o dia – e talvez este já seja uma realidade – em que nossas crianças aprenderão muito mais e com maior rapidez em contato com o mundo exterior do que no recinto da escola. Isso nós já podemos observar no cotidiano. Uma vez que já assistimos a jovens e adultos que nos perguntam: Por que retornar à escola e deter minha educação? Este questionamento é feito por jovens que interrompem prematuramente seus estudos. Parece uma pergunta arrogante, mas como nos diz o autor acerta no alvo: o meio urbano poderoso explode de energia e de uma massa de informações diversas, insistentes, irreversíveis. A Educação, entendida como construção coletiva de produção do conhecimento, da ação social, busca intencional de sentidos e significados, diálogo e interação, perpassa todas as práticas sociais.
  • 13. 13 Em casa, na rua, na igreja, no sindicato, no clube, de um modo ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para fazer, para saber, para ensinar, para ser ou conviver. Mas a educação (o processo educativo) carece de definições quanto às suas finalidades e caminhos usados na sua concretização, conforme as opções que se façam quanto ao tipo de homem/mulher – ser que se quer formar, que tipo de sociedade se deseja e se quer construir. Nesse sentido, a educação, conceitualmente e na prática, passa a sofrer as diversas influências das diferentes forças sociais e políticas que a percebem como objeto de poder e das Ideologias. Passa então a ser um instrumento fundamental no campo das disputas políticas e das intenções ideológicas. Ideologia - De acordo com os escritos de Karl Marx, é aquele sistema ordenado de normas e de regras (com base no qual as leis jurídicas são feitas) que obriga os homens a comportarem-se segundo as vontades “do sistema”, mas como se estivessem se comportando segundo a sua própria vontade. Ou seja, o homem está sendo manobrado e explorado e na se percebe como tal, aceita passivamente sem nenhum questionamento. 1.3 E por que essa disputa ideológica e sócio-política acontece? Porque, quando homens e mulheres têm acesso à educação, a um “tipo” de educação e ao conhecimento podem desvendar os motivos das desigualdades. Bem informados, podemos reivindicar e exigir nossos direitos em todos os espaços sociais: na família, na escola, no mercado, no ônibus, nos serviços de saúde. Enfim, em todos os espaços sociais nos quais estamos inseridos. Podemos ainda mais, quando qualificarmos melhor nossa participação nos espaços sociais de decisão: conselhos escolares, associação de moradores, sindicatos, partidos políticos, igreja etc. A socialização deste conhecimento e deste saber não interessa à classe dirigente que nós tenhamos acesso. Isso pode se tornar perigoso, libertar o homem de sua própria consciência é dá-lo ferramentas para que ele venha a ser ativo e participativo. Esse conhecimento não interessa a todos, afinal, quando não sabemos, podemos ser manipulados. O saber liberta o homem da ignorância e uma vez liberto desta ignorância o homem é levado a questionar, a participar, a reivindicar. É esse entendimento que vamos aprofundar ao longo da leitura dos diferentes conceitos e do contexto histórico em que foram elaborados. As diferentes concepções e teorias, ao longo da história, têm focado a Educação com ênfase, ora no conhecimento, ora nos métodos de ensino, ora no aluno, ora no educador, ora em ambos. Essas diferentes formas de “pensar” trouxeram e trazem conseqüências diversas em cada momento histórico, para os grupos hegemônicos de cada sociedade e todas se revestem de uma intencionalidade, de objetivos, que exercem forte influência sobre nosso jeito de fazer Educação e no modo como nos organizamos socialmente. Você perceberá que o Conceito de Educação não é consenso, ao contrário, abrange uma diversidade significativa de concepções e correntes de pensamento, que estão relacionadas diretamente ao período histórico, ao movimento social, econômico, cultural, político nacional e internacional. Quer conhecer o que alguns pensadores e educadores dizem sobre o que é educação e qual o seu papel social, político e cultural?
  • 14. 14 Então preste atenção às idéias, que lhe apresentaremos logo a seguir, que foram ou são fundamentos para as práticas pedagógicas, que veremos mais profundamente em outros trechos do nosso percurso. Vamos iniciar conhecendo o pensamento de Émile Durkheim, para quem a Educação é essencialmente o processo pelo qual aprendemos a ser membros da sociedade. Educação é socialização! É uma ilusão acreditar que podemos educar nossos filhos como queremos. E, afirma que existem certos costumes, regras que precisam e devem ser obrigatoriamente transmitido no processo educacional, gostemos ou não deles. Émile Durkheim (1858 - 1917), sociólogo francês, positivista, viveu em um rico e conturbado momento histórico: de um lado, a Revolução Francesa, e de outro, a Revolução Industrial. “Bebeu” na fonte do pensamento de Auguste Comte (1798 - 1857), pai do Positivismo e filho do Iluminismo que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Para Durkheim, a tarefa da educação era buscar “soluções” para a crise da burguesia do final de século XIX, que lutava para continuar como detentora do poder político e econômico. Seu pensamento refletia diferentes “educações”. Cada casta, classes ou grupo social deveria ter sua própria educação para adequar cada um a seus meios específicos de vida, ou seja, aqueles que nascessem pobres deveriam adaptar-se à sua realidade, e aqueles que nascessem ricos deveriam adaptar-se à sua condição e, assim, cada um desempenharia o seu papel social de forma harmoniosa. Suas idéias influenciaram grandemente as correntes pedagógicas até os dias atuais. Outro importante pensador, Karl Marx, dizia que a educação é diretamente relacionada aos interesses de classe. “Conforme o conteúdo de classe ao qual estiver exposta, ela pode ser uma educação para a alienação ou para a emancipação”. Karl Marx (1818 - 1883), intelectual alemão, é considerado um dos fundadores da Sociologia, mas, que contribuiu com várias outras áreas: filosofia, economia, história. Elaborou, em parceria com Friedrich Engels (1820-1895) também filósofo alemão, a Doutrina dos teóricos do Socialismo Científico ou Marxismo e escrevem juntos o Manifesto Comunista, “historicamente um dos tratados políticos de maior influência mundial, publicado pela primeira vez em 21/02/1848, em que os autores partem de uma análise histórica, distinguindo as várias formas de opressão social durante os séculos e situa na burguesia moderna como nova classe opressora, que super-valoriza a liberdade econômica em detrimento das relações pessoais e sociais, assim tratando o operário como uma simples peça de trabalho que o deixa completamente desmotivado e contribuindo para a sua miserabilidade e coisificação. O professor Tosi Rodrigues (2002) coloca que Marx, a partir de seus estudos sobre as conseqüências da Revolução Industrial, na vida dos trabalhadores ingleses, concluiu que o tipo de educação dado às crianças operárias era tão precário que só poderia servir para perpetuar as relações de opressão às quais as crianças e seus pais estavam sujeitos. Segundo relato citado por Marx, em seu livro sobre a realidade de uma das escolas que visitou, “a sala de aula tinha 15 pés de comprimento por 10 pés de largura e continha 75 crianças que grunhiam algo ininteligível (...) Além disso, o mobiliário escolar era pobre, faltavam livros e material de ensino e uma atmosfera viciada e fétida exercia efeito deprimente sobre as infelizes crianças. Estive em muitas dessas escolas e nelas vi filas inteiras de crianças que não faziam absolutamente nada, e a
  • 15. 15 isso se dá o atestado de freqüência escolar; e a esses meninos figuram na categoria de instruídos de nossas estatísticas oficiais” (O Capital, 1968, Vol. 1, Livro 1). Os estudos de Marx tiveram e têm uma forte influência nas idéias pedagógicas no mundo e aqui no Brasil. Dessa corrente de pensamento sociológico, decorre as chamadas pedagogias críticas, que estudaremos mais adiante. Seguindo a coerência em nossa linha de raciocínio encontramos na França o pensamento de Durkheim, depois, na Alemanha onde encontramos Marx. Agora, seguindo a coerência cronológica da história, vamos conhecer outro importante pensador na Suíça e, logo em seguida, voltaremos ao Brasil. Jean-Jaques Rousseau afirmava que “nascemos fracos, precisamos de força; nascemos desprovidos de tudo, temos necessidade de assistência; nascemos estúpidos, precisamos de juízo. Tudo que não temos ao nascer e de que precisamos, quando adultos, nos é transmitido pela educação”. Seria, para ele, a educação responsável pela formação do cidadão em todos os sentidos. Pois acreditava que o homem nasce bom, mas a sociedade o perverte. Jean-Jaques Rousseau (1712 - 1978), filósofo e escritor suíço, foi uma das principais inspirações ideológicas da segunda fase da Revolução Francesa: inspirou fortemente os revolucionários, que defendiam o princípio da soberania popular e da igualdade de direitos. Apontava a desigualdade e a injustiça como frutos da competição e da hierarquia mal constituída. Segundo suas idéias, o grande objetivo do governo deveria ser assegurar liberdade, igualdade e justiça para todos, independentemente da vontade da maioria. Estudioso da filosofia da educação enalteceu a “educação natural”, defendendo um acordo livre entre o mestre e o aluno. Seu trabalho se tornou a diretriz das correntes pedagógicas nos séculos seguintes. Lançou sua filosofia, não somente através de escritos filosóficos formais, mas também de romances, cartas e de sua autobiografia. Após conhecer os principais acontecimentos sócio-filosóficos que nortearam as correntes e concepções de pensamentos do mundo vamos conhecer as influências destes pensamentos no Brasil. 1.4 Influências destes pensamentos filosóficos no Brasil Vamos conhecer os liberais e suas idéias sobre a educação, que eram defendidas com um grande otimismo pedagógico: eles queriam reconstruir a sociedade por meio da educação (GADOTTI, 1993). Vocês já ouviram falar dos liberais? Se não, prestem atenção. Era um grupo de intelectuais profundamente enraizados na classe burguesa, que defendiam e justificavam o modelo econômico da época, que privilegiavam alguns, em detrimento da maioria. Defendiam, apenas, alterações no como ensinar, e não, no modelo de educação excludente. Para os Liberais, o homem é produto do meio; ele e sua consciência se formam em suas relações acidentais, que podem e devem ser controladas pela educação, a qual deve trabalhar para a manutenção da ordem vigente, atuando diretamente com o sistema produtivo. O objetivo primeiro da educação é produzir indivíduos competentes para o mercado de trabalho, transmitindo eficientemente informações precisas, objetivas e rápidas. (LÍBANEO, 1989).
  • 16. 16 Parafraseando Paulo Freire, a educação é o fator mais importante para se alcançar a felicidade. O autor destacava ainda em seus escritos a educação como ação de conhecimento, como ato político, como direito de cidadania e, nesse sentido, o conhecimento, como construção social. Ainda segundo o autor, ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, as pessoas se educam entre si, mediatizadas pelo mundo. (2002 p.68). Paulo Freire: Biografia resumida - O caminho de um Educador. Nasceu em Recife em 1921 e faleceu em 1997. É considerado um dos grandes educadores da atualidade e respeitado mundialmente. Publicou várias obras que foram traduzidas e comentadas em vários países. Suas primeiras experiências educacionais foram realizadas em 1962 em Angicos, no Rio Grande do Norte, onde 300 trabalhadores rurais se alfabetizaram em 45 dias. Participou ativamente do MCP (Movimento de Cultura Popular) do Recife. Suas atividades são interrompidas com o golpe militar de 1964, que determinou sua prisão. Exila-se por 14 anos no Chile e posteriormente vive como cidadão do mundo. Com sua participação, o Chile, recebe uma distinção da UNESCO, por ser um dos países que mais contribuíram à época, para a superação do analfabetismo. Em 1970, junto a outros brasileiros exilados, em Genebra, Suíça, cria o IDAC (Instituto de Ação Cultural), que assessora diversos movimentos populares, em vários locais do mundo. Retornando do exílio, Paulo Freire continua com suas atividades de escritor e debatedor, assume cargos em universidades e ocupa, ainda, o cargo de Secretário Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo, na gestão da Prefeita Luisa Erundina. Algumas de suas principais obras: Educação como Prática de Liberdade, Pedagogia do Oprimido, Cartas à Guiné Bissau, Vivendo e Aprendendo, A importância do ato de ler, Pedagogia da Autonomia. Freire (1997), também nos ensina que a educação não é neutra, ao contrário, é um dos instrumentos capazes de: garantir aos cidadãos o atendimento às necessidades que permitem o seu desenvolvimento integral, que possibilita a integração entre o pensar e o agir, porque quando o pensar é privado de realidade e o agir, de sentido, ambos ficam sem significado. Caso contrário, podemos reproduzir uma educação que se coloca como mera transmissora de informações descontextualizadas historicamente, sem autor, sem intencionalidade “clara” e privada de sentido, a que o autor denominou de educação bancária. Minha presença no mundo não é a de quem nele se adapta, mas de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da história. (FREIRE, 1983, p. 57). Sendo assim, educar é construir, é libertar o homem do determinismo, passando a reconhecer o seu papel na História e onde a questão da identidade cultural, tanto em sua dimensão individual, como em relação à classe dos educandos é essencial à prática pedagógica libertadora. Sem respeitar essa identidade, sem autonomia, sem levar em conta as experiências vividas pelos educandos antes de chegarem à escola, o processo será inoperante, somente meras palavras despidas de significação real. Temos que lutar por uma educação dialógica, pois só assim se pode estabelecer a verdadeira comunicação da aprendizagem entre seres constituídos de alma, prazer, sentimentos. Em seus escritos, Freire destaca o ser humano como um ser autônomo, livre, criativo, ativo, capaz de significar e ressignificar suas ações. Essa autonomia está presente na definição de vocação
  • 17. 17 ontológica de ‘ser mais’ que está associada à capacidade de transformar o mundo. É exatamente aí que o homem se diferencia do animal. Afinal, animal não tem história. 1.5 Educação? Educações? Educar? Vamos conhecer uma pequena parte do relatório da UNESCO de 1996, sobre educação, e seguir, conhecendo Educação/Educações. Segundo Moran, (2000, p. 3), educar: É colaborar para que professores e alunos – nas escolas e organizações – transformem suas vidas em processos permanentes de aprendizagem. É ajudar os alunos na construção de sua identidade, do seu caminho pessoal e profissional – do seu projeto de vida, no desenvolvimento das habilidades de compreensão, emoção, comunicação que lhes permitam encontrar seus espaços pessoais, sociais e profissionais e tornarem-se cidadão realizados e produtivos. No relatório da UNESCO, organizado e escrito pelo francês Jacques Delors, intitulado: Educação um tesouro a descobrir, de 1996, a Educação precisa de uma concepção mais ampla, ou seja: Uma concepção ampliada de educação deveria fazer com que todos pudessem descobrir, reanimar e fortalecer o seu potencial criativo – revelar o tesouro escondido em cada um de nós. Isso supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação considerada a via obrigatória para obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordem econômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade, aprende a ser (DELORS, 2003, p. 90). As diferentes concepções de educação têm reflexos profundos em nosso cotidiano. Como você deve ter percebido, todos nós temos memória, uns mais, outros menos, da infinidade de informações que recebemos ao longo de nossas vidas como estudantes. Muitos de nós estudamos em escolas que reproduziam informações e conhecimentos, e nós não sabíamos para que serviriam, nem imaginávamos quem produziu esse conhecimento, nem em que contexto histórico. Não víamos sentido para os conteúdos, que eram apenas para ser decorados e para que respondêssemos questões dos questionários, das provas, que depois esquecíamos – a “educação bancária”. Não queremos dizer com isso que informação/ conhecimento não é importante, ao contrário, têm importância e significam poder. A esse respeito, o cientista político, americano Emir Sader, indagou em sua palestra proferida no Fórum Mundial da Educação (2003): “se o conhecimento não serve para inserir os homens de forma consciente na sociedade, para que serve então”? (...) “o excesso de informação existente hoje disseminada, porém descontextualizada e sem história, sem o conhecimento de quem a produziu, vem banalizando o processo educacional e fragmentando o saber, colaborando para a produção de um novo tipo de analfabetismo”.
  • 18. 18 UNIDADE III TEXTO 01 - A FILOSOFIA EM BUSCA DE RESPOSTAS Certamente você deve estar-se perguntando por que estudar fundamentos sócio-filosóficos da educação para compreender as Políticas públicas em Educação e Educação Física? Qual o significado? Para saber mais sobre essa questão vamos fazer um estudo breve que nos ajudará a entender o significado dessas palavras e a importância de estudá-las para sua formação, enquanto um futuro profissional da área de Educação Física. • Fundamentos - Vamos juntos tentar entender o que são fundamentos? De forma geral, e aqui em especial, fundamentos são os princípios básicos, nosso porto seguro, aquilo que nos dará base para entender o que vem a seguir, ou seja, alicerce para o entendimento de outras disciplinas e a nossa postura enquanto futuro profissional. • Sócio - nesse caso, remete-nos à sociologia, ciência que se dedica a estudar a sociedade e suas transformações ao longo da história, e as transformações pelas quais temos passado. Afinal, estamos vivendo uma verdadeira revolução educacional, com o apoio significativo das novas tecnologias. • Filosófico - é a junção de duas palavras gregas: filos/amante + sofia/sabedoria = amor pela sabedoria. Na prática pedagógica, representa aquele olhar indagador e crítico sobre a realidade, na busca de respostas sobre os porquês dos fenômenos, nesse caso, relacionados à educação. • Em síntese, Fundamentos Sócio-Filosófico é a base para o entendimento da educação na sociedade, de forma crítica, construída através da reflexão, da pesquisa, da observação. • Políticas Públicas em Educação e Educação Física são definidas como o conjunto de ações desencadeadas pelo Estado, no caso brasileiro, nas escalas federal, estadual e municipal, com vistas ao bem coletivo. Elas podem ser desenvolvidas em parcerias com organizações não governamentais e, como se verifica mais recentemente, com a iniciativa privada. E por que estudar os fundamentos de áreas pedagógicas? Porque as demais ciências da educação e em especial a pedagogia são como bússolas que auxiliam o professor a agir diante da grande diversidade que caracteriza o povo brasileiro. Diante dessa afirmativa e estando o Curso de Educação Física ligado à área da Educação somos desafiados a conhecer a Pedagogia enquanto Ciência da Educação. Nossa cultura é muito rica e diversa, nosso povo – crianças, jovens, adultos – faz a diferença em cada comunidade, município, estado ou região. É muita diversidade para uma única ação pedagógica. Como trabalhar com essa diversidade? Como devemos ser educadores reflexivos e críticos?
  • 19. 19 2.1 O Filósofo e o Filosofar O verdadeiro filósofo é, antes de tudo, um observador atento da realidade, um pensador dedicado e que tenta, pelo seu próprio esforço, desvendar o Universo que o cerca. E o que é filosofar? É pensar livremente, é não se deixar guiar por ideologias, religiões, crenças, pelas opiniões dos outros, sem reflexão. É colocar tudo como objeto a ser refletido, perguntar sobre tudo, por exemplo: Quais os motivos que guiaram as diferentes escolhas humanas ao longo da história? Por que agimos assim, e não, de outro jeito? Para o professor/educador, é fundamental filosofar sobre sua prática, pensar sobre o seu fazer pedagógico diário, buscar respostas para as dificuldades e para as conquistas do dia-a-dia. Assim, o educador ao superar as dificuldades, socializa as conquistas e contribui com a comunidade onde está atuando. Embora a Filosofia, em geral, não seja produzida para resultados concretos e imediatos, crer que ela não tenha aplicação prática não é correto. A forma de compreender o mundo é que determina o modo como se produzem as coisas, investiga-se a natureza, propõem-se as leis. Ética, Política, Moral, Esporte, Arte, Ciência, Religião, tudo tem a ver com Filosofia. O pensamento humano não apenas influenciou e influencia o mundo, na verdade, é ele que o determina. Todos os movimentos sociais, econômicos, políticos, religiosos da história têm origem no pensamento humano, na Filosofia. Aquele que se dedica à Filosofia não se abstém da realidade, não é um alienado. É aquele que procura compreender a realidade e busca dar o primeiro passo para interagir com ela, ou mesmo alterá-la, da melhor forma possível. Saberemos mais sobre Filosofia e as principais correntes filosóficas. Elas nos ajudarão a entender melhor onde estão ancoradas algumas práticas pedagógicas, que estudaremos mais adiante. Bem, recapitulando, Filosofia é uma palavra grega “philosophia” – sophia, que significa sabedoria; philo significa amor, ou amizade. Então, literalmente, um filósofo é um amigo ou amante de sophia, alguém que admira e busca a sabedoria. Logo, todos somos filósofos, podemos e devemos filosofar. Mas, o que são filosofia e filosofar? • O termo philosofia foi empregado, pela primeira vez, pelo famoso filósofo grego PITÁGORAS, por volta do século V a.C, ao responder a um de seus discípulos que ele não era um “Sábio”, mas apenas alguém que amava a Sabedoria. Filosofia é, então, a busca pelo conhecimento último e primordial, a Sabedoria Total. Embora, de um modo ou de outro, o Ser Humano sempre tenha exercido seus dons filosóficos, a Filosofia Ocidental, como um campo de conhecimento coeso e estabelecido, surge, na Grécia Antiga, com a figura de TALES de MILETO, que foi o primeiro a buscar uma explicação para os fenômenos da natureza usando a Razão e a Lógica, e não, os Mitos como eram de costume. • Mito é uma narrativa tradicional com caráter explicativo e/ou simbólico, profundamente relacionado com uma dada cultura e/ou religião. O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do Mundo e do Homem por meio
  • 20. 20 de deuses, semi-deuses e heróis (todas elas são criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. • Razão é a faculdade de raciocinar, de apreender, de compreender, de ponderar, de julgar...Disponível em: http://pt.wikipedia. org/wiki/Raz%C3%A3o. Acesso em: 28 julho de 2010. • Lógica é o ramo da Filosofia que cuida das regras do bem pensar, ou do pensar correto, sendo, portanto, um instrumento do pensar. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/ L%C3%B3gica Acesso em: 28 julho de 2010. Mas você sabe que, como o resto das coisas da vida, nem tudo foi flores na constituição da história da Filosofia, assim como na Religião. Ela também já teve sua morte decretada. No entanto, a Filosofia Ocidental perdura há mais de 2.500 anos, tendo sido a “Mãe” de quase todas as Ciências: Psicologia, Antropologia, História, Física, Astronomia e, praticamente, todas as outras que derivam direta ou indiretamente da Filosofia. Entretanto, as “filhas” ciências se ocupam de objetos de estudo específicos, e a “Mãe” se ocupa do “Todo”, da totalidade do real. Nada escapa à investigação filosófica. A amplitude de seu objeto de estudo é tão vasta que foge à compreensão de muitas pessoas, que chegam a pensar ser a Filosofia uma atividade inútil. Além disso, seu significado também é muito distorcido no conhecimento popular que, muitas vezes, a reduz a qualquer conjunto simplório de idéias específicas, as “filosofias de vida” ou, basicamente, a um exercício poético. Entretanto, como sendo praticamente o ponto de partida de todo o conhecimento humano organizado, a Filosofia estuda tudo o que pode, estimulando e produzindo os mais vastos campos do saber. Mas, diferente da Ciência, a Filosofia não é empírica, ou seja, não faz experiências, mesmo porque geralmente, seus objetos de estudo não são acessíveis ao Empirismo. • A RAZÃO e a INTUIÇÃO são as principais ferramentas da Filosofia, que tem como fundamento a contemplação, o deslumbramento pela realidade, a vontade de conhecer e, como método primordial, a rigorosidade do raciocínio, para atingir a estruturação do pensamento e a organização do saber. Vamos conhecer um dos principais textos da Filosofia, escrito por Platão, no século IV a.C.: O Mito da Caverna ou Alegoria da Caverna. O Mito da Caverna de autoria de Platão e escrito no livro VII do República é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia. O autor descreve a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Uma critica poderosa à condição dos homens, escrita há quase 2500 anos atrás, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões por todos que o lêem. Trecho de: O Mito da Caverna Extraído de A República, de Platão(1987) Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são
  • 21. 21 forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas à frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior. A luz que ali entra provém de uma imensa e alta fogueira externa. Entre ele e os prisioneiros - no exterior, portanto - há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas. Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela, os prisioneiros enxergam na parede, no fundo da caverna, as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam. Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginavam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens (estatuetas de coisas), nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que enxergam porque há a fogueira e a luz no exterior e imaginam que toda a luminosidade possível é a que reina na caverna. Que aconteceria, indaga Platão, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria. Num primeiro momento, ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol, e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens (as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna) e que somente agora está contemplando a própria realidade. Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los. Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade. Após a leitura, escreva um depoimento articulando-o com o que você estudou sobre educação / escola / aprendizagem. Disponível em:http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=796 Acesso em: 28 de julho de 2010. 2.2 As Correntes Filosóficas Vamos agora estudar as principais correntes filosóficas. Nos grandes períodos da história: Antiguidade, Idade Média, Idade Moderna e Contemporânea, viveu-se à influência de vários pensadores. Na Antiguidade, destacam-se os filósofos gregos Sócrates, Platão e Aristóteles. O primeiro, no estudo da ética; o segundo preconiza o idealismo; e o último, o realismo.
  • 22. 22 • Na Idade Média, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino são pensadores cristãos que ocupam papel de realce. Santo Agostinho é tido como filósofo da fé e São Tomás de Aquino, como embasador do catolicismo, afirma que o conhecimento tem primazia sobre a ação. • Na Idade Moderna, começa-se a negar a fé e a ampliar os caminhos da ciência. Projetam- se vários filósofos, como Descartes, no racionalismo, Bacon, no empirismo, Hegel, na dialética, Kant, na epistemologia, na metafísica e na antropologia e Comte, no positivismo. Na época contemporânea, acentua-se uma reação à Filosofia do século XIX, idealista e positivista, bem como a Filosofia moderna geral. Destacam-se: Kierkegaard, considerado o fundador do Existencialismo, Hidegeer, que analisou a existência humana e Husserl, que dá ênfase ao estudo dos fenômenos – a fenomenologia. 2.3 E a Filosofia Oriental? Ainda nessa rota, vamos entrar em um canal que nos leva até a filosofia oriental. Estamos prontos? Lá vamos nós! Embora não seja aceito como Filosofia pela maior parte dos acadêmicos, o pensamento produzido no Oriente, especificamente na China e na Índia por budistas e hinduístas, possui qualidades equivalentes à da Filosofia Ocidental. A questão é basicamente a definição do que vem a ser a Filosofia e suas características principais que, da maneira como é colocada pelos acadêmicos ocidentais, de fato exclui a Filosofia Oriental. Mas nada impede que se considere Filosofia num conceito mais amplo, como faremos aqui. A Filosofia Oriental é mais intuitiva que a Ocidental e menos racional, o que contribui para sua inclinação mística e hermética. No entanto, vemos os paralelos que ela possui, principalmente, com a Filosofia Antiga. Ambas surgiram por volta do século VI a.C, tratando de temas muito semelhantes, e há de se considerar que Grécia e Índia não são tão distantes uma da outra a ponto de inviabilizar um contato. Veja o mapa mundial. A maioria dos estudiosos considera que não há qualquer relação entre os pré-socráticos e os filósofos orientais. O que, na realidade, pouco importa nesse momento. O fato é que, assim como a Ciência, a Arte e a Mística, a Filosofia sempre existiu em forma latente no ser humano. Nós sempre pensamos. Logo, existimos.
  • 23. 23 UNIDADE IV TEXTO 01 - OS CAMINHOS DA SOCIOLOGIA A Sociologia é a ciência que estuda o comportamento humano em função do meio e os processos que interligam o indivíduo em associações, grupos e instituições. Ou seja, a sociologia surge na história como o resultado da tentativa de compreender situações sociais novas, criadas pela, então, nascente sociedade capitalista. • Capitalismo – é comumente definido como um sistema de organização de sociedade baseado na propriedade privada dos meios de produção, na propriedade intelectual e na liberdade de contrato sobre estes bens, o chamado livre-mercado. • Karl Marx – observa o Capitalismo através da dinâmica da lutas de classes, incluindo aí a estrutura de estratificação de diferentes segmentos sociais, dando ênfase às relações entre proletariado (classe trabalhadora) e burguesia (classe dominante). Disponível em: http://www.renascebrasil.com.br/f_capitalismo2.htm. Acesso em: 28 de julho de 2010. Apesar do termo “sociologia” ter sido criado por Auguste Comte em 1837, que inicialmente a denominou de “física social”, existem controvérsias sobre quem é seu verdadeiramente e real fundador. Em geral, nessas escolhas, pesam motivos nacionais, cada qual tentando ver num inglês, num alemão ou num francês, o verdadeiro criador da sociologia. Raymond Aron (1992), por exemplo, aponta Montesquieu, enquanto Salvador Giner indica uma série de outros nomes (Saint-Simon, Proudhom, J.S.Mill, o já citado Comte e Marx). A maioria dos anglo-saxãos, defendem o nome de Herbert Spencer que consagrou o termo em caráter definitivo com a obra -The Study of Sociology, 1880 -, enquanto os alemães asseveram que o fundador é Max Weber. Do rol dos fundadores intelectuais ainda constam nomes como: Jane Addams, Charles H.Cooley, William E. DuBois, George H. Mead e Robert Merton. Vale ressaltar, que talvez a sociologia tardasse bem mais em surgir no cenário cultural e científico europeu caso não tivessem surgido as doutrinas sociais de Jean-Jacques Rousseau - o grande revolucionário do Século das Luzes. • O Surgimento - Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. É importante colocar que, a sociologia veio preencher a lacuna do saber social, surgindo após, a constituição das ciências naturais e de várias ciências sociais. Seu surgimento coincide com os últimos momentos da desagregação da sociedade feudal e da consolidação da civilização capitalista. • A criação da sociologia não é obra de um só filósofo ou cientista, mas o trabalho de vários pensadores empenhados em compreender as situações novas de existência que estavam em curso, quais sejam, as transformações econômicas, políticas e culturais verificadas no século XVII. • A Revolução Industrial, a Revolução Gloriosa Inglesa, a Independência dos EUA e a Revolução Francesa patrocinam a instalação definitiva da sociedade capitalista. Mas, somente
  • 24. 24 por volta de 1830, um século depois, surge a palavra sociologia, fruto dos acontecimentos das duas revoluções citadas. • A Revolução Industrial, com a introdução da máquina a vapor e os aperfeiçoamentos dos métodos produtivos, determinou o triunfo da indústria capitalista, especialmente, pela concentração e controle de máquinas, terras e ferramentas onde a grande massa de trabalhadores, era obrigada a produzir. As máquinas não simplesmente destruíam os pequenos artesãos, mas os obrigava à forte disciplina nas fábricas, surge uma nova conduta e uma relação de trabalho até então desconhecidas. Este fenômeno, o da Revolução Industrial, determinou o aparecimento da chamada classe trabalhadora ou proletariado. Os seus efeitos catastróficos para a classe trabalhadora geraram, no primeiro momento, sentimentos de revolta traduzidos externamente na forma de destruição de máquinas, sabotagens, explosão de oficinas, roubos e outros crimes, no segundo momento, deram lugar a busca pela organização, defendida pelos socialistas e comunistas, através da constituição de associações livres e de sindicatos, que abriram espaço, com muita luta, para o diálogo de classes organizadas, de um lado a classe trabalhadora – proletariado e de outro, a classe proprietária - burguesia, cientes de seus interesses e desejos. Indicação de Filme - Tempos Modernos Sinopse – O Filme dirigido e estrelado por Charles Chaplin e com Paulette Goddard no elenco. Foi lançado nos Estados Unidos em 1936 a partir do qual o seu sucesso espalhou-se pelo mundo. Um operário de uma linha de montagem, que testou uma “máquina revolucionária” para evitar a hora do almoço, é levado à loucura pela “monotonia frenética” do seu trabalho. Após um longo período em um sanatório ele fica curado de sua crise nervosa, mas desempregado. Ele deixa o hospital para começar sua nova vida, mas encontra uma crise generalizada e equivocadamente é preso como um agitador comunista, que liderava uma marcha de operários em protesto. Simultaneamente uma jovem rouba comida para salvar suas irmãs famintas, que ainda são bem garotas. Elas não têm mãe e o pai delas está desempregado, mas o pior ainda está por vir, pois ele é morto em um conflito. A lei vai cuidar das órfãs, mas enquanto as menores são levadas a jovem consegue escapar. Após assistirmos ao filme vamos continuar conhecendo os acontecimentos sociológicos. Estes importantes acontecimentos e as transformações sociais verificadas foram as bases para a necessidade de investigação sociológica. Os pensadores ingleses que testemunhavam estas transformações e com elas se preocupavam não eram homens de ciência ou sociólogos profissionais. Eram homens de atitude que desejavam introduzir determinadas modificações na sociedade. Os precursores da sociologia se encontravam entre militantes políticos e entre as pessoas que se preocupavam e/ou vivenciavam os problemas sociais e desejavam conservar, modificar radicalmente ou reformar a sociedade de seu tempo. Estes pertenciam a diferentes correntes ideológicas: conservadoras, liberais, socialistas/marxistas. Foi com o aparecimento das cidades industriais, das transformações tecnológicas, da organização do trabalho na fábrica, e da formação de uma estrutura social específica – a sociedade capitalista – que se impôs uma reflexão sobre a sociedade, suas transformações, suas crises, e sobre seus antagonismos de classe.
  • 25. 25 O “progresso” das formas de pensar, a partir do uso da razão e da lógica, contribuiu para afastar interpretações baseadas em suposições, superstições e crenças, representou uma mudança de paradigma e abriu espaço para a constituição de um novo saber sobre os fenômenos histórico-sociais. E, conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da natureza e da cultura. A lógica é uma ciência de índole matemática e fortemente ligada à Filosofia. Já que o pensamento é a manifestação do conhecimento, e que o conhecimento busca a verdade, é preciso estabelecer algumas regras para que essa meta possa ser atingida. O principal organizador da lógica clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Organon. Ele divide a lógica em formal e material. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%B3gica Acesso em: 28 de julho de 2010. Esta postura influenciou os historiadores escoceses da época, como David Hume (1711- 1776) e Adam Ferguson (1723-1816), e seria posteriormente desenvolvida e amadurecida por Hegel e Karl Marx. Foi também dessa época a disposição de tratar a sociedade, a partir do estudo de seus grupos e não dos indivíduos isolados. Frutifica o entendimento de que os homens e as mulheres produzem ao longo de suas vidas: conhecimentos, crenças, valores, linguagem, arte, música. Criamos, destruímos, inventamos, re-inventamos. Enfim, fazemos Cultura. Sendo assim, a sociologia se debruça sobre todos os aspectos da vida social e tem como preocupação estudar desde o funcionamento de macro- estruturas (o estado, a classe social) até o comportamento dos indivíduos. Ela, em parceria com a filosofia, dão fundamento para entendermos o que é educação, sua história e suas mudanças ao longo do tempo. O pensamento de alguns sociólogos voltados para a educação - Vamos pensar o que se refletiu e reflete no pensar e no fazer dos educadores. Para Durkheim, o objeto da sociologia é o fato social. Sendo a educação considerada como o fato social, isto é, se impõe, coercitivamente, como uma norma jurídica ou como uma lei. A doutrina pedagógica se apóia na concepção do homem e de sociedade, onde o processo educacional emerge através da família, igreja, escola e comunidade. Para o autor as gerações adultas exercem uma forte pressão sobre os mais novos, que tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança determinados números de estados físicos, intelectuais e morais (DURKHEIM, 1973). Já para um divulgador da obra de Durkheim, Talcott Parsons (1965), sociólogo americano, a educação é entendida como socialização. Nessa perspectiva, ela é o mecanismo básico de constituição dos sistemas sociais e de manutenção e perpetuação dos mesmos, em formas de sociedades, e destaca que sem a socialização, o sistema social é ineficaz de manter-se integrado, de preservar sua ordem, seu equilíbrio e conservar seus limites. • Parsons, afirma que é necessário uma complementação do sistema social e do sistema de personalidade. Ambos têm necessidades básicas que podem ser resolvidas de forma complementar. A criança aceita o marco normativo do sistema social em troca do amor e do carinho maternos. Este processo se desenvolve através de mediações primárias: os próprios pais, através da internalização de normas, inicia o processo de socialização primária. A criança
  • 26. 26 não percebe que as necessidades do sistema social estão se tornando suas próprias necessidades. Dessa forma, para o autor, o indivíduo é funcional para o sistema social. De acordo com Durkheim e Parsons, a educação não é um elemento para a mudança social, mas sim , pelo contrario, é um elemento fundamental para a conservação e funcionamento do sistema social. Mas existem autores que têm pensamento oposto, entre eles, destacamos Dewey e Mannheim. O ponto de partida desses autores é que a educação constitui um mecanismo dinamizador das sociedades através de um indivíduo que promove mudanças. Para estes dois sociólogos, o processo educacional possibilita ao indivíduo atuar na sociedade sem reproduzir experiências anteriores, acriticamente. Pelo contrario, elas serão avaliadas criticamente, com o objetivo de modificar seu comportamento e desta maneira, produzir mudanças sociais. Muito conhecida e difundida no Brasil a obra de Dewey, o autor defende ser impossível separar a educação do mundo da vida. Suas idéias tiveram grande influência na nossa educação que veremos em aulas a seguir. “A educação não é preparação nem conformidade. Educação é vida, é viver, é desenvolver, é crescer” (DEWEY, 1971, p. 29). Para o autor, os indivíduos deveriam ter chances iguais. Em outras palavras, igualdade de oportunidades dentro dum universo social de diferenças individuais. Outro sociólogo, Mannheim, (1971, p. 34) define a educação como: O processo de socialização dos indivíduos para uma sociedade harmoniosa, democrática porem controlada, planejada, mantida pelos próprios indivíduos que a compõe. A pesquisa é uma das técnicas sociais necessárias para que se conheçam as constelações históricas especificas. O planejamento é a intervenção racional, controlada nessas constelações para corrigir suas distorções e seus defeitos. O instrumento que por excelência põe em pratica os planos desenvolvidos é a Educação. Você viu? Como estes autores têm diferentes idéias não é mesmo? Veja as diferenças separam os sociólogos que se ocuparam da questão educacional. Você reparou? Prestou atenção? Mas apesar das divergências, não podemos ignorar, que: Existe entre elas um ponto de encontro: a educação constitui um processo de transmissão cultural no sentido amplo do termo (valores, normas, atitudes, experiências, imagens, representações) cuja função principal é a reprodução do sistema social. Isto é claro no pensamento durkheimiano, que podemos resumir como: longe de a educação ter por objeto único e principal o indivíduo e seus interesses, ela é antes de tudo o meio pelo qual a sociedade renova perpetuamente as condições de sua própria existência. A sociedade só pode viver se dentre seus membros existe uma suficiente homogeneidade. A educação perpetua e reforça essa homogeneidade, fixando desde cedo na alma da criança as semelhanças essenciais que a vida coletiva supõe (DURKHEIM, 1973).
  • 27. 27 Também verificamos que tanto Durkheim, como seus seguidores, se esforçavam por assinalar que a importância do processo educacional se baseava no fato de que o mesmo tinha como função principal a transmissão da cultura na sociedade. Esta cultura era assim apresentada como única, indivisa, propriedade de todos os membros que compõem o conjunto social. Entretanto, outros dois sociólogos Bourdieu e Passeron, também famosos pelos seus estudos e sua preocupação com a questão educacional, tiveram pretensões de justamente demonstrar a não existência de uma cultura única, mas que: Na realidade, devido ao fato de que elas correspondem a interesses materiais e simbólicos de grupos ou classes diferentemente situadas nas relações de força, esses agentes pedagógicos tendem sempre a reproduzir a estrutura de distribuição do capital cultural entre esses grupos ou classes, contribuído do mesmo modo para a reprodução da estrutura social: com efeito, as leis do mercado em que se forma o valor econômico ou simbólico, isto é, o valor enquanto capital cultural, dos arbítrios culturais reproduzidos pelas diferentes ações pedagógicas (indivíduos educados) constituem um dos mecanismos mais o menos determinantes segundo os tipos de formação social, pelos quais se acha assegurada a reprodução social, definida como reprodução das relações de força entre classes sociais (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 218). Para os autores citados, sistema escolar reproduz, assim, em nível social, os diferentes capitais culturais das classes sociais e, por fim, as próprias classes sociais. Os mecanismos de reprodução encontram sua explicação ultima nas relações de poder, relações essas de domínio e subordinação que não podem ser explicadas por um simples reconhecimento de consumos diferenciais. Nessa perspectiva, quando analisam a função ideológica do sistema escolar, uma de suas preocupações é justamente a da possível autonomia que pode ser atribuída a ele, em relação à estrutura de classes. Com efeito, Bourdieu e Passeron se perguntam: Como levar em conta a autonomia relativa que a Escola deve à sua função específica, sem deixar escapar as funções de classes que ela desempenha, necessariamente, em uma sociedade dividida em classes? (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 219). E os autores respondem: Se não é fácil perceber simultaneamente a autonomia relativa do sistema escolar, e sua dependência relativa à estrutura das relações de classe, é porque, entre outras razões, a percepção das funções de classe do sistema escolar está associada, na tradição teórica, a uma representação instrumentalista das relações entre a escola e as classes dominantes como se a comprovação da autonomia supusesse a ilusão de neutralidade do sistema de ensino. (BOURDIEU e PASSERON, 1976, p. 220). Concluímos, que existem pontos divergentes e pontos comuns entre as idéias dos autores que estudamos. Sejam elas no que diz respeito à concepção de educação, de sociedade, de escola.
  • 28. 28 UNIDADE V TEXTO 01 - A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO ENQUANTO PRODUÇÃO HUMANA – DA EDUCAÇÃO UNIVERSAL À EDUCAÇÃO BRASILEIRA 1.1 A Educação Primitiva A educação entre os povos primitivos constitui a forma mais rudimentar do tradicionalismo pedagógico. Entre os povos selvagens vamos encontrar as formas mais simples e elementares de educação e facilmente se pode determinar a natureza geral, o fim, o método, a organização e o resultado da educação. Vamos encontrar nos povos situados no mais ínfimo grau da civilização, as formas mais puras, mais elevadas e mais espiritualizadas de religião, de moral e de educação. Já nos povos pigmeus, pertencentes às “culturas iniciais”, deparamos com uma educação intencional realizada pela família e pela comunidade, visando ideais éticos e espirituais. Nas civilizações primitivas a família é que desempenha o papel primordial na formação educativa das novas gerações até a puberdade. Após a puberdade, a educação vai variar nas diversas civilizações. Nas civilizações totêmicas, a educação masculina assume um caráter antifamiliar, as mulheres são desprezadas. Nas civilizações matriarcais, a educação feminina é preponderante devido à primazia da mulher. Nas civilizações pastoris, a família patriarcal conserva o seu privilégio educativo. O estudo da educação primitiva nos faz entrar em contato com a alma do homem primitivo e conhecer a estrutura da sua personalidade. O homem primitivo não é um ser animalizado. Não há educação sistemática, nem instituições escolares. A escola teria surgido pela primeira vez entre os Incas e os Astecas. Os povos possuem épocas próprias e lugares determinados para a realização da educação intencional. A época preferida é a da puberdade dos educandos e quanto aos lugares há as chamadas casas dos homens dos povos primitivos, os santuários do bosque ou os bosques sagrados. Há uma preocupação clara pela formação das novas gerações, embora o objetivo imediato da educação seja a satisfação de necessidades materiais, relativas à alimentação, ao vestuário e ao abrigo. Daí a possibilidade de se caracterizarem entre os povos primitivos, ainda que de forma rudimentar, as 3 formas fundamentais da educação: a educação física, a educação intelectual e a educação moral. Educação física: os selvagens dão grande liberdade às crianças que se aproveitam para o exercício dos seus jogos naturais. O jogo e a imitação têm papel importante e considerável na educação primitiva. As crianças de tribos guerreiras fazem espadas, arcos, escudos. Nas pacíficas imitam as atividades de tecelagem, construção de cabanas, confecção de vasos e adornos, trabalhos no capo, a caça, a pesca e a navegação. Educação intelectual: é prática e visa tornar a criança capaz de prover às suas necessidades individuais, mais tarde às da família e da comunidade. Esta educação começa cedo conforme o sexo e a maneira de viver da tribo. Os jovens aprendem a conhecer hábitos dos animais e peixes, a confeccionar instrumentos de caça e de pesca, a manejar armas e construir embarcações, a desenvolver sua agilidade física, aperfeiçoar sua acuidade sensorial. Assim suas faculdades intelectuais se tornam precisas, ágeis e eficazes. As mulheres são preparadas para o lar, criação dos
  • 29. 29 filhos e auxiliar o marido nas ocupações. Nos povos selvagens a memória se revela pronta, rica e fiel. Sua imaginação é exuberante e colorida. Sua inteligência é viva, engenhosa e inventiva. Educação moral: o senso moral dos selvagens se encontra mais ou menos obscurecido e desfigurado, mas sua alma guarda a marca indelével da lei natural. A sua consciência é lúcida. Eles compreendem o dever que possuem de transmitir aos descendentes preceitos morais e espirituais. Esses preceitos se referem ao respeito aos pais e aos velhos ao culto dos antepassados, ao sentimento da honra, à fidelidade à palavra empenhada, à obediência às autoridades legítimas. O acontecimento de maior importância na educação dos povos primitivos é a iniciação da puberdade, que se reveste de um caráter de formação moral. A iniciação representa a recepção solene dos adolescentes na comunidade dos adultos. Os jovens nesta cerimônia são separados da comunidade e enviados a uma residência especial onde permanecem sob a vigilância dos anciãos da tribo. Lá, são realizadas solenidades de caráter purificatório, depois ritos de iniciação. Recebem novo nome, são submetidos a provas cruéis e brutais que servem para aferir a coragem e a resistência ao sofrimento. Recebem instruções relativas ao matrimônio, às tradições sagradas da tribo, aos limites do território, à fidelidade ao chefe da nação. Os jovens recebem conselhos sobre guerra, caça, pesca, artes manuais. Exortam-nos a combater com coragem, proteger os fracos e defender os humildes. As noções religiosas que os povos primitivos transmitem às novas gerações variam com o tipo de civilização. Os pigmeus, por exemplo, possuem uma religião monotéica, constituída pela crença num Deus único, criador do céu e da terra, infinitamente bom e justo, ao qual terão de prestar contas dos seus atos. Os caracteres fundamentais das religiões professadas pelos povos primitivos são: crença num poder supremo; crença em espíritos independentes; crença na alma humana, distinta do corpo e separando-se do mesmo com a morte; crença num mundo do Além, mundo das almas e dos espíritos; sentido de puder, de justiça, de responsabilidade, de liberdade, de dever; reconhecimento da consciência moral; noção do pecado com sanção aplicada pela autoridade do mundo invisível; organização do culto; oração, oferenda, sacrifícios, ritos, cerimônias; sacerdócio; distinção entre o sagrado e o profano; organização da família, procurando conservar a pureza do sangue, impondo leis, fortalecendo-se por alianças e transmitindo suas tradições. 1.2 A Educação Hindu A Gramática foi a disciplina que serviu de base para a educação intelectual dos hindus, não a meramente alfabética, reduzida à leitura e à escrita, mas fonética, isto é, orientada para a análise dos sons que constituem a linguagem. A veneração dos hindus pela linguagem dos Vedas, que consideravam divina, fez com que os mesmos se esforçassem para conservar a pronúncia exata dos seus hinos e, para preservá-la guardavam listas de palavras antigas, com a respectiva pronúncia correta. E foi assim que teve origem a mais remota e perfeita gramática, que deu lugar à formação da gramática moderna que parte do estudo das raízes dos vocábulos e das leis fonéticas que presidem à sua composição e modificação. Faziam parte da educação intelectual dos hindus os provérbios e as fábulas. Os hindus cultivaram a Lógica, a Álgebra e a Astronomia. Recebemos deles o sistema métrico e o jogo do xadrez. As escolas elementares hindus eram numerosas, porém, não possuíam organização oficial. Os discípulos se reuniam em torno do mestre, ao ar livre, à sombra de uma árvore e, quando chovia, sob uma tenda. Aí aprendiam a escrever, primeiro sobre a areia e, em seguida, sobre folhas de palmeiras ou de plátano. O ensino era realizado por memorização, os alunos repetiam em voz alta o que lhes era
  • 30. 30 ditado pelo mestre. Quando as classes eram numerosas, era comum empregar como auxiliares de ensino o alunos mais adiantados. Daí a origem do ensino mútuo ou monitorial. O ensino era feito segundo certas fórmulas rituais. O mestre pertencia à casta dos brâmanes e era objeto de profunda veneração. Não recebia remuneração dado o caráter espiritual da sua obra. Os alunos podiam oferecer presentes ao mestre. O ensino revestia-se de uma orientação essencialmente religiosa. Os alunos eram instruídos oralmente, para em seguida, estudarem nos livros sagrados; os Vedas ou o catecismo budista. A moral era ensinada por meio de provérbios e de fábulas. Outras matérias: leitura, escrita, aritmética. O ensino superior era limitado aos brâmanes e tinha por objetivo o estudo dos Vedas e das suas ciências auxiliares. Para aprender cada um dos Vedas eram necessários 12 anos, e para os quatro, 48 anos. Os hindus não consideram a ciência como um valor em si mesma, mas sim como um meio para conseguir a união com a divindade. O jovem devia aprender a sabedoria, o varão praticá-la e o ancião olvidá-la. A vida intelectual do hindu começava nas intrincadas análises da gramática para terminar na síntese suprema do misticismo. A educação elementar hindu era eivada de graves defeitos: rotina excessiva dos mestres, cultura exclusiva da memória, negligência na educação das mulheres e das crianças, preconceito extremado contra a educação dos serviços e dos párias, desinteresse pela formação do caráter, preocupação exclusiva pelo cultivo da inteligência. 1.3 A Educação Chinesa O povo chinês possui um espírito positivo e prático, despido de qualquer idealismo. A China parece ter sido o primeiro país a considerar o ensino como função do Estado. Já sob o imperador Yu, foi destinada a manutenção do ensino parte dos fundos comunais. Em 1097 a.C., o imperador Tcheu mandou instalar escolas em todos os seus domínios. No período do antigo império as escolas foram consideradas como estabelecimentos do Estado e o ensino teve caráter acentuadamente político. Daí por diante, ficou livre a iniciativa particular, mas, desde 650, esta sofreu a intervenção do Estado que a regularizou por meio de um complicado sistema de exames. Estas provas constituem a peça central da máquina educativa chinesa, pois era através das mesmas que se realizava a seleção de todos os funcionários e dignitários da China. Havia três exames de dificuldade crescente que conferiam os graus de “talento florido”, “homem promovido” e “completo erudito”, ou “apto para o cargo”. A aprovação nesses exames proporcionava recompensa sob a forma de adornos para o vestuário, sinais de distinção para a residência, direito a lugar de honra nas festas, isenção de punição corporal etc. As provas dos exames consistiam na redação de trabalhos em prosa e verso sobre temas tirados dos livros clássicos. A complexidade da escrita chinesa muito contribuiu para dificultar o ensino. Os caracteres gráficos da linguagem chinesa representam idéias e não sons. É uma escrita ideográfica e não fonética como o ocidental. Os caracteres arcaicos só eram ensinados aos letrados, os símbolos ideográficos atingem o número de 25.000.
  • 31. 31 A Gramática chinesa é de difícil aprendizagem, pois, os verbos não possuem tempo, voz e modo e os substantivos não têm gênero, número ou caso. A significação das palavras depende do tom da voz e da sua posição na frase. Há na escrita chinesa 6 tipos de caligrafia: o ornamental, o oficial, o literário, o manual comum, o corrente e o angular. O uso de estilo literário só pode ser aprendido depois de longos anos de rígida e mecânica imitação dos modelos clássicos. A Literatura chinesa é rica e variada sendo constituída de obras históricas, filosóficas, teatrais, poéticas, contos e romances. A educação chinesa deve ser estudada principalmente pelos ensinamentos negativos que oferece. Tudo o que é condenável em matéria de ensino foi cultivado pelos chineses: abuso excessivo da memória, desprezo pela formação da inteligência e do caráter, desinteresse pelas necessidades reais da vida, passividade do educando. A China foi o país do Antigo Oriente que possui maior número de escolas. Isso não impediu que a sua civilização se cristalizasse em formas rígidas e mumificadas. O que nos mostra que o problema educacional de um povo pode ser considerado do ponto de vista quantitativo. De nada vale abrirem-se muitas escolas, sem que as mesmas se encontrem preparadas para o exercício integral da função educativa. O progresso educacional de um povo não resulta do número de suas escolas, mas sim do valor intelectual e moral dos seus mestres. A partir do século XX, a educação tradicionalista da China começou a sofrer a influência das idéia educativas do Japão e do Ocidente, iniciada pelas missões cristãs. Em 1911, já se encontrava o ensino chinês completamente transformado, com grande número de escolas do tipo ocidental onde lecionavam professores estrangeiros contratados. Ao mesmo tempo, milhares de estudantes chineses seguiam para a França, Alemanha, Estados Unidos e Japão, a fim de aperfeiçoarem seus estudos. 1.4 A Educação Egípcia Um dos traços marcantes da cultura egípcia foi o seu realismo. Esse aspecto se evidencia quando analisamos o espírito e a organização da educação dos egípcios. Como todos os sistemas pedagógicos orientais, a educação egípcia visou à transmissão às novas gerações de uma tradição revelada, de um tesouro cultural, considerado como de origem divina. A formação religiosa e espiritual representou um dos objetivos primaciais da educação egípcia. A sociedade egípcia era dividida em numerosas classes, ainda que sem a fixidez e a impenetrabilidade das castas hindus: sacerdotes, guerreiros, escribas, comerciantes, operários, camponeses. A classe sacerdotal era a mais elevada e tinha a seu cargo a direção intelectual, moral e religiosa da nação, como “detentora que era das tradições, da literatura, da filosofia, das ciências, consideradas como patrimônio sagrado e inalienável, de que só a pessoas reais podiam de certo modo compartilhar”. Sucedia à casta sacerdotal, a classe guerreira, embora grande parte fosse constituída de estrangeiros mercenários. Os escribas eram letrados que tinham estudado e sabiam ler, escrever e calcular. Desempenhavam cargos públicos, eram sustentados pelos faraós, recebiam doações de terras e gozavam de certos privilégios à maneira dos mandarins chineses. A mulher egípcia ocupava uma situação social superior à da mulher chinesa e hindu, embora a poligamia fosse praticada em todas as classes, com exceção da sacerdotal. Era considerada senhora do lar, possuía alguma educação e tinha papel saliente na formação das novas gerações. As crianças eram cercadas de todos os cuidados pela família e envolvidas numa atmosfera de carinho e de amor. Dado o espírito religioso da sociedade egípcia, eram habituadas à prática da piedade e da obediência. Para se tornarem sadias e resistentes de corpo e espírito, eram submetidas a um regime de vida simples e sóbrio.