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Emil Cioran - Breviário de Decomposição
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Emil Cioran: Breviário de Decomposição (1)
Nascido na Romênia em 1911, Emil Cioran, depois de graduar-se em Filosofia pela Universidade de Bucareste, mudou-se para a França com o objetivo de especializar-se no pensamento de Nietzsche. Jamais concluiu sua tese. Em contrapartida, sua dedicação à escrita e reescrita de sua obra fez com que a crítica o considerasse um dos “maiores prosadores da língua francesa desde Valéry”. A palavra que talvez o defina com maior precisão seja desencanto. Porém, diante da maneira clara e límpida como desenvolve e expõe seu pensamento, nenhuma exatidão significa muito. Comparado a Kierkegaard, Wittgenstein e ao próprio Nietzsche, Cioran muito provavelmente desdenharia dessa tentativa de defini-lo e de enquadrar sua obra dentro de parâmetros estabelecidos. “Um livro que, após haver demolido tudo, não se destrói a si mesmo, exasperou-nos em vão”, diz, em Silogismos da amargura. Seu título mais conhecido continua sendo Breviário de decomposição, publicado na França em 1949. Após ter sido reescrita quatro vezes, a obra recebeu em 1951 o prêmio Rivarol. Cioran morreu em Paris, em 1995. De sua autoria, além dos dois títulos mencionados, a Rocco publicou Exercícios de admiração e História e Utopia.
“Quem não conhece o tédio encontra-se ainda na infância do mundo, quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio... porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera..., a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta – ou inventa – a vida...”.
“No início, pensamos para evadir-nos das coisas; depois, quando fomos longe demais, para perder-nos no remorso de nossa evasão...”.
“Na aspiração nostálgica não se deseja algo palpável, mas uma espécie de calor abstrato, heterogêneo ao tempo e próximo de um pressentimento paradisíaco. Tudo o que não aceita a existência como tal, avizinha-se da teologia. A nostalgia não é mais do que uma teologia sentimental, onde o Absoluto está construído com os elementos do desejo, onde Deus é o Indeterminado elaborado pela languidez”.
“Ninguém pode corrigir a injustiça de Deus e dos homens: todo ato é apenas um caso especial, aparentemente organizado, do caos original. Somos arrastados por um turbilhão que remonta à aurora dos tempos; e se esse turbilhão tomou o aspecto da ordem, é apenas para nos arrastar melhor...”.
“A vida é apenas um torpor no claro-escuro, uma inércia entre luzes e sombras, uma caricatura desse sol interior que nos faz crer ilegitimamente em nossa excelência sobre o resto da matéria”.
“Fui, sou ou serei, é questão de gramática e não de existência. O destino – enquanto carnaval temporal – presta-se a ser conjugado, mas despojado de suas máscaras, mos

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Emil Cioran - Breviário de Decomposição

  1. 1. VÍÍ iliÍz VÊAÍE"MEE BREVIÁRIO DE _ DECOii/ ¡POSIÇAO
  2. 2. nxavrimo _ m: DFCOMPOSIÇAO Primeira obra escrita em iram cês pelo filósofo romeno E. M. Cíoran, o livro defende que toda a idéia nasce neutra: o homem c' que trata de inflamá-la. Para Cioran - considerado pe- la critica como um dos grandes prosadores da lingua francesa - o que é preciso destruir no homem é sua propensão à fé, ao apetite pe- lo poder e à faculdade monstruo- sa de ser obcecado por um deus. Apontado como pessimista, um rmltor do paradoxo. Cioran desen- volve seu pensamento de forma clara e Iímpida. Breviário de decomposição, pu~ blicado na França em 1949. depois de ter sido reescrito por quatro ve- zes, recebeu, em 1951. o Prêmio Rivarol. BREVIARJO DE DECOMPOSIÇÃO
  3. 3. i Í a r ll i r É l s c V C h d z F E. M. CIORAN BREVIÁRIO D_E DECOMPOSIÇAO _ Tradução de JOSE 'THOMAZ BRUM Wicca” Rio de Janeiro - 1995
  4. 4. maus gramoecomposmn “v” ou Editions Liallutialr. I'M? Direitos dem¡ midi) rowrvítnlus . t EDITORA ROCCO LTDA Rim Rodrix» Silm, 26 - S" zndnr 310114140 - Rio de Janeiro. IU Tel' SUFZMI) - I'M: 50751244 Tcln. JEI-M! FDRÍ BR Ihmrrl rrr Bmu/ ImpKN-Nt no Brasil "I'll join with black despair against my soul. p': “4&yá('dc("'g| "n› And to myself become nn enemy. " WINDELI . SYIUIMI ! Richard Ill! XÓNÉU CARLOS ROHERIT) DE (ARVAI HU (Ill/ KI: IMNTAS HENRIQUE IARNAPOI SIH ui-. iimni Í4'llaItt| :nÇ. It-ttE-¡Ilntr Sindicato snnmmi dm EÚÍIUYIH . i. r IVHW. RJ (Éiutittul . vt rtnritr- i Nil (ZQZh ltrnuiiu ili- ÍCCUYTIPOVHÂU L 'i (rirmn: traduçao : lr Jnh' Ihnmnr Brum r Riu dc Jmttltl) Rum_ |03|) “Irniluçáru de Précix II( druixnmnsitturi t Eirmni nana-s r Brum. 1m: niuttlm ' It. multi (DD - 84-¡ FDL' H X4074 W036i lmpreím m4 ¡Ldlturrr Vamu Ltda. cm Iunho d: [995 pura lziltlent Ruca¡ Ltda
  5. 5. SUMÁRIO Aprcscrlluçào - Iusé Thomaz Brum Genealogia do fnnalismu . . . . . . . . . . . . . . O pcnsudur de ocasião . . . . . . , . . . . . . . . . Ruslus da decadência . . . . . . . . . . . . . . . . . , _ . . . . . . . . . . A sanlídadc c as caretas do absoluto . . . , O canário do subcr . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. Abdíuaçôcs
  6. 6. APRESENTAÇÃO Breviário de decomposição (1949) é o primeiro livro escrito direta- mente em língua francesa pelo romeno E. M. Cioran. Antes. já havia publicado cinco livros em sua lingua natal, hoj: pouco conhecidos c. às vezes, ncm sequer citados. Seu primeiro ensaio. Pe culmile despcrãrii (Nos cumcs do descs pero) foi publicado em 1934. c recebeu o Prêmio das Iotlttls Escri- tores ROIIIEIIOS. Este livro é considerado pelo autor a fonte de todas as suas obras posteriores. Ele dentarca o pensamento de Cioran mas não seu estilo, qu: : st: refinou até a elegância lacõnica de suas últi› mas obras. O estilo de Ciomn. fruto da luta dc um caráter cslnvo (e latino) com a “escola de rigor" que é u língua francesa. foriou um pensa- mento que busca a clareza de um Saint-Simon mas é freqüentemente nçoitado pelas rajadas de sua origem halcânica. O transilvano Cioran descende dos antigos dácios. povo em que o dualismo das seitas maniqueistas produziu uma visão de mundo govcrnada pelo Mal. Pessimismo cósmico. fatalismo e niilismo ba- nham sua obra exigente e severa, onde o riso é contraponto pura uma lucidez implacável. Em 1937. Cíoran chega a Paris para fazer uma tese sobre Nietzsche que jamais concluiu, e passa dez anos escrevendo em romeno sem publicar nada. Decidido n mudar de lingua. submete - em 1947 - à editora Gallímard o manuscrito do Breviário de decomposição. que é aceito. No entanto. elc o rcescrevc quatro vezcs. tentando vingar-se da observação de um de seus amigos franceses: “você escreve em um francês de mcteco”. Em 1951. o Hvro recebe o prestigioso ptêmio Rivarol c. alguns anos depois, Saint-Iohn Persc saúda Cioran como "o maior dos prestadores de lingua francesa desde Valéry'. Emhebido de Shakespeare e Shelley. o Breviário compõe um código do desespero. um "catálogo frenética de nossos instintos assas-
  7. 7. 'lluv' m m "Hhliâáldu poucas anus após a Segunda Guerra. esta dupla lx nv »e u o homem n. as souedudes (LVL, un 1953. uma Ira› “Hum illrlmv. O poeta Paul Celun (10204970) hoje no eçnrm dos l-'l. l'3- ~› -› . . . .v _'›, › . I H L VqUL u dçsmvulvem unir; u pmsm L : I filosofia. traduzido null! ! o niulu de Lulm- : rum ler/ all. Residindu em Paris nn época (v. u; r '- ' . ' n m und¡ nao lmvm . ndqumdu u renome de que desfruta hme «'. '|'. I.n'; ~r~ "r § ~ , _. _,__ . U l¡ rms. ;lume (iomn um filho da Lsfuçeludn monarquia . umIIu-Jungulu exilado nu Idade dos meu-cos". L] ; - ' ' . . . - , . . s l 'nn Lllflralgdlldi. . n (um . Hahn um vmprczxuru¡ dz' Idéias' refere- cz°m~ g. .. . | d_ "v. . ldu . mu L demonstra o qunnlo . n frlusofm de Cnoran 1h (IHLIJ L . SLUS CUÍHCINPDTÍIHCOS CXISÍCIÍClIOllEÍGÉ. N11:: : ::: ,.: r:“: :.; .:° v Wfúíf” a 'um C dos' 53mm) : JC lgnülnltfl: Lfllflnll . UJÍHIII (Dm: 'luan- Wm cspücm de ; nigico qua. , nã. : rtgorosu. Liuran tambem é um" Em"" que "Ilda "IVLU u uspuslu : I lazcndesperlur: pm _ _ - _ puuguu, n alma que se deixou uprnsionar pur Iluaoes c nmugens. lucques Lzneurriere, esludiuso du pensamento gnóslica_ rem. nhecc enrCidrnn a sensibilidade frenética desses primeiros hen': › meus d. : história. F. dele : n melhor saudação u este Breviário que ulin um punsmnenlo descncunlado n um csülu gunluubu¡ “Es-le livru me parece un1 dos mais íluminudurcs de nnssu época d. . . . 4 . . _ _ __ _ . , ' “Lsde Lollblgdlilob suportar »um coraçao nguurrldu us ílp0Cilllp~ so. : x. .J iamos do ser que ele abre sob nossos olhos. " [asi Thomaz Brum Rio de lancíro. maio de 1989 GENEALOGIA DO FANATISMO Em s¡ mesma. tudu idéia é neutra ou deveria sãlu: mas u homem n unímn, projeta ncln suas chamns e suas demências: ímpuru. trunsfurmudz¡ em crença. insere-sc no tempo, lomn a forma de ncun» lccimemo: u passugeln da lógica à epilepsia está consumado. .. Assim nusccm us ideologias. ns duulrinns e ar fursns sangrenlns. ¡Llólulras por instinto. convcrlcmus em incondiciunudus os ub- jelos de nossos sonhos e de nussus interesses. A história não passa de um desfile de falsos Absululos. uma sucu: o de templos e vn- dos a¡ prelexlus. um nvihnmenlo du espírito ame o improvável. Mesmo quando . se afasta da religião u homem pcrmnnec- submetido : n clu; esgoIandu-se em furiur simulaerus de deuses. adota-os depois febrilmentc: sua necessidade de ficção. de milolugia. lriunfn sobre a evidência e u ridfeulu. Sua capacidade dc ¡idurar ó responsável pur ludus os seus crimes: o que amu indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo. nn espera de exterminá-Ios se se recusam_ Não hai ínlolerânrian, inlransígêncin ideológica ou pruselilismu que não revelem o fundo bcstinl do entusiasmo. Ouc pcreu n homem sua [acuidade Liv ¡nzli/ ervnça: lorna-se um : :ssa inu virtual: que lrans- furmc sua idéia cm deus: ns conseqüências sãu inenleuláveis. Sá se mam em nome de um deus uu de : cus sucedâneus: us excessos sus- ciludos pela deusa Razão. pela id u de nacãu. de tlnssn: mx de rue: : são purcnlcs dos da Inquisição uu da Refumiu. As épueus de fervor se distinguem pelas façanhas sunguiná Sumn Tex-e só podia ser contemporânea dos nutos-de-fé e Lulcro do massacre dos cam- poneses Nas crises mislieas. us gemidos das víxinms são paralelos nos gemidus do exlase. .. pulíbulos, calnbouçus e musmorras só pruspcrmn à sombra de uma fé - dessa n ssidude de crer que infesluu u espirito para sempre. O diabo enlpalídeee comparada n quem dispõe de uma verdade, de xuu verdade. Sumos injustos eum
  8. 8. 1.' mn vwuo DE DECOMPOSIÇAO na NCTUS uu com os Tibérios: eles não inventaram o conceito de Í ' V' ' a . . u nuw. forum apenas sonhadores degenerados que se dwgynam mu¡ os massncres: Os verdadeiros criminosos são os que estabele- LLm uma ortodoxia no plano religioso ou politico. os que dislin. guem entre o fiel e o císmáticg, lilo momentonem que nos recusamos a admitir o caráter inter- cambiávcl das ideias. o sangue corre. . Sob as resoluções firmes “FFM” "m Punhnl: os olhos inllamados pressagiam o crime. Ia- m"'5_°›°_5t›>¡r¡to hesnante. alligido pelo hamletismo. foi pemicioso: ° Pflnclmo do mal reside na tensão da vontade, na ¡naptidão para ° quietismo. na megalomanla prometéica de uma raça que se arre- benta de tanto ideal. que explode sob suas convicções e que pm- mui: : SCbCOIDZTEZIÓO em depiecrar a duvida e a preguiça _ vmos |1.° ! '35 0 tarte todas as suas virtudes -. embrenhomsc gn¡ ; fm VN* d* Perdição. na história. nesta mescla indecente de bana- “ladf C alwüllpse. . Nela as certezas abundam: suprime-as e su- Pflmlrâ sobretudo suaa conseqüências: reconstituirá o paraíso O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la : :Íngfdm a Palxã** P01' Um dogma. o estabelecimento de um dog- ISSO resulta o fanatismo ~ tara capital que da ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror -, Iepm lírica qua contamina as almas, as submete. as tritura ou as exalta, .. Só esca. pam a ela os céticos (ou os preguiçosos e os estetas) porque não PTÚPÕW" Md¡- PÚTQUB ~ verdadeiros beufeitores da humanidade - d t - « . . . . °5 m? ” “5 Pfüconccxtos e analisam o delrno. Sinto-me mais se- guro Junto de um Ptrro do que de um São Paulo, pela razão de : :e uma sabedoria de boutades é mais doce do que uma santidade t' . ' ' . . naseàlísçmlgdolim um espirito ardente encontramos o animal de tap¡- de um protein' nmüpodctltanltcs d°f°"d°""°7 “°""“l“'° d” ! mas Cidade ou de uan o eevar a voz. seja em nome do céu, d¡ dão _ d°ml°5 Prfícxios. alastese dele: sátira de nossa soli- ' m” P" m' que VIVBMOS aquém de suas verdades e de seus ""°b“¡'m°“'°57 *it-ter fazer-nos compartilhar de sua hmm-i¡ de m¡ b . . . . CÊIÃÇaITPÔl-llea a nós e desfxgurar-nosl. Um ser possufdo por um¡ q "'50 Pmcurasse comunica-la aos outros é um fenómeno °^""'°"h° à WT". onde a obsessão da salvacão toma a vida irresp' rávcl. Olhe à sua volta: por toda parte larvas que pregam. l- . Cada GENEALOGIA D0 FANATISMO 1) instituição traduz uma missão; as prefeituras têm seu absoluto como os templos: a administração, com seus regulamentos - metafísica para uso de macacos. .. Todos se esforçam por remediar a vida de todos: aspiram a isso até os mendigos. inclusive os incuráveis: as calçadas do mundo e os hospitais lransbordam de relormadores. A ânsia de tornar-se fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição intencional. A socie- dade é um inferno de salvadores! O que Diógenes buscava com sua lantema era um indi/ erente. Basta-me ouvir alguém falar sinceramente de ideal. de futuro, de filosofia. ouvi-lo dizer “nós” com um tom de segurança, invocar os “outros” e sentir-se seu intérprete. para que o considere meu ini- migo. Vejo nele um tirano fracassado, quase um carrasco. tão odioso quanto os tiranos e os carrascos de alta classe. E que toda fé exerce uma forma de terror, ainda mais temível quando os “puros” são seus agentes. Suspeita-se dos espertos, dos velhacos, dos fat-sentes: no entanto, não poderiamos atribuir-lhes nenhuma das grandes con- vulsões da história; não acreditando em nada. não vasculham nossos corações. nem nossos pensamentos mais íntimos: abandonam-nos à nossa indolência. ao nosso desespero ou à nossa inutilidade; a hu- manidade deve a eles os poucos momentos de prosperidade que co nheceu: são eles que salvam os povos que os fanáticos torturnm e que os 'ídealistas' arrulnam. Sem doutrinas. só possuem caprichos e interesses, vícios complacentes. mil vezes mais suportáveis que oa estragos provocados pelo despotismo dos princípios: Porque todos os males da vida provêm de uma 'concepção da vida”. Um homem politico completo deveria aprofundar-se nos soiistns antigos e tomar aulas de canto; e de corrupção. .. O fanático é incorruptlvel: se mata por uma idéia. pode igual- mente morrer por ela; nos dois casos. tirano ou mártir. é um mons- tro. Não existem seres mais perigosos do que os que sofreram por uma crença: os grandes perscguidores se recrutam entre os mírtires cuja cabeça não foi cortada. Longe de diminuir o apetite de poder. o sofrimento o exuspern; por isso o espírito sentese mais à vontade na companhia de um fanfarrão do que na de um mártir; e nada o repugna tanto como este espetáculo onde se morre por uma idéia. .. Farto do sublime e de carnificinas, sonha com um tédio
  9. 9. |4 BREVlÁRlO DE DECOMPOSIÇÃO proyinciano em escala universal, com uma História cuja estagnação seria tal : que a dúvida representaria um acontecimento e a espe- rança uma calamidade. . . O ANTIPROFETA Em todo homem dorme um profeta. e quando ele acorda há um pouco mais de mal no mundo. .. A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pegamos caro não ser surdos nem mudos. .. Dos esfarrapados aos esnobes, todos gastam sua generosidade criminosa. todos distribuem receitas de felicidade, todos querem di- rigir os passos de todos: a vida em comum toma-se intolerável e a vida consigo mesmo mais intolerável ainda: quando não se inter- vêm nos assuntos dos outros, se está tão inquieto com os próprios que se converte o “eu” em religião ou, aptístolo as avessas. se o nega: somos vitimas do jogo universal. .. A abundância de soluções para os aspectos da existência só é igualada por sua futilidade. A História: manufatura de ideais. . . . mitologia lunátlca, frenesi de bordas e de solitários. .., recusa de aceitar a realidade tal qual é. sede mortal de ficções. .. A fonte de nossos atos reside em uma propensão inconsciente a nos considerar o centro. a razão e o resultado do tempo. Nossos reflexos e nosso orgulho transformam em planeta a parcela de carne e de consciência que somos. Se tivéssemos o justo sentido de nossa posição no mundo. se comparar fosse inseparável de viver. a reve- lação de nossa lnfima presença nos esmagaria. Mas viver é estar cego em relação as suas próprias dimensões. .. Se todos os nossos atos - desde a respiração até a fundação de impérios ou de sistemas metafislcos -- derivam de uma ilusão sobre nossa importância_ com maior razão ainda o instinto profe- tico. Quem, com a visão exata de sua nulidade. tentaria ser eficaz c crigír-se em salvador? Nostalgia de um mundo sem 'ideal', de uma agonia sem dou- trlna. de uma eternidade sem vida. .. 0 Paraiso. . . Mas não pode GENEALOGIA DO FANATISMO 15 iiumos existir um instante sem enganar-nos: o profeta em cada um tli- nós é o grão de loucura que nos faz prosperar em nosso vazio. O homem idealmentc lúeido, logo idealmente nomtal. não de- vvrin ter nenhum recurso alem do nada que está nele. . . Parece que ti uuço: "Livre do fim. de todos os fins. de meus desejos e de mi- ulnis amarguras só eonservo as fómtulas. Tendo resistido à tentação tir concluir. venci o espirito. como venci a vida pelo horror, a brincar-lhe uma solução. O espetáculo do homem - que vomitivo! it mnor - um encontro de duas salivas. .. Todos os sentimentos rurncm seu absoluto da miséria das glândulas. Não há nobreza senão Itu ttcguçãu da existência, em um sorriso que domina paisagens ant- . iuiludas. (Outrora tive um "eu": agora sou apenas um objeto. .. Em- ¡mnturro-me de todas as drogas da solidão; as do mundo foram fra- -m demais para me fazer esquecê-lo. Tendo matado o profeta em mim. como terei ainda um lugar entre os homens? ) NO CEMITÉRIO DAS DEFINIÇÕES Irlltus boas razões para imaginar um espirito gritando: "Agora tudo . uu-cc para mim de objetivo, pois dei as definições de todas as COP um"? E se podemos imagina-lo. como situa-lo na duração? Suportamos ainda melhor o que nos rodeia porque lhe damos um nome - e continuamos. Mas abarcar uma coisa com uma defi- Iilgml, por mais arbitrária que seja ~ e tão mais BWV* q“3"“° mms . nhitrfnrla é. pois a alma sobrepuja anão o conhecimento -, é n iutiiln. torná-la insfpida e supérflua, aniquilá-la. O espirito ocioso . lnponlvel - e que só se integra ao mundo graças ao sono - . .u que poderia exercitar-se senão em ampliar o nome das coisas, mn cwaziáqas e subsmuma¡ por fórmulas? Depois evolui sobre inmhros; nenhuma sensação mais; apenas lembranças. Sob cada munido jaz um cadáver: o ser ou o objeto morrem sob o pretexto qual deram lugar. E a devassidño frivola e fúnebre do espirito. i rute espirito se dissipou no que nomeou e circunscreveu. Apnt- -nlltlllu pelos vocábulos, odiava os mistérios dos silêncios pesados . - tornava leves e puros: e ele próprio tornou-se leve e puro.
  10. 10. |5 HREVIARlO DF. DECOMPOSICÀO [6 que aliviado e purificado de tudo. O vicio dc definir lez dele um assassino graciosa e uma vítima discreta. E foi assim que se apagou a mam-ha com que a alma marcava o espirito. a única coisa a lhe lembrar que estava vivo. CIVILIZAÇÃO E FRIVOLIDADE Como suportar-íamos a massa e a profundidade gasta das obras e das obras-primas. se espiritos impertinentes e deliciosos não hou- vessem acrescentado à sua trama as franjas de um desprezo sutil e de ironias espontâneas? E como poderiamos suportar os códigos. os costumes. os parágrafos do coração que a inércia e a conveniência superpuseram aos vícios inteligentes t: fúteis. se não existissem esses seres espirituosos cujo refinamento os coloca ao mesmo tempo nos cumes e à margem da sociedade? Devemos ser upradecidos às civilizações que não abusaram da seriedade. que brincarnm com os valores e deleitarantse em engenv drá-los e destruflos. Conhece-se fora das civilizações grega e fran› ecsa uma demonstração mais lucidamente festiva do elegante nada das coisas? 0 século de Alcahiudes e o século XVIII francês são duas fontes de consolo. Enquanto que é apenas em seu último eslá« giu. na dissolução de todo um sistema de crenças e costumes, que as outras civilizações puderam saborear o exercicio alegre que em- presta um sabor de inutilidade à vida - é em plena maturidade. em plena posse de suas forças e de seu futuro que estes dois séculos conheceram o tédio indiferente a tudo e permeávcl a tudo. Existe melhor simbolo disto do que Madame du Delfantl. velha. cega e clarividente, ao mesmo tempo execrandu a vida, e desfrutando. no entanto. dos prazeres da amargura? Ninguém alcança logo de saida a frivolidade. E um privilégio e uma arlc; o: a busca do superficial por aqueles que. tendo desco berto a impossibilidade de toda certeza_ adquiriram nojo dela; é a fuga para longe desses abismos naturalmente sem fundo que não podem levar a parte alguma. Pcrmaneeem. entretanto. as aparências: por que não alça-las ao nível de um estilo? Isto é o que permite definir toda época inteli- GENEALOGlA DO FANATISMO |7 gente. Chega-se a encontrar mais prestígio na expressão do que na alma que a sustenta. na graça do que na intuição: u própria envoção torna-se polido. O ser entregue a s¡ mesmo. sem nenhum precon- ceito de elegância. é um monstro: só encontra em si zonas obscuras. onde rondam. iminentes. o terror e a negação. Saber. com toda sua vitalidade. que se morre e não poder oculta-Io. é um ato de bar- btirie. Toda filosofia sincera rettegn os titulos da civilização, cuja função consiste em velar nossos segredos e disfarçá-las com efeitos rebuscados. Assim. a frivolidade é o antídoto mais eficaz contra o mal de ser o que se é: graças a ela iludimos o mundo e dissimu~ lemos a ineonveniõncia de nossas profundidades. Sem seus artiftcios. como não envergunhar-se por ter uma alma? Nossas solidões a flor da pele. que inferno para os outros'. Mas é sempre pan¡ eles, e às vezes para nós mesmos, que inventamos nossas aparências, . . DESAPARECER EM DEUS O espírito que cultiva sua essência distinta está ameaçado a cada passo pelas coisas às quais se recusa. Quando a atenção - o maior de seus privilégios - o abandona, cede às tentações das quais quis fugir. ou torna-se vitima de mistérios ímpuros. .. Quem não conhev cc esses medos. esses estremcuímentos. essas vcrtigens que nos apro- ximam do animal e dos problemas últimos? Nossos joelhos tremem sem dobrar-se: nossas mãos se buscam sem juntar-se: nossos olhos se erguem e não distinguem nada. .. Cnnservnmos este orgulho ver- tical que confirma nossa coragem: este horror dos gestos que nos preserva das efusões; e o socorro das pálpebras para cobrir olhares ridieulamente inefáveis. Nosso deslize está proximo. mas não é ine› vitável; o acidente curioso. mas nada novo: um sorriso já aponta no horizonte de nossos terrores. . não nos precioitaremos na ora- ção. .. Pois. afinal de contas. Ele não deve triunfar: sua maiúscula deve ser contnrometida por nossa ironia: que os calafrios que pro- voca sejam dissolvidos por nosso coração. Se tal ser existisse verdadeiramente. se nossas' fraquezas supe- rassem nossas resoluções e nossas profundidades ultrapassassem nos~ sos exames. então por que pensar ainda. se nossas dificuldades já estariam resolvidas, nossas interrogações suspensas e nossos temores
  11. 11. [3 HREVIÁRIO DE DECOWFOSICÀI) apuzigundos? Seria fácil demais. Todo absoluto «r pessoal ou alis- lruto - é uma forma de escatnotear os problemas: e uniu só us pro- blctnas, mas também sua raiz. que não é outra senão um pânico dos sentidos. Deus: queda perpendicular sobre nosso pavor, salvação caindo como um rain em meio a nossas buscas que nenhuma esperança en- gana. anulação sem paliatívos de nosso orgulho ineutisoludo t: volun- tariamente inconsolável. avanço do individuo por um desvio, para- lisação da alma por falta de inquietudes. Existe maior renúncia do que u le? E verdade que sem ela nos embrenhamos em uma infinidade de hecos sem saída. Mas mesmo sabendo que nada pode levar a nada. que o universo é apenas um subproduto de nossa tríslem, por que sncrificuriamos este prazer de tropeçar e esmagar a cabeça contra a terra e o céu? As soluções que nos propüe nossa eovardia ancestral são as piores deserçóes au nosso dever de decência intelectual. Equivoear- se. viver e morrer enganados_ isto é u que fazem os Iiumeits. Mas existe uma dignidade que nos preserva de desaparecer em Deus c que transforma todos os Iiossos instantes em orações que não fare- mos jamais. V/ RIAÇÃOES SOBRE A MORTE l - E porque ela não repousa sobre nada. porque carece até mes- mo da sombrn de um argumento que perseveranios na vida. A morte é demasiado exata: todas as ralôes encunlramse de seu lado. Mis- teriosa para nossos instintos. delineiavse. ante nossa reflexão. lim pidn. sem prcstigios e sem os falsos atrativos do desconhecido. De tanto acumular ntistérius nulus e ntonupulizitr o sem-setttido. a vida inspira mais pavor do que u : norte: é ela n grande Desco- nheeida. Aonde pode levar tanto vazio e incompreensível? Nós nos ape- gamus aos dias porque o desejo de ntorrer é demasiado lógico. por- tanto ineficaz. Porque se a vida tivesse um só argumento a seu favor -- distinto. de uma evidência indiscutível - se aniquilaria: GENEALOGIA DO FANATISMO 19 us instintos e os preconceitos desvanecem-se ao contato com o Rigor. Tudo o que respira alimenta do inver¡ iuivel: um suplemento de lógica seria funestu para a existência -. esforço até u insensato. .. Dé un1 objetivo preciso à vida' ela perde instantaneamente seu atra- tivo. A inexatidão dc seus fins a torna superior it morte - uma gota de precisão a rehaixaria à trivialidade dos túmulos. Pois uma ciên- cia pusilivzl du sentido da vida despovoaria a terra em um dia; e nenhum frenética conseguiria reanimar a improbahilidatle fecunda do Desejo. ll - Podem~se classificar os homens segundo as critérios mais capri- chosos: segundo seus humores suas inclinações. seus sonhos ou suas glândulas. 'fraca-se de idéias como de gravatas: pois toda idéia. todo critério vem do exterior. das configurações e dos acidentes do tempo. Mas lui algo que vem de nós mesmos. que é nós mesmos. uma realidade invisível, mas interiormente verifieável, uma presença insólita e imutável, que se pode conceber Lt todo instante c que nunea nos utreveinos a admitir, e que só tem atualidade antes de sua consumação: e u murte. o verdadeiro critério . . E e ela. a di- mensàu muís intima de todos us seres vivos. que separa a humani- dade em duas ordens lãu irredtttiveis. tão afastadas uma da outra. que há mai. tlistâitciu entre elas que entre um ahulrc e uma toupei- ra. uma estrela e um cuspc. U abismo de dois mundos incomuni- eáveis abre-sc entre o homem que tem o sentimento da morte e o que nào u tem; apesar disso. us dois ntorrcm; mas um ignora a sua morte. o uutro a sabe: um morre ttpenas um instante, o outro não pára de morrer. .. Sua condição eumum us coloca precisamente nos antípodas um do outro; nos dois extremos e no interior de uma mesma definição: ineonciliávcis_ sofrem o mesmo destino. .. Um Vive como se fosse eterno: o otttro pensa cuntinuatnevtte sua eter- nidade e a nega em carla pensamento. Nada pode mudar nossa vidu salvo a insinuaçáo progressiva em nós das forças que a llrlultlnt. Nenhum principio rtovo eltega até ela. nem das surpresas de nosso crescimento. nem do florescimento de nossos dons: sãodhe apenas naturais. E nada natural saberia fazer de nós outra coisa além do que somos. Tudo u que prefiguru a morte acrescenta uma qualidade de no- vidade à vida, a modifica e a amplia. A saúde u conserva tal qual.
  12. 12. Ju IIREVIARIO DE DECOMPOSIÇÂO em uma estéril identidade; enquanto que a doença é uma atividade. a mais intensa que um homem pode desenvolver. um movimento frenética e. . . estacionário, o mais rico desperdício de energia sem gestos. a espera hostil e apaixonada de uma fuiguração irreparável. ill -- Contra a obsessão da morte. os subterfúgios da esperança revelam-se tão ineficazes como os argumentos da razão: sua insigni- ficância só faz cxacerbar o apetite de morrer. Para triunfar sobre este apetite só há um único “método": vívê~io até o fim, sofrendo todas as suas delicias e tormentos. nada fazer para escamoteá-io. Uma obsessão vivida até à saciedade anula-se em seus próprios cx- cessos. De tanto insistir sobre o infinito da morte. o pensamento chega a gustâ-Ia. a nos enojar dele, negatividadc demasiado plena que não poupa nada e que. mais do que comprometer c diminuir os prestigíos da morte. desveIa-nos a inanidade da vida. Quem não se entregou às volúpia: da angústia. quem não sabo- reou em pensamento os perigos da própria extinção nem deguatou aniquiiamentos cruéis e doces. não se curarti iamaís da obsessão da morte: será atormentado por eia, por haver~li1e resistido; enquanto quem, habituado a uma disciplina de horror. e meditando sua po- dridão. reduziu-se deliberadamente a cinzas. esse oiharã para o passado da morte e ele próprio será apenas um ressuscitado qu! ! não pode »tais viver. Seu “método” o terá curado da vida e da morte. Toda experiência capital é nefasta: as camadas da existência carecem de espessura; quem as escava, arqueólogo do coração c do ser. encontra-se. ao cabo de suas investigações, ante profundi- dades vazias. Em vão terá saudades do ornamcnto das aparências. Eis por que os Mistérios antigos. pretensas revelações dos sogro dos últimos. não nos iegaram nada em matéria de conhecimento. Sem dúvida, os iniciados estavam obrigados a não transmitir nada. No entanto. 6 inconcebível que em tão grande número não se tenha encontrado um só tagarela; o que ha de mais contrário à natureza humana que tal obstinação no segredo? O que acontece é que não havia segredos: havia ritos e estremecimentos. Uma vez afastados os véus. o que podiam descobrir senão abismos sem importância? Sá ha¡ iniciação ao nada - e ao ridiculo de estar vivo. GENEALOGIA DO FANATISMO 2¡ E eu sonho com uma Eiêusis de corações desiludidos. com um Mistério claro. sem deuses c sem as veemências da ilusão. À MARGEM DOS INSTANTES E a impossibilidade de chorar que conserva em nós o gosto pelas coisas e as faz existir ainda: impede que esgotemos seu sabor e nos afastemos delas. Quando, por tantas estradas e margens. nossos olhos se recusam a afogar-se em sl próprios. preservam com sua se- cura o objeto que os maravilhava. Nossas lágrimas dissipam a na› tureza, como nossos transes a Deus. Mas, no fim. nos dissipam a nós mesmos. Pois só somos pela renúncia a dar livre curso a nossos desejos supremos: as coisas que entram na esfera de nossa admira- ção ou de nossa tristeza só permanecem nela porque não as sacri- ficamos ou abençoamos com nossos adeuses líquidos. Deste modo, depois de cada noite, encontrando-nos ante um novo dia. a irreaiizável necessidade de preenchê~lo nos enche de pavor; e. exilados nn luz. como se o mundo acabasse de se mo- ver. de inventar seu Astro. fugimos das lágrimas, uma das quais apenas bastaria para HÍBEIEFHOS do tempo. DESARTICULAÇÃO DO TEMPO Os instantes sueedem-se uns aos outros: nada lhes empresta a ilusão de um conteúdo ou e aparencia de uma significação; desenvolvem- se: seu curso não é o nosso; contcmpiamos seu fluir. prisioneiros de uma percepção estúpida. 0 vazio do coração ante o vazio do tempo: dois espelhos refletindo cara a cara sua ausência. uma mesma imagem de nulidade. .. Como sob o efeito de uma idiotia pensati- va. tudo se niveis: nenhum cume mais. nenhum abismo. .. Onde descobrir a poesia das mentiras, o aguiihão de um enigma? Quem não conhece o tédio encontram ainda na infância do mundo. quando as idades esperavam para nascer; permanece fecha- do para este tempo fatigado que se sobrevive. que ri de suas dimen-
  13. 13. 22 BREVIARIO DE DECOMPOSIÇÀO sõcs e sucumbe no limiar de seu próprio. .. porvir, arrastuttdo com ele u matéria, subitamente elevada a utn lirismo do negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilneeru. . . , a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta - ou inventa - : t vida. . . Criador de valores. o homem é o ser delíranlc por excelência. vitima du crença dc que algo existe, enquanto que lhe basta reler sua respirario: tudo se detém: suspender suas ttmoções: nudu vibra mais; suprimir seus caprichos: tudo sc torntt opaco. A realidade é uma criação dc nossos excessos, de nossos exageros c de nossos desregruntentos. Um freio em nossos palpitações: o curso do mundo toma-sc mais lento: sem ttossos ardorcs. o espaço é de gelo. 0 pra prio tempo só trunscorre porque nossos desejos cngcndram este uni- verso decorativo que uma gota de lucidez desnuduriu. Um grão de elurívídéneia nos reduz à nossa condição primordial: t¡ nudez; uma ponta de ironia nos dcspc desse disfarce de esperanças que pemtite que nos enganemas e imagíntnnas a ilusão: todo caminho contrário lcvu puro fora da vida. O tédio é apenas o começo desse itinerário. . . Ele nos faz sentir o tempo demasiado longo - ¡nupto pura revelar- nos um fim. Separados de lodo objeto. não tendo nuda que ¡assimi- Inr do exterior. nos deslruimos em câmara lema. já que o futuro deixou de oferecer-nos uma ruzão dc ser. O tédio nos revela uma eternidade que mio é a superação do tempo. mas sua ruínu: é o infinito das nlmns corrompidos por faltu de superstições: um absoluto insosst) onde nada mais impede ns coisas de girar em círculos em busca¡ de sua própria queda. A vida se crio no delírio c sc desfaz no tédio. (Quem sofre de um mal caracterizado não tem o direito de queixar-se: tem uma ocupação. Os grnndes enfermos não se enfas- tiam jantais: u doença os preenche, como o remorso alimenta os grandes culpados. Pois todo sofrimento intenso suscita um simula- cro de plenitude e propõe à consciência uma realidade terrível. que esta não saberia eludir; enquanto que o sofrimento sem objeto nesse luto temporal que é o tédio não opõe à consciência nnda que a obrigue uma atitude proveitosa. Como curar um mal não localiza- do e extremamente impreciso, que aflige o corpo sem deixar vesti- gio. que se insinua na alma sem muroâ-la com nenhum sinal? Parece- se com uma doença a que tivéssemos sobrevivido. mas que hou- vesse absorvido nossas possibilidades. nossas reservas de atenção c no¡ tivesse deixado impotentcs para preencher o vazio que sucede GENEALOGlA DO FANATlSMO 23 ao desaparecimento de nossos horrores c ao desvanecimento de nossos tormentos. 0 inferno é um refúgio comparado com este des- terro no tempo. com esta languidez vazia e prustradn onde nndtt nos detém a não ser o espetáculo do universo que sc caria sob nos- sos olhos. Que terapêutica empregar contra uma doença de que não nos lembrantos mais e cujas conseqüências usurpam nossos dias? Como inventar um remédio para a existência. como concluir esta cura sem fim? E. como recuperar-se do nascimento? O tédio, esta convalesurnça incurtivel. . . A SOBERBA IN UTILIDADE Fora dos céticos gregos e dos intpcrndorcs romanos (la decadência, todos os espiritos parecem submetidos a uma vocação ntunicipal. Só aqueles se emoncíparam «- uns pela dúvida. os outros peln de- mência - da obsessão insfpida dt: ser úteis. Tendo promovido o arbitráriu it categoria dc exercicio ou de vertigem, conforme fossem filósofos ou descendentes corrompidos dos antigos conquístadores. não estavam itpegttdos u nada: neste aspecto. lembratn os santos. Mas enquanto estes não deviam iumois desmoronar, aqueles encon- trztvttm-se it mercê de seu próprio jogo. mestres e vítimus de seus caprichos - verdadeiros solitários, porque sua stvlitlño cra estéril. Ninguém zt tomou como exemplo e eles próprios não a propunham como tal: deste modo só se eomunicavnm com seus "semelhantes" pela ironia ou pelo terror. .. Ser o agente du dissolução de uma filosofia ou de um império: pode-se intaginnr orgulho tnais triste c mnis majestoso? Mtttur por utn lado u verdade c por outro n grandeza, manias que fazem viver o espírito e u cidade; minar t¡ arquitetura de engodos sobre a qual se apóia o orgulho do pensador e do cidadão: amolecer as molas da alegria dc conceber c do querer até deformá-lus: dcsaereditar. por meio das sutilezas do sarcasmo e do suplieio. as abstraçõos tradicio- nais e os costumes honrados ~ que efervescéttcia delicada e sel- vagem! Não há nenhum encanto onde os deuses não morrem sob nossos olhos. Em Roma. onde eram substituídos e importados. onde sc os via fcnecer. que prazer invocar fantasmas, com o único medo
  14. 14. A _ja- 24 BREVIÁRIO DE DECOMPOSlÇÃO de que esta versatilidade sublime capitulasse ante o assalto dc algu- ma severa e impura deldndei . . Que é o que ocorreu. Não é facil destruir um idolo: requer tanto tempo como o ne- cessário para promove-lo e adora-lo. Pois não basta aniquilar seu símbolo material, o que é simples; mas também suas raizes na alma. Como voltar o olhar para as épocas crcpusculares - onde o passado sc liquidava ante olhos a que só o vazio podia deslumbrar - sem eomover-se ante esta grande arte que é a morte de uma civilização? . E é assim que sonho ter sido um desses escravos. vindo de um pais improvável. triste e bárbaro. para arrastar na agonia de Roma uma vaga desolação. embelezada com sofismas gregos. Nos olhos vacantes dos bastos, nos idolos diminuidos por supers- tições claudicantes. teria encontrado o olvido de meus ancestrais. de meus lagos c de meus remorsos. Esperando a melancolia dos an- tigos simbolos. teria me libertado; teria compartilhado a dignidade dos deuses abandonados. defendendo-os contra as cruzes insidiosas, contra a invasão dos criados c dos mártires. c minhas noites teriam buscado repouso na demência e na dcvassidão dos Césares. Perito em desenganos, crivando com todas as flechas de uma sabedoria dissoluia os fcrvores novos. junto das cortesia, nos lupanares céticos ou nos circos de crueldadcs faustosas. teria carregado meus racio- cinios dc vício e de sangue para dilatar a lógica a dimensões com as quais ela jamais sonhou, às dimensões dos mundos que morrem. EXEGESE DA DECADÊNCIA Cada um dc nós nasceu com uma dose de pureza. predestinada a ser corrompida pelo comércio com os homens, por esse pecado com tra a solidão. Pois cada um de nós faz o impossível para não se ver entregue a si mesmo. 0 semelhante não é fatalidade, mas tentação de decadência. incapazes dc guardar nossas mãos limpas c nossos corações intactos. nos sujamos ao contato dc suorcs estranhos, Chã' furdamos sedentos de nojo e entusiastas de pcstilência na lama unâ- nime. E quando sonhamos mares convertidos cm água benta. é tarde demais para mergulharmos neles. c nossa corrupção demasiado pro- funda nos impede de afogar-nos ali: o mundo infectou nossa solidão: as marcas dos outros em nós tornam-se indeléveis. GENEALOGIA DO FANATISMO 25 Na escala das criaturas só o homem pode inspirar um nojo constante. A repugnância que provoca um animal é passageira; não amadurcce no pensamento. enquanto que nossos semelhantes inquie- tam nossas reflexões. ¡nfiltram-sc no mecanismo de nosso desapego do mundo para nos confirmar em nosso sistema de recusa e de não- adesão. Depois de cada conversa. cujo refinamento indica por si só o nível de uma civilização. por que é impossivel não sentir sau- dades do Saara e não invejar as plantas ou os monólogos infinitos da Zoologia? Sc com cada palavra obtemos uma vitória sobre o nada. é ape- nas para melhor sofrer seu dominio. Morrcmos cm proporção às palavras que lançamos em torno de nós. . Os que falam não têm segredos. E todos nos falamos; nos traímos. axibimos nosso coração: carrasco do indizivel. cada um esforça-sc por destruir todos os mis- térios. começando pelos seus. E se encontramos os outros, é para aviltar-nos juntos em uma fuga [mm o vazio. seja no intercâmbio de idéias. nas confissões ou nas intrigas. A curiosidade não só pro voeou a primeira queda. como as inumeráveis quedas de todos os dias. A vida não é senão esta impaciência de decair. de prostituir as solídôes virginals da alma pelo diálogo. negação imemorlal e quo- tidiana do Paraiso. 0 homem só deveria escutar a si mesmo no êxtase sem fim do Verbo Inlransmissivei. forjar palavras para seus próprios silêncios e acordes audfveis apenas a seus remorsos. Mas ele é o tagareia do universo; faia em nornc dos outros: seu eu ama o plural. E o que fala em nome dos outros é sempre um impostor. Politicos. reformadorcs e todos os que reivindicam um pretexto w letivo são trapaccims. Só o mentira do artista não é total, pois só inventa a si mesmo. Fora do abandono ao incomunicávei, da sus- pensão no meio de nossos arrebatamentos inconsolados c mudos. a vida é apenas um estrondo sobre uma extensão sem coordenadas. e o universo uma geometria que sofre de epilepsia. (0 plural implícito de "sc" c o plural confessado do "nós" constituem o refúgio confortável da existência falsa. Só o poeta assume a responsabilidade do “eu”, só clc fala cm seu próprio nome, só ele tem o direito de faze-lo. A poesia se degradar quando torna-sc permcávei à profecia ou à doutrina: a “missão" sufoca o canto. a idéia entrava o vôo. O lado “generoso” dc Shelley torna caduca a maior parte de sua obra: Shakespeare, felizmente, nunca “serviu” para nada.
  15. 15. j. . lll<l VMRIO DE DECÚMPOSIÇÃO O triunfo da não-autenticidade_ tem seu acabamento na ativi- dade filosófica. esta complacência no "se". e na atividade profética (religiosa, moral ou política), esta apoteose do “nós”. A de/ iníçãa é a tnenlira do espirito abstrato; a / ánnula inspirada, a mentira do espirito militante: uma definição encontra-sc sempre na origem de um templo; uma fórmula reúne inelutavelmente os fiéis. Assim co- meçam todos os ensinamentos. Como não se voltar então para : t poesia? Ela tem - como n vida ~ a desculpa de não provar nada. ) COALIZÃO CONTRA A MORTE Como imaginar a vida dos outros. quando a sua própria mal parece concebível? Encontramos alguém, vamo-lo mergulhado em um mutt- do impenetrável c injustifieável. em uma porção de convicções e desejos que se superpõem à realidade como um edifício mórbido. Tendo forjado para si um sistema de erros. sofre por motivos cuja nulidade aterroriza u espirito e entrega-se a valores cujo ridiculo salta aos olhos. Suas iniciativas poderiam parecer outra coisa senão bagatelas, e a simetria febril de suas preocupações melhor fundamen- tada do que uma arquitetura de ninharias? Ao observador exterior. o absoluto de cada vida revela-se intereambiável e todo destino. que entretanto é inamovfvel em sua essência. arbitrária. Se nossas convicções nos parecem fruto de uma frivola demência, como tole- rar a paixão dos outros por si mesmos e por sua própria multipli- cação na utopia de cada dia? Por que necessidade este se encena em um mundo particular de predileções e aquele em outro? Quando suportumos as confidências de um amigo ou de um desconhecido. a revelação de seus segredos nos enche de assombra. Devemos situar seus tormcntos no drama ou na farsa? lato depende inteiramente das benevolências ou das exasperações de nossa fadiga. já que cada destino é apenas um eslribilho que se agita em torno de algumas manchas de sangue. depende de nossos humores ver na sucessão de seus sofrimentos uma ordem supérflua e divertida ou um pretexto de piedade. Como é difícil aprovar as razões que invocam as pessoas, cada vez que nos afastnmos de qualquer uma delas a pergunta que vem GENEALOGIA DO FANATlSMO 27 ao espírito é invariavelmente a mesma: como que não sc mata? Pois nada é mais natural do que imaginar o suicidio dos outros. Quan- do sc entreviu. por uma intuição devastadom e facilmente renová- vel. sua própria inutilidade. c' incompreensível que outru qualquer não faça o mesmo. Suprimir-se parece um ato tão claro c tão sim- ples! Por que é tão raro, por que todo mundo o elude? E que. se n razão desaprova o apetite de viver. o ! MLM que faz prolongar os atos é entretanto uma força superior a todos os absolutos: ele ex- plica a coalizão tácita dos mortais contra a morte; não só é o sim- bolo da existência, mas a existência mesma; é o todo. E esse nada. esse tudo não pode dar um sentido à vida. mas ao menos a faz per- sevcrnr no que é: um estada de VIÚO-SUÍEÍLÍÍD. SUPREMACIA DO ADJETIVO Como só pode haver um número restrito de posições face aos pro- blemas últimos. o espirito encontra-se limitado em sua expansão por este limite natural que e o essencial. por esta impossibilidade de multiplicar indefinidamente as dificuldades capitais: a história dedica-se unicamente a mudar o rosto de uma quantidade de inter- rogações e de soluções. 0 que o espirito inventa não e' mais do que uma série de qualificações novas; rebntiza os elementos ou brusca em seus léxicos epftetos menos gastos para uma mesma e imutável dor. Sempre se soft-cu. mas o sofrimento tem sido ou "sublime". ou "justo". ou "absurdo". segundo a visão de conjunto que o mo- mento filosófico cultivava. A desgraça constitui a trama de tudo o que respira; mas suas modalidades evoluíram: compuseram essa sucessão de aparências irredutíveis que induzem cada indivíduo a crer que é o primeiro a sofrer assim. O orgulho desta unicidade incitao a apaixonar-se por seu , próprio mal e suporta-lo. Em um mundo de sofrimentos. cada um deles é solipsista com respeito a todos os outros. A originalidade da desgraça é devida à qualidade verbal que a isola no conjunto das palavras e das sensações. . . Os qttalifícativcs mudam: essa mudança chama-se progresso do espirito. Suprima-os todos: o que restsrla da civilização? A dife- rença entre a inteligência e a tolice reside no manejo do adjetivo, cujo uso não diversificado constitui a banalidade. O próprio Deus
  16. 16. :a nttavutato DE DECOMPOSICÁO só vlvc pelos adjetivos que ncresccntamos a ele; esta é n razão de ler da teologia. Assim, o homem. qualificando sempre diferente- mente n monotonia de sua infelicidade. só se justifica ante o espl- rito pela busca apaixonada de um adjetivo novo. (E contudo esta busca E laslímável. A miséria da expressão. que é a miséria do espirito. manifesta-se na indigêneia das palavras. em seu esgotamento e sua degradação: os atributos graças aos quais determinamos as coisas e as sensações jazem finalmente diante de nós como carcaças verbais. E dirigimos olhares cheios de nostalgia ao tempo em que só exalavam um odor de ntofo. Todo alexandri- nismo provém inicialmente da necessidade de areiur as palavras. de acrescentar a seu fenecer o suplemento de um refinamento alerta: mas acaba em uma lassidâo onde o espirito e o verbo se confundem e se decompõem. [Etapa idealmentc derradeira de uma literatura e de uma civilização: imaginamos um Valery com a alma de um Nero. . . ] Enquanto nossos sentidos frescos e nosso coração ingênuo reen- contram~se e deleitam-se no universo das qualificaçocs. prosperam ao acaso do adjetivo. o qual. uma vez dissecado. revela-sc impróprio e deficiente. Dizemos do espaço. do tempo e do sofrimento que são infinitos: mas ¡n/ initu não tem mais alcance do que belo, subli- me. harmonioso. feio. .. Oueremos. à forca. ver o fundo das pa- lavras? Não se vê nadn. pois este. separado da alma cxpansiva e fértil, é vazio e nulo. O poder da inteligência exercita-se em pro- jetar sobre ele um brilho. em polido c torna-lu deslumbrante: este poder. erigido em sistema. chama-se cultura - fogo de artifício em um cenário de nada. ) O DIABO TRANQUILIZADO Por que Deus é tão inslpído. tão débil. tão mediocremente pilares- co? Por que carece de interesse, de vigor, de atualidade c parece-se tão pouco conosco? Existe uma imagem menos antropomórfica e mais gratuitamente longínquo? Como pudemos projetar sobre ele luzes tão pálidas e forças tão claudicantes? Para onde flulram nos- sas energias. onde dcsaguaram nossos desejos? Quem absorveu então nosso excedente dc insolência vital? GENEALOGIA DO FANATISMO 2K) Nos voltaremos para o Diabo? Mas não saberiamos dirigielhe orações: adora-lo seria rezar introspectivantettte, rezar a nós. Não se reza à evidência: o exato ttão é objeto de culto. Colocamos em nosso duplo todos os nossos atributos e, para realçá-lo com uma aparência de solenidade. o vestimos de negro: nossas vidas e nossas virtudes. de luto. Botando-o de maldade e de perseverança. nossas qualidades dominantes, nos esgutamos para torná~lo tao vivo quanto fosse possivel; ttossas forças se consumiram em forjar sua imagem. em faze-la ágil. Saltitante. inteligente. irônica. e sobretudo mesqui› nha. As reservas de energia de que dispúnhamos para forjar Deus rcduziant-se a nada. Então recorremos à imaginação e au pouco de sangue que nos restava: Deus só podia ser o fruto do nossa anemia: uma imagem vaeilnntc e raquítíca. E bom. suave. sublime. justo. Mas quem se reconhece nessa mistura com perfume de água de rosas exilada na transcendência? Um ser sem duplicidade não possui pro- fundidade e mistério: não esconde nada. Só a impureza é sinal de realidade. E se os santos não são inteiramente desprovidos de inte- resse. é que sua sublimidade ntistura~se : to romance e sua eterni- dade presta-se à biografia; suas VÍlÍtlS in icatn que abandonaram o mundo por um gênero suscetível de cativar-nos de vez em quando. Porque extravasa vida. o Diabo não tem nenhum altar: o ho- mem reconhece-se nele demasiado para adora-lu: detesta~o com eo- nhecimento de causa: repudia-se e cultiva os atributos indigentes de Deus. Mas o Diabo não se queixa e não aspira a fundar uma reli- gião: não estamos aqui para prutegê-lo da inaniçño e do esquecimento? PASSEIO SOBRE A CIRCUNFERÊNCIA No interior do circulo que encerra os seres cm uma comunidade de interesses e de esperança. o espírito inimigo das miragens abre um caminho do centro à periferia. Não pode escutar de perto o rt: - buliço dos humanos: quer contemplar de tão longe quanto seja possivel a simetria maldita que os une. Ví- mártires por toda parte: uns se sacrificando por necessidades visíveis. outros por necessida de¡ incontroléveis. todos prontos para enterrar seus nomes sob uma certeza: e como todos não podem consegui-lo. a maioria expia pela banalidade o excesso de sangue que sonltaram. .. Suas vidas são
  17. 17. 50 IIREVIÁRID DE DECOMPOSICÀO feita¡ dc uma imensa liberdade de morrer que não aproveitaram: lncxpresslvo holocausto da Iiistória. a fossa comum us engole. Mas o entusiasta das separações. buscando caminhos que as hordas não freqüentam. retira-se até a margem extrema e evolui wbrc o traçado du circulo. que não pode transpor enquanto pcr« mnneça submetido ao corpo; no entanto, a Consciência paira mais acima. totalmente pura em um tédio sem seres nem objetos. Não sofrendo mais. superior aos pretextos que incitam a morrer, esquece o homem que a suporta. Mais irreal que uma estrela percebida em uma aiucinaçâo. sugere t| cond ño de uma pirueta sideral - err quanto que. sobre a circunferência da vida. a alma passeia encon- trttndo-se apenas consigo tnesmn e com sua impotência para respovr der ao apelo do Vazio. OS DOMINGOS DA VIDA Se as tardes dominieais fossem prolongadas durante meses. o que seria da humanidade. cmancipada do suor. livre do peso da primeira maldição? A experiência valeria a pena. E mais do que provável que o crime se tornasse a única diversão. que a devassidão pareccsse candura, o uivo melodia e o escúrnio ternura. A sensação da imen- sidade do tempo faria de cada segundo um intolerável suplício, um pelotão de execução capital. Nos corações mais imhufdos de poe ia sc instalariam um eanibalismo estragado c uma tristeza de ltiena: os patíbulos e os carrascos extiuguiriuni-se de langur; as igrejas e os bordeis expludíriam de suspiros. O universo trunslcirmudu um tarde de domingo. .. é a definição do tédio - e o fim do univer- so. .. Retire a maldição suspensa sobre a História e esta desaparece imediatamente. assim como a existéttcia, na vacância absoluta. revela sua ficção. O traballio construido do nada forja e consolida os mitos; embriaguez elementar, excita e cultiva a crença nn "reali- dade": mas a contemplação da pura existência. contemplação inde- pendente de gestos e de objetos. só assimila o que não é. .. Os desocupados captam mais coisas e são mais profundos que os atarefados: nenhuma empresa limita seu horizonte; nascidos em um eterno domingo. olham e se olham olhar. A preguiça é um cett- GENEALOGIA DO l/ NATISMO 3¡ cismo fisiológico. a dúvida da carne. Em um mundo tomado pela ociosidade. seriam os únicos a não se tornar assassinos. Mas não fazem parte da Iiumanidade e. como o suor não C' seu forte, vivem sem sofrer as conseqüências da Vida e do Pecado. Não fazendo o bem nem u mal. desdenltam - espectadores da epilepsia humana - as semanas do tempo. os esforços que asfixiam a consciência. O que deveriam temer de uma prolongaçâo limitada de certas tardes. senão o pesar de haver sustentado evidências grosseiramente clcmentttrcs? Nesse caso. a exasperacãu no verdadeiro poderia induzi-lus a iuiitur os outros v: a cumprazcr-sc na tentação aviltante das tarefas. Tal e' o perigo que : imcaca a preguiça A ntilagrosa sobrevivência do paraíso. (A única função do amor é nos ajudar a suportar as tardes dominicais, cruéis c ineomensuráveis, que nos ferem para u resto do semana - e para a eternidade. Sem a sedução du espasmo ancestral. prccisaríamos de mil olhos para prantus ocultos uu. senão. unhas para roer. unhas quilométri- ele. .. Como matar di: outra maneira este tempo que ia' não flui? Nestes domingos intertninúveis. a dor de sur mauifcstmse plena- mente. Às vezes consepuintos nos esquecer em alguma co u; mas como nos esqueeerntos no próprio mundo? a impossibilidade ú a definição da dur. Aquele que é atingido por ela não se eurará nunca. mesmo que o universo muda cnmpletantcnte. Só seu coração de veria mudar. mas imutável; também para ele. existir só tem um sentido: mergulhar no sofrimento - até que o exercício de uma cotidiana uirvanizaçãu eleve-o à percepção du irrealidadc, . . l DEMISSÃO Foi na sala de espera de um hospital: uma vellm me contava seus miles. .. As controvérsias dos homens, os furacões da história: nl- nhlrias n seus olhos: so o seu mal reinava no espaço e ua duração. "Não posso comer. não posso dormir. tenho medo. deve haver pus". quebrava-se. acariciando a ntandibula com mais interesse. como se a Inrtc do mundo dependesse disso. Este excesso de atenção : t si por
  18. 18. '52 BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO parte de uma comadre decrepita deixuu~me inicialmente indeciso entre o pavor e o desânimo: depois. abandonei o hospital antes que chegasse a minha _vcz, decidido a' renunciar para sempre às minhas dores. . . "Cinqüenta c nove segundos de cada um de meus minutos, ruminava ao longo das ruas, foram dedicados no sofrimento ou à. .. idéia de sofrimento. Por que não tive vocação para pedra! O 'coraçãoü origem de todos as suplieios. . . Aspire a ser objeto. .. à bênção da matéria e da opacidade. 0 vaivém de um mosquito pareceme uma empresa apocalíptica. E um pecado sair de si mes- mo. .. O vento. loucura do ar! A música. loucura do silêncio! Capitulando ante a vida. este mundo desfalcceu no nada. .. Dc~ mito-me do movimento e de meus sonhos. Ausência! Tu serás minha única glória. .. Que o desejo scju riscado para sempre dos dicio- nários e das almas! Recuo ante a farsa vertiginosa das ntunhãs que se sucedem. E sc guardo ainda algumas esperanças. perdi para sem- pre a [acuidade de esperan' O ANIMAL INDIRETO Fica-se realmente desconcertado quando se pensa continuamente. com uma obsessão radical. que o homem existe. que é o que é - e que nño pode scr diferente. Mas o que é, mil definições o denunciam c nenhuma se impõe: quanto mais arbitrárius são. mais válidas parecem. O absurdo mais etéreo c a banalidadc mais pe- sada igualmente lhe convém, A infinidade de seus atributos compõe o scr mais imprcciso que possamos conceber. Enquanto que us animais vão diretamente a seu alvo. ele se perde em rodeios: é o animal indireto por excelência. Seus reflexos improváveis - de cujo relaxamento resulta a consciência - o trnnsfonnant em um convalescente que aspira à doença. Nada nclc c' saudável. salvo o Íato de tê-lo sido. Seja anjo que perdeu suas asas ou macaco que perdeu seu pêlo. só pôde emergir do anonimato das criaturas gracas aos eclipses de sua saúde. Seu sangue mal composto per __ lima. _li LIENEALOGlA [JO FANATISMO 33 mltlu tt infiltração de incertezas. de esboços de problemas. sua vitalidade maldíspostu. íl intrusão dc pontos de interrogação c de ¡lnais dc admiração. Como definir o vírus que. corrocndo sua sono leticia. sobrecarregou-o de vigilins em meio à sestu dos seres? Que verme apoderott-se dc seu repouso, que agente printitivo do ctmhe› cimento ubrigou~o no atraso dos atos. ao rcfrcttmcnto dos desejos? Quem introduziu a printcira lattguidez cm sua ferocitlztde? Snído do fcrvilhar informe dos outros seres vivos, criou uma confusão mui: sutil. explorou com ntinúcia os males de uma vida : trratncada É: ai mesmo. De tttdu o que empreendeu part¡ curarse de s¡ mesmo. desenvolveu umu doença mais estranha: sua "cívili ção" não é mai¡ do que o esforço para encontrar remédios para um estudo hourável - e desejado. O espirito murcha uu se uproxíntut' da saúde: o homem é inválido - ou não é. Quando, depois dc ter pensado em tudu. pensa cm s¡ mesmo - pois só chega a este ponto pelo desvio do universo c como último problema que se @loca -, fica surpreso c confuso. Mas continuo preferindo seu próprio fracasso à ttaturcza que lrucnssa ctcrnantente na saúde. (Desde Adão. tudo o esforço dos ltotttcns tem sido por modi- flw o homem. As pretensões de refonnu e de pedagogia, excr- Ulllll ñ custa dos titulos irrcdttliveis. desnaturunt u pensamento e Mulan! seu devir. 0 conhecimento não tcm inimigo Inais encar- ilhado do que o instinto educador, otimista e vírulcnto, ao qual l U'fllóaofos não saberiam escapar: como permuneceriant intuncs os Ill sistemas? Salvo u lrremedivel. tudo é falso: falsa¡ esta c¡ i- l lhnclo que quer combatédo. falsas as verdades com as quais sc À exceção dos ticos antigos e dos ntoralistas franceses. seria tllflell citar um só espírito cujas teorias. secreta ou implicitzttncnte, ' ' tendem a moldar o homem. Mais este subsiste inalterada. cm- bfl tenha seguido o desfile dc ttobrcs preceitos. propostos it sua ' . Nulidade. oferecidos ao seu ardor c ao seu dcslumhrantenlo. En- 'quanto que todos os seres têm seu lugar na nnturcL-. t. ele continua Indo uma criatura ntetafisicttmevtte divagantc. perdida na Vida. lmdlllu na Criação. Ninguém encontrou um propósito vtilido para l hlltórla: mas todo o tnundo propôs algum: e há um ¡tululur de 'Ml tlo divergentes e Íutttasiosos que o ¡tléin dc finalidade se nnu- fw a se dcsvancce como irrisório artigo do espírito.
  19. 19. t4 IIIUBVIÁRIU DE DECOMPOSIÇÃO Cndtt um sofre em sua própria came esta unidade de desastre que é o fenómeno homem. E o único sentido do tempo é multi- plicar essas unidades. aumentar indefinidamente esses sofrimentos verticais que se apóiam sobre uma migalhu de ntutéria. sobre o orgulho de um nome próprio e sobre urna solidão inapelável. ) A CHAVE DE NOSSA RESISTÊNCIA Quem chegasse. por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos. a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer. esse - supondo que tal ser pudesse existir - seria um monstro de amor e n maior vitima da história do sentimento. Mas é inútil imagi- namos tal impossibilidade. Basta-nos proceder no exame de nos mesmos. praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no supllcio dos dias, é porque nada detém esta marcha. exceto nossas dores; as dos outros nos parecem expllcávcis c suscetíveis de ser superadas: acreditamos que sofrem porque não têm sufi- ciente vontade. coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso. nos parece legítimo ou ridiculamentc inteligível; sem o que. o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nos mesmos. Sc pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonins que se arrastam em tome de nós. todas as vidas que são mortes ocultas. precisariamos de tantos c0› rações quanto os seres que sofrem. E sc tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nos- sas penas passadas. sucumbirlamos sob tai fardo. A vida só é passível pelas deliciências de nossa imaginação e de nossa mc- ntória. Extraímos nosso força de nossos csquecimentos c de nossa in- caDacidade para imaginar u pluralidade de destinos simultâneos. Ninguém poderia sobreviver à compreensão instantânea da dor universal. pois cada coração só foi moldado para uma certa quantiv dade de sofrimentos. Existem corno que limites materiais para nossa resistência¡ entretanto, a expansão de cada desgosto os alcança e. GENEALOGIA DO FAN/ TISMO 35 th vezes. os ultrapassa: t5 freqüentemente a origem de nossa rulna. Dm' deriva a impressão de que cada dor. cada desgosto. são infi- nitos. Eles o são. nu verdade, mas somente para nós. para os li- lI| lIl'> dt: ttusso coração; c mesmo que este tivesse as dimensões do vasto espaço. nossos males seriam ainda mais vastos, pois toda dor uuhstilui o mundo e de cada desgosto luz outro universo. A razão vuiUrQlI-Sc inutilmenle para mostrar-nos as proporções infinitesintais tlc- nossos acidentes; fracasso ante nossa tendência para tt prolife- | .I1_'t|0 cosmogônica. Dat' decorre que a verdadeira loucura nunca é tluvidtt aos acasos ou aos desastres do cérebro, mas à concepção falsa do espaço que o coração se forja. .. ANULAÇÃO PELA LIBERTAÇÃO (Ima doutrina da salvação só tem sentido sc parlírmos da equação . wtxtéucia-sofrimento. Não e nem uma constatação súbita. nem uma Ilc de raciocinio o que nos conduz a esta equação. mas a elabo- m-. .itr inconsciente de todos os nossos instantes. a contribuição de Iutltts us nossas experiências, intimas ou capitais. Quando carrcgamos um ttós germes de decepções c como que uma sede de vê-los cclo- . IIr_ u desejo de que o mundo anule a cada passo nossas esperanças uuuttiplica as confirmações voluptuosas do mal. Os argumentos ven¡ «m . cruidru it doutrina se constrói: só permanece ainda o perigo vlu “ tbedoria". Mas, se não queremos libertar-nos do sofrimento m nr vencer as contradições e os conflitos. se preferimos as nuan~ i (lt) inacabado e as dinléticas afetivas à unidade de um sublime In v -v sem saida? A salvação acaba com tudo; e acaba conosco. Quem. num vez . va/ vo, ousa considerarse ainda vivo? Só sc vive real» . .uun- pela recusa n libertar-sc do sofrimento e por uma espécie I. imitação religiosa de irreligiosidade. A salvação só preocupa os . uHJHOS t: os santos. os que mataram ou superaram a criatura; . tunas chufurdam ~ bêbados perdidos - na imperfeição. . . U erro dc toda doutrina da libertação t5 suprimir a poesia. tum- : lu inacabado. 0 poeta se trairia se aspirasse a salvar-se: a . Intimo é a morte do canto. a negação da arte c do espírito. Como ' solidário de um dcsenlace? Podemos refinar. cultivar nos~ . . mas como emancipar-nos delas sem abolir-nos? Dóceis
  20. 20. _. . tmiviwto D11 m. omrostçm . l nmliliçüo. só cxistimcs enquanto sofremos. Uma alma só su cn- ; irnntluçc ¡acla quantidade dc msupurtuircl que assume, O VENENO ABSTRATO Mustno nossos mulcs vagos. nossas inquictudcs difusus. quando gcncram cm fisiologia. convém. por um processo invcrso. rucundttzt- los 'as tnunobrus da intcligúnciu. E sc ulçússcntus o tédio ~ PW' : :opção tuutolúgica do mundo, túnuc ondulação da du dignidade dc umu clugiu dctlutiva. sc olcrccésscmos a ulc : t lon- tuçàu du uma prcstigiosu cstcriiidudc? Sem o recurso J umu ordem supcriur à ulmu. cstn si: perde nu carne - c u fisiologia ruvclu-: C a úmmu paiuvrg dg nussus ¡iorplcxidttdus filosóficas'. Cunvcrtcr os venenos imediatos um vulor dc trocu intelectual, cluvur Ii funçao du instrumcnto u corrupção scnsívcl. uu cobrir por ntciu dc nor- mais u impurcza dc todo sentimento c dc toda scnsaçào. C' umu busca¡ du clugñnciai ituccssáriu ao espírito, comParildíl _qual i1 “l'““_ f* essa hicna putéticu w é upcnus profunda c Stlllsi 0 csplrllu um s¡ só pod: : sur . xupur/ iciul. pois sua natureza csttnpruocupudu unicamente com n ordcnuçüu dos acontucimcntos collculllltlls c nao com suus implicações nas esferas que signi/ icuni. Nossos rstudos so lhe interessam na mcdidu em que são trunsmutaivcis. Asstrn u multin- colia emunn dc nossas visucrus c ulcunça o vazio cósnn mas o espírito só ii udutu purificuda do qu: : u um: à fragilidudu dos scri- tidos: ele u tnterpn-Ia: refinada. torna-sc ponto de vista: ritclancolln culcgorial. A tcoriu csprcita e cuptz¡ nossos venenos: c luz nI-: HOS nocivos. F. umu dcgrudanção pura o tlflU. puts u csplfum 3mm” das vcriigcns puras_ é inimigo dus intcnsidadcs. A CONSCIÊNCIA DA INFELICIDADE lilctttentos c atos. tudo concorra para ferir-tc. Armurl-sc de dcsdcits. ¡5°¡¡¡›. §e em uma fortaleza dc nojo. sonhar com indifcrcnçus sohrc- hunmnus? Os ecos do tempo te pcrscguirium um tuas ultimas nu~ GENE/ LOGIA DO F/ NATISMO '57 séncius. .. Qunndo nada pode impediria: dc sangrar. as próprius ltlóids tingctn-sc dc vcrntellto ou invttdcmsc umas às outras como tumores. Não ht¡ nas farmácias nudti especifico contra : t existência; só ¡yuquenos mmédios para os funfttrrou. Mais onde está o ¡inti- iluto do desespero claro, infinitamente articulado, orgulhoso c sa: - puro? Todos os »crus são dcsgrnçudos: tnats. quantos o subcmí' A «oitsciêncin da infcl udc õ umn doença grava dttmnis para fi- ¡zttrnr cm uma¡ uritmét a das' ugonius ou nos registros do Incurávcl. i'll¡ rcbnixtt o prestígio do inferno c canvcrtn: os nmtudottros do Icmpo cm paraísos. Ouc pccudo cumutcstc para nusccrr que crime ¡vnrn existir? Tua dor, como tcu destino. não tem tnotivo. Sufrrr vt-rdadeirnntetttu é aceitar u invasão dos mttlcs scttt u desculpa da tuusailidudo. como um fuvor du natureza demcntc, como um vnilu- inc negativo Na frase do Tempo os homens s inscrcm como vírgulas'. cnv quanto quu, para dctôlu, tu to imobilizustc como um ponto. O PENSAMENTO INTERJETIVO A idéia dc infinito dcvc tor nascido um um dia dc relaxamento, um qua: umu vaga Iungttidcz infiltrou-su nu g-: umt-Iria. como o pri- niuiro : no de cunhccimuxitu no ntumcnto em qua, no silêncio «los tt-flcxus_ um ; im-pio nwcuhro isolou a pcrccpção dc suu obicto. Uunntus ropugntincius ou nostulgins precisamos tlullnllllul' para dus- | 't'li2ll'-llUS enfim sós'. trugiutnncntc supcritlrcs à uvtdün ' l Um sos- pim esquecido nos fu dar um passo parti fora¡ do imcdizito: umu Ilulig. : humtl afastou-nos dc umu pu¡ . again ou de um scr: gcmidos . ltfttsos nos se 'irurnttt das inocincitts suaws ou tcmcrusus. A sonia «lr-Jus distâncias ucídcntuis constitui r bulunço dc nossos dias c nu ~. i~. noitcs 7 o intervalo que nos distingue do mundo - c que vv uspiritu csforçwsu por reduzir c trnlcr dc voltn às itussns pro- ¡unçiws fnigcis. Mus u obra dc cudu lussidãu st: fttz sunlii: onde tmsiuir ainda tnatcríu sob nossos passos? No inicio. pcnsutnos para uvudir-nos dus coisas: (IL-pois. quando Innms longo: dcntuis. pura pardo -nos no remorso dc nossu v | -'- por isso que nossos conceitos citcadcinm-sc como suspiros dissi-
  21. 21. 35 BREVlARlO DE DECOMPOSIÇÀO mulados. que toda reflexão ocupa um lugar de interjeição. que uma tonalidade plangentc submerge a dignidade da lógica. Cores fúncbres obscurecem as idéias. :: fusões de cemitério sobre os parágrafos, odor de podridão nos preceitos, último dia de outono cm um cristal in- temporttl. .. O espirito não tem defesa contra os miasmas que o assaltam. pois surgem do lugar tnais corrompido que existc entre a tcrru e o céu. do lugar onde a loucura jaz na ternura, cloaca de utopias e vcrntineira dc sonhos: ttussa alma. F. mesmo que pudés- semos mudar as leis do ttnivcrso ou prever seus caprichos, ela nos suhjugaria por suas ntisérias, pelo principio de sua ruína. Utnu alma que não esteja perdida? Onde está. para que se faca o seu processo. para que n ciência, a santidade c n comédia : :poderem- se dela! A POTEOSE DO VAGO Podcr- ¡tprcctttler a essencia dos povos - mais ainda do quc a dos individuos - pur sua ntaneírat de participar do migo, As evi- dãttc s em que vivctn so' revelam seu caráter trnttsitórint. suas peri- ferias'. suas atpzirettcius. O que um povo pode esprintir só tctn um valor Iiistórico: é scu êxito no devir: mas o que não pode exprimir. seu Iructtxsa nu etorttu. é u sede infrutifera de si mesmo: seu esforço para esgotar se na exprc no. tando tnttr ltlt) pela imputêttcizt. ele o cncohriu com ccrtus palavras - alusões ao indizível, .. Quantas vezes. cm noss. s ¡vercgrinarcfws fora do intelecto. não descansamns nossas pretwttpztções a sutnhrtt desses Seltnstzcltt. _warn- ing, .saudade. desses frutos sonoros ¡ibertt para corações tnaduros demais! Levantemos o véu dessas palavras: escondem um mesmo conteúdo? E possivel que a mestnu significação viva e ntorra nas ramificações verbais de um tronco do indefinido? Pode-se conce~ bcr que povos tiro diversos situam a nostalgia da mesma tnuneira? Quem se empenhassc em encontrar a fórmula do mu( : lo Ion- gínqttt: seria vitima de uma orquitetttra ntal construida, Para re- montar- 'e à origem dessas expressões do vago deve-se praticar uma rcurcsat) afetiva ate stta essência. atogurse no incfavel e sair com os conceitos em farrapos_ Uma vez perdidos' u segurança teórica e o GlÉNE/ LULZIA DO FAN/ THMO 39 orgulho do inteligivel. podevsc tentar compreender tudo. compreen- der tudo par s¡ tnusrttu. Chega-se cnláo a gozar no incxpritnivel, l passat' os dias à tmtrgcttt do compreensível c a chttfurdar no arra- balde do sublime. Para escapar à cstcrilidade é preciso rcgozijar-sc no limiar da razão. Viver na espera. no que ainda não é. é aceitar o desequilíbrio eltimulunte que sttpõe a idéia de porvir. Toda ttostalgia é uma ltrpemçtiu du presente. Mesmo sob n forma dc remorso. assume um caráter dinâmico: quer-sc forçar o passado. ngir retroativatnente, .protestar contra o irreversível. A vida só tem conteúdo pela violação do tempo. A obsessão do ttlhures é u intpossibilidadt: do instante; e esta impossibilidade é a ttostulgia mesma. Que os Fran * tenham se recusado a experimentar e sohrc- tudo a cultivar a imperfeição do indefinido. nim de¡ a de ter um ! um revelador. Sob forma coletiva. esse mal não existe na França: o : :a/ xml nâo tem qualidade metafísica e o unnui está singularmcttte dirigido. Os Franceses repudiam todn contplatcêneia para com o Possivel: sua ¡xrúpria lingua elimina toda cumplicidade com seus perigos. Há outro povo que se encontre tnnis it vontade no nntndo. para quem o che: .wi tenha mttÍs' setnido c mais peso. para quem 'a intnnêttcia ofereça mais atrativos? Para desejar fundamentalmente outra coisa. é preciso estar des- tituído do espaço e do tempo. e viver cm um minimo de paren- tesco com o lugar e o momento, O qttc faz com que a historia da Franca ofereça tzio poucas descontinuidades, é esta fidelidade i¡ sua essi-ncia, quc lisonjein nossa inclinação à perfeição c decepciona u necessidade de inacabado que implica uma visito trágica. A única coisn cotttaglostt na l-'rattcn e n lucidez. u horror de scr enganado. de ser vitima do que quer que seja. Por isso um Ftattcõs só aceita n aventura com plena cottsciencia; quer scr enganado; venda-sc os olhos: u ltctoisttto incons ctttc parece-lhe. cont toda razão, uma falta de gosto. um sucrif io deselegantc. Mas o equívoco brutal da vida exige que prcdomine n todo instante o nnpulso, e ttão a von- tade. de ser cadáver. de ser enganado tuctufisicameitte. Se os Franceses sobrecurrcgarant de excessiva claridade a nos- talgia. su: lhe subtrztiram certos prestígios íntimos e perigosos. a SeIUtsttc/ t!, ao contrário_ esgota n que hú de insolúvel nos conflitos' da ulmu ttlcmã. dilacerada entre a Hciniu! e o Infinito. Como poderia cncontrar um apaziguamento? De um lado. a vontade de estar mergulhado na indivisñu do coruoo e da terra;
  22. 22. 40 ¡IRIEVIÁRIO DE DECOMPDSIÇAO do outro. a da absorver sempre a espaço em um desejo ¡nsacizivcl E como a cxtcnsàt) nao olcrucc limitus. c com cla 67831.1' a tcndürr cia pura novas vadiagcns. a : ncia rclru ~dc à medida quc su: avança Dai. o gosto exótico. a paixão pclas viagens. , o deleite pela paisar gem : Iiquantu ivaisagcm, a falta dc forma interior. u profundidadc lortuosa. sunultancumuntc sedutora c rcpugnuntc. Não há soluçao para a lonsúo cnm: a Hüllllul t' o lnfixiilu: é cstur cnraizado L' dcsunv rüllíldu uu Itlcsmt! tampo. nào tcr podido encontrar Ull) compro» misso cntrc o lar c u longínquo, O intpcrialistno, constant: : Íunczlu cm sua última essência, não é a tradução politica t: vulgurmcntc concreta du Suhnsuch 3 Não scriu dcmuis insis r nas conseqüências Iiistoricas de ccr- tas aproximações intcriorcs. A nostalgia é uma delas; impede-nos dc rcpousat' no cxistén Ia ou no absoluto: obriga-nos a flutuar nu indistinto, u pcrdcr nossas huacs. a vivcr a desuubcrlr) no tempo, listar arrancado da tcrra, exilado na duração, cortado dc suas ruizcs imediatas. é «icseiair uma reintegração nas fontes originais antcriorcs à separação v: no runtpimcnlo. A nostalgia ó sentir-sc namentc longe dc c sa- c. loru das proporçücs luminosas do 'l dio. e da postulaçào contraditória do lnlinito c da Heimut. toma a forma dc retorno ao finito. ao imediato, a um upclo terrestre c Inatcrnul. Do mesmo modo que o espirito, o coração forja utopias: t: a mui: estranha dc todas é a dc um univcrsra nalul. ondc se duscunsu dc si mesmo. um ttnivcrst) travcssciro cósmico dc todas as nossas fatdigas. Nu aspiração nostálgicu : tão sc deseja algo palpável. mas unia cspécic dc calor abstrato_ heterogêneo ao tempo c próximo d: : um presscrttintcnto paradisiaco. Tudo o que nào ac 'ta a existência conto tal, :: vizinha-sc da teologia. A nostalgia nào c mais do qui: urna teologia sentimental, ondc o Absoluto cata construido com os clu- Incntos do desejo. onde Deus é o lndctcrrninudo claborado pclu languiduz. A SOLIDÃO _ ClSMA DO CORAÇÃO Estamos condenados à perdição scmprc que a vidn não sc revela como um milagre, sempre que o instantc já não gcmc sob um cala- frlo sobrenatural. Como renovar esta sensação dc plcnitudc. estcs GFNEAHHIIA H0 IKNATISMU 41 cuando: de delírio. estes rclampagos vulcânicos. estes prodigios dC larvur que rcbaixam Deus n muro acidente dc nossa argila? Por maio dc que sublcrfúgío rcvivcr esta lulgtlrílÇãU na qual mesmo a nnisica parece-nos superficial, como sc fosse o rcfugo de nosso óvulo interior? Não csla em nosso puder fazer voltar os : trrcbatamcntos qu: M¡ faziam coincidir com u comcço do movimento, tornando-nos danos do primeiro mumcnlu do tempo c artrsüt» instantâneos dat Criação. Dcsla percebemos apenas o despojamento. u rcalidudc lti- jubrc: vivemos para dcsaprcndcr o éxta . E ão é o ntilngrc que delcrlnina nossa tradição c nossa substancia. mas u vazio dc um universo privado dc suas chamas. afogado cm suas próprias : :usin- dll. obieto exclusivo dc nossa ruminução: um universo solitário ante um coração solitário, prcdcstinados, um c outro. a separar-se. O I exnspcrar-sc na antítese. Quando a solidão sc acentua a ponto 40 constituir não tanto nosso dada como nossa Linica fé_ cessa- MOI dc scr solidários com o todo: licréticos da cvistônciu. somos Óltlufdos da comunidade dos vivcntcs. cuja única virtude é cspcrar. Mutantes. algo que não suja a morlc. Mas. libertos da fascinação '. Úllln espera. cxpulsos do ccumcnismo da ilusão. somos a scita mais flwrêtica. pois nossa própria alma nasceu na heresia. ("Quando n alma está cm estudo dc graca_ sua bclczo é tão _ lllblimc c admirável quc ultrapassa incontparavclincnte tudo o que ' M de belo na natureza. c encanta os olhos (lt: Deus e dos Anjos. " [Inicio de Loyola] Procurei cstahclccer-mc em alguma graça: quis liquidar as in~ hrrogações e dcsapareccr cm uma luz ignorante, cm qualquer lu7. dlldcnhosa do intelecto. Mas. como alcançar o suspiro dc felicidade - Iuperior aos problemas. quando nenhuma "beleza" tc ilumina. c - 'Deus e os Anjos são cegos? Antes. quando Santa Teresa, padroeira da Espanha e de tua alma. prescrcvia-lc um trajeto de tentações c d: : vcrtigens, o abismo transcendente maravilhavaAte como uma queda nos céus. Mas esses Nua se dcsvancccram - como as tentações c as vcrtigcns -- c. M coraçao frio, cxtinguiram-sc para sempre as fcbrcs dc Ávila. Por que estranheza da sorte. certos sercs. tendo chegado ao punto em que poderiam coincidir com uma fé, rccunm para seguir
  23. 23. 42 BREVIÁRIO DE DECOMPOSICÀO um caminho que só os leva : i eles mesmos ~« e portanto a parte alguma. E por medo que. uma vez instalados na graça. percam “as Víluides Próprias? Cada homem evolui à custa de suas profun- didades. cada homem é um mlstico que se recusa: a terru está povoada de graças geradas c de mistérios pisoteados. ) PENSADORES CREPUSCULARES Atenas estava morrendo e. com ela. o culto do conhecimento. Os grandes sistemas já haviam vivido: limitados no domínio concei- tual. repudínvam n intervenção dos tormentos. a busca da liberta- çao c da meditação desordenada sobre a dor. Na cidade agonízante. qu! ? hnvía permitido a conversão dos acidentes Iiumanos em teoria qunlqu” CUÍSS - o cspirro ou a morte ~ suplantava os antigos problemas. A obsessão dos remédios marca o fim de uma civilização: :af/ “SÍ” cd: _d5“¡V5C30. o dc uma filosofia. Platlâole Aristóteles só _ ° ' ° " “S” PWW-“PWÕCS POr extgencin de equilibrio: depois deles, cias lriunfavam em todos os setores. Roma. em seu acaso. recolheu dc Atenas apenas os ecos de sua decadência e os reflexos de seu esgotamento. Quando os gre- gos desfilavam suas dúvidas através do Império. a ruína deste e da fgfssofia era um fato virtualmente consumado: Como todas as ques- . pareciam legítimas. a supersiiçao dos limites formais já não impedia n devassidão das curiosidades arbitrárias. A infiltração do : Ptcurismo c do cstoicismc era fácil: a moral substituta os edi- ÂÊQUS ÂÍÃÍIÇÊÊSLÍ: 'São adulterada tornava-se instrumento da_ prá- Máam os cpicuríshs t. : com nteâcitas diferentes de felicidade _ pu¡ charlalõcs surgidos nua de: : . es dtedsl_ piefritos em sabedoria, nobres ¡ncurável c generalizar: : Mria a ioso ta para curar urna lassidão _ . as faltavam à sua tcrapeutica a mito- login c as anedotas estranhas que, na aboliu universal. iam eonsti» Liàífiolff' s: 2.2" = == 'inch qucqexpírasio "seus oga cia ultima palavra. de uma civi- mnun d _'_ ° 05 *Tfflusculos historicos, n fadiga Bura a em visao do mundo. a ultima tolerância antes da che Lg- GENEALOGIA DO FANATISMO 43 zada dc outros deuses mais jovens - e da barbárie; é também uma vai tentativa de melodia nos cstertorcs do lim, que surgem de toda parte. Pois o Sábio - teórico da morte linipida. herói da indiferença e símbolo da última : :tapa da filosofia. de sua degene- ração e vacuidade ~ resolveu o problema dc sua própria morte. .. c suprimiu assim todos os problemas. Dotado de ridículos mais raros. é um camlimite, que sc encontra em períodos extremos como uma confimiação excepcional da patologia geral. Encontrando-nos no ponto simétrico da agonia antiga. vitimas dos mesmos mules e sob sortilégios igualmente inelutáveis, vemos os grandes sistemas abolidos por sua perfeição limitada. Também para nós tudu sc tornu tema de uma filosofia sem dignidade e sem rigor. . O destino impessoal do pensamento dispcrsou-sc em mil almas, em mil ltumilltaçôes da idéia. .. Nem Leibniz. nem Kant. nem Hegel podem mais nos prestar ajuda, Chegamos com nossa própria morte ante as portas da filosofia: apodrecidas, sem mais nada para guardar. abrem-se por si mesmas. .. c qualquer coisa torna-se tema filosófico. Os parágrafos são substituldos por gritos: o resultado é uma filosofia de / unzlus aIlÍmEL'. cuja intimidade se iwunheccrla nas aparências du história e nas ilusões do tempo. Também nós buscamos : i “feli dade", seja por frenesi, seja por desdém: dcsprezá-la é ainda não csquecé-la. e repudia-lu pen- sando ncla: também nós buscamos a “salvação”. ainda que seja não a desejando. E se somos os heróis negativos de uma lcliidc dema- siado madura, por isso mesmo somos seus contemporâneos: trair seu tempo ou ser fanático por ele. exprime - sob uma contradição aparente - um mesmo ato de participação. Os altos desfaleeimen- tos, as sutis decrepitudes. a aspiração a aurêolas intemporais ›- tudo isso conduzindo à sabedoria -. quem não os reconhece em si mes- mo? Quem não sente o direito de afirmar-sc plenamente no vazio que o rodeia, tintos que o mundo se desvancça na aurora de um absoluto ou de uma negação nova? Um deus ameaça sempre no horizonte. Estamos à margem du filosofia. uma vez que consen- timos em seu ocaso. Façamos que o deus não si: instale em nossos pensamentos, guardamos ainda nossas dúvidas. as aparências de equi- librio e a tentação do destino inianente, pois qualquer aspiração arbitrária e fantástica é preferível às verdades inflexiveis. Mudamos de remédios, ao não encontrar nenhum eficaz nem válido. porque
  24. 24. 41 BREVIARIO DE DECOMPOSICÀO ntlu temos fé nem no apazigunmento que buscamos nem nos pri¡- zciet¡ que perscgnitnos. Sábios versáteis, somos os cpicnristas e os estóieos das ROITIES modernas. .. RECURSOS DA AUTODESTRUIÇÃO Nascidos em uma prisão, com fardos sobre nossos ombros e nossos pensamentos. não poderíamos alcançar o termo dc um só din se a possibilidade de ueabnr não nos incitasse n recomeçar o dia sc- guinte. .. Os grilliões e o tir irruspirável deste mundo roubam-nos tudo. salvo ti liberdade de matar-nos: e esta liberdade nos insulin uma força c um orgulho tais que triunlum sobre os pesos que nos csmngam. Poder dispor absolutamente de si mesmo e recusar-se: existe dom mais misterioso? A cunsoluçài) pelo suicidio possível amplia infinitamente este morada onde sulocamus. A idúiu de nos destruir, a multiplicidade de meios para cunseguilo. suu futilidade c proxi- midade nos ulegrnm e nos nssustutn: pois não liá nada mais sim- ples e mais terrivel do que o nto pelo quul decidimos irrevogtivel- mente sobre nós mesmos. Em um . só instante. suprimimos todos os instantes: nem o próprio Deus saberia fazer igual. Mas. demônios fnnfnrrôes. :: di-amos nosso lim: como rcnuneisriumns no desdobrar mcnto de nossa libcrdude. ao jogo dc nossa soberba7.. . Quem jamais concebeu sua própria xnnlncño. quem não ¡ires- sentiu o recurso ii corda. à bula. ao veneno ou no mnr. é um con- denado objeto ou um verme rastcjnnle sobre il curuaçu uósmic . Este mundo pode nos tirar tudo. pode proibir-nos tudo. mas nao está em poder de ninguém impedir nos . i nutoubolição. Todos os utensílios nos ajudam, todos os nossos abismos nos convidam; mas todos os nossos instintos se tnpõcm. Estn contradição desenvolve no espirito um conflito sem snida. Ounndo começamos : i refletir so- bre a vida. a descobrir viela um iniiiiito de vncuidude, nossos ins- tintos iii se crigiram em guias e mandatário: di: nossos atos: refreiam o vôo de nossa inspiração e a destreza dc nosso desprendimento. Se. no momento de nosso Iiascitnento. fossemos trio conscientes como GENEALOGIA DO FANATlSMO 43 o somos no sair da zitlolescéncin. é mais do que provável que aos cinco unos o suicidio fosse um fenómeno habitual on mesmo umu questão dc lionorabilidride. Mas dcspcrtamus tnrde demais: temos contra nos os anos lecundudos unicamente pela presença dos ¡ns- tlntos. que devem lieur estupcfattas com as conclusões u que con- duzem nossas tneditaçõcs e decepções. E reagem: no entanto, como adquirimos u conseienciu de nussa liberdade. somos donos de umii resolução ttmtu mais utrucnte quunto não u colocamos em prática. Ela nos faz suportar us dius e_ mais ainda. us noites: já não somos pobres. nem oprimidos pela adversidade: dispomos de recursos su- prcmus. E mesmo que não os cxplorássemos nuneu. c iicahrisscmos na expiração tradicional_ liaveriamos tido um tesouro em nossos desampuros: existe maior riqueza do que o suicídio que cada um carrega cm si? Se as religiões nos proibiram morrer por nossa própria mão. é porque vimn tlisso uni exemplo de insubmissão que huniilhavn o¡ templos e ns deuses. Curto eoneilio de Orleans considerava o wicldio como um pecado mais gruve que o homicídio. porque o assas- sino sempre pode se arrepender. salvar-se, enquanto que aquele que tirou u próprio vida trunspós os limites llil salva o. Mas o ! to di: se matur não parte de uma lórmuia radical de salvação? E D nada não vulc tunto quunto a eternidade? Só o existente não tem necessidade dc fazer guerra ao universo: é a si mesmo que envia n Ultimato, Iii irão aspira n M! ! para sempre. se en¡ um ato incom- parável foi ubsululunicnu- ele mesmo. Recusa o céu e a tcrru como recusa-sc u s¡ ntcsmu. Ao menos. terá ulcunçutlo umu plenitude de liberdade inacessível no que ii busca indclinidunictttc no futuro. .. Nenhuma¡ igreja. nenhuma institui inventou até o presente um só argumento viilitlo contra o suicidio. A quem nào pode mais ! aportar u vidu. o que responder? Ninguem 'i à altura de tomar ! Ohm iii us lurdos de outro. E que lurçu dispõe a dialético contrai _b assalta dos desgostos irrefutnvcis v: de mil evidências inconso- lidas? O suicidio é um dos sinais distintivos do homem_ umu de runs descobertas: ¡icnhum amimiil r'- riipau. dele c os anjos apenas 0 tldivinhairtim: sem ele. u ruulidude humana seria menus curiosa e ' menos pitorcscn: laltar-lhe-iu um clima estranho e uma série dc possibilidades lunestas. que têm seu valor estético. mesmo que só 'lume por introduzir na tragédia soluções ttuvus e umn variedade Â' dcsenluecs.
  25. 25. .u, IIIUNIÁRIU Df. DECOMPOSIÇÃU 0.x sftbins antigos. que se ntstuvant como prova de sua matu- rtdntle. haviam criado uma disciplina do suicidio que os modernos dcsttprcnderam. Condenados a urna agonia sem gênio. não sontus nem ; tutores de nossos últimos instantes. nem árbitros (le nossos ttdcuscs: o final não e ¡russu final: a excelência de uma iniciativa unica - pela qual resgatariamos uma vida insfpida e sem talento -› nos falta. como nos falta o cinismo sublime. o fausto antigo da arte de perecer. Rolim-ires do desespero. cadáveres que se aceitam. todos nós sobrevivemos e ntorremos apenas para cumprir uma for~ maltdade tnuttl. E como se nossa vidu só se preocupasse em adiar o momento etn que poderiamos livrar-nus dela. US ANJOS REACIONÁRIOS É dificil formular um juizo sobre ll rebelião do ntettos filósofo dos anjos. sem misturar nele sintpzttia. assomhro e reprovação. A in- justiça governa o ttniverso. Tudo o que se constrói. tudo o que se desfaz. leva a ntarcn de uma fragilidade imunda. como se a matéria fosse o fruto de um escândalo no seio do muda. Cadu ser nutre-se da agonia de outro ser; os instantes se precipittam como vampiros sobre a anemia do tempo: o mundo é um receptticulo de soluços. .. Neste matadouro_ cntzsr os braços ou sacar a es~ pada são gestos igualmente vãos. Nenhum soberbo arrchalamenlo saberia sacudir o espaço nent enoltrecer as almas. Triunfos e fru› eassos sucedcm-se segundo uma lei desconhecida que tem o notne de destino. nome no qual reeort-emos quando. filosofieamenlc des~ guamecidos. nossa estada neste mundo, ou não importa onde. pa~ race-nos sem solução e como uma maldição que devemos sofrer. irracional e imerccida. Destino - palavra preferida mt terminologia dos vencidos. .. Ávídos de uma nomenclatura para o lrremediável. buscamos um alivio na invenção verbal, nas claridades suspensas acima de nossos desastres. As palavras são caridosas: sua frágil realidade nos engana e nos consola. Deste modo o “destino”. que não pode querer nada. é quem quis o que nos sucede. .. Apaixonados pelo irracional como único CENlí/ LOGIA Dl) FAN/ TISMO 47 modo de explicação. vcmwlu carregar a balança de nossa sorte. na qual só pesam os elementos negativos. da mesma natureza. De onde extrair o orgulho pura provocar us forças que assim decreta- rum e que. além disso, são irresponsáveis por tal decreto? Contra quem levur n luta e para onde dirigir o assalto quando a injustiça fustiga o ur de nossos pulmões. o espaço de nossos pensamentos. o silêncio c o cstupor dos astros? Nossa rebelião está lào mal Lzuncebida como o mundo que u suscita. Como empenhar-sc em re- parar as faltas quando. como Dom Quixote em seu leito de mor- te. perdemos - no extremo du loucura. extenuudos - vigor e ilusão para enfrentar osmaminhos. os combates e ns derrotas. E como encontrar de novo o frescor do arcanjo sedícioso. aquele que, ainda no começo do tempo. ignornva esta sabedoria pestilenta em que nossos impulsos se afngam? De onde tirnrlantos suficiente verve e presunção para difamttr o rebanho dos outros anjos, se neste mundo seguir seu colega é precipitar-se mais abaixo ainda, sc a injustiça dos homens imita il de Deus e toda rebelião opõe tt almu ao in- finito e : t despeduça contra ele? Aos anjos anónimos ~ encolltidos sob suas nsas sem idade. eternamente vencedores c vencidos em Deus, insensiveis as ttefastus curiosidades. sonhadores paralelos nos lutos terrestres - quem ottsuriu atirar-lhes n pritncirn pedra e. por desafio. interromper seu sono? A rebelião. orgulho da queda. só extrai sua nobreza de sua inutilidade: os sofrimentos u des- pertam e logo : l abandonam; o frenesi a exalta e a decepção u nega. . Não poderia ter sentido em um universo nãzruâlizla. (Neste mundo nude está em seu lugar, começando pelo próprio mundo. Não devemos surpreender-nos então com o espetáculo da injustiça humana. E igualmente vão repudiar ou itecitar a ordem social: somos obrigados at sofrer suas trnnsfortnações para tttelltor ou para pior com um confonnismo desesperado. como sofremos o nascimento. o amor. o clima e a mono. A decomposição preside as leis da vidu: mais próximos de nosso pé do que estão do seu os obje- tos inanintados. sucuntbimos antes deles e correntos para o ttosso destino sob o olhar das estrelas aparentemente indestrutiveis. Mas mesmo eles virarão pó em um universo que só nosso coração leva a sério para expiar depois com dilaoerações sua falta de ironia. Ninguém pode corrigir a injustiça de Deus e dos homens: todo ato é apenas um caso especial. aparentemente organizado, do caos original. Somos arrastados por um turbilhão que remonta à aurora
  26. 26. 43 BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÀO dos tempos: e se esse turbilhão tomou o aspecto da ordem é apenas para nos arrastar melhor. . . ) A PREOCUPAÇÃO COM A DECÊNCIA Sob o aguílhão da dor. n carne desperta: matéria lúcida e lírica. canta sua dissolução. Enquanto era indiscernivel da natureza. re- pousavn no esquecimento dos elementos: o eu ainda não havia se apoderado dela. A ntatéria que sofre emancipa-se da grtivilítçãtt. nào é mais solidária do resto do universo. isola-se do conjunto adorme 'doz pois a dor. agente de separação. principio ativo de individuacão. nega as delícias de um destino estatístico. O ser verdadeiramente solitário não é o que foi altandonaçlo pelos homens. mas o que sofre no meio deles. o que arrasta seu deserto nas feiras c exige seus talentos de leprusu sorridente. de comediante do irreparável. Os grandes solitários de outrora eram felizes, não conheciam u duplicidade, não tinlutm nada que ocultar: só se relaeionavam com sua própria solidão. Entre todos os laços que nos unem às coisas. não há um só que não afrouxe e não pareça sob a militância do sofrimento. que nos liberta dc tudo. salvo da obsessão de nos mesmos e da sensação de scr irrevogavelmente indivíduo. E a solidão hipostasiadzt em essência. Sendo assim, por que nteios comunicar-se com os outros senão pela prestidigitação da mentira? Pois se ttão fôssemos saltinv bancos. se não ltouvéssentos aprendido os artifícios de um eharla- tanismo stilxio. se enfim fôssemos sinceros até o despudor ou a traga? ia --, nossos mundos subterrâneos vomitariam oceanos de fel, onde desaparecer seria nosso ponto de honra: fugiríamos assim da inconvoniéncia de tanto grotesco e sublime. Em um certo grau de desgraça, toda franqueza torna-sc indeccnte. ló se deteve a tempo: um passo adiante e nem Deus nem seus amigos lhe teriam mais respondido. (Somos "civilizadus" na medida em que não proelamamos nossa lcpru. em que damos prova de respeito pela elegante falsidade for- jado pelos séculos. Ninguém tem o direito de curvar-se sob o peso de suas horas. .. Todo homem esconde em s¡ uma possibilidade de apocalipse, mas todo homem sujeita-se a nivelar seus próprios abis~ GENEALOCM DO FANATISMO 49 mos. Se cada um desse livre curso à sua solidão. Deus deveria recriar este mundo. cuja existência depende inteiramente de nossa educação c deste medo que lemos de nós mesmos. . . - O caos? - E reicitur tudo o que se aprendeu, é ser tvucê "muito. . . ) A CAMA DO VAZIO Vi este perseguir tal tneta e aquele tal otttra: vi os ltomeits fasci- nadus por objetos disparcs, sob o encanto de projetos e de sonhos no mesmo tempo vis e indefiníveis. Attalisandu cada caso isolada- mente para d 'cobrir as razões de tanto fervor desperdiçado. com- preendi o sem-setttido de todo gesto e de todo esforço. Existe uma só vida quc não estein impregnada dos erros que fazem viver? Existe uma só vida clara. transparente. sem raizes ltumilhantes. sem mo- tivos inventados, sem os mitos surgidos dos deseiosí' Onde está o ato puro de toda tttilidade: sol que ttbomine a ineandescéncia. anjo em um universo sem fe. ou verme ocioso ent um mundo aban› danado à imortalidade? Ouis defender-me contra todos os ltomens. reagir contra sun loucura. descobrir sua urigent: escutei. vi e tive ntcdo: medo de agir pelos ntesmos motivos ou por qualquer outro ntotivo, de crer nos mesmos fantasmas ou em qualquer outro fantasma, de deixar- me afogar pelas mesmas emhriaguezes ou por qualquer outra em- briaguez; medo, enfim_ de delirar em comum e de expirar em uma multidão de éxtases, Eu sabia que no separar-me de uma pessoa despojaru-me dc um erro. que estava pobre da ilusão que lhe dei- xava. .. Suas palavras fehris a revelavam prisioneiro de uma evi- dência absoluta para ela e irrisória para mim; ao contato de seu absurdo. despojavtt-ttte do meu. .. A quem ndc r sem o sentimento de enganar-se e sem enrubeseer? Só pode justificar-se aquele que pratica. com plena consciência. o dispnrate : necessário para qual- quer nto. e quc não embeleza com nenhum sonho n ficção a que se entrega. do mesmo modo que só se pode admirar um herói que morre sem convicção. tanto mais disposto ao sacrifício quanto en- trcviu seu fundo. Quanto aos amantes, seriam udiosos se no meio de suas caretas o pressentimento da morte não os roçasae. E pertur- budor pensar que levamos para o túmulo nosso segredo -- nossa

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