Fundamentos de contabilidade

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Fundamentos de contabilidade - Princípios.

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Fundamentos de contabilidade

  1. 1. Prefácio Há mais de 75 anos, o livro Fundamentos de Contabilidade – Princípios vem sendo usado de forma eficaz para ensinar várias gerações de executivos. Como o livro-texto de administração mais bem-sucedido de todos os tempos, ele continua a apresentar a contabilidade aos alunos por meio de uma ampla variedade de métodos de eficácia comprovada. Nesta edição, continuamos explorando novas maneiras de conectar o estudante moderno à contabilidade, uma disciplina que é, ao mesmo tempo, desafiadora e gratificante. Em nome dessa exploração, perguntamos aos professores de contabilidade o que funciona, o que não funciona e o que precisa ser melhorado. Nesta tradução foram empregados muitos métodos novos para aproximar este texto daquilo que os professores ensinam no seu cotidiano. Como sempre, as respostas fo-ram detalhadas e esclarecedoras. Recorrendo a avaliações, a grupos focais e aos inovadores workshops, foi criado um sistema de aprendizado moderno e eficiente para os alunos e professores de hoje. De fato, nos-sos workshops reuniram professores de contabilidade norte-americanos, de todos estados, para discutir o conteúdo, a pedagogia dos capítulos, e a diagramação do livro. Pela primeira vez, os professores puderam participar de todos os aspectos do projeto, e o efeito de sua colaboração à edição é evidente. Ao conectar- -se com seus leitores, a tradução da 22ª edição norte-americana fornece aquilo que os alunos e professores precisam, sem qualquer conteúdo supérfluo. O primeiro autor desta obra, James McKinsey, jamais poderia ter imaginado o sucesso e a influência que têm caracterizado este texto, nem que sua visão original continuaria a liderar o mercado no século XXI. Nós, os autores atuais, temos plena consciência da responsabilidade de proteger e aprimorar essa visão, continuando, ao mesmo tempo, a refiná-la para satisfazer às necessidades mutáveis dos estudantes e ins-trutores. Este livro, sempre em contato com uma tradição de excelência, mas nunca satisfeita com o sucesso de ontem, abraça entusiasticamente um ambiente em constante evolução e continua, orgulhosamente, a apontar o caminho. Queremos expressar nossos sinceros agradecimentos aos muitos colegas que nos aju-daram a transformá-la em realidade. Esta primeira edição brasileira contempla os complementos para as adaptações necessárias à realidade contábil e tributária brasileira. Essas adaptações foram feitas dentro da metodologia original do livro e têm como foco principal as diferenças da legislação tributária entre Brasil e Estados Unidos; visto que as práti-cas contábeis brasileiras estão alinhadas com as práticas internacionais de contabilidade, porém, ainda não totalmente harmonizadas com as práticas contábeis dos Estados Unidos. É importante reforçar os aspectos metodológicos deste livro, como a apresentação dos conceitos, segui-dos de exemplos práticos, acompanhados de exemplos ilustrativos e casos do mundo real. Além disso, to-dos os capítulos apresentam uma série extensiva de exercícios, dos mais variados formatos, o que permite um aprendizado eficaz dos princípios de contabilidade. Nós, como o coautor brasileiro, sentimo-nos honrados em participar deste projeto editorial de grande relevância para o ensino e a prática contábil brasileira.
  2. 2. CAPÍTULO 1 Introdução à Contabilidade e aos Negócios 1 Natureza dos Negócios e da Contabilidade 2 Tipos de Empresas 3 Tipos de Organizações Empresariais – Estados Unidos 3 Tipos de Sociedades Empresariais pela Legislação Brasileira 4 Partes Interessadas em uma Empresa – (Stakeholders) 7 Papel da Ética na Empresa 8 O Papel da Contabilidade na Empresa 10 A Profissão de Contador 12 Princípios Contábeis Geralmente Aceitos 13 Conceito de Entidade Contábil 15 O Conceito de Custo 15 Princípios Fundamentais de Contabilidade A Estrutura Brasileira 16 A Equação Contábil 17 Transações Comerciais e a Equação Contábil 18 Demonstrações Financeiras 23 O Conjunto das Demonstrações Financeiras ou Contábeis no Brasil 24 Demonstração do Resultado do Exercício 24 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido 25 Balanço Patrimonial 26 Demonstração dos Fluxos de Caixa 28 Inter-relações entre Demonstrações Financeiras 30 CAPÍTULO 2 Análise das Transações 61 Uso de Contas para Registrar Transações 62 Plano de Contas 64 Análise e Resumo de Transações em Contas 65 Saldos Normais de Contas 71 Sistema Contábil de Lançamentos por Partidas Dobradas 71 Transcrição de Lançamentos do Livro Diário para Contas do Razão 74 Balancete de Verificação 88 Descoberta e Correção de Erros 89 Localização de Erros 89 Correção de Erros 90 CAPÍTULO 3 O Processo de Ajuste 123 Natureza do Processo de Ajuste 124 O Processo de Ajuste 125 Tipos de Contas que Exigem Ajuste 125 Registro de Lançamentos de Ajuste 127 Despesas Pagas Antecipadamente 128 Receitas Antecipadas 131 Receitas Realizadas e Não Recebidas 132 Despesas Provisionadas 133 Despesas de Depreciação 135 Resumo do Processo de Ajuste 137 Balancete de Verificação Ajustado 141 CAPÍTULO 4 Completando o Ciclo Contábil 169 Fluxo de Informações Contábeis 170 Demonstrações Financeiras 172 Demonstração do Resultado do Exercício 172 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido 174 Balanço Patrimonial 175 Lançamentos de Encerramento do Exercício 177 Lançamento e Transcrição de Lançamentos de Encerramento do Exercício 178 Balancete de Verificação Final 180 Ciclo Contábil 186 Exemplo do Ciclo Contábil 186 Etapa 1. Análise e Registro das Transações no Livro Diário 188 Etapa 2. Transcrição das Transações para o Livro-Razão 188 Sumário
  3. 3. x Fundamentos de Contabilidade – Princípios Etapa 3. Preparação de um Balancete de Verificação Não Ajustado 189 Etapa 4. Coleta e Análise de Dados de Ajuste 190 Etapa 5. Preparação de uma Planilha de Encerramento do Exercício (Folha de Trabalho) Opcional 191 Etapa 6. Lançamento e Transcrição de Lançamentos de Ajuste 191 Etapa 7. Preparação de um Balancete de Verificação Ajustado 193 Etapa 8. Preparação das Demonstrações Financeiras 193 Etapa 9. Lançamento e Transcrição de Lançamentos de Encerramento do Exercício 195 Etapa 10. Preparação de um Balancete de Verificação Final 195 Exercício Fiscal 200 Planilha de Encerramento do Exercício (Folha de Trabalho) 201 Colunas do Balancete de Verificação Não Ajustado 201 Colunas de Ajustes 202 Colunas do Balancete de Verificação Ajustado 202 Colunas da Demonstração do Resultado do Exercício e do Balanço Patrimonial 203 CAPÍTULO 5 Sistemas Contábeis 243 Sistemas Contábeis Básicos 244 Sistemas Contábeis Manuais 245 Livros-Razão Auxiliares 245 Livros Diários Especiais 246 Sistema Contábil Manual: O Ciclo de Faturamento e Cobrança 247 Sistema Contábil Manual: O Ciclo de Compra e Pagamento 252 Adaptação de Sistemas Contábeis Manuais 257 Livros-Razão Auxiliares Adicionais 257 Livros Diários Especiais Modificados 257 Sistemas Contábeis Computadorizados 258 Comércio Eletrônico 262 CAPÍTULO 6 Sarbanes-Oxley, Controle Interno e Caixa 295 Lei Sarbanes-Oxley de 2002 296 Controle Interno 298 Objetivos do Controle Interno 298 Elementos de Controle Interno 299 Ambiente de Controle 299 Avaliação de Riscos 301 Procedimentos de Controle 301 Monitoramento 303 Informações e Comunicação 304 Controles de Caixa para Recebimentos e Pagamentos 305 Controle de Recebimentos de Caixa 305 Controle de Pagamentos de Caixa 307 Contas Bancárias 308 Uso de Contas Bancárias 308 Extrato Bancário 309 Contas Bancárias como Controle de Caixa 311 Reconciliação Bancária 312 Fundos de Caixa para Finalidades Especiais 315 Apresentação dos Valores em Caixa nas Demonstrações Financeiras 317 Análise e Interpretação Financeira 318 GLOSSÁRIO 345
  4. 4. Introdução à Contabilidade e aos Negócios capítulo 1 Depois de estudar este capítulo, você deverá ser capaz de: 1. Descrever a natureza de uma empresa e o papel da ética e da contabilidade no ambiente de negócios. 2. Resumir o desenvolvimento dos princípios contábeis e relacioná-los à prática. 3. Descrever a equação contábil e definir cada elemento da equação. 4. Descrever e ilustrar como as transações comerciais podem ser registradas em termos das alterações resultantes nos elementos básicos da equação contábil. 5. Descrever as demonstrações financeiras de uma empresa individual e explicar como estão interligadas. objetivos
  5. 5. 2 Fundamentos de Contabilidade – Princípios Quando dois times enfrentam-se em um jogo de futebol, geralmente há um bo-cado de agitação. A banda toca, os tor-cedores gritam e os rojões explodem quando o placar muda. Obviamente, os torcedores estão envolvidos e se importam com o resultado da partida. Assim como os torcedores em um jogo de futebol, os proprietários de uma empresa que-rem que ela “ganhe” de seus concorrentes no mer-cado. Enquanto a vitória do nosso time de futebol pode ser uma fonte de orgulho, a vitória no mer-cado vai além do orgulho e traz muitos benefícios concretos. As empresas vencedoras têm melhores condições de servir a seus clientes, fornecer bons empregos aos seus funcionários e gerar mais di-nheiro para os proprietários. Um exemplo de empreendimento bem-sucedi-do é o Google™, uma das empresas mais visíveis na Internet. Muita gente não consegue acessar a In-ternet sem parar primeiro no Google para fazer uma pesquisa. Como afirmou um escritor, “o Google é a coisa mais próxima na Internet de uma máquina de responder definitiva”.1 Mesmo assim, é uma ferra-menta gratuita – ninguém pede seu cartão de cré-dito quando você usa qualquer das ferramentas de busca do Google. Então, você acha que o Google é uma empresa bem-sucedida? Ela ganha dinheiro? Como é possível saber isso? A contabilidade ajuda a responder essas perguntas. As informações con-tábeis do Google nos mostram que se trata de uma empresa muito bem-sucedida, que ganha muito dinheiro, mas não de você ou de mim. O Google ganha dinheiro com publicidade. Neste livro nós o apresentaremos à contabi-lidade, a linguagem dos negócios. Neste capítu-lo, começamos discutindo o que é uma empresa, como ela funciona e o papel desempenhado pela contabilidade. Google™ Natureza dos Negócios e da Contabilidade Você provavelmente consegue citar alguns exemplos de empresas como a Google com as quais negociou recentemente. Seus exemplos podem ser grandes empresas, como a Coca-Cola, Dell ou Amazon.com. Podem ser empresas locais, como postos de gasolina ou mercearias, ou talvez prestadores de serviços. Podem ser restauran-tes, firmas de advocacia ou clínicas médicas. O que todos esses exemplos têm em comum que os identifica como empresas? Em geral, uma empresa2 é uma organização em que recursos básicos (insumos), como materiais e mão-de-obra, são agrupados e processados para fornecer bens ou objetivo 1 Descrever a natureza de uma empresa e o papel da ética e da contabilidade no ambiente de negócios. serviços (produtos) aos clientes. Há empresas de todos os tamanhos, desde um café local até uma Daimler- Chrysler, que vende vários bilhões de dólares de carros e caminhões a cada ano. Os clientes de uma empre-sa são indivíduos ou outras empresas que compram bens ou serviços em troca de dinheiro ou outros itens de valor. Em contraste, uma igreja não é uma empresa, pois quem recebe seus serviços não é legalmente obrigado a pagar por eles. O objetivo da maioria das empresas é maximizar os lucros. Lucro é a diferença entre os valores recebi-dos dos clientes pelos bens ou serviços fornecidos e os valores pagos pelos insumos usados para fornecer esses bens ou serviços. Algumas empresas operam com um objetivo diferente da maximização dos lucros. O objetivo dessas empresas sem fins lucrativos é fornecer algum benefício à sociedade, como pesquisas médicas ou conservação de recursos naturais. Em outros casos, unidades governamentais, como cidades, operam sistemas de distribuição de água ou instalações de tratamento de esgotos sem fins lucrativos. Este texto concentra-se nas empresas que operam com o objetivo de gerar lucros. Lembre-se, porém, de que muitos dos mesmos conceitos e princípios também são aplicáveis a empresas sem fins lucrativos. 1 Citação extraída do site da Google. 2 Um glossário completo de termos é fornecido no final do livro.
  6. 6. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 3 TIPOS DE EMPRESAS Há três tipos diferentes de empresas que operam com o objetivo de gerar lucros: empresas de serviços, de comércio e de fabricação. Cada tipo de empresa tem características singulares. As empresas de prestação de serviços fornecem serviços em vez de produtos aos clientes. Exemplos de empresas de serviços e dos tipos de serviços que elas ofere-cem são fornecidos a seguir. Empresa de Serviços Serviço The Walt Disney Company Entretenimento Delta Air Lines Transporte Marriott International, Inc. Recepção e hospedagem Bank of America Corporation Serviços financeiros XM Satellite Radio Rádio por satélite Aproximadamente oito de cada dez trabalhadores nos Estados Unidos são prestadores de serviços. As empresas de comércio vendem aos clientes produtos que compram de outras empresas. Nesse sen-tido, as empresas de comércio fazem a conexão entre produtos e clientes. São fornecidos a seguir exemplos de empresas de comércio e de alguns dos produtos que elas vendem. Empresa de Comércio Produto Wal-Mart Mercadorias GameStop Corporation Videogames e acessórios Best Buy Aparelhos eletrônicos Gap Inc. Roupas Amazon.com Livros, música, vídeos As empresas de fabricação, as indústrias, transformam insumos básicos em produtos que são vendidos a clientes individuais. Estes são alguns exemplos de empresas de fabricação e seus produtos: Empresa de Fabricação Produto General Motors Corporation Carros, caminhões, utilitários Samsung Celulares Dell Inc. Computadores pessoais Nike Roupas e calçados esportivos The Coca-Cola Company Bebidas Sony Corporation Aparelhos de som e televisores TIPOS DE ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS – ESTADOS UNIDOS As formas mais comuns de organização empresarial são firma individual, sociedade, sociedade anônima e sociedade de responsabilidade limitada. Essas formas e suas principais características são descritas a seguir. „ Uma firma individual tem um único proprietário e • Abrange 70% das organizações empresariais nos Estados Unidos. • O custo da organização é baixo. • É limitada aos recursos financeiros do proprietário. • É usada em empresas de pequeno porte. „ Uma sociedade é semelhante a uma empresa individual, mas tem dois ou mais proprietários e • Abrange 10% das organizações empresariais nos Estados Unidos. • Combina as habilidades e recursos de mais de uma pessoa. „ Uma sociedade anônima é organizada, de acordo com estatutos estaduais ou federais, como uma enti-dade jurídica tributável separada e • Gera 90% das receitas totais de negócios.
  7. 7. 4 Fundamentos de Contabilidade – Princípios • Abrange 20% das organizações empresariais nos Estados Unidos. • Tem sua propriedade dividida em ações que são vendidas a acionistas. • Consegue captar grandes volumes de recursos por meio da emissão de ações. • É o modelo usado pelas empresas de grande porte. „ Uma sociedade de responsabilidade limitada combina os atributos de uma sociedade e de uma socieda-de anônima, no sentido de que é organizada como uma sociedade anônima. Entretanto, uma sociedade de responsabilidade limitada pode optar por ser tributada como uma sociedade e • É uma alternativa popular a uma sociedade. • Proporciona vantagens fiscais e limita a responsabilidade jurídica dos proprietários. Os três tipos de empresas discutidos anteriormente – de serviços, de co-mércio e de fabricação – podem ser organizados como firmas individuais, so-ciedades, sociedades anônimas ou sociedades de responsabilidade limitada. Em virtude do grande volume de recursos necessários para operar uma em-presa de fabricação, a maioria dessas empresas é organizada como uma so-ciedade anônima. Da mesma maneira, a maioria dos grandes varejistas, como Wal-Mart, Home Depot e JCPenney, é composta por sociedades anônimas. LEMBRE-SE Empresas de serviços, de comércio e de fabricação geralmente são organizadas como firmas individuais, sociedades, sociedades anônimas ou sociedades de responsabilidade limitada. Tipos de Sociedades Empresariais pela Legislação Brasileira3 Empresas Comerciais O Código Civil Brasileiro (Lei nº 10.406/2002) alterou profundamente as disposições sobre as empresas comerciais que antes eram disciplinadas na primeira parte do Código Comercial de 1850, que foi revogada pelo novo Código Civil, que passou a disciplinar a matéria, criando, inclusive no seu Livro II, capítulo destinado ao Direito de Empresa. Nesse capítulo, o Código Civil definiu o que é sociedade, ao dispor, em seu artigo 981, que “celebram contrato de sociedade as pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos resultados”. Os tipos de sociedades, previstos pelo Código Civil, não são muito diferentes do que preceituava o Código Comercial, e são: 1. Sociedade anônima. 2. Sociedade limitada. 3. Empresário individual (antiga firma individual). 4. Outras sociedades: a) sociedade em nome coletivo; b) sociedade em comandita por ações; c) sociedade em conta de participação; d) sociedade em comandita simples. Além dessas, é prevista no Código Civil a sociedade cooperativa. Características das empresas 1. A forma mais usual de sociedade comercial é a sociedade limitada, nova designação dada à antiga so-ciedade por cotas de responsabilidade limitada. O artigo 1.052 do Código Civil define a principal característica de sociedade limitada, ao dispor que “a responsabilidade de cada sócio é restrita ao valor de suas cotas, mas todos respondem solidariamente pela integralização do capital social”. O tipo mais usual de sociedade comercial é aquele que tem mais extensa capitulação legal no Código Civil, sendo objeto de um extenso capítulo, que compreendem os artigos 1.052 a 1.087. 3 Desenvolvido pelo Dr. Cyro Galvão do Amaral, especialista em Direito Comercial.
  8. 8. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 5 Algumas características das sociedades limitadas são: • atividades reguladas por um contrato social. • seu capital social divide-se em cotas, iguais ou desiguais, cabendo uma ou diversas a cada sócio; • é administrada por uma ou mais pessoas designadas no contrato social ou ato em separado; • algumas deliberações devem ser tomadas pelos sócios, em reunião ou assembleia; • possibilidade de aumento do capital e de sua redução, depois de integralizado se houver perdas e se excessivo em relação ao objeto da sociedade. Waldirio Bulgarelli, em sua obra Sociedades, empresa e estabelecimento,4 expõe as razões do aparecimento das sociedades de responsabilidade limitada, hoje sociedade limitada: Os motivos que justificaram a criação (como obra racional, e tipo específico pelo legislador alemão) ou o apa-recimento (como forma costumeira, e como variante da sociedade anônima no direito inglês) da sociedade de responsabilidade limitada foram basicamente o de atender aos problemas acarretados pelo verdadeiro “vazio” que se criara entre a sociedade anônima (impessoal, e com evidentes dificuldades de constituição e forma-lidades custosas) e os demais tipos de sociedades, como as coletivas e em comandita (com responsabilidade limitada – ao menos de um tipo de sócio, como na comandita – e com caráter pessoal bastante acentuado). Necessário era que dispusessem os comerciantes de um tipo de sociedade intermédia, para a pequena e média empresa, em que, contando com a responsabilidade limitada e a personalidade jurídica, não tivessem de arcar com os ônus que se impunham às sociedades anônimas, até então o único tipo que conferia esses dois elemen-tos da maior importância. 2. A segunda forma mais usual é a sociedade anônima, disciplinada pela Lei nº 6.404/1976 e algumas modificações posteriores. Aspecto interessante dessa sociedade é a denominação, uma vez que uma sociedade não pode ser “anônima”. Essa denominação nasceu do fato de serem ao portador as ações que compunham o seu capital. Anônima, por-tanto, não era a sociedade, mais sim anônimos os sócios que a compunham. Hoje em dia, com a proibição de títulos – ações – ao portador, até os sócios deixaram de ser anônimos. Melhor título seria, portanto, “Sociedade por Ações”. As características dessa sociedade constam, como foi dito, da Lei nº 6.404/1976, que estabelece, em seu artigo 1º: “A companhia ou sociedade anônima terá o capital dividido em ações, e a responsabilidade dos sócios ou acionistas será limitada ao preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas”, e que são: a) existência do Estatuto Social, que definirá: • a sua denominação; • o objeto social; • o capital social; • o número de ações em que divide o capital social; • a espécie (ordinárias e preferenciais) e classes das ações; • convocação de assembleias gerais; • forma de administração da sociedade, que competirá ao conselho de administração e a diretoria, ou somente a diretoria; • fixação da data do término do exercício social; • elaboração das Demonstrações Financeiras, e • distribuição de lucros e dividendos. 3. O terceiro tipo de empresa mais comum é o empresário individual. Dentro do Livro II, título I, o novo Código Civil definiu, no artigo 966, como empresário “quem exerce profissionalmente atividade econô-mica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”. O parágrafo único especifica e deixa claro que: “Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colabora-dores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa.”; e Diante da obrigatoriedade a inscrição do empresário no Registro de Empresas Mercantis da respectiva sede, e caso este venha a admitir sócios, o empresário individual poderá solicitar ao Registro Público de 4 BULGARELLI, Waldirio. Sociedades, empresa e estabelecimento. 1. ed. São Paulo: Atlas, 1980.
  9. 9. 6 Fundamentos de Contabilidade – Princípios Empresas Mercantis a transformação de seu registro de empresário para registro de sociedade empre-sária. (artigos 967 a 971 do novo Código Civil). 4. Outros tipos de sociedades disciplinadas pelo Código Civil Brasileiro e menos usuais são: a) Sociedade em Nome Coletivo Formada exclusivamente por pessoas físicas, responde a todos os sócios, solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais previstas no contrato. A firma social deverá ser prevista no contrato. b) Sociedade em Comandita por Ações – Terá o capital dividido em ações e reger-se-á pelas normas relativas às companhias ou às sociedades anônimas. A sociedade poderá comerciar sob firma ou razão social, da qual só farão parte os nomes dos sócios- -diretores ou gerentes. Ficam ilimitada e solidariamente responsáveis, nos termos desta lei, pelas obrigações sociais, os que, por seus nomes, figurarem na firma ou razão social. A denominação ou a firma deve ser seguida das palavras “Comandita por Ações”, por extenso ou abreviadamente. Apenas o sócio ou acionista tem qualidade para administrar ou gerir a sociedade, e, como diretor ou gerente, responde, subsidiária, mas ilimitada e solidariamente, pelas obrigações da sociedade. Os diretores ou gerentes serão nomeados, sem limitação de tempo, no estatuto da sociedade, e so-mente poderão ser destituídos por deliberação de acionistas que representem ⅔ (dois terços), no mínimo, do capital social. O diretor ou gerente que for destituído ou se exonerar continuará responsável pelas obrigações so-ciais contraídas sob sua administração. c) Sociedade em Conta de Participação Na sociedade em conta de participação, a atividade constitu-tiva do objeto social é exercida unicamente pelo sócio ostensivo, em seu nome individual e sob sua própria e exclusiva responsabilidade, participando os demais dos resultados correspondentes. Obriga-se perante terceiro tão somente o sócio ostensivo; e, exclusivamente perante este, o sócio participante, nos termos do contrato social. A constituição da sociedade em conta de participação independe de qualquer formalidade e pode provar-se por todos os meios de direito. O contrato social produz efeito somente entre os sócios, e a eventual inscrição de seu instrumento em qualquer registro não confere personalidade jurídica à sociedade. Sem prejuízo do direito de fiscalizar a gestão dos negócios sociais, o sócio participante não pode to-mar parte nas relações do sócio ostensivo com terceiros, sob pena de responder solidariamente com este pelas obrigações em que intervier. A contribuição do sócio participante constitui, com a do sócio ostensivo, patrimônio especial, objeto da conta de participação relativa aos negócios sociais. A falência do sócio ostensivo acarreta a dissolução da sociedade e a liquidação da respectiva conta, cujo saldo constituirá crédito quirografário. Falindo o sócio participante, o contrato social fica sujeito às normas que regulam os efeitos da falên-cia nos contratos bilaterais do falido. Salvo estipulação em contrário, o sócio ostensivo não pode admitir novo sócio sem o consentimento expresso dos demais. Aplica-se à sociedade em conta de participação, subsidiariamente e no que com ela for compatível, o disposto para a sociedade simples, e a sua liquidação rege-se pelas normas relativas à prestação de contas, na forma da lei processual. Havendo mais de um sócio ostensivo, as respectivas contas serão prestadas e julgadas no mes-mo processo. d) Sociedade em Comandita Simples – Na sociedade em comandita simples, tomam parte sócios de duas categorias: os comanditados, pessoas físicas, responsáveis solidária e ilimitadamente pelas obrigações sociais; e os comanditários, obrigados somente pelo valor de sua cota. O contrato deve discriminar os comanditados e os comanditários. Aplicam-se à sociedade em comandita simples as normas da sociedade em nome coletivo, no que forem compatíveis.
  10. 10. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 7 Aos comanditados cabem os mesmos direitos e obrigações dos sócios da sociedade em nome coletivo. Sem prejuízo da faculdade de participar das deliberações da sociedade e de lhe fiscalizar as opera-ções, não pode o comanditário praticar qualquer ato de gestão nem ter o nome na firma social, sob pena de ficar sujeito às responsabilidades de sócio comanditado. Pode o comanditário ser constituído procurador da sociedade, para negócio determinado e com po-deres especiais. Somente depois de averbada a modificação do contrato, produz efeito, quanto a terceiros, a diminuição da cota do comanditário, em consequência de ter sido reduzido o capital social, sempre sem prejuízo dos credores preexistentes. O sócio comanditário não é obrigado à reposição de lucros recebidos de boa-fé e de acordo com o ba-lanço. Diminuído o capital social por perdas supervenientes, não pode o comanditário receber quaisquer lucros, antes de reintegrado aquele. No caso de morte de sócio comanditário, a sociedade, salvo disposição do contrato, continuará com os seus sucessores, que designarão quem os represente. Dissolve-se de pleno direito a sociedade: I – quando ocorrer: • o vencimento do prazo de duração, salvo se, vencido este e sem oposição de sócio, não entrar a sociedade em liquidação, caso em que se prorrogará por tempo indeterminado; • o consenso unânime dos sócios; • a deliberação dos sócios, por maioria absoluta, na sociedade de prazo indeterminado; • a falta de pluralidade de sócios, não reconstituída no prazo de cento e oitenta dias; • a extinção, na forma da lei, de autorização para funcionar. II – quando por mais de 180 dias perdurar a falta de uma das categorias de sócio. Na falta de sócio comanditado, os comanditários nomearão administrador provisório para praticar, durante o período referido no inciso II e sem assumir a condição de sócio, os atos de administração. PARTES INTERESSADAS EM UMA EMPRESA – (STAKEHOLDERS) Uma parte interessada na empresa é uma pessoa ou entidade que tem algum interesse no desempenho econômico e na saúde financeira de uma companhia. Por exemplo, proprietários, fornecedores, clientes e funcionários são partes interessadas em uma empresa. As partes interessadas de uma empresa podem ser classificadas em quatro categorias, que são mostradas no Quadro 1.1. As partes interessadas do mercado de capitais fornecem os principais recursos financeiros para o início e a manutenção das operações da empresa. Os bancos e outros credores em longo prazo têm um interesse econômico na recuperação, com juros, das quantias que emprestaram à empresa. Os proprietários querem maximizar o valor econômico de seus investimentos e, portanto, também têm um interesse econômico na empresa. As partes interessadas do mercado de produtos ou serviços também incluem os clientes que compram os pro-dutos ou serviços da empresa e os vendedores que fornecem insumos à empresa. Os clientes têm um inte-resse econômico na preservação do sucesso da empresa. Por exemplo, os clientes que compram passagens antecipadas da Southwest Airlines Co. têm um interesse econômico em que a empresa continue a operar. Da mesma forma, os fornecedores são partes interessadas no sucesso contínuo de seus clientes como fonte de negócios. As partes interessadas governamentais têm interesse no desempenho econômico das empresas. Em decorrência, as administrações municipais e estaduais frequente-mente oferecem incentivos para a instalação de empresas em sua área de jurisdição. Os governos locais, municipais, estaduais e federais cobram tributos das empresas que operam em sua área de jurisdição. Além disso, os salários dos trabalhadores são tributados. Quanto melhor for o desempenho de uma empresa, mais tributos o governo recebe. As partes interessadas internas incluem os indivíduos empregados pela firma. Gerentes são os indivíduos que os proprietários autorizaram a operar a empresa. O estado de Alabama ofereceu à DaimlerChrysler milhões de dólares em incentivos para instalar uma fábrica da Mercedes no Alabama.
  11. 11. 8 Fundamentos de Contabilidade – Princípios QUADRO 1.1 Partes Interessadas em uma Empresa. Parte Interessada na Empresa Interesse na Empresa Exemplos Partes interessadas do mercado Principais financiadores da empresa. de capitais. Bancos e proprietários (sócios e acionistas). Partes interessadas do mercado de produtos ou serviços. Compradores e vendedores de produtos ou serviços para a empresa. Clientes e fornecedores. Partes interessadas governamentais. Cobrar tributos e tarifas da empresa e de seus funcionários. Governos federal, estadual e municipal. Partes interessadas internas. Pessoas empregadas pela firma. Funcionários e gerentes. Clientes Empregados/ Administradores Bancos e/ou proprietários Governo Empresas Fornecedores Partes interessadas Os gerentes são avaliados principalmente com base no desempenho econômico da empresa. Portanto, os gerentes têm um incentivo para maximizar o valor econômico da companhia. Os proprietários podem ofe-recer aos gerentes contratos salariais diretamente vinculados ao desempenho da empresa. Por exemplo, um gerente pode receber uma porcentagem dos lucros ou do aumento dos lucros. Os funcionários fornecem serviços à empresa para a qual trabalham em troca de pagamento. Portanto, eles têm interesse no desem-penho econômico da empresa, pois seu trabalho depende dele. PAPEL DA ÉTICA NA EMPRESA Os princípios morais que orientam a conduta dos indivíduos são chamados ética. Infelizmente, os gerentes de empresas podem ser pressionados a violar sua ética pessoal. Foi o que aconteceu com várias empresas, relacionadas no Quadro 1.2, que se envolveram com práticas comerciais fraudulentas e manobras contábeis de acobertamento no início da década de 2000. As empresas relacionadas no Quadro 1.2 foram apanhadas em desvios éticos que resultaram em multas, demissões e processos criminais e/ou cíveis. A segunda coluna do quadro identifica a natureza do escândalo. A terceira coluna identifica alguns dos resultados desses eventos. Na maioria dos casos, os executivos de nível superior e mé-dio perderam seus empregos e foram processados por investidores prejudicados. Em alguns casos, os executivos também foram processados criminalmente e estão cumprin-do pena. A maioria dos colégios e universidades publica um Código de Conduta do Aluno que define a conduta ética esperada de seus alunos.
  12. 12. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 9 QUADRO 1.2 Fraude Contábil e Comercial na Década de 2000. Empresa Natureza da Fraude Contábil ou Comercial Resultado Adelphia A família Rigas tratava os ativos da Communications empresa como se lhe pertencessem. Falência. Os membros da família Rigas foram condenados por fraude e perderam seus investimentos na empresa. American International Group, Inc. (AIG) Usou transações contábeis simuladas para inflar o desempenho. Diretor presidente renunciou. Dirigentes indiciados. A AIG pagou $ 126 milhões em multas. America Online, Inc. e PurchasePro Inflaram artificialmente seus resultados financeiros. Processos cíveis contra os dirigentes de ambas as empresas. Multa de $ 500 milhões. Computer Associates International, Inc. Inflou fraudulentamente seus resultados financeiros. Diretor presidente e principais dirigentes indiciados. Cinco dirigentes declararam-se culpados. Multa de $ 225 milhões. Enron Inflou fraudulentamente seus resultados financeiros. Falência. Processos criminais contra os principais dirigentes, perdas de mais de $ 60 bilhões no mercado de capitais. Fannie Mae Transferiu ilicitamente o desempenho financeiro entre períodos. Diretor presidente e diretor financeiro demitidos. Empresa fez uma correção de $ 9 bilhões no lucro declarado anteriormente. HealthSouth Superdimensionou seu desempenho em $ 4 bilhões usando lançamentos falsos. Principais dirigentes indiciados criminalmente. Qwest Communications International, Inc. Declarou falsamente $ 3 bilhões em recebimentos fictícios. Diretor presidente e outros seis dirigentes acusados de “fraude financeira generalizada”. Multa de $ 250 milhões aplicada pela Comissão de Títulos e Valores Mobiliários (CVM) norte-americana. Tyco International, Ltd. Omitiu empréstimos secretos, subsequentemente perdoados, a seus dirigentes. Diretor presidente forçado a renunciar e submetido a congelamento dos bens e processo criminal. WorldCom Declarou resultados financeiros fictícios de quase $ 9 bilhões. Falência. Diretor presidente e diretor financeiro condenados criminalmente. Perdas de mais de $ 100 bilhões no mercado de capitais. Diretores forçados a pagar $ 18 milhões. Xerox Corporation Declarou $ 3 bilhões de receita antes do momento correto. Multa de $ 10 milhões imposta pela CVM. Seis dirigentes forçados a pagar $ 22 milhões. Onde essas empresas e executivos erraram? A resposta a essa pergunta envolve três fatores: 1. Caráter individual. 2. Cultura organizacional. 3. Leis e fiscalização. Caráter individual Um executivo ético exibe caráter ao optar pela honestidade, integridade e probidade, quando submetido a pressões para ocultar a verdade. Os executivos muitas vezes sofrem pressão da alta administração para satisfazer as expectativas da empresa e dos analistas. Em muitos dos casos do Qua-dro 2.2, os executivos, inicialmente, justificaram pequenas violações para evitar essas pressões. Entretanto, essas pequenas mentiras transformaram-se em grandes mentiras quando os problemas da empresa se agra-varam. Quando os abusos foram descobertos, as declarações falsas foram suficientes para arruinar empre-sas e destruir carreiras. Por exemplo, David Myers, ex-diretor de contabilidade da WorldCom, declarou o seguinte ao testemunhar sobre o registro de transações impróprias: “Eu não achava que era certo, mas Scott (Sullivan, o vice-presidente de Finanças) me pediu para fazer isso...”5 Apesar disso, David Myers foi condenado criminalmente e sentenciado a cumprir pena. 5 PULLIAM, Susan. Crossing the Line: At Center of Fraud, WorldCom Official Sees Life Unravel, The Wall Street Journal, 24 mar. 2005, p. A1.
  13. 13. 10 Fundamentos de Contabilidade – Princípios Integridade, Objetividade e Ética na Empresa FAZENDO O QUE É CERTO A revista Time escolheu três mulheres como “Personalidades do Ano 2002”. Todas essas mulheres extraordinárias tiveram a coragem, a determinação e a integridade de fazer o que era certo. Todas arriscaram suas carreiras pessoais para expor deficiências em suas organizações. Sherron Watkins, vice- -presidente da Enron, enviou uma carta ao presidente da empresa, Kenneth Lay, advertindo-o sobre procedimentos contábeis impróprios que eventualmente viriam a causar o colapso da empresa. Cynthia Cooper, contadora interna, denunciou ao conselho de diretores da WorldCom fraudes contábeis que permitiram ocultar prejuízos de mais de $ 3 bilhões e levaram a empresa à falência. Coleen Rowley, funcionária do corpo jurídico do FBI, escreveu um memorando ao diretor da organização, Robert Mueller, informando como o FBI havia ignorado seu pedido de investigação de Zacarias Moussaoui, que foi indiciado como um dos planejadores dos ataques terroristas de 11 de setembro. Cultura organizacional Os administradores de uma empresa, pelo comportamento e pela atitude, constroem a cultura organizacional. Como explicou um autor, quando os líderes de uma empresa são colocados em um pedestal, “eles começam a acreditar que eles próprios e suas organizações são especiais, que estão mudando a face da indústria. Eles desejam receber recompensas e benefícios além de qualquer outro CEO (diretor presidente)”.6 Na maioria das empresas incluídas no Quadro 2.2, os dirigentes criaram uma cultura de ga-nância e desapreço pela verdade. Essa cultura propagou-se pelos executivos de nível inferior, criando um ambiente propício aos expedientes ilícitos, à ganância e à mentira que acabou resultando na fraude financeira. Leis e Fiscalização Muitos culparam a falta de leis e de fiscalização como fatores que contribuíram para a manipulação de informes financeiros descrita no Quadro 2.2. Por exemplo, Eliot Spitzer, promotor geral de Nova York, declarou o seguinte: ...uma lição fundamental dos escândalos recentes é que os controles do sistema sim-plesmente não funcionaram. O código de honra entre diretores presidentes não fun-cionou. A fiscalização pelo conselho de diretores não funcionou. A autorregulação foi um fracasso completo.7 Isso resultou na promulgação de novas leis pelo Congresso e no aumento dos esforços de fiscalização desde o início da década de 2000. Por exemplo, a Lei Sar-banes- Oxley (SOX) foi promulgada em 2002. A SOX estabeleceu um novo órgão de supervisão da profissão contábil, a Comissão de Fiscalização de Auditoria Contábil (Public Company Accounting Oversight Board – PCAOB). Além disso, a SOX esta-beleceu normas sobre independência, responsabilidade corporativa, melhoria dos relatórios financeiros e prestação de contas pelas empresas. Stanley James Cardiges, que foi o maior representante de vendas da Honda nos Estados Unidos, admitiu ter recebido de $ 2 milhões a $ 5 milhões em comissões ilegais de distribuidoras. Depois de ser condenado a cinco anos de prisão, admitiu que havia cedido a um padrão de comportamento antiético no início de sua carreira. O PAPEL DA CONTABILIDADE NA EMPRESA Qual é o papel da contabilidade na empresa? A resposta mais simples a essa pergunta é que a contabilidade fornece aos administradores informações para serem utilizadas na condução da empresa. Além disso, a conta-bilidade fornece às demais partes interessadas informações para serem usadas na avaliação do desempenho e da situação econômica da empresa. Em um sentido geral, a contabilidade pode ser definida como um sistema de informações que fornece às partes interessadas relatórios sobre as atividades e a situação econômica de uma empresa. Como indicamos anteriormente neste capítulo, concentraremos nossa discussão na contabilidade e seu papel na empresa. 6 RACE, Tim. New Economy Executives Are Smitten, and Undone by Their Own Images. The New York Times, 7 jul. 2002. Citação atribuída ao professor Jay A. Conger. 7 SPITZER, Eliot. Strong Law Enforcement Is Good for the Economy. The Wall Street Journal, 5 abr. 2005, p. A18.
  14. 14. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 11 Entretanto, muitos dos conceitos expostos neste livro também são aplicáveis a pessoas físicas, governos e outros tipos de organizações. Você pode pensar na contabilidade como a “linguagem dos negócios”. A razão é que a contabilidade é o meio pelo qual as informações comerciais são comunicadas às partes interessadas. Por exemplo, demonstrações contá-beis resumindo a lucratividade de um novo produto ajudam a administração da Coca-Cola Company a decidir se deve continuar vendendo esse produto. Da mesma maneira, os analistas financeiros usam as demonstrações contá-beis para decidir se devem recomendar a aquisição de ações da Coca-Cola. Os bancos usam as demonstrações contábeis para determinar o volume de crédito a ser concedido à Coca-Cola. Os fornecedores usam as demonstrações LEMBRE-SE Contabilidade é um sistema de informações que fornece às partes interessadas informações sobre as atividades e a situação econômica de uma empresa. contábeis para decidir se oferecerão crédito para as compras de materiais de consumo e matérias-primas pela Coca-Cola. Os governos estadual e federal usam as demonstrações contábeis como base para o cálculo dos tributos devidos pela Coca-Cola. O processo pelo qual a contabilidade fornece informações às partes interessadas na empresa ocorre da seguinte maneira: 1. Identificação das partes interessadas. 2. Avaliação das necessidades de informações das partes interessadas. 3. Estruturação do sistema de informações contábeis para atender às necessidades das partes interessadas. 4. Registro de dados econômicos sobre eventos e atividades comerciais. 5. Preparação de demonstrações contábeis para as partes interessadas. Como mostrado na Figura 1.1, as partes interessadas usam as demonstrações contábeis como uma fonte primária, embora não a única, de informações em que suas decisões são baseadas. As partes interessadas também recorrem a outras informações. Por exemplo, para decidir se concederá crédito a um varejista local, o gerente de um banco, além de examinar as demonstrações contábeis da loja, também pode fazer uma visita à loja ou consultar a comunidade de negócios sobre a reputação do proprietário. Fornecer informações aos usuários Internas: proprietários, gerentes, empregados Identificar as partes interessadas Partes interessadas Externas: clientes, credores, governo Preparar relatórios contábeis para as partes interessadas Registrar dados econômicos sobre eventos e atividades comerciais Projetar o sistema de informações contábeis para atender às necessidades das partes interessadas SISTEMA DE INFORMAÇÕES CONTÁBEIS Necessidades de informações das partes interessadas FIGURA 1.1 Informações Contábeis e as Partes Interessadas de uma Empresa.
  15. 15. 12 Fundamentos de Contabilidade – Princípios A PROFISSÃO DE CONTADOR Talvez você acredite que a contabilidade seja uma coisa só. Entretanto, na prática existem vários campos especializados da contabilidade. Os dois campos mais comuns são a contabilidade financeira e a contabi-lidade gerencial. Outros campos incluem a contabilidade de custos, a contabilidade ambiental, a contabili-dade tributária, os sistemas contábeis, a contabilidade internacional, a contabilidade sem fins lucrativos e a contabilidade social. A contabilidade financeira ocupa-se basicamente do registro e elaboração de relatórios sobre os dados econômicos e as atividades de uma empresa. Além de fornecer informações úteis aos administradores, esses relatórios constituem a principal fonte de informações dos proprietários, credores, órgãos governa-mentais e do público em geral. Por exemplo, se você quisesse comprar ações da PepsiCo, Inc., American Airlines ou McDonald’s, como saberia em qual empresa investir? Uma das maneiras é analisar as demons-trações financeiras e comparar o desempenho financeiro e a situação de cada empresa. A finalidade da contabilidade financeira é fornecer esses relatórios. A contabilidade gerencial, ou contabilidade administrativa, usa simultaneamente a contabilidade fi-nanceira e dados estimativos para auxiliar a administração a controlar as atividades cotidianas da empresa e planejar as operações futuras. Os contadores gerenciais coletam e organizam informações que são relevantes e oportunas para as necessidades decisórias da administração. Por exemplo, talvez a administração precise de informações sobre maneiras alternativas de financiar a construção de um novo edifício. Ou então, a ad-ministração pode precisar de informações sobre a conveniência de expandir suas operações para uma nova linha de produtos. Portanto, os relatórios produzidos para a administração podem diferir significativamente tanto na forma como no conteúdo. Seja na contabilidade financeira ou na contabilidade gerencial, os contadores são contratados em re-gime de contabilidade privada ou contabilidade independente, como mostra o Quadro 1.3. Os contadores contratados por uma firma comercial ou uma organização sem fins lucrativos trabalham na contabilidade privada. Por outro lado, os contadores e suas equipes que prestam serviços em troca de honorários traba-lham na contabilidade independente. Os contadores privados dispõem de ampla variedade de opções de carreira dentro da empresa. Algu-mas dessas opções de carreira são mostradas no Quadro 1.3, juntamente com seus pisos salariais. A frase “serviços de auditoria” pode ser nova para você. Os indivíduos que prestam serviços de auditoria, cha-mados auditores, verificam a precisão de registros, contas e sistemas financeiros. Várias carreiras de conta-bilidade privada possuem opções de certificação. O Institute of Management Accounts (IMA) patrocina o programa de Contador Gerencial Certificado (Certified Management Accountant – CMA). O certificado CMA é uma prova de competência em contabilidade gerencial. A obtenção de um CMA requer diploma universitário, dois anos de experiência e a aprovação em um exame com dois dias de duração. Outras certificações na área da contabilidade gerencial incluem Auditor Interno Certificado (Certified Internal Auditor – CIA), promovida pelo The Institute of Internal Auditors; Auditor de Sistemas de Informação Certificado (Certified Information Systems Auditor – CISA), promovida pela Information Systems Audit and Control Association; e Profissional de Folha de Pagamento Certificado (Certified Payroll Professional – CPP), promovida pela American Payroll Association. Na contabilidade independente, um contador pode exercer sua profissão individualmente ou como membro de uma firma de contabilidade. Os contadores independentes que satisfazem os requisitos de escolaridade e experiência e são aprovados no exame podem tornar-se Contadores Independentes Certi-ficados (Certified Public Accountants – CPAs). Os CPAs geralmente prestam serviços de contabilidade, auditoria ou assessoria tributária. Como mostra o Quadro 1.3, o piso salarial de um CPA é ligeiramente superior ao de um contador independente. As estatísticas sobre a carreira, porém, indicam que essas dife-renças salariais tendem a desaparecer com o tempo. Os requisitos para a obtenção de um certificado de CPA variam de estado para estado. Todos os estados exigem diploma de nível superior em contabilidade e a maioria exige 150 horas semestrais de créditos universi-tários. Além disso, o candidato deve ser aprovado em um exame preparado pelo American Institute of Certified Public Accountants (AICPA). Como todas as funções de uma empresa usam informações contábeis, a experiên-cia em contabilidade privada ou independente proporciona uma base sólida para uma carreira. Muitos cargos no setor privado e em órgãos governamentais são ocupados por pessoas com experiência em contabilidade.
  16. 16. Introdução à Contabilidade e aos Negócios 13 QUADRO 1.3 Opções de Carreira em Contabilidade e Salários – Estados Unidos. Opções de Carreira em Contabilidade Descrição Opções de Carreira Piso Salarial Anual* Certificação Contabilidade Privada Contadores funcionários por empresas, órgãos governamentais e entidades sem fins lucrativos. Técnico em contabilidade Técnico em folha de pagamento Contador geral Analista de orçamento Contador de custos Auditor interno Auditor de tecnologia da informação $ 28.500 $ 30.875 $ 35.750 $ 36.750 $ 37.375 $ 41.500 $ 72.500 No Brasil, a atividade dos auditores independentes é regulada pelo Instituto dos Auditores Indepen-dentes do Brasil (Ibracon) e pela Comissão de Valores Mobiliários – CVM. Dentro das atividades de contabilidade podemos incluir as atividades de contador gerencial e de con-troladoria (exercida pelo controller). Dentro das atividades de contabilidade independente podemos incluir as atividades de perícia contábil, análise e avaliação de empresas e investimentos. Princípios Contábeis Geralmente Aceitos Se os administradores de uma empresa pudessem registrar e informar dados finan-ceiros da forma que julgassem mais adequada, seria difícil, ou mesmo impossível, fazer comparações entre empresas. Portanto, os contadores financeiros seguem princípios contábeis geralmente aceitos (PCGA) (Generally Accepted Accounting Principles – Gaap) na preparação de seus relatórios. Esses relatórios permitem que os investidores e outras partes interessadas comparem duas empresas entre si. No Brasil, os PCGA foram denominados pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) de princípios fundamentais de contabilidade. Para ilustrar a importância dos princípios contábeis geralmente aceitos, suponha que diferentes fede-rações esportivas usassem regras diferentes para a contagem de pontos. Digamos, por exemplo, que uma federação estadual de futebol contasse o empate como dois pontos e outra não atribuísse pontos ao empate. Seria difícil avaliar os times submetidos a esses sistemas diferentes de pontuação. Um conjunto comum de regras e um sistema de pontuação padronizado ajudam os torcedores a comparar times entre diferentes federações. Da mesma maneira, um conjunto padronizado de princípios contábeis geralmente aceitos per-mite comparar o desempenho e a situação financeira de diferentes empresas. Profissional de Folha de Pagamento Certificado (CPP) Contador Gerencial Certificado (CMA) Auditor Interno Certificado (CIA) Auditor de Sistemas de Informação Certificado (CISA) Contabilidade Independente Contadores autônomos ou funcionários em uma firma de contabilidade independente que prestam serviços de assessoria tributária ou de auditoria. Firmas locais Firmas nacionais $ 36.625 $ 44.375 Contador Independente Certificado (CPA) Contador Independente Certificado (CPA) Fonte: Robert Half 2006 Salary Guide (Finance and Accounting), Robert Half International, Inc. * Salários medianos dentro da faixa informada. Os salários na contabilidade privada referem-se às empresas de grande porte. O salário de auditor de tecnologia da informação é uma combinação dos níveis de experiência em empresas de qualquer porte. Os níveis salariais podem variar de acordo com a região. objetivo 2 Resumir o desenvolvimento dos princípios contábeis e relacioná-los à prática.

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