Joel Dör - Estruturas e perversões

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Estrutura e Perversões - Esta análise da questão das perversões reúne uma pluralidade de argumentos fundamentais, que se desenvolvem em uma Progressão lógica cuja coerência dá a esse estudo um caráter de rigor sem precedentes na abordagem de uma Problemática psíquica tão complexa em seus princípios quanto desconcertante em suas atualizações.
O autor, Joël Dor, é Psicanalista. Sua formação Pluridisciplinar orienta alguns de seus trabalhos para pesquisas epistemológicas sobre a psicanálise, à qual dá continuidade em concomitância com outras numerosas investigações teóricas e clínicas.

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Joel Dör - Estruturas e perversões

  1. 1. T)
  2. 2. IÍIREÇAO: ALDUÍSIO MOREIRA DE SOUZA O tema: Saibamos ou não, a perversão é uma questão que diz respeito a cada um de nós, pelo menos a título de desejo, já que um "núcleo perverso" coexiste na própria dimensão de qualquer desejo. Quer dizer, pois, que não há perversões que não sejam se- xuais e que a gênese das perver- sões deve ser inscrita no seio mes- mo da sexualidade dita normal (Freud). Isso leva a crer que se possa conferir às perversões a identida- de de uma estrutura cuja lógica se decifra no terreno da metapsi- cologia freudiana e lacaniana. Um ponto de ancoragem das per- versões pode então se definir sob a influência de elementos induto- res ligados à problemática do fa- lo na dialética edipiana. No campo clínico, a evidencia- ção da estrutura perversa funda- menta assim a possibilidade de uma radical discriminação diag- nóstica diferencial. De fato, tor- na compreensível a proximidade estrutural de algumas organiza- ções psicopatológicas, tais como as psicoses e o transexualismo. A hipotética perversão feminina encontra-se, deste modo, igual- mente esclarecida.
  3. 3. estrutura e perversões
  4. 4. FICHA CATALOGRÁFICA D693e Dor, Joêl Estrutura e perversões / Joêl Dor; trad. Patrícia C. Ramos. - Porto Alegre : Artes Médicas, 1991. 199p. 1. Perversões sexuais 2. Sexo (Psicologia) 3. Psicanálise l. Ramos, Patrícia C. ll. Título C. D.D. 157.7 616.8583 155.3 616.8917 C. D.U. 616.89-008.442.3 159.922.1 159.964.2 Índices Alfabéticos para o Catálogo sistemático Perversões sexuais 616.89-008.442.3 Psicología sexual 159.922.1 Psicanálise 159.964.2 (Bibllotecária Responsável: Marta Gravino - CRB 10/567)
  5. 5. JOÊL DOR estrtmtmra e goerrsrerse Tradução: PATRÍCIA CHITTONI RAMOS Superyisáo Técnica da Tradução ALDUlZlO M. DE SOUZA PORTO ALEGRE/ 1991
  6. 6. Obra originalmente publicada em francês sob o título Structure et Perversions V por Editions Denoêl Paris , Copyright (1987) by Editions Denoêl Capa: Mário Rõhnelt Supervisão editorial: Delmar Paulsen Composição, Arte Final e Filmes: GRAFLINE - Assessoria Gráfica e Editorial Ltda. Reservados todos os direitos de publicação em língua portuguesa à EDITORA ARTES MEDICAS SUL LTDA. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 - Fones 30-3444 e 31-8244 Fax (055) 30-2378 - 90040 Porto Alegre, RS, Brasil LOJA-CENTRO Rua General Vitorino, 277 - Fone 25-8143 90020 Porto Alegre, RS, Brasil IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL
  7. 7. aM. D. Meus agradecimentos a Françoise Bétourné pela assistência dada durante toda a redação desta obra e por seu precioso concurso em sua correção.
  8. 8. I : I ? é I l . É Il I ' ' l - "' 'Sic 'a a Ih , I g Fair. , V i - _ mpg¡ ! Im-a f' : :T by Fe" -. '1l"| . [unv-"l ' 'Í . _ - '39 Í_ a : ' * A g Il/ _urj › dci”. ¡l! _ : :ELFIVLIIÉIJ Lafüññllnl' 1 a I a . 'E a i ' 'ÉÍJH-Fll i' Í 'Jul v '-5 _ n à' l a". -n nmlçÍu- , Qi-E rar-an' . ' Fluid l __ Hd ' n . u 5; Tr rmñliu' . u Frlllgflu-¡ÍJ cid: : u Í' ¡ *u D I ' I I | I r I l I l I I I l. Íàà. l Í u I I I uí W I 2¡ I ! l 1 Í " _ E ' _ < s ' ' l a _ 'I a g l L¡ _ I l I I I l ll I 1 n _ ' ãr -_. .r u. ; f* mtv-t -m ; ut ua. - 'rml m¡ 1 _L ; ¡' ¡ n - i a : W , . . n: ant- l _ LQJALLJTI l-¡LW . - . ' A &Lu; XJ-¡IDTÍFÓ! "Füfhl 9130130 17%: no "' 54- : Li É' u. Ii-II-Inbsaowmãsllir l - 'É 'k' '
  9. 9. Introdução Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Sumário . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 11 Primeira Parte ESTRUTURA. TRAÇOS ESTRUTURAIS. AVALIAÇAO DIAGNÓSTICA A NOÇÁO DE "AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA" NA CLINICA PSICANALITICA . ... ... ... ... ... ... .. . . 17 SINTOMA E DIAGNÓSTICO . ... ... ... ... ... ... ... .. . . 25 SINTOMAS E TRAÇOS ESTRUTURAIS - Ilustração de sua diferenciação em um caso clíni- co de histeria . ... ... .. . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 32 1. Entrevistas preliminares . ... ... ... ... ... ... ... .. . . 32 2. Relato do tratamento . ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 38 A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM PSICOPATOLOGIA . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 5o
  10. 10. Capitulo 5 - ESTRUTURAS PSÍQUICASEFUNÇÃO FÁLICA 56 Segunda Parte LÓGICA ESTRUTURAL DO PROCESSO PERVERSO Capítulo 6 - A CONCEI3ÇÃO CLÁSSICA DAS PERVERSOES . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 65 Capítulo 7 _ A NOÇÃO DE PULSÃO NO PROCESSO PERVERSO . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 74 Capítulo 8 - RECUSA D_A REALIDADE, RECUSA DA CASTRAÇAO E CLIVAGEM DO EU . ... ... ... ... .. 83 Capítulo 9 - IDENTIFICAÇÃO FÁLICA E IDENTIFICAÇÃO PERVERSA . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 93 Capítulo 10 - PONTO DE AN_CORAGEM DAS PERVERSÕES E ATUALIZAÇAO DO PROCESSO PERVERSO 99 Capitulo 11 - O HORROR DA CASTRAÇÃO E A RELAÇÃO COM AS MULHERES. O DESAFIO E A TRANSGRESSAO . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 105 Capítulo 12 - A AMBIGÚIDADE PARENTAL INDUTORA DO PROCESSO PERVERSO E O HORROR DA CASTRAÇAO - Fragmento clínico . ... ... ... .. 113 Capítulo 13 - A RELAÇÃO COM AS MULHERES. O DESAFIO. A TRANSGRESSAO - Elementos de diagnóstico diferencial entre as perversões, a neurose obsessiva e a histeria . ... ... ... ... ... ... ... .. . . 121 1. A relação com as mulheres . ... ... ... ... ... ... .. 121 2. O desafio. A transgressão . ... ... ... ... ... ... .. . . 129 Capítulo 14 - O , GOZO PERVERSO E O TERCEIRO CUMPLICE - O SEGREDO E O AGIR . ... ... .. . . 134
  11. 11. Terceira Parte NAS FRONTEIRAS DAS PERVERSÕES Capitulo 15 - PROXIMIDADE ESTRUTURAL DAS PSICOSES E DAS PERVERSOES . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 145 Capitulo 16 - SEXUAÇÃO - IDENTIDADE SEXUAL E AVA- TAR-ES DA ATRIBUIÇAO FALICA . ... ... ... ... .. . . 152 1. O processo da sexuação segundo Lacan . 154 2. A identidade sexual e Os avatares da atri- buição fálica . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 160 Capitulo 17 - TRANSEXUALISMO E SEXO DOS ANJOS 166 1. Transexualismo masculino . ... ... ... ... ... ... . . . 167 2. Transexualismo feminino . ... ... ... ... ... ... ... .. 1 77 Conclusão: PERVERSÃO E MULHERES PERVERSAS . ... ... ... .. 183 Bibliografia . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. 189 Índice onomástico . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. . . 192 Índice terminológico . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... . . . 194
  12. 12. ç, «aaesaêesiaam a l d' Í A ívr-. ..Lí . . . ._. ... - . .a , n' '11 ? EMM I_ l -Évmíhwammwlnsm . teams-A _ra-Q l $315'. 1 atirei-uh : rat _s. ,.. _,_. _nrai ; as T . t_ _ . e vcpIuln. ,.H. .-. :.lllhü1¡ld' @sumiram-cú . - _F1ÍF[¡3'Fi<: °5.-'_I¡L-. . e . . . . l n E51, ZAERÊVFIJQÉ. I-_Lnagsoàaaavamf - L: Mu 'IU»lLulTt1LIBAN_ LIuI-4L*1D›'_›3I'ERI"- . a. m1 _I_ , Wizaruauzticaaarjtg-: ggspaanstlhti &pja-_Eelnjmrzuunriunm ca-'zmaaçhnnunnüami , *- . tou FBMULHE . Op à e ; par : ,,_, .. ... ... *l. l.1.I1'. n'. ?'$_-<(M ». __-. ..g . ... : :L-nau I'd ? sauna »muitu-n ' m III-kansas r-Eirvtnsq E O Ita-IPI¡ y , D:I_cA--. r*. _-r; _!ic« -Ftn¡. -.! q¡1tc. _à'l›. ñab 4:_ n¡ l ' l ~ ' J . "'-'. . -. -- I' ' Ç-g_ cliitglí* 1.1-. ; IIEIE-, pIrJ-¡Lm-rha a¡ pa: q . "TIBLV-'Í ú-'ÃlV-lgall-lml-. bi- I - II &t; I l_ . a rnlcçâa txt-mm : nulla-nn . . Fl na . Il g . - . . , f'fl. .'nmpn_i. irrgn-1zrna. h' . _, . .h I_ 71.1 ll. _ l. .- ""¡I uq _ IÍ-. çtüuh 14 J Liga? ? n] T°'I: .I"1'Ic THSÚE ü 17H13."- 'T l¡ 4 LLIMPIILIÊ ñiusaontnaEü-HII¡ . _. -l-I . a 1,¡ I l_
  13. 13. llmntrorõluçã Normalmente "desencaminhada" pela informação ordinária da mídia, a noção de perversão comprometeu-se, há muito tempo, em um uso ilegítimo. O seu charme é, no máximo, o de lembrar ao espiri- to algumas subordinações ideologicamente consagradas sob os auspí- cios da depravação dos costumes, sem os quais ela não poderia conti- nuar a exercer o poder de atração, até mesmo de fascínio, que lhe é comumente atribuído. Esta insolente sedução não parece todavia acompanhar o compor- tamento perverso senão na estrita condição de que o desenvolvimen- to deste permanece relegado à questão dos outros. Ora, não há insul- to mais ingênuo do que esta defesa imaginária do observador ou do comentarista anônimo que goza o desvio perverso do outro. De fato, queíramos sabê-lo Ou não, a perversão diz respeito a cada um, ao me- nos em nome da dinâmica do desejo que aí se expressa e ao qual nin- guém escapa: "Da questão perversa não poderemos jamais dizer que ela não nos diz respeito, certos de que estamos de que ela, de qual- quer maneira, nós diz respeito. "(1)* 1 - P. Aulagnier, "Remarques sur la féminite' et ses avatars", In Le Désir et la Per- version, obra coletiva, Paris, Seuil, 1967, p. 79. 11
  14. 14. 12 JOÊL DOR Isto quer dizer que cada um ai se vê implicado da mesma forma que o próprio perverso? Certamente não, por pouco que tenhamos o cuidado de definir rigorosamente a especificidade da perversão pa- ra além do amálgama ideológico que a cerca. Mas essa determinação - se é salutar - supõe, em contrapartida, que tenhamos a medida exa- ta do "núcleo perverso" que coexiste na própria dimensão de todo desejo. Somente este esclarecimento é suscetível de dar ao processo per- verso um espaço coerente de inteligibilidade ao mesmo tempo teóri- co e clínico: o campo psicossexual. Neste caso, não parecem existir perversões senão perversões sexuais propriamente ditas; exceção que encontra sua justificativa mais legítima pelo único fato de que a gêne- se das perversões deve ser inscrita no próprio seio da "sexualidade dita normal" (Freud). Circunscrever a compreensão do processo perverso à luz dessa inscrição, é conferir às perversões uma identidade de estrutura que ultrapassa a simples ocorrência da hipótese psicopatológica. Prova disso, a comiseração etiopatogênica que adere ainda com facilidade à indulgência da avaliação psiquiátrica quando se compraz sempre a consagrar uma entidade tão mítica quanto as "perversões constitucio- '97 nais . Subtrair as perversões às influências persistentes de tal reducio- nismo psicopatológico exige que já esteja claramenteelucidado o pro- blema da estrutura psíquica e traços estruturais em perspectiva da ava- liação diagnóstica, tais como são oferecidos à experiência da clínica psicanalítica. Dar conta da lógica estrutural do processo perverso impõe tam- bém reexaminá-lo no próprio início da reflexão freudiana. De um la- do, muito geralmente, nos arcanos metapsicológicos que governam o processo pulsional do desenvolvimento psíquico, até esse vencimen- to quando se resolve, para todo sujeito, o enigma da diferença dos se- xos. De outro, de modo mais preciso, na intricação edipiana dos anta- gonismos do desejo, onde pode se determinar um ponto de ancoragem das perversões, sob a influência de elementos indutores inerentes ao jogo fálico que regula necessariamente o curso dessa dialética. No limite de uma investigação tão aprofundada, torna-se possí- vel isolar alguns traços estruturais que fixam incontestavelmente, com * O texto em francês é: "De la question perversa nous ne pourrons jamais dire qu 'elle ne nous regarde pas, sürs que nous somes qu'elle, de toute façon, nous regar- de. " Como o verbo regarder pode significar tanto olhar como dizer respeito a, há aí um jogo de palavras que não pôde ser transposto sem perda da intenção do au- tor. (N. da T. )
  15. 15. ESTRUTURA E PERVERSÕES 13 o maior rigor, a especificidade da estrutura perversa. Em conseqüên- cia, uma discriminação diferencial radical pode assim ser estabelecida face a outras manifestações sintomáticas suscetíveis de se prestar ao equívoco diagnóstico no campo da prática. No plano clínico, se a elucidação metapsicológica do processo perverso torna, por outro lado, compreensível a proximidade estrutu- ral de certas organizações psicopatológicas (psicoses e transsexualis- mo), nem por isso deixa de definir a linha divisória que confirma a au- tonomia das perversões em relação a estas. indiretamente, o proble- ma colocado pela existência hipotética das perversões femininas encon- tra-se igualmente esclarecido. Em lugar de pretender a uma certa originalidade teórico-clínica, importava mais, nesta retomada da questão das perversões, reunir uma pluralidade de materiais freqüentemente esparsos na própria obra freudiana, a fortiori disseminados em seus sucessores. A lógica desta apresentação deveria ao menos permitir a indução de uma certa coerência na abordagem dessa organização psíquica, que não deixa jamais de mergulhar o clínico na confusão, tanto pela com- plexidade de seus princípios quanto pelo caráter desconcertante de suas atualizações. Santa Lucia di Tallano.
  16. 16. "La perversion a mauvaise presse. Ce qu'on évoque d'emblée, c'est la conduite aberrante, déviée, la manifestation indéfendable d'intentions mauvaises, Pégarement criminel qui mêne à la perdition. Qu'il y ait dans la matiêre sonore du mot un "Vers le pêre", qui se- ra Pessentiel de cet exposé, est le plus souvent voílé par cette aura de scandale qui l'accornpagne. "* RENÉ TOSTAIN** * O autor faz aqui um jogo de palavras visto que se encontra foneticamente inseri- do em perversion (per) a palavra pêre (pai). "A perversão tem má reputação. O que se evoca, de saída, é a conduta aberrante, desviada, a manifestação indefensável de más intenções, o desvio criminoso que le- va à perdição. Que haja na matéria sonora da palavra um "A seu pai", que será o essencial desta exposição, é o mais freqüentemente oculto por esta aura de escânda- lo que a acompanha. " (N. da T. ) ** René Tostain: “Essai apologétique de la structure perversa" in La Sexualité dans les Instituitions, obra coletiva, Paris, Payot, 1978, p. 33.
  17. 17. I 4 | : Jun/ W z¡›' v u_ I _ _ ç , -1 7 . Z ', %:""' “t, '. . ' l ' 7 , ' . l a l '“ v : à 1 ¡ ¡sa- I l à¡ ¡ V at#
  18. 18. l &TSH; AHEMEH - . "' . .u -ÉvrrII-frlnm; an. :Dm'cu-. J>Lh›§ud'n. EJ-h ç 1-1 ' 1 7'¡ Éh¡- : a1' . WT p¡: lu7à- U-ITS 1!. h. ?Ff ¡aq! .a * _ -'I-' . ul r-"IHI 'Iñ I . n ; zu-ari tira' 'z _Hi . J. ; ..-. - . .1 . - I-r- . r "EEW-IIÇI-a 0 q. .- u eva-ca. :ln-kb | l ¡, .._›n¡. ._. . . IIuILl u-, F-I u* i l "I-'IV . .J-I 'Hi1 II"I| III'II I III : gui ; wi 1.5.¡ I'l'| ' u' -nI-'nrnvrn-n-'i JT 1 í-àlüp 1.45:¡ . F'- I l I n51¡ Íà| Í_. ':l_. _n bmunnnnnh-'PI ^| I|J _ . -4 - "In-¡IT-u-. Tãn-nn-I-. .nl-unú-. u-_n III-_ÉU Iaiínanninmh-I-rtm lia-LHE¡-
  19. 19. ll A Imoção ele "avaliação dlñagmiõstñoa” na clínica Losicanallítñca A problemática do "diagnóstico" no campo psicopatológico mere- ce ser introduzida por uma incursão canônica, isto é, um retorno a cer- tas concepções clássicas lançadas por Freud já em 1895. Muito cedo, para não dizer desde o surgimento da psicanálise, Freud interrogava a questão do diagnóstico nos seguintes termos: "Quando tentei aplicar a um grande número de histéricos hipnotizados, o método terapêutico de Breuer por detecção e ab- reação, choquei-me com duas dificuldades que me levaram, para resolvê-las, a modificar tanto minha técnica quanto minhas con- cepções: 1) Nem todos os sujeitos incontestavelmente histéricos e muito provavelmente submetidos aos mesmos mecanismos são hipnotizáveis. 2) Foi-me necessário determinar o que caracterizava essen- cialmente a histeria e o que a diferenciava das outras neuroses(1) . " E Freud prossegue: 1 - Freud, J. Breuer: Studien über Hysterie (1985). G. W. , I, 77/312. S. E., II. Trad. A. Berman Études sur Phystérie, Paris, P. U;F. , 1967, p. 206. 'i7
  20. 20. 1a JOÉL DOR "É muito difícil formar uma opinião exasta de um caso de neurose antes de tê-lo submetido a uma análise aprofundada (. ..) Entretanto, é antes mesmo de conhecer o caso detalhadamente, que nos vemos obrigados a estabelecer um diagnóstico e deter- minar o tratamento(2). " Quer dizer que, desde o início de sua obra, Freud desemboscara a ambigüidade em torno da qual se colocava o problema do diagnós- tico no campo da clínica psicanalítica. De um lado, observa ele, pare- ce oportuno poder estabelecer precocemente um diagnóstico para de- terminar O tratamento - O que hoje em dia denominaríamos mais sim- plesmente: a conduta da cura. De outro, não deixa de precisar que a pertinência de tal diagnóstico não pode jamais encontrar confirmação senão após uma análise aprofundada. Toda a especificidade desse diagnóstico vê-se então na situação de um paradoxo manifesto. Nestas condições, como associar o cará- ter Operatório do diagnóstico à sua determinação relativa de impreci- são? Uma olhada no domínio da clínica médica propriamente dita já pode permitir a elucidação de alguns aspectos dos problemas ineren- tes ao diagnóstico. Na clínica médica, o diagnóstico é, antes de tudo, um ato que obedece a duas funções. Trata-se, em primeiro lugar, de efetuar uma discriminação baseada na observaçãqde Cexftõ-SNSIÍIÉISQESIÃÍÀÕCIIIÕOS (se- rñiolõgia). Em segundo, trata-se de pôr em perspectiva o estado pato- lõgtcottssim especificado, em relação a uma classificação devidamente codificada (nosografia), Um diãgñõstico médico parece portanto sem- pre subordinado à Ordem de uma referência” etiológico: (diagnóstico etiológico) e à ordem de uma referência diferencial (diagnóstico dife- rencial). '° - Por outro lado, um diagnóstico médico permite, na maioria das vezes, avaliar não somente O prognóstico vital ou funcional da enfer- midade, mas ainda a escolha do tratamento mais apropriado. Para is- to, o médico dispõe de um arsenal de investigação que se desdobra simultaneamente em duas orientações complementares: uma investiga- ção anamnésica destinada a recolher os fatos comemorativos da enfer- midade; uma investigação "montada" centrada sobre o exame direto do paciente por meio de mediadores instrumentais, técnicos, biológi- cos, etc. Essa dupla investigação colige o conjunto das informações necessárias para definir o perfil especificamente isolável da afecção patológica. 2 - S. Freud, ibid. , p. 206 (sublinhado por mim).
  21. 21. ESTRUTURA E PERVERSÕES 19 No , campo da clínica psicanalítica, tal modo de diferenciação é _deinícío invalidado. A impossibilidade é de fato nesse sentido justifica- da pela própriaestrutura do sujeito. O analista dispõe apenas de uma única tgcniçajle investigação: _a_ escuta, o que torna ultrapassada toda idéia de investigação montada. Como o material clínico trazido pelo paciente é um materialrgssencialmente_ verbal, o campo de investiga- ção clínica fica então. circunscrito de saída' à dimensão de um dizer e de um ditoradicalmente submetidos aos avatares do imaginário e da "mentirafllj. Imaginário, visto quewéggrçaçasao _discurso que vem artícu- _lãfi-Ste subrepticiamente o desenvolvimento fantasmático. Mentira, já que é através da fala que o sujeito testemunha da melhor maneira a cegueira que lhe é própria quanto à verdade de seu desejo. Daí o mal- entendido que sustenta o sintoma na consistência de seu travestimento. Subtraído ao registro dos dados empíricos objetivamente controla- veis, tal diagnóstico não parece dever resultar senão de uma avaliação essencialmente subjetiva que apenas pode se ordenar apoiando-se no discurso do paciente e na subjetividade do analista à escuta. Quer dizer, com isso, que nesse campo intersubjetivo, não existe nenhum ponto de referência estável? Somos obrigados, por esta razão, a um espaço de inter-ações puramente empáticas? Se tal fosse o caso, o domínio de investigação psicanalítica não seria outro senão um cam- po de influências e de estratégias sugestivas. Ora, bem sabemos que a psicanálise somente conseguiu definir sua especificidade porque Freud soube extrair a intelecção dos processos psíquicos no domínio da su- gestão. Tudo leva então a supor que uma certa topografia das afec- ções psicopatológicas pode ser legitimamente posta em evidência. O substrato de uma semelhante topografia baseia-se na possibili- dade de uma orientação que só pode se estabelecer em relação à cau- salidade psíquica e ao cortejo dos processos imprevisíveis que engen- dra sob o domínio do inconsciente. Antes de tudo, a relação que exis- te entre um diagnóstico e a escolha de um tratamento não parece po- der então depender de uma relação causal habitual, no sentido em que esse modo de implicação lógica é justamente comum na clínica médica. Relembremos as pródigas reservas de Freud em seu estudo, So- bre o início do tratamento: "A extrema diversidade das constelações psíquicas, a plastici- I dade de todos os processos desta ordem, o número significativo dos fatores determinantes, opõem-se a uma mecanização da técni- ca e fazem com que um procedimento normalmente vantajoso
  22. 22. 3.0 , JOEL DOR possa às vezes tornar-se inoperante, enquanto que um método geralmente defeituoso dá o resultado desejado(3). " No entanto, Freud não pode deixar de precisar o ponto seguinte: "Contudo, essas circunstâncias não devem nos impedir de estabelecer (. ..) uma linha de conduta geralmente bem apropria- da(4). " Tanto face à elaboração do diagnóstico quanto do ponto de vis- ta da direção do tratamento que dele depende, o analista supostamen- te pode apoiar-se em elementos estáveis, apesar da dimensão intersub- jetiva do espaço onde se efetua essa avaliação. Todavia, a determina- ção desses elementos estáveis requer a maior vigilância. Se a orienta- ção do tratamento depende disso, seu sucesso terapêutico encontra- se aí igualmente suspenso. De onde o perigo da psicanálise selvagem firmemente desacreditada por Freud. Em um pequeno estudo consa- grado a esse propósito(5), Freud evoca, através de uma brilhante ilus- tração, não somente a prudência requerida para o estabelecimento do diagnóstico, mas também o perigo de qualquer intervenção que I se apóie em um diagnóstico objetivamente causalista instituído como um diagnóstico médico. Este fragmento clínico lembra o caso de uma senhora de mais ou menos cinqüenta anos que consulta um jovem médico por causa da persistência de estados ansiosos. Parece-lhe que suas crises de an- siedade apareceram sobretudo após seu divórcio. O jovem médico que tinha conhecimentos superficiais de psicanálise, indica-lhe imedia- tamente a causa através de uma explicação, por assim dizer, abrupta. A ansiedade de sua paciente não seria nada além de uma conseqüên- cia direta de sua privação de toda relação sexual com homens. A tera- pêutica que lhe propõe, então, vem inscrever-se em um a relação de implicação lógica com a causa da afecção. Para restabelecer-se, formu- la-lhe três prescrições possíveis: "Volte para seu marido"; “Consiga um amante"; ou “Masturbe-sel". Como é normal, a prescrição tera- pêutica imprudente produz o efeito esperado: o estado ansioso da se- nhora piora! Ela decide então consultar Freud. 3 - S. Freud, Zur Einleitung des Behandlung (1913). G. W., VIII, 454/478. S. E., XII, 121/144. Trad. A. Berman: "Le début du triatement", in La Technique Psychanalyti- que, Paris. P. U.F. , 1975, pp. 80-81. 4 - Ibid. , p. 81. . 5 - S. Freud, Uber "Wilde" Psychanalyse (1910). G. W., VIII, 118/125. S. E., XI, 219/227. Trad. A. Berman, A propos de la psychanalyse dite "sauvage", in La Tech- nique psychanalytique, op. cit. , pp. 35-42.
  23. 23. ESTRUTURA E PERVERSÕES 3'¡ Por mais caricatura] que seja, esse pequeno exemplo é totalmen- te instrutivo. Específica, com efeito, de modo muito nítido, a diferen- ça que existe entre o diagnóstico médico e o diagnóstico tal como po- de ser elaborado na clínica psicanalítica. Igualmente permite apreen- der a singularidade da articulação que se impõe entre o diagnóstico e a escolha do tratamento. Nesse exemplo relatado por Freud, o erro de diagnóstico é notório. O problema é menos de saber se esse jovem médico conhecia suficientemente ou não os princípios da psicanálise, do que examinar segundo que tipo de procedimento organizou-se seu ato diagnóstico. Freud Observa imediatamente que o médico cometeu, sem o sa- ber, dois erros. Por sua prescrição brutal, antecipou, primeiramente, uma das dimensões essenciais que contribuem para O prognóstico tera- pêutico: a transferência, fator preponderante na dinâmica de uma in- tervenção analítica. Em vez de fazer dela uma aliada, o médico explo- rou a transferência no sentido de um instrumento de resistência tera- pêutica. Como, insurge-se Freud, "o médico pôde crer que uma mu- lher de mais de quarenta anos ignora que é possível ter um amante, ou então ele superestimou sua própria influência a ponto de acreditar que ela não se decidiria nunca, sem a aprovação médica, a dar um tal passo(6)”? O segundo erro cometido por esse médico, concerne diretamente o processo que preside o estabelecimento do diagnóstico como tal. Seu caráter é exemplar no sentido em que ilustra exatamente a condu- ta que não se deve ter jamais na clínica psicanalítica: o procedimento hipotético-dedutivo. Essa conduta, que permanece sempre governada pela relação lógica de causa e efeito, não pode encontrar, na psicanáli- se, a aplicação que lhe é habitualmente dada nas ciências exatas. No exemplo citado, o jovem terapeuta inexperiente estabelece de Saída uma relação direta de causa e efeito entre a angústia e a problemáti- ca sexual. Em si, uma tal relação não é inadequada, já que sabemos, com Freud, que algumas manifestações neuróticas como a angústia po- dem justamente depender do "fator somático da sexualidade". Mani- festamente, é baseado em uma semelhante relação que esse médico conclui de modo precipitado seu diagnóstico e sugere uma terapêuti- ca que corresponde a essa relação de causa e efeito. E "em semelhan- te caso - indica Freud/ À o médico naturalmente vai aplicar uma 'tera- pêutica atual mpyicando a atividade física de ordem sexual e tem ra- zão de agir agsi se seu diagnóstico for exato(7)". 6 - S. Freud, A propos de la psychanalyse dite "sauvage", op. cit. pp. 38-39. 7 - S. Freud, ibid. , p. 39.
  24. 24. g2 . JOÉL DOR Toda a questão é interrogar precisamente, aqui, o valor do diag- nóstico. Neste caso, o erro repousa em uma precipitação do julgamen- to causalista. Mais geralmente, a interpretação "selvagem" apóia-se, continuamente, em psicanálise, nesta racionalização causalista precipi- tada. Sobre este ponto, o comentário freudiano é de uma grande limpidez: "A senhora, ao consultar o jovem prático, queixara-se sobre- tudo de estados ansiosos. Ele concluiu provavelmente por isso que ela sofria de uma neurose de angústia e acreditou estar cer- to ao lhe recomendar um tratamento somático. E eis, mais uma vez, um conveniente equívoco! Uma pessoa que sofre de ansieda- de não sofre forçosamente de uma neurose de angústia. O diag¡ nóstico não deve ser estabelecido sobre uma denominação. E preciso conhecer as manifestações de uma neurose de angústia e saber distinguí-las de outros estados patológicos onde também surge a angústia. A senhora em questão sofria, em minha opi- nião, de uma histeria de angústia e tudo que valoriza essas distin- ções nosográficas, o que as justifica, repousa sobre o fato de que atraem nossa atenção sobre uma outra etiologia e uma outra tera- pêutica. Aquele que tivesse considerado a possibilidade de uma histeria de angústia não correria mais o risco de negligenciar os fatores psíquicos, como o fez nosso médico colocando sua pacien- te diante de três possibilidades(8)". Se os problemas da ambigüidade e da prudência diagnósticas são claramente formulados por Freud, não é menos claro que ele igual- mente insiste sobre a relação direta que liga a avaliação diagnóstica à escolha de uma conduta do tratamento. O ato psicanalítico não pode apoiar-se ex abrupto na identifica- ção diagnóstica pois não se constitui jamais, em sua aplicação, como sua pura e simples conseqüência lógica. Bem sabemos que se este fos- se o caso, disporíamos, a exemplo de todas as disciplinas médicas, de tratados ou obras de terapêutica analítica. No exemplo evocado por Freud, o erro “técnico" principal con- siste, antes de tudo, em supor o ato analítico como um ato médico. A propósito desta confusão, as reservas enunciadas por Freud são, novamente, muito preciosas: "Há muito tempo deixamos de crer, como as aparências su- perficiais haviam-nos sugerido, que o paciente sofria de uma espécie 8 - S. Freud, A propos de la psychanalyse dite "sauvage", op. cit. , p. 39 (grifado por mim).
  25. 25. ESTRUTURA E PERVERSÕES 23 de ignorância e que se viéssemos a dissipã-la falando-lhe das rela- ções causais entre sua enfermidade e sua existência, dos aconteci- mentos de sua infância, etc. , seu restabelecimento seria certo. Ora, não é a ignorância em si que constitui o fator patológico, essa ig- norância tem seu fundamento nas resistências interiores que a pro- vocaram primeiramente e que continuam a mantê-la (. ..) Se o co- nhecimento do inconsciente fosse tão necessário ao paciente quan- to o supõe o psicanalista inexperiente, bastaria fazê-lo ouvir con- ferências ou ler alguns livros. Mas medidas semelhantes têm sobre os sintomas neuróticos tanta ação quanto teria, por exemplo, em periodo de fome, uma distribuição de menus aos famintos. (. ..) Toda ação psicanalítica pressupõe portanto um contato prolonga- do com o paciente(9)". Reservas idênticas são reiteradas aproximadamente da mesma maneira por Freud em seu estudo Sobre o inicio do tratamento(10). Agora, estamos em condições de extrair alguns ensinamentos pre- liminares sobre essa noção de diagnóstico na clinica analítica. O pri- 'meiro deles diz respeito ao caráter potencial do diagnóstico, seja um ato deliberadamente posto em suspenso e destinado a uma mudança. Reencontramos essa singularidade paradoxal cujos aspectos antagôni- cos já foram assinalados: por um lado, a quase-impossibilidade de de- terminar uma avaliação diagnóstica com segurança, sem se servir de um certo tempo do desenrolar do tratamento; por outro, a necessida- de de Circunscrever a mínima esse diagnóstico para decidir sobre a orientação a dar a esse tratamento. A potencialidade diagnóstica, fada- da à mudança de uma confirmação, suspende então por um tempo to- da atualização de intervenção de valor terapêutico. Esse é um segun- do ensinamento do qual devemos tirar partido. Um terceiro - resulta- do dos dois anteriores - fornece-nos a importância do tempo necessá- rio a observar, no inicio de toda decisão ou proposição de tratamento. Esse tempo é aquele que é habitualmente concedido ao que Freud de- signava inicialmente como tratamento de ensaio, o qual é hoje consa- grado pelo uso sob a denominação de entrevistas preliminares. Não escapou a Freud que um tal tempo preliminar apresentava “a vanta- gem de facilitar o diagnóstico(11)”. Mas ainda que esse tempo seja um tempo de observação, nem por isto deve estar inscrito, desde o iní- cio, no dispositivo analítico. E nesta única medida que ele pode contribuir 9 - S. Freud, A propos de la psychanalyse dite "sauvage", op. cit. , pp. 40-41. 10 - S. Freud, Le début du traitement, op. cit. , p. 100. 11 - S. Freud, Le début du traitement, op. cit. , pp. 81-82.
  26. 26. za JOÉL DOR favoravelmente para a avaliação diagnóstica e para a escolha da orien- tação do tratamento. Mais uma vez mencionemos que Freud não deixou de ressaltar a necessidade desse dispositivo analítico desde as entrevistas preliminares: "Essa tentativa preliminar já constitui entretanto o inicio de uma análise e deve se conformar às regras que a regem; a única diferença pode ser que o psicanalista deixa sobretudo o paciente falar sem fazer comentários, apenas o que for absoluta- mente necessário à continuação de sua narrativa(12)". A avaliação diagnóstica parece então prioritariamente sujeita à ordem do dizer, sobretudo porque não parece dever relacionar-se ao registro do dito e a seus conteúdos. Neste sentido, a mobilização impe- rativa do dispositivo analítico confere à escuta a aptidão primordial de um instrumento diagnóstico que deve prevalecer sobre o saber no- sográfico e as racionalizações causalistas. Esses diferentes ensinamentos que podem ser extraídos do cor- pus freudiano, encontram uma ilustração pertinente em um dos traba- lhos(13) de Maud Mannoni que não deixa de insistir sobre essa mobi- lização imediata da escuta. Ela lembra que "a primeira entrevista com o psicanalista é mais reveladora nas distorções do discurso que em seu próprio conteúdo"(14). Por outro lado, a pluralidade de exemplos dados no corpo da obra constitui uma excelente introdução à proble- mãtica da avaliação diagnóstica no campo da clinica psicanalítica. 12 - Ibid. , p. 81 13 - M. Mannoni, Le premier rendez-vous avec le psychanalyste, Paris, Denoêl/ Gon- thier, 1965. 14 - Ibid. , _p. _ 164.
  27. 27. W âñmtomma e cclñagrmõstñco Em toda prática clinica, é comum estabelecer correlações entre a especificidade dos sintomas e a identificação de um diagnóstico. Feliz- mente, tais correlações das quais depende o sucesso de uma iniciativa terapêutica, existem muitas vezes. Todavia, um dispositivo causalista só é eficaz porque o campo responde, de uma certa maneira, a um pro- cesso de funcionamento regulado ele também segundo determinações que obedecem ao mesmo principio. Assim, quanto mais o conhecimen- to desse determinismo for aprofundado, mais se multiplica o número das correlações entre as causas e os efeitos. Em compensação, a espe- cificação dos diagnósticos igualmente acura-se. Se esse princípio é uniformemente aceitável em todos os horizon- tes da clinica médica, é cruelmente enganoso na clinica analítica. Es- sa defecção fica por conta do determinismo singular que grassa ao ni- vel dos processos psíquicos sob o nome de causalidade psíquica. A causalidade psíquica procede por outras vias que não as cadeias habituais de interações de causas e efeitos, tais como as identificamos, por exemplo, ao nivel das ciências biológicas. O sucesso da terapêuti- ca médica permanece suspenso, em grande parte, à regularidade e à fixidez dessas ocorrências causais que intervém ao nivel do corpo. Em contrapartida, tanto quanto haja determinismo através da causalidade psíquica, não parece possivel apreender semelhantes linhas de regula- ridade. Em outras palavras, nenhuma organização estável entre a natu- reza das causas e a dos efeitos pode ser rigorosamente notada. Torna-se 25
  28. 28. 26 JOÉL bon então impossivel estabelecer perfis de previsões idênticas àqueles que observamos nas disciplinas biológicas e, mais geralmente, médicas. No campo científico, uma previsão tem sentido apenas porque se baseia em uma lei, isto é, em uma explicação objetiva e universali- zável que justifica uma articulação estável entre causas e efeitos. A causalidade psíquica não é objeto de tais leis, ao menos no que con- cerne às exigências empíricas e formais que podem defini-las nas ciên- cias exatas. Nestas condições, a ausência de legalidade entre as cau- sas e os efeitos, e a impossibilidade subseqüente de determinações previsíveis estáveis, impõem-nos o reconhecimento de que a psicanáli- se não é uma ciência no sentido estrito e habitualmente dado a esse termo(1). Consideremos esta primeira constatação, inerente à determina- ção diagnóstica na clinica psicanalítica: nâo existe inferência estável entre as causas psíquicas e_ os efeitos sintomáticas. Esse invariante merece que aí nos detenhamos pelo menos porque inscreve-se de en- contro ao funcionamento habitual de nossos processos mentais. Quei- ramos sabê-lo ou não, pensamos até mesmo consideramos nós pró- prios - em uma ordem de racionalidade cartesiana. Somos assim es- pontaneamente levados a estruturar nossas explicações segundo or- dens de pensamentos lógicos que não profundamente causalistas no sentido do discurso da ciência. Recusar essa ordem de pensamentos por implicações lógicas, constitui sempre um esforço particular a pro- duzir no inicio do trabalho psicanalítico. Sob pretexto de que é necessário poder se desprender da racio- nalidade lõgica, o trabalho psicanalítico não é por isso abandonado ao sabor das fantasias de cada um. Nem tudo nele é possivel e seu sucesso permanece sujeito a certas exigências do rigor, ao menos aque- las que nos impõem seguir o fio do dizer daquele que se escuta, se queremos infalivelmente apreender algo da estrutura do sujeito sobre o quê apoiar a avaliação diagnóstica. Supondo que possamos validar uma hipótese diagnóstica a par- tir da ocorrência concreta dos sintomas, admitimos implicitamente a atualização de uma relação de causa e efeito irredutivel. Veremos que isso equivale a fazer a economia radical de toda a dinâmica própria ao inconsciente. A prática clínica ensina-nos que a relação que une o sintoma à etiologia da afecção que o produz, é intermediada pelo 1 - As razões que lnvalidam a psicanálise no ramo das disciplinas científicas, são apenas conseqüências lógicas derivadas de um princípio epistemológico intrínseco ao próprio objeto da psicanálise. Levante essa questão em uma obra a ser publica- da: ¡Ja-scientificité de la psychanalysei'. * A a-cientificidade da psicanálise: a ser publicado brevemente pela Editora Artes Médicas. 7
  29. 29. ESTRUTURA E PERVERSÕES 27 conjunto dos processos inconscientes. A correlação entre um sintoma e a identificação de um diagnóstico supõe, a mínima, a atualização de uma cadeia de processos intrapsiquicos cuja dinâmica não se movimen- ta no sentido de determinismo causal comum. Qualquer mecanismo do processo primário dá-nos uma prova in- contestável dessa lógica desconcertante dos processos inconscientes. Examinemos, a titulo de exemplo, o destino particular do processo pul- sional que Freud designa retorno sobre a própria pessoa e o qual justi- fica da seguinte maneira na Metapsicologia: "O retorno sobre a própria pessoa deixa-se apreender me- lhor quando se considera que o masoquismo é precisamente um sadismo voltado para o Eu-próprio e que o exibicionismo inclui o fato de olhar seu próprio corpo. A observação analítica não dei- xa nenhuma dúvida neste ponto: o masoquista goza, ele também, o furor dirigido contra sua própria pessoa, o exibicionista partilha o gozo daquele que o olha desnudar-se(2)". Se uma atividade sintomática como o sadismo supõe essa lógica contraditória do retorno sobre a própria pessoa, a própria natureza desse processo descrito por Freud invalida de fato a idéia de uma rela- ção causal direta entre um sintoma e um diagnóstico. Esse primeiro argumento exige ser desenvolvido ainda mais. Supo- nhamos que essa lógica contraditória seja uma lógica estável ao nivel dos processos inconscientes; neste caso, poderíamos considerar os pa- res de opostos: sadismo/ masoquismo e exibicionismo/ voyeurismo co- mo equivalências fixas. Mesmo graças a essa hipótese, não estamos sempre em condições de inferir um diagnóstico seguro-a partir dos sin- tomas. Admitamos que a atividade sintomática voyeurista implica logica- mente o exibicionismo. Dito de outro modo, suponhamos como acei- ta a transformação no seu contrário como uma "lei fixa". Podemos, por esta razão, deduzir logicamente um diagnóstico de perversão a par- tir de um sintoma como o exibicionismo? Uma vez mais, os dados da experiência clinica cotidiana não confirmam uma tal possibilidade de inferência imediata. O componente exibicionista revela-se, por exem- plo, particularmente presente na histeria da maneira algumas vezes es- petacular do "dar a ver" dos histéricos. 2 - S. Freud, Triebe und Triebschicksale (1915). G. W., X, 210/232 S. E., XIV, 109/140. Trad. J. Laplanche e J. B. Pontalis, '“Pulsions et destins des pulsions", in Métapsycho- logie, Paris, Gallimard, 1968, p. 26.
  30. 30. as JOÊL DOR Chegamos a reservas análogas com um outro caso tipico: a ativi- dade sintomática da ordem e da arrumação. Em alguns sujeitos, esse sintoma adquire proporções suficientemente inquietantes para tornar- se uma verdadeira enfermidade do agir. Tradicionalmente, nas investi- gações freudianas, essa particularidade de caráter que facilmente atin- ge a dimensão sintomática, fica por conta do componente erótico anal que é uma disposição constitutiva da neurose obessessiva(3). Ba- seando-nos nessas indicações, podemos concluir pelo diagnóstico de neurose obsessiva apoiando-nos unicamente na identificação desse sintoma? Não o podemos mais do que anteriormente, na simples medida em que esse sintoma é igualmente identificável sob uma forma muito ativa na histeria. Encontro, com efeito, um particular desenvolvimen- to em algumas mulheres histéricas no registro da administração do- méstica. O mais das vezes, trata-se aliás de um sintoma de emprésti- mo "conjugal". Em sua disposição à identificar-se com o desejo do outro, a histérica apropria-se freqüentemente com facilidade do sinto- ma de seu parceiro obsessivo. Esse exemplo novamente confirma a inexistência de uma solução de continuidade direta entre uma cartografia dos sintomas e uma clas- sificação diagnóstica. Semelhante descontinuidade entre a observação do sintoma e a avaliação diagnóstica impõe-nos a recentralização do problema à luz dos processos inconscientes que jamais são objeto de uma observação direta. Essa falta de observação direta apela precisamente para a parti- cipação ativa do paciente que é sempre, no campo psicanalítico, uma participação de palavras. Reencontramos assim a prescrição freudia- na que figura no frontispicio do edifício analítico. Se essa prescrição lembra-nos que "o sonho é a via régia que leva ao inconsciente", ti- ra, na verdade, toda sua efetividade do único fato de que o sujeito é levado a fazer um discurso sobre seu sonho. Propriamente falando, 3 - S. Freud, cf. a) Character und Analeorik (1908) G. W., Vll, 203/209. S. E., IX, 167/175. Trad. D. Berger, P. Bruno, D. Guérineau, F. Oppenot: Caractêre et érotismo anal, in Psycho- se, Névrose et Perversion, Paris, PUF, 1973, pp. 143/148. b) Die Disposition zur Zwangneurose (1913), G. W., Vlll, 442/452. S. E., Xll, 311/326. Trad. D. Berger, P. Bruno, D. Guérineau, F. Oppenot: La disposition à la névro- se obssessionnelle, in Psychose, Név rose et Perversion, Paris, PUF, 1973, pp. 189-197. c) Uber Triebumsetzungen, insbesondere der Analerotik (1917) G. W., X, 402/410. S. E., XVII, 125/133. Trad. D. Berger: Sur la transformation des pulsions particuliêr- ment dans l'érotisme anal, in La Vie Sexuelle, Paris, PUF, 1969, pp. 106-112.
  31. 31. ESTRUTURA E PERVERSÕES g9 a "via régia" é portanto o discurso como tal. As atualizações do incons- ciente não podem ser decodificadas no arsenal da racionalidade expli- cativa das deduções de caráter pseudocientifico, mas exclusivamente nas associações do discurso. Em sua perspectivaido "retorno a Freu ", Lacan não deixou de insistir sobre a dimensão princeps do discurso na psicanálise, como tes- temunham, por exemplo, alguns desses pensamentos formulados em: "A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud": "Como até mesmo um psicanalista de hoje não se sentiria tocado pela fala, quando sua experiência recebe seu instrumento, seu quadro, seu material e até o ruído de fundo de suas incertezas? Nosso título faz entender que além dessa fala, é toda a estru- tura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no in- consciente(4)". Encontramos essa mesma insistência de Lacan em promover a in- cidência da fala na experiência do inconsciente, durante uma outra ar- gumentação desenvolvida em: "Situação da Psicanálise em 1956": "Para saber o que se passa na análise, é preciso saber de onde vem a fala para saber o que é a resistência, é preciso saber o que impede o acesso da fala (. ..) "Por que encobrir as questões que o inconsciente provoca? "Se a associação dita livre dá-nos acesso a ele, é por uma li- beração que se compara às dos automatismos neurológicos? "Se as pulsões aí descobertas são do nível diencefálico, até mesmo do rinencéfalo, como conceber que se estruturam em ter- mos de linguagem? "Pois, se desde a origem, é na linguagem que se fazem co- nhecer seus efeitos, seus artifícios que apreendemos depois a co- nhecer, não denotam menos, em sua trivialidade como em suas sutilezas, um procedimento linguageiro(5)". Para atingir mais diretamente a problemática do sintoma, relem- bremos igualmente esta pequena fórmula do Discurso de Roma. 4 - J. Lacan, "L' instance de la lettre dans Pinconscient ou la raison depuis Freud" (1957), in Ecrits, Paris, Seuil, 1966, pp. 494-495. _ 5 - J. Lacan, "situation de la Psychanalyse en 1956", in Ecrits, Paris, Seuil, 1966, pp. 461 e 466.
  32. 32. 3o JOEL DOR "O sintoma resolve-se por inteiro em uma análise da lingua- gem, porque ele próprio é estruturado como uma linguagem, que é a linguagem da qual a fala deve ser liberada(6)". Se o sintoma encontra-se na mesma situação da fala e da lingua- gem, parece evidente que o diagnóstico não possa mais subtrair-se a isso. Em conseqüência, o que devemos chamar de traços diagnósticos estruturais devem ser extraídos deste registro da fala. Todavia, somen- te constituir-se-ão em elementos confiáveis na avaliação diagnóstica com a condição de se despreenderem da identificação dos sintomas. A identidade do sintoma reduz-se, o mais das vezes, a uma entidade clínica de trompelbeil* um artefato que fica por conta dos efeitos do inconsciente dos quais Lacan, após Freud, lembra-nos com razão os ardis e as facécias. A investigação diagnóstica exige o apoio em um aquém do sinto- ma, isto é, este espaço intersubjetivo em que Freud esforçava-se pa- ra estabelecer a comunicação de inconsciente para inconsciente, atra- vés de sua célebre metáfora telefônica. "O inconsciente de analista deve se comportar, em relação ao inconsciente emergente do paciente, como o receptor telefôni- co em relação à resposta mecânica. Assim como o receptor re- transforma em ondas sonoras as vibrações telefônicas que ema- nam ondas sonoras, do mesmo modo o inconsciente do médico consegue, com o auxílio dos derivados do inconsciente do pacien- te que chegam até ele, reconstituir esse inconsciente de onde emanam as associações fornecidas(7)". Os traços diagnósticos estruturais surgem no desdobramento do dizer, como passagens significativas do desejo que se esboçam naque- le que fala. Esses sinais aparecem acima como os índices que balizam o funcionamento da própria estrutura psíquica. Representam, de al- gum modo, os indicadores de sinalização impostos pela dinâmica do desejo. Como veremos mais adiante, a especificidade da estrutura de um sujeito é predeterminada pela economia de seu desejo. Ora, seme- 6 -_ J. Lacan, Fonetion et champ e la paroleet du langage en psychanalyse" (1953), in Ecrits, Paris, Seuil, p. 269. * Termo técnico da pintura, já consagrado na língua portuguesa. Significa um efei- to de pintura em que o espectador é levado a hesitar diante da imagem pintada. (N. da T. ) 7 - S. Freud, Ratschlãge für den Arztbei der-psychoanalytischen Behandlung, (1912). G. W., Vlll, 364/374. S. E., Xll, 109/120. Trad. A. Berman: "Conseils aux médecins sur le traitement psychanalytique", in La Technique psychanalytique, op. cit. , p. 66.
  33. 33. ESTRUTURA E PERVERSÕES 31 lhante economia é governada por orientações, por trajetórias estereoti- padas, portanto, por certos princípios de circulação - para permane. cer nas metáforas condutoras. Se concordarmos em chamar de traços estruturais tais trajetórias estabilizadas, os traços diagnósticos estrutu- rais constituem marcas codificadas por esses traços da estrutura teste- munhas da economia do desejo. A fim de melhor precisar o caráter operatório do diagnóstico, é. então oportuno evidenciar claramente não apenas a noção de estrutu- ra, mas também a distinção que existe entre sintomas e traços estruturais.
  34. 34. Sirrrrtomas e traços estruturais Ilustração de sua diferenciação em um caso clínico de histeria 1 - ENTREVISTAS PRELIMINARES A utilização pertinente do diagnóstico no campo da clínica psica- nalítica, supõe que uma discriminação rigorosa seja continuamente estabelecida entre a identidade do sintoma e a identidade dos traços estruturais. Fora dessa vigilância constante, o clínico expõe-se a im- pressionantes confusões diagnósticas que comprometem gravemente o prognóstico terapêutico. A exposição do caso clínico que se seguirá é tanto mais exem- plar porque foi precisamente objeto de uma tal confusão(1). Desde as primeiras entrevistas, uma demarcação radical será pos- ta em evidência entre a especificação de alguns traços estruturais e a identidade marcante do sintoma. 1 - Os elementos anamnésicos aqui apresentados foram isolados de um contexto psicopatológico complexo. A história dessa mulher - acidentalmente falecida desde então - não será restituída além de algumas evocações necessárias à exposição de uma ilustração "técnica". 32
  35. 35. ESTRUTURA E PERVERSÕES 33 Primeira entrevista A Srta. X. , mulher de cerca de trinta anos, foi a mim recomenda- da por um especialista de medicina interna, ao sair de uma hospitaliza- ção. No decorrer da primeira entrevista, essa hospitalização é, aliás, a informação princeps que me passa abruptamente sem, todavia, indicar- me as razões. Mas do mesmo modo que nada me tenha sido imediata- mente dito, tudo me será, em contrapartida, diretamente dado a ver durante a entrevista, por meio de uma estratégia que acusa a própria expressão de um traço de estrutura - neste caso, um traço característi- co da estrutura histérica. Durante a entrevista, essa jovem mulher queixa-se de um "mal-es- tar" difuso, mas muito generalizado, sem que lhe pareça possível asso- ciar suas manifestações a situações particulares. Nada parece ter sido oculto: tanto sua vida cotidiana e particular quanto o quadro de sua atividade profissional. Em algumas palavras, essa mulher deixa claro que não tem mais gosto por qualquer coisa que seja, quer se trate de planos, quer se trate de suas relações com os outros, próximos ou não. Tanto as pessoas como as coisas aborrecem-na profundamente e são rapidamente desinvestidas. Sobre esse fundo de abatimento neurastêni- co, desespera-se por passar a quase-totalidade de seu tempo nada fa- zendo, exceto entregar-se sem grande prazer a algumas ruminações diur- nas. Entretanto, entre esses devaneios confusos, um tema fantasmáti- co reaparece freqüentemente de um modo compulsivo e obsessivo. Nesta cena imaginária que convoca com regularidade, um amigo vem visitá-la uma noite de improviso. Essa visita imprevista deixa-a sempre perturbada mas agradavelmente surpresa. Surpreendida em um certo abandono, instala seu amigo confortavelmente e retira-se por alguns instantes para o banheiro com a intenção de mostrar-se a ele sob uma aparência mais agradável. A cena fantasmática prossegue então, inva- riavelmente, da seguinte maneira. Trancada no banheiro, compraz-se a imaginar, com um júbilo inexplicável, o que seu amigo pode pensar que está fazendo ali. Ora, muito curiosamente, o desenrolar do fantas- ma, precisa ela, suspende-se sempre aí, em seu prejuízo apesar dos es- forços repetidos para assegurar sua continuidade. Ao final dessa evocação fantasmática, intervenho para perguntar- lhe: "Em que você pensava atrás da porta de seu consultório, na sala de espera? " Minha intervenção suscita imediatamente uma reação per- feitamente caracteristica do funcionamento histérico: um recalcamen- to diretamente associado a um deslocamento. Então ela queixa-se de sentir muito calor, tira o saco e descobre antebraços mutilados com tra- ços cicatriciais alguns dos quais, bem recentes, estão ainda pincelados
  36. 36. 345. V JOEL DOR com álcool iodado. Com esses ferimentos a mim mostrados, interrom- po a sessão. Por mais sucintos que sejam, os poucos materiais revelados no decorrer dessa primeira entrevista, já deixam entrever algumas indica- ções preciosas face à discriminação para estabelecer entre traços estru- turais e sintomas. Primeiramente, essa paciente que se apresenta sobre um fundo neurastênico, evidencia um elemento essencial que advém como mar- ca diagnóstica estrutural em eco a um traço da estrutura histérica. Após me ter imediatamente informado que saíra do hospital, essa mu¡ lher nada mais me diz e continua seu discurso com outro assunto. E como se tudo estivesse implicitamente significado nessa informação lacônica, enquanto que nada é ai expressamente designado. Dito de outro modo, dá-me algo a entender do modo de ter eu mesmo que adivinhá-lo e perguntá-lo. Esse tipo de funcionamento intersubjetivo supõe uma estratégia do desejo característica da estrutura histérica: ou seja, desejar alguma coisa da maneira de ter de fazê-lo desejar pe- lo outro. De um certo modo, seu desejo tende portanto a ser o obje- to de minha própria demanda. Se o histérico está sempre presente sem aí estar realmente - o que designamos comumente como o falso-semblante dos histéricos - é em razão desse traço notável da estrutura histérica que observamos quando o desejo do sujeito está sempre presente mas sob reserva de se fazer representar onde não está, delegando-se através do desejo do outro. A diferença entre um traço de estrutura e a identidade de um sin- toma depende da observação de índices semelhantes. Além da plasti- cidade e da diversidade dos sintomas, o traço de estrutura impõe-se como um elemento estável que anuncia uma estratégia do desejo. Do mesmo modo, podemos salientar esse traço característico da estrutura histérica através do processo de recalcamento/ deslocamen- to tal como se elabora na contextura da cena fantasmática, e tal co- mo se atualiza após minha intervenção. Se o fantasma não é jamais senão uma mise-en-scéne do desejo, devemos poder identificar um perfil análogo de estratégia do desejo. O fantasma presente coloca em cena um homem. Todavia essa elaboração imaginária não o convoca de qualquer maneira. Esse ho- mem surge supostamente sempre de improviso. Vem apenas para mo- bilizar o desejo dessa mulher de um modo imprevisível. De resto, o desenrolar do fantasma mostra que uma semelhante mobilização do desejo fica suspensa à interrogação: "O que ele espera de mim? " Co- mo a mise-en-scéne permanece totalmente particular, expressa assim apenas o modo de eleição da economia do desejo próprio ao sujeito,
  37. 37. ESTRUTURA E PERVERSÕES 35 a qual opera, ainda aí, sobre o aspecto de uma delegação no desejo do outro. E exatamente porque "o outro" do fantasma supostamente deseja alguma coisa em seu lugar, que essa mulher põe-se ela mesma em situação de desejar. A continuação da cena constitui uma resposta significativa a essa mobilização do desejo. Ela se eclipsa no banheiro sob o pretexto de se tornar mais apresentável. Reencontramos ai' um estereótipo funda- mental da histeria: a função da máscara. Com a máscara, trata-se sem- pre, para o histérico, de se colocar à distância de si mesmo, portanto de seu desejo, a fim de continuar a nada querer saber dele. O encade- amento lógico do fantasma desenrola-se: entrincheirada no banheiro, compraz-se em calcular o que o outro imagina que faz lá, Apreende- mos aqui uma estratégia do desejo idêntica: interrogar o desejo do ou- tro com o único objetivo de saber onde está o seu; seja esse mesmo caso típico de alienação do desejo do sujeito através do desejo do outro. O final abrupto da cena fantasmática conhece igualmente sua ex- plicação legítima na expressão desse traço de estrutura. O fantasma in- terrompe-se sempre sobre esse ponto de alienação atualizando assim a suspensão do desejo característica de posição histérica. A essa suspensão correspondem, em compensação, alguns estereó- tipos sintomáticos cuja expressão privilegiada insinua-se em fórmulas standard como: "Não desejo nada", "Nada me interessa", "Tudo me é indiferente". ... Não se poderia avaliar melhor o hiato que existe en- tre o traço de estrutura e o sintoma. O sintoma é um produto de elabo- ração psíquica, um produto de estrutura cuja identidade não oferece nenhuma garantia diagnóstica particular. Pode mesmo aparecer algu- mas vezes como um índice perturbador na verificação dos traços estruturais. Retornemos à análise dessa entrevista no ponto de minha interven- ção. Essa intervenção que pontua a evocação da cena fantasmática, contribui para recentralizar a questão do desejo nessa paciente no úni- co lugar onde se apresenta: nela mesma e não no desejo do outro. Se a situação de espera atrás da porta de meu consultório metafo- riza manifestamente a estrutura de seu fantasma favorito, minha inter- venção não teve outro objetivo senão inverter seu modo. Ao contrário da cena fantasmática onde se interroga sobre o desejo do outro, é ago- ra o outro que lhe pergunta em que ela pensava enquanto esperava. Tal intervenção somente recentraliza o lugar de aparecimento do dese- jo desarmando pontualmente sua dinâmica histérica porque sobrevém como uma intrusão equivalente à questão: "De onde você deseja? " Não é preciso mais para que a resposta que recebo confirme da me- lhor maneira essa dinâmica histérica. Primeiramente, o recalcamento: "Está quente aqui", diz ela, tirando seu casaco. Em seguida, o desloca-
  38. 38. JOEL DOR 36 mento sobre o "corpo-sintoma" que revela antebraços machucados e feridos. À minha intervenção metafórica: "De onde você deseja", essa paciente só pode responder em uma lógica neurótica cega, dando- me a ver alguma coisa de seu corpo, exibido como o fragmento sinto- ma onde seu desejo está efetivamente cativo. Deseja em seu corpo ao nível dos antebraços mutilados que me mostra, confirmando esta via de assunção favorita do desejo histérico que elege uma parte do corpo sofredor. Em compensação, para remeter a questão do desejo lá onde ele está e não lá onde se aliena, renuncio a ver e convido-a a se recobrir encerrando a entrevista. Segunda entrevista A entrevista seguinte começa de um modo insólito: "Não vou apertar sua mão, estou em tratamento e não gostaria de contamina-lo! " Além dessa cautela poder ser entendida como uma denegação radical, seu interesse essencial visa sobretudo o encetamento de uma estratégia de intriga própria a metaforizar, mais uma vez, a atualiza- ção do corpo-sintoma. Enquanto minha atenção pode se encontrar mobilizada ao nível de um fragmento do corpo privilegiado (a mão), é precisamente em um outro lugar do corpo, totalmente diferente, que o véu é, de certa maneira, levantado. Por meio de uma roupa bem curta conjugada a um jogo de pernas, essa mulher mostra-me, ao sentar-se, a parte supe- rior de suas pernas que apresenta traços cicatriciais de mutilação idên- ticos àqueles de seus antebraços - antebraços nesse dia completamen- te cobertos. Essa cena reitera a expressão do mesmo traço de estrutura ante- riormente verificado: despertar a atenção do outro para pô-lo na situa- ção de desejar perguntar-lhe o que ela mesma deseja fazer-lhe saber. Intervenho, então, mais uma vez, de um modo totalmente diferen- te, perguntando-lhe se conhece a seguinte história judia: "Dois judeus encontram-se em um trem, numa estação da Galícia. “Onde vais? ", diz um. "A Cracóvia", diz o outro. “Que mentiroso tu ésl", exclama então o outro, “Dizes que vais à Cra-
  39. 39. ESTRUTURA E PERVERSÕES 37 cóvia para que eu acredite que vais a Lemberg, mas sei muito bem que vais mesmo é à Cracóvia. Então, por que mentir? "(2) A intervenção inesperada dessa narrativa na entrevista produz uma reação perfeitamente característica. Imediatamente, a jovem mu- lher interrompe a exibição de suas pernas, que pretendia inocente, e associa em seguida sobre um fragmento de discurso durante o qual ve- rifico que, em presença de um outro, ela experimenta freqüentemente o sentimento de ser banal, insípida e de não ter jamais algo de interes- sante a dizer. Esse improviso dá-me ocasião de observar-lhe que é exa- tamente essa a razão que a leva fazer seu corpo falar por ela. Obtenho assim uma narrativa substancial sobre esse corpo mutila- do, muito além do que me mostrara. Fico sabendo que além dos bra- ços e das pernas, o ventre e o seio são objetos de mutilações idênticas. Sou igualmente informado sobre sua estada no hospital onde acaba de ser tratada de uma infecção generalizada consecutiva a suas automu- tilações repetidas. E, aliás, a sexta hospitalização do gênero. Com efei- to, desde a idade de dezessete anos, não deixou de se mutilar sem com- preender as razões desse impulso mórbido que surge sempre de um modo irreprimível e segundo uma cena estereotipada. O sintoma de automutilação surgiu inauguralmente após um inci- dente que permaneceu perfeitamente incompreensível e sem nenhum elo lógico perceptível com ele. Quando tinha dezessete anos e assistia a uma aula, na escola, sentiu-se bruscamente muito angustiada. Inca- paz de dizer uma palavra, não pôde impedir-se de urinar e desfaleceu imediatamente após. O mal-estar durou alguns minutos e tudo voltou, parece, ao normal. Voltando para casa, algumas horas mais tarde, pre- cipitou-se para o banheiro e, após se ter desnudado completamente, cortou o seio direito com uma lâmina de barbear. Totalmente fora de si, não sentiu nenhuma dor. Em compensação, quando o sangue come- çou a correr, experimentou uma sensação de bem-estar inabitual que se prolongou até o final dessa mini-hemorragia. Totalmente esgotada, tomou um banho e deitou-se em seguida para dormir durante longas horas. Desde então, o sintoma repete-se segundo um cenário sempre idên- tico, alguns dias várias vezes, mas em pontos diferentes do corpo. Além das hospitalizações em conseqüência das síndromes infeccio- sas graves, essa paciente salienta-me igualmente algumas estadas em 2 - S. Freud, "Der Witz und seine Beziehung zum Unbewussten" (1905) G. W., Vll, 31/125. S. E., VIII, Trad. M. Bonaparte/ M. Nathan, Le mot d'esprit et ses rapports avec Finconscient, Paria, Gallimard, 1930, pp. 188-189. '
  40. 40. 33 _JOEL DOR "casa de repouso". Confiar-me-á, mais tarde, que as "casas de repou- so" eram, na verdade, clínicas psiquiátricas onde estivera hospitaliza- da diversas vezes com um diagnóstico de esquizofrenia. Se duas entrevistas foram necessárias para que esse sintoma se encarnasse em uma história, articulando seu surgimento e sua repeti- ção, será preciso mais de um ano de tratamento para que ele caduque, liberando assim sua significação sobredeterminada por uma surpreen- dente dinâmica histérica. Alguns meses mais bastarão para elucidar a “escolha" de sua organização privilegiada sobre o modo de automu- tilação. 2 - RELATO DA CURA A evocação do minucioso trabalho analítico efetuado por essa paciente durante seu tratamento não apresentaria muito interesse, se não estivesse destinada a evidenciar a sinergia dos processos que in- tervieram eletivamente na construção do sintoma, de um modo surpre- endente. Ora, é precisamente esta dinâmica intrapsíquica - fosse ela simplesmente restituída em um relato - que permite ilustrar da me- lhor maneira, no presente caso, a disparidade entre a consistência do sintoma e a prevalência dos traços estruturais. Essa ilustração é tanto mais exemplar porque não é, aliás, tão freqüente observar nos tratamentos como o paciente consegue com tanta nitidez e rigor, res- gatar todos os lineamentos anamnésicos que presidiram efetivamente a elaboração de seu sintoma. No contexto dessa ilustração clínica, relatarei evidentemente ape- nas os materiais que se revelaram, só depois, a posteriori, decisivos no processo de elaboração do sintoma de automutilação. Esses dife- rentes materiais são ou construções fantasmáticas, ou recordações, algumas das quais, recalcadas, reapareceram na dinâmica do tratamento. O primeiro desses elementos decisivos é uma lembrança comple- tamente esquecida que voltou rapidamente, desde o início do trata- mento. Trata-se de uma cena bem insólita da qual essa mulher foi es- pectadora acidentalmente quando tinha cerca de quinze anos. A cena passa-se por ocasião de um estágio de esqui que fazia com adolescentes de sua idade. Uma noite, sai de seu quarto e vai até a recepção do hotel para telefonar. Não há ninguém lá mas, em contra- partida, surpreende risos e gritos que escapam da copa. Não pode deixar de olhar pelo buraco da fechadura e torna-se assim testemu- nha de um jogo singular organizado entre uma monitora e vários mo-
  41. 41. ESTRUTURA E PERVERSÕES 39 nitores de esqui. A monitora, de macacão de esqui, tem os olhos venda- dos. Cada um por sua vez, os monitores rodeiam-na e jogam creme chantilly em seu corpo com uma bomba que passam de mão em mão; receosa de ser surpreendida em uma observação indiscreta, volta rapi- damente para o quarto. Curiosamente, a jovem adolescente reterá dessa cena apenas um único detalhe perturbador: o macacão vermelho da monitora, bem jus- to, onde escorre o creme chantilly. Ao menos aparentemente, a conota- ção eminentemente sexual do jogo escapa-lhe por inteiro. Reencontramos aqui um dos traços característicos da estrutura his- térica já assinalado: o processo conjunto de recalcamento e de desloca- mento. Manífestamente onde essa jovem adolescente é mobilizada pe- la metáfora sexual do jogo, ela recalca de saída a conotação sexual em benefício de uma fixação sobre um traço que se revelará mais tar- de como um traço identificatório. Não se pode encontrar melhor exem- plo do processo identificatório descrito por Freud sob o termo identifi- cação a um traço unário (3), ou identificação ao traço unário, para reto- mar a denominação de Lacan. Mencionemos que essa identificação ao traço unário é um processo identificatório privilegiado na histeria. A volta dessa lembrança no tratamento vai precipitar a associação de várias outras evocações determinantes em relação a esse estágio da esqui. Três acontecimentos aparentemente “inocentes" e sem elos lógicos entre si reaparecerão assim. De um lado, lembra-se do prazer inabitual que sentiu, durante es- sa estadia, em tomar inúmeras duchas durante as quais deixava a água correr lentamente sobre seu corpo. Por outro, rememora a inexplicável simpatia que sentiu por essa monitora durante todo o tempo de seu estágio de esqui. E claro que se trata aqui de um fenômeno identificatório inconsciente que se mani- festa como um traço estrutural notório. A evocação da terceira lembrança que surgirá mais tarde, distin- gue-se das duas anteriores por sua conotação diretamente sexual. Uma manhã, ao despertar, surpreende a estagiária com quem divide o quar- to acariciando os seios diante de um espelho com um prazer manifes- to. Um pouco surpresa pela audácia de sua companheira, finge dormir esperando que ela pare. Será necessário o espaço do tratamento e a dinâmica da transfe- rência para que esses diversos elementos, esquecidos como aconteci- 3 - S. Freud, Massenpsychologie und Ich-Analyse (1921). G. W., Xlll, 13/61. S. E., XVIII, 65/143. Trad. Jankelevitch/ Hesnard: “Psychologie des foules et analyse du moi", in Essais de Psychanalyse, cf. cap. "identification", Paris, Payot, 1970, pp. 85/175.
  42. 42. 4o , JOÊL DOR mentos sem importância, reencontrem o exato papel que lhes cabe em sua participação ativa no processo sintomático. Posteriormente, uma outra lembrança reaparecerá durante uma sessão. A cena acontece em sua casa, uma noite. Enquanto assiste a um programa na televisão, é tomada por um acesso de riso de tal mo- do irreprimível, que se lembra com clareza de não ter podido domi- nar uma emissão de urina. Muito singularmente, será somente algu- mas sessões mais tarde que poderá dar um conteúdo a essa evocação rememorando a seqüência da televisão. Tratava-se de um prestigita- dor que imitava o ritual eucarístico da missa. O “cômico" derramava um frasco de vinho em um cálice, engolia-o, fingia sufocar e, em uma eructação espetacular, tirava um termômetro da boca. A restituição de uma outra lembrança importante efetuar-se-á alguns meses depois, entre duas sessões. Tinha em torno de dezesseis anos. Enquanto punha roupa de banho no vestiário da piscina, lem- brou-se de ter ouvido a voz de um homem que a interpelava através da porta, nestes termos: "Se você quer fazer amor, venha à portaria! " Abrindo a porta alguns segundos depois, não viu ninguém. A situação era de tal forma surpreendente que supôs, por um instante, ter aluci- nado essa voz. Um pouco mais tarde, ao sair da piscina, sentiu-se muito tranqüilizada ao constatar que uma mulher loira ocupava a por- taria. Em seguida, por diversas vezes durante suas idas à piscina, ima- ginou a mesma cena. Mas o júbito complacente que abrigava nesse fantasma terminava sempre por um pouco de decepção na medida em que sua realização não acontecia. Após um ano de tratamento, mais ou menos, a evocação de uma nova lembrança vai orientar o trabalho analítico de uma maneira de- cisiva. Tudo se passou como se a série de acontecimentos com os quais se relacionava, parecesse ter cristalizado, em uma lógica signifi- cante inconsciente, o conjunto dos materiais já sobredeterminados das lembranças anteriores. Essa lembrança remetida a uma cena da qual fora protagonista algum tempo antes do surgimento do sistoma de automutilação. Sem tê-lo propriamente esquecido, a lembrança que tinha dele era de um acontecimento reconstruído. Foi preciso várias sessões para que con- seguisse reformulá-lo com uma certa exatidão. Em um primeiro momento, evocou o acontecimento da seguinte maneira: a cena passa-se na casa de uma de suas amigas, de cerca de vinte anos, por ocasião de uma festa. Durante a noite, após ter dançado, vai ao banheiro para retocar a maquiagem e o penteado. A porta está fechada, mas pressente uma atmosfera de disputa na pe- ça fechada onde um homem e uma mulher parecem discutir acalorada- mente. Ela acredita, porém, identificar a voz de sua amiga. Pega de
  43. 43. ESTRUTURA E PERVERSÕES 41 surpresa por esse acontecimento inesperado, fica confusa, sem ouvir nada e pregada no chão, tomada de espasmos abdominais. Ao final de alguns segundos, passado o mal-estar, pôde se afastar. Em um segundo momento, a evocação dessa lembrança enrique- ce-se com alguns detalhes extras. Não somente a mulher que ela ouvi- ra, devia agora chorar ou gemer, mas também o homem que a acompa- nhava intimava-a vivamente para que se calasse: Não tão forte ou não tão forte assim. Tais são as palavras surpreendidas que parecem ter suscitado seu mal-estar e seus espasmos abdominais. Mas tanto pôde pensar fugidiamente que esse casal fazia amor, quanto convenceu-se imediatamente que se tratava apenas de uma disputa. Quanto aos es- pasmos abdominais, entendeu, só depois, que tivera provavelmente ali seu primeiro orgasmo do qual parece que não tinha, na época, nenhu- ma experiência. Esse momento do tratamento foi decisivo. Minuciosas investiga- ções associativas puderam evidenciar como alguns significantes tinham sido seletivamente trabalhados pelo inconsciente em uma Combinatória de substituições metafóricas e metonímicas sucessivas, induzindo a cris- talização patológica do sintoma de automutilação. No exemplo presente, uma tal atividade obscura do inconsciente ilustra da melhor maneira, como iremos ver, a diferença entre um tra- ço de estrutura e um sintoma. Se o sintoma, em seu "estar-aí" é, por natureza, puramente contin- gente, há sempre uma certa necessidade na elaboração inconsciente que trabalha em sua produção. Dizer que a natureza do sintoma é rela- tivamente cega, é reconhecer que não existe necessidade lógica entre sua identidade e a expressão do desejo que aí se encontra alienada. Em compensação, as estratégias utilizadas pelo sujeito, sem saber, na construção sintomática, não são jamais estratégias cegas. Essas estraté- gias obedecem a uma estrutura. Mais precisamente os traços da estrutu- ra podem ser identificados a partir desse trabalho estratégico. Sabemos que o sintoma é antes de tudo uma forma de realização de desejo. Como a especificidade da estrutura utiliza então alguns ma- teriais significantes, para servir uma realização de desejo inconsciente? Nesse caso clínico, a realização do desejo induzira duas formações do inconsciente notáveis: um fantasma obsessivo, um sintoma de auto- mutilação. Além dessas formações do inconsciente, é possível Circunscrever, a partir do material significante, os diversos traços de estrutura que pre- sidiram a mobilização de certas estratégias características desse caso de histeria.
  44. 44. 42 JOEL DOR Os dois primeiros materiais significantes que parecem ter intervin- do seletivamente na construção do sintoma são os seguintes: de um lado, o macacão de esqui vermelho e muito justo; de outro, o creme chantilly lançado por homens sobre o corpo de uma mulher. A cena onde esses dois elementos aparecem foi imediatamente vivida como uma metáfora de prazer sexual. Por esta razão, foi em seguida recalca- da em sua conotação sexual. Subsistirá, no máximo, o caráter lúdico e incongruente do acontecimento: homens divertindo-se ao brincar com uma mulher de macacão de esqui em uma cozinha. Nesse processo, identificamos uma característica de funcionamen- to da estrutura histérica: a neutralização do afeto sexual sobre o mo- do do recalcamento e do deslocamento. A maior parte do tempo, é em proveito do irrisório que se efetua esse deslocamento. Por outro lado, encontramos em execução um outro componente da problemáti- ca histérica: o processo de inversão dos afetos sexuais. Tanto o sujei- to histérico tende a reduzir ao desdém a inscrição de uma situação autenticamente sexual, como pode furiosamente erotizar uma situação que não é de início sexual. Essa alternativa, quase inevitável na econo- mia dessa estrutura, explica-se antes de tudo pelo modo de inscrição específica do histérico em relação à função fálica. Em conseqüência, podemos determinar nesse processo, além de todo sintoma, a identifi- cação notável de um traço estrutural. Aqui, o acontecimento da cozi- nha é radicalmente deserotizado, mas a carga do afeto erótico nem por isso deixa de subsistir inconscientemente ligada a certos elemen- tos significantes. O macacão de esqui bem justo constitui-se assim co- mo o significante da revelação do corpo nu encenado diante dos ho- mens e oferecido ao suporte metafórico do esperma, significado pelo creme chantilly. A cena inscreve-se em sua conotação sexual inconsciente em tor- no desses significantes. Como tal, poderá continuar a mobilizar a ex- citação sexual recalcada do sujeito. Não é portanto muito surpreendente, a seguir, constatar que o sujeito surpreende-se gozando um prazer até o momento desconheci- do. Ela deixa a água correr lentamente sobre seu corpo durante as duchas. Reencontramos, aqui, o segundo aspecto do traço histérico anteriormente evocado: o processo de deslocamento. Contudo, esse deslocamento merece ser precisado, a fim de ser apreendido seu com- ponente tipicamente histérico. Por intermédio desse deslocamento, é a partir de agora o sujei- to que goza em fazer escorrer alguma coisa sobre seu corpo nu. Isto supõe a operacionalização de uma identificação inconsciente - aqui, identificação inconsciente com a monitora que parecia, ela própria, sentir grande prazer em sua brincadeira com os homens. No caso em
  45. 45. ESTRUTURA E PERVERSÕES 43 questão, o deslocamento é veiculado por um traço identificatório sobre o fundo de uma identificação ao traço unário. Por esta razão, e por es- ta razão somente, o recalcamento/ deslocamento revela incontestavel- mente um traço da estrutura. Em outras estruturas, o mecanismo de re- calcamento/ deslocamento não é necessariamente dialetizado por um processo identificatório. Conseqüentemente, a monitora torna-se-lhe presentemente simpática sem que possa explicá-lo: a monitora é incons- cientemente ela que goza sexualmente. Neste nível, já apreendemos como certos significantes seleciona- dos associam-se entre si e constituem uma cadeia que inaugura, sem o conhecimento do sujeito, uma significação original. A associação do "macacão/ corpo nu" e do "creme chantilly/ esperma" contribui para transformar o derramamento sobre o corpo em um produto de conden- sação significante do coito com um homem. O significante "banheiro/ toalete" vai igualmente intervir de uma maneira preponderante nessa associação significante. Torna-se o signi- ficante do lugar onde essa mulher pode a partir de agora gozar metafo- ricamente com um homem tomando duchas. Em uma das outras cenas anteriormente evocadas, podemos pros- seguir do mesmo modo a determinação dos significantes. Quando sur- preende sua colega de quarto acariciando os seios, uma nova inscrição inconsciente constitui-se. A partir do momento em que uma mulher go- za sozinha supondo a outra adormecida, o significante seio vem emba- ter a cadeia dos significantes anteriores. O seio inscreve-se não apenas como significante de um gozo possível, mas também de um gozo que uma mulher pode se conceder sem um homem. Por outro lado, ele se associa igualmente à conotação particular desse gozo que consiste em gozar sem ser vista. Pode-se então supor, a partir desse acontecimen- to, que se operou uma seleção significante para vir inscrever o limite da intimidade do gozo. O sono intervém aqui como um anteparo que dissimula o prazer de uma em relação a outra. Retroativamente, esse significante antepa- ro* pode então repercutir com o conteúdo das cenas anteriores. Encon- tramo-lo presente tanto com a porta atrás da qual a monitora goza em companhia dos homens, quanto com a porta do banheiro atrás da qual ela própria se abriga para procurar atingir metaforicamente o mes- mo objetivo. Na cena seguinte - a seqüência da televisão - vários outros signi- ficantes vêm ainda associar-se inconscientemente de um modo determi- nante. A seqüência da televisão desdobra-se em três momentos: 1) o * Signifiant écran, tem o mesmo sentido tradutivo que souvenir-écian, recordação en- cobridora, um conceito fundamental em Freud.
  46. 46. 44, , JOÊL DOR vinho da missa é bebido; 2) o prestigitador sufoca-se; 3) ele vomita um termômetro. Nessa encenação de comiquetroupier**, é primeira- mente o significante "vermelho" (a cor do vinho da missa, tinto) que é selecionado. A este associa-se por condensação o significante do pê- nis em ereção metaforizado pelo termômetro que surge da boca. A constituição da cadeia dos significantes inconscientes comple- ta-se então da seguinte maneira: se o significante da ereção é desde já associado ao significante “vermelho", faz metonimicamente eco ao significante do corpo da mulher que goza de macacão vermelho. Gozar com um homem torna-se então inconscientemente metaforiza- do pelo significante "vermelho" que se associa, por sua vez, ao derra- mamento sobre o corpo. Quanto ao acesso de riso irreprimível, é a matéria significante do desejo e da chegada do orgasmo que encontra seu auge nesta outra metáfora significante da micção incontrolada. Mais uma vez, identificamos nesse mecanismo o exercício do recalca- mento/ deslocamento já encontrado. A cena da piscina é também ocasião de um certo número de con- densações significantes inconscientes da mesma ordem. O aconteci- mento desenrola-se em um vestiário, isto é, em um local fechado on- de ela se encontra ao abrigo do homem que lhe propõe gozar. O sig- nificante anteparo é novamente mobilizado em torno do prazer se- xual, exceto que é a partir de agora explicitamente ligado ao de fazer amor com um homem. Esses três significantes serão eletivamente asso- ciados entre si pelo afeto que pontua o fim da cena. Por que essa pa- ciente sente-se tão tranqüila por ver uma mulher na portaria, ao sair da piscina? Ela encontra motivos para se tranqüilizar porque, duran- te um instante, identificou-se inconscientemente com a mulher da por- taria, loira como ela. Neste sentido, tudo se passa então como se ela já estivesse onde o homem convidara-a para fazer amor. identificamos, novamente, este processo de identificação ao tra- ço unário - aqui a cor dos cabelos - que apóia uma metaforização sexual inconsciente. Examinemos agora a última lembrança que parece ter dirigido o conjunto dos significantes inconscientes para a precipitação do siste- ma. Nesta seqüência - a cena de amor de sua amiga no banheiro - o significante não tão forte ou não tão forte assim catalisou o mate- rial significante em uma metaforização última do ato sexual com um homem. Um outro elemento igualmente interveio de modo determi- nante. Enquanto permanecia testemunha auditiva de algo que não via, essa situação deixara-á sem ouvir nada. Esse "sem ouvir nada" apare- ** Gênero cômico grosseiro. (N. da T. )
  47. 47. ESTRUTURA E PERVERSÕES 45 cerá depois, como o testemunho de sua identificação inconsciente com a outra mulher que supostamente goza. Totalmente identificada com sua amiga nesse momento, deseja não poder ser ouvida do exterior em situação semelhante. Sob a influência desse significante anteparo efetua-se assim um deslocamento entre os dois termos de uma oscila- ção significante: o "sem ouvir nada" transforma-se em seu contrário, em "sem ser ouvida", o qual faz eco metonimicamente ao "sem ser vista" das seqüências anteriores. No decorrer dessa cena, outras séries significantes são igualmente convocadas por identidade ou proximida- de metonímica. Além do significante ban heiro/ toalete, encontramos tam- bém a referência significante à voz de um homem atrás de uma porta. De resto, é porque esse significante já estava inconscientemente asso- ciado ao ato sexual que o primeiro pensamento que lhe ocorre - por mais fugidio que seja - é exatamente este, mesmo ao preço de recu- sá-lo em um segundo momento, em proveito de um fantasma de disputa. Um índice marcante deve ser também salientado no desenrolar dessa cena: pela primeira vez surge o significante da dor e do sofrimen- to. A seleção de um tal significante revelar-se-á essencial na estrutura- ção do sintoma. O ato sexual com um homem, por mais que seja recal- cado, não deixa de ser associado ao contexto de uma situação fantas- mática não somente violenta, mas também dolorosa. O final dessa se- qüência testemunha, incontestavelmente, essa associação inconscien- te entre o prazer sexual e o sofrimento fisico. De fato, seu primeiro or- gasmo não encontrará outra identidade aceitável a seus olhos senão através da metáfora dos espasmos abdominais inscritos sobre o fundo de uma dor no corpo. Assim isola-se progressivamente uma comunidade de significantes que convocam, eles próprios, pelo jogo das ligações metafóricas e/ ou metonímicas, a seleção de outros significantes. Todavia, se essa cadeia constitui-se de uma pluralidade de significantes heterogêneos, em com- pensação, sua combinação recíproca efetua-se sempre de acordo com processos homogêneos. Por esta razão, esses processos podem ser de- terminados como traços marcantes da estrutura histórica. Por mais que seja incoerente, essa cadeia do significantes recalca- dos não deixa de metaforizar uma realização de desejo. Ainda é preciso que esses elementos significantes recalcados so- fram um último remanejamento para irromper na consciência do sujei- to de tal maneira que a realização de desejo aí se exponha sob um perfil totalmente irreconhecível. Em outras palavras, essa organização significante deve poder se travestir em uma forma de expressão sintéti- ca que será, no presente caso, uma formação do inconsciente cristaliza- da na estruturação de um sintoma de automutilação.
  48. 48. 43 JOEL DOR Para chegar a isto, o material inconsciente vai sofrer uma últi- ma elaboração por intermédio de um acontecimento determinante. Esse acontecimento intervém um pouco como um catalisador favore- cendo a reação química de vários corpos presentes, mas sem nada acrescentar, propriamente falando, à composição do novo corpo quí- mico proveniente da reação. Neste caso, a composição do novo cor- po químico é o surgimento do sintoma. Quanto ao catalisador, é o acontecimento seguinte. Foi preciso um certo tempo para que essa mulher conseguisse re- memorar este episódio escolar com o qual caducará definitivamente seu sintoma. Por ocasião de uma aula de física-química, um professor comenta o desenrolar de uma experiência que efetua diante de seus alunos. Ela se lembra de um tubo de ensaio cheio de um líquido de cor vermelha que o experimentador derrama com precaução em um cristalizador onde ferve um precipitado. Ainda que o desenrolar da experiência seja pontuado de comentários técnicos apropriados, o pro- fessor compraz-se em dizer, por diversas vezes com um sadismo mani- festo, que derramando o líquido de uma maneira forte demais, tudo pode explodir. Essa experiência foi vivida pela paciente como uma verdadeira metáfora sexual que reativou todos os significantes sexuais anteriores recalcados. Trata-se exatamente, com efeito, de um autêntico ato se- xual inconsciente sustentado do início ao fim por uma pontuação sig- nificante característica: o vermelho do líquido do tubo de ensaio; o próprio tubo de ensaio que metaforiza o pênis em ereção; o recipien- te fantasmado inconscientemente como o aparelho genital feminino; a ebulição do líquido do que simboliza a chegada do orgasmo; enfim o significante forte demais associado a tudo pode explodir que reite- ra a explosão dos espasmos abdominais orgásticos. O embate progressivo de todos esses significantes manifesta-se por um aumento insidioso da angústia à medida que a experiência desenrola-se, tal a metáfora do aumento do prazer. Enfim o significan- te forte demais provoca a micção involuntária, isto é, o orgasmo in- consciente, após o desfalecimento que lhe sucede. Resta um último elemento enigmático a precisar para que se ex- plique, finalmente, a cristalização do sintoma, isto é, o elemento cata- lisador que faz advir a metáfora inconsciente de um ato sexual, sobre o modo consciente da automutilação. Trata-se de um elemento signifi- cante que vai ordenar a cadeia de todos os outros na via desta violên- cia narcísica do corpo. A descoberta desse último elemento exigirá um trabalho extra de investigação, para que o desejo, cativo na mutilação, faça advir sua significação que exorcizará o sintoma. O elemento em questão foi
  49. 49. ESTRUTURA E PERVERSÕES 47 escolhido entre os objetos que figuravam sobre a mesa dos trabalhos práticos onde se realizava a experiência. Perto do recipiente, um esto- jo de dissecção estava aberto. Entre outros instrumentos, nele alinha- vam-se um bisturi e uma lâmina. Essa ocorrência evidencia ainda, de uma maneira marcante, o efei- to de recalcamento e de deslocamento metonímico dos significantes próprios à estrutura histérica. Enquanto essa mulher está em plena ce- na de amor inconsciente, um último significante herda o afeto erótico recalcado que se desloca sobre um instrumento de incisão. O amor e o prazer sexual que o acompanham, tornar-se-ão a partir de agora inci- sivos no pleno sentido do termo, visto que esse significante terá polari- zado a organização de todos os outros sob o aspecto sintomático do protocolo de mutilação. Desde então, basta que um elemento dessa Combinatória significante inconsciente seja bruscamente associado a um significante da realidade para que o ritual do sintoma se desencadeie. A primeira ocorrência do sintoma manifestou-se pela mutilação de um seio. Estando o seio inscrito como um dos significantes do pra- zer sexual, sua incisão com a lâmina de barbear metaforiza a atualiza- ção do coito. O sangue que corre e jorra sobre o corpo traduz, por sua vez, a ressonância erótica associada ao macacão vermelho da monito- ra. O ritual da mutilação é, por outro lado, sempre precedido de um desnudamento completo que não deixa de evocar os significantes fixa- dos nas cenas da ducha e da piscina. As seqüências de mutilações que se desenrolam sempre em toaletes ou banheiros, restituem a permanên- cia eletiva desse significante presente em várias das lembranças evoca- das. O isolamento nesses lugares lembra igualmente a inscrição do sig- nificante anteparo que separa o gozo do corpo do olhar ou da presen- ça do outro. Um último detalhe do protocolo sintomático carrega diretamente o traço dos últimos significantes constitutivos da cadeia inconsciente. O sintoma apenas cessa após a coagulação completa do sangue, na medida em que o declínio do orgasmo induz sempre a esta irreprimível vontade de dormir que ela sente depois de cada uma das sessões de mutilação. Trata-se aí de uma reencenação homogênea (no sentido do sintoma) do significante do desfalecimento associado à micção invo- luntária e incontrolada. Não é surpreendente encontrar uma série significante da mesma ordem no fantasma obsessivo evocado durante aprimeira entrevista. O homem que surge de improviso para visitá-la, constitui uma figura genérica do homem da piscina que a interpela inopinadamente atrás da porta do vestiário. Assim como ela não viu esse homem na realida- de, o homem do fantasma é anônimo, já que não pode jamais descre-
  50. 50. 4a _JOÊL DOR vê-lo. A retirada para o banheiro é, afinal, a restituição de um signifi- cante comum a algumas das cenas evocadas. Um outro detalhe impor- tante do fantasma chama igualmente à lembrança a cena de amor de sua amiga em um banheiro onde se encontrava precisamente pa- ra se pentear e remaquiar. Sob alguns aspectos, o cenário do fantas- ma expressa uma intenção análoga: tornar-se apresentável para seu visitante imprevisto. Por outro lado, em seu devaneio, identificamos uma série significante inconsciente encenando, sob uma forma inverti- da, algumas situações em que ela mesma se encontrou. "O que faz o homem atrás da porta do banheiro com sua amiga? Amor? Trata-se de uma disputa? " Essa interrogação encontra seu correspondente, es- pecular, no fantasma, quando se pergunta o que seu visitante, atrás da porta, imagina que ela própria está fazendo ali. Enfim, esse fantas- ma ratifica o caráter sempre potencialmente dissimulado do gozo ao abrigo do olhar ou da presença do outro, em conformidade com as cenas que reaparecem na análise. Sobre a base deste documento clínico, podemos concluir que um diagnóstico não se apóia nunca, sem algum perigo, sobre a úni- ca ocorrência de identificação de um sintoma. Esse exemplo, por frag- mentária que seja, permite contudo determinar a diferença radical que existe entre o sintoma e os traços estruturais. ' Um sintoma é sempre o produto de uma elaboração psíquica so- bredeterminada, como Freud inauguralmente desvendou desde seus Estudos sobre a histeria. A sobredeterminação das formações do in- consciente permanece, por sua vez, relacionada ao exercício do pro- cesso primário. Essa ilustração clínica mostra a que ponto os mecanis- mos de condensação metafórico e de deslocamento metonímico(4) dos significantes são ativos na estruturação do sintoma. Neste sentido, o sintoma, enquanto tal, não é jamais senão uma metáfora, isto é, uma substituição significante(5), já que sua sobrede- terminação deve-se essencialmente ao fato de que seu substrato signi- ficante manifesto substituiu-se ao significante latente do desejo que se encontra aí cativo. Nestas condições, a natureza do sintoma reveste um valor signifi- cativo tão aleatório quanto imprevisível. Se o sintoma estrutura-se por estratificações significantes sucessivas, nessa estratificação a sele- ção dos significantes não obedece a nenhum princípio de escolha estável. 4 - A explicação teórica dessas noções é desenvolvida em minha obra: Introduction ã Ia lectura do Lacan, tomo 1, Paris, Denoêl, 1985. 5 - Ibid.
  51. 51. ESTRUTURA E PERVERSÕES 49 Em outras palavras, os ingredientes significantes constitutivos do sinto- ma permanecem diretamente tributários das fantasias do inconsciente que operam sua seleção sob a ação conjunta dos processos metafóri- cos e metonímicas. Em contrapartida, em relação à indeterminação relativa da esco- lha dos significantes constitutivos das formações do inconsciente, exis- te uma determinação incontornável. Trata-se de uma determinação na administração do material significante, a qual se efetua, mais freqüente- mente, sem o sujeito sabê-lo. Essa administração característica da eco- nomia e do perfil da estrutura é especifica de um certo modo da gestão do desejo. E então sempre na determinação dessa administração que é preciso se ater na perspectiva de uma avaliação diagnóstica. Somen- te ela põe em jogo traços especificos e estáveis. O problema do diagnóstico levanta portanto indiretamente a ques- tão da constância dos traços estruturais. Ora, se essa constância existe, somente pode deixar supor por seu turno uma certa estabilidade na or- ganização da estrutura psíquica.
  52. 52. A_ ll A : mação de estrutura @min lp$Í®®[Dâl'Ê®ll®@Ê@ A noção de estrutura, tal como intervém no campo psicanalítico, e mais geralmentã no campo psilcopatológico, ultrapassa em muito o registro das consi erações semio ógicas e nosográficas. A utilização abusiva do termo “estrutura” no universo das espe- culações contemporâneas, não mais permite, por vezes, circunscrever o rigor e os limites de seu campo de aplicação. Formalmente, nada é melhor definido do que uma estrutura. Epistemologicamente, uma es- trutura é, antes de tudo, um modelo abstrato, no caso: a) um conjun- to de elementos; b) leis de composição internas aplicadas a esses ele- mentos. Essa formulação não é talvez muito explícita em si. Oferece ao menos a vantagem de definir, ao nivel mais geral, todas as catego- rias de estruturas, as quais distinguem-se então umas das outras segun- do a diferença recaia sobre a natureza dos elementos ou sobre a esco- lha das leis que lhes são aplicadas. A aplicação da estrutura a um campo de pesquisa apresenta um interesse essencialmente heurístico. Trata-se de um instrumento o era- tório estrategicamente favorável à descoberta, já que faz advir clfartas relações aparentemente dissimuladas entre os elementos de um domi- nio dado. O modelo estrutural somente obtém, com efeito, sua fecun- didaíie allem die um cetrto ãnodã d: relaçãlo cfsdobjãtos; .princitãal- men e, a em o regis ro e a or agem a 1 ua as escrições, as diferenciações e das classificações dos objetos e de suas propriedades específicas. Se o caráter operatório do modelo estrutural supõe sem- 50

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