Comentário biblico broadman volume 10

318 visualizações

Publicada em

muito bom esclarecedor

Publicada em: Espiritual
0 comentários
3 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
318
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
4
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
22
Comentários
0
Gostaram
3
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Comentário biblico broadman volume 10

  1. 1. Volume 10 ComentárioBíblicoBroadman Emanuence Digital e Mazinho
  2. 2. Comentário Bíblico Broadman Volume 10 Atos -1Coríntios TRADUÇÃO DE ADIEL ALMEIDA DE OLIVEIRA
  3. 3. Todos os direitos reservados. Copyright © 1984 da Junta de Educação Religiosa e Publi­ caçõesda ConvençãoBatista Brasileira. Direitoscedidos, mediante contrato, por Broadman Press, Nashville, Tennessee, USA. Copyright © 1969 by Broadman Press. Allen, Clifton J., ed. ger. A425c Comentário Bíblico Broadman/Editado por Clifton J. Alien. Tradução de Adiei Almeida de Oliveira. 3. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. v. 10. 464p. 23 cm. Titulo Original: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Novo Testamento —Comentários. 2. Novo Testamento — Comentários. I. Titulo CDD — 220.7 Coordenação Editorial Josemar de Souza Pinto Edição de Arte Nilcéa Pinheiro Capas Valter Karklis ISBN 85-350-0040-2 Código para pedidos: 216033 Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Pôstal 320 — CEP: 20001-970 Rua Silva Vale, 781 — Cavalcânti — CEP: 21370-360 Rio de Janeiro, RJ — Brasil 3.000/1994 Impresso em gráficas próprias.
  4. 4. COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN Volume 10 Junta Editorial EDITOR GERAL Clifton J. Alien, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Editores Consultores do Velho Testamento John I. Durham, Professor Associado de Interpretação do Velho Testamen­ to e Administrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­ te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos. Roy L. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­ rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos. Editores Consultores do Novo Testamento J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos. Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison, Seminário Batista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos. CONSULTORES EDITORIAIS Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
  5. 5. Prefácio O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para o crente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informações essenciais. Os escritores foram cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Eles enfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seus pontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser considerados como a posição oficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos — especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, a junta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que o COMENTÁRIO se foi desenvolvendo. No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o Velho Testamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esses homens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
  6. 6. escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. A escolha da Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores dos comentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dos vários livros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, dever ético e missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra de Deus na Escritura e na Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seu objetivo é respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clareza o que Deus Pai está-lhes dizendo.
  7. 7. Sumário Atos T. C. Smith Introdução ............................................ Comentário sobre o T exto.................... Romanos Dale Moody Introdução .............................................. Comentário sobre o T ex to ...................... I Coríntios Raymond Bryan Brown Introdução ................................................................ Comentário sobre o T exto........................................ Emanuence Digital e Mazinho Rodrigues
  8. 8. Atos T. C. SMITH Introdução O único livro do Novo Testamento que procura fechar a lacuna entre os eventos registrados nos Evangelhos e os desenvolvimentos posteriores da igreja primitiva é Atos dos Apóstolos. A igreja cristã contraiu uma grande dívida para com o autor deste tratado. Sem o livro de Atos, a cortina da obscuridade ainda permaneceria, e não conseguiríamos ver a atividade que se exercia na comunida­ de cristã imediatamente depois da morte, sepultamento e ressurreição de Jesus. Este livro continua a ser a nossa prin­ cipal fonte de informações acerca da vida da igreja primitiva, apesar de ser incompleto. Embora seja possível que usemos os materiais históricos constantes das epístolas de Paulo e dos outros do­ cumentos neotestamentários, para re­ construir uma espécie de seqüência de acontecimentos da era apostólica, esse afã seria muito mais incompleto do que os Atos dos Apóstolos. Tradicionalmente, este livro ostenta o título usual de Atos, ou Atos dos Após­ tolos. Esta tradição remonta a Irineu, Bispo de Lião, na Gália, na última parte do segundo século d.C. O autor deste Evto também escreveu o terceiro Evange­ lho, e o destinatário, em ambos os do­ cumentos, é um certo Teófilo. Original­ mente, o provável é que o autor não lenha colocado título em nenhum dos seus dois trabalhos. Ele provavelmente usava números para designar os seus es­ critos. O Evangelho era um volume um, e os Atos dos Apóstolos, o volume dois. Mais tarde, a igreja separou os dois volumes e afixou os títulos de Evangelho e Atos dos Apóstolos. O título Atos dos Apóstolos é engano­ so, porque dá a impressão de apresentar a história dos doze apóstolos. O conteú­ do do livro não se centraliza ao redor dos doze, de forma alguma como indicare­ mos mais tarde. Daqui em diante, refe- rir-nos-emos a este livro como “Atos”. Muitos eruditos crêem que os proble­ mas literários e históricos de Atos são provavelmente mais numerosos do que os dos outros livros do Novo Testamento. Durante o século XIX, muitos desses problemas foram enfatizados indevida­ mente, e Atos sofreu nas mãos de erudi­ tos críticos e negativos. Hoje em dia, os estudiosos do Novo Testamento reavivaram o seu interesse neste livro. Devemos, através dos inten­ sivos estudos que eles fizeram, tirar gran­ de proveito das suas contribuições posi­ tivas. I. O Autor Desde os tempos de Irineu, parece que a tradição tem sido unânime em decla­ rar que Lucas, o médico amado e com­ panheiro de viagens de Paulo, é o autor do terceiro Evangelho e de Atos. Se a evidência não fosse suficientemente forte para associar Lucas com esta obra em dois volumes, seria muito improvável que Irineu, Tertuliano e outros tivessem apre­ sentado o seu nome como candidato fa­ vorável. Baseando o seu critério de auto­ ria na apostolicidade, antes que um livro pudesse ser incluído entre os escritos sagrados da literatura cristã, as proba­
  9. 9. bilidades eram contra a sua aceitação. Lucas não era apóstolo e nem mesmo seguidor de um apóstolo, de acordo com a classificação deles. Para eles, Paulo era apenas um seguidor dos apóstolos, e não possuía a mesma autoridade que os doze. Certamente, se a tradição não fosse de inteira confiança, Irineu e Tertuliano teriam sugerido como autor uma pessoa que fosse mais significativa que Lucas. Será que existe a possibilidade de ligar Lucas com Atos, mediante um exame do próprio documento? O seu nome não aparece uma só vez no documento. Con­ tudo, é notório que o autor usa a pri­ meira pessoa do plural em vários capí­ tulos. Estas partes são conhecidas como as seções “nós” (16:10-17; 20:5-15; 21:1- 18; 27:1-28:16). Estas seções indicam que o autor era companheiro de viagens de Paulo, a não ser que o uso da primeira pessoa seja meramente uma convenção literária. Se dissermos que esta evidência inter­ na sustenta a autoria por um compa­ nheiro de viagem de Paulo, quem é essa pessoa? Várias podiam qualificar-se para tal. Entre os que poderíamos incluir nu­ ma lista estariam Silas, Timóteo, Segun­ do, Gaio, Tíquico, Trófimo, Sópater e Aristarco. Todas estas pessoas aparecem em Atos. Além desses, Paulo, em suas epístolas, inclui Tito, Lucas, Demas, e Crescente. Visto que as seções “nós” começam em Troas, na segunda viagem missionária de Paulo, e apenas Silas e Timóteo estavam com Paulo, este fato exclui a maioria dos seus companheiros de viagem. A presunção é que o autor não queria fazer menção de si mesmo, ao registrar as jornadas de Paulo. Se é este o caso, temos, então, apenas Demas, Tito, Cres­ cente e Lucas a considerar. Paulo men­ ciona Tito freqüentemente, em suas epís­ tolas. Tito foi com Paulo e Barnabé à igreja de Jerusalém (Gál. 2:1) e foi repre­ sentante de Paulo para resolver algumas das dificuldades da igreja em Corinto (II Cor. 2:13; 8:16; 12:18). Além do mais, temos, em o Novo Testamento, uma carta de Paulo a Tito, embora esta não seja aceita por todos os eruditos modernos como uma genuína epístola de Paulo. Dos outros três companheiros de tra­ balho de Paulo, Lucas parece ser o mais aceitável. Demas desertou de Paulo, e Crescente é mencionado apenas uma vez (II Tim. 4:10). Lucas chama a nossa atenção em duas epístolas genuínas de Paulo (Col. 4:14 e Filem. 24), e também em um fragmento de II Timóteo 4:11. Ê bem possível que Lucas fosse o homem designado na correspondência aos corín- tios como “o irmão cujo louvor no evan­ gelho se tem espalhado por todas as igrejas” (II Cor. 8:18). Parece que a nossa escolha, basean­ do-se nas evidências internas, deve ser feita entre Tito e Lucas. Ambos estavam intimamente associados com Paulo, e ambos poderiam ter escrito o “nós” , nas seções mencionadas, no livro de Atos. Se podemos presumir que a profissão de uma pessoa se entremostre através dos seus escritos, devemos procurar termos médicos no terceiro Evangelho e em Atos, para verificar a autoria de Lucas. A ra­ zão pela qual dizemos isto é que Paulo chamou Lucas de médico. Em 1882, W. K. Hobart (p. 4 e ss.), depois de um extenso estudo comparati­ vo do vocabulário de Lucas com a lin­ guagem dos médicos gregos, chegou à conclusão de que o Evangelho de Lucas e Atos deixam trair uma familiaridade com a terminologia técnica médica. Para um grande número de competentes eru­ ditos neotestamentários, o estudo de Ho­ bart não deixa dúvidas quanto à profis­ são do autor destas duas obras. H. J. Cadbury (The Beginnings of Christiani- ty, II, p. 349 e ss.), rejeitou a defensa- bilidade da metodologia de Hobart, mos­ trando que não havia nada, no vocabu­ lário do Evangelho e de Atos, que qual­ quer escritor de literatura grega não iria usar, embora não fosse versado na termi­ nologia profissional da medicina. Comu-
  10. 10. mente, como Cadbury o vê, bem como os outros eruditos, não se pode estabelecer nestas bases a autoria desses livros como sendo de Lucas. Se formos deixados com uma escolha entre Tito e Lucas, parece que Lucas é a opção lógica, porque a tradição eclesiás­ tica nunca associou Tito com essa obra em dois volumes. Se, todavia, Lucas é o autor, outro problema se nos apresenta. Como podemos conciliar as diferenças entre o Paulo de Atos e o Paulo das epístolas? As principais distinções da teologia de Paulo não vêm à tona nos discursos atribuídos a ele em Atos. Além do mais, os materiais biográficos concer­ nentes a Paulo, em Atos, nem sempre coincidem com as informações contidas nas suas epístolas. Estas divergências levaram alguns estudiosos a sugerir que as seções do “nós”, em Atos, são os únicos materiais oriundos de Lucas. Ar­ gumentam eles que o autor de Atos coli­ giu o material jornalístico em forma de diário, escrito por Lucas, e adicionou a ele o resto das narrativas acerca de Pau­ lo, mais os primeiros capítulos de Atos. Pesquisa recente acerca de Atos não se focaliza tanto na sua autoria e data em que foi escrito, tanto quanto no estilo literário e na teologia do livro. Um gran­ de número de estudiosos aceita a tradi­ ção de que o seu autor foi Lucas, mas há alguns que o contestam fortemente. À luz de evidências ponderosas, e visto que ninguém apresentou outro autor que seja mais aceitável do que Lucas, presu­ miremos que ele é o escritor de Atos. O que sabemos nós acerca do autor? Paulo disse que ele era um seu compa­ nheiro, e médico. Na sua carta à igreja em Colossos, Paulo relacionou Aristarco, Marcos e Justo como cooperadores da circuncisão. Com isso, ele queria dizer que havia cristãos judeus (4:10,11). Ele continuou, apresentando Epafras, Lucas e Demas (4:12-14), e, desta forma, pa­ rece classificá-los como cristãos gentios. Disto concluímos que Lucas devia ser um convertido gentio. Embora possam não ser de muita con­ fiança, informações ulteriores acerca de Lucas nos vêm do Prólogo — falsamente chamado “antimarcionita” — ao Evan­ gelho de Lucas. Este prólogo foi datado tanto antes quanto depois da época de Irineu. Provavelmente, ele foi escrito de­ pois da época de Irineu. Neste prólogo, ficamos sabendo que Lucas era médico e era oriundo de Antioquia da Síria. Durante certo período, ele fora discípulo dos apóstolos, e, mais tarde, tornou-se companheiro de viagem de Paulo, e acompanhou-o até o martírio. O do­ cumento continua dizendo que Lucas escreveu o terceiro Evangelho e Atos. Ele era celibatário e morreu na Beócia, com a idade de 84 anos. Lucas contribuiu com mais de 25 por­ cento do Novo Testamento. O Evangelho de Lucas e Atos são maiores em volume do que as epístolas de Paulo, incluindo- se as epístolas pastorais. Como ficaria empobrecido o Novo Testamento, sem a contribuição deste homem! II. A Data Datar o livro de Atos é um problema tão melindroso como a sua autoria. Vá­ rias teorias têm sido sugeridas, variando de uma data primitiva, antes da destrui­ ção de Jerusalém em 70 d.C., até o ano 130, no segundo século. Os que apoiam a data próxima a 62 d.C. fazem-no porque o livro contém apenas informações de eventos anteriores a 60 ou 61, o que nos leva ao término do período de confinamento de Paulo du­ rante dois anos em Roma. Não se faz referência ao martírio de Paulo e Pedro, ou à perseguição movida por Nero em 64. O livro silencia também a respeito do martírio de Tiago, irmão de Jesus, em 62. Além disso, argumentam eles que não se faz alusão à queda de Jerusalém no ano 70, catástrofe que nenhum es­ critor deixaria de notar. Os advogados de uma data primi­ tiva acreditam que uma apologia de Paulo e da comunidade cristã era abso-
  11. 11. lutamente essencial naquela época. Por conseguinte, da maneira como eles vêem o assunto, o livro de Atos teve mais importância para os cristãos antes de 70 d.C. do que depois desse período. Mas como é que eles explicam as referências específicas, feitas no Evan­ gelho de Lucas, à destruição de Jerusa­ lém (21:20 e ss. e 23:27 e ss.), referências que são julgadas por muitos eruditos como alusões à destruição de Jerusalém como fato já ocorrido? Afinal de contas, o Evangelho de Lucas foi escrito antes de Atos. Em resposta a isto, eles propõem uma revisão do Evangelho de Lucas em período posterior, quando já se sabia do cerco de Jerusalém. Algumas pessoas que criticam a data anterior discutem que Lucas estava ape­ nas interessado em descrever a dissemi­ nação do cristianismo de Jerusalém a Roma, e que ele não achou necessário relatar a morte de Paulo. Outros dizem que Lucas pensava escrever um terceiro volume, em que planejava continuar a história do movimento cristão, ou que ele escreveu esse volume, mas saiu de cir­ culação. Alguns poucos oponentes da data mais antiga mostram que havia razões para uma apologia do movimento cristão depois do ano 70, tanto quanto antes. Isto é verdade, se lembrarmos que durante o reinado de Domiciano (81-96 d.C.), ocorreu uma perseguição ainda mais severa contra os cristãos. É impossível determinar uma data para Atos, sem fazer-se referência ao terceiro Evangelho. Este Evangelho foi o primeiro tratado endereçado a Teófilo. Lucas, no prefácio ao Evangelho, indica que tinha acesso a outras fontes. Uma dessas fontes era o Evangelho de Marcos. Outra era a base para as palavras de Jesus registradas no Evangelho de Lucas, bem como no Evangelho de Mateus. Comumente nos referimos a esta fonte como Q. Lucas também tinha material que era peculiar ao seu Evangelho, e isto podia vir de fontes escritas ou orais. Data-se Marcos, geralmente, entre 65 e 70 d.C. Se se aceita 62 d.C. como a data em que o livro de Atos foi escrito, a data do Evangelho de Lucas deve ter sido cerca de 60 d.C. Isto quer dizer que Marcos compôs o seu Evangelho em cer­ ca de 58 d.C., o mais tardar. Da maneira como a vejo, tal data é primitiva demais para Marcos. A evidência decisiva para se datar Atos depois de 70 d.C. vem da aparente trans­ formação, feita por Lucas, do discurso apocalíptico de Jesus, no capítulo 13 de Marcos, em uma profecia de julgamento sobre Jerusalém. O autor transformou a mensagem com conhecimento do cerco e da destruição de Jerusalém em 70 d.C. (Luc. 21:20-24). De maneira semelhante, a predição de Jesus durante a sua entra­ da triunfal em Jerusalém se enquadra na mesma descrição (Luc. 19:43 e ss.). Co­ mo poderia Lucas apresentar uma des­ crição tão clara, a não ser que tivesse conhecimento do acontecimento, por ter ocorrido? Admitimos, contudo, que al­ guns eruditos, baseando-se em fatos que para eles são convincentes, acham que um ponto de vista preditivo desses acon­ tecimentos é mais convincente e satisfa­ tório do que o ponto de vista histórico. Se o Evangelho de Lucas foi escrito depois de 70 d.C., em que data isso coloca Atos? De acordo com os argumen­ tos exarados por Edgar Goodspeed, para a época em que as epístolas de Paulo foram coligidas e começaram a circular, a data mais posterior é 90 d.C. Depois desta data, Lucas certamente teria em mãos as epístolas de Paulo, e o retrato que ele pinta de Paulo, em Atos, teria estado mais em harmonia com as refe­ rências que Paulo fez a si mesmo. O fato de que ele não podia lançar mão das epístolas pode ter sido a causa para as divergências aparentes entre Atos e as epístolas paulinas em relação à vida e à teologia de Paulo. É razoavelmente segu­ ro presumir-se uma data entre 80 e 90 d.C. Supomos que cada ano depois de 85 se toma uma data de menos confiabili­ dade, visto que Lucas era companheiro
  12. 12. de viagem de Paulo, e precisamos levar em conta a sua idade. III. Fontes Dado o fato de que Lucas é o autor de Atos, segue-se, naturalmente, que gran­ de parte das informações registradas são de primeira mão. Isto se dá devido ao relacionamento pessoal de Lucas com Paulo. Se ele não estava presente com Paulo em todas as ocasiões, teve a opor­ tunidade de interrogá-lo acerca de acon­ tecimentos que ocorreram na sua ausên­ cia. Portanto, para grande parte da sua obra, Lucas podia contar com o seu conhecimento pessoal do que escreveu. Não obstante, para grande parte dos primeiros quinze capítulos, é evidente que ele dependeu de outras fontes. Já observamos que Lucas usou pelo menos três fontes para escrever o seu Evangelho. No prefácio desse documen­ to, ele referiu-se a outras narrativas que haviam sido compiladas. Podemos pre­ sumir que ele não limitou esse prefácio ao primeiro volume, mas tinha a inten­ ção de que ele dissesse respeito também ao segundo volume. Visto que Lucas usou fontes escritas para escrever o seu Evangelho, parece válido sugerir que fez o mesmo para escrever os Atos. As fontes para a compilação de Atos centralizam-se em três divisões do livro. A primeira parte se compõe dos primei­ ros quinze capítulos. A parte seguinte toma a classificação das seções “nós” , às quais já nos referimos. As seções “nós” aparecem em vários capítulos, começan­ do com o capítulo 16, e continuando até o último capítulo. A terceira parte é o material de narrativa, acerca de Paulo, que une as seções “nós” . Esta se inicia no capítulo 16 e vai até o 28. Quais são as possíveis fontes para os capítulos 1 a 15 de Atos? Será que Lucas tinha à sua disposição um ou mais do­ cumentos escritos? C. C. Torrey (p. 3 e ss.) apresenta a hipótese de que Lucas se aproveitou de um só documento aramai- co, que traduziu e desenvolveu, para tomar-se nos primeiros quinze capítulos de Atos. Ele cria que tal documento emanara de Jerusalém, de alguém que estava interessado na missão universal do cristianismo. Esse hipotético escritor de Jerusalém pretendia demonstrar como Antioquia se tomara o primeiro centro gentílico da igreja primitiva. Torrey da­ tou esse documento em cerca de 49 ou 50 d.C. Ele argumentou que esta parte de Atos chegou às mãos de Lucas logo depois de sua chegada a Roma, em cerca de 62 d.C. Dois anos mais tarde ele adicionou esse documento a Atos, como uma seqüência ao seu Evangelho. De acordo com Torrey, o autor começou, na verdade, a escrever a partir de Atos 15:36. Dado o fato de que os primeiros quinze capítulos de Atos têm um colorido ara- maico, não há prova suficiente de que essa parte tenha tido por detrás um do­ cumento aramaico, do qual foi feita uma tradução. Um especialista aramaico co­ mo Matthew Black1 descarta a possibi­ lidade de uma tradução direta de uma fonte que tal. As paridades que ocorrem nos capítulos 2 e 4 parecem estabelecer um paralelo entre fontes escritas e orais, em vez de se tratar de um só documento ou tradição oral. Mais popular, entre os estudiosos do Novo Testamento, tem sido a teoria de Adolf Hamack (p. 162-202), focalizada em materiais representados por várias localidades. Embora não haja base para fontes escritas provindas de várias tradi­ ções locais, estas poderiam ser transmi­ tidas oralmente. Harnack descobriu as seguintes fontes: 1. Fonte de Jerusalém A: 3:1-5:16 — o relato de Pedro curando um homem no Templo, o sermão de Pedro, o primeiro choque com o judaísmo e uma visão da vida na comunidade cristã. 1 Matthew Black. An Aramaic Approach to the Gospels and Acts (Oxford: Clarendon, 1946), p. 1-12.
  13. 13. 2. Fonte de Jerusalém B: 1:6-2:47; 5:17-42 — ascensão, a escolha de um apóstolo para suceder Judas, o dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes, o sermão de Pedro e seus resultados, o começo da vida comunitária, e o segundo choque com ojudaísmo. 3. Fonte de Jerusalém-Cesaréía: 8:5- 40; 9:31-11:18; 12:1-24 — a atividade de Filipe, Pedro em Samária, Lida, Jope e Cesaréia, e a perseguição dos cristãos no governo de Herodes Agripa I. 4. Fonte de Antioquia: 6:l-8:4; 11:19- 30; 12:25-15:35 — a indicação dos sete, a história de Estêvão, a fundação da igreja em Antioquia; a missão de Paulo e Bar- nabé a Chipre e Galácia, o Concílio de Jerusalém, e Paulo e Bamabé em Antio­ quia. 5. Fonte Paulina: 9:1-30 — a expe­ riência de Paulo no caminho de Damas­ co. F. J. Foakes-Jackson e Kirsopp Lake (The Begínnlngs of Christianity, II, 152), ao contrário de Hamack, ligam as fontes de Atos a indivíduos como Pedro, Filipe e João Marcos. Embora admitam que as tradições possam desenvolver-se ao redor de lugares, bem como ao redor de pes­ soas, na questão das fontes em relação a Atos, eles parecem preferir pessoas. Quer aceitemos indivíduos, quer localidades, como portadores da tradição da igreja primitiva, permanece a possibilidade de que as fontes dos primeiros quinze capí­ tulos de Atos tenham sido orais, e não escritas. Para mencionar certas referências his­ tóricas que Lucas inclui em Atos, alguns estudiosos do passado contendiam que as obras de Josefo — Antiguidades dos Judeus e Guerras dos Judeus — deviam ser relacionadas entre as fontes do autor. Quando os apóstolos apareceram diante do Sinédrio, Gamaliel falou e usou como ilustrações dois inconfidentes do passa­ do: Teudas e Judas, o galileu (At. 5:33 e ss.). Não é provável que Lucas tenha dependido de Josefo para obter infor­ mações acerca desses dois homens. Ele não diz o suficiente para indicar que havia lido materiais acerca deles; e, além disso, ele não os relaciona em ordem cronológica. Para algumas pessoas, o incidente em Atos 21:38 se apresenta como uma ci­ tação de Josefo. Cláudio Lísias, governa­ dor romano em Jerusalém, confundiu Paulo com o egípcio que havia instigado uma revolta e levado quatro mil assas­ sinos para o deserto. Josefo relatara esse incidente, que ocorreu no tempo de Fé- lix, o procurador, mas ele mencionou um grupo muito maior de homens. Outra referência é uma descrição da morte de Herodes Agripa I (At. 12:21 e ss.). Aqui, de novo, há alguma diferença entre o relato de Josefo e o de Lucas. IV. O Propósito Mais divergente do que as teorias acer­ ca da autoria e das fontes, são os pontos de vista esposados em relação ao propó­ sito, ao objetivo de Atos. O objetivo é, provavelmente, mais importante, embo­ ra seja o mais difícil de se descobrir. Qualquer tentativa para se descobrir o intento do autor deve dar a devida consi­ deração ao Evangelho de Lucas e a Atos. O destinatário de ambos é um homem chamado Teófilo. Se presumirmos que o prefácio do Evangelho também diz res­ peito a Atos, Lucas escreveu para que Teófilo pudesse conhecer com exatidão as coisas em que havia sido instruído. Quem era Teófilo? Seria ele uma pes­ soa real, ou será que o seu nome, que significa “amigo de Deus”, sugere qual­ quer leitor que confessasse fé em Jesus Cristo? “Excelentíssimo”, a designação aposta ao seu nome, em Lucas, era a palavra grega que se usava para diri- gir-se a alguém de posição oficial eleva­ da. A palavra aparece três vezes em Atos (23:26; 24:3; e 26:25). Na carta de Cláudio Lísias e no discurso de Tértulo, o procurador Félix é designado como “excelentíssimo” . Paulo, em resposta a Félix, dirige-se a ele da mesma forma.
  14. 14. O uso deste título parece confirmar a crença de que Teófilo era uma pessoa real. O verbo grego katechõ, usado por Lu­ cas no prefácio do seu Evangelho, era a palavra adotada, por cristãos de época posterior, para descrever instrução dada a uma pessoa que abraçasse a fé cristã. Desta forma, Lucas a aplica a Ápolo (At. 18:25). Contudo, esta palavra pode ser aplicada para indicar falsas informa­ ções, como no caso dos inimigos de Paulo (At. 21:21,24). No seu prefácio, Lucas também usou a palavra asphaleia, que significa “certeza”. Não obstante, em Atos notamos que “certeza” pode ser relacionada com investigações oficiais (21:34 e 22:30). Não é impossível conceber-se Teófilo como pessoa que havia recebido alguma instrução acerca da fé cristã. Todavia, aparentemente, faltava-lhe algo, no en­ tendimento do cristianismo, que Lucas pretendia suprir. Que deficiência era essa é coisa que está além de uma resposta simples e pronta. Ao tentar descobrir o propósito de Atos, esta pergunta deve ser de grande importância, em nosso raciocí­ nio, se chegamos à uma conclusão que seja em qualquer sentido satisfatória. É essencial que consideremos outra ques­ tão, que é igualmente importante. Será que Lucas escreveu essa obra em dois volumes, o Evangelho e Atos, para uma só pessoa, ou será que ele tinha em mente um público mais amplo? Agradável a muitas pessoas é a noção de que Lucas escreveu Atos a fim de apresentar um relato do que os apósto­ los fizeram. Esta opinião não é gerada de cuidadosa reflexão, mas, pelo contrário, de um dos títulos tradicionais do livro, que era Atos dos Apóstolos. Um exame do livro revela bem pouco acerca dos apóstolos —com a exceção de Pedro. Matias, depois da sua eleição para assu­ mir o lugar de Judas Iscariotes, não apa­ rece èm qualquer outro lugar em Atos. Pedro e João parecem exercer um papel mais proeminente nos primórdios da co­ munidade cristã. Aproximadamente um terço de Atos apresenta a atividade de Pedro. No capítulo 12, Herodes Agripa I mandou matar Tiago, irmão de João. Fora esses quatro mencionados em cone­ xão com algum acontecimento, o restante dos doze não entra na narrativa, a não ser na lista no começo do livro (1:13). Pelo menos a metade de Atos focaliza as luzes em Paulo. Embora ele seja chama­ do, por Lucas, de apóstolo, ele ostenta esse título em seu significado mais am­ plo. Algumas pessoas, que advogam uma data anterior para a composição de Atos, argumentam que Lucas escreveu os seus dois volumes como defesa para Paulo, em seujulgamento diante de Nero César. Isto significa que toda a pesquisa exaus­ tiva do autor foi somente com o objetivo de fornecer a Teófilo, suposto defensor de Paulo, uma súmula dos antecedentes para a causa da defesa. Pode-se questio­ nar se um oficial romano estaria interes­ sado em ler documentos tão extensos, a fim de obter elementos que fossem im­ portantes nojulgamento de Paulo. Visto que o Espírito Santo é o poder dominante em Atos, tanto em indivíduos como na vida comunitária dos cristãos primitivos, há alguém que chamaria este livro de Evangelho do Espírito Santo. Na verdade, o Espírito Santo é central no livro, e é responsável pela disseminação do cristianismo. Não obstante, dificil­ mente concordaríamos que o objetivo de Lucas foi escrever um Evangelho do Es­ pírito Santo, como seqüência para o Evangelho de Jesus Cristo. Isto é verda­ deiro, especialmente quando considera­ mos que o autor não mencionou o Es­ pírito Santo em onze capítulos do do­ cumento. Igualmente indefensável é a teoria de que Lucas escreveu para mostrar a ex­ pansão geográfica do cristianismo. Na verdade, o livro se inicia com uma comis­ são exarada pelo Jesus ressuscitado aos apóstolos, para que eles fossem teste­ munhas em Jerusalém, em toda a Judéia,
  15. 15. em Samâria e até os confins da terra. Além disso, está claro que o autor desen­ volve a sua narrativa ao longo das linhas desse arcabouço geográfico. Mas, se dis­ sermos que este é o único desígnio do autor, precisaremos atribuir à negligên­ cia de Lucas a falta de continuidade no relato da atividade missionária de Pedro, Filipe, Barnabé e Marcos, bem como da missão em outras regiões geográficas onde igrejas foram estabelecidas. Se o interesse do autor se fixava na dissemi­ nação geográfica do movimento cristão, ele foi grandemente seletivo quanto aos lugares incluídos. Frank Stagg (p. 12) propôs um obje­ tivo muito interessante e plausível para Atos. A sua tese é que o autor de Atos mostrou como o cristianismo triunfou, atravessando as limitações religiosas, ra­ ciais e nacionais que algumas pessoas na comunidade cristã primitiva tentaram impor-lhe. Ele dirige a nossa atenção para o advérbio “sem impedimento al­ gum” , última palavra do livro, e argu­ menta que essa expressão resume a men­ sagem do livro. Na sua opinião, Lucas concluiu o segundo volume da sua obra com o sentimento de que a batalha dura­ mente empreendida pela liberdade do evangelho fora vencida. Não deve ser descartado um propósito apologético de Atos. Quer seja quer não, o intento primordial de Lucas, precisa­ mos admitir que uma grande parte do Evangelho de Lucas e dè Atos inclui nuanças de apologia. O argumento pare­ ce mover-se em duas direções. O autor tenta mostrar que o cristianismo tem suas raízes no judaísmo, e de fato su­ planta o judaísmo, para tomar-se o ver­ dadeiro Israel de Deus. Ele também pro­ cura provar que os romanos nada têm a temer da missão da comunidade cristã, porque ela é inocente de qualquer ativi­ dade sediciosa ou revolucionária no sen­ tido terreno. Lucas começa o seu Evangelho com a anunciação, a Zacarias, referente ao nas­ cimento de João Batista. Essa mensagem lhe veio de Gabriel, enquanto ele estava oficiando no Templo. Os pais de Jesus foram ao Templo para a purificação de Maria, realizando os sacrifícios para isso necessários. Com a idade de doze anos, Jesus deixou admirados os rabis do Tem­ plo, devido à sua compreensão de as­ suntos religiosos. Foi Lucas que remode­ lou o discurso apocalíptico de Marcos 13, para fazer com que a predição de Jesus se referisse à destruição do Templo e de Jerusalém. Em Atos, a vinda do Espírito Santo deu-se em conexão com a observância de um dos importantes festivais dos judeus. Pedro e os outros apóstolos adoraram e ensinaram na área do Templo. Estêvão foijulgado diante do Sinédrio, porque os judeus helénicos não podiam suster-se diante da sabedoria com que ele falava na sinagoga, e forjaram acusações contra ele. Em qualquer cidade em que Paulo entrasse, durante as suas viagens missio­ nárias, ele sempre costumava dirigir-se primeiramente à sinagoga judaica. Quando os judeus tentaram matá-lo, em Jerusalém, foi do Templo que o arras­ taram. Estas e muitas outras referências tendem a sugerir que Lucas esforçou-se ao máximo para demonstrar uma co­ nexão básica entre o judaísmo e o cris­ tianismo. Se pudéssemos perguntar a Lucas por que os judeus rejeitaram Jesus, a sua resposta seria suficientemente clara. Os judeus rejeitaram Jesus porque, para eles, era rotineiro rejeitar a mensagem de Deus através dos profetas e mestres. A morte de Jesus não tinha justificativas. Pôncio Pilatos e Herodes Antipas não puderam fazer nenhuma acusação de traição contra Jesus. Diante das pres­ sões, eles enfraqueceram. A crucificação de Jesus, o apedrejamento de Estêvão e a perseguição dos outros foram, para Lucas, provas de que os judeus deixaram escapar o privilégio de serem chamados o verdadeiro Israel de Deus. O poder do Espírito de Deus operando na comunida­
  16. 16. de cristã era prova suficiente de que ela havia-se tomado o verdadeiro Israel. Além dessas nuanças apologéticas, para mostrar a legitimidade da nova religião, em vários pontos da sua narra­ tiva, Lucas ilustra a inofensividade do movimento cristão. Nada há, na estrutu­ ra do grupo, que indique algo subversivo, contra o governo romano. Em todos os contatos com a oficiali­ dade romana, o cristianismo mereceu um claro atestado de boa conduta. O julga­ mento de Pôncio Pilatos foi mais favo­ rável a Jesus no Evangelho de Lucas. Sérgio Paulo, procônsul de Chipre, ouviu a mensagem de Paulo, e abraçou a fé cristã. Os magistrados de Filipos liberta­ ram Paulo e Silas da prisão, e pediram- lhes desculpas. O governantes de Tessa- lônica dissuadiram a acusação de trai­ ção contra Paulo e seus companheiros de viagem, porque os acusadores não ti­ nham provas suficientes. Gálio, procôn­ sul da Acaia, recusou-se a ouvir as acusa­ ções dos judeus contra Paulo, em Corin­ to, porque percebeu que elas se rela­ cionavam aos assuntos da leijudaica. Quando Demétrio incitou o povo de Éfeso e arrastou Gaio e Aristarco, com­ panheiros de Paulo, ao teatro, as autori­ dades tomaram o partido de Paulo e ro­ garam-lhe que não entrasse no teatro. Eles eram oficiais romanos da província da Ãsia, que implementavam a adoração do imperador. Cláudio Lísias, coman­ dante da guarnição romana em Jerusa­ lém, em sua carta a Félix, admitiu que não havia acusação verdadeira contra Paulo. Esta inocência de Paulo foi con­ firmada ulteriormente por Félix, e seu sucessor Festo. Finalmente, quando Lu­ cas encerra o livro de Atos, declara que Paulo estava em Roma havia dois anos. Ele podia ter querido dizer algo especial, ao falar em dois anos. Estaria ele usando esse período de tempo específico em sen­ tido legal, para indicar que o estatuto das limitações havia-se esgotado? Se as­ sim é, o sentido oculto é que nenhum acusador apareceu para apresentar acu­ sações contra Paulo diante de Nero Cé­ sar; desta forma, as acusações de sedição e traição caíram por terra. Não é necessário dizer-se que isto não exaure a gama de objetivos que os eru­ ditos neotestamentários sugerem para o livro de Atos. Todavia, os que já consi­ deramos exigem uma atenção mais cui­ dadosa do que os outros. Para encerrar a discussão acerca do propósito de Atos, devemos nos confinar a um desígnio só da parte do autor? Possivelmente, ape­ nas uns poucos autores têm apenas um objetivo em mente, quando escrevem um livro. Talvez isto seja aplicável também a Lucas. Poderíamos nós sugerir que ele tinha mais de um objetivo ao escrever Atos? Se assim é, vários dos relacionados acima podem ter alguma validade. Há evidências de um objetivo apolo­ gético. Não deve ser ignorada a alegação de que Lucas procurou mostrar a expan­ são geográfica do cristianismo. Bem acei­ tável é também a teoria de que o autor de Atos teve o intento de relatar a história da liberdade do evangelho, no ato de quebrar as barreiras religiosas, raciais e nacionais. E bem provável que o objetivo de Lucas tenha tocado em todos estes mencionados. V. Discursos em Atos Os discursos transcritos em Atos per­ fazem, aproximadamente, um terço do livro. Seis deles foram pronunciados por Pedro (1:16-22; 2:14-40; 3:12-26; 4:8-12; 10:34-43; 11:5-17) e abrangem 76 versí­ culos. Poderíamos acrescentar, a este número, mais três (4:19,20; 15:7-11; 4: 29,30) perfazendo um total de nove, mas não é provável que estes últimos três tenham sido discursos propriamente di­ tos. Lucas registra sete dos discursos de Paulo, e possivelmente oito, se incluir­ mos a curta mensagem de Paulo aos judeus em Roma (13:16-41; 14:15-17; 17:22-31; 20:18-35; 22:1-21; 24:10-21; 26:2-23; 28:17-28). Estes oito discursos perfazem 123 versículos. Se acrescentar-
  17. 17. mos os discursos de Estêvão, Tiago, De- métrio, Tértulo e outros, o número total de versículos ultrapassará ligeiramente os trezentos. Qualquer pessoa que pesquise a teolo­ gia de Atos precisa examinar os discursos do texto, como material de primeira li­ nha. Como consideraremos esses discur­ sos? Será que eles representam, em sua maior parte, um padrão de pregação bá­ sica para as necessidades da comunidade cristã primitiva? Aceitá-los-emos como relatos fiéis das pessoas que ouviram os oradores? Será que Lucas criou essas mensagens e as colocou na boca dos seus personagens? Os historiadores antigos raramente tentavam registrar literalmente os dis­ cursos que atribuíam aos seus persona­ gens. Tucídides, que escreveu na segun­ da metade do quinto século a.C., con­ fessou esta prática. Quando examinamos os discursos de Atos, percebemos imediatamente um es­ tilo que é inferior, por vezes, ao da narra­ tiva do livro. Lucas não segue o costume de historiadores de sua época, de inserir orações, a fim de exibir a sua capacidade retórica'. Outra tendência que havia entre os historiadores contemporâneos, da qual Lucas parece estar livre, era alongar um discurso, que, quando pronunciado originalmente, podia ter sido bem curto. Mesmo o discurso mais longo de Atos pode não representar tudo o que foi dito na ocasião. Lucas parece resumir, em vez de expandir a mensagem. Dificilmente será razoável presumir que o autor de Atos relatou literalmente o que foi dito em cada discurso que inseriu nesse seu livro. Contudo, ao mes­ mo tempo, não devemos acusar Lucas de inventar tudo o que colocou na boca dos seus personagens. Ele possuía materiais primitivos de pregações feitas na igreja, que podia usar para construir os ser­ mões. Talvez, ocasionalmente, a teolo­ gia pessoal de Lucas pode deixar-se en­ trever em alguns dos discursos; mas cre­ mos firmemente que ele tinha pleno co­ nhecimento do padrão de pregação da comunidade cristã nos meados do pri­ meiro século d.C. Haenchen, Dibelius e outros não consideraram todas as evidên­ cias, quando disseram que os discursos dos primeiros capítulos de Atos repre­ sentam a pregação da igreja no fim do primeiro século. Se a igreja, em data tão posterior, ainda estivesse proclamando algo da teologia de Atos, devia ter havido pouco progresso na compreensão do sig­ nificado da fé cristã. VI. Paulo em Atos e em Suas Epístolas As diferenças entre as informações his­ tóricas a respeito de Paulo, encontradas em suas epístolas, e o que descobrimos em Atos têm levado algumas pessoas a questionar se o autor de Atos de fato foi companheiro de viagens de Paulo. Que há certas dificuldades é inegável, como vamos indicar, mas estas não consistem em problema insuperável. Paulo, ao escrever aos Gálatas, tornou claro que o seu apostolado era indepen­ dente de qualquer relação com os após­ tolos de Jerusalém (Gál. 1:16-2:10). Ao fazê-lo, ele parece estar tentando corri­ gir alguns pontos de vista correntes, de que ele fora a Jerusalém pouco depois de sua conversão no caminho de Damasco. Sob juramento, diante de Deus, de que não está mentindo, Paulo sustenta que afastou-se para a Arábia depois de sua conversão. Três anos se passaram, depois de sua conversão, antes que ele se diri­ gisse a Jerusalém. Quando ele foi, per­ maneceu ali por apenas quinze dias, para conversar com Pedro, e não viu nenhum dos outros apóstolos, exceto Tiago. Em contraposição ao que encontramos em Gálatas, Lucas omite a reportagem acerca da viagem à Arábia e apresenta Paulo voltando a Jerusalém, depois de um curto período de pregações em Da­ masco. Graças a Barnabé, os apóstolos que tinham medo dele finalmente o acei­ taram. Paulo começa pregando em Jeru-
  18. 18. salém, e entra em discussão com os ju­ deus helenistas. Quando se descobriu que eles procuravam matar Paulo, os irmãos em Jerusalém o enviaram para Tarso (At. 9:20-30). Lucas diz que a fuga de Paulo de Da­ masco aconteceu como resultado de uma conjuração dos judeus para matá-lo (At. 9:23-25). Paulo, por outro lado, nos con­ ta que ele escapou de Damasco, para não ser preso pelo governador sujeito a Are- tas, rei dos nabateanos (II Cor. 11:32). Em ambos os casos, os discípulos efetua­ ram a sua saída, baixando-o de um muro, em uma cesta, embora o tipo de cesta usado no relato de Paulo (II Cor. 11:33) seja diferente do mencionado em Atos. Não é impossível conciliar as duas narrativas da fuga de Paulo, porque é fácil conceber-se que ele enfrentou uma ameaça da parte dos judeus dentro da cidade e o perigo de ser preso por Aretas fora dos muros da cidade. É notável, em Atos, que Paulo entrou na sinagoga, em cada cidade em que pregou, antes de pregar as boas-novas aos gentios. Em vários lugares, Lucas faz parecer que a princípio os judeus aceita­ ram a mensagem de Paulo, mas por fim a iejeitaram. Isto forçou Paulo a voltar- se para os gentios (13:46; 18:6; 28:25 e s.). Como podemos conciliar isto com a declaração de Paulo, em suas epístolas, de que ele era o apóstolo aos gentios? Paulo tinha dois objetivos, ao dirigir- se às sinagogas. No mundo helénico, muitos gentios encontravam, no judaís­ mo, uma fé religiosa que lhes propiciava esperança. Alguns se tornaram prosélitos judeus, enquanto outros, não dispostos a ir tão longe, continuavam, assim mes­ mo, a freqüentar as sinagogas. Através das reuniões de adoração na sinagoga e do ensino da lei, os gentios receberam uma razoável compreensão do judaísmo. Possivelmente, Paulo achou que, se pu­ desse estabelecer contato com os gentios que já conheciam algo da fé judaica, este alicerce facilitaria a sua tarefa. Além do mais, Paulo considerava es­ sencial estar intimamente associado com os judeus, porque a fé cristã não tinha a sanção oficial do Império Romano. Ado­ rando na sinagoga, ele podia mostrar aos oficiais romanos que o cristianismo não era uma nova religião, mas o cumpri­ mento do judaísmo. Embora Paulo freqüentemente manti­ vesse a reivindicação de que erá apósto­ lo aos gentios, este fato não impedia a sua missão aos judeus. Ele podia dizer que o evangelho era o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego” (Rom. 1:16). Ele podia também expres­ sar o mais profundo interesse pelo seu povo, porque este não havia crido em Cristo (Rom. 9:1 e ss.; I Cor. 9:20). Em Atos não se faz menção ao fato de Timóteo e Silas terem ido de Beréia, para encontrar-se com Paulo em Atenas. Lu­ cas nota que Paulo pediu que eles para lá fossem logo que possível (17:15). Mas só quando Paulo deixou Atenas e chegou a Corinto foi que Silas e Timóteo chega­ ram da Macedônia (18:5). Segundo a correspondência tessalônica, ficamos sa­ bendo que eles estavam com Paulo em Atenas — certamente Timóteo, e talvez Silas, embora este não seja mencionado (I Tess. 3:1 e ss.). Não há nem a mais leve sugestão em Atos de problemas que Paulo encontrou em Éfeso, a não ser o tumulto suscitado por Demétrio, o ourives. Todavia, nos escritos de Paulo à igreja em Corinto, vemos que ele enfrentou prisão, sentença de morte, e, possivelmente, leões na are­ na — pelo menos figurativamente, em termos de severos perigos e julgamento (I Cor. 4:9-13; 15:30-32; II Cor. 1:8 e s.; 4:8 e ss.; 6:5; 11:23). Se, como discutem alguns eruditos, o décimo-sexto capítulo de Romanos foi originalmente uma nota à igreja em Éfeso, e não fazia parte da Epístola aos Romanos, temos referências adicionais aos perigos que Paulo enfren­ tou em seu ministério em Éfeso (Rom. 16:3-7). É de fato estranho que Lucas
  19. 19. tivesse omitido esses perigos corridos por Paulo. O objetivo da última visita de Paulo a Jerusalém foi entregar à igreja, ali, uma coleta em dinheiro, provinda de várias igrejas, levantada para os pobres entre os judeus cristãos dessa cidade (Rom. 15:25 e ss.). Isto foi feito a fim de melhorar as relações entre os cristãos gentios e judeus. Em Atos, não há nenhuma indi­ cação de que os cristãos pobres recebe­ ram o dinheiro, a não ser que interprete­ mos “os irmãos nos receberam alegre­ mente” (21:17) como dando a entender esse ato. Mesmo assim, não é apenas uma suposição? Lucas faz referência a essa oferta na defesa de Paulo diante de Félix(24:17). Mais importante e mais difícil, sem dúvida, é o problema concernente à rela­ ção de Atos 15 com Gálatas 2. Nos capí­ tulos 1 a 15 de Atos, Lucas registra três visitas de Paulo a Jerusalém (9:26-30; 11:27-30; 15). Em Gálatas, Paulo men­ ciona apenas duas visitas, cobrindo o mesmo período de tempo (1:18 e ss.; 2:1-10). Na sua tentativa de explicar esta discrepância óbvia, os estudiosos têm apresentado quatro pontos de vista sé­ rios. (1) A visita mencionada em Gálatas 2 é a mesma de Atos 15. (2) A visita mencionada em Gálatas 2 é a mesma visita de Atos 11. (3) A visita de Gála­ tas 2 é registrada duas vezes por Lucas (em Atos 11 e 15). (4) Nem Atos 11 nem Atos 15 se referem à visita de Paulo em Gálatas 2. Nesse caso, Atos não seria um livro histórico. Das opiniões exaradas acima, (2) pa­ rece ter mais a se recomendar do que as outras. Isto não significa que esta inter­ pretação está livre de dificuldades, mas, se dermos a Lucas o crédito de confia­ bilidade histórica, esta solução é mais satisfatória. Dado o fato de que a narrativa de Paulo acerca da sua segunda visita a Je­ rusalém, no capítulo 2 de Gálatas, seja equivalente à visita registrada por Lucas em Atos 11, a situação seguinte preva­ lece: Ãgabo, o profeta, chegou a Antio- quia da Síria e predisse uma grande fome. Baseados nessa predição, os cris­ tãos de Antioquia enviaram uma coleta para os cristãos de Jerusalém, por mãos de Paulo e Bamabé (At. 11:27 e ss.). Paulo disse que ele, Barnabé e Tito fo­ ram a Jerusalém quatorze anos depois de sua primeira visita. Ele afirmou que foi a Jerusalém por revelação (Gál. 2:1 e s.). A revelação, nesse caso, podia significar a profecia de Ãgabo referente à fome. Nesta visita, Paulo se defrontou com alguma oposição da parte de um elemen­ to judaizante na igreja. Esses judaizan- tes pressionaram Paulo para circuncidar Tito, mas Paulo recusou-se a obedecer. Permaneceu firme na liberdade do evan­ gelho, e recebeu o reconhecimento de Pedro, Tiago e João, acerca da sua mis­ são aos incircuncisos. Em seguida à história da sua visita, Paulo apresenta um relato da visita de Pedro a Antioquia da Síria (Gál. 2:11- 14). A princípio, Pedro se associou livre­ mente aos cristãos gentios, chegando a comer com eles. Mas, quando veio de Antioquia uma delegação enviada por Tiago, Pedro, temendo alguma crítica do grupo da circuncisão, imediatamente pa­ rou de comungar com os gentios. Paulo repreendeu Pedro diante de toda a con­ gregação, por sua hipocrisia. Esta cena, e mais a atividade subversiva da delegação enviada por Tiago, levou a igreja de Antioquia a indicar Paulo, Barnabé e outros para se dirigirem a Jerusalém, e resolver o problema de uma vez por todas. O colóquio que se seguiu é o que conhecemos como Concílio de Jerusalém, em Atos 15. Se Atos 11 pode ser igualado a Gála­ tas 2, não há discrepância quanto às visitas de Paulo a Jerusalém em Atos. A terceira visita em Atos 15 cronologica­ mente se seguiria à referência de Paulo à sua segunda visita em Gálatas. Se Paulo escreveu a sua carta às igrejas da Ga- lácia antes do Concílio de Jerusalém, isto
  20. 20. explica por que não há menção de uma visita comparável a Atos 15. Todas as omissões e diferenças em Atos, referentes à vida e à obra de Paulo, não garantem o pressuposto de que o autor não estava intimamente associado com ele. Quando Lucas escreveu, é im­ provável que tivesse em mãos uma cole­ ção das epístolas de Paulo, para verificar a exatidão de suas declarações. Se acei­ tarmos 80-90 d.C. como a data em que Atos foi escrito, Lucas, a essa altura, naturalmente, não se lembraria de todos os detalhes concernentes ao ministério de Paulo. VII. Teologia O nosso conhecimento da teologia de Atos nos vem especialmente através dos discursos de Pedro, Estêvão e Paulo. Ao falar em teologia, não queremos sugerir um sistema cuidadosamente elaborado de pensamento, mas várias tentativas, feitas pelos cristãos primitivos, para rela­ cionarem as suas experiências com o Senhor ressuscitado com sua herança religiosa e sua situação social. O poder do Cristo ressuscitado e exaltado trans­ formou radicalmente os padrões de pen­ samento que os cristãos primitivos an­ teriormente esposavam, e levou algum tempo para tomar novas formas. Cristologia — Não há, em Atos, ne­ nhuma declaração explícita da preexis­ tência de Cristo, como encontramos nas epístolas de Paulo (cf. Fil. 2:5-11) ou em outros livros do Novo Testamento (João 1:1 e ss.; Heb. 1:1 e ss; I Tim. 3:16; e I Ped. 1:20; 3:18 e ss.), a despeito do fato de que os textos de prova de Lucas do Velho Testamento, que são usados pelas testemunhas do seu livro, dão al­ guma evidência de que ele, bem como a igreja primitiva, entendiam a presença de Jesus entre o povo de Deus na época veterotestamentária. Esta espécie de compreensão, em sua forma, é mais ju­ daica do que grega (Hanson, p. 39). A maior parte do nosso conhecimen­ to das opiniões da igreja primitiva a res­ peito da pessoa de Cristo nos vem atra­ vés de Lucas, mediante o uso que ele faz de certos títulos. Um desses títulos é “Cristo” . O autor repetidamente usa esta designação no sentido técnico judaico, significando um ofício. A comunidade cristã primitiva interpretava Jesus em termos messiânicos judaicos, e o procla­ mava o Messias das expectações profé­ ticas. Nos escritos de Paulo, Cristo como título ou ofício, com raras exceções (cf. I Cor. 1:23; 9:12), se torna outro nome para Jesus, e perde o seu significado judaico. Outro título conferido a Jesus, em Atos, é o de Senhor. Pedro, em seu sermão no dia de Pentecostes, asseverou que Deus havia feito de Jesus “Senhor e Cristo” (2:36). Este discurso atesta acer­ ca do fato de que Jesus era reconhecido como Senhor devido à sua ressurreição e ascensão. Alguns declaram que esse título não se originou na comunidade cristã palestina, mas era uma criação dos cristãos que viviam em um ambiente helenista. As evidências apresentadas para essa tomada de posição não são de todo convincentes. Não há base para se duvidar de que esta confissão se originou na Palestina. O que queria dizer o título Senhor? A palavra grega usada é kurios, que tinha vários significados. Na Septuagin- ta, tradução grega do Velho Testamento, kurios ganhou um significado adicional, por ser a tradução-padrão do nome sa­ grado de Deus, que era Yahweh. Quando Jesus ressuscitou dentre os mortos e as­ cendeu ao céu, os discípulos reconhece­ ram que ele tinha as prerrogativas de Yahweh, a saber, poder sobre a vida e a morte. Eles entenderam que Jesus se igualava ao Yahweh do Velho Testamen­ to e merecia o mesmo nome sagrado. Além dos títulos Cristo e Senhor, vá­ rias outras designações descritivas de Je­ sus aparecem em Atos, sugerindo uma cristologia primitiva. A palavra pais (ser­ vo ou filho pequeno) não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamen-
  21. 21. to como título de Jesus, mas em Atos nós o encontramos várias vezes (3:13,26; 4: 25-30). É possível que pais expresse duas idéias distintas acerca de Jesus. Talvez Atos 3:13 e 3:26 façam alusão a Isaías 53, o Servo Sofredor, enquanto que 4:27 e 4:30 se refiram ao servo real davídico na Shemoneh Esreh (as Dezoito Bênçãos da liturgia judaica). Nos discursos de Pedro e Estêvão, no­ tamos uma Cristologia Mosaica, alicer­ çada na tradição palestina.2 A profecia de Deuteronômio 18:15-18 havia sido aceita como promessa escatológica de um segundo Moisés, que falaria ao povo em lugar de Deus. Entre os samaritanos, o Taheb (alguém como Moisés, que res­ tauraria todas as coisas à sua devida ordem) era figura central, em suas expec­ tações escatológicas. Embora o conceito de um novo Moisés não fosse tão domi­ nante no pensamento judaico como entre os samaritanos, tomou-se uma esperança consoladora, em tempos de abatimento. A igreja primitiva cria que Jesus era mais do que um profeta. Ele era “o Profeta” segundo o padrão de Moisés. Através dele veio a proclamação final de Deus. Filho do Homem — nos quatro Evan­ gelhos, uma autodesignação de Jesus — não suscita o interesse dos outros escri­ tores do Novo Testamento, para descre­ ver o Senhor ressuscitado, a não ser de Lucas, em Atos. Estêvão, no fim de sua defesa diante do Sinédrio, disse que viu o Filho do homem de pé à mão direita de Deus (7:56). Nos Evangelhos, algumas das referências ao Filho do homem o associam com a sua glória futura. A vi­ são de Estêvão estabelece este fato como já tendo sido realizado. Duas vezes Jesus é chamado Autor ou Príncipe (líder) (archêgos), em discursos de Pedro (3:15; 5:31). Esta palavra não ocorre em nenhum outro livro do Novo Testamento, exceto na Epístola aos He­ breus (2:10; 12:2). Filho de Deus é en­ 2 Reginald H. Fuller, The Foundations of New Testa­ ment Christology (New York, Charles Scribner’s Sons, 1965), p. 168ess. contrado apenas uma vez em Atos. Esta expressão é mencionada como tema da pregação de Paulo em Damasco (9:20). O título não-judaico de “Salvador”, que provavelmente se originou em círculos helenistas primitivos, aparece em Atos 5:31, com archêgos, e de novo em 13:23. Espírito Santo — Em Atos, a vinda do Espírito Santo inaugurou uma nova era na história do mundo. Os judeus do primeiro século d.C. deram uma inter­ pretação religiosa à observância do Pen­ tecostes, que em épocas anteriores come­ morava o término da colheita dos cereais. Esse dia era então a celebração do fato de Moisés ter recebido a lei de Deus no Monte Sinai. Para os cristãos primitivos, essa data ganhou um significado religio­ so muito mais importante. Tornou-se o tempo quando Deus substituiu a lei pelo dom do seu Espírito Santo ao homem. O Espírito Santo tem um lugar tão proeminente, em Atos, que alguns erudi­ tos do passado referiram-se a esse livro como “Os Atos do Espírito Santo” . Lu­ cas declara que muitos foram cheios do Espírito Santo (4:8; 6:5; 9:17; 11:24; 13:9). O Espírito dirige, fala, instrui, inspira, e até impede atos das pessoas (8:29,39; 10:19; 11:12,28; 13:2; 15:28; 16:6; 20:23; 21:4; 28:25). Nenhum procedimento normativo é es­ boçado em Atos, referente à ocasião em que uma pessoa recebe o Espírito Santo. Tal experiência pode acompanhar o ba­ tismo (2:38; 9:17-19; 19:1-7). Os sama­ ritanos foram adequadamente batizados, mas não haviam recebido o Espírito San­ to até que os apóstolos lhes impuseram as mãos (8:12,14-17). Comélio e seus vizi­ nhos experimentaram a vinda do Espí­ rito Santo antes de terem sido batizados (10:44-48). Jesus promete aos seus discípulos que eles receberão um batismo do Espírito. Ele também envia o Espírito (2:33). Deus o ungiu com o Espírito (10:38). Nos seus escritos, percebemos agudamente que Paulo usa Cristo, Espírito de Cristo, Es­ pírito de Deus e o Espírito como termos
  22. 22. equivalentes, sem indicar qualquer dife­ rença óbvia no seu significado. Aparen­ temente, Atos, neste estágio de desen­ volvimento do pensamento, não faz tam­ bém essa identificação, exceto em 16:7. Escatologia — Apresenta Lucas, em Atos, a tendência de minimizar as pre­ visões de uma volta imediata de Cristo? Presumindo que ele escreveu quase no fim do primeiro século d.C., bem po­ demos imaginar que ele havia aceito, juntamente com outros cristãos, a reali­ dade do adiamento da Parousia. É bem claro que a comunidade primitiva espe­ rava ansiosamente a vinda de Cristo e a consumação do século. Esta idéia está definidamente presente em Atos 3:18 e ss. Maiores evidências desta opinião po­ dem ser verificadas nos escritos de Paulo (I Cor. 7:26-31; 15:51 e ss.; I Tess. 4:14-18). Parece que Lucas não concordava ple­ namente com as suas fontes, na apresen­ tação da atitude da igreja primitiva em relação à imediata Parousia de Cristo. Em Atos 1:7, Jesus rejeita especulações a respeito de tempos e estações. Os dis­ cípulos não devem tentar colocar Deus dentro de um padrão cronológico, dentro da história. Quando, como, onde, e por que Deus age é coisa que compete à sua própria autoridade. Jesus ordena os seus discípulos pensarem em termos de mis­ sões mundiais. Atos tende a interpretar a escatologia no tempo presente. Lucas segue a tradi­ ção das suas fontes, ao reconstruir a história da igreja primitiva, mas ele “a estampa com a opinião de que os últimos dias já chegaram” .3 Na citação feita por Pedro, do profeta Joel, no dia de Pente­ costes, há uma notável mudança no tex­ to. Joel diz “depois” (depois* destas coi­ sas, 2:28), mas Atos dá a versão “e nos últimos dias” (2:17). Desta forma, vendo o movimento cristão desta perspectiva 3 Hans Conzelmann, The Theology of St. Luke. Tradu­ zido para o ingles por Geoffrey Buswell (New York: Harper and Row, 1960), p. 96. toda sua, depois que as primitivas es­ peranças de uma Parousia imediata caí­ ram em segundo plano, Lucas reinter- pretou a escatologia. Ele concebia o cris­ tianismo como existindo em um agora escatológico. Os últimos dias eram os dias atuais. Todavia, Lucas não enfatiza demasiadamente este ponto de vista, pois também conserva várias referências à volta de Cristo (1:11; 3:20,21; 10:42; 17:31; 24:25). VIII. O Texto Uma característica genuína do livro de Atos é a reivindicação de dois textos rivais como os representantes genuínos do original. Designamos estas famílias de textos pelos nomes de Alexandrino e Ocidental. As variações entre os dois são tão numerosas e contraditórias, que su­ gerem duas revisões distintas do original. Proeminente entre as testemunhas fa­ voráveis a um texto Alexandrino (algu­ mas vezes chamado Neutro e Egípcio) está um grupo de manuscritos que inclui o Vaticano (século IV), o Sinaítico (sé­ culo IV), o Alexandrino (século V) e P46 (At. 4:27-17:17 da coleção de papi­ ros Chester Beatty, do século III). As principais testemunhas do texto Ociden­ tal são os manuscritos bilíngües (grego e latim) Bezae (século V), redações apre­ sentadas entre os asteriscos, na margem das versões Siríaca Harkleana, Velha La­ tina, Papiros 38 e 48 (século III), e os pais da igreja latina, Irineu, Cipriano e Agostinho. As versões do texto Ocidental são tão divergentes que alguns estudiosos suge­ riram que este é o texto original de Atos. Este mesmo tipo de texto, nos Evange­ lhos, tem uma reputação por suas omis­ sões. Pelo contrário, em Atos é conhecido por suas adições. O texto Ocidental de Atos presumivelmente data dos meados do segundo século d.C., e representa uma revisão. Embora o próprio texto Alexandrino também seja uma revisão, e não represente um texto mais antigo,
  23. 23. é bem mais digno de confiança, porque as adições pietistas e as notas explana- tórias do texto Ocidental fazem-no tor- nar-se altamente suspeito. Nenhuma tentativa será feita aqui para relacionar as versões Ocidentais dignas de nota. Elas serão incorporadas no comentário, sempre que as encontrar­ mos no estudo do texto. Esboço de Atos I. A Disseminação do Evangelho em Jerusalém (1:1-8:3) 1. Eventos Anteriores ao Pentecos­ tes (1:1-26) 1) Prefácio (1:1-5) 2) A Ascensão (1:6-11) 3) No Cenáculo (1:12-14) 4) A Escolha de Matias (1:15-26) 2. Pentecostes (2:1-47) 1) A Vinda do Espírito Santo (2:1-13) 2) O Sermão de Pedro (2:14-36) 3) Os Resultados do Sermão de Pedro (2:37-42) 4) Primeiro Relato Sumário (2:43-47) 3. Testemunhando na Areado Tem­ plo (3:1-4:37) 1) Pedro Cura um Coxo (3:1-10) 2) O Segundo Sermão de Pedro (3:11-26) 3) Prisão de Pedro e João (4:1-4) 4) Pedro e João Diante do Si­ nédrio (4:5-22) 5) A Libertação dos Apóstolos e a Oração da Igreja (4:23-31) 6) Segundo Relato Sumário e o Exemplo de Bamabé(4:32-37) 4. Ananiase Safira (5:1-11) 5. Terceiro Relato Sumário (5:12-16) 6. Mais Oposição da Parte dos Sa- duceus (5:17-42) 1) Prisão e Libertação dos Após­ tolos (5:17-26) 2) Os Apóstolos Diante do Siné­ drio (5:27-32) 3) O Discurso de Gamaliel (5:33-39) 4) A Libertação dos Apóstolos (5:40-42) 7. O Ministério de Estêvão (6:1-8:3) 1) A Escolha dos Sete (6:1-6) 2) Quarto Relato Sumário (6:7) 3) Estêvão É Acusado (6:8-15) 4) A Defesa de Estêvão (7:1-53) 5) O Martírio de Estêvão e Seus Resultados (7:54-8:3) II. A Disseminação do Evangelho em Samária e Regiões Costeiras (8:4- 11:18) 1. A Missão de Felipe em Samária (8:4-25) 1) Pregação Acompanhada por Sinais (8:4-8) 2) Simão, o Mago (8:9-13) 3) Pedro e João Visitam Samária (8:14-25) 2. Filipe e o Eunuco Etíope (8:26-40) 3. O Primeiro Relato da Conversão de Paulo (9:1-31) 1) No Caminho de Damasco (9:1-9) 2) AVisitadeAnanias(9:10-19a) 3) Paulo Prega em Damasco (9:19b-25) 4) Paulo Vai a Jerusalém (9:26-30) 5) Quinto Relato Sumário (9:31) 4. Missão de Pedro nas Regiões Costeiras (9:32-10:48) 1) Cura Enéas em Lida (9:32-35) 2) Ressuscita Dorcas em Jope (9:36-43) 3) A Visão de Cornélio (10:1-8) 4) A Visão de Pedro (10:9-16) 5) Os Mensageiros de Cornélio Chegam (10:17-23a) 6) Pedro Parte Para Cesaréia (10:23b-33) 7) Pedro na Casa de Cornélio (10:34-43) 8) Os Gentios Recebem o Espí­ rito Santo (10:44-48) 5. Pedro e a Igreja em Jerusalém (11:1-18) 1) Acusado de Associar-se com os Gentios (11:1-3) 2) Defesa de Seus Atos (11:4-18) III. A Disseminação do Evangelho em Antioquia, Chipre e Galácia (11:19- 15:35)
  24. 24. 1. Crentes Gentios-em Antioquia (11:19-26) 2. Coleta Para a Igreja em Jerusa­ lém (11:27-30) 3. Perseguição Movida por Herodes Agripa 1(12:1-25) 1) Martírio de Tiago e Prisão de Pedro (12:1-5) 2) Pedro Escapa da Prisão (12:6- 11) 3) Pedro Vai à Casa de Maria (12:12-19) 4) A Morte de Herodes Agripa e Sexto Relato Sumário (12:20- 25) 4. A Missão de Paulo e Bamabé (13:1-14:28) 1) Paulo e Bamabé Comissiona­ dos (13:1-3) 2) Na Ilha de Chipre (13:4-12) 3) Viagem a Antioquia da Pisí- dia(13:13-16a) 4) O Sermão de Paulo em An­ tioquia da Pisídia(13:16b-41) 5) Tumulto em Antioquia da Pi- sídia (13:42-52) 6) Testificando em Icônio (14: 1-7) 7) Paulo e Bamabé em Listra (14:8-23) 8) Retomo a Antioquia da Síria (14:24-28) 5. O Concílio de Jerusalém (15:1-35) 1) Paulo e Barnabé Vão a Jeru­ salém (15:1-5) 2) A Convocação do Concílio (15:6-11) 3) A Decisão de Tiago (15:12-21) 4) Decreto Apostólico (15:22-29) 5) Volta dos Emissários a An­ tioquia (15:30-35) IV. A Disseminação do Evangelho na Região do Egeu (15:36-21:14) 1. A Separação de Bamabé e Paulo (15:36-41) 2. Paulo Toma a Visitar a Galácia (16:1-4) 3. Sétimo Relato Sumário (16:5) 4. A Visão em Troas (16:6-10) 5. Paulo na Macedônia (16:11-17: 15) 1) Filipos (16:11-40) 2) Tessalônica (17:1-9) 3) Beréia (17:10-15) 6. Paulo na Acaia (17:16-18:17) 1) Atenas (17:16-34) 2) Corinto(18:l-17) 7. Partida de Paulo Para Síria, Via Éfeso (18:18-23) 8. O Interlúdio de Apoio (18:24-28) 9. A Contínua Atividade Missioná­ ria de Paulo(19:l-21:14) 1) Éfeso (19:1-41) 2) Macedônia, Acaia, e de Volta a Trôade (20:1-6) 3) TrÔade (20:7-12) 4) DeTrôadeaMileto(20:13-16) 5) A Despedida dos Anciãos de Éfeso (20:17-38) 6) De Mileto a Cesaréia (21:1- 14) V. A Disseminação do Evangelho de Jerusalém a Roma (21:15-28:31) 1. A Chegada de Paulo a Jerusa­ lém (21:15-26) 2. Preso no Templo (21:27-36) 3. Cláudio Lisias Intervém (21:37- 40) 4. O Discurso de Paulo da Escada­ ria da Torre Antônia (22:1-21) 1) O Segundo Relato de Sua Conversão (22:1-16) 2) A Sua Vocação aos Gentios (22:17-21) 5. Feroz Reação dos Judeus (22: 22-29) 6. Paulo Diante do Sinédrio (22: 30-23:11) 1) Repreensão ao Sumo Sacer­ dote (22:30-23:5) 2) Divisão do Sinédrio(23:6-ll) 7. Conspiração dos Judeus Contra a Vida de Paulo (23:12-22) 8. Transferência de Paulo Para Cesaréia (23:23-35) 9. Prisão em Cesaréia (24:1-26:32) 1) O Julgamento Diante de Fé- lix (24:1-27) 2) Paulo Diante de Festo (25:1- 12) 3) Herodes Agripa II Visita Festo (25:13-27) 4) Paulo Diante de Agripa (26: 1-32) 10. A Viagem de Paulo a Roma (27:1-28:16)
  25. 25. 1) De Cesaréia a Creta (27:1- 12) 2) Apanhados por uma Tem­ pestade no Mar (27:13-20) 3) Paulo Conforta os Que Estão a Bordo (27:21-26) 4) Naufrágio em Malta (27:27- 38) 5) Todos Chegam à Terra a Salvo (27:39-44) 6) Uma Recepção Hospitaleira em Malta (28:1-10) 7) Continua a Viagem Para Ro­ ma (28:11-16) 11. Paulo Chega a Roma (28:17-31) 1) Fala aos Judeus (28:17-28) 2) Nono Relato Sumário (28: 30,31) Bibliografia Selecionada BRUCE, F.F. The Acts of the Apostles. Chicago: The Inter-Varsity Chris­ tian Fellowship, 1951. DIBELIUS, MARTIN. Studies in the Acts of the Apostles. Traduzido pa­ ra o inglês por MARY LING. ed. HEINRICH GREEVEN. London: SCM Press, 1956. DUPONT, JACQUES. The Sources of the Acts. Trad, para o inglês por KATHLEEN POND. New York: Herder and Herder, 1964. FOAKES-JACKSON, F.J. The Acts of the Apostles. (“The Moffatt New Testament Commentary.”) New York: Harper and Bros., 1931. FOAKES-JACKSON, F. J. e KIRSOPP LAKE (eds.). The Beginnings of Christianity, 5 vols. London: Mac­ millan and Co., 1922-1933. HAENCHEN, ERNEST. Die Apostel­ geschichte. (Kritisch-exegetischer Kommentar über das Neue Testa- ment, III, 12 th ed.) Gottingen: Vanderhoeck & Ruprecht, 1959). HANSON, R.P.C. The Acts. (“The New Clarendon Bible.”) Oxford: Claren­ don Press, 1967. HARNACK, ADOLF. The Acts of the Apostles. Trad, para o inglês por J.R. WILKINSON. London: Wil­ liam & Norgate, 1909. HOBART, W. K. The Medical Langua­ ge of St. Luke. Dublin: Dublin Uni­ versity Press, 1882. KECK, LEANDER, and MARTYN, J. LOUIS, (eds.) Studies in Luke-Acts. Nashville: Abingdon Press, 1966. KNOX, WILFRED L. The Acts of the Apostles. Cambridge: University Press, 1948. MACGREGOR, G.H.C. The Acts of the Apostles. (“The Interpreter’s Bi­ ble.”) Nashville: Abingdon-Cokes- bury Press, n.d. MUNCK, JOHANNES. The Acts of the Apostles. (“The Anchor Bible.”) Garden City: Doubleday and Com­ pany, 1967. O’NEILL, J.C. The Theology of Acts in Its Historical Setting. London: S.P.C.K., 1961. RACKHAM, E.B., The Acts of the Apostles. (“Westminster Commen­ taries.”) London: Methuen & Co., 1939. STAGG, FRANK. O Livro de Atos. Rio de Janeiro: JUERP, 1982. TORREY, C.C. Composition and Date of Acts (Harvard Theological Stu­ dies) Cambridge: Harvard Univer­ sity Press, 1916. WILLIAMS, C.S.C. The Acts of the Apostles. (“Harper’s New Testa­ ment Commentaries.”) New York: Harper and Bros., 1957.
  26. 26. Comentário Sobre o Texto I. A Disseminação do Evangelho em Jerusalém (1:1-8:3) 1. Eventos Anteriores ao Pentecostes (1:1-26) Atos começa apresentando a substân­ cia das cenas finais do Evangelho de Lucas e nos introduzindo a certos de­ talhes que o Evangelho não incluíra. Importantes, entre esses itens, são a as­ censão e a atividade dos apóstolos em Jerusalém antes do dia de Pentecostes. 1) Prefácio (1:1-5) 1 Fiz o prim eiro tratad o , ó Teófilo, a c e r­ ca de tudo quanto Jesu s com eçou a fazer e a ensinar, 2 a té o dia em que foi levado p ara cim a, depois de h av er dado m an d a­ m ento, pelo E spírito Santo, aos apóstolos que escolhera; 3 aos quais tam bém , depois de haver padecido, se apresentou vivo, com m uitas provas infalíveis, aparecendo-lhes por espaço de quaren ta dias, e lhes falando das coisas concernentes ao reino de Deus. 4 E stando com eles, ordenou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém , m as que es­ perassem a prom essa do P ai, a qual (disse ele) de m im ouvistes. 5 P orque, n a verdade, João batizou em água, m as vós sereis b a ti­ zados no E spírito Santo, dentro de poucos dias. No período helenista, era costume um autor dividir os seus trabalhos literários em volumes. Ele fazia anteceder o pri­ meiro volume de um prefácio, que se propunha a cobrir a obra toda. Este prefácio geralmente declarava o objetivo e o método de escritor. Os prefácios secundários, anexados a cada volume sucessivo, resumiam o conteúdo do vo­ lume anterior e serviam como forma li­ terária de ligá-los uns aos outros. Lucas, com certas modificações, segue a forma literária contemporânea em seu Evange­ lho e em seu livro de Atos. Atos inicia-se com uma longa sentença prefaciai, dirigida ao mesmo Teófilo do terceiro Evangelho. Lucas apresenta uma declaração sumária da sua obra anterior, mas não da maneira convencional. Os acontecimentos aos quais ele se refere aparecem nas cenas finais do Evangelho, mas não na mesma seqüência. Em primeiro lugar, ele menciona a ascensão, e depois fala das aparições de Jesus aos seus apóstolos, durante um período de quarenta dias. Estes últimos fatos não ocorrem no Evangelho. Ao ler o Evangelho de Lucas, a impressão que se tem é que Jesus ascendeu no mesmo dia da ressurreição (24:51), e não há indica­ ção de um intervalo de quarenta dias. Para o Evangelho, o assunto é o cum­ primento profético da paixão do Messias, sua morte e ressurreição (24:44-47). Em Atos, pelo contrário, Jesus fala aos após­ tolos acerca do reino de Deus. Do lado positivo, podemos acrescentar que a or­ dem para permanecer em Jerusalém para a consecução da promessa, os sofrimen­ tos de Jesus, as suas aparições aos dis­ cípulos e o fato de ter comido com eles (Lucas 24) revelam que há um elo entre o primeiro volume e o segundo, pois todos esses incidentes constam do prefácio a Atos. Primeiro, no verso 1, tem sido aceito, por alguns comentaristas, como signifi­ cando que Lucas escreveu ou planejou es­ crever um terceiro volume. Argumentam eles que a correção gramatical exige “an­ terior” (proteron), em vez de “primeiro” (prõton), quando a série é constituída apenas de dois. Dado o fato de que Lucas usou o termo “primeiro”, e não “an­ terior”, ele devia ter em mente mais do que dois volumes. Contudo, precisamos nos lembrar que a tendência, no grego helénico, bem como no português, hoje em dia, era passar por cima destas distin­ ções gramaticais. Não nos apegamos ri­ gidamente à regra de que, quando nos referimos ao primeiro, significa absolu­ tamente o começo de uma série de mais de dois. Não há evidência de que Lucas es­ creveu ou planejou escrever um terceiro
  27. 27. volume. De fato, um volume assim seria bem-vindo, pois iria resolver todo o pro­ blema do término de Atos. livro (logos) era o nome costumeiramente dado a uma composição que tivesse a extensão de um ou mais rolos de papiro. Jâ notamos, na Introdução, que Teó­ filo nos é desconhecido. É improvável que ele seja uma pessoa fictícia, que represente todos os que amam a Deus. Ê bem razoável presumir-se que Teôfilo tenha sido um nome inventado para ocul­ tar o verdadeiro nome da pessoa. No prefácio do seu Evangelho, Lucas (1:3) dá a Teófilo o epíteto de “excelentíssi­ mo”, que dá a entender que ele ocupava uma posição oficial no Império Romano. A sugestão de B.H. Streeter,4 de que Teófilo era o nome cristão secreto de Flá- vio Clemente, primo de Domiciano, o Imperador, é mera fantasia. Embora Lu­ cas dedique ambos os volumes a Teófilo, a mensagem pretende alcançar um audi­ tório muito mais amplo do que apenas um indivíduo. Ao resumir o seu volume anterior, Lucas usa uma expressão que algumas pessoas procuram classificar como for­ ma pobre, e outros designam como ara- maísmo. Jesus começou a fazer e a ensi­ nar. Por que considerar começou a fazer como aramaísmo, visto que Lucas aqui não está seguindo uma fonte, mas, pelo contrário, está apresentando a sua pró­ pria interpretação teológica? Como pode ela ser forma literária pobre, visto que o autor está inteiramente em casa, no que diz respeito ao grego literário? Lucas tem um propósito, ao usar esta expressão alegadamente desgraciosa. Ele quer di­ zer que o ministério terreno de Jesus nada mais é do que o início de uma ação que não tem fim. O que ele deseja mos­ trar, nos eventos subseqüentes, desenca­ deados pelo Espírito Santo, é, na rea­ lidade, a continuação da obra de Jesus. Desta forma, Lucas estabelece uma ple­ na identificação entre Jesus e o Espírito, 4 The Four Gospels (London: Macmillan, 1951), p. 539.) da mesma forma como Paulo e o autor do Quarto Evangelho o haviam afirmado. Lucas é o único escritor do Novo Tes­ tamento que nos diz que as aparições pós-ressurreição de Jesus cobriram um período de quarenta dias. É aceitável que esse período de tempo se passou, quando comparamos as várias narrativas de apa­ rições ou manifestações de Jesus feitas por Mateus, João e Paulo. Moisés esteve no Monte Sinai durante quarenta dias e quarenta noites, ao rece­ ber a lei das mãos de Deus (Êx. 34:28). Elias, quando fugiu da ira de Jezabel, dirigiu-se a Horebe, e de um anjo rece­ beu alimento para sustentá-lo durante a sua jornada de quarenta dias e quarenta noites (I Reis 19:8). Depois do seu batis­ mo, Jesus foi para o deserto, e jejuou durante um período de quarenta dias (Marcos 1:13 e paralelos). Se Lucas, ao mencionar quarenta dias, está querendo revelar algum significado religioso pro­ fundo, padronizado segundo as referên­ cias mencionadas acima (e ainda outras existentes), é coisa duvidosa, porque, mais tarde, ele descreve o mesmo período como “muitos dias” (13:31). A versão da Imprensa Bíblica Brasilei­ ra não é forçada na tradução de tekme- rios pela palavra portuguesa “provas”. Na verdade, esta palavra, no original, significa prova demonstrativa ou evidên­ cia. Que evidências Lucas tinha em men­ te, ele não expressa em Atos. Do seu Evangelho, podemos presumir que as provas consistiam na capacidade de Jesus em comer um pedaço de peixe assado, e manter uma palestra com os seus discí­ pulos, e também ter a posse de alguma espécie de corpo físico (24:39,42). Lucas, mais do que os outros Evangelhos e as epístolas de Paulo, parece enfatizar a natureza física do corpo pós-ressurreição de Jesus. Atos indica que o principal assunto que Jesus discutiu com os apóstolos, du­ rante o intervalo de quarenta dias, teve como centro o reino de Deus. Isto ime­ diatamente suscita, para nós, a interro-
  28. 28. gação: Por que era necessário tal ensino? Desde o começo do seu ministério na Galiléia, até a sua crucificação em Jeru­ salém, o tema dominante da sua mensa­ gem havia sido o reino de Deus. Embora Jesus não dê uma definição especial do reino, através de suas parábolas e atos, ele descreveu vividamente a sua nature­ za, para impedir qualquer possibilidade de mal-entendidos. Aparentemente, os apóstolos não haviam entendido plena­ mente o significado dos ensinos de Jesus, como veremos mais adiante. Parece que Jesus achava essencial explicar o relacio­ namento entre os seus ensinamentos acerca do reino e aquela nova manifesta­ ção de si mesmo através da recente ex­ periência da ressurreição. Enquanto Jesus estava “comendo com” os apóstolos (ou estando com eles), recomendou-lhes que permanecessem em Jerusalém. Isto concorda com o que Lu­ cas fala em seu Evangelho (24:29). Além do mais, concorda com o relato que ele faz de aparições apenas na Judéia, que Jesus fez, e estas dentro de pequena distância de Jerusalém. Possivelmente, o objetivo de Lucas é demonstrar que Jerusalém é o local para o inicio do movimento cristão. Na região de Jerusa­ lém, Jesus se apresentou aos seus discí­ pulos, e ali é que eles deveriam perma­ necer até que recebessem a promessa do Pai. Mateus, Marcos e o apêndice ao Quar­ to Evangelho (cap. 21) não confinam as aparições à Judéia — neste particular, diferindo de Lucas. De acordo com Ma­ teus, a primeira aparição de Jesus, aos onze discípulos, aconteceu na Galiléia, onde ele lhes deu a Grande Comissão (28:16-20). O moço de alvo manto que se encontrou com as mulheres no sepulcro de Jesus disse-lhes para avisarem a Pedro e aos discípulos que Jesus iria encontrá- los na Galiléia, como havia planejado (Mar. 16:7). No apêndice ao Quarto Evangelho, Jesus aparece aos seus discí­ pulos junto ao Mar de Tiberíades. As outras manifestações registradas no Quarto Evangelho ocorrem em Jerusalém e fortalecem a tradição que Lucas seguiu. A promessa do Pai é uma alusão a uma declaração feita no Evangelho de Lucas (24:49). Ali o conteúdo da promessa não é revelado. Nada é mencionado acerca de que o rito executado por João Batista com água seria superado pelo batismo com o Espírito Santo. Aparentemente, a inclusão deste, em Atos, representa uma revisão feita por Lucas. Estas palavras, atribuídas a Jesus no versículo 5 e mais adiante em 11:16, em outras partes do Novo Testamento, são atribuídas a João Batista. O contraste entre o batismo de João e o batismo com o Espírito Santo pode parecer sugerir que o rito executado com água não era mais necessário. Não obs­ tante, percebemos que o rito do batismo continuou a ser observado. Embora as palavras de Jesus possam ter indicado que o batismo nas águas iria ser supe­ rado ou substituído pelo batismo no Es­ pírito, a comunidade cristã lembrou a ordem de Cristo (Mat. 28:19-20) e con­ siderou, no batismo, algo simbolizando a sua nova experiência em Cristo. João havia pregado um batismo caracterizado pelo ato do arrependimento, em vista de um julgamento iminente. Aquilo para o que o batismo de João apontava em pers­ pectiva, era visto pelos cristãos da nova comunidade em retrospectiva. Desta for­ ma, para a comunidade primitiva, o ba­ tismo se colocava à luz do que já havia acontecido, e não do que ainda havia de acontecer. Isto foi o que marcou a di­ ferença entre o batismo de João e o ba­ tismo cristão. A relação do batismo com o Espírito Santo será considerada mais tarde, neste comentário (veja o comentá­ rio a 2:38; 8:12-17; 10:46-48; 19:5,6). Uma adição, no texto Ocidental, de­ signa o Pentecostes como o tempo em que os apóstolos deviam receber o Es­ pírito Santo. Ela diz: “que estais para receber, daqui a não muitos dias, até o Pentecostes.”
  29. 29. 2) A Ascensão (1:6-11) 6 A queles, pois, que se haviam reunido perguntavam -lhe, dizendo: Senhor, é neste tem po que re stau ras o reino de Israel? 7 R espondeu-lhes: A vós não vos com pete saber os tem pos ou as épocas que o P ai reservou à sua própria autoridade. 8 M as recebereis poder, ao descer sobre vós o E s­ pírito Santo, e ser-m e-eis testem unhas, ta n ­ to em Jeru salém , como em toda a Judéia e Sam ária, e a té os confins da te rra . 9 Tendo ele dito estas coisas, foi levado p a ra cim a, enquanto eles olhavam , e um a nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. 10 E sta n ­ do eles com os olhos fitos no céu, enquanto ele subia, eis que junto deles ap areceram dois varões vestidos de branco, 11 os quais lhes disseram : V arões, galileus, por que ficais aí olhando p a ra o céu? E sse Jesus, que dentre vós foi elevado p a ra o céu, há de vir assim com o p a ra o céu o vistes ir. Imediatamente depois de resumir as coisas ditas em seu primeiro volume, Lucas passa a estabelecer o tom para o livro que está escrevendo, e acrescenta uns poucos detalhes acerca da ascensão, que havia condensado anteriormente. No dia da ascensão, os apóstolos fizeram uma pergunta que indicava claramente como eles não haviam entendido a natu­ reza da promessa do Pai. Haviam eles presumido que a promes­ sa tinha algo a ver com a restauração do reino de Israel. Durante o ministério terreno de Jesus, os apóstolos haviam compartilhado a esperança, sustentada por outros judeus, em um descendente de Davi, a quem Deus nomearia seu Messias, o qual recuperaria a condição nacional dojudaísmo. Essa opinião refle­ tiu-se na confissão de Pedro em Cesa- réia de Filipe e na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Para eles, era difí­ cil livrarem-se de suas noções preconce­ bidas acerca de Jesus como um Messias político. Agora que Jesus havia ressuscitado dentre os mortos, as suas esperanças foram de novo vivificadas, e eles espera­ vam que Jesus desempenhasse o seu pa­ pel vingativo como Messias, estabelecen­ do a sua autoridade sobre a nação de Israel. O que Jesus era incapaz de fazer para eles, de maneira normal, como Messias terreno, os discípulos agora es­ peravam que ele executasse de maneira apocalíptica, pela intervenção catastró­ fica de Deus na história. A pergunta dos apóstolos é suficiente­ mente clara. Eles sentiam uma necessi­ dade desesperada de iluminação. Jesus não permitiu que a pergunta passasse sem ser notada, mas repreendeu-os, como costumeiramente fazia durante o seu ministério terreno. Ele afastou qualquer interesse no estudo intensivo dos momen­ tos críticos da história e dos aconteci­ mentos ordinários da existência humana. Preocupações que tais, segundo a sua perspectiva, eram inúteis, no sentido de determinar quando e como Deus iria agir na história. Jesus não veio para satis­ fazer à curiosidade do homem acerca do calendário de Deus, mas para revelar Deus e levar o homem a um relaciona­ mento correto com Ele. Esse conselho é importante para a era em que vivemos. Há muitos crentes que estão mais inte­ ressados em predições do que na pro­ clamação do evangelho, que propicia luz e vida. Testificar de Cristo inclui o poder para fazê-lo. Jesus prometeu, aos seus após­ tolos, que o Espírito Santo, extensão da personalidade de Deus dentro da comu­ nidade, devia ser esse poder. Eles rece­ beriam o Espírito Santo em breve, e, sob a direção do Espírito, os apóstolos pre­ cisam sair com o evangelho para todas as regiões geográficas. Jesus deliberada­ mente delineou o âmbito geográfico do ministério dos apóstolos. Eles deviam começar em Jerusalém, e daí sair para as regiões subjacentes da Judéia e Samária, onde a religião era mais irregular. Dessas áreas, deviam ir até os confins da terra. A ordem de Jesus em Atos não diz especificamente que as testemunhas são enviadas aos gentios nas áreas determi­ nadas. Pode-se interpretar a missão como sendo apenas para os judeus. A si­ tuação não é a mesma, no Evangelho
  30. 30. de Mateus, onde Jesus, na Galiléia, dá, aos seus discípulos, a ordem para pregar e ensinar (28:18 e s.). Mas não há nada de ambíguo nessa ordem. Jesus quis dar a entender definidamente os gentios. Embora o retrato, pintado em Atos, da igreja primitiva mostre um desejo lento e relutante para incluir os gentios na co­ munhão, Lucas certamente sentia que a ordem de Jesus os indicava, tanto quan­ to os judeus. Depois que Jesus falou da vinda do Espírito, e lhes deu a ordem para pre­ gar o evangelho, através do mundo todo, a sua presença visível afastou-se dos apóstolos: ele foi levado para cima. Lu­ cas é o único escritor neotestamentário que apresenta uma descrição desse acon­ tecimento; contudo, essa experiência é mencionada em outros livros (I Ped. 3:22; Ef. 4:10; Col. 3:1; I Tim. 3:16; Heb. 4:14 e 9:24). Lucas evidentemente concebe este evento como algo de tre­ mendo significado entre a ressurreição e o Pentecostes. No Evangelho de Lucas, a ascensão parece ter acontecido em Betânia (24: 50), aldeia localizada cerca de dois qui­ lômetros de Jerusalém, na encosta orien­ tal do Monte das Oliveiras. Esta era a cidade natal de Lázaro, Maria e Marta, que foram pessoas de destaque no quarto Evangelho. Em Atos, a localização não é mencionada, mas presumimos que foi o Monte das Oliveiras, porque o autor diz que os apóstolos voltaram a Jerusalém do Monte das Oliveiras, depois da ascensão (v. 12). O Monte das Oliveiras ficava a leste de Jerusalém. Foi ali, na véspera da crucificação, que Jesus agonizou em ora­ ção. Desde os dias de Zacarias, o Monte das Oliveiras estava associado, de algu­ ma forma, com as expectativas messiâ­ nicas (14:3 e ss.). Uma tradição rabí- nica declarava que a ressurreição dos judeus ocorreria através de uma fenda no Monte das Oliveiras. De acordo com Lucas, Jesus foi levado para cima... e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos. A ênfase se exerce no desapa­ recimento de Jesus. No Velho Testamen­ to, uma nuvem significava a presença de Deus. Este é o significado da nuvem na cena da transfiguração (Luc. 9:34 e ss. e paralelos). Em Daniel, o Filho do ho­ mem vem nas nuvens do céu (7:13). Quando Jesus compareceu diante do su­ mo sacerdote, no dia da crucificação, o sumo sacerdote perguntou-lhe se ele era o Messias. Jesus replicou: “Eu o sou; e vereis o Filho do homem assentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu” (Mar. 14:62). Aparentemente, na cena da ascensão, a nuvem simboliza a presença de Deus naquele ato de exal­ tação de Jesus. Depois que Jesus afastou-se, os após­ tolos ficaram com os olhos fitos no céu, procurando ter um outro vislumbre dele. A sua admiração sofre uma interrupção brusca com o aparecimento de dois emis­ sários angélicos. Os dois varões vestidos de branco, possivelmente os mesmos que haviam dito às mulheres que Jesus res­ suscitara (Luc. 24:4 e s.), repreenderam os apóstolos desanimados e ministraram- lhes esperanças. Eles asseguraram, aos apóstolos, que Jesus voltaria, mas que não tinha sentido ficarem extasiados diante de maravilhas. 3) No Cenáculo (1:12-14) 12 E ntão voltaram p a ra Jeru salém , do monte cham ado das O liveiras, que está p e r­ to de Jerusalém , à distância d a jornada de um sábado. 13 E , entrando, subiram ao cenáculo, onde perm aneciam P edro e João, Tiago e André, Filipe e Tom é, B artolom eu e M ateus; Tiago, filho de Alfeu, Sim ão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. 14 Todos estes perseveravam unanim em ente em o ra ­ ção, com as m ulheres, e M aria, m ãe de Jesus, e com os irm ãos dele. Com a ascensão, o último contato vi­ sível com Jesus chega ao fim. Embora os apóstolos confiassem na sabedoria de Jesus, deve ter sido extremamente difí­ cil para eles entenderem por que era para o bem deles que ele precisava partir. Contudo, eles não ficaram tão pertur­
  31. 31. bados como por ocasião da crucificação. Agora eles compreendiam que Jesus ti­ nha o poder da vida e da morte. Conse­ qüentemente, eles podiam esperar pa­ cientemente o ato criativo seguinte de Deus. Os apóstolos voltaram para Jerusalém. Lucas apresenta uma nota editorial, ao dizer que a distância do Monte das Oli­ veiras a Jerusalém era a da jornada de um sábado. Se ele estava fazendo isso para dar-nos a entender que o evento ocorreu no sábado, não o sabemos. Quando os apóstolos chegaram a Jerusa­ lém, dirigiram-se a um cenáculo. Seria esse o cenáculo em que Jesus comeu a sua última ceia com os discípulos? Seria a casa de Maria, mãe de João Marcos, que mais tarde se tornou um dos lugares de adoração para os cristãos primitivos (12: 12)? Não temos evidências que especifi­ quem de quem era essa casa, .mas ela devia estabelecer alguma associação com Jesus, em sua refeição de despedida. Os que compunham o grupo que se encontrava no cenáculo eram os onze apóstolos, as mulheres, Maria, mãe de Jesus, e os irmãos de Jesus. A lista dos apóstolos é idêntica à do Evangelho de Lucas (6:13-16), exceto que a ordem é mudada, e, é claro, Judas Iscariotes é omitido. As mulheres não são identificadas. Po­ diam ser as mulheres que acompanha­ ram Jesus desde a Galiléia (Mar. 15:40; 16:1; Mat. 27:56; João 19:25; e Luc. 23:55; 24:10). Se assim foi, sabemos que elas eram Maria Madalena, a outra Ma­ ria, Salomé, Joana, Suzana, e outras. Elas foram as que testemunharam em primeiro lugar que o túmulo estava vazio e levaram as boas-novas, aos apóstolos, de que Jesus ressuscitara dentre os mor­ tos. Ê também bem provável que as mu­ lheres fossem as esposas dos apóstolos. Nada há na estrutura gramatical que exclua esta sugestão como possível. A classificação final dos que constituí­ am o grupo que se encontrava no ce­ náculo inclui os parentes de Jesus: Ma­ ria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele. Maria não é mencionada em nenhum outro lugar em Atos. Os irmãos de Jesus também se encontraram com os apósto­ los. Durante o ministério de Jesus, fica­ mos sabendo muito pouco a respeito de sua família. Marcos nos revela os nomes dos seus irmãos (6:3). Eram Tiago, Ju­ das, José e Simão. Marcos também faz- nos saber que Jesus tinha irmãs. O autor do quarto Evangelho torna bem claro que os irmãos de Jesus — naquela época — não criam nele (7:5). Paulo, ao rela­ cionar as manifestações de Jesus em sua correspondência com a igreja em Corin­ to, disse que uma dessas aparições foi a Tiago (I Cor. 15:7). Tiago é o único irmão de Jesus que se nos apresenta por nome em Atos. Não se passou muito tempo depois do começo da igreja primi­ tiva, quando ele se tomou o líder, e, durante certo tempo, tornou-se mais im­ portante e significativo do que os após­ tolos. Eram Tiago, Judas, José e Simão ir­ mãos verdadeiros de Jesus? Essa interro­ gação foi levantada no começo do ter­ ceiro século, mas não se tomou proble­ ma de controvérsia antes do quarto sé­ culo. A essa altura, três opiniões se le­ vantaram. Epifânio dizia que os irmãos eram filhos de José, através de uma esposa anterior. Jerônimo, que foi res­ ponsável pela tradução latina da Bíblia, conhecida como a Vulgata, argumenta­ va que os irmãos, na verdade, eram pri­ mos de Jesus. Helvídio, cristão romano e oponente de Jerônimo, aceitava o rela­ cionamento apresentado nos Evangelhos e em Atos, que obviamente significava que eles eram irmãos verdadeiros. Lucas diz que todas essas pessoas per­ severavam unanimemente em oração. Freqüentemente, a palavra traduzida co­ mo oração (proseuchê) era usada no sen­ tido técnico, significando sinagoga ou o Templo. Mais tarde, Lucas introduz a palavra com este significado (16:13). E também, no último versículo do seu Evangelho, ele disse que os discípulos
  32. 32. “estavam continuamente no templo, ben­ dizendo a Deus” (24:53). Esta é uma referência à mesma atividade menciona­ da em Atos. Diante disto, podemos pre­ sumir que a oração do grupo não se con­ finava ao cenáculo, mas que eles fre­ qüentavam a sinagoga ou o Templo, e observavam as horas de oração da mes­ ma forma como Pedro e João o fizeram mais tarde (3:1). 4) A Escolha de Matias (1:15-26) 15 N aqueles dias levantou-se P edro no melo dos irm ãos, sendo o núm ero de pessoas ali reunidas cerca de cento e vinte, e d isse : 16 Irm ãos, convinha que se cum prisse a escritu ra que o E spírito Santo predisse pela boca de D avi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prend eram a Jesu s; 17 pois ele e ra contado en tre nós e teve p arte neste m inistério. 18 (O ra, ele adquiriu um cam po com o salário da sua iniqüidade; e, precipitando-se, caiu prostrado e arreb en ­ tou pelo m eio, e todas as suas entranhas se d erram aram . 19 E tornou-se isto conhecido de todos os habitantes de Jeru salém ; de m aneira que na sua própria língua deles esse cam po se cham a A céldam a, isto é, Campo de Sangue.) 20 Porquanto no livro dos Salm os está escrito : Fique deserta a sua habitação, e não h aja quem nela h ab ite; e: Tome outro o seu m inistério. 21 É necessário, pois, que dos varões que conviveram conosco todo o tem po em que o Senhor Jesus andou entre nós, 22 com eçando desde o batism o de João até o dia em que dentre nós foi levado p a ra cim a, um deles se tom e testem unha conosco da sua re ssu r­ reição. 23 E ap resen taram dois: José, cha­ m ado B arsabás, que tinha por sobrenom e o Justo, e M atias. 24 E , orando, disseram : Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, m ostra qual destes dois tens escolhi­ do 25 p a ra to m ar o lugar neste m inistério e apostolado, do qual Ju d as se desviou, p a ra ir ao seu próprio lugar. 26 E ntão deitaram sortes a respeito deles e caiu a sorte sobre M atias, e por voto com um foi ele contado com os onze apóstolos. Durante o intervalo entre a ascensão e o dia de Pentecostes, os apóstolos es­ tavam bem apercebidos do déficit exis­ tente em seu número, devido à morte de Judas Iscariotes, ocorrida por suicídio. Pedro, agindo como porta-voz da comu­ nidade, decidiu que havia chegado a hora de dar alguma espécie de expli­ cação para o ato ignóbil de Judas. Todos eles deviam estar confusos com o seu ato de traição. Por que Jesus o escolhera? Saberia ele que isto iria acontecer? Co­ mo podia um dos doze chegar a trair Jesus? Que embaraçoso devia ser essa situação para toda a comunidade! Pedro começou a sua fala, dirigindo- se ao grupo como irmãos. Em Atos, en­ contramos outras designações, dadas aos seguidores de Jesus, mas esta é a pri­ meira. Pedro prosseguiu, explicando que a traição, o destino e a substituição de Judas, tudo isto era um cumprimento das Escrituras. O que Judas fizera não fora sem a presciência de Deus. Prova escriturística — Lucas, ao re­ construir o discurso de Pedro, registra a citação que ele fez dos Salmos (69:25; 109:8), para demonstrar que todos os acontecimentos que cercaram o caso de Judas eram proféticos. Não obstante, quando examinamos esses salmos, obser­ vamos que ambos são imprecatórios, e não pretendem enfatizar predições de qualquer sorte. Este método de referência ao Velho Testamento era freqüentemente empre­ gado na igreja primitiva, e abundam exemplos do seu uso em Atos. A única maneira pela qual a comunidade primi­ tiva tinha, para dirimir a hostilidade dos judeus contra as suas reivindicações acer­ ca do Senhor ressuscitado, era através da trilha batida das Escrituras. As testemu­ nhas primitivas apelavam para uma au­ toridade que os judeus sustentavam até com risco de suas vidas. Para os propó­ sitos apologéticos dos apóstolos e outras testemunhas, este método de exegese era não apenas aceitável, mas também reco­ mendável. Na verdade, textos de prova tirados do seu contexto podem levar a uma interpretação errada da revelação de Deus; mas reconhecemos que a Es­ critura ilumina a Escritura.
  33. 33. Foi a intenção do autor de Atos, ou da igreja primitiva, fazer com que habi­ tação (.epaulis) se refira à propriedade que Judas adquiriu com o preço de san­ gue, e não ao ofício de apóstolo? Epaulis é traduzida como “habitação” , mas uma tradução mais apropriada e exata seria “propriedade” ou “fazenda”. A nota editorial de Lucas acerca do destino de Judas parece confirmar a opinião de que epaulis realmente se refere a uma pro­ priedade que Judas comprou. As justifi€r">1

×