Monografia Gestão do Tempo

825 visualizações

Publicada em

Gestão do Tempo

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
825
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
8
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
15
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Monografia Gestão do Tempo

  1. 1. Instituto Superior da Maia Licenciatura em Gestão de Recursos humanos Gestão do tempo (Trabalho de projeto) Discente: André Filipe Martins Cunha, nº 20901 Orientador: José da Costa Dantas Maia, Junho de 2012
  2. 2. Instituto Superior da Maia Licenciatura em Gestão de Recursos humanos Gestão do tempo (Trabalho de projeto) Discente: André Filipe Martins Cunha, nº 20901 Maia, Junho de 2012
  3. 3. “ A vida é o que fazemos dela.” (Buffet, 2010, 28)
  4. 4. Dedicatória Caminho de prazer, de conquista, de vitória, foi o que percorri na construção deste trabalho. Pedras, buracos, socalcos, planaltos e montanhas ultrapassei, não por mim, mas com a ajuda de muito, muito, não um número, mas muito na personificação do apoio, da força e da garra que me incutiram na prossecução do meu objectivo, a realização deste trabalho. A esse muito, em representação daqueles que me acompanharam nesta jornada, o obrigado mais humilde e sincero que até hoje eu posso proferir.
  5. 5. Agradecimentos O primeiro agradecimento para quem me dá vida, me faz ser e querer ser algo diferente do que já sou, pois me incutem diariamente a vontade de querer ser mais e me mostram o prazer de ser esse mais através do seu exemplo. Pais, meus amigos, companheiros dos caminhos que percorro, obrigado. A ti que me deste ao mundo, que me apoias incondicionalmente, que vives as minhas alegrias, as minhas tristezas, frustrações, conquistas e derrotas e que me dás a mão para sempre me levantar, agradeço. Mãe, obrigado pelo constante eu estou aqui para o que precisares, pela força que me transmites e pela singularidade do teu ser que me faz orgulhar de ti. Esta vitória é tua, também. A ti, que és um exemplo de vida, de entrega à mesma, de superação de dificuldades, de não virar a cara à luta, meu Pai, agradeço, porque também me permitiste concluir esta importante fase da minha vida, e sempre me compreendeste ao longo deste percurso. Não precisamos de grandes conversas para percebermos o que estamos a pensar, para percebermos como cada um de nós está a pensar e só isso demonstra a cumplicidade da relação que temos. Tu és o exemplo mais real que eu quero seguir. A toda a minha família, e como esta palavra tem real valor e relevância para todos nós. Vocês que me mimam, que me aconchegam e que, esteja eu onde estiver, estarão sempre comigo e eu com vocês. Padrinhos, tios, primos e, acima de todos estes ,os meus avós, muito obrigado a vocês não só pelo carinho mas também pelas noções de responsabilidade e de cuidado pelos outros que sempre me ensinaram e demonstraram através do vosso exemplo.
  6. 6. Pedro Moura, Joana Moura, João Moura e Miguel Araújo, os meus primos mais próximos. Agradeço-vos obviamente. Crescemos juntos, continuámos juntos e o futuro só poderá manter-nos juntos. Vocês são, para mim, um grande apoio. Sofia Matos, a ti agradeço-te pela presença e apoio ao longo dos três anos e pela partilha não só de conhecimento mas também de uma forma de ser que me permite ser uma pessoa melhor. Luís Faria, Daniel Marques, Joana Teixeira, Rita Silva, Clara Gonçalves, Edgar Novo obrigado a vós pelos momentos partilhados durante este percurso. Tudo é mais fácil com pessoas como vós por perto. A si, Mestre José da Costa Dantas, coordenador da licenciatura, e meu orientador, obrigado pelas palavras que desde cedo neste percurso trocámos, pelos ensinamentos, pelos conhecimentos partilhados. Acima de tudo, obrigado pela influência que teve no romper de alguns paradigmas que eu tinha. Obrigado, porque realmente me mudou e se hoje sou uma pessoa melhor, e acredito verdadeiramente que o sou, a si, em larga escala, se deve. O meu obrigado pela presença, apoio e orientação constante na realização deste trabalho. Professor Alberto Moreira, agradeço-lhe pela disponibilidade demonstrada, pelas leituras recomendadas, que através da confusão que me provocaram me permitiram ver coisas que eram completamente obscuras para mim. Obrigado, porque me fez compreender melhor o que é ser uma pessoa de recursos humanos e me indicou caminhos nessa descoberta através da descoberta do próprio eu.
  7. 7. A si, professor Alberto Pinto, o meu obrigado porque sempre se mostrou disponível para partilhar a sua experiência pessoal que a mim também muito serve de exemplo. Professor Célio Sousa, foi um enorme prazer ser leccionado por si. O seu conhecimento, exemplo de vida e percurso é algo que para sempre vou reter. Obrigado, também, pela disponibilidade para as conversas que tivemos que em muito me ajudaram a definir possíveis caminhos para o meu futuro. Agradeço, também, a todos os professores com quem tive o enorme prazer de partilhar este percurso. Os seus conhecimentos e a vossa sempre afável presença e disponibilidade demonstradas fizeram com que todo este caminho tenha sido muito mais agradável de ser percorrido. À instituição ISMAI pelas instalações de alto calibre que dispõe, e que por isso põe ao dispor dos alunos todas as facilidades para que este percurso se faça com sucesso.
  8. 8. Gestão do tempo Índice Introdução ..................................................................................................................... 11 I – PARTE TEÓRICA 1 O tempo: conceitos genéricos em filosofia ............................................................ 14 2 O início do tempo .................................................................................................... 20 2.1 O tempo tem um início? .................................................................................................. 20 3 O tempo ................................................................................................................... 23 3.1 O relógio ............................................................................................................................... 23 3.2 A palavra tempo ................................................................................................................ 24 3.3 O tempo antes do tempo ................................................................................................. 26 3.4 O tempo físico .................................................................................................................... 28 3.4.1 Henri Bergson e o tempo físico ............................................................................................. 29 3.4.2 Tempo físico André Cunha ................................................................................................................. 13 9 vs tempo psicológico ...................................................................................... 30 3.5 Tempo: linear ou cíclico? ............................................................................................... 33 3.6 A continuidade e descontinuidade do tempo .......................................................... 35 3.7 Tempo no inconsciente ................................................................................................... 37 4 Tempo em Agostinho de Hipona ........................................................................... 40 4.1 A eternidade de Deus ...................................................................................................... 40 4.2 Tempo como característica humana .......................................................................... 43 4.3 O tempo ................................................................................................................................ 44 5 Tempo e temporalidade em Jean Paul Sartre ...................................................... 48 5.1 As três dimensões temporais ....................................................................................... 48 5.1.1 O passado ....................................................................................................................................... 48 5.1.2 O presente ...................................................................................................................................... 54 5.1.3 O Futuro .......................................................................................................................................... 55 5.2 Temporalidade .................................................................................................................. 56 5.2.1 Estática temporal ........................................................................................................................ 57 5.2.2 Dinâmica temporal ..................................................................................................................... 59 6 O tempo no ser ........................................................................................................ 62 6.1 O ser – regulador do tempo ........................................................................................... 65 6.2 Ser na perspectiva teológica ......................................................................................... 68 6.2.1 O homem ......................................................................................................................................... 68 6.2.2 O sentido da vida ......................................................................................................................... 69 7 Competências – estar no tempo ............................................................................. 71 8 Conclusão parte teórica .......................................................................................... 75 II – PARTE PRÁTICA ............................................................................................................... 77 9 Execução prática ..................................................................................................... 78 9.1 Problemática ...................................................................................................................... 78 9.2 Metodologia ........................................................................................................................ 78 9.3 Identificação da empresa ............................................................................................... 78
  9. 9. Gestão do tempo 9.4 População, amostra e colheita de dados ................................................................... 79 9.5 Análise da amostra ........................................................................................................... 80 9.6 Análise das respostas relativas ao tema ................................................................... 84 10 Conclusão parte prática ....................................................................................... 97 11 Considerações finais ............................................................................................. 99 Bibliografia .................................................................................................................. 101 ANEXOS ....................................................................................................................................... 103 André Cunha 10 ANEXO 1 ...................................................................................................................................... 104 ANEXO 2 ...................................................................................................................................... 109
  10. 10. Gestão do tempo André Cunha 11 Introdução No seio das Ciências Humanas, nas quais se encontra a Gestão de Recursos Humanos, uma temática parece-me fundamental para o presente e futuro em termos de diferenciação e incremento de valorização pessoal e profissional, o tempo. Tempo, recurso finito, limitado, que passa e não volta. Ou será que o tempo não é e nada tem a ver com o que acima foi escrito e simplesmente ainda não entendemos o que é o tempo, o que vale o tempo, o que significa passado, presente e futuro? Será o conceito tempo algo absolutamente objetivo, isto é, sobre o qual não restam quaisquer dúvidas e por esse motivo não exista a necessidade de sobre ele refletirmos? O que pensa a sociedade contemporânea do tempo? Que importância damos ao tempo? É este pensado? Pensadores e filósofos influenciaram a forma como vemos o tempo de alguma maneira? Fazem sentido as suas ideias e pensamentos? Existem um cem número de questões que a meu ver podem ser feitas sobre esta temática e é absolutamente premente que as façamos, pois o tempo existe e inequivocamente condiciona os nossos pensamentos, juízos e consequentemente as nossas ações. Com a clara intenção de destrinçarmos este tema, procurámos seguir um caminho que a isso conduzisse. Assim, optámos por primeiramente apresentar conceitos sobre o tempo e dessa forma demonstrar que na verdade este tema foi e é pensado por importantes personalidades. Seguidamente, tentámos perceber se existe um início do tempo e se faz sentido falarmos sobre esse mesmo início. Posteriormente, abordámos esta temática sob vários pontos de vista, que vão desde o tempo que é ditado pelo relógio, a existência ou não do tempo antes de ser considerado o seu início, a própria palavra tempo, o tempo físico, tempo psicológico, a continuidade e a descontinuidade do tempo e o tempo no inconsciente. Desta forma tentámos clarificar em larga escala do que se trata tão vasto e complexo tema.
  11. 11. Gestão do tempo O curso da investigação levou-nos até à concepção do tempo de dois importantes pensadores, que por terem visões distintas, consideramos essencial apresentá-las para mais ficarmos a conhecer sobre o tema. O tempo em Agostinho de Hipona e Jean Paul Sartre vão elucidar-nos sobre diferentes visões do tempo que são relevantes no curso da história. Aproximando-nos do final da nossa investigação no âmbito deste trabalho de projeto, quisemos apresentar duas visões do que é ser e da existência humana. A intenção foi demonstrar como o nosso ser e essência são importantes na regulação do tempo. Por fim, considerámos premente referir como a atualização constante e necessária das competências individuais influencia diretamente a forma como conseguimos lidar com as exigências profissionais com que nos deparamos e faz com que estejamos à vontade com o tempo que corre, pois este não vai dessa forma absorver-nos no seu curso normal. André Cunha 12
  12. 12. Gestão do tempo André Cunha 13 I – PARTE TEÓRICA
  13. 13. Gestão do tempo André Cunha 14 1 O tempo: conceitos genéricos em filosofia O conceito tempo é, de fato, muito abrangente e tem tentado ser definido por várias áreas do saber. Nesta monografia, e porque abordaremos nos capítulos seguintes a forma como vários filósofos entendiam o tempo, considerámos pertinente apresentar a definição do conceito tempo em dois dicionários de filosofia, para que possamos entender como este conceito é complexo, é alvo de pensamento, de estudo, de reflexão e através das definições que abaixo transcrevemos podemos ter a noção de como já muitos pensadores se importaram e questionaram sobre a problemática do tempo. A natureza do tempo tem sido um dos maiores problemas filosóficos desde a antiguidade. Concebemos bem o tempo quando o concebemos como um fluxo? Se é esse o caso, o tempo flui do futuro para o passado, mantendo-nos como barcos atolados no meio de um rio? Ou flui do passado para o futuro, transportando-nos com ele? E pode fluir mais depressa ou mais devagar? Estas questões parecem suficientemente difíceis (ou absurdas) para nos encorajar a rejeitar a metáfora do tempo. Mas, se não concebermos o tempo como um fluxo, como poderemos conceber a sua passagem? O que distingue o presente do passado e do futuro, se é que há alguma distinção objectiva? O que dá ao tempo a sua direcção – o que explica a assimetria entre o passado e o futuro? Faz algum sentido falar de uma existência intemporal, ou só faz sentido falar da existência no tempo? É o tempo infinitamente divisível, ou será que pode ter uma textura granular, existindo assim o mais pequeno pedaço ou fracção do tempo? Muitos destes problemas foram colocados pela primeira vez na Física de Aristóteles sob a forma de paradoxos ou problemas sobre a própria existência do tempo. Um dos problemas é que o tempo não pode existir já que nenhuma das suas partes existe (o instante presente, por não ter duração, não pode contar como uma parte do tempo). Um outro problema surge ao perguntarmos quando deixa o instante presente de existir porque qualquer resposta envolve uma contradição: não deixa de existir no presente, porque enquanto existe não deixa de existir; não deixa de existir no momento seguinte, porque na continuidade temporal não existe o momento seguinte (do mesmo modo que não há uma fracção seguinte a uma qualquer função dada); não deixa de existir num momento posterior porque aí já deixou de existir. No entanto, não podemos conceber o instante presente como algo que existe continuamente, porque, nesse caso, aquilo que aconteceu há 10000 anos seria simultâneo com o que acontece hoje. Os enigmas de Aristóteles e os paradoxos de Zenão sobre o tempo e o espaço suscitaram soluções atomistas, nas quais se defendeu a estrutura granular do tempo. Diodoro de Cronus e Epicuro foram alguns dos partidários do atomismo, mas encontraram a oposição dos Estóicos; os argumentos de ambas as partes foram usados por Sexto Empírico, para levar a água ao moinho dos cépticos. Uma solução fundamentalmente idealista, na qual se permite a existência de tempos diferentes como objectos de contemplação simultânea, foi proposta por Agostinho nas Confissões (livro 11), e é visível em Leibniz, Berkeley, Kant e Bergson. Entre outros problemas embaraçosos estão o de determinar se o tempo pode ter um início e o de saber se pode existir um tempo sem acontecimentos que nele decorram (Blackburn, 2007, 423-424).
  14. 14. Gestão do tempo Outra definição, mais completa, e que ilustra de forma bem clara como a definição do conceito de tempo tem mudado ao longo das gerações, e tem também sofrido alterações de acordo com diferentes correntes filosóficas, provém de outro autor muito famoso e conceituado, Nicola Abbagnano. André Cunha Podemos distinguir três concepções fundamentais: 1ª - o tempo como ordem mensurável do movimento; 2ª - o tempo como movimento intuído; 3ª - o tempo como estrutura de possibilidades. À primeira concepção vinculam-se, na Antiguidade, o conceito cíclico do mundo e da vida do homem (metempsicose) e, na época moderna, o conceito científico do tempo. À segunda concepção vincula-se o conceito de consciência, com a qual o tempo é identificado. A terceira concepção, derivada da filosofia existencialista, apresenta algumas inovações na análise do conceito de tempo. 1ª A concepção de tempo mais antiga e difundida considera-o como ordem mensurável do movimento, os pitagóricos, ao definirem o tempo como “a esfera que abrange tudo” (a esfera celeste), relacionaram-no com o céu, que com o seu movimento ordenado permite medi-lo perfeitamente, segundo Aristóteles. Ao definir o tempo como “a imagem móvel da eternidade”, Platão pretende dizer que, na forma dos períodos planetários, do ciclo constante das estações ou das gerações vivas e de qualquer espécie de mudança, ele reproduz no movimento a imutabilidade do ser eterno. A definição de Aristóteles, “o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois”, é a expressão mais perfeita dessa concepção, que identifica o tempo com a ordem mensurável do movimento. Não é diferente o significado da definição dos estóicos, segundo a qual o tempo é “o intervalo do movimento cósmico”. Na verdade, intervalo não passa de ritmo, ordem, movimento cósmico. Talvez não seja diferente tampouco o significado da definição de Epicuro. “O tempo é uma propriedade, um acompanhamento do movimento”. Na Idade Média, essa concepção do tempo foi compartilhada por realistas e por nominalistas, que repetiram unanimemente a definição de Aristóteles. Telésio, que criticava essa definição, reduziu o tempo à duração e ao intervalo do movimento. Hobbes definiu o tempo como “imagem (phantasma) do movimento, na medida em que imaginamos no movimento o antes e o depois, ou seja, a sucessão”; considerava que essa definição estava de acordo com a de Aristóteles. Descartes simplesmente repetia essa última, definindo o tempo como “número do movimento”. Locke criticava a vinculação do temo ao movimento, estabelecida pela definição de Aristóteles, só para afirmar que o tempo está ligado a qualquer espécie de ordem constante e repetível: “Qualquer aparição periódica e constante, ou mudança de ideias, que acontecesse entre espaços de duração aparentemente equidistantes, e fosse constante e universalmente observável, poderia servir para distinguir intervalos do tempo tão bem quanto as que foram usadas na realidade”. Para definir o tempo, Berkeley substituía a ordem do movimento pela ordem das ideias, ou melhor, a ordem do movimento externo pela ordem do movimento interno: “Se eu tentar construir uma simples ideia do tempo abstraindo da sucessão de ideias de meu espírito, que flui uniformemente e é compartilhada por todos os seres, estarei perdido e embaraçado por dificuldades inexplicáveis”. Essa concepção de tempos fundamentou a mecânica de Newton, que distinguia o tempo absoluto e o tempo relativo, mas a ambos atribuía ordem e uniformidade. “O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, na realidade e por natureza, sem relação com nada de externo, flui uniformemente (aequabilitier) e também se chama duração. O tempo relativo, aparente e comum é uma medida sensível e externa da duração por meio do movimento”. Nessa definição de Newton, o uniforme fluir da duração absoluta é confrontado com a uniformidade do movimento que é tomado como medida do tempo. Leibniz esclarecia o mesmo conceito do seguinte modo: “Conhecendo-se as regras dos movimentos não 15
  15. 15. Gestão do tempo André Cunha uniformes, é possível relacioná-los com os movimentos uniformes inteligíveis e prever com este meio o que acontecerá a diferentes movimentos reunidos. Nesse sentido, o tempo é a medida do movimento, ou seja, o movimento uniforme é a medida do movimento não uniforme”. Portanto, definia o tempo como “uma ordem de sucessões”: definição aceite por Wolff e por Baumgarten. Essa era a concepção a que Kant se referia implicitamente, ao afirmar, em Estética transcendental, a idealidade transcendental do tempo, ao lado de sua realidade empírica. Mas a principal contribuição de Kant está na interpretação do conceito de tempo não está na Estética transcendental, mas na Analítica dos princípios, mais precisamente no estudo da segunda analogia, ou “princípio da série temporal segundo a lei da causalidade”. Aí Kant reduz ordem de sucessão a ordem causal. Afirma que uma coisa só “pode conquistar seu lugar no tempo com a condição de que no estado precedente se pressuponha outra coisa à qual esta sempre deva seguir-se, ou seja, segundo uma regra”. A série temporal não pode inverter-se porque, “uma vez posto o estado precedente, o acontecimento deve seguir-se infalível e necessariamente”; portanto , “é lei necessária de nossa sensibilidade e, consequentemente condição formal de todas as percepções que o tempo precedente determine necessariamente o seguinte”. Isso realmente permite a distinção entre percepção real do tempo e imaginação, que poderia e pode inverter a ordem dos eventos, transformando a sucessão temporal “em único critério empírico do efeito em relação à causalidade da causa”. Essa redução do tempo à ordem causal, defendida por Kant em relação ao conceito de tempo dominante em sua época (derivada da física newtoniana), foi reapresentada em nosso dias com relação à física einsteiniana. Ao afirmar a relatividade da medida temporal, Einstein na realidade não inovou o conceito tradicional de tempo como ordem de sucessão: só negou que a ordem de sucessão fosse única e absoluta. Em confronto com a física de Einstein, H. Reichenbach voltou a propor a tese kantiana da identidade do tempo com a causalidade: “O tempo é a ordem das cadeias causais: este é o principal resultado das descobertas de Einstein”. “A ordem do tempo, a ordem do antes e do depois, é redutível à ordem causal. (...) A inversão da ordem temporal para certos eventos, resultado que deriva da relatividade da simultaneidade, é apenas uma consequência desse facto fundamental. Uma vez que a velocidade de transmissão é limitada, existem eventos tais que nenhum deles pode ser causa ou efeito do outro. Para tais eventos, a ordem do tempo não é definida, e cada um deles pode ser chamado de posterior ou anterior ao outro”. Esses mesmos conceitos foram explicados por Reichenbach em seu livro póstumo The Direction of Time (1956), no qual identifica a ordem do tempo com a causalidade, e a direcção do tempo com a entropia crescente. A redução do tempo à causalidade pode ser considerada a mais importante (mas não por isso a mais consistente) proposição filosófica apresentada no campo da concepção do tempo como ordem. Ao contrário, tem bem menos importância a discussão – a que muitas vezes os filósofos se inclinaram – sobre a subjectividade ou objectividade do tempo. Foi Aristóteles quem deu início a tais discussões, chegando à conclusão de que, se por um lado o tempo como medida não pode existir sem a alma – pois só com a alma pode medir -, por outro lado o movimento ao qual a medida se refere não depende da alma. No século XIV, retomando essas considerações, Ockham afirmava que não existiria tempo se a alma não pudesse medir nem existiria tempo se a alma não pudesse numerar. Até Hobbes chamava o tempo de imagem. Menos significativa é a redução do tempo, de autoria de Locke e Berkeley, à ordem das ideias: porque as ideias, para esses filósofos, são os únicos objectos de que se pode falar. Quanto ao subjectivismo da concepção kantiana, segundo a qual o tempo é “intuição pura”, condição de qualquer percepção sensível, não passa de mal-entendido, pois só o tempo pode ser considerado subjectivo com relação às coisas em si, que estão além da consideração humana, mas é objectivo e real em relação às coisas naturais, em virtude do que o tempo tem “realidade empírica” indubitável. Além disso, o objectivismo da concepção kantiana é demonstrado pela redução do tempo à ordem causal: tese a que os neo-empiristas chegaram sem conhecer sua proveniência kantiana. 16
  16. 16. Gestão do tempo André Cunha 2ª A segunda concepção fundamental de tempo considera-o como intuição do movimento ou “devir intuído”. Esta última definição é de Hegel, que acrescenta ser “o tempo o princípio mesmo do Eu = Eu, da autoconsciência pura, mas é esse princípio ou o simples conceito ainda em sua complexa exterioridade e abstração”. Portanto, Hegel não identifica o tempo com a consciência, mas com algum aspecto parcial ou abstracto da consciência. Sem essa limitação, Scheling dissera: “o tempo outra coisa não é senão o sentido interno que se torna objecto para si”. A rigor, a concepção de tempo como intuição do devir traz em seu bojo a redução do tempo a consciência. Isso já acontece em Plotino. Segundo este último, o tempo não existe fora da alma: “é a vida da alma e consiste no movimento graças ao qual a alma passa de uma condição de sua vida para outra”; assim, pode-se dizer que até o universo está no tempo só na medida em que está na alma, ou seja, na alma do mundo. A S. Agostinho deve-se a melhor expressão e a difusão dessa doutrina na filosofia ocidental. O tempo é identificado por Agostinho com a própria vida da alma que se estende para o passado ou para o futuro (extensio ou distensio animi). S. Agostinho diz: “De que modo diminui e consuma-se o futuro que ainda não existe? E de que modo cresce o passado que já não é mais, senão porque na alma existem as três coisas, presente, passado e futuro? A alma de fato espera, presta atenção e recorda, de tal modo que aquilo que ela espera passa, através daquilo a que ela presta atenção, para aquilo que ela recorda. Ninguém nega que o futuro ainda não exista, mas na alma já existe a espera do futuro; ninguém nega que o passado já não exista, mas na alma ainda existe a memória do passado. E ninguém nega que o presente careça de duração porque logo incide no passado, mas dura a atenção por meio da qual aquilo que será passa, afasta-se em direção ao passado”. A tese fundamental dessa concepção de tempo foi enunciada pelo próprio S. Agostinho: “A rigor, não existem três tempos, passado, presente e futuro, mas somente três presentes: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro”. Na filosofia moderna, Bergson reexpôs essa concepção, contrapondo-a ao conceito científico de tempo. Segundo ele, o tempo da ciência é especializado e, por isso, não tem nenhuma das características que a consciência lhe atribui. Ele é representado como uma linha, mas “a linha é imóvel, enquanto o tempo é mobilidade. A linha já está feita, ao passo que o tempo é aquilo que se faz; aliás, é aquilo graças a que todas as coisas se fazem”. Já em sua primeira obra, Essai sur les données immédiates de la conscience, Bergson insistira na exigência de considerar o tempo vivido (a duração da consciência) como uma corrente fluida na qual é impossível até distinguir estados, porque cada instante dela transpõe-se no outro em continuidade ininterrupta, como acontece com as cores do arco-íris. Esse ficou sendo o conceito fundamental de sua filosofia. Segundo Bergson, o tempo como duração possui duas características fundamentais: 1º novidade absoluta a cada instante, em virtude do que é um processo contínuo de criação; 2º conservação infalível e integral de todo o passado, em virtude do que age como uma bola de neve e continua crescendo à medida que caminha para o futuro. Não muito diferente é o conceito de Husserl sobre o “tempo fenomenológico”. Ele afirma: “Toda a vivência efetiva é necessariamente algo que dura; e com essa duração insere-se em um infinito contínuo de durações, em um contínuo pleno. Tem necessariamente um horizonte temporal atualmente infinito de todos os lados. Isso significa que presente a uma corrente infinita de vivências. Cada vivência isolada, assim como pode começar, pode acabar e encerrar sua duração; é o que acontece, por exemplo, com a experiência de uma alegria. Mas a corrente de vivências não pode começar nem acabar”. Isso significa que, assim como a duração bergsoniana, a corrente de vivências tudo conserva e é uma espécie de eterno presente. 3ª O terceiro conceito de tempo transforma-o em estrutura da possibilidade. Esse é o conceito encontrado em Heidegger na obra Ser e o Tempo (1927), que já no título anuncia a identidade dos dois termos. A primeira característica dessa concepção é o primado do futuro na interpretação do tempo; as duais concepções anteriores fundam-se no primado do presente. O tempo como ordem do movimento é uma totalidade presente porque toda ordem pressupõe a simultaneidade de suas partes, de cuja recíproca adaptação ela nasce. A 17
  17. 17. Gestão do tempo Através da leitura destas definições podemos constatar a dificuldade inerente à definição do conceito tempo. Os próximos capítulos tentarão explicitar algo que acrescente valor sobre este tema. André Cunha concepção de tempo como devir intuído só faz interpretá-lo em função do presente, porque a intuição do devir é sempre um agora, um instante presente. Heidegger, ao contrário, interpretou o tempo em termos de possibilidade ou de projeção: o tempo é originariamente o por-vir (Zu-kunft); mais precisamente: quanto o tempo é autêntico (originário e próprio da existência), é “o porvir do ente para si mesmo na manutenção da possibilidade característica como tal”. “Porvir não significa um agora, que, ainda não tendo se tornado atual, algum dia o será, mas o advento em que o ser-aí vem a si em seu poder-ser mais próprio. É a antecipação que torna o ser-aí propriamente porvindouro, de sorte que a própria antecipação só é possível porque o ser-aí, enquanto ente, sempre já vem a si”. O passado, como um ter-sido, é condicionado pelo porvir porque, assim como são possibilidades autênticas aquelas que já foram, também já foram as possibilidades às quais o homem pode autenticamente retornar e de que ainda pode apropriar-se. Tanto o tempo autêntico, em que o ser-aí projeta sua própria possibilidade privilegiada (o que já foi, de tal modo que suas escolhas do já escolhido, isto é, da impossibilidade de escolher), quanto o tempo inautêntico, que é o da existência banal, como sucessão infinita de instantes, ambos são o sobrevir do que a possibilidade projetada apresente ao ser-aí (isto é, ao homem); portanto são um apresentar-se, a partir do futuro, daquilo que já foi no passado. A análise heideggeriana do tempo sem dúvida contém um grande compromisso metafísico, porquanto o tempo é considerado uma espécie de círculo, em que a perspectiva para o futuro é aquilo que já passou; por sua vez, o que já passou é a perspectiva para o futuro. Nesse sentido, Heidegger fala de tempo finito, ou autêntico, já que tempo inautêntico (que ele também chama de databilidade ou tempo público) é o desconhecimento parcial da natureza do tempo e a sua concepção como linha aberta e sucessão infinita de instantes. Todavia, a análise de Heidegger contém alguns elementos de interesse filosófico notável porque constitui uma importante inovação na análise do conceito de tempo. Esses elementos são os seguintes: 1º Mudança do horizontal modal, passando-se da necessidade à possibilidade: o tempo já não é integrado numa estrutura necessária, como a ordem causal, mas na estrutura da possibilidade. Esse aspecto pode ser utilizado para expressar adequadamente a transformação a que a noção de tempo foi submetida pela relatividade de Einstein. Com efeito, se dois eventos são simultâneos segundo certo sistema de referência mas podem não ser simultâneos segundo um outro, conclui-se que o tempo não é uma ordem necessária, mas a possibilidade de várias ordens. 2º O primado do futuro na interpretação do tempo não constitui apenas uma alternativa diferente do primado do presente e a ele oposta, na qual se baseiam as outras duas interpretações principais, mas também oferece a possibilidade de não achatar sobre o presente as outras determinações do tempo e de entendê-las em sua natureza específica: o futuro como futuro (e não como “presente do futuro”) e o passado como passado. 3º A relação entre passado e futuro, que Heidegger enrijeceu num círculo, pode ser facilmente dissolvida com a introdução da noção de possível. O passado pode ser entendido como ponto de partida ou fundamento das possibilidades porvindouras, e o futuro como possibilidade de conservação ou de mudança do passado, em limites (e aproximações) determináveis. 4º A introdução de novos conceitos interpretativos, expressos por termos como projeto ou projeção, antecipação, expectativa, etc., mostraram-se úteis nas análises filosóficas e passaram a fazer parte do uso filosófico (Abbagnano, 1998, 944-948). 18
  18. 18. Gestão do tempo André Cunha 19
  19. 19. Gestão do tempo André Cunha 20 2 O início do tempo 2.1 O tempo tem um início? Tentarmos perceber e entender o início do tempo é uma questão que suscita indubitável reflexão. Existirá um instante preciso em que se possa afirmar que aí se deu o início do tempo? É pertinente tentarmos determinar quando esse início se deu? Qual a relevância de apontarmos para um instante onde se tenha dado início ao tempo? As linhas seguintes abordam esta temática sobre a qual ainda muitas reticências existem. Aristóteles, no termo de uma análise do instante, concluía com a tese de que o tempo é eterno e que, na realidade, não se pode falar de um seu início (Prigogine, 1988, 35). A tradição bíblica levou a que alguns filósofos traduzissem a ideia de que o tempo foi criado num determinado momento, ou seja, o início do tempo deu-se perante a ocorrência de um qualquer acontecimento ou fenómeno, havendo também a ideia apresentada por alguns pensadores como Giordano Bruno e Albert Einstein de que o tempo era eterno, o que é o mesmo que dizer que o tempo não tem início nem fim. (Prigogine, 1988). A concepção do tempo e o seu começo é, sem qualquer margem para dúvida, um tema inquietante, ao mesmo tempo apaixonante, pois, como referimos anteriormente, não pode considerar-se existir algo objetivo e definitivo sobre esta temática. Muitas gerações de pensadores deixaram o seu testemunho sobre esta problemática e acredita-se que esta discussão continue nas gerações vindouras. Para Prigogine (1988), a pergunta mencionada no início deste capítulo não faz sentido no contexto da ciência clássica. Tal deve-se ao fato do universo, nesta concepção, ser considerado um autómato e por esse motivo não possuir história, isto pois, e
  20. 20. Gestão do tempo transcrevendo as palavras do autor, “uma vez posto a caminho, ele prossegue o seu percurso até ao infinito” (Prigogine, 1988, 35). No século XIX, com o aparecimento da teoria de Charles Darwin, o evolucionismo, a ideia de evolução já estava bastante presente e a pergunta sobre o início do tempo, era já feita de forma muito clara, havendo quem se questionasse como era possível conceber um mundo em evolução quando a ciência postulava que vivíamos num mundo estático e determinista (Prigogine, 1988). Iremos tentar esclarecer e clarificar alguns pontos sobre este tema. Para isso, abordaremos nas linhas seguintes o ponto de como terá aparecido o tempo no universo. A obra de apoio é O nascimento do tempo (Prigogine, 1988). A questão central é: deu-se, em verdade, o nascimento do tempo? É uma questão melindrosa e como já temos vindo a referir, possivelmente não existe uma resposta única e óbvia à questão. Como constatamos no excerto acima transcrito, o tempo tem o seu início quando esse início é convencionado por alguns grupos de pessoas, alguns pensadores, alguns filósofos, denominações religiosas, enfim, o nascimento do tempo é de difícil determinação, correndo mesmo o risco de afirmar que é impossível determinar o seu início. André Cunha A questão é muito complexa. Provavelmente deu-se o nascimento do nosso tempo. Está aqui o nascimento do tempo em si? É um hábito, uma convenção, aquela que nos leva a contar o tempo a partir de um evento. Seja o nascimento de Cristo ou a fundação de Roma, trata-se sempre do nascimento do nosso tempo (Prigogine, 1988, 59). 21
  21. 21. Gestão do tempo Afirmar que o tempo nasce com o Big Bang é afirmar o impossível, pois não se conhece o fenómeno na sua plenitude nem este pode ser inteiramente comprovado (Prigogine, 1988). Não importa, aqui, concordarmos ou aceitarmos a perspectiva do autor. O que se torna fundamental é percebermos que a problemática tempo é real, é latente a pensadores de várias gerações e continuará sendo. Neste sentido e baseado nisto, afirmo que é muito difícil gerirmos o nosso tempo. Difícil, porquê? Gerirmos algo que não temos a certeza do que é, ultrapassa em larga escala a capacidade humana. Podemos debater-nos sobre as várias concepções de tempo, onde nasceu, como existe e estas perguntas, muito dificilmente, terão respostas objectivas e únicas. Assim, fundamental é tentarmos saber o máximo sobre o tema para que dessa forma possamos compreender o nosso tempo e assim rentabilizá-lo. André Cunha Da mesma maneira, não creio que a vida corresponda a um fenómeno único: forma-se sempre que as circunstâncias planetárias sejam favoráveis. E mais, creio que se formará outro universo sempre que as condições astrofísicas forem favoráveis a tal evento. O nascimento do nosso tempo não é, por conseguinte, o nascimento do tempo. Já no vazio flutuante o tempo preexistia em estado potencial (Prigogine, 1988, 59). 22
  22. 22. Gestão do tempo André Cunha 23 3 O tempo 3.1 O relógio Quando pensamos em tempo, um objeto aparece-nos imediatamente no nosso pensamento. Esse objeto é o relógio. Será o relógio o reflexo do tempo? É o relógio o tempo em si mesmo? O pensamento mais comum e redutor é responder sim às questões acima apresentadas. O relógio, no conhecimento denominado de popular, é o tempo, controla e dita o mesmo. É esta a verdadeira realidade? Um relógio dá as horas, estamos de acordo, passa mesmo as suas horas a não fazer senão isso, mas não mostra nada daquilo que é o tempo para além deste processo de actualização. Pelo contrário, dissimula o tempo por detrás da máscara convincente de uma mobilidade perfeitamente regular. Revestindo-o de movimento, desloca-o: o tempo torna-se uma metamorfose do espaço, um duplicado da extensão. Mas o movimento confunde-se com o tempo? É antes uma camuflagem do tempo ou um substituto, de resto fácil de identificar. Quando um relógio avaria, os seus ponteiros imobilizam-se sem que isso impeça o tempo de continuar a fluir. A paragem do movimento não equivale à paragem do tempo: um objecto imóvel é tão temporal como um objecto em movimento (Klein, 2007, 14). Na verdade e como podemos verificar pelo texto acima transcrito, o relógio não é o tempo, não reflete o tempo, simplesmente mostra horas (Klein, 2007). O tempo, em si, é muito mais que isto, é imensamente mais complexo. O tempo habita fora do relógio. Mais precisamente, não há muito mais tempo dentro de um relógio do que fora dele, pela simples razão de que ele não existe em lado nenhum de maneira directa: este tempo que fabrica a sucessão dos instantes nunca o vimos, nem nunca o cheiramos, o escutamos ou tocámos. Na verdade, não percebemos senão os seus efeitos, as suas obras, os seus adornos, as suas metamorfoses, que podem enganar-nos a respeito da sua natureza (Klein, 2007, 15). A história do tempo é já longa e até por esse motivo vemos que os relógios não poderiam nunca ser o tempo, pois estes não existiam no antigamente mais profundo e as referências ao tempo são já feitas desde há vários séculos atrás, como aconteceu nas paredes do túmulo de Tutankamon, faraó da 18ª dinastia, ainda muito antes de Galileu,
  23. 23. Gestão do tempo onde se encontram representados vinte e quatro babuínos que pensa-se representarem as vinte e quatro horas de um dia (Klein, 2007). Está provado que os relógios não são o tempo, e que apenas mostram o passar das horas. Devemos admitir que é um instrumento atualmente útil e importante para a sociedade contemporânea na sua regulação. Agora, o que é o tempo? Mais uma vez uma incógnita. Este não se mostra, nem se revela, embora não seja possível viver sem o tentarmos conceber (Klein, 2007). André Cunha 24 3.2 A palavra tempo Todos julgamos saber o que é o tempo, o que envolve o tempo. Frequente é usarmos expressões como não tenho tempo ou o tempo passa tão rápido, tenho que fazer duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, banalizamos a palavra tempo e usámo-la de uma forma corriqueira sem pensar no seu verdadeiro significado ou essência. Qualquer um de nós percebe tacitamente do que está a falar quando se fala de tempo. Quem não crê mesmo conhecê-lo intimamente? Não é preciso sermos um Kant, um Einstein ou um Heidegger para nos autorizarmos uma opinião de perito, para apresentarmos a nossa própria concepção da coisa. E sim! Pertencemos, à condição humana, temos a sua experiência e isso é quanto basta, pensámos nós, para evocar a questão do tempo. Então apregoamos velhos truísmos, reciclamos ideias-múmias, elevamos simples conversas de café ao estatuto de pensamento colectivo (Klein, 2007, 19). Voltando ao título com que iniciei esta parte do trabalho, tempo é na verdade uma palavra bastante usual no nosso vocabulário e léxico diário, daí pode advir a nossa banalização na tentativa de compreendermos o seu conceito. Por isso, pensemos sobre qual o significado desta palavra, pois, o mesmo parece não estar perfeitamente esclarecido nas nossas mentes. ...será sinónimo de simultaneidade, como na expressão ele faz duas coisas ao mesmo tempo? Reenviará para a ideia de sucessão, como na frase virá o tempo de este livro estar terminado? Para a de duração, como em o autor precisou de
  24. 24. Gestão do tempo Como vemos, a palavra tempo acarreta sobre si três outras palavras que também elas têm significâncias bem distintas. Simultaneidade, sucessão e duração, que podem significar mudança, evolução e repetição, enfim, significados diferentes que trazem ambiguidade à problemática tempo, advindo também desse facto a dificuldade em concretizá-lo objectivamente (Klein, 2007). Muitas definições de tempo existem e todas elas são diferentes e nos fazem refletir sobre algo novo. Para Platão “o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”, para Aristóteles, “o número do movimento de acordo com o antes e o depois”, Giono menciona que “o tempo é o que passa quando nada se passa”, desta forma é, e volto a frisar, de enorme dificuldade caracterizar objectivamente o tempo, isto se for, realmente possível fazê-lo (Klein, 2007, 20). André Cunha algum tempo – oh, não muito – para terminar a escrita da sua obra? (Klein, 2007, 20). 25 Sobre a problemática da definição do tempo, afirma Pascal: O tempo é deste tipo. Quem o poderá definir? E porquê tentá-lo, se todos os homens compreendem o que queremos dizer quando falamos do tempo sem o designarmos mais profundamente? (Klein, 2007, 20). A palavra tempo e o seu conceito varia de autor para autor, de época para época e não é algo que se possa considerar estático. Podemos julgar saber do que se trata, mas a nossa visão é e será sempre limitada, mesmo muito pequena sobre a verdadeira grandeza daquilo que é o fenómeno tempo. Continuará sendo um dos grandes mistérios com o qual nos teremos que debater. Algo que é inequívoco no pensamento de todos é que mesmo não conhecendo a sua verdadeira essência, afecta-nos e temos que de alguma forma geri-lo, sedo que é inerente à nossa vivência.
  25. 25. Gestão do tempo Debrucemo-nos, agora, sobre a passagem do tempo. Todos afirmamos que o tempo passa. Será mesmo assim? Heidegger afirma também “o próprio tempo, em todo o seu desdobramento, não se move e está imóvel e em paz” (Klein, 2007, 22). Por estas transcrições constatámos que o tempo existe sempre e não é este que passa. O que passa são os acontecimentos, as diferentes realidades. O tempo não (Klein, 2007). Mesmo assim, o que é fascinante sobre esta temática é a sua contínua descoberta e o aprofundar do seu estudo. Com isto em mente continuaremos a tentar desbravar os caminhos que o tempo percorre, mesmo que esses caminhos possam ser infinitos e a nenhum destino nos conduzam. André Cunha Mas ao deduzir que é o próprio tempo que passa, equivocamo-nos. A sucessão dos três momentos do tempo (futuro, presente e passado) não significa que o tempo se suceda a si próprio. Eles passam, ele não (Klein, 2007, 22). 26 3.3 O tempo antes do tempo Num capítulo anterior, com o título o tempo tem um início?, referimos que não era de todo simples e fácil definir quando o tempo tinha tido o seu começo. Escrevemos que o nascimento do tempo correspondia ao nascimento do nosso tempo, isto é, esse nascimento foi definido por nós, teve início com algum acontecimento. Neste capítulo abordaremos o tempo antes de ser tempo fazendo alusão a mitos antigos. Acreditava-se, segundo esses mitos antigos, que o mundo que existia não estava sob a influência do tempo. Este aparece pela necessidade de se criar uma história, de provocar evolução (Klein, 2007).
  26. 26. Gestão do tempo Jean-Pierre Vernant conta que na versão dos mitos gregos existia, no início, o Céu e a Terra, Urano e Gaia. O Céu tinha sido criado por Gaia e cobria toda a Terra. Urano, por seu lado, estava continuamente colado a Gaia com quem tinha e mantinha uma constante atividade sexual. Isso levou a que Gaia engravidasse e tenha tido uma série de filhos. Reza a história que a pressão sobre Gaia por parte de Urano era de tal forma que esta não conseguia libertar os filhos concebidos no seu ventre e estes acabavam por asfixiar. Assim, Kronos, o último filho a ser concebido, tenta ajudar a sua mãe, tentando libertá-la de Urano. O plano passou por agarrar os órgãos sexuais de Urano durante a atividade sexual e cortá-los. Isso aconteceu, e dessa forma Urano separou-se de Gaia, tendo este se fixado no topo do mundo e nunca mais de lá ter saído. Com esta ação de Kronos ocorreu a separação entre o céu e a terra e assim o que fosse criado e nascesse tinha um lugar para se desenvolver. Com esta possibilidade passa a haver história e assim o surgimento de um tempo, embora antes Urano e Gaia já experimentassem a duração sendo isso considerado um tempo fechado, pois era somente entre eles os dois. Com este acontecimento Kronos liberta Cronos e dá-se o desenrolar da história (Klein, 2007). No hinduísmo, algo de muito similar aconteceu. Tal é comprovado através de textos muito antigos. Vemos que o tempo surge somente a partir de um momento, onde tal se tornou necessário (Klein, 2007). “Noutros termos, há um mundo que existe previamente, no qual explicam-nos, há duração mas não há tempo” (Klein, 2007, 33). André Cunha 27 Salphata Brahmana em relação aos mitos da criação afirma o seguinte: No começo as Águas, o Oceano existiam sozinhos. As Águas suspiraram: Como chegaremos a procriar? Fizeram um esforço, demoraram o seu fervor e desenvolveu-se n’Elas um ovo de ouro. O tempo, é certo, não existia então, mas o ovo flutuou tanto tempo quanto dura um ano. Durante esse ano, surgiu um ser: era Prajapati. Prajapati, o senhor das criaturas, pronunciando balbucios de uma ou duas sílabas, criou a Terra, o Espaço e o Céu (Klein, 2007, 33).
  27. 27. Gestão do tempo Assim vemos mais um exemplo sobre a não existência de tempo que posteriormente passa a existir. O tempo existe! O que é o tempo? É e será uma questão por responder. Certo parece ser que há um tempo antes de haver tempo e que este surge por uma absoluta necessidade de se criar história e de dar ordem às coisas. Esta parece ser uma das funções do tempo. Querermos objetivar o que quer que seja sobre esta questão é incorrermos no erro de limitarmos o nosso pensamento e dessa forma não estarmos predispostos a um ponto essencial na descoberta do conhecimento. Esse ponto é a consciencialização necessária de que nada sabemos e por isso percorrermos caminhos, trilhos e montanhas no sentido de mais sabermos, de sermos mais e sermos melhores. André Cunha Resumindo: o tempo é no mínimo a razão de as coisas continuarem a estar presentes. Sem ele, tudo passaria de uma vez só: no momento em que aparecesse, o mundo voltaria a mergulhar no nada. Podemos ter a impressão de que ele não flui, mas não é mais que uma impressão, uma ilusão, uma maneira de dizer: ele não pára nunca de fluir. O tempo não é um lago (Klein, 2007, 37). 28 3.4 O tempo físico A obra O tempo, de Galileu a Einstein (Klein, 2007) apresenta-nos uma visão sobre o tempo físico que consideramos muito pertinente apresentar. Afirmar que o tempo físico é uma alegoria, uma fantasia e algo que não pode ser percepcionado é considerado um exagero. Relacionado com isto aparece o exemplo do tédio que vem mostrar a forma como esta ideia é exagerada (Klein, 2007). Existe uma experiência – propriamente metafísica – do tempo físico que é a do tédio: quando nada acontece, quando nada se anuncia, quando nada se passa, vivenciamos a existência de um tempo esvaziado despido das suas transfigurações e dos seus cambiantes, investido de autonomia, um tempo sem elasticidade, que parece ter-se dissociado do devir e da mudança. É o tempo posto a nu, o tempo físico tal como foi pela primeira vez definido por Newton (Klein, 2007, 45).
  28. 28. Gestão do tempo O que é isto do tédio? O tédio dá-se quando nada temos para fazer, quando o que fazemos carece de interesse e quando a duração daquilo que fazemos não existe (Klein, 2007). O autor apresenta-nos também a ideia que o tédio tem dois lados: um negativo e um positivo. Do lado negativo, ou lado mau, o tédio transparece uma falta de ser, um vazio, um nada. Do lado positivo, o tédio oferece o espaço para o auto conhecimento, para nos percebermos, nos entendermos. O tédio permite-nos, porque temos tempo, encontrarmo-nos e assim realizarmos um exercício de reflexão muito pessoal. O tédio permite-nos André Cunha 29 saborear o tempo, ou seja, a sensação de um tempo físico (Klein, 2007). 3.4.1 Henri Bergson e o tempo físico Relacionado com esta temática, não houveram muitos pensadores que ousaram escrever e teorizar sobre a mesma, contudo Henri Bergson fê-lo e assim tentaremos expor o seu ponto de vista. Ele defendia a ideia de que o tempo físico resultava de uma simples extensão às coisas da nossa experiência subjectiva da duração. Para ele, se acabámos por desenvolver uma representação física do tempo, é porque estendemos ao mundo que nos rodeia por simples continuidade, o nosso próprio vivido temporal (Klein, 2007, 48). Bergson afirma ainda que: ...a temporalidade do açúcar que derrete num copo de água sobre a mesa é na realidade o reflexo da minha espera, eventualmente o da minha impaciência. Partindo assim da minha própria consciência para o copo de água, depois para a mesa, depois para os outros objectos ao meu redor, posso passar da afirmação eu perduro à conclusão de que o universo perdura também (Klein, 2007, 49). Estas ideias de Bergson não tinham grande apoio, isto pois, colocar o tempo físico como sendo o estender do que havíamos vivido era considerado subjetivo, carecia realmente de real compreensão (Klein, 2007).
  29. 29. Gestão do tempo Quem se opôs frontalmente a esta ideia de Bergson foi Einstein, com quem de resto, este travou alguns diálogos bem interessantes. Assim Einstein citado por Maurice Merleau-Ponty: Mais uma vez podemos verificar que a discussão sobre o tempo, e neste caso concreto, o tempo físico também não gera consensos quanto à sua natureza e definição. Podemos contudo, afirmar que existe um tempo físico e que este tem vindo a ser tentado caracterizar. Outro ponto que é interessante voltar a frisar, revelado pelo autor do livro, é a importância e relevância do tédio neste contexto. Os caminhos do entendimento do tempo a todos estes passos obrigam. André Cunha É à ciência, explica ele ao filósofo, que é preciso exigir a verdade sobre o tempo como sobre tudo o resto. E a experiência do mundo apreendido com as suas evidências não é senão um balbucio antes da clara palavra da ciência (Klein, 2007, 49). 30 3.4.2 Tempo físico vs tempo psicológico Estando, nesta fase, já bem claro e explícito o conceito de tempo físico, importa contrastar este com um novo, o tempo psicológico, que é descrito por vários autores. Por esse motivo cremos ser importante apresentar de que forma estes dois tempos diferem e se realmente existe alguma lógica nesta distinção. Comummente associamos o tempo psicológico à nossa interpretação da passagem do tempo, das durações, se algo que está para acontecer está a demorar muito ou se algo que ocorreu passou muito rápido. É realmente disto que trata o tempo psicológico? Faz sentido falarmos neste tempo? Que diferenças, a existirem, podemos apontar entre o tempo psicológico e físico? Tentemos responder a estas questões. Num dos muitos diálogos que se deram entre Bergson e Einstein sobre a questão do tempo, o segundo afirmou: “Não há um tempo dos filósofos; há um tempo psicológico diferente do tempo dos físicos” (Klein, 2007, 131).
  30. 30. Gestão do tempo Suportando-nos nesta afirmação de Einstein, faz todo o sentido a referência à existência de um tempo psicológico diferente de um tempo físico, que é muitas vezes associado ao tempo ditado pelos relógios, como também já vimos num capítulo anterior (Klein, 2007). Também sobre isto e sobre o que pode ser uma experiência pertinente de apresentar na compreensão do que é o tempo psicológico e a sua existência, escreve Paul Valery: “Esperai pela fome. Tende necessidade de comer e vereis o tempo” (Klein, 2007, 131). Lembremo-nos que para percebermos a existência do tempo físico recorremos à experiência do tédio. Posto isto, acreditamos que faz todo o sentido dissertar sobre a existência de um tempo psicológico diferente de um tempo físico (Klein, 2007). André Cunha 31 O objectivo passa por apontar essas diferenças e explicitá-las convenientemente. A distinção mais evidente entre estes dois tempos refere-se ao seu escoamento. O tempo físico flui de maneira uniforme, ao passo que o ritmo do tempo psicológico varia; de acordo com as circunstâncias, pode dar a impressão de estagnar ou, pelo contrário, de acelerar. Se usamos um relógio no pulso é precisamente porque a nossa apreciação das durações não é fiável: temos regularmente de acertar os nossos pêndulos (Klein, 2007, 131-132). Não podem haver dúvidas quanto à existência de alguns fatores que influem na nossa percepção do tempo, o que é igual a dizer tempo psicológico. Os fatores mais relevantes são a idade, que vai influenciar a forma como vemos as coisas, a intensidade e o significado que certos acontecimentos passados ou que estão no porvir têm para nós. Estes factores têm total importância na forma como entendemos o tempo (Klein, 2007). Várias experiências realizadas comprovam o que acima foi escrito. Uma das experiências relevantes é a chamada experiência dos espeleonautas, homens e mulheres que voluntariamente decidiram viver durante um longo período de tempo em cavernas sem qualquer elemento que lhes permitisse percepcionar corretamente o passar das
  31. 31. Gestão do tempo horas, como é o caso do relógio. O que se verificou foi que a sua percepção de duração e de passagem do tempo era tremendamente diferente daquela que era dada pelos relógios (Klein, 2007). Outro caso onde se constata que o que é intuído pela passagem do tempo é diferente do que realmente se passa verificou-se no relato de Paul Fraisse sobre a catástrofe mineira de Courrières: É absolutamente tremenda a forma díspar como percepcionamos o tempo quando não temos qualquer referência objetiva do passar do mesmo. Assim vemos que existem claras diferenças entre os dois tempos mencionados e, por esse motivo, não podemos negar a sua existência. Apresentemos outra diferença. Esta distinção entre tempo físico e psicológico é bastante complexa e está comprovado cientificamente que envolve processos a nível cerebral e neurológico absolutamente fantásticos do ponto de vista da dificuldade da sua compreensão (Klein, 2007). Interiorizemos que a passagem do tempo e a sua duração é algo que na verdade é muito complicado. Os fatores enunciados anteriormente, a idade, a importância e o significado que damos às coisas influenciam em larga escala tudo o que pensamos sobre o tempo. André Cunha ...na sequência de desabamentos, os mineiros ficaram encerrados numa galeria de onde apenas conseguiram sair depois de três semanas de esforços. Uma vez livres, declararam espontaneamente que lhes parecia não terem passado mais do que quatro ou cinco dias no fundo da mina. As durações, mesmo quando vividas em angústia, podem portanto estimar-se em cinco vezes mais curtas do que o são na realidade (Klein, 2007, 132). Tempo físico e tempo psicológico distinguir-se-iam igualmente pelas suas maneiras correspondentes de apresentar o presente. O presente do tempo físico tem uma duração nula. Concentra-se num ponto, precisamente o instante presente, que separa dois infinitos um do outro: o infinito do passado e o infinito do futuro. O tempo psicológico, por sua vez, mistura dentro do próprio presente um pouco do passado recente e um pouco do futuro próximo. Cria, portanto, uma certa duração ao verificar o que o tempo físico não pára de separar, retendo provisoriamente o que transporta, incluindo o que ele exclui (Klein, 2007, 133). 32
  32. 32. Gestão do tempo Não poderemos nunca afirmar que este processo ocorre sempre da mesma forma. Bachelard, outro importante filósofo afirma o seguinte sobre a duração: Mais uma vez, muita precaução é necessária quando dissertamos sobre o tema tempo. Neste ponto onde introduzimos o tempo psicológico, precaução é igualmente necessária. Que este existe parece ser inequívoco, que ele tem influência no nosso quotidiano e nas nossas ações também é indubitável. Agora é essencial termos presente que a sua compreensão não é um caminho sem pedras, sem socalcos ou qualquer ruído. Tenhamos noção da sua existência e tentemos compreendê-lo mas nunca proferir certezas sobre o mesmo (Klein, 2007). André Cunha A duração não se limita a perdurar, ela vive! Por pequeno que seja o fragmento considerado, um exame microscópico é suficiente para ler aí uma multiplicidade de acontecimentos. Sempre os bordados, nunca o tecido; sempre sombras e reflexos sobre o espelho móvel do rio, nunca o fluxo límpido (Klein, 2007, 134). 33 3.5 Tempo: linear ou cíclico? Na continuação da nossa reflexão sobre o tempo, uma questão torna-se importante. É o tempo uma linha reta, isto é, um tempo que corre sempre ou é o tempo circular, o que significa que se pode repetir e é dessa forma considerado cíclico? Certo é que o tempo corre do passado para o futuro (Klein, 2007). Vejamos, então, qual a ideia sobre o tempo, neste contexto, que prevalece. O tempo cíclico foi uma concepção que perdurou ao longo de vários séculos, embora tenha sido destronado posteriormente pelo tempo linear (Klein, 2007). Tentemos perceber como. Está referenciado que esta mudança de paradigma se deveu em larga escala a uma influência do cristianismo primitivo (Klein, 2007). Este tinha como fundamento o fato de que o reino de Deus se viria a estabelecer na terra, o que por conseguinte reafirma
  33. 33. Gestão do tempo que novos tempos são fundados com a ocorrência de alguns acontecimentos, como também já anteriormente mencionamos. Este fato vem contrariar o aspeto da repetição dos tempos, a concepção cíclica do mesmo, no qual ocorrem repetição de tempos (Klein, 2007). Sendo ponto assente que um acontecimento determina o surgimento de um novo tempo. A ideia de que os tempos se repetem é rejeitada, pelo fato de acontecimentos não se repetirem, pelo menos, acontecimentos exatamente iguais. Associado a esta ideia e para corroborar a teoria que o tempo é linear, mencionaremos o princípio da causalidade no destrinçar desta questão. Este princípio aponta para a necessidade de uma causa para que algo aconteça, pensamento partilhado por filósofos como Aristóteles, Kant e até La Palice (Klein, 2007). Mas qual a relação deste aspeto com a justificação de o tempo ser não cíclico? Perante este excerto vemos que a ideia de um tempo cíclico é completamente refutada. É fatual que o tempo não volta atrás, e que aquilo que fazemos fica para a história, a nossa história, não sendo possível mudar tudo o que já foi feito ou ficou por fazer. O tempo segue o seu curso e simplesmente conta o que vamos fazendo e o que podemos vir a fazer. André Cunha Em geral, o princípio da causalidade enuncia-se dizendo que todos os factos têm uma causa e que a causa de um fenómeno é necessariamente anterior ao próprio fenómeno (Klein, 2007, 64). Num tempo circular, o devir regressa sobre si mesmo para tudo fazer reaparecer, embora o que chamamos a causa pudesse igualmente ser o efeito, e vice-versa. O princípio de causalidade seria, pois, inaplicável. A circularidade do tempo levaria além disso a enfrentar situações muito curiosas: se ir em direcção ao futuro fosse equivalente a voltar ao passado, um ser humano poderia suprimir no passado uma das causas que permitiram o seu nascimento, por exemplo impedir qualquer encontro entre o seu pai e a sua mãe. Tal paradoxo, possível com um tempo cíclico, já não o é com um tempo linear, ordenando este os acontecimentos de acordo com um encadeamento cronológico irremediável (Klein, 2007, 65). 34
  34. 34. Gestão do tempo O princípio da causalidade sofreu ao longo dos tempos algumas alterações. Ao invés de apresentar que determinada causa tinha sempre o mesmo efeito, passou a postular que uma causa produzia um efeito, não tendo o mesmo que ser sempre o mesmo. Por vezes, acontecimentos muito similares ocorrem mas isso não significa que o tempo é cíclico, significa apenas que algo muito parecido aconteceu com o que já previamente se havia dado (Klein, 2007). Estando o ponto sobre o princípio da causalidade esclarecido, importa reafirmar algo que é comummente aceite e que sintetiza a importância da linearidade do tempo. André Cunha Assim depurado, o princípio de causalidade estipula simplesmente que o tempo não tem caprichos, que flui num sentido bem determinado, de modo que podemos sempre estabelecer uma cronologia bem definida se os acontecimentos estiverem causalmente relacionados (Klein, 2007, 66). A linearidade do tempo, desde que foi afirmada, abriu novas perspectivas: marcada por acontecimentos únicos, tendente para um futuro necessariamente novo, rompia radicalmente com a gaguice do tempo circular e as duas monótonas iterações. Ela fez do futuro uma aventura. Antes dela, a lengalenga, o sempiterno, e nada mais. Com ela, a produção histórica, a invenção, o inédito. Mas também os ciclos. E às vezes o irreparável, o definitivo. Por construção, o tempo linear avança implacável em direcção do futuro. Cada dia que faz, é um dia novo incessantemente, o desfile rectilíneo dos seus tiquetaques consome pouco a pouco os restícios de perfeição circular. Melhor, dá-nos uma margem de manobra e um semblante de liberdade (Klein, 2007, 68). 35 3.6 A continuidade e descontinuidade do tempo Relativamente ao aspeto da continuidade ou descontinuidade do tempo torna-se importante referir que devemos ser cautelosos e não tentarmos achar ou retirar conclusões precipitadas sobre o tema. Existem, na verdade, equações que podem ultrapassar o nível da nossa inteligência e até mesmo aspetos relacionados com isto que não sejam possíveis de entendimento. Talvez exista mesmo mais que um tempo, podendo estes existir ao mesmo tempo. Assim, prudência é o termo certo quando procuramos refletir sobre esta temática (Klein, 2007). Tendo em conta o que anteriormente foi escrito, vamos desdobrar esta questão.
  35. 35. Gestão do tempo O que seria mais facilmente aceite e que à primeira vista se sustenta naquilo a que chamámos de lógica é de que o tempo e consequentemente o espaço, pois aqui estaremos sempre a referir-nos ao binómio espaço-tempo, são grandezas contínuas. Em verdade, é até estranho imaginarmos qualquer umas destas duas grandezas sendo como não contínua. Isso implicaria a existência de buracos, lados escuros e desconhecidos, em suma, haveria falhas no espaço que desconhecemos (Klein, 2007). Relativamente a esta possibilidade existem alguns exemplos mencionados na obra O tempo, de Galileu a Einstein (Klein, 2007) que podem levar ao levantamento desta hipótese. Em primeiro lugar são referenciados os trabalhos de Max Planck sobre o corpo negro que concluíram que as trocas de energia entre a radiação e a matéria só podiam ocorrer através de pacotes descontínuos. Vemos aqui o primeiro sinal de descontinuidade. Posteriormente, é-nos apresentada a ideia da descontinuidade do espaço, estando este agregado ao tempo, que estaria estruturado como sendo uma espécie de rede, ou seja, que teria espaços entre si. Mas seria isto realmente possível? (Klein, 2007). Vejamos o que aconteceu com o decorrer dos trabalhos de Alain Connes em 1980 também mencionados na obra (Klein, 2007). Esta escala muito pequena permite deduzir que existem pequenos espaços no espaço, permitindo-me a redundância. Por isso, a possibilidade da descontinuidade estar aqui vincada e expressa (Klein, 2007). André Cunha Estes referem-se às geometrias não comutativas que permitem considerar estruturas que apresentam um carácter descontínuo. (...) Para construir estas novas geometrias, é necessário substituir as coordenadas espaciais usuais que são números comuns por operadores algébricos que têm a propriedade de não comutarem entre si. (...) Estes operadores algébricos não são uns quaisquer: verificam certas relações que definem as propriedades do espaço a uma escala muito pequena (Klein, 2007, 115). 36
  36. 36. Gestão do tempo Na verdade, e como referia no início do capítulo, temos que ser prudentes na discussão deste tema, pois, existem várias possibilidades, duas neste caso, a serem consideradas. Não há uma possibilidade unanimemente aceite, há sim possibilidades a serem consideradas e por isso a terem que obrigatoriamente ser relevantes para o nosso pensamento e exercício reflexivo sobre o tema. O tempo está presente, é real mas a sua compreensão é alvo de uma grande subjetividade. Daí torna-se fundamental muito bem o conhecermos em todas as suas variantes. “Dançará o Universo uma valsa a dois tempos? Ou mesmo a três?” (Klein, 2007, 116). Fica aqui a questão. André Cunha 37 3.7 Tempo no inconsciente Dissertarmos sobre o tempo no inconsciente, é arriscar, é caminhar sobre um terreno pantanoso, é percorrer caminhos com muito pouca luz. O inconsciente é desconhecido e por esse motivo carece de entendimento, assim, tudo o que possamos escrever sobre o que nele acontece é um exercício de reflexão puramente subjetivo. Porém, houve quem o tenha feito e por isso a referência a este tipo de tempo seja pertinente e necessária. Freud, considerado unanimemente o pai da psicanálise, discorreu sobre este tema. É nosso propósito apresentar o ponto de vista do autor para dessa forma melhor entendermos a que se refere quando menciona a existência de um tempo no inconsciente. O primeiro ponto, bastante claro e preciso, que Freud apresenta sobre o tema é que, “...o inconsciente ignora o tempo” (Klein, 2007, 141). Ele é ainda mais preciso ao afirmar que: ...o inconsciente não sofre os efeitos do tempo no sentido em que ele não declina, não enfraquece. Nada diminui jamais o seu poder de reivindicação. Ele seria, em suma, como o próprio passado: impossível de alterar (Klein, 2007, 141).
  37. 37. Gestão do tempo Ainda segundo Freud: “No inconsciente – escreve - nada acaba, nada passa, nada é esquecido” (Klein, 2007, 141). A posição de Freud é bastante clara. O inconsciente não se importa com o tempo. Quase podemos afirmar que este tem vida própria (Klein, 2007). Como referia no início, é perigoso falarmos de um tempo no inconsciente como foi feito por Freud, pois ele assume posições muito definitivas com as quais temos alguma dificuldade em concordar. Mais uma vez, prudência é necessária neste tema. Sobre o fato de o inconsciente ignorar o tempo, Freud apresenta-nos o exemplo de que nos sonhos, que ocorrem no inconsciente, o tempo nem sempre corre do passado para o presente, afirmando que “o sonho mostra-nos o coelho a perseguir o caçador” (Klein, 2007, 142). Assim e continuando a percorrer a sua linha de raciocínio, o tempo no inconsciente não pode ser visto nem interpretado como acontece no tempo físico, ou seja, percorrendo a linha normal do tempo (Klein, 2007). Esta questão do tempo no inconsciente é na verdade muito intrigante. É-nos apresentado que o inconsciente não se importa com o tempo mas contudo guarda e retém pedaços do tempo, podendo estes posteriormente aparecerem sem qualquer relação com uma linha temporal lógica, isto é, uma linha que vai do passado para o futuro. Torna-se confuso percebermos as ideias de Freud pois o que realmente se constata é que mesmo no André Cunha O inconsciente contenta-se em guardar, embora fora de qualquer relação temporal linear, vestígios dos depósitos do passado que são retidos apenas em função da sua intensidade e que podem sempre contaminar-se uns aos outros, a ponto, às vezes, de baralhar a ordem da sua sucessão: às vezes é apenas fora de tempo que um acontecimento passado se transforma realmente num acontecimento. Um efeito de desfasamento temporal interpõe-se entre a data de um facto passado e a sua assimilação pelo sujeito (Klein, 2007, 142). 38
  38. 38. Gestão do tempo inconsciente o tempo está presente, simplesmente não está da mesma forma como acontece no já mencionado tempo físico (Klein, 2007). Mesmo assim Freud segue a sua linha de pensamento e apresenta uma nova relação, sendo esta entre o inconsciente e a faculdade do esquecimento (Klein, 2007). Vemos aqui um claro contraste entre a memorização, ou seja, a consciência de que já fizemos algo igual antes, e a tal faculdade de esquecimento que talvez seja mais conveniente à posição assumida por Freud, pois assim, o tempo continua a ser algo que é ignorado no inconsciente, pelo fato de não haver recordação do que se havia feito (Klein, 2007). O inconsciente é algo, como já referimos anteriormente, desconhecido e sobre o qual muita coisa continuará a ser escrita. A posição de Freud é que este ignora o tempo. Mas vimos também que o tempo ou pedaços dele ficam registados no inconsciente. Tomar uma posição definitiva sobre a questão? Não podemos (Klein, 2007). O que sabemos é que a problemática tempo é tão abrangente que até nas questões do inconsciente tem lugar. Tentemos sobre ele saber o máximo para melhor o gerirmos, tendo sempre em mente a tão já proclamada precaução. André Cunha Ele observa primeiro certos comportamentos repetitivos que mostram que há formas circulares em acção no inconsciente. O sujeito repete um acto em vez de recordar a sua primeira ocorrência, reprodu-lo em vez de o representar, como se um curto-circuito o tivesse feito perder a memória daquilo a que a repetição se refere e tivesse imobilizado os seus actos numa forma circular estéril. Freud disse de um tal sujeito que ele repete em vez de recordar, mas poderíamos igualmente dizer que ele repete para não recordar. Quanto mais repete, menos recorda, menos sabe por que repete e continua a repetir para não arriscar tomar consciência do sentido daquilo que, em si, insiste e reitera (Klein, 2007,143- 144). 39
  39. 39. Gestão do tempo André Cunha 40 4 Tempo em Agostinho de Hipona O tempo sempre foi um tema que inquietou personalidades e pensadores, pelo fato deste influenciar e mesmo condicionar em grande parte a forma como vivemos, a forma como sentimos a vida, porque realmente nós vivemos num espaço temporal contínuo, no qual vivemos as nossas experiências, os momentos e as diferentes etapas da vida. Em tudo isto está o tempo. Alguém que foi completamente apaixonado pela vida, que acreditava na felicidade e que procurava conhecer-se, assim como conhecer o mundo, foi Agostinho de Hipona ou Santo Agostinho. Tal homem, numa contínua busca pela felicidade e porque procurava conhecer-se, assim como conhecer o mundo, apresenta o que para si é o conceito de tempo, contextualizando-o de acordo com as suas crenças. É sobre a definição de tempo em Agostinho de Hipona que as próximas linhas se baseiam, pois consideramos ser uma perspetiva interessante. Em primeiro lugar apresentaremos algumas preposições que são fundamentais conhecer em Agostinho para que posteriormente possamos entender o seu conceito de tempo. 4.1 A eternidade de Deus Para Agostinho, Deus é eterno, e este é um ponto essencial a reter e que vem corroborar o que posteriormente veremos sobre o conceito de tempo para este autor (Agostinho, 1984). Todo o seu pensamento está centrado no fato que Deus criou o mundo para que o mundo criado se concretizasse nesse mesmo Deus que o criou. Agostinho, muitas vezes, citava um texto da Bíblia Sagrada, que se encontra em João 1:1 “No princípio era o
  40. 40. Gestão do tempo verbo, e o verbo era Deus”. Assim todo o seu pensamento estava assente em que Deus era o centro de tudo. É essencial, desta forma, que a compreensão do mundo deve partir da compreensão do Criador e é o homem no seu íntimo que tem que compreender o Criador. Para percebermos o pensamento de Agostinho, necessário é interiorizarmos que o homem na busca de uma maior intimidade consigo, só a alcançará através do seu Criador (Agostinho, 1984). Outro conceito absolutamente fundamental em Santo Agostinho, e que é necessário referirmos e explicitarmos, é o conceito de eternidade. A eternidade é definida como sua prioridade, de um ser infinito, cuja realização é simultânea (Agostinho, 1984). De acordo com o que anteriormente foi escrito, para Agostinho, Deus é eterno e esta é uma premissa básica no pensamento deste autor e que não pode nunca e de forma alguma ser esquecida. Agostinho declara o seguinte: Assim e concluindo a ideia do autor, a eternidade não é mais que a simultaneidade de todas as coisas e isto implica que eterno seja o que não se sujeita a mudanças, logo somente Deus é eterno, pois nenhum homem é capaz de não se sujeitar a essas mudanças. De acordo com o que acima está escrito, podemos afirmar que o tempo não pode medir a eternidade, pois esta somente a Deus pertence (Agostinho, 1984). André Cunha Precedes, porém, todo o passado com a sublimidade de tua eternidade sempre presente, e dominas todo o futuro, porque é ainda futuro, e, quando vier, tornar-se- á passado (Agostinho, 1984, 337-338). Pois o que foi dito não foi sucessivamente proferido – uma coisa concluída para que a seguinte pudesse ser dita, mas todas as coisas proferidas simultânea e eternamente. Se assim não fosse, já haveria tempo e mudança e não verdadeira eternidade e verdadeira imortalidade (Agostinho, 1984, 332). 41
  41. 41. Gestão do tempo André Cunha 42 Sobre a questão da eternidade escreve ainda: Mas a vontade de Deus não é uma criatura; é anterior a toda a criatura, pois nada seria criado se antes não existisse a vontade do Criador. Essa vontade pertence à própria substância de Deus. Mas se algo surge na substância de Deus que antes não existia, não é justo denominá-lo substância eterna. Pelo contrário, se era eterna a vontade de Deus que existisse a criatura, por que não é eterna também a criatura? (Agostinho, 1984, 335). É sem dúvida alguma uma questão absolutamente pertinente, mas da percepção do estudo que pudemos fazer, daquilo que é o pensamento de Santo Agostinho, o que Deus cria é feito por um ato livre e por Sua própria vontade. E essa vontade de criar, essa sim, é eterna e por isso a questão de as criaturas criadas serem eternas, é algo que não se pode colocar. As criaturas ao serem criadas por Deus não significa que partilhem da Sua eternidade, porque essas criaturas aparecem apenas num determinado momento em que há vontade que essas criaturas apareçam. Em suma, a vontade divina não é a existência das coisas, mas sim a vontade de que elas existam por si (Agostinho, 1984). Para terminar esta parte referente à eternidade podemos mencionar uma ideia de Agostinho que reflete que a eternidade pode ser definida como não sendo um tempo dilatado, mas um eterno presente (Agostinho, 1984). Medir a eternidade é, na verdade, uma tarefa impossível, pois nesta tudo é presente. Um presente contínuo, onde o antes e o depois não têm lugar (Agostinho, 1984). Estando neste momento perfeitamente perceptível que segundo o pensamento de Santo Agostinho o mundo foi criado por alguém superior, Deus, o mesmo autor afirma que todas as criações estão sujeitas ao tempo. Compreendam portanto que não existe tempo algum antes da criação, e deixem de fazer frivolidades como essa. Que avancem para o que está adiante, de modo a compreender que tu existes antes de todos os tempos, eterno Criador de todos os tempos; que nenhum tempo é coeterno contigo, nem criatura alguma, se bem que haja algumas superiores ao tempo (Agostinho, 1984, 357).
  42. 42. Gestão do tempo Não pode restar qualquer margem para dúvida que todas as coisas foram criadas por Deus e que dessa forma nada existe antes da criação. (Agostinho, 1984). André Cunha 43 4.2 Tempo como característica humana Como referimos anteriormente, Deus é o criador de todas as coisas, e por esse fato e através de simples dedução lógica, Deus é também o criador do tempo. Sendo o tempo criado, significa que este está sujeito a mudanças e por esse fato o tempo aplica-se aos homens e não a Deus (Agostinho, 1984). O que era o homem para Santo Agostinho? O homem, sendo uma criatura criada, é um ser limitado, um ser finito e, por isso, está sujeito ao tempo (Agostinho, 1984). Em Génesis 1:26-27 diz o seguinte: 26: Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra. 27: Assim Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. Podemos ler que o homem foi criado à semelhança de Deus e não igual a Deus. Aqui está a grande diferença. O ser criado não é igual ao Criador e aqui está a razão pela qual este está sujeito ao tempo. O ser criado vive no tempo, vive na mudança, está sujeito ao movimento, movimento este que ocorre no tempo. O que Agostinho escreve está relacionado com este ponto, reforça o que acima foi escrito e corrobora o que está descrito em Génesis 1:1 na Bíblia, onde Agostinho também muito se apoiava. Assim transcrevo os dois textos: O céu e a terra existem e, através de suas mudanças e variações, proclamam que foram criados (Agostinho, 1984, 329). No princípio criou Deus os céus e a Terra (Génesis 1:1).
  43. 43. Gestão do tempo Sem dúvida que tudo foi criado, e tendo sido criado por Deus, este não se sujeitou ao que por Si foi criado. O que pretendemos aqui afirmar, seguindo o pensamento de Santo Agostinho, é que o tempo é uma propriedade do ser criado, pois o ser criado é finito, e os vários momentos da história passam por ele. Deus é eterno, logo não está sob o tempo; o homem, ser criado, é finito, estando dessa forma subjugado ao tempo (Agostinho, 1984). André Cunha 44 4.3 O tempo Temos vindo, até esta fase, a compreender a forma como Santo Agostinho tinha o seu pensamento organizado e as crenças nas quais se baseava. Chegamos agora a um ponto onde é fundamental percebermos o que é o tempo para este pensador. Existiram outras personalidades, como Aristóteles e Platão que tinham teorias como o tempo sendo a medida do movimento para o primeiro e o tempo como a imagem móvel da eternidade para o segundo com as quais Agostinho não concordava, para este, o tempo não era o movimento dos corpos (Agostinho, 1984). Desejas que eu concorde com quem diz que o tempo é o movimento dos corpos? É claro que não concordo. De fato, os corpos só se podem mover no tempo, eu sei e tu o afirmas. No entanto, não creio que o próprio movimento do corpo seja o tempo: isso não o dizes. Quando um corpo se move, posso medir com o tempo a duração do seu movimento, do começo ao fim. Se não vi quando começou, e continua o movimento, sem que eu veja quando acaba, não posso medi-lo (Agostinho, 1984, 349). Provado está que Agostinho discordava em absoluto das ideias que os outros pensadores tinham. Neste caso devemos concordar que o pensamento do autor tem toda a lógica. O repouso, onde não existe movimento, também pode ser medido pelo tempo, logo o movimento dos corpos não corresponde em absoluto ao tempo (Agostinho, 1984).
  44. 44. Gestão do tempo Outro aspeto que também é muito claro é que esta problemática do tempo não é de todo pacífica nem de fácil explicação. O tempo tendo sido criado, possui as mesmas limitações das quais padecem as coisas criadas, ou seja, é limitado e é finito. Mas, até este momento, ainda é vago o verdadeiro conceito de tempo que podemos ter da visão de Agostinho. Sabemos que é finito e é limitado, mas existirá passado, presente, futuro e podem estes três tempos, a existirem, serem divisíveis? Vejamos o que diz o autor sobre este aspeto. Se o passado não existisse a história não existiria, se não existisse o futuro, seria impossível qualquer previsão (Agostinho, 1984). Por esta linha de pensamento, Santo Agostinho, admite a existência de passado e futuro e isto é também um ponto assente. Importa é percebermos de que forma este passado, futuro e o presente existem. É notório por este texto que passado, presente e futuro existem. O que importa ressaltar é que estes tempos existem para os seres e nas mentes desses seres. Cada ser tem o seu passado, presente e futuro, daquilo que conseguimos perceber das palavras de Santo Agostinho. Outro aspeto importante que devemos fazer notar é sobre o tempo presente. Este para verdadeiramente existir, o tempo teria que se dividir em partes infinitamente pequenas para poder ser considerado presente pois o presente é um constante passado devido a não ter qualquer duração embora exista. O tempo presente, numa análise extrema, nunca existe, não tem nenhum espaço pelo fato de constantemente estar a passsar(Agostinho, 1984). André Cunha No entanto, posso dizer com segurança que não existiria um tempo passado, se nada passasse; e não existiria um tempo futuro, se nada devesse vir; e não haveria o tempo presente se nada existisse. De que modo existem esses dois tempos – passado e futuro -, uma vez que o passado não mais existe e o futuro ainda não existe? E quanto ao presente, se permanecesse sempre presente e não se tornasse passado, não seria mais tempo, mas eternidade (Agostinho, 1984, 338-339). 45
  45. 45. Gestão do tempo Realmente a questão do tempo é muito complexa mas o ponto central é que estes tempos existem e a sua existência ocorre na mente de cada ser criado. Mas qual a medida do tempo? Agostinho frisa que o tempo só pode ser medido na mente de cada um. O tempo é medido no espírito, o tempo é de cada um, o tempo é a percepção que cada um tem do que lhe vai acontecendo, do que aconteceu e do que espera que venha a acontecer. Sobre a essência do tempo e a existência dos três tempos, passado, presente e futuro, Agostinho escreve o que a nosso ver explicita bem a sua visão sobre este tema: Pode parecer confuso e até contraditório o que Agostinho escreve sobre esta matéria, mas o que quer deixar claro, é que os três tempos são perceptíveis para cada ser de forma diferenciada, e estes têm que obviamente existir pois são efetivamente percepcionados e temos sensações de passado, presente e futuro. André Cunha É em ti, meu espírito, que eu meço o tempo. Não me perturbes, ou melhor, não te perturbes com o tumulto de tuas impressões. É em ti, repito, que meço os tempos. Meço, enquanto está presente, a impressão que as coisas gravam em ti no momento em que passam, e que permanece mesmo depois de passadas, e não as coisas que passaram para que a impressão se reproduzisse. É essa impressão que meço, quando meço os tempos (Agostinho, 1984, 353-354). Se pudermos conceber um espaço de tempo que seja susceptível de ser dividido em minúsculas partes de momentos, só a este podemos chamar tempo presente. Esse, porém, passa tão velozmente do futuro ao passado, que não tem nenhuma duração. Se tivesse alguma duração, dividir-se-ia em passado e futuro (Agostinho, 1984, 341). Agora está claro e evidente para mim que o futuro e o passado não existem, e que não é exato falar de três tempos – passado, presente e futuro. Seria talvez mais justo dizer que os tempos são três, isto é, o presente dos fatos passados, o presente dos fatos presentes, o presente dos fatos futuros. E estes três tempos estão na mente e não os vejo em outro lugar. O presente do passado é a memória. O presente do presente é a visão. O presente do futuro é a espera. Se me é permitido falar assim, direi que vejo e admito três tempos, e três tempos existem (Agostinho, 1984,344-345). 46
  46. 46. Gestão do tempo Santo Agostinho, realmente, é bastante claro e inequívoco quanto à possibilidade de medirmos os tempos, embora não esteja certo quanto à delimitação desses mesmos tempos. Isso está patente no texto seguinte: O tempo é sem dúvida um tema fascinante para Santo Agostinho. A sua preocupação por perceber o homem, a sua busca pela felicidade e por querer que todos a busquem, como mencionámos no início do capítulo, levou-o a tentar explicar o tempo. Deixou bem claro que Deus é eterno e por isso está acima do tempo, explicou o que é a eternidade e apresentou através do seu pensamento que somente as coisas criadas estão sob o jugo do tempo. O passado, o presente e o futuro, existem, são medidos, embora isso aconteça na mente de cada um e não seja igual para todos. A medição do tempo está dependente das percepções e das emoções individuais, é quase como o rastro que fica gravado na mente de cada pessoa e que cria expectativas em relação ao futuro. (Agostinho, 1984) André Cunha Com efeito, medimos o tempo, mas não o que ainda não existe, nem o que já não existe, nem o que não tem extensão, nem o que não tem limites. Em outras palavras, não medimos o futuro, nem o passado, nem o presente, nem o tempo que está passando. E no entanto, medimos o tempo (Agostinho, 1984, 352-353). 47
  47. 47. Gestão do tempo André Cunha 48 5 Tempo e temporalidade em Jean Paul Sartre 5.1 As três dimensões temporais Decidimos incluir nesta monografia o tempo e a temporalidade na filosofia de Sartre, pois a sua visão corresponde a uma corrente filosófica denominada de existencialismo. Neste é apresentado uma concepção particular e diferente do tempo e por isso a pertinência da sua inclusão neste trabalho. Jean Paul Sartre é uma das figuras maiores desta época e na sua obra O Ser e o Nada (Sartre, 2003) elucida-nos sobre a sua visão do tempo. Este capítulo vem na sequência do que tem vindo a ser abordado sobre a temática, ou seja, temos vindo a apresentar as diferentes visões do tempo de alguns pensadores de diferentes épocas. Um ponto prévio apresentado pelo autor é que: A temporalidade é evidentemente uma estrutura organizada, e esses três pretensos elementos do tempo, passado, presente, futuro, não devem ser encarados como uma coleção de dados (data) cuja soma deve ser efectuada – como, por exemplo, uma série infinita de agoras na qual uns ainda não são, outros não são mais – e sim como momentos estruturados de uma síntese original. Senão, vamos deparar antes de tudo com esse paradoxo: o passado não é mais, o futuro não é ainda; quanto ao presente instantâneo, todos sabem que não existe: é o limite de uma divisão infinita, como o ponto sem dimensão. Assim, toda a série se aniquila, e duplamente, já que o agora futuro, por exemplo, é um nada enquanto futuro e se realizará em nada quando passar esse estado de agora presente. O único método possível para estudar a temporalidade é abordá-la como uma totalidade que domina suas estruturas secundárias e lhes confere significação (Sartre, 2003, 158). Tendo presente que para ser possível dissertar sobre a questão tempo na filosofia de Sartre é necessário pensarmos os três tempos como não autónomos, veremos, mesmo assim, individualmente o que cada um, passado, presente e futuro são para ele e posteriormente poderemos explicitar como estes se conjugam. 5.1.1 O passado Abordar o passado em Sartre é um exercício muito complicado, pois como já tem vindo a ser referido neste trabalho, a própria reflexão sobre o tempo é bastante complexa, visto ser algo que não se conhece nem se conhecerá nunca em absoluto.
  48. 48. Gestão do tempo A primeira pergunta que é deixada em relação a este tempo é: “qual é o ser de um ser passado?” (Sarte, 2003, 159). Para a questão ainda se tornar mais complicada, existem duas posições do senso comum que carecem de objetividade mas que por serem essenciais à compreensão deste tempo, iremos introduzir. A primeira é de que “o passado, diz-se, não é mais” (Sartre, 2003, 159). Ao afirmar-se que o passado já não existe, quer defender-se o ponto de que tudo é um presente e que somente há ser no presente (Sartre, 2003). Mesmo existindo recordações e memórias relativamente ao passado, estas ocorrem no instante presente e por esse motivo estão reduzidas ao presente (Sartre, 2003). Na verdade, esta noção e consequente negação através dela de um ser no passado, remetendo tudo o que lembrámos para o presente é um pouco difícil de aceitar e entender. O homem não poderia viver isolado num estado presente (Sartre, 2003). Existe, porém, outra visão sobre o passado, como referimos anteriormente, que assenta igualmente numa grande dificuldade em aceitar a existência de um passado real e por isso atribuí-lhe o pomposo nome de existência honorária (Sartre, 2003). “Ser passado, para um acontecimento, seria simplesmente estar recolhido, perder a eficiência sem perder o ser” (Sartre, 2003, 160). Isto significa dizer que se admite a existência de um certo acontecimento no passado, que em verdade é, mas por outro lado já não produz efeitos e está simplesmente num lugar lá atrás que não mais virá ao presente (Sartre, 2003). André Cunha Em uma palavra, se começamos fazendo do homem um insular encerrado na ilha instantânea de seu presente, e se todos os seus modos de ser, assim que aparecem, estão destinados por essência a um perpétuo presente, suprimiu-se radicalmente todos os meios de compreender sua relação originária com o passado. Assim como os geneticistas não lograram constituir a extensão com elementos inextensos, tampouco lograremos constituir a dimensão passado com elementos tomados exclusivamente do presente (Sartre, 2003, 160). 49
  49. 49. Gestão do tempo Estas duas visões atribuídas ao passado são realmente algo difíceis de compreender pois saem fora da nossa linha de pensamento lógico. Nenhuma conclusão podemos ou devemos tirar sobre estes pontos, mas devemos sim pensar e interiorizar estas duas concepções. A filosofia bergsoniana, também já mencionada em partes deste trabalho, a respeito do tempo físico, tem a ideia apresentada anteriormente presente. Segundo esta filosofia “entrando no passado, um acontecimento não deixa de agir, mas permanece em seu lugar, em sua data, para toda a eternidade” (Sartre, 2003, 160). Para Bergson, o passado é, em contraste com a ideia de Descartes, na qual o passado não é mais (Sartre, 2003). Os autores mencionados têm importância no entendimento do passado na filosofia de Sartre e assim continuaremos a apresentar os pontos essenciais para a compreensão do tempo em causa. Vejamos, também, a necessidade de se cortar as pontes entre o passado e o presente para percebermos o primeiro. Isto pretende demonstrar que o passado existe em verdade, que o passado é e o que ocorreu no passado, realmente está lá (Sartre, 2003). André Cunha Com efeito, se conferirmos ao presente um privilégio como presença ao mundo, colocamo-nos, para abordar o problema do passado, na perspectiva do ser intramundano. Pensamos existir primeiro como contemporâneo desta cadeira ou desta mesa, e fazemos existir pelo mundo a significação do temporal. Mas, se nos colocarmos no meio do mundo, perdemos toda a possibilidade de distinguir o que não é mais daquilo que não é. Contudo, dir-se-á, aquilo que não é mais, pelo menos foi, enquanto que aquilo que não é não tem nexo de espécie alguma com o ser. É verdade. Mas a lei de ser do instante intramundano, como vimos, pode ser expressa por essas simples palavras: O ser é – que indicam uma plenitude maciça de positividades, onde nada do que não é pode ser representado de alguma forma, sequer por um vestígio, um vazio, um sinal, uma histerese (hystérésis). O ser que é esgota-se inteiramente no ato de ser; nada tem a ver com o que não é e com o que não é mais. Nenhuma negação, seja radical ou suavizada em não...mais, pode ter lugar nesta densidade absoluta. Posto isso, o passado bem pode existir à sua maneira: as pontes estão cortadas. O ser nem mesmo esqueceu o seu passado: seria ainda uma forma de conexão. O passado lhe escapuliu como um sonho (Sartre, 2003, 161-162). 50

×