F_MAGAZINE_#1_miguel_vieira

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F_MAGAZINE_#1_miguel_vieira

  1. 1. Miguel uem é Miguel Vieira? Miguel Vieira é um ser humano igual a tantos outros, a tantos milhões que existem neste planeta, mas sobretudo, em termos profissionais, é uma pessoa muito feliz porque quando teve de decidir a sua ocupação encon- trou realmente a profissão na qual se sente bem e que gos- ta muito. É sobretudo uma pessoa lutadora, que se dedica muito à profissão, bastante trabalhadora e que faz tudo com muita paixão. Conta com mais de 25 anos de carreira. O que mudou no mercado da Moda em Portugal desde o seu começo até aos dias de hoje? Mudou muito! Mudou para melhor! Há 25 anos atrás exis- tiam os cabeleireiros, existiam os manequins, existiam todas essas profissões, no entanto não estavam tão pro- fissionalizadas, o que significa que se nós precisássemos de um manequim tinhamos de contacta-lo diretamente; as agências estavam a tentar organizar-se. Havia cabeleireiros maravilhosos, no entanto não eram especializados na área da moda. Havia maquilhadores que maquilhavam pessoas para casamentos, festas, etc, mas não especificamente para a área da moda. Havia jornalistas que não estavam vocacionados nessa área. Ou seja, ao longo destes anos to- dos, vários intervenientes nesta área foram-se profissiona- lizando e daí que, hoje em dia, obviamente são um suporte forte para cada designer de moda. Qual é a sua opinião em relação à moda portuguesa quan- do comparada à estrangeira? Quais são as maiores difi- culdades com que os criadores portugueses se deparam? A moda portuguesa, em relação à estrangeira, está muito bem classificada, é credível. A única coisa que falta são mul- tinacionais por trás, investidores que apoiem os designers portugueses no sentido de se poderem tornar grandes marcas como as que conhecemos internacionalmente. Para poder criar uma marca é um processo muitíssimo longo e tem custos gigantescos e daí não haver nenhuma marca em Por Ana dos Santos Vieira Lutador e apaixonado pela sua profissão, Miguel Vieira é um dos mais brilhantes designers da moda portuguesa. Com mais de 25 anos de carreira, o criador que já recebeu a Comenda da Ordem Infante D. Henrique, exporta atualmente para o estrangeiro 80% das suas coleções e confessa que ainda tem muitos projetos que lhe faltam fazer. Q Designer de Moda 36 Moda Entrevista
  2. 2. Portugal que seja sponsorizada por financeiros, que seja cotada na Bolsa, à semelhança de marcas como em Paris, Nova Iorque, Milão, Londres, etc. Então essa será também uma das maiores dificuldades com que se deparam quando tentam entrar no mercado? É das maiores dificuldades obviamente porque, para poder lançar qualquer coleção, e garantir reconhecimento em ter- mos mundiais, tem de haver um apoio fortíssimo em termos publicitários e de marketing. E estamos a falar de valores astronómicos que as grandes marcas internacionais têm e que os designers portugueses não têm. Acredita ser possível uma maior interação e intercâm- bio entre os Designers dos países lusos? Acredito sempre! Acredito que o intercâmbio é bastante importante. Acredito que é muito bom que pessoas de ou- tros países apresentem as coleções no nosso país, assim como nós possamos apresentar as nossas coleções nou- tros países. Esse foi sempre um chavão que tentei reforçar para que acontecesse. Tem apresentado colecções em diversos países. Qual o impacto do seu trabalho no exterior? O impacto é muito bom. Apresento as coleções em vários países e atualmente vendemos 80% de todas as nossas criações em termos internacionais e 20% em Portugal. Daí que seja bastante importante apresentar as coleções fora, porque quando apresentamos nos certames interna- cionais, como na Mercedes Benz Fashion Week em Madrid, significa que aparecem muitos jornalistas de Espanha que muitas das vezes não vêm a Portugal em massa. Apresentar as coleções noutros países faz com que a marca seja mais reconhecida e com que haja uma grande divulgação, o que obviamente se traduz em vendas, que é o objectivo final. E Angola? Como vê a mulher angolana em relação à moda? Angola é um mercado que acariciei sempre desde o início. É um mercado onde, todos os meus clientes, em lojas mul- timarca, vêem a minha coleção nos timings normais que os meus clientes de todos os outros países vêem. Sou sempre bem recebido e acarinhado pelo povo angolano. Quando apresento as minhas coleções para Angola nunca apresen- to as minhas coleções de há 2, 3, 4, 5 anos. Quando apre- sento uma coleção todas as pessoas dos quatro cantos do mundo estão rigorosamente a ver a mesma coleção. 37 Entrevista Moda
  3. 3. Em relação a Angola as pessoas têm um bocadinho a ideia é um povo que não percebe de moda. Sou um bo- cado suspeito porque tenho grandes amigos angolanos... O povo angolano é um povo que percebe muito de moda! É um povo que tem bastante poder económico e que mui- to facilmente apanha um jacto privado e vai às grandes casas internacionais de moda, tem acesso instantâneo às primeiras linhas e coleções em primeira mão. Fale-nos um pouco sobre a sua inspiração para a cole- ção PV15? É uma coleção onde as matérias-primas são muito nobres. De há uns anos para cá tenho feito um grande esforço no sentido das escolhas das matérias-primas. São todos teci- dos de altíssima qualidade das grandes casas italianas, no- meadamente de lanifícios tais como a Cerruti, a Loro Piana ou a Canonico. É uma coleção na qual o fitting da roupa está completamente testado. É um fitting que se adapta per- feitamente aos corpos das pessoas. É uma coleção fresca, uma coleção leve, é uma coleção muito clássica mas que ao mesmo tempo tem uns toques desportivos. É uma coleção que mistura ténis com vestidos de senhora, que lhe dá um ar chique, mais casual e mais desportivo. Foi uma coleção muito aplaudida nas semanas de moda internacionais e pe- las revistas da especialidade. É uma coleção de que gosto muito e com a qual me identifico. Atualmente fala-se muito sobre sustentabilidade na moda. Já faz uso destes materiais nos seus trabalhos? Os materiais que uso são materiais muito nobres. A maior parte das casas com quem trabalho, em termos de tecidos, são tudo casas com padrões muito altos em termos de qua- lidade, em termos de poluição. Miguel Vieira é uma marca que tem um holograma já há muitos anos. Cada peça leva esse holograma de prata e chumbo, sendo todas elas nu- meradas. É um holograma distribuído pelos Estados Unidos e que segue uma quantidade de regras. Roupa, acessórios, mobiliário, uma guitarra portugue- sa e até o design de embalagens para uma marca de sumo. Qual seria o projecto mais “out of the box” que não hesitaria em aceitar caso lhe fosse proposto? Acho que todos os projectos são bem-vindos desde que te- nham pés e cabeça para andar. Fazemos uma análise muito bem pensada a todos os projectos que me são apresenta- dos. O difícil é criar um conceito de marca. A partir do mo- mento em que esse conceito está criado é fácil, quando os produtos me chegam,conseguir dar uma nova roupagem e design ao respectivo produto, pôr o nosso cunho, com o nosso conceito de marca. Daí que recebamos imensas pro- postas de vários produtos, de pessoas e empresas que que- rem que assinemos produtos. É uma coleção fresca, uma coleção leve, é uma coleção muito clássica mas que ao mesmo tempo tem uns toques desportivos. 38 Moda Entrevista
  4. 4. Mas ainda há muita coisa que me falta fazer... ainda me falta uma linha de maquilhagem e uma linha de perfumes. Inde- pendentemente de atualmente o Homem, Mulher e Criança Miguel Vieira não dependerem de ninguém e serem vesti- dos dos pés à cabeça. Quais são para si as qualidades que um designer de moda deve ter? Em primeiro lugar tem que trabalhar muito. Arduamente! As pessoas acham sempre que o designer de moda é aquela pessoa que vive num espírito muito zen, que acorda às 4 da manhã e é só desenhar um vestido. Um designer de moda tem metas a cumprir, tem timings a cumprir, vive sob pres- são o ano inteiro. Tem de ser uma pessoa muito bem disci- plinada, com os pés muito bem assentes na terra e trabalhar muito,muito, e cada vez mais, muito! Atualmente estou a apresentar a minha coleção Outono/ Inverno 2015/2016, para a próxima semana estarei em Milão a fazer as compras para a Primavera/Verão 2016, seguida- mente apresentarei as minhas coleções em desfiles, depois apresentarei as coleções nas feiras internacionais, portan- to o ano inteiro é sempre assim! De 6 em 6 meses apresentam-se coleções, de 6 em 6 meses tudo volta ao início! É preciso ter muita dedicação, gostar muito do que se faz e cada vez ser melhor, melhor e melhor! ÉconsideradooPadrinhodosJovensCriadoresdeModa. Que conselhos daria ao “Sangue Novo” que dá agora os primeiros passos nesse mundo? Cada país, para ser apelidado como um “país de tradição de moda”, tem de ter muitos designers, tem de ter muitos cabeleireiros, tem de ter muitos maquilhadores, tem de ter muitos jornalistas, tem de ter muito tudo! Obviamente é com grande tristeza que vou vendo alguns colegas meus a desistir deste percurso... O que eu tento sempre é dar apoio moral. Através de pa- lestras ou reuniões, tento dar força aos novos designers portugueses. Quantos mais formos, melhores iremos ser! Por isso fico muito feliz com cada marca que vejo surgir, com cada novo designer e quando novas coleções são apre- sentadas, porque isso ajuda não só a mim como a todos os portugueses! O conselho seria não desistir! Mas sobretudo pensar que esta área é muito bonita, muito glamorosa, mas uma área muito, muito, difícil onde é preciso trabalhar mesmo muito e dar muito de si. Acho que o povo português é um povo tra- balhador, é um povo que tem objectivos e como tal é fácil haver mais designers em Portugal. 39 Entrevista Moda

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