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Autora
                                      Sandra Aymone


                                 Coordenação Editorial
                                    Camila Bellenzani
                                Maria Fernanda Moscheta


                                        Ilustração
                                      Pierre Trabbold


                                    Revisão de Texto
                                    Marcos Marcionilo


                                      Diagramação
                                      Línea Creativa


                                       Realização
                              Fundação EDUCAR DPaschoal
                              www.educardpaschoal.org.br
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             Todos os livros da Fundação EDUCAR são distribuídos gratuitamente
                         em escolas públicas, instituições e bibliotecas.
Esta obra foi impressa em couché 210g/ m2 (capa) e couché 150 g/m2 (miolo), no ano de 2004,
                    com tiragem de 30.000 exemplares para esta 1ª edição.
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— Aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
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2
Ela choramingou:
— Tive medo desse bicho. Ele é muito feio!
Beto foi olhar e viu que era uma figura de
um calendário, no qual havia vários
personagens criados pela imaginação do
povo. A menina havia se assustado com o
Bicho Manjaléu.




                                             3
— Isso é só um desenho, Flavinha, esse
    bicho não existe — garantiu Beto. — Ele
    faz parte do nosso folclore…
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    — Fol-clo-re. Folclore quer dizer um
    montão de coisas que o povo inventa ou
    acredita, e vai passando de pai para filho.
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  • 2. Autora Sandra Aymone Coordenação Editorial Camila Bellenzani Maria Fernanda Moscheta Ilustração Pierre Trabbold Revisão de Texto Marcos Marcionilo Diagramação Línea Creativa Realização Fundação EDUCAR DPaschoal www.educardpaschoal.org.br F: (19) 3728-8129 Todos os livros da Fundação EDUCAR são distribuídos gratuitamente em escolas públicas, instituições e bibliotecas. Esta obra foi impressa em couché 210g/ m2 (capa) e couché 150 g/m2 (miolo), no ano de 2004, com tiragem de 30.000 exemplares para esta 1ª edição.
  • 4. — Aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Beto levou o maior susto com aquele grito, que vinha do quarto da sua irmã menor. Correu para lá. Encontrou Flavinha de olhos arregalados, com um desenho nas mãos. — O que foi? Por que está gritando? — perguntou Beto. 2
  • 5. Ela choramingou: — Tive medo desse bicho. Ele é muito feio! Beto foi olhar e viu que era uma figura de um calendário, no qual havia vários personagens criados pela imaginação do povo. A menina havia se assustado com o Bicho Manjaléu. 3
  • 6. — Isso é só um desenho, Flavinha, esse bicho não existe — garantiu Beto. — Ele faz parte do nosso folclore… — Folque o quê? — estranhou Flavinha. — Fol-clo-re. Folclore quer dizer um montão de coisas que o povo inventa ou acredita, e vai passando de pai para filho. Podem ser histórias, brincadeiras, danças, festas, comidas… Flavinha animou-se: — Tirando esses monstros feiosos, parece que é divertido… 4
  • 7. — É divertido sim, — concordou Beto, rindo — mas acho que os monstros eram criados pela imaginação das pessoas por causa do medo do escuro!… Já pensou antigamente, quando não tinha luz elétrica? As pessoas viam até o que não existia! — É mesmo — lembrou Flavinha. — Outro dia, tinha uma camiseta branca pendurada na cadeira e, no escuro, pensei que fosse um fantasma! Beto confessou: — Isso já me aconteceu também… Tem hora que a gente pensa cada bobagem! — Esse Bicho Manjaléu aí — continuou Beto — foi inventado para assustar crianças levadas… é tipo um bicho-papão ou uma cuca. 5
  • 8. — Sabe como eu sei isso? — perguntou o garoto — É que o Diego apareceu, outro dia, com um livro sobre folclore. Diego era um menino que morava no Lar das Crianças, instituição que cuidava de crianças carentes e aonde Beto ia, quase todo dia, depois da escola, para brincar e ensinar coisas às crianças que lá viviam. — Você podia ir hoje comigo ao Lar, lembrou Beto. A gente está descobrindo um monte de coisas e contando uns aos outros. Todo dia tem novidade! Flavinha ficou muito animada: — Eba! Você espera eu pedir a mamãe? — e saiu correndo. 6
  • 9. Quando Beto e Flavinha chegaram, as crianças do Lar já estavam sentadas, em círculo, no pátio. Quem tinha aprendido coisas novas, iria contar. Renata quis ser a primeira. Foi para o meio da roda e disse: — Tia Nieta, do refeitório, me ensinou uns versos que aprendeu com sua avó. São assim: Hoje é Domingo Que dá na mata Pé de cachimbo A mata é valente Galo Monteiro Que dá no tenente Pisou na areia O tenente é mofino A areia é fina Que dá no menino Que dá no sino O menino é valente O sino é d’ouro Que dá em toda a gente! Que dá no besouro O besouro é de prata 7
  • 10. Em seguida, Pingo quis falar: — Lembrei uma brincadeira que a Dona Ângela costureira me ensinou, é a do Gato e Rato! Levantem, que eu ensino! As crianças ficaram de pé e deram-se as mãos. Pingo falou que Aninha ia ser o Gato e Beto, o Rato. Aninha ficou do lado de fora da roda e Beto do lado de dentro. Pingo ensinou o que cada um deveria fazer. Aninha então perguntou: — O senhor Rato está em casa? Todas as crianças responderam: — Não! Aninha insistiu: — A que horas ele chega? 8
  • 11. — Ao meio-dia! — disseram todos. A roda começou a girar enquanto as crianças, em coro, cantavam as horas: “uma hora, duas horas, três horas…” até chegar ao meio-dia. Naquele momento, todas soltaram-se as mãos e o Gato-Aninha entrou na roda para caçar o Rato-Beto, que tratou de correr, saindo e entrando na roda, para escapar. Foi uma correria! Aninha, que tinha as pernas mais compridas, acabou pegando o Beto. A garotada riu bastante e brincou muitas vezes, até todos terem sido Gato ou Rato pelo menos uma vez. 9
  • 12. À noite, Flavinha teve um sonho sem pé nem cabeça. Quer dizer, mais sem cabeça que sem pé. Ela estava caminhando numa floresta e, de repente, apareceu, galopando, a Mula-Sem-Cabeça! Essa mula é um daqueles monstros inventados que fazem as crianças tremerem de medo. Dizem que ela corre pelos campos, soltando fogo pelo nariz. O engraçado é que Flavinha não sentiu medo algum e perguntou-lhe: — Mula, como é que alguém que não tem cabeça pode soltar fogo pelo nariz? Ela respondeu: — Isso é um mistério pra mim também! Mas foi assim que me inventaram! E o bicho saiu dançando, muito desajeitado, e cantando uns versinhos: 10
  • 13. Meio-dia Que vem da Bahia Panela no fogo Panela de doce Barriga vazia Pra Dona Maria! Macaco torrado 11
  • 14. No dia seguinte, Beto contou que em todas as regiões do Brasil existem festas tradicionais, muito antigas, que acontecem nas ruas, sempre na mesma época do ano. Uma delas é o Bumba- Meu-Boi. Essa festa é um tipo de teatro. As pessoas dançam e cantam fantasiadas, contando a história do Boi. — E que história é essa? — quiseram saber as crianças. Beto contou: — É assim: tem um fazendeiro muito rico, que é dono de um boi todo bonitão, que sabe até dançar… — Parece a mula do meu sonho, só que ela era feia… — disse Flavinha. Ninguém entendeu, e Beto continuou: — Catirina, a mulher de Pai Chico, que é trabalhador da fazenda, está esperando nenê e sente desejo de comer a língua do boi… 12
  • 15. — Eca! — interrompeu Pingo. — Deixa de ser bobo, Pingo — disse Renata. — Língua de boi se come! — Então — continuou Beto — Pai Chico rouba o boi. Aí, o fazendeiro manda os vaqueiros e os índios saírem para procurar e, quando encontram o boi, ele está doente. O Pajé é chamado, porque é meio feiticeiro, meio curandeiro e, depois de muitas tentativas, o boi fica curado. Quando o fazendeiro fica sabendo o motivo do roubo, perdoa Pai Chico e Catirina, e a representação termina com muita alegria! — Mas é um boi de verdade? — quis saber Diego. 13
  • 16. — Não — respondeu Beto — o boi dessas apresentações é feito de uma armação de madeira, coberta por um pano bordado ou pintado. Nessa armação, é presa uma saia, para esconder a pessoa que fica dentro. Os personagens usam roupas muito coloridas. — Deve ser uma beleza! — Renata exclamou. Todos disseram que devia ser, mesmo. — Por falar em festa, eu adoro as Festas Juninas! — exclamou Aninha. — A quadrilha, o casamento na roça, a fogueira, as brincadeiras… — Os doces! — lembrou Pingo. — Paçoca, canjica, pé-de-moleque… E também os balões! — Balão pode ser bonito, mas pode causar acidentes muito tristes, incendiando casas e florestas — lembrou Renata. 14
  • 17. Todos concordaram que é melhor não soltar balões. O livro do Diego contava que as Festas Juninas homenageiam os três santos comemorados em junho: Santo Antônio, São João e São Pedro e explicava a origem da fogueira. “Numa noite bonita, de céu estrelado, São João nasceu. Sua mãe, que era Santa Isabel, mandou erguer um mastro na porta da casa e acendeu uma fogueira, que iluminava o mastro. Era o aviso combinado, entre ela e a Virgem Maria, para o dia em que o menino nascesse”. 15
  • 18. Na tarde seguinte, quando Beto e Flavinha chegaram ao Lar das Crianças, parecia que todo mundo estava engasgado com alguma coisa… — Que é isso? — estranhou Beto. — É alguma epidemia? Pingo parou de tentar dizer depressa: “Um prato de trigo para três tigres tristes” e respondeu: — É a epidemia dos trava-línguas! Beto entendeu. Ele já tinha aprendido que trava-línguas são aquelas frases inventadas de tal jeito que, se a gente falar depressa, acaba falando tudo errado! Flavinha tratou de tentar aprender alguns: 16
  • 19. A pipa pinga, o pinto pia; o pinto pia, a pipa pinga. No jarro tem uma aranha e uma rã. A rã arranha a aranha, A aranha arranha a rã. Iara amarra a arara rara; a rara arara de Araraquara. Olha o sapo dentro do saco, o saco com o sapo dentro, o sapo batendo papo e o papo soltando vento. A espingarda destravíncula-pinculá Quem destravincular ela Bom destravíncula-pinculador será. Porco crespo, toco preto; toco preto, porco crespo. Um tigre, dois tigres, três tigres. 17
  • 20. A falação parou quando a criançada sentiu o cheirinho que vinha da cozinha. Tia Nieta, que era mineira, com certeza tinha preparado uma de suas delícias! Logo, ela apareceu com uma bandeja cheirosa e anunciou: — Olha o pão-de-queijo quentinho! As crianças avançaram. Até a diretora do Lar das Crianças, Tia Valéria, apareceu para pegar um e disse: — Vocês sabiam que comida também é folclore? Algumas receitas são típicas de uma determinada região do Brasil, como o vatapá, na Bahia, o feijão tropeiro, em Minas Gerais e o churrasco, no Rio Grande do Sul. 18
  • 21. Tia Nieta lembrou: — Essas receitas são passadas de mãe para filha durante anos. Às vezes, não estão em livro algum, são transmitidas boca a boca… — Uma amiga da minha mãe contava que a feijoada surgiu no tempo dos escravos, nas senzalas — disse Tia Valéria. — Os senhores ficavam com a parte melhor do porco e deixavam a orelha, o pé e o rabo para os escravos, que acabaram inventando esse prato tão gostoso! Renata, que adorava feijoada, ficou com água na boca. 19
  • 22. Dois dias depois, quando Beto e Flavinha chegaram, escutaram Tia Nieta cantando uma cantiga de roda: “Vamos maninha, vamos À praia passear Vamos ver a lancha nova Que do céu caiu no mar…” Beto brincou: — Está contente, Tia Nieta? — “Quem canta seus males espanta!” — respondeu a cozinheira. Aninha, que ia passando, ouviu e correu para anotar a frase em seu caderno de provérbios. Ela adorava colecionar esses ditos populares. Depois, trouxe o caderno para mostrar aos amigos. 20
  • 23. Cada um resolveu escolher o provérbio que achava mais bacana. Beto ficou com: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Pingo escolheu: “A mentira tem pernas curtas”. Diego preferiu: “De grão em grão a galinha enche o papo”. Renata, que fala pouco, gostou de: “Em boca fechada não entra mosca”. Aninha fez sua escolha: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Flavinha ficou em dúvida entre: “Quando um não quer, dois não brigam” e “Quem conta um conto aumenta um ponto”. 21
  • 24. 22
  • 25. Depois do lanche, Tia Valéria reuniu as crianças para contar uma história. — O folclore dos nossos índios tem histórias muito poéticas — disse ela. Vou contar a vocês a lenda da vitória-régia, que explica como surgiu essa planta maravilhosa que existe nos rios da Amazônia. “Naiá era uma índia jovem, filha do chefe da tribo. Ela acreditava que a Lua era um belo guerreiro chamado Jaci, e queria se casar com ele. O Pajé havia contado a Naiá que quando a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela do céu. Desde então, nas noites de luar, enquanto os outros dormiam, Naiá subia nas colinas, tentando chegar perto da Lua, para que ela a visse e a transformasse em estrela. Durante muitas noites a índia ficou acordada, chamando a Lua, mas nada conseguiu. Numa dessas vezes, Naiá viu a Lua refletida nas águas de um rio. A pobre moça, imaginando que a Lua tinha vindo buscá-la, atirou-se nas águas profundas do rio e nunca mais foi vista. A Lua quis recompensar o sacrifício da jovem e transformou-a, então, na vitória-régia, uma planta cujas flores perfumadas e brancas só se abrem à noite e, quando nasce o Sol, ficam rosadas”. Aninha suspirou: — Que história mais linda! 23
  • 26. A cada dia que passava, a criançada queria saber mais coisas do folclore. Certa tarde, Beto propôs: — Vamos brincar de adivinha? Todos concordaram e cada um foi dizendo aquelas que conhecia. Diego foi o primeiro: “O que é, o que é? Nasci na água Na água me criei Se na água me botarem Na água morrerei!” As crianças acharam difícil. Beto pensou por alguns minutos e logo fez cara de sabido: — É o sal! — gritou — Fácil, fácil! 24
  • 27. Era isso mesmo. Todos ficaram admirados com a esperteza do menino. Estavam tão entretidos que nem perceberam a presença de um senhor usando chapéu de vaqueiro. Ele estava visitando o Lar e tinha parado para observar de longe a brincadeira. Aninha, na sua vez, perguntou: — O que é, o que é, que anda com os pés na cabeça? — Essa é mais fácil ainda! — disse Beto. Piolho! Os pés são dele e a cabeça é nossa… — Nossa? — exclamou Flavinha — só se for a sua… Pingo falou a dele: — O que é, o que é? Anda deitado e dorme em pé? 25
  • 28. De novo, Beto não deu chance pra ninguém: — Eu sei! É o pé! Ra-rá, quero ver quem ganha de mim! — Ah, assim não tem graça! — reclamou Diego — A gente não tem tempo nem de pensar! Prefiro brincar de outra coisa. Beto era mesmo bom em adivinhações, mas viu que tinha exagerado, não dando chance aos outros. Pediu desculpas e concordou em se divertir com os brinquedos folclóricos que a Tia Nieta tinha trazido: pião, corda de pular, bolinhas de gude, peteca. Nisso, Tia Valéria veio chamar o Beto: — Você pode vir um minutinho à minha sala? 26
  • 29. Tia Valéria pediu que Beto se sentasse, e falou: — Beto, não sei se você viu um senhor que esteve aqui, agora há pouco… — Não prestei muita atenção… — confessou Beto. — Ele se chama seu Jorge. É um homem muito bom, mas tem algumas esquisitices. Ele veio aqui se oferecer para doar um terreno para o Lar… Beto ficou contente: — Que bom! Papai disse mesmo que vocês estavam precisando de mais espaço!… — Pois é — continuou Tia Valéria. Só que ele impôs uma condição. O homem é fanático por adivinhações e, depois que viu vocês brincando, disse que só doará o terreno se você conseguir responder três adivinhas… Beto ficou meio tonto: — Eu??? 27
  • 30. — Ele disse que hoje tinha visto um menino que adivinhava todas. Era você! Achei loucura, mas acabei concordando, porque vi que não ia ter outro jeito… Beto aceitou o desafio, mas ficou bastante arrependido de ter sido tão “aparecido”. Agora, o Lar das Crianças dependia dele para conseguir o terreno! No dia marcado, Beto estava lá. Todas as crianças do Lar e muitos adultos colaboradores tinham vindo assistir e torcer por ele. Seu Jorge chegou, com seu chapéu, sentou-se, e falou a primeira adivinha: — O que é, o que é? Enquanto come, vive, mas se bebe água, morre. Que sorte! Essa Beto sabia! Ele respondeu depressa: 28
  • 31. — O fogo! Seu Jorge ficou desapontado e, sem esperar, apresentou logo a segunda: — O que é, o que é? É muito bonita, mas não tem cor, é saborosa, mas não tem sabor. Beto ficou nervoso. Todos ficaram em silêncio, esperando sua resposta. Ele fechou os olhos… pensou… e sorriu: — A água! Tinha acertado de novo! Seu Jorge ficou mais desapontado ainda! Faltava uma. Ele perguntou, bem depressa: — Qual é a parte do corpo humano que, tirando uma letra, fica vazia? 29
  • 32. Beto ficou pálido. Não tinha a menor idéia da resposta! O silêncio das pessoas foi tão grande, que se podia ouvir o zumbido de uma mosca. Beto pensou: “E agora? Não vou conseguir! Por que fui inventar essa brincadeira de adivinhação?” E, aborrecido, falou baixinho: — Eu e minha grande BOCA! Sem perceber, Beto tinha falado a última palavra — “boca” — mais alto, e todo o mundo ouviu. Seu Jorge ficou em pé e jogou o chapéu no chão. 30
  • 33. A resposta era “boca”, que sem o “b”, fica “oca”! Beto, sem querer, tinha acertado! Todos correram para abraçar o menino, que ficou tentando entender o que tinha acontecido… De repente, ele disparou a correr atrás de seu Jorge. E todos foram atrás dele! Seu Jorge não entendeu toda aquela correria, e entendeu muito menos quando Beto, quase sem fôlego, parou na sua frente: — Seu Jorge, eu não acertei de verdade! Falei sem querer! 31
  • 34. As crianças e os adultos também pararam, e a alegria morreu quando ouviram o que Beto tinha dito. Mas seu Jorge sorriu e falou: — Acertou sim, Beto. Se não foi antes, foi agora, vindo contar a verdade! Você é motivo de orgulho para o Lar das Crianças, e fico muito feliz de doar o terreno. Isso vale muito mais que essa bobagem de adivinhação! Naquele momento, a gritaria foi geral. Todo mundo pulou, riu, se abraçou, dançou. Foi tanta alegria, que adultos e crianças passaram a tarde brincando de pique, de pipa, de ovo choco, de roda, de amarelinha… FIM 32