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Revista Publica. 31-07-2010

artigo de Luis Francisco

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O meu passaporte
Ele já esteve em quatro dos cinco       mora. O que noto é que há muito
continentes e, antes do final do         pouca tolerância — ouvem-se                                                   A família
ano, há-de completar a lista com
uma viagem à Oceania. Por isso
                                        comentários... ‘Olha como estes
                                        tipos fazem isto...’ Não é a atitude                                          nepalesa
não deixa de ser surpreendente          correcta.”                                                                    Para quem viveu três anos na
que a sua contabilidade de países          A ideia é sempre “aprender,                                                Bélgica durante o serviço militar e
visitados seja, digamos, tão            não impor”. Mas isto também                                                   chegou a pensar mudar-se para lá,
discreta. “Vinte, à volta disso”,       não envolve qualquer tipo de                                                  parece estranho que João não se
estima o alpinista João Garcia. É       desresponsabilização: “Se percebo                                             sinta em casa na pátria das batatas
que, na verdade, apesar de passar       que posso ensinar alguma coisa,                                               fritas e das cervejas artesanais. Mas
boa parte do ano fora de casa,          aí tento, mas sem impor. Explico,                                             ele fez aqui um corte. “Não sinto
os destinos têm sempre algo em          demonstro, ajudo no que posso. E       Bilhete de identidade                  isso, houve uma altura em que
comum: há uma montanha no               eles podem ligar ao que eu digo ou     João Silva Abranches Garcia tem        tive de decidir se ficava lá ou não e
final do caminho. E as maiores           não, é um direito que lhes assiste.”   43 anos, completados a 11 de Junho     decidi não ficar. Aliás, na Europa
montanhas estão concentradas               Com tanto carimbo no                passado, já depois de ter entrado      não nos sentimos fora de casa, na
numa mão-cheia de países.               passaporte, para mais repetidos        para a história do alpinismo           verdade, porque não escapamos
   É por isso que se torna mais fácil   em muitos casos, há-de haver           mundial como o 10.º homem a            aos problemas. Há sempre
prosseguir a conversa com uma           sítios que funcionam já como uma       escalar todas as 14 montanhas do       Internet, telemóvel...”
abordagem mais filosófica. João           segunda casa para um homem que         planeta com mais de 8000 metros           Resta o Nepal. Destino
tem um conjunto de princípios que       se dedica ao alpinismo desde a         sem recorrer a oxigénio artificial.    incontornável nas últimas duas
leva sempre consigo quando sai da       adolescência e passou a vida adulta    A primeira foi o Cho Oyu, em 1993;     décadas, o pequeno reino dos
sua Lisboa natal. “Viajar não é só      a escalar montanhas. João lembra       a última o Annapurna, a 17 de Abril    Himalaias assumiu, claramente,
colocar os pés no país, é conviver      Chamonix e o Nepal. A cidade           de 2010. A conclusão desta odisseia    o estatuto de segunda casa do
com a cultura dos locais por onde       francesa no sopé do Monte Branco       foi reconhecida pelo Presidente        alpinista. “Katmandu [a capital]
passamos. Como ando a pé, isso dá-      porque representa uma espécie de       da República, Cavaco Silva, nas        é uma cidade fantástica. E o
me a possibilidade de conhecer as       romaria anual, “nem que seja para      comemorações do Dia de Portugal,       vale do Khumbu é sempre um
pessoas. É o mais enriquecedor.”        olhar para as montras” da meca do      a 10 de Junho deste ano, com a         local especial, fica na rota de
   Nunca se cansa desta descoberta:     montanhismo europeu.                   imposição da comenda da Ordem          aproximação de várias montanhas
“Por mais que vá a um sítio,                                                   Honorífica Portuguesa do Mérito.       que escalei, algumas das quais
serei sempre um turista, alguém                                                Entre todas as suas escaladas, a       foram uma autêntica rampa de
de fora, um viajante. E, como                                                  que lhe granjeou maior notoriedade     lançamento da minha carreira.”
tal, tento honrar as tradições e                                               foi a subida ao Evereste (em 1999),    Estamos a falar do vale que leva
costumes desse local. É preciso ter                                            o ponto mais alto da Terra. Mas        ao Evereste, mas também ao
flexibilidade cultural e uma atitude                                            essa foi, na sua opinião, a “pior de   Island Peak (6189m), ao Pumori
humilde: quando recebemos um                                                   todas” — o parceiro de escalada,       (7161m) e ao Ama Dablam (6812m),
visto não somos donos de um país,                                              o belga Pascal Debrouwer,              montanhas onde Garcia liderou
somos visitas. E, enquanto visita,                                             morreu na montanha e Garcia            expedições comerciais, num
eu tenho de respeitar quem ali                                                 sofreu queimaduras de gelo que         período anterior à parceria com o
                                                                               implicaram a amputação de várias       Millenium BCP que lhe permitiu
                                                                               falanges dos dedos das mãos e          tornar-se himalaísta profissional.
                                                                               cirurgia reconstrutiva do nariz.
                                                                               Dois anos depois estava de volta
                                                                               aos “8000”.




João Garcia
“Quando recebemos
um visto, não somos donos
de um país”
Escalou, sem oxigénio, todas as 14 montanhas mais altas do planeta e isso é missão para uma
vida. Não admira, portanto, que o passaporte do alpinista João Garcia não coleccione muitos
carimbos diferentes. Mas ele compensa a falta de quantidade com a qualidade: como anda
a pé, fica a conhecer as pessoas dos sítios que visita. Sempre de mente aberta e com atitude
humilde, como contou a Luís Francisco (texto) e Rui Gaudêncio (fotos)
10 • Sábado 31 Julho 2010 • Fugas
As viagens de eleição
                                                                                                                                                              2007 – Equador
                                                                                                                                                              “Passei lá duas semanas, escalei
                                                                                                                                                              três ou quatro cumes, com a casa
                                                                                                                                                              de um amigo a fazer de base. Adoro
                                                                                                                                                              aquele país com um espanhol doce,
                                                                                                                                                              vulcões bonitos e vida barata. É
                                                                                                                                                              tudo a um dólar. Não levem notas
                                                                                                                                                              grandes!”
                                                                                                                                                              1983 – Serra da Estrela
                                                                                                                                                              “Tinha 16 anos. Fui de bicicleta
                                                                                                                                                              e isso permite apreciar a berma
                                                                                                                                                              da estrada, o espaço desfila
                                                                                                                                                              lentamente. Para mais, é uma
                                                                                                                                                              viagem cheia de significado:
                                                                                                                                                              marcou a minha primeira
                                                                                                                                                              libertação, o contacto com um
                                                                                                                                                              mundo que me deu acesso a outras
                                                                                                                                                              ambições.”
                                                                                                                                                              Nepal
                                                                                                                                                              “Não posso escolher uma. Vale
                                                                                                                                                              para qualquer das 30 vezes que
                                                                                                                                                              já lá fui. É um país mágico para
                                                                                                                                                              apaixonados pela montanha.
                                                                                                                                                              Magnífico e ainda comunga a
                                                                                                                                                              imagem que persigo: povo simples
                                                                                                                                                              e sorridente, montanhas com pouca
                                                                                                                                                              presença de estrangeiros.”




   E há também a família adoptiva                                                                                      (bateria), nomes de “guerra” no           Já esteve na Antárctida, onde
em Pangboche, uma aldeia sherpa a       Filho de viajante                                                              meio, tocaram em vários grupos         “nem o Google Earth conseguiu
4000 metros de altitude. “Às vezes                                                                                     rock portugueses nas décadas de        cartografar certas zonas”, e
dou por mim a deformar os planos,       No princípio não era assim, claro.                                             1980 e 90.                             vê o continente mais extremo
de forma a poder lá voltar, matar       Mas sempre existiu o bichinho                                                     João sempre gostou de viajar e os   como potencial palco de futuras
saudades, conviver com eles...”         de viajar, quanto mais não fosse                                               seus projectos futuros, agora que      aventuras. África, excepção
Conheceram-se quando João ficou          porque o pai, piloto da TAP,                                                   completou a missão dos 14 “8000”,      feita a Marrocos, que considera
no seu lodge (as estalagens típicas à   passava a vida nisso. E dava um                                                não passam por ficar no sofá. “Uma      um “destino genial para os
beira do trilho) e a relação avançou    jeitão... “Às vezes ia com ele:                                                das coisas que quero fazer é visitar   portugueses”, não o atrai por aí
muito para lá da mera fidelidade         safaris e visitas a minas de ouro na                                           zonas pouco frequentadas pelos         além, ao contrário do que sucede
comerciante/cliente. Basta dizer        África do Sul; Brasil (e eu a dizer,                                           turistas. É também uma forma de        com a Ásia. “É o Evereste dos
que João patrocina os estudos           quando vi escaladores no morro                                                 responsabilidade social: sendo         continentes, monstruoso. Há tanto
de um dos filhos do casal e que          do Corcovado: ‘Isto também eu           Carimbo mais desejado                  conhecido, posso influenciar outras     para descobrir e escalar...”
este toma conta do seu iaque —          consigo fazer!’); Montreal, a ‘babar-   “Vou tê-lo em breve. Em Dezembro       pessoas a seguirem os meus passos,        E, finalmente, a Europa,
baptizado pelos sherpas, tal como       me’ para os artigos de neve nas         vou à Nova Zelândia (e também          a ajudar quem mora nesses locais       esse “submundo tão dividido,
o próprio alpinista, Tshiring Dai,      lojas; Nova Iorque no Inverno, onde     à Austrália). Para quem gosta          remotos.”                              culturalmente diverso, sobrelotado
aquele que tem vida longa.              entrávamos nas lojas e no Metro só      de trekking, há nomes mágicos:            Continente a continente, João       e... poluído”. João, que gosta é de
   Mas então as viagens são só          para aquecermos.”                       Patagónia, Nepal, Alpes e Nova         descreve a América do Norte como       deixar tudo para trás, não encontra
montanhas? “Não. Com a Inês                João não era cliente único destas    Zelândia. São países e regiões         “muito mais suja do que vemos          por aqui grande gozo de viajante.
[a namorada] tenho feito outras         aventuras. Tinha de as dividir com      lindíssimos e onde andar a pé é        nos filmes, excepto o Alasca, que       “Citando um alpinista russo, o
viagens!”, garante. Pensa um            os irmãos, gémeos, dois anos e          natural. E, depois, há também o        continua a ser um paraíso natural      Anatoly Boukreev, as montanhas
bocado e só se lembra de um fim-         meio mais velhos. Estes, claro, mal     fascínio de O Senhor dos Anéis... Ir   muito bem preservado”. Da              são as catedrais onde vou exercer
de-semana em Barcelona. O que           se viram em Nova Iorque atiraram-       ao outro lado do mundo é coisa para    América do Sul retém a sensação        a minha religião. E as grandes
vale é que ela também gosta de          se às lojas de instrumentos             se fazer uma vez na vida.”             sempre libertadora de sair de casa     catedrais estão fora da Europa.”
montanhas...                            musicais. Estava escrito: Zezé                                                 no Inverno e chegar a um sítio onde
                                        Garcia (guitarra) e Nini Garcia                                                é Verão: “Nem percebemos bem
                                                                                                                       porquê, mas ficamos maravilhados.
                                                                                                                       Sentimo-nos em casa.”


                                                                                                                                                                 Fugas • Sábado 31 Julho 2010 • 11
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Revista Publica. 31-07-2010

  • 1. O meu passaporte Ele já esteve em quatro dos cinco mora. O que noto é que há muito continentes e, antes do final do pouca tolerância — ouvem-se A família ano, há-de completar a lista com uma viagem à Oceania. Por isso comentários... ‘Olha como estes tipos fazem isto...’ Não é a atitude nepalesa não deixa de ser surpreendente correcta.” Para quem viveu três anos na que a sua contabilidade de países A ideia é sempre “aprender, Bélgica durante o serviço militar e visitados seja, digamos, tão não impor”. Mas isto também chegou a pensar mudar-se para lá, discreta. “Vinte, à volta disso”, não envolve qualquer tipo de parece estranho que João não se estima o alpinista João Garcia. É desresponsabilização: “Se percebo sinta em casa na pátria das batatas que, na verdade, apesar de passar que posso ensinar alguma coisa, fritas e das cervejas artesanais. Mas boa parte do ano fora de casa, aí tento, mas sem impor. Explico, ele fez aqui um corte. “Não sinto os destinos têm sempre algo em demonstro, ajudo no que posso. E Bilhete de identidade isso, houve uma altura em que comum: há uma montanha no eles podem ligar ao que eu digo ou João Silva Abranches Garcia tem tive de decidir se ficava lá ou não e final do caminho. E as maiores não, é um direito que lhes assiste.” 43 anos, completados a 11 de Junho decidi não ficar. Aliás, na Europa montanhas estão concentradas Com tanto carimbo no passado, já depois de ter entrado não nos sentimos fora de casa, na numa mão-cheia de países. passaporte, para mais repetidos para a história do alpinismo verdade, porque não escapamos É por isso que se torna mais fácil em muitos casos, há-de haver mundial como o 10.º homem a aos problemas. Há sempre prosseguir a conversa com uma sítios que funcionam já como uma escalar todas as 14 montanhas do Internet, telemóvel...” abordagem mais filosófica. João segunda casa para um homem que planeta com mais de 8000 metros Resta o Nepal. Destino tem um conjunto de princípios que se dedica ao alpinismo desde a sem recorrer a oxigénio artificial. incontornável nas últimas duas leva sempre consigo quando sai da adolescência e passou a vida adulta A primeira foi o Cho Oyu, em 1993; décadas, o pequeno reino dos sua Lisboa natal. “Viajar não é só a escalar montanhas. João lembra a última o Annapurna, a 17 de Abril Himalaias assumiu, claramente, colocar os pés no país, é conviver Chamonix e o Nepal. A cidade de 2010. A conclusão desta odisseia o estatuto de segunda casa do com a cultura dos locais por onde francesa no sopé do Monte Branco foi reconhecida pelo Presidente alpinista. “Katmandu [a capital] passamos. Como ando a pé, isso dá- porque representa uma espécie de da República, Cavaco Silva, nas é uma cidade fantástica. E o me a possibilidade de conhecer as romaria anual, “nem que seja para comemorações do Dia de Portugal, vale do Khumbu é sempre um pessoas. É o mais enriquecedor.” olhar para as montras” da meca do a 10 de Junho deste ano, com a local especial, fica na rota de Nunca se cansa desta descoberta: montanhismo europeu. imposição da comenda da Ordem aproximação de várias montanhas “Por mais que vá a um sítio, Honorífica Portuguesa do Mérito. que escalei, algumas das quais serei sempre um turista, alguém Entre todas as suas escaladas, a foram uma autêntica rampa de de fora, um viajante. E, como que lhe granjeou maior notoriedade lançamento da minha carreira.” tal, tento honrar as tradições e foi a subida ao Evereste (em 1999), Estamos a falar do vale que leva costumes desse local. É preciso ter o ponto mais alto da Terra. Mas ao Evereste, mas também ao flexibilidade cultural e uma atitude essa foi, na sua opinião, a “pior de Island Peak (6189m), ao Pumori humilde: quando recebemos um todas” — o parceiro de escalada, (7161m) e ao Ama Dablam (6812m), visto não somos donos de um país, o belga Pascal Debrouwer, montanhas onde Garcia liderou somos visitas. E, enquanto visita, morreu na montanha e Garcia expedições comerciais, num eu tenho de respeitar quem ali sofreu queimaduras de gelo que período anterior à parceria com o implicaram a amputação de várias Millenium BCP que lhe permitiu falanges dos dedos das mãos e tornar-se himalaísta profissional. cirurgia reconstrutiva do nariz. Dois anos depois estava de volta aos “8000”. João Garcia “Quando recebemos um visto, não somos donos de um país” Escalou, sem oxigénio, todas as 14 montanhas mais altas do planeta e isso é missão para uma vida. Não admira, portanto, que o passaporte do alpinista João Garcia não coleccione muitos carimbos diferentes. Mas ele compensa a falta de quantidade com a qualidade: como anda a pé, fica a conhecer as pessoas dos sítios que visita. Sempre de mente aberta e com atitude humilde, como contou a Luís Francisco (texto) e Rui Gaudêncio (fotos) 10 • Sábado 31 Julho 2010 • Fugas
  • 2. As viagens de eleição 2007 – Equador “Passei lá duas semanas, escalei três ou quatro cumes, com a casa de um amigo a fazer de base. Adoro aquele país com um espanhol doce, vulcões bonitos e vida barata. É tudo a um dólar. Não levem notas grandes!” 1983 – Serra da Estrela “Tinha 16 anos. Fui de bicicleta e isso permite apreciar a berma da estrada, o espaço desfila lentamente. Para mais, é uma viagem cheia de significado: marcou a minha primeira libertação, o contacto com um mundo que me deu acesso a outras ambições.” Nepal “Não posso escolher uma. Vale para qualquer das 30 vezes que já lá fui. É um país mágico para apaixonados pela montanha. Magnífico e ainda comunga a imagem que persigo: povo simples e sorridente, montanhas com pouca presença de estrangeiros.” E há também a família adoptiva (bateria), nomes de “guerra” no Já esteve na Antárctida, onde em Pangboche, uma aldeia sherpa a Filho de viajante meio, tocaram em vários grupos “nem o Google Earth conseguiu 4000 metros de altitude. “Às vezes rock portugueses nas décadas de cartografar certas zonas”, e dou por mim a deformar os planos, No princípio não era assim, claro. 1980 e 90. vê o continente mais extremo de forma a poder lá voltar, matar Mas sempre existiu o bichinho João sempre gostou de viajar e os como potencial palco de futuras saudades, conviver com eles...” de viajar, quanto mais não fosse seus projectos futuros, agora que aventuras. África, excepção Conheceram-se quando João ficou porque o pai, piloto da TAP, completou a missão dos 14 “8000”, feita a Marrocos, que considera no seu lodge (as estalagens típicas à passava a vida nisso. E dava um não passam por ficar no sofá. “Uma um “destino genial para os beira do trilho) e a relação avançou jeitão... “Às vezes ia com ele: das coisas que quero fazer é visitar portugueses”, não o atrai por aí muito para lá da mera fidelidade safaris e visitas a minas de ouro na zonas pouco frequentadas pelos além, ao contrário do que sucede comerciante/cliente. Basta dizer África do Sul; Brasil (e eu a dizer, turistas. É também uma forma de com a Ásia. “É o Evereste dos que João patrocina os estudos quando vi escaladores no morro responsabilidade social: sendo continentes, monstruoso. Há tanto de um dos filhos do casal e que do Corcovado: ‘Isto também eu Carimbo mais desejado conhecido, posso influenciar outras para descobrir e escalar...” este toma conta do seu iaque — consigo fazer!’); Montreal, a ‘babar- “Vou tê-lo em breve. Em Dezembro pessoas a seguirem os meus passos, E, finalmente, a Europa, baptizado pelos sherpas, tal como me’ para os artigos de neve nas vou à Nova Zelândia (e também a ajudar quem mora nesses locais esse “submundo tão dividido, o próprio alpinista, Tshiring Dai, lojas; Nova Iorque no Inverno, onde à Austrália). Para quem gosta remotos.” culturalmente diverso, sobrelotado aquele que tem vida longa. entrávamos nas lojas e no Metro só de trekking, há nomes mágicos: Continente a continente, João e... poluído”. João, que gosta é de Mas então as viagens são só para aquecermos.” Patagónia, Nepal, Alpes e Nova descreve a América do Norte como deixar tudo para trás, não encontra montanhas? “Não. Com a Inês João não era cliente único destas Zelândia. São países e regiões “muito mais suja do que vemos por aqui grande gozo de viajante. [a namorada] tenho feito outras aventuras. Tinha de as dividir com lindíssimos e onde andar a pé é nos filmes, excepto o Alasca, que “Citando um alpinista russo, o viagens!”, garante. Pensa um os irmãos, gémeos, dois anos e natural. E, depois, há também o continua a ser um paraíso natural Anatoly Boukreev, as montanhas bocado e só se lembra de um fim- meio mais velhos. Estes, claro, mal fascínio de O Senhor dos Anéis... Ir muito bem preservado”. Da são as catedrais onde vou exercer de-semana em Barcelona. O que se viram em Nova Iorque atiraram- ao outro lado do mundo é coisa para América do Sul retém a sensação a minha religião. E as grandes vale é que ela também gosta de se às lojas de instrumentos se fazer uma vez na vida.” sempre libertadora de sair de casa catedrais estão fora da Europa.” montanhas... musicais. Estava escrito: Zezé no Inverno e chegar a um sítio onde Garcia (guitarra) e Nini Garcia é Verão: “Nem percebemos bem porquê, mas ficamos maravilhados. Sentimo-nos em casa.” Fugas • Sábado 31 Julho 2010 • 11