O capitalismo social

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O capitalismo social

  1. 1. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 1Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br O SERVIÇO SOCIAL E A REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA Claudia Mazzei Nogueira1A reestruturação produtiva O capitalismo entendido como processo de reprodução social porintermédio da produção de mercadorias, nos revela que suas regras sãogeradas de forma a preservar que ele seja um modo de “organização socialque transforma incansável e incessantemente a sociedade em que estáinserido” (HARVEY, 1989: 307). Desta maneira ele encobre e fetichiza, desenvolvendo-se através dadeterioração da imaginação. A lógica do capital explora não só o(a)trabalhador(a) como também a subjetividade do ser social, fazendo tambémcom que eles tenham necessidade e “desejo” de consumir algo novo (idem, p.307). O capitalismo, no decorrer da história, metamorfoseou-se de inúmerasmaneiras. No final do século XX, a partir de 1973, esse modo de produçãodesencadeou uma grande reestruturação produtiva do capital, responsável pelaalteração e mesmo substituição do padrão produtivo taylorista e fordista, dandoorigem ao que a literatura tem denominado como toyotismo ou do que DavidHarvey (1989) denomina como “acumulação flexível”. Em suas palavras, estafase caracteriza-se “[...] por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza- se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de1 Professora Adjunta do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de SantaCatarina – UFSC. Escreveu A Feminização no Mundo do Trabalho (São Paulo: Editora AutoresAssociados, 2004) e O Trabalho Duplicado (São Paulo: Editora Expressão Popular, 2006).
  2. 2. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 2Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado ‘setor de serviços’...” (HARVEY, 1989: 140). Alain Bihr (1999) também trata desse momento, que se iniciou a partir docomeço dos anos 1970, definindo–o como “a crise do regime de acumulaçãodo capital”. Em sua análise Bihr (1999: 69-71) aponta quatro fatores relativosao enfraquecimento do fordismo e à crise desencadeada: • a diminuição dos ganhos de produtividade. Segundo o autor, ”isso se explica pelos limites, tanto técnicos quanto sociais, encontrados a partir desse período pelos métodos tayloristas e fordistas de produção”. • a elevação da composição orgânica do capital. A obtenção constante de ganhos de produtividade tem como condição uma elevação da composição técnica do capital: da composição da massa do trabalho morto e a do trabalho vivo que ele mobiliza. • “A saturação da norma social de consumo. A regulação do fordismo implicava que o processo de consumo privado se centrasse em certo número de bens duráveis (automóveis, residências, eletrodomésticos)” (BIHR, 1999: 71). Para Bihr, o mercado da era fordista saturou-se progressivamente ao longo dos anos 1960 e 1970, levando a uma retração das vendas incompatíveis com uma crescente produção em massa que necessitava ser consumida. • o desenvolvimento do trabalho improdutivo: “principalmente do trabalho que garantia a circulação do capital (gestão, comercialização, bancos e seguros) ou o conjunto das condições sociais, institucionais e ideológicas da reprodução do capital (principalmente concentrado nos aparelhos de Estado)”. Isso porque “... o trabalho improdutivo limita a
  3. 3. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 3Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br valorização do capital e a escala de sua acumulação, se todas as outras coisas permanecem iguais” (BIHR, 1999: 73). Esses elementos críticos acabaram levando ao enfraquecimento do padrãoprodutivo taylorista e fordista. Para Alain Bihr, a conjugação desses quatroelementos acarretou uma redução da taxa média de lucro, inicialmente nosEUA e Grã-Bretanha, atingindo posteriormente a totalidade dos paisesocidentais (idem, p. 73). O binômio fordismo/taylorismo é a “expressão do sistema produtivo e doseu respectivo processo de trabalho que dominaram a grande indústriacapitalista ao longo de boa parte do século XX, fundado na produção emmassa, responsável por uma produção mais homogeneizada. Esse binômiocaracterizou-se pela mescla de produção em série fordista com o cronômetrotaylorista, além de fundar-se no trabalho parcelar e fragmentado, com umalinha demarcatória nítida entre elaboração e execução. Desse processoprodutivo e de trabalho centrado na grande indústria concentrada everticalizada expandiu-se o operário-massa, o trabalhador coletivo das grandesempresas fortemente hierarquizadas”, conforme a precisa definiçãoapresentada por Thomas Gounet em seu livro Fordismo e Toyotismo nacivilização do automóvel (ANTUNES, 1999: 229-230). Esse binômio taylorista-fordista, com sua tecnologia de submissão, suadisciplinarização do corpo e com grandes exigências físicas, resultou aindanum bloqueio da atividade mental, ao separar o trabalho manual do trabalhointelectual. Desse modo, os trabalhadores e as trabalhadoras não só nãoadquirem o conhecimento do processo integral do trabalho, mas muitas vezesnem sequer sabem o porquê de suas tarefas (MENICUCCI, 1999).
  4. 4. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 4Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Já com o toyotismo, o capitalismo alterou sua forma de exploração dotrabalho, uma vez que, ao contrário do fordismo, o chamado modelo japonêstem os seguintes traços característicos: 1. [...] é uma produção mais diretamente vinculada aos fluxos da demanda; 2. é variada e bastante heterogênea e diversificada; 3. fundamenta-se no trabalho operário em equipe, com multivariedade e flexibilidade de funções, na redução das atividades improdutivas dentro das fábricas e na ampliação e diversificação das formas de intensificação da exploração do trabalho; 4. tem como princípio o just in time, o melhor aproveitamento possível do tempo de produção, e funciona segundo o sistema de kanban, placas ou senhas de comando para reposição de peças e de estoque, que no toyotismo deve ser mínimo. Enquanto na fábrica fordista cerca de 75% era produzido no seu interior, na fábrica toyotista somente cerca de 25% é produzido no seu interior. Ela horizontaliza o processo produtivo e transfere a ‘terceiros’ grande parte do que anteriormente era produzido dentro dela (ANTUNES, 1999: 230-231). A falácia de “qualidade total” passa a ser extremamente relevante noprocesso da produção. Os chamados CCQs (Círculos de Controle deQualidade) crescem de forma acentuada, “constituindo-se como grupos detrabalhadores que são incentivados pelo capital para discutir o trabalho e seudesempenho, com vistas a melhorar a produtividade e lucratividade daempresa”. Na realidade essa “é a nova forma da qual o capital se utiliza paraapropriar-se do savoir faire/saber fazer intelectual do trabalho. O despotismotaylorista torna-se então mesclado com a manipulação do trabalho, com o‘envolvimento’ dos trabalhadores, por meio de um processo ainda maisprofundo de interiorização do trabalho alienado”. O trabalhador(a) deve pensare fazer pelo e para o capital, o que intensifica impreterivelmente asubordinação do trabalho ao capital (ANTUNES, 1999: 231).
  5. 5. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 5Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Esta forma flexibilizada teve conseqüências enormes no mundo dotrabalho, onde ocorreu um aumento significativo do trabalho feminino, queatinge mais de 40% da força de trabalho em diversos países capitalistasocidentais, tema que desenvolvemos em nosso livro a feminização do mundotrabalho. Entretanto, a atual lógica da reestruturação produtiva do capitalismo,nos apresenta diversos atrativos para o emprego das mulheres. Nesta nova erade globalização da economia, podemos citar como exemplo o trabalhoterceirizado e a possibilidade de se realizar tarefas em casa, realizando-se otrabalho produtivo doméstico, o que certamente beneficia bastante osempresários, que não têm a necessidade de pagar os benefícios e os direitosdos trabalhadores e das trabalhadoras. Benefícios esses que mesmo ostrabalhadores formais (com carteira assinada), estão sob grande ameaça2. Segundo Serra (2001), como as transformações são de grandeamplitude, o setor de serviços também vem passando por reformulações,derivadas das necessidades do capital, especialmente da implantação dareestruturação produtiva flexível. A reestruturação produtiva industrial gera uma nova demanda para osetor de serviços, além de afetá-lo com as transformações organizacionais, detecnologias e da própria forma de gestão, implicando em uma submissão cadavez maior à lógica do capital por esse setor. Os pesquisadores Baltar e Dedecca apontam que é [...] questionável também que o setor terciário seja capaz de absorver adequadamente a população ativa. Nos serviços, a capacidade de geração de empregos tem sido afetada por mudanças estruturais, bem ilustradas pelas transformações no setor financeiro, que tem passado por alterações técnicas, terceirizações de diversas atividades e mais recentemente por mudanças patrimoniais. Mas, a difusão do uso da informática tem atingido o emprego formal nos serviços em geral, e2 Ver Sennett (1998).
  6. 6. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 6Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br também no comércio [...] A conjugação dessas mudanças estruturais, com ausência de crescimento sustentado e a perda de capacidade de expansão do emprego público, tem conduzido a uma crescente precariedade do mercado de trabalho” (BALTAR e DEDECCA apud SERRA, 2001: 159). Dessa forma, esses autores concluem que [...] a capacidade de geração de novos empregos será baixa com os circuitos da subcontratação e dos serviços criando a maioria dos empregos. Portanto, ao trocar empregos industriais e de serviços formalizados por empregos não formalizados, permitirá a consolidação de uma nova forma de exclusão social, tornando ainda mais graves e profundas as desigualdades sociais no Brasil (idem: 159-160).
  7. 7. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 7Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.brO Serviço Social e a reestruturação produtiva Sendo o trabalho uma categoria fundante do ser social, como colocaMarx em “O Capital” (1988) e, pelo que afirma Lukács (1976) na Ontologia doSer Social: “o momento predominante no desenvolvimento no mundo doshomens cabe ao trabalho, já que é nele que se produz o novo que impulsiona ahumanidade a patamares sempre superiores de sociabilidade”, entendemosque frente a essa centralidade do trabalho para o ser social e, com areestruturação produtiva, evidentemente cabe ao Serviço Social, pela suapráxis interventiva, novas respostas para novas demandas além de novasmediações nas expressões sociais. Para tanto, segundo Maria Lúcia Martinelli (1989: 145), [...] o Serviço Social ao se deparar com o agravamento do quadro conjuntural brasileiro ao longo da década de 1960, demandando novas alternativas de prática, novas formas de aproximação à realidade, aliado à existência de idéias revolucionárias, foi determinando a ampliação dos espaços críticos da categoria e tornando dialético o ser social dos agentes profissionais [...] A esse momento de desenvolvimento da consciência crítica correspondeu um fortalecimento da consciência corporativa da categoria profissional [...] No plano do exercício profissional, o assumir do princípio da contradição tornava cada vez mais claro que a realidade como “unidade do fenômeno e da essência” (Hegel, 1969: 216) não podia ser estagnada e manipulada de acordo com os interesses do capital. Mas, existe outro aspecto relevante: é o que se refere ao Serviço Socialna divisão social do trabalho. Segundo Marilda Iamamoto (2000: 19): [...] a premissa é que o atual quadro sócio-histórico não se reduz a um pano de fundo para que se possa discutir o trabalho social. Ele atravessa e conforma o cotidiano do exercício profissional do assistente social, afetando suas condições de trabalho e as suas relações de trabalho, assim como as condições de vida da população usuária.
  8. 8. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 8Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Portanto, o Serviço Social como instituição da organização da sociedadee como trabalho assalariado, tem as suas condições e relações de trabalhoalteradas pela reestruturação produtiva como toda a classe trabalhadora e essaquestão será exatamente o que procuraremos analisar.As conseqüências da reestruturação produtiva para o Serviço Social O Serviço Social é uma profissão majoritariamente composta pormulheres, que sofrem, por isso, não só a exploração que atinge a classetrabalhadora, mas também a intensificação dessa exploração, dada pelapredominância do trabalho feminino e suas conhecidas condições desiguais edesfavoráveis, no que concerne principalmente aos direitos trabalhistas. Sabemos que o Serviço Social com a sua natureza e prática interventiva,busca a transformação social da realidade, implicando, portanto, em alteraçõesfrente às mudanças que vêm ocorrendo a partir da reestruturação produtiva edo neoliberalismo. É por essa razão que o assistente social, necessariamente deverá teruma identidade considerada como “elemento definidor de sua participação nadivisão social do trabalho e na totalidade do processo social” (MARTINELLI,1989: 17). Além de ter uma consciência crítica e saber discernir sobre astarefas postas a ele e as conseqüências da sua atuação prática. Essa práticaprofissional deve ser cuidadosa, para não se transformar em uma simplesreprodução dos interesses do capital. Assim, a proposta é indicar alguns elementos preliminares de como areestruturação produtiva e suas implicações estão influenciando na prática e naidentidade do assistente social, trazendo uma nova orientação da sua funçãosocial e inserção produtiva no mercado de trabalho.
  9. 9. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 9Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Para isso tomaremos como exemplo uma pesquisa feita no estado doRio de Janeiro, por Rose Serra, com o título: “O Serviço Social e os seusempregadores – o mercado de trabalho nos órgãos públicos, empresas eentidades sem fins lucrativos no estado do Rio de Janeiro” (SERRA, 2001:161-172). Segundo a pesquisadora, para que esse estudo fosse feito foramconsiderados os impactos que as alterações contemporâneas na sociedadecapitalista tiveram sobre as condições objetivas de existência no mercado detrabalho do Serviço Social. Para Serra, a redução dos postos de trabalho e o redimensionamento dafunção dos mesmos, são o que demarcam a flexibilização do trabalho. Sãoessas as duas formas que atingem a estrutura produtiva e o processo detrabalho do assistente social. Para efeito de demonstração do mercado de trabalho dos assistentessociais, a pesquisadora destaca as “condições de trabalho” tomando doiselementos dessa variável como eixo – a inserção no mercado no que se refereà carga horária e postos de trabalho. A nossa escolha de destacarmos essa pesquisa não se deu por acaso,aqui poderemos evidenciar os efeitos destrutivos que a reestruturaçãoprodutiva no mercado de trabalho do Serviço Social ocasionou. Rose Serra afirma que em 91,6% dos órgãos públicos federais osassistentes sociais trabalham com uma jornada de 40 horas semanais. Já nasoutras esferas encontra-se uma maior variabilidade de carga horária,principalmente no espaço municipal que tem como predominância a jornada de20 horas semanais. A pesquisadora nos lembra que David Harvey (1989)aponta a tendência da nova lógica de comprimir o tempo dedicado à execuçãodo trabalho.
  10. 10. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 10Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Em relação a distribuição da carga horária dos assistentes sociais nasempresas e nas fundações, encontramos a seguinte realidade: [...] nas empresas estatais, os dados em sua totalidade permitem inferir uma situação semelhante aos órgãos públicos federais com contratos de assistentes sociais de quarenta horas. Seguindo, porém, a lógica das privatizações em curso, a tendência é que nessas unidades de trabalho o assistente social venha a encontrar uma jornada mais próxima ao que ocorre nas empresas privadas, onde a presença de profissionais com vinte horas coexiste no mercado com aqueles contratados para uma jornada de quarenta horas semanais (SERRA, 2001: 163-164). A mesma situação é encontrada nas fundações privadas, com atendência de 40 horas de jornada, porém nesse caso uma maior diversificaçãode horário é oferecida ao assistente social, além de uma “multiplicidade”, o quesignifica ter em uma instituição mais do que um assistente social com cargashorárias diferenciadas. Com isso a pesquisadora deduz que: “na medida emque uma instituição desse tipo executa, no âmbito privado, políticas setoriaistambém presentes no setor público estatal, encontra-se uma reorganização doprocesso de trabalho em termos de uma diminuição do tempo gasto para aefetivação dessas políticas” (SERRA, 2001: 164). Já nas entidades filantrópicashá uma incidência maior na jornada de 20 horas e nas ONGs de 30 horas,além de ocorrer também as jornadas parciais de 15 e 16 horas queencontramos mais presentes nas instituições religiosas. Em relação a essa questão, Rose Serra (2001: 165) conclui que, [...] o que é importante analisar nessas instituições é o fato de a jornada de quarenta horas semanais ser a forma menos utilizada. Isto pode significar que tal estratégia, de comprimir o tempo necessário para a execução do trabalho de seus profissionais – em particular o assistente social - provavelmente esteja na gênese de tais entidades, pois desde sua origem isto constitui forma de reduzir salários compatíveis com sua capacidade financeira e/ou justificada por sua finalidade humanitária ou comunitária. Caso possivelmente das entidades filantrópicas e religiosas, onde está implícito, mesmo
  11. 11. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 11Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br para os profissionais remunerados, certa ”vocação“ na sua inserção profissional, fato este que pode favorecer a inserção do voluntariado neste espaço. Quanto aos postos de trabalho, a pesquisadora afirma que no espaçopúblico, nas esferas federal e estadual ocorre diminuição de postos de trabalhoe somente na esfera municipal houve sinais de aumento do número deprofissionais. Contraditoriamente é nessa esfera que os recursos ficaram maisescassos e com as condições contratuais mais precárias, ou seja, menor cargahorária e menor salário. Ao compararmos a realidade do Serviço Social do setor público com osetor das empresas privadas e fundações privadas, obtivemos os seguintesresultados: 82% do número de assistentes sociais permaneceu nas empresasprivadas e 40% nas empresas estatais, mas, ocorreu 32% de diminuição nasestatais, que segundo Rose Serra a razão para esse fato se deveprovavelmente ao enxugamento dos quadros funcionais provocado pelaprivatização e pelo estímulo à demissão voluntária. Em 60% das fundaçõesprivadas, o número de assistentes sociais permanece o mesmo e em 40% hádiminuição da presença desse profissional, onde mais uma vez é justificadopela pesquisadora através das associações existentes entre as fundaçõesprivadas e as empresas estatais. Quanto ao número de assistentes sociais atuando nas entidadesfilantrópicas e ONGs, temos os seguintes dados: em 58% das entidadesfilantrópicas o número de assistentes sociais se mantêm. Nas instituiçõesfilantrópicas temos a seguinte situação: em 44% delas o número aumenta etambém em 44% permanece igual. O quadro que mais nos chama a atenção éo das ONGs, pois segundo a pesquisadora, ocorreu um aumento de 100% nassolicitações por ações do Serviço Social e, no entanto somente em 40% delaso número de assistentes sociais aumentou, além de afimarmos, segundo apesquisa de Serra, que houve uma diminuição de 40% em outras ONGs.
  12. 12. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 12Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br Rose Serra (2001: 170) termina concluindo com base em sua pesquisaque está ocorrendo uma sobrecarga dos profissionais no exercício de suasatividades e acrescenta que “os elementos apresentados aqui indicam não só aprecariedade das condições de trabalho do assistente social, mas também seconstituem enquanto estratégias de redução das políticas sociais públicas,apontando para uma redução da institucionalização da profissão no espaçoestatal”. Essa insistência na prática de flexibilização inserida nos órgãos estatais,altera a dinâmica do mercado de trabalho no que tange o espaço público e oprivado, como também na inserção desses profissionais para implementaçãodas políticas sociais (SERRA, 2001: 170). A nossa conclusão também vai por esse caminho, mas queremos ainda,reforçar o quanto o neoliberalismo, dentro do seu caráter nefasto, crioucondições políticas e institucionais que favoreceram o desenvolvimento dareestruturação produtiva e conseqüentemente o desmonte das políticaspúblicas, principalmente aquelas relacionadas às questões sociais, alterandoassim, as demandas colocadas ao Serviço Social. Segundo Marilda Iamamoto(1982: 79), [...] o Serviço Social no Brasil afirma-se como profissão, estreitamente integrado ao setor público em especial, diante da progressiva ampliação do controle e do âmbito da ação do Estado junto à sociedade civil. Vincula-se, também, a organizações patronais privadas, de caráter empresarial, dedicado às atividades produtivas propriamente ditas e à prestação de serviços sociais à população. A profissão se consolida, então como parte integrante do aparato estatal e de empresas privadas, e o profissional, como um assalariado a serviço das mesmas. Dessa forma não se pode pensar a profissão no processo de reprodução das relações sociais independente das organizações institucionais a que se vincula, como a atividade profissional se encerrasse em si mesma e seus efeitos sociais derivassem, exclusivamente, da atuação do profissional.
  13. 13. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 13Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.br No entanto, a questão que nos suscita maior interesse é: se o mundo dotrabalho está sofrendo tantas mudanças, como a precarização, a terceirização,a fragmentação, o desemprego e a feminização da força de trabalho, como oassistente social, pertencente à classe trabalhadora, que também é exploradopelo capital sofrendo as implicações das relações de trabalho, lida com a suaprópria situação, em um contexto marcado por grandes transformações? Uma outra questão que nos intrigou ao desenvolvermos esse artigo foiem relação ao predomínio da presença feminina existente na categoria: em quemedida a feminização da força de trabalho, e em particular a intensificação daexploração produtiva e reprodutiva do trabalho feminino, pode estar afetandotambém as condições de trabalho da profissional de Serviço Social, no sentidode uma maior precarização do seu trabalho? Responder às difíceis questões acima demandaria um outro artigo.Entretanto, a compreensão do que se passa hoje no mundo do trabalho nosparece um ponto de partida imprescindível para que o assistente social possadesvendar o que vem ocorrendo no interior da própria categoria e quais são osprincipais desafios visando à preservação de seu compromisso com os valoresmaiores da classe trabalhadora, que norteiam o seu projeto ético-político.Assim, o objetivo desse artigo foi oferecer alguns elementos para tentarmoselucidar esse ponto de partida imprescindível.
  14. 14. NOGUEIRA, C. M. O Serviço Social e a reestruturação produtiva. In Políticas Públicas & 14Serviço Social: análises e debates. Publicação do Observatório Social.Rio de Janeiro, maio/junho de 2008. Disponível em http://www.assistentesocial.com.brReferênciasANTUNES, R. Os Sentidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999.BIHR, A. Da grande noite à alternativa. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999.HARVEY, D. Condição Pós-Moderna. Rio de Janeiro: Edições Loyola, 1989.IAMAMOTO, M. O Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formaçãoprofissional. São Paulo: Cortez Editora, 2000.IAMAMOTO, M. e CARVALHO, R. de. Relações Sociais e Serviço Social noBrasil. São Paulo: Cortez Editora, 1982.LUKÁCS, G. Per una ontologia dell’ essere sociale, vol. I. Roma: Riuniti, 1976MARX, K. O Capital, livro I/vol. I/tomos 1 e 2. São Paulo: Nova Cultural, 1988.MARTINELLI, M. L. Serviço Social, Identidade e Alienação. São Paulo: CortezEditora, 1989.MENICUCCI, E. A mulher, a sexualidade e o trabalho. São Paulo: Hucitec,1999.NOGUEIRA, C. M. A Feminização no Mundo do Trabalho. Campinas – S.P.:Autores Associados, 2004.NOGUEIRA, C. M. O Trabalho Duplicado. São Paulo: Expressão Popular, 2006.SENNETT, R. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1998.SERRA, R. (org.). “Alterações no mundo do trabalho e repercussões nomercado profissional do Serviço Social”. In: Serra, R., Trabalho e Reprodução.São Paulo: Cortez Editora, 2001.

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