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v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
PSICOPSICO ΨΨ
Musicoterapia e saúde mental:
relato de uma experimentação rizomática
Raquel Siqueira da Silva
Marcia Moraes
Universidade Federal Fluminense (UFF)
RESUMO
Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiência profissional na área de Musicoterapia no contexto da
Reforma Psiquiátrica. A experiência teve seu início numa instituição manicomial na cidade de Volta Redon-
da, no Rio de Janeiro e, em seguida, passou a ser realizada num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O
trabalho musicoterápico teve como um de seus desdobramentos a criação de um grupo musical com os
usuários dos serviços do CAPS. Utilizamos algumas noções da filosofia da diferença de Deleuze-Guattari
para refletir sobre esta experimentação. Consideramos a Musicoterapia como um saber mestiço, híbrido e
concluímos indicando que a experiência com o grupo musical nos permitiu refletir sobre algumas das for-
mas de atuação e intervenção da Musicoterapia.
Palavras chave: Musicoterapia; rizoma; saúde mental.
ABSTRACT
Music therapy and mental health: Report of an rhizomatic experience
This paper has the aim to report a music therapy professional experience in the context of Psychiatric Reform.
The experience began in a psychiatric institution situated at Volta Redonda, in the state of Rio de Janeiro
and, later, it was transfered to a Psychosocial Support Center (CAPS). Music therapy working had as one of
its consequences the creation of musical groupe with the CAPS services users. We based this paper with
some notions from Deleuze-Guattari difference philosophy in order to reflect about this experience. We
consider music therapy as an hybrid knowledge and we conclude to indicate that this musical groupe
experience allowed us to think about some ways of acting with music therapy.
Key words: Music therapy; rhizoma; mental health.
INTRODUÇÃO
Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiên-
cia profissional na área de Musicoterapia. A experiên-
cia que relataremos neste trabalho teve início na Casa
de Saúde Volta Redonda (CSVR) onde uma de nós tra-
balhava como musicoterapeuta. Neste contexto, nosso
trabalho era desenvolvido com os usuários de serviços
de saúde mental ainda em internação psiquiátrica.
No campo da Reforma Psiquiátrica, o poder públi-
co municipal interveio na CSVR, um dos efeitos deste
encontro foi a criação do Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Neste contexto
foi possível desenvolver um trabalho musicoterápico
que foi além das condições asilares e construiu uma
trajetória ousada. No âmbito do CAPS nosso trabalho
musicoterápico levou à formação de um grupo – o
Mágicos do Som1 – que pretendia criar um funciona-
mento em que a voz do usuário de serviços de saúde
mental pudesse ser ouvida sem preconceitos.
Neste artigo apresentamos a trajetória desta expe-
riência e nos perguntamos de que modo o grupo musi-
cal Mágicos do Som nos leva a repensar as práticas
em Musicoterapia no campo da saúde mental.
A MUSICOTERAPIA NA CASA DE
SAÚDE VOLTA REDONDA – O SOM NO
ESPAÇO-TEMPO DO MANICÔMIO
A Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), locali-
zada em município de mesmo nome no sul do Estado
do Rio de Janeiro, é uma clínica psiquiátrica privada
que desde abril de 1994 está sob intervenção da pre-
feitura municipal. Esta intervenção ocorreu em função
de várias precariedades no atendimento ao usuário e
irregularidades com os funcionários. Com o lema “Em
140 Silva, R. S. da, & Moraes, M.
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
Defesa da Vida”, a Secretaria Municipal de Saúde con-
tratou vários profissionais para promoverem a Refor-
ma Psiquiátrica neste município. O slogan inicial pro-
pagado era “Saúde não se vende, loucura não se pren-
de”. A ousada proposta da equipe técnica, formada
por psicólogos, assistentes sociais, musicoterapeuta,
psiquiatras, enfermeiros e oficineiros2
era a de “des-
construir” o manicômio.
Havia uma atmosfera de grande otimismo para
mudar as forças instituídas e territorializadas do hos-
pício. As práticas de isolamento nas enfermarias fo-
ram invadidas por olhares e intervenções atentas da
equipe que propunha dissolver a dinâmica cronificada
do funcionamento manicomial. O discurso da luta anti-
manicomial ecoou em todos os espaços de discussões,
era o pulsar de uma empreitada que atravessaria nos-
sos modos de trabalhar e de pensar a saúde mental.
Mais do que um investimento do poder público muni-
cipal, era uma aposta nas possibilidades de produção
de outras subjetividades, diferentes daquelas que ali
predominavam: a do louco marginalizado, excluído, o
sem razão.
O primeiro projeto de musicoterapia da CSVR,
escrito em abril de 1995, apresentava os objetivos de:
“ propiciar a integração entre usuários e os assistentes
através da música; facilitar a auto-expressão criativa,
através do sonoro-musical; promover a abertura dos
canais de comunicação através de técnicas musico-
terápicas”. O grupo musicoterápico começou a acon-
tecer na sala de Terapia Ocupacional. Antes de ingres-
sar no grupo o usuário era entrevistado com a ficha
musicoterápica, uma espécie de anamnese sonoro-
musical preenchida pelo musicoterapeuta, com vários
dados de sua história sonoro-musical, isto é recorrente
em atendimentos musicoterápicos tradicionais.
Muitos componentes que posteriormente partici-
pariam do grupo musical Mágicos do Som freqüenta-
vam este grupo de musicoterapia na CSVR durante
suas internações. A técnica musicoterápica mais utili-
zada era a re-criação musical, que consiste num fazer
sonoro-musical livre, sem a exigência de estética mu-
sical específica. O cantar como exercício de re-criar a
música e o dançar coletivamente são freqüentes no
emprego desta técnica.
Ao mesmo tempo em que forças propulsoras de
transformação do modelo manicomial (as linhas de
fuga) atuavam, práticas cronificadoras (linhas rígidas,
visíveis e de abolição) atravessavam o tempo e o espa-
ço. O espaço era manicomial, um prédio de hospício.
Ainda havia uma ação calcada numa cisão entre
dentro e fora, provavelmente produzida por uma
dicotomia visível das velhas práticas manicomiais que
na CSVR foram encontradas. Afirmar esta discussão
fora do espaço asilar era um movimento que se acredi-
tava desestabilizar o lugar instituído da loucura. Por
que prendê-los? Neste processo de desterritoriali-
zação, essa linha de fuga pleiteava já a dissolvência do
modelo manicomial para uma rede substitutiva de
atendimento ao usuário de serviço de saúde mental. A
pretensão não era criar serviços que complementassem
o atendimento asilar, mas prescindi-lo totalmente.
As linhas mais observáveis eram as duras, extensi-
vas, visíveis. Conviviam as linhas que demarcavam a
força dos instituídos da loucura com as linhas que se
pretendiam de fuga, mas que também se apresentavam
de forma identitária, conscientizadora... Mas havia
espaços-tempos onde as intensidades pulsavam. As
assembléias foram uns dos espaços em que posterior-
mente pudemos identificar como dos mais propulso-
res de discussões que fragilizavam os enrijecimen-
tos instituídos e institucionais. Eram assembléias das
quais participavam todos os funcionários e todos os
usuários. Os segmentos, os serviços, as atuações pro-
fissionais, as queixas, os elogios etc., enfim todo o fun-
cionamento da CSVR era problematizado. A Assem-
bléia era uma rede de conexões3
ocupando um espaço
de forma densa, mobilizando as formas e forças. As-
sembléia era o momento em que as vozes eram
ouvidas, mas não somente as alucinatórias, ou as
cronificadas das posições hierárquicas, eram as vozes
cujos efeitos se produziam nas práticas quotidianas.
Era uma tensão e reflexão, um contraponto numa ins-
tituição que
os aprisiona no tédio infernal do Mesmo, na re-
petitividade sem história , num eterno presente que
é em si a imagem cinza de uma morte sem desfe-
cho (Pelbart, 1993, p.20).
Pelbart (1989 e 1993) escreve sobre uma invenção
da loucura na qual se produziu historicamente uma
loucura inútil, capturada, impotente, cheia de manei-
rismos e revestida de uma segregação implícita, esta
segregação também produzida. Outros espaços na
CSVR flexibilizavam este lugar, produziam mudanças
de posição, insistência, resistência. Vozes, vontades,
devires.
Tanto as assembléias quanto as sessões de musi-
coterapia eram tempos ocupados por espaços diferen-
ciados e, concomitante, espaços ocupados por tempos
não aprisionados e isto era uma resistência. Porque
neste “lá” (local e tempo) encontravam-se falas que
se ouviam, sons que poderiam ser manifestos sem
asilamento, fontes sonoras que escapavam de grades e
transpassavam os muros. Espaços e tempos de discus-
sões, de propostas, de acordos respeitosos a cada
voz, a todas e aos silêncios. Era possível sentir esta
orquestração e pretender ocupar outros espaços com
esta lógica inclusiva. Práticas homogeneizadoras e
Musicoterapia e saúde mental ... 141
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
disciplinarizantes são recorrentes na história da saúde
mental, contrariá-las é resistir e produzir diferenças.
Acolher a diferença é resistir ao despotismo da predo-
minância. Nas palavras de Pelbart:
Recusar a homogeneização sutil mas despótica em
que incorremos às vezes, sem querer, nos disposi-
tivos que montamos quando o subordinamos a um
modelo único, ou a uma dimensão predominante.
(Pelbart, 1993, p. 23)
A forma do grupo de musicoterapia alcançou os
objetivos propostos pelo projeto inicial, mas ainda es-
tava na forma, era possível improvisar, expressar, to-
car, cantar, dançar, mas estávamos ali no espaço asilar,
compreendidos nesta linha de abolição, era uma fuga
logo capturada. Os usuários de serviços de saúde men-
tal, internados na CSVR, saíam da sessão e voltavam
para a enfermaria. Aquilo era incômodo, estranha-
mento, revolta, captura e submissão.
“Não é inútil lembrar que o tempo da criação artís-
tica ou do pensamento também exige algo dessa or-
dem. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a
forma brotem a partir do informe e do indecidido”.
(Pelbart, 1993, p.36 ). A idéia do grupo musical não
surgiu no manicômio. Os internos despotencializados,
medicados, sonolentos, compartilhavam daquele mo-
mento. Assim se expressavam e eram ouvidos.
A primeira coisa que chama a atenção de um visi-
tante num hospital psiquiátrico é essa lentificação,
esse ritmo específico, esse regime temporal dife-
renciado. Sim, às vezes isto se deve aos efeitos dos
psicofármacos, às vezes à lentidão burocrática das
grandes instituições... (Pelbart, 1993, pp. 39-40)
A experimentação do trabalho musicoterápico pre-
tendia produzir intensidades naquelas vidas tão parali-
sadas, medicadas, rotineiras, com poucas perspectivas
e surpresas, rotinas cortadas por crises logo abafadas.
Embora as aparências de sonolência e lentidão esti-
vessem mais visíveis, nem a internação, nem a crise,
nem a medicação continuariam da mesma forma por
todo o tempo; esta era uma esperança, apostar nos
devires, embora muitas vezes imperceptíveis. Os rit-
mos não se aglomeram nem se decompõem, eles coe-
xistem, se misturam no tempo, a música se dá no tem-
po e atravessa espaços. A única forma de reter a músi-
ca de um momento é na memória, este é um legado. E
aquelas pessoas internadas guardavam algo em suas
memórias. Apreciar as histórias contadas nas sessões,
sem se preocupar com sentidos ou verdades era um
exercício no tempo, como ocorre na música. Embora
as linhas de fuga, de desterritorialização fossem rapi-
damente capturadas pela máquina manicomial, as en-
grenagens apresentavam falhas propulsoras de devires.
Questionar se o louco seria capaz de escapar a sua
história seria um falso problema, ele está o tempo todo
produzindo linhas de fuga, seja em seu fazer artístico,
seja em sua alucinação ou delírio. São escapes, dis-
rupturas, acontecimentos muitas vezes não comparti-
lhados ou abafados pelos dispositivos institucionais e
institucionalizados de apreensão de possibilidades de
diferir. Quanto à discussão filosófico-histórica sobre
loucura; embora esta não seja um invariante histórico,
Pelbart sublinha que ao mesmo tempo que criamos
uma identidade para o louco, tornâmo-lo inofensivo,
inoperante no seu processo de desterritorialização.
O que escapa à história não é o eterno, mas o que
Nietzsche chamou de intempestivo ou inatural,
Foucault de atual, Deleuze de devir, ou aconteci-
mento. (Pelbart, 1993, p.83). [E mais adiante o au-
tor pergunta:]: “Será que a libertação do louco não
corresponde, no fundo, a uma estratégia de homo-
geneização do social? (Pelbart, 1993, p.104).
Presenciamos uma tentativa homogeneizadora, um
despertar de aforismos intelectuais que engendram um
saber despótico sobre a loucura, trata-se de uma sufo-
cação de devires, provavelmente aspirada pela apro-
priação indébita do que lhe é fortuito, a desrazão. Mas
em ritornelos existenciais4
sempre há um espaço-tem-
po para criar novas formas. Onde pensamos não ha-
ver espaço podemos criá-lo, mas não com um saber
homogeneizante, talvez com um não-saber calcado no
que há de mais simples e, no entanto, mais complexo,
a experimentação. Experimentar, experienciar, presen-
ciar, presentificar; estamos falando de conviver, mis-
turar-se, confundir-se heterogeneamente e descobrir
diferenças antes impensadas. Outras formas de criar
diferenças, produzi-las, ou simplesmente deixar que
elas brotem rizomaticamente como erva proibida, ao
mesmo tempo desejada e reprimida. Sempre há tantas
forças em sintonia, tantas pragas de coerção, mas a
estranheza da desrazão permite escapar a esta clausura
da inconsistência.
Pelbart (1993, p. 95) afirma que a modernidade
capturou o estranho, domesticou-o. Ele sublinha a im-
portância do Pensamento do Fora que seria a expe-
riência que se dá no Desconhecido. O autor acrescenta
que “o Pensamento do Fora é aquele que se expõe às
forças do fora que transforma a Força em intensidade”
(Pelbart, 1993, p. 96). O poder despótico da razão em
nossa cultura ocidental e o enclausuramento dos lou-
cos a partir do século XVII nos remete a várias ques-
tões sobre o porquê da insistência do modelo mani-
comial, ainda que este modelo tenha se mostrado im-
procedente para muitos autores. Pelbart lembra que
“enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, o
pensamento racional trancafiava a desrazão e ainda
142 Silva, R. S. da, & Moraes, M.
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
afirma que “é preciso recusar o império da Razão”
(Pelbart, 1993, pp. 106-107). Para isto, precisaremos
mudar muitas coisas. Os trabalhadores, usuários, mili-
tantes, familiares, todos os que estão direta ou indi-
retamente envolvidos com a saúde mental, podem se
beneficiar com esta discussão, posto que a escravidão
em relação à lógica racionalista não leva apenas ao
enclausuramento do louco, mas a outros aprisiona-
mentos.
Pelbart em duas de suas obras (1989 e 1993)
aprofunda a discussão do Fora em relação à loucura e
à desrazão.
Enquanto a desrazão era afetiva, imaginária e
atemporal, a loucura será temporal, histórica e so-
cial. É assim que no próprio momento em que a
desrazão é silenciada, a loucura é exibida de for-
ma organizada e explícita, no escândalo de suas
formas e, por trás das grades, numa distância pro-
tegida. (Pelbart, 1989, p.60)
Não foi possível enclausurar a desrazão, esta não
configura uma antítese à razão. Podemos chamar de
Fora uma experiência-limite que tangencia os limites,
mas se encontra no entre . Blanchot ( apud Pelbart, p.
98) chama de O Fora o que está exposto às forças não
visíveis, a relação com o estranho, a alteridade. Do
mesmo modo não é possível enclausurar a música, ain-
da que ela possa ter uma estrutura, uma melodia, uma
harmonização, um ritmo, algo sempre pode escapar.
Quando se produzia um som, por exemplo, nas ses-
sões de musicoterapia da CSVR , articulavam-se co-
nexões cujos efeitos abriam linhas. Nesse movimento
não existia um certo ou errado, não havia exigência
estética, existiam possibilidades estéticas, éticas e po-
líticas, forças e formas. Deleuze afirma que “Nas ar-
tes, tanto na pintura como em música, não se trata de
reproduzir ou inventar formas, mas de captar forças...”
e complementa que “ a tarefa da música- diria Klee- é
a de tornar sonoras forças insonoras... por exemplo o
Tempo, que é invisível e insonoro...” (Deleuze apud
Pelbart, 1989, p.103) Que forças insonoras foram
tangenciadas por este trabalho musicoterápico? As for-
ças não são visíveis, embora não deixem de ser per-
ceptíveis. As formas podem ser visíveis.
As sessões de musicoterapia na CSVR, juntamen-
te com o dispositivo de assembléia, ocuparam um lu-
gar em potência de vida naquele manicômio. Os movi-
mentos de construção/produção de formas e suas
desconstruções reverberaram no CAPS Usina de
Sonhos.
Quando a arte se coloca à disposição das forças de
um modo específico, ela entra em contato, através do
estremecimento daí resultante, com um fora do quadro
e um fora da arte- com o Fora. Fora e forças são... tan-
to para a Experiência como para a Arte... duas faces
da mesma moeda. (Pelbart, 1989, p.107)
Produziu-se nas sessões um som louco, diferente
do som do louco, com todas as possibilidades de trans-
gressões de ordem estética, várias matizes sonoras,
uma loucura desarrazoada e alegre, uma experimenta-
ção não marcada pelos muros manicomiais que impu-
tam à desrazão. Para se estar fora é preciso se implicar
nestas possibilidades criativas que a arte, a paixão
e a loucura proporcionam, experiência-limite, limiar
de desterritorialização. Processos de territorialização,
desterritorialização e reterritorialização são propulso-
res da dança existencial do ritornelo. Podemos nos
considerar não loucos, mas não precisamos abandonar
as possibilidades da desrazão.
Poderíamos dizer que a viagem musical proposta
seria uma viagem para algo diferente da loucura ins-
tituída, um entre, uma possibilidade de diferir. Uma
abertura para o Fora é, não necessariamente a loucura
aprisionada pela história, mas sim uma desrazão des-
territorializante da loucura instituída. A loucura não é
a única manifestação da desrazão, a loucura seria ape-
nas uma clausura do Fora. Pelbart (1989) fala de uma
liberação da desrazão como uma importante modifica-
ção nas modalidades de relação com o Fora. “A loucu-
ra é, com efeito, uma viagem para Fora, um vagar no
aberto”(Pelbart, 1989, p. 138).
Esta discussão profícua entre desrazão, loucura e
Fora remete às forças que engendram os dispositivos
de libertação do louco de tantas clausuras, diremos que
este movimento na Reforma Psiquiátrica assume o an-
damento musical de allegro ma non tropo, um anda-
mento vibrante, porém ainda lento.
O MUSICOTERAPEUTA-MESTIÇO E
CARTÓGRAFO SONORO
O lugar de musicoterapeuta tradicional, o lugar de
terapeuta, de psicóloga, passaram por uma estranheza
na experimentação do Mágicos do Som. Não mais sa-
beríamos em alguns momentos que lugar estávamos
ocupando, estávamos caminhando no entre das posi-
ções, num u-topos, um não lugar. Era uma mistura,
existia uma relação respeitosa entre nós, mas não hie-
rárquica e/ou segregadora.
Pouco em equilíbrio, e também raramente em
desequilíbrio, sempre desviado do lugar, errante,
sem moradia fixa. Caracteriza-o o não lugar, sim,
o alargamento, portanto a liberdade ou, melhor
ainda, o desaprumo... (Serres, 1993, p. 20)
Com o trabalho com o grupo musical Mágicos do
Som podemos dizer que ocupávamos o não-lugar, isto
é, o lugar do limiar, do entre cujo sentido não é o de
Musicoterapia e saúde mental ... 143
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
falar pelos outros ou de estar no lugar dos outros. A
proposta era a de que os usuários de serviços de saúde
mental pudessem ocupar os lugares que eles escolhes-
sem, conquistando seus interesses. Esta também era, e
ainda é, uma prerrogativa da Luta Antimanicomial. Se
nós nos propuséssemos a ocupar o lugar do usuário
estaríamos construindo uma relação manicomial e
sufocando a voz do usuário, ao invés de promover o
contrário.
Ele, o lugar mestiço, se semeia no tempo e no es-
paço. No meio da janela que atravessa, o corpo
sabe que passou para fora, que acaba de entrar em
outro mundo (Serres, 1993, p. 18).
O lugar mestiço que ocupamos com o Mágicos do
Som deu-se a partir de nossos encontros. Mestiço por-
que permaneceu num entre. A experiência de estar nes-
te lugar provoca uma sensação de que este é o limiar
que se ocupa em todas as experiências profissionais
de um terapeuta. “Toda evolução e todo aprendizado
exigem a passagem pelo lugar mestiço” (Serres, 1993,
p. 19).
Na produção do Mágicos do Som os lugares não
estavam dados ou já constituídos, ocupávamos luga-
res mestiços, funcionávamos de modo rizomático, sem
que houvesse um centro unificador do qual partissem
as decisões. Nas palavras de Serres:
... o lugar mestiço, em torno do qual bate o ritmo e
vibra a música. (p.31) Onde soa o centro do pia-
no? Em torno do terceiro lá? Ouça o xis ou o ixe
da escala ascendente da esquerda para a direita, e
encontre, nas proximidades de algum meio, a cas-
cata de notas escorrendo do alto para o baixo; es-
cute a quimera e o ponto de encaixe. Neste ponto,
vernal, jaz a encruzilhada... (Serres, 1993, p. 25)
A experiência do Mágicos do Som e tantas outras,
incitam a acreditar que possamos fazer algo mais,
criar coletivamente novos modos de trabalhar. “... nada
aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém
sem convidá-lo a deixar o ninho ... Quem não se mexe
nada aprende” (Serres, 1993, p. 14).
O Mágicos do Som partiu, partiu de si enquanto
usuários, do manicômio, do lugar, do tempo enclausu-
rado. O grupo se mexeu e detonou um aprendizado,
multiplicidade, intensidade.
Esquece sua própria terra, sobe, viaja, vagueia,
conhece, observa, inventa, pensa. Não repete mais.
Eu penso ou eu amo, portanto eu não sou; eu pen-
so ou eu amo, portanto eu não sou eu; eu penso ou
eu amo, portanto eu não estou mais aí. Zarpei do
ser-aí. (Serres, 1993, p. 39).
Aprendizagem mestiça, aprendizagem de um lugar
que se move, de relações que se movem, de instituídos
que se movem. Uma rede móvel construída em cada
contato, em cada aproximação e afastamento. A apren-
dizagem do Mágicos do Som abriu no corpo da mu-
sicoterapia um lugar de mestiçagens. Mestiçagens com
a estética da música, com outras estéticas, mestiçagens
do setting musicoterápico.
Eis o novo. Não mais ingenuamente oposta ao dia,
como a ignorância ao conhecimento – que bela
chance é o ritmo nictemeral para aquelas simples e
cruéis divisões entre o erro e a verdade, a ciência e
os sonhos, o obscurantismo e o progresso... (Ser-
res, 1993, p. 53).
MESTIÇAGEM – HÍBRIDOS-ACTANTES
Evocamos um tema já problematizado por Chagas
(2001), quando discute a Musicoterapia como profis-
são híbrida, na complexidade do exercício de uma prá-
tica profissional entre fenômenos de hibridação e de
purificação. A Musicoterapia está na tentativa de se
estabelecer enquanto categoria profissional dentre
outras já existentes na contemporaneidade, o desafio
de práticas que navegam entre a modernidade e a
contemporaneidade. Os humanos e, ao mesmo tempo,
não humanos presentes na produção do grupo musical
em questão compõem a rede de actantes. Híbridos
ou actantes constituem os nós dessa rede, que através
dos encontros, dos agenciamentos das multiplicidades,
configuram os engendramentos do “modelo de acopla-
mento ou hibridação, em que se parece apostar numa
espécie de estrutura ou funcionalidade híbrida” (Pe-
dro, 2003, p.167 ). Cada actante, uma construção aber-
ta, se transformava com as produções dos agencia-
mentos na história, ao mesmo tempo contínua e des-
contínua do grupo Mágicos do Som.
... pensar a partir dos coletivos, do que nos liga
aos não-humanos, tem por objetivo estratégico
abrir espaço para que possamos problematizar nos-
sa própria constituição – enquanto sujeitos, en-
quanto humanos – e transformação, na medida em
que somos transformados por aquilo que aprende-
mos (Pedro, 2003, p. 175-176).
Serres nos esclarece sobre o campo de possibilida-
des nas multiplicidade destes processos de mestiça-
gens quando afirma que “estamos imersos numa espé-
cie de “oceano de possíveis”, cujo alcance e direção
não podemos saber de antemão, e no qual estamos
aprendendo a navegar” (apud Pedro, 2003, p. 177).
O MÁGICOS DO SOM
No CAPS Usina de Sonhos um grupo processa
rizomaticamente criação e contágio, inventando cole-
144 Silva, R. S. da, & Moraes, M.
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
tivamente um modo de operar seus sonhos e sua
musicalidade. “A música nunca deixou de fazer pas-
sar suas linhas de fuga, como outras tantas ‘multiplici-
dades de transformação’... ” (Deleuze e Guattari, 2004,
p.21). O grupo musical Mágicos do Som pode ser con-
cebido como uma composição contemporânea; que
não totaliza, heterogênea, deixando passar suas linhas
de fuga, tentando desterritorializar o instituído da lou-
cura. Desterritorialização como um movimento que
deriva do território, mas que harmoniza com este, uma
repetição da diferença no ritornelo.
Há uma função desterritorializante da música, que
lhe permite transversalizar, e atravessar diversos
modos de subjetivação, ou diferentes ‘mundos
próprios’ – esta é uma das funções da arte como
um todo. Mas esta qualidade, a música a tem em
maior grau. (Rauter, 1998, p.162).
Composição que opera um caminhar no entre,
passagens, rupturas, criação, estado de coisas e fuga.
Como uma fuga musical, melodias que criam movi-
mentos, escapam e harmonizam. Dissonâncias não
dicotômicas, sem binarismos, ritmo assimétrico.
O desejo de criar um grupo musical emergiu em
meio aos encontros dos usuários deste CAPS com as
sessões de Musicoterapia, com os instrumentos musi-
cais, com as práticas de assembléias em que todos po-
deriam expor suas idéias e estas eram compartilhadas.
Este desejo de criar um grupo musical foi se agencian-
do com uma busca coletiva de levar adiante ideais de
afirmação de uma potência de vida em detrimento a
uma visão segregadora e impotente direcionada a
usuários de serviços de saúde mental. “O agencia-
mento é a liga do desejo na produção de mundos. Ele
põe, em cena, os funcionamentos e os movimentos
arborescentes e rizomáticos do desejo nesta produção”
(Neves, 2002, p.112). O Mágicos do Som desejava
romper com o instituído da loucura, esse era o sonho,
constituir-se como qualquer grupo musical fora da
construção da loucura. Eles queriam um outro lugar, o
de músicos. Eles acreditaram nessa ousadia e constru-
íram coletivamente uma dinâmica de funcionamento,
engendrando possibilidades de expansão de territórios
existenciais. Seguindo o fluxo molar, o “plano da
segmentaridade dura, do visível, dos processos consti-
tuídos...” (Neves, 2002, p.45), podemos dizer que o
grupo musical foi se constituindo a partir de vários
agenciamentos: com o poder instituído do CAPS, com
o Poder Público Municipal e o apoio para gravar um
CD, para fazer um vídeo-clipe da música de trabalho e
com os recursos para apresentações em vários municí-
pios. Estes agenciamentos produziram de um lado a
visibilidade do grupo através da mídia local e de outro
lado, o apoio de mais pessoas da comunidade. No seu
caminhar o funcionamento do Mágicos do Som pro-
duziu uma dinâmica onde todos os envolvidos fugiam
do lugar instituído, era uma composição louco-músi-
co, um devir músico no louco e um devir louco no
músico. “Não há um termo do qual se parta, nem um
ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar... Pois à
medida que alguém se transforma, aquilo em que ele
se transforma muda tanto quanto ele próprio” (Deleuze
e Parnet, 1998, p.8). Uma transição em movimento,
um caminhar no entre, um híbrido que expressava sua
música e ampliava sua voz e seus sonhos, um concerto
de intensidades, musicalmente interagindo em propul-
são de contágio. O fluxo molecular com suas “linhas
flexíveis, devir... operando aberturas para um campo
de multiplicidades” (Neves, 2002, p.45). Cada som dos
instrumentos, cada opinião nas discussões, cada crise
constituía-se num repensar, refazer, refletir as práticas.
Cada ator fazendo conexão com os outros. As regras
eram construídas na experiência, a partir de acordos
coletivos após discussões. Uma experimentação de
“processualidade onde a variação é contínua e as rela-
ções são produzidas por conexões de fluxos intensivos
e heterogêneos” (Neves, 2002, p. 46).
RIZOMA – COMPOSIÇÃO MICROPOLÍTICA
E SUAS RESSONÂNCIAS
A música não se detém no espaço. A música acon-
tece no tempo, ela se constitui em sons e silêncios
concomitantes. Assim também se constituem os dois
planos indissociáveis, o plano molar e o molecular,
estes são “dois modos de recortar a realidade” eles se
atravessam o tempo todo e correspondem ao que
Rolnik chama “duas formas de individuação, duas
espécies de multiplicidades, ... duas políticas” (Rolnik
apud Neves, 2002, p. 45). O molar corresponderia ao
plano das formalizações, “plano da segmentaridade
dura, do visível, dos processos constituídos” ... e o
molecular ao plano das intensidades, “plano da forma-
lização do desejo, do invisível, ... nele temos a predo-
minância das linhas flexíveis-fluxos, devir” (Rolnik
apud Neves, 2002, p.45).
O plano macropolítico ressoa/afina-se com o mo-
lar assim como o platô micropolítico ressoa/afina-se
com o molecular e ambos podem ser audíveis numa
harmonia contemporânea sem que as dissonâncias se-
jam consideradas desafinação. Como um acorde com
a sétima nota, a dissonância é constitutiva.
Na ocasião em que o grupo Musical Mágicos do
Som começou a funcionar, neste contexto, em confor-
midade com os ideais da Reforma Psiquiátrica, era
recorrente a discussão acerca da necessidade de
reinserção social dos usuários de saúde mental através
de dispositivos como a música. As idéias de reabilita-
Musicoterapia e saúde mental ... 145
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
ção psicossocial estiveram presentes de modo mar-
cante na literatura sobre saúde mental no Brasil.
No entanto, algumas discussões teóricas problema-
tizam a concepção binária (incluído × excluído) pre-
sente neste campo e propõem um modo de pensar a
saúde mental longe das dicotomias, cartografando as
forças que engendram o funcionamento dessa máqui-
na, incitando forças propulsoras de disrupção do insti-
tuído da loucura para o escape da linha de fuga da
desrazão. Conceber a pertinência da desrazão se cons-
titui numa necessidade ao lidar com a loucura. Corte-
fluxo, variações intensivas, diferença produzindo di-
ferença. Talvez seja possível afirmar que no grupo
musical Mágicos do Som ocorreu um movimento no
sentido da reinserção psicossocial. Porém, é preciso
salientar que este movimento não seguiu um roteiro
previamente estabelecido, ao contrário ele foi produ-
zido de modo imanente e não dicotômico. Os binômios
terapeuta-cliente, normal-anormal foram se desconfi-
gurando e se constituíram num funcionamento rizo-
mático.
Funcionamento rizomático: improvisação
tonal e atonal ao mesmo tempo
Um rizoma é feito de platôs, mas há composições
tonais, há dimensões, mas sem totalizações. As linhas
constitutivas do rizoma podem ser tanto de segmen-
taridade, de estratificações, onde o estado de coisas
forma constructos visíveis, quanto de fuga ou de
desterritorialização, as quais abrem brechas às forças
do caos. Um movimento do ritornelo. Há entradas por
qualquer parte do rizoma e as saídas sempre são múlti-
plas. Porque rizoma é um rio que rói suas margens e
ganha velocidade pelo meio (Deleuze e Guattari, 2004,
p. 37). Ele “procede por variação, expansão, conquis-
ta, captura, picada” (Deleuze e Guattari, 2004, p. 32).
Um rizoma é um sistema a-centrado que rejeita qual-
quer modelo estrutural, não hierarquizado, mas pode
se propagar de forma fascista, o enrijecimento da for-
ma ou uma priorização de um dos elementos do terri-
tório, ou mesmo a idéia de uma estrutura profunda e
lideranças apoteóticas podem produzir um rizoma de
funcionamento fascista. Torna-se necessário que a
heterogeneidade não sucumba a uma idéia de homo-
geneização, tentativa de um acorde perfeito maior
idealizado. “O rizoma é o método do antimétodo, e
seus ‘princípios’ constitutivos são regras de prudência
a respeito de todo vestígio ou de toda reintrodução da
árvore e do Uno no pensamento” (Zourabichvili, 2004,
p.99). Há que se caminhar sob os cuidados da prudên-
cia nas construções coletivas, olhar atento sob as len-
tes polidas pela ética. Remeter-se a ética como uma
lanterna numa estrada ao caminhar. Porque funcionar
rizomaticamente é construir o caminho no caminhar, o
próprio caminhante como parte do caminho (pensa-
mento taoísta). As dicotomias, dualismos, binarismos
são dispensáveis no funcionamento rizomático. A gra-
ma brota e se espalha pelo meio. “As multiplicidades
são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades
arborescentes” (Deleuze e Guattari, 2004, p.17).
A idéia de multiplicidade substantiva, diferente da
idéia de múltiplo adjetivado, nos remete a pensar o
rizoma com inexistência de unidade que sirva de pivô,
ou estrutura, ou divisão a priori entre sujeito e objeto.
Formam-se dimensões que se agenciam e mudam de
natureza. “Um agenciamento é precisamente este cres-
cimento das dimensões numa multiplicidade que muda
necessariamente de natureza à medida que ela aumen-
ta suas conexões” (idem, p. 17).
Bruno Latour (1994), antropólogo francês, faz uso
da noção de rizoma quando lança as bases da teoria
ator-rede. O autor trabalha com a noção de rede e su-
blinha a importância da articulação entre humanos e
não humanos na produção de efeitos em rede. Subjeti-
vidade e objetividade são para o autor efeitos das arti-
culações entre humanos e não humanos. Uma rede é
um plano de conexões, de agenciamentos no qual as
diferenças se produzem. Na construção do Mágicos
do Som, os actantes usuários de saúde mental co-
nectaram-se com a música, com os instrumentos musi-
cais, com os poderes instituídos... e esta rede compôs
uma música contemporânea por esses agenciamentos/
conexões. Em cada um desses actantes conectados,
novas perspectivas, novos funcionamentos foram en-
gendrados.
“Como multiplicidade substantiva que comporta
termos heterogêneos, o agenciamento estabelece entre
os termos relações diferenciais imanentes, de modo
que um termo da relação não se torna outro, se o outro
já não se tornou outra coisa” (Neves, 2002, p.112). No
grupo musical Mágicos do Som, as lideranças, os pa-
péis, as funções, todas as formas apresentavam varia-
ções ao longo do percurso. A cada apresentação musi-
cal fazíamos uma reflexão sob todos os aspectos des-
ta. Utilizando música, palavras e sons, compartilháva-
mos as diferenças, sem idealizações, apenas pela pos-
sibilidade de estarmos nessa convivência de forma
prazerosa, sem nos perguntarmos quem era o terapeuta
e quem era o cliente, ou quem era o normal e quem
não o era. Transformávamos a nossa forma de atuar,
de conviver, de pensar e de interagir. Na multiplicidade
não há necessidade de unidade. Não há necessidade
de divisão entre uno e múltiplo.
Um rizoma não cessaria de conectar cadeias
semióticas, organizações de poder, ocorrências que
remetem às artes, às ciências, às lutas sociais
(Deleuze e Guattari, 2004, p.15-16).
146 Silva, R. S. da, & Moraes, M.
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
O SOM DO RITORNELO5
Um caldeirão caótico musical configurava as ses-
sões de musicoterapia no CAPs Usina de Sonhos, uti-
lizávamos predominantemente a técnica de re-criação
musical, na qual as regras estéticas da música não são
priorizadas e a expressão sonoro-musical brota con-
forme o pulsar da musicalidade. O desafio de produzir
o grupo musical Mágicos do Som, um desvio que dife-
renciava a relação com a música; uma organização
dessa musicalidade expressiva caótica para uma
formatação estética que permitisse a expressão musi-
cal para apresentações em público. Uma ordenação vi-
sível da musicalidade emergente. Em discussões cole-
tivas, acordou-se que o grupo se propunha a tentar
modificar a idéia estigmatizada sobre os usuários de ser-
viços de saúde mental, eles gostariam de apresentar ao
público seu ideário contra o preconceito que identifica-
vam nas suas relações com as outras pessoas ditas nor-
mais. Neste contexto, surgiu a primeira música, que du-
rante todo o período que estivemos juntos foi repetida em
todas as apresentações. Samba composto e cantado por
Regina Serrão,6
componente do grupo. A música de tra-
balho do primeiro CD – intitulado Saúde Musical – era
uma música protesto, manifesto, expressão e apelo.
Esta não foi a única música composta pelos com-
ponentes do grupo, mas era a mais executada nas apre-
sentações e se repetia como uma marca que expressa-
va o ideário do grupo. Na letra desta música busca-se
uma aceitação, mas seria a aceitação de uma diferen-
ça? Uma tentativa de igualdade “somos bem pareci-
dos...” ou um protesto contra os fluxos de segregação
ao usuário de serviço de saúde mental? Esta composi-
ção sintetiza sem homogeneizar a idéia, sem fechar,
uma voz, várias vozes, uma polifonia. Como a própria
música incita “ você não tem o direito de me querer
aprisionado”, um exercício de buscar o significado da
música nos parece enfraquecedor de sua potência, não
buscamos uma representação.
O grupo surgiu no contexto da luta antimani-
comial, uma luta que não se detém em acabar com os
muros dos hospícios, mas acabar com o enclausu-
ramento da desrazão, acabar com o instituído da ver-
dade sobre a loucura e acabar com a lógica antagônica
que propõe uma segregação sobre uma forma de pen-
sar a realidade e de vivê-la que não seja uniforme,
formatada, extensiva.
Deleuze e Guattari buscam na música o conceito
de ritornelo para pensar o fenômeno de territoria-
lização. O ritornelo pode ser definido como: todo con-
junto de matérias de expressão que traça um território,
e que se desenvolve em motivos territoriais, em pai-
sagens territoriais (há ritornelos motores, gestuais,
ópticos, etc.). Num sentido restrito, falamos de ritor-
nelo quando o agenciamento é sonoro ou ‘dominado’
pelo som. (Deleuze e Guattari, 1997, p.132).
Ritornelo é o retorno. Em teoria musical, tem a
função de repetição. É um símbolo que demarca deter-
minado trecho que deverá ser repetido, sendo necessá-
rios dois sinais para fazer essa delimitação na partitu-
ra (de abertura e fechamento do trecho). Ele facilita a
escrita musical por não ser necessário que se reescre-
va a parte que se quer repetir. Mas a repetição no fazer
musical não acontece de forma absoluta, posto que a
cada repetição, novos componentes musicais e inter-
pretativos são expressos. Como já escrito anteriormen-
te, essa repetição expressada na música Preconceito,
marcava ao mesmo tempo uma sonata e uma fuga, uma
sonata que propunha uma forma previsível e uma fuga
que incitava uma mudança de lugar, um deslocamen-
to. De louco e músico todos nós temos um pouco, é o
que diz o ditado popular, mas quando o músico e o
louco se instauram num híbrido e se expressa confor-
me lhe convém, as noções de diferença e igualdade,
ou a heterogeneidade da proposta toma uma certa
ousadia. Repetia-se este canto como num ritual, era a
marca do grupo, este canto, este cantar, este encantar.
MOVIMENTOS DO RITORNELO
O ritornelo possui três movimentos: territoria-
lização, desterritorialização e reterritorialização. Ele
os torna simultâneos ou os mistura: ora, ora, ora. As
forças do caos se organizam, cria-se uma ordem, um
traço de ordenação de um espaço-tempo. Mas esta
ordem não é homogênea, há algo de desorganização.
O território abriga em si forças cósmicas de abertura.
Em algum momento insurge a improvisação, o lançar-
se, no qual as forças presentes movimentam-se des-
territorializando as antes instituídas. Forças de trans-
formação. Cria-se, modifica-se a ordem acessando as
forças do caos. Mas este movimento de desconstrução,
em algum espaço-tempo, reterritorializa-se. Forças
centrífugas e centrípetas redimensionam e propõem
outra organização, ou melhor, outro arranjo, que não é
mais o anterior, mas contém algo dele.
O ritornelo é o próprio princípio gerador de movi-
mento, através das composições de forças dos fluxos
desejantes. O ritornelo não é outra coisa senão um
movimento de retorno da diferença. O desejo manifes-
ta-se em ciclos, em ondas, com velocidades e intensi-
dades diferentes. O ritornelo é o desejo que flui. “As
forças da desordem (as do caos), as forças terrestres
(que implicam uma marcação territorial) e as forças
cósmicas; tudo isso se afronta e concorre no ritornelo”
(Deleuze e Guattari, 1997, p.118). Nesse pulsar de um
manifesto, ouve-se uma sonoridade impune, um pro-
testo que seduz. Um canto de pássaro que marca seu
Musicoterapia e saúde mental ... 147
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
território e é conhecido por este canto. Não há um dizer
sobre a loucura que a totalize e quanto a arte, há o escape,
o escape da desrazão, talvez, por vezes, aprisionada ou
contida em formas de produção de subjetividade capi-
talista. Cantar a diferença, repetir a diferença, brincar
com a diferença, desejar a diferença, produzir a dife-
rença, diferenciar a produção... esta foi a ciranda na
construção do grupo musical Mágicos do Som.
CONCLUSÃO
O grupo musical Mágicos do Som produziu um
diferencial nas práticas muscoterápicas tradicionais.
Voltou-se sobre os muros manicomiais na busca de
substituí-los por outras formas de atuação, ampliou o
setting ou criou outros settings. Uma dinâmica de fun-
cionamento que acreditamos permite-nos inventar no-
vos modos de trabalhar em Musicoterapia, apostando
nos coletivos heterogêneos e nas linhas que forem se
desenhando a partir das experimentações. Expandir a
clínica musicoterápica ou produzir desvios a partir de
fluxos inesperados, construindo settings além de con-
sultórios de saúde mental. Uma clínica no espaço da
vida ou um espaço de vida na clínica.
A construção mestiça da música, a nossa experi-
mentação mestiça no grupo, permitiram-nos uma mis-
tura capaz de transgressões e ousadias. Desvios, pos-
sibilidades de lidar com os grupos sem a segmen-
taridade das hierarquias enrijecidas dos modelos
manicomiais. Um dos efeitos da produção do Mágicos
do Som para as práticas musicoterápicas foi a aposta
nos encontros das multiplicidades e nas produções de
mais mestiçagens como artifício para o diferir como
potência de vida. Potência de criação, possibilidades
de inventar modos de trabalhar, criar modos de estar e
atuar no mundo, convivendo com as produções hete-
rogêneas. E que não se restrinja este modo de pensar
à relação dos usuários dos serviços de saúde mental
apenas em suas comunidades. Que estes e outros mo-
dos de trabalhar possam ser utilizados em outras arti-
culações, outros agenciamentos, outros encontros de
multiplicidades substantivadas que somos nós. A pro-
pulsão Mágicos do Som ainda reverbera. O pulso ain-
da pulsa.
REFERÊNCIAS
Chagas, M. (2001). Musicoterapia desafios da interdiscipli-
naridade entre a modernidade e a contemporaneidade. [Dis-
sertação de mestrado], EICOS, Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.
Deleuze, G., & Guattari, F. (2004). Mil platôs: capitalismo e
esquizofrenia (3ª ed.) (Vol. I). São Paulo: Ed. 34.
Deleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil platôs, capitalismo e
esquizofrenia (Vol. 4). São Paulo: Ed. 34.
Deleuze, G., & Parnet, C. (1998). Diálogos. São Paulo: Escuta.
Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. São Paulo: Ed. 34.
Moraes, M. (2006). A ciência como rede de atores: ressonâncias
filosóficas [online]. Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, 11, 2, pp.
321-333, maio/ago. 2004 [citado 09 de março 2006]. Disponí-
vel em: <http://www.scielo.br/scielo.php>.
Moraes, M. (1998). Por uma Estética da Cognição: A Propósito
da Cognição em Latour e Stengers. Informare, 4, 1, 49-56.
Neves, C.E.B. (2002). Interferir entre desejo e capital. [Tese de
Doutorado], Departamento de Psicologia Clínica, PUC-SP, São
Paulo.
Pelbart, Peter P. (1993). A nau do tempo-rei: 7 ensaios sobre o
tempo e a loucura. Rio de Janeiro: Imago.
Pelbart, Peter P. (1998). Da clausura do fora ao fora da clausura-
loucura e desrazão. São Paulo: Brasiliense.
Pedro, R. M. L. R. (2003). Reflexões sobre os processos de
subjetivação na sociedade tecnológica. In: Machado, J. A. S.
(Org.). Trabalho, economia e tecnologia: novas perspectivas
para sociedade global. São Paulo: Práxis.
Rauter, C. (1998). Clínica do esquecimento: construção de uma
superfície. Tese (Doutorado). PUC São Paulo, São Paulo.
Serres, M. Filosofia Mestiça. (1993): Nova Fronteira.
Zourabichivili, F. (2004). O vocabulário de Deleuze. Rio de Ja-
neiro: Relume Dumará.
Notas:
1 Várias pessoas compuseram o grupo musical Mágicos do Som no período
de 1997 à 2003, são eles: José Antônio Pátio Filho, Maria Lúcia Jacinto,
Regina Lúcia Serrão, Jorge Luiz Silva, Josias Moraes, Hélio Cirineu, Se-
bastião Venâncio, Rosiléia Cândido, Marco Antônio da Costa Marques,
Carlos Nilson Mendes, Wanderley Brasil, Gilmar, Aridéia, Rinaldo, Márcia
Ferreira, Marco Aurélio, Sônia Maria, Vera Gonçalves. E também Dona
Cida, Jurema e Fernanda (familiares) e Raquel Siqueira (musicoterapeuta).
2 Os profissionais de nível médio que desenvolviam oficinas artesanais eram
chamados de oficineiros.
3 Conforme Moraes (1998) a noção de rede “não remete a nenhuma entidade
fixa, mas a fluxos, circulações, alianças, movimentos. A noção de rede de
atores não é redutível a um ator sozinho nem a uma rede. Ela é composta de
séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agen-
ciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionais
atores da sociologia, uma categoria que exclui qualquer componente não-
humano. Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um
tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeita-
mente definidos, porque as entidades da quais ela é composta, sejam elas
naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identida-
de e suas mútuas relações, trazendo novos elementos para a rede. Neste
sentido, uma rede de atores é simultaneamente um ator cuja atividade con-
siste em fazer alianças com novos elementos, e uma rede que é capaz de
redefinir e transformar seus componentes”.
4 Abordaremos este conceito mais adiante, aqui referimo-nos à Deleuze quan-
do escreve: “Lembremo-nos a idéia de Nietzsche: o eterno retorno como
pequena cantilena, como ritornelo”. (1997, p. 159-160)
5 Agradecemos a Rosana Saldanha Silva cuja parceria permitiu que escrevês-
semos este trecho do artigo que versa sobre o conceito de ritornelo.
6 Preconceito: Autora: Regina Serrão. Preconceito é besteira/Seja de raça ou
de cor/Seja de perto ou de longe/O que vale é o amor/Essa idéia afasta,
separa, ignora/Causa dor e sofrimento/Só o sabe quem o sente/Dói bastante
dentro da gente/ Não somos perigosos/Muito menos desumanos/Temos di-
reito à vida/Temos direito ao amor/Podemos parecer diferentes/Podem nos
achar esquisitos/Com paciência mostramos/Que somos bem parecidos/O
amor é uma virtude/Preconceito um pecado/Você não tem o direito/De me
querer aprisionado.
Autoras:
Raquel Siqueira da Silva – Psicóloga. Especialista em Musicoterapia pelo
Conservatório Brasileiro de Música. Coordenadora do curso de graduação em
Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música. Mestranda no Progra-
ma de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense.
Marcia Moraes – Doutora em Psicologia Clínica, PUC-SP. Professora do Pro-
grama de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense.
E-mail: mmoraes@vm.uff.br
Endereço para correspondência:
RAQUEL SIQUEIRA DA SILVA
Conservatório Brasileiro de Música – Centro Universitário
Av. Graça Aranha, 57, 12º andar – Centro
CEP: 20030-002, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Fones: (21) 9631-9409 / (21) 2610-0827
E-mail: raqsiqueira2000@yahoo.com.br

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  • 1. v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 PSICOPSICO ΨΨ Musicoterapia e saúde mental: relato de uma experimentação rizomática Raquel Siqueira da Silva Marcia Moraes Universidade Federal Fluminense (UFF) RESUMO Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiência profissional na área de Musicoterapia no contexto da Reforma Psiquiátrica. A experiência teve seu início numa instituição manicomial na cidade de Volta Redon- da, no Rio de Janeiro e, em seguida, passou a ser realizada num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O trabalho musicoterápico teve como um de seus desdobramentos a criação de um grupo musical com os usuários dos serviços do CAPS. Utilizamos algumas noções da filosofia da diferença de Deleuze-Guattari para refletir sobre esta experimentação. Consideramos a Musicoterapia como um saber mestiço, híbrido e concluímos indicando que a experiência com o grupo musical nos permitiu refletir sobre algumas das for- mas de atuação e intervenção da Musicoterapia. Palavras chave: Musicoterapia; rizoma; saúde mental. ABSTRACT Music therapy and mental health: Report of an rhizomatic experience This paper has the aim to report a music therapy professional experience in the context of Psychiatric Reform. The experience began in a psychiatric institution situated at Volta Redonda, in the state of Rio de Janeiro and, later, it was transfered to a Psychosocial Support Center (CAPS). Music therapy working had as one of its consequences the creation of musical groupe with the CAPS services users. We based this paper with some notions from Deleuze-Guattari difference philosophy in order to reflect about this experience. We consider music therapy as an hybrid knowledge and we conclude to indicate that this musical groupe experience allowed us to think about some ways of acting with music therapy. Key words: Music therapy; rhizoma; mental health. INTRODUÇÃO Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiên- cia profissional na área de Musicoterapia. A experiên- cia que relataremos neste trabalho teve início na Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR) onde uma de nós tra- balhava como musicoterapeuta. Neste contexto, nosso trabalho era desenvolvido com os usuários de serviços de saúde mental ainda em internação psiquiátrica. No campo da Reforma Psiquiátrica, o poder públi- co municipal interveio na CSVR, um dos efeitos deste encontro foi a criação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Neste contexto foi possível desenvolver um trabalho musicoterápico que foi além das condições asilares e construiu uma trajetória ousada. No âmbito do CAPS nosso trabalho musicoterápico levou à formação de um grupo – o Mágicos do Som1 – que pretendia criar um funciona- mento em que a voz do usuário de serviços de saúde mental pudesse ser ouvida sem preconceitos. Neste artigo apresentamos a trajetória desta expe- riência e nos perguntamos de que modo o grupo musi- cal Mágicos do Som nos leva a repensar as práticas em Musicoterapia no campo da saúde mental. A MUSICOTERAPIA NA CASA DE SAÚDE VOLTA REDONDA – O SOM NO ESPAÇO-TEMPO DO MANICÔMIO A Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), locali- zada em município de mesmo nome no sul do Estado do Rio de Janeiro, é uma clínica psiquiátrica privada que desde abril de 1994 está sob intervenção da pre- feitura municipal. Esta intervenção ocorreu em função de várias precariedades no atendimento ao usuário e irregularidades com os funcionários. Com o lema “Em
  • 2. 140 Silva, R. S. da, & Moraes, M. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 Defesa da Vida”, a Secretaria Municipal de Saúde con- tratou vários profissionais para promoverem a Refor- ma Psiquiátrica neste município. O slogan inicial pro- pagado era “Saúde não se vende, loucura não se pren- de”. A ousada proposta da equipe técnica, formada por psicólogos, assistentes sociais, musicoterapeuta, psiquiatras, enfermeiros e oficineiros2 era a de “des- construir” o manicômio. Havia uma atmosfera de grande otimismo para mudar as forças instituídas e territorializadas do hos- pício. As práticas de isolamento nas enfermarias fo- ram invadidas por olhares e intervenções atentas da equipe que propunha dissolver a dinâmica cronificada do funcionamento manicomial. O discurso da luta anti- manicomial ecoou em todos os espaços de discussões, era o pulsar de uma empreitada que atravessaria nos- sos modos de trabalhar e de pensar a saúde mental. Mais do que um investimento do poder público muni- cipal, era uma aposta nas possibilidades de produção de outras subjetividades, diferentes daquelas que ali predominavam: a do louco marginalizado, excluído, o sem razão. O primeiro projeto de musicoterapia da CSVR, escrito em abril de 1995, apresentava os objetivos de: “ propiciar a integração entre usuários e os assistentes através da música; facilitar a auto-expressão criativa, através do sonoro-musical; promover a abertura dos canais de comunicação através de técnicas musico- terápicas”. O grupo musicoterápico começou a acon- tecer na sala de Terapia Ocupacional. Antes de ingres- sar no grupo o usuário era entrevistado com a ficha musicoterápica, uma espécie de anamnese sonoro- musical preenchida pelo musicoterapeuta, com vários dados de sua história sonoro-musical, isto é recorrente em atendimentos musicoterápicos tradicionais. Muitos componentes que posteriormente partici- pariam do grupo musical Mágicos do Som freqüenta- vam este grupo de musicoterapia na CSVR durante suas internações. A técnica musicoterápica mais utili- zada era a re-criação musical, que consiste num fazer sonoro-musical livre, sem a exigência de estética mu- sical específica. O cantar como exercício de re-criar a música e o dançar coletivamente são freqüentes no emprego desta técnica. Ao mesmo tempo em que forças propulsoras de transformação do modelo manicomial (as linhas de fuga) atuavam, práticas cronificadoras (linhas rígidas, visíveis e de abolição) atravessavam o tempo e o espa- ço. O espaço era manicomial, um prédio de hospício. Ainda havia uma ação calcada numa cisão entre dentro e fora, provavelmente produzida por uma dicotomia visível das velhas práticas manicomiais que na CSVR foram encontradas. Afirmar esta discussão fora do espaço asilar era um movimento que se acredi- tava desestabilizar o lugar instituído da loucura. Por que prendê-los? Neste processo de desterritoriali- zação, essa linha de fuga pleiteava já a dissolvência do modelo manicomial para uma rede substitutiva de atendimento ao usuário de serviço de saúde mental. A pretensão não era criar serviços que complementassem o atendimento asilar, mas prescindi-lo totalmente. As linhas mais observáveis eram as duras, extensi- vas, visíveis. Conviviam as linhas que demarcavam a força dos instituídos da loucura com as linhas que se pretendiam de fuga, mas que também se apresentavam de forma identitária, conscientizadora... Mas havia espaços-tempos onde as intensidades pulsavam. As assembléias foram uns dos espaços em que posterior- mente pudemos identificar como dos mais propulso- res de discussões que fragilizavam os enrijecimen- tos instituídos e institucionais. Eram assembléias das quais participavam todos os funcionários e todos os usuários. Os segmentos, os serviços, as atuações pro- fissionais, as queixas, os elogios etc., enfim todo o fun- cionamento da CSVR era problematizado. A Assem- bléia era uma rede de conexões3 ocupando um espaço de forma densa, mobilizando as formas e forças. As- sembléia era o momento em que as vozes eram ouvidas, mas não somente as alucinatórias, ou as cronificadas das posições hierárquicas, eram as vozes cujos efeitos se produziam nas práticas quotidianas. Era uma tensão e reflexão, um contraponto numa ins- tituição que os aprisiona no tédio infernal do Mesmo, na re- petitividade sem história , num eterno presente que é em si a imagem cinza de uma morte sem desfe- cho (Pelbart, 1993, p.20). Pelbart (1989 e 1993) escreve sobre uma invenção da loucura na qual se produziu historicamente uma loucura inútil, capturada, impotente, cheia de manei- rismos e revestida de uma segregação implícita, esta segregação também produzida. Outros espaços na CSVR flexibilizavam este lugar, produziam mudanças de posição, insistência, resistência. Vozes, vontades, devires. Tanto as assembléias quanto as sessões de musi- coterapia eram tempos ocupados por espaços diferen- ciados e, concomitante, espaços ocupados por tempos não aprisionados e isto era uma resistência. Porque neste “lá” (local e tempo) encontravam-se falas que se ouviam, sons que poderiam ser manifestos sem asilamento, fontes sonoras que escapavam de grades e transpassavam os muros. Espaços e tempos de discus- sões, de propostas, de acordos respeitosos a cada voz, a todas e aos silêncios. Era possível sentir esta orquestração e pretender ocupar outros espaços com esta lógica inclusiva. Práticas homogeneizadoras e
  • 3. Musicoterapia e saúde mental ... 141 PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 disciplinarizantes são recorrentes na história da saúde mental, contrariá-las é resistir e produzir diferenças. Acolher a diferença é resistir ao despotismo da predo- minância. Nas palavras de Pelbart: Recusar a homogeneização sutil mas despótica em que incorremos às vezes, sem querer, nos disposi- tivos que montamos quando o subordinamos a um modelo único, ou a uma dimensão predominante. (Pelbart, 1993, p. 23) A forma do grupo de musicoterapia alcançou os objetivos propostos pelo projeto inicial, mas ainda es- tava na forma, era possível improvisar, expressar, to- car, cantar, dançar, mas estávamos ali no espaço asilar, compreendidos nesta linha de abolição, era uma fuga logo capturada. Os usuários de serviços de saúde men- tal, internados na CSVR, saíam da sessão e voltavam para a enfermaria. Aquilo era incômodo, estranha- mento, revolta, captura e submissão. “Não é inútil lembrar que o tempo da criação artís- tica ou do pensamento também exige algo dessa or- dem. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a forma brotem a partir do informe e do indecidido”. (Pelbart, 1993, p.36 ). A idéia do grupo musical não surgiu no manicômio. Os internos despotencializados, medicados, sonolentos, compartilhavam daquele mo- mento. Assim se expressavam e eram ouvidos. A primeira coisa que chama a atenção de um visi- tante num hospital psiquiátrico é essa lentificação, esse ritmo específico, esse regime temporal dife- renciado. Sim, às vezes isto se deve aos efeitos dos psicofármacos, às vezes à lentidão burocrática das grandes instituições... (Pelbart, 1993, pp. 39-40) A experimentação do trabalho musicoterápico pre- tendia produzir intensidades naquelas vidas tão parali- sadas, medicadas, rotineiras, com poucas perspectivas e surpresas, rotinas cortadas por crises logo abafadas. Embora as aparências de sonolência e lentidão esti- vessem mais visíveis, nem a internação, nem a crise, nem a medicação continuariam da mesma forma por todo o tempo; esta era uma esperança, apostar nos devires, embora muitas vezes imperceptíveis. Os rit- mos não se aglomeram nem se decompõem, eles coe- xistem, se misturam no tempo, a música se dá no tem- po e atravessa espaços. A única forma de reter a músi- ca de um momento é na memória, este é um legado. E aquelas pessoas internadas guardavam algo em suas memórias. Apreciar as histórias contadas nas sessões, sem se preocupar com sentidos ou verdades era um exercício no tempo, como ocorre na música. Embora as linhas de fuga, de desterritorialização fossem rapi- damente capturadas pela máquina manicomial, as en- grenagens apresentavam falhas propulsoras de devires. Questionar se o louco seria capaz de escapar a sua história seria um falso problema, ele está o tempo todo produzindo linhas de fuga, seja em seu fazer artístico, seja em sua alucinação ou delírio. São escapes, dis- rupturas, acontecimentos muitas vezes não comparti- lhados ou abafados pelos dispositivos institucionais e institucionalizados de apreensão de possibilidades de diferir. Quanto à discussão filosófico-histórica sobre loucura; embora esta não seja um invariante histórico, Pelbart sublinha que ao mesmo tempo que criamos uma identidade para o louco, tornâmo-lo inofensivo, inoperante no seu processo de desterritorialização. O que escapa à história não é o eterno, mas o que Nietzsche chamou de intempestivo ou inatural, Foucault de atual, Deleuze de devir, ou aconteci- mento. (Pelbart, 1993, p.83). [E mais adiante o au- tor pergunta:]: “Será que a libertação do louco não corresponde, no fundo, a uma estratégia de homo- geneização do social? (Pelbart, 1993, p.104). Presenciamos uma tentativa homogeneizadora, um despertar de aforismos intelectuais que engendram um saber despótico sobre a loucura, trata-se de uma sufo- cação de devires, provavelmente aspirada pela apro- priação indébita do que lhe é fortuito, a desrazão. Mas em ritornelos existenciais4 sempre há um espaço-tem- po para criar novas formas. Onde pensamos não ha- ver espaço podemos criá-lo, mas não com um saber homogeneizante, talvez com um não-saber calcado no que há de mais simples e, no entanto, mais complexo, a experimentação. Experimentar, experienciar, presen- ciar, presentificar; estamos falando de conviver, mis- turar-se, confundir-se heterogeneamente e descobrir diferenças antes impensadas. Outras formas de criar diferenças, produzi-las, ou simplesmente deixar que elas brotem rizomaticamente como erva proibida, ao mesmo tempo desejada e reprimida. Sempre há tantas forças em sintonia, tantas pragas de coerção, mas a estranheza da desrazão permite escapar a esta clausura da inconsistência. Pelbart (1993, p. 95) afirma que a modernidade capturou o estranho, domesticou-o. Ele sublinha a im- portância do Pensamento do Fora que seria a expe- riência que se dá no Desconhecido. O autor acrescenta que “o Pensamento do Fora é aquele que se expõe às forças do fora que transforma a Força em intensidade” (Pelbart, 1993, p. 96). O poder despótico da razão em nossa cultura ocidental e o enclausuramento dos lou- cos a partir do século XVII nos remete a várias ques- tões sobre o porquê da insistência do modelo mani- comial, ainda que este modelo tenha se mostrado im- procedente para muitos autores. Pelbart lembra que “enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, o pensamento racional trancafiava a desrazão e ainda
  • 4. 142 Silva, R. S. da, & Moraes, M. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 afirma que “é preciso recusar o império da Razão” (Pelbart, 1993, pp. 106-107). Para isto, precisaremos mudar muitas coisas. Os trabalhadores, usuários, mili- tantes, familiares, todos os que estão direta ou indi- retamente envolvidos com a saúde mental, podem se beneficiar com esta discussão, posto que a escravidão em relação à lógica racionalista não leva apenas ao enclausuramento do louco, mas a outros aprisiona- mentos. Pelbart em duas de suas obras (1989 e 1993) aprofunda a discussão do Fora em relação à loucura e à desrazão. Enquanto a desrazão era afetiva, imaginária e atemporal, a loucura será temporal, histórica e so- cial. É assim que no próprio momento em que a desrazão é silenciada, a loucura é exibida de for- ma organizada e explícita, no escândalo de suas formas e, por trás das grades, numa distância pro- tegida. (Pelbart, 1989, p.60) Não foi possível enclausurar a desrazão, esta não configura uma antítese à razão. Podemos chamar de Fora uma experiência-limite que tangencia os limites, mas se encontra no entre . Blanchot ( apud Pelbart, p. 98) chama de O Fora o que está exposto às forças não visíveis, a relação com o estranho, a alteridade. Do mesmo modo não é possível enclausurar a música, ain- da que ela possa ter uma estrutura, uma melodia, uma harmonização, um ritmo, algo sempre pode escapar. Quando se produzia um som, por exemplo, nas ses- sões de musicoterapia da CSVR , articulavam-se co- nexões cujos efeitos abriam linhas. Nesse movimento não existia um certo ou errado, não havia exigência estética, existiam possibilidades estéticas, éticas e po- líticas, forças e formas. Deleuze afirma que “Nas ar- tes, tanto na pintura como em música, não se trata de reproduzir ou inventar formas, mas de captar forças...” e complementa que “ a tarefa da música- diria Klee- é a de tornar sonoras forças insonoras... por exemplo o Tempo, que é invisível e insonoro...” (Deleuze apud Pelbart, 1989, p.103) Que forças insonoras foram tangenciadas por este trabalho musicoterápico? As for- ças não são visíveis, embora não deixem de ser per- ceptíveis. As formas podem ser visíveis. As sessões de musicoterapia na CSVR, juntamen- te com o dispositivo de assembléia, ocuparam um lu- gar em potência de vida naquele manicômio. Os movi- mentos de construção/produção de formas e suas desconstruções reverberaram no CAPS Usina de Sonhos. Quando a arte se coloca à disposição das forças de um modo específico, ela entra em contato, através do estremecimento daí resultante, com um fora do quadro e um fora da arte- com o Fora. Fora e forças são... tan- to para a Experiência como para a Arte... duas faces da mesma moeda. (Pelbart, 1989, p.107) Produziu-se nas sessões um som louco, diferente do som do louco, com todas as possibilidades de trans- gressões de ordem estética, várias matizes sonoras, uma loucura desarrazoada e alegre, uma experimenta- ção não marcada pelos muros manicomiais que impu- tam à desrazão. Para se estar fora é preciso se implicar nestas possibilidades criativas que a arte, a paixão e a loucura proporcionam, experiência-limite, limiar de desterritorialização. Processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização são propulso- res da dança existencial do ritornelo. Podemos nos considerar não loucos, mas não precisamos abandonar as possibilidades da desrazão. Poderíamos dizer que a viagem musical proposta seria uma viagem para algo diferente da loucura ins- tituída, um entre, uma possibilidade de diferir. Uma abertura para o Fora é, não necessariamente a loucura aprisionada pela história, mas sim uma desrazão des- territorializante da loucura instituída. A loucura não é a única manifestação da desrazão, a loucura seria ape- nas uma clausura do Fora. Pelbart (1989) fala de uma liberação da desrazão como uma importante modifica- ção nas modalidades de relação com o Fora. “A loucu- ra é, com efeito, uma viagem para Fora, um vagar no aberto”(Pelbart, 1989, p. 138). Esta discussão profícua entre desrazão, loucura e Fora remete às forças que engendram os dispositivos de libertação do louco de tantas clausuras, diremos que este movimento na Reforma Psiquiátrica assume o an- damento musical de allegro ma non tropo, um anda- mento vibrante, porém ainda lento. O MUSICOTERAPEUTA-MESTIÇO E CARTÓGRAFO SONORO O lugar de musicoterapeuta tradicional, o lugar de terapeuta, de psicóloga, passaram por uma estranheza na experimentação do Mágicos do Som. Não mais sa- beríamos em alguns momentos que lugar estávamos ocupando, estávamos caminhando no entre das posi- ções, num u-topos, um não lugar. Era uma mistura, existia uma relação respeitosa entre nós, mas não hie- rárquica e/ou segregadora. Pouco em equilíbrio, e também raramente em desequilíbrio, sempre desviado do lugar, errante, sem moradia fixa. Caracteriza-o o não lugar, sim, o alargamento, portanto a liberdade ou, melhor ainda, o desaprumo... (Serres, 1993, p. 20) Com o trabalho com o grupo musical Mágicos do Som podemos dizer que ocupávamos o não-lugar, isto é, o lugar do limiar, do entre cujo sentido não é o de
  • 5. Musicoterapia e saúde mental ... 143 PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 falar pelos outros ou de estar no lugar dos outros. A proposta era a de que os usuários de serviços de saúde mental pudessem ocupar os lugares que eles escolhes- sem, conquistando seus interesses. Esta também era, e ainda é, uma prerrogativa da Luta Antimanicomial. Se nós nos propuséssemos a ocupar o lugar do usuário estaríamos construindo uma relação manicomial e sufocando a voz do usuário, ao invés de promover o contrário. Ele, o lugar mestiço, se semeia no tempo e no es- paço. No meio da janela que atravessa, o corpo sabe que passou para fora, que acaba de entrar em outro mundo (Serres, 1993, p. 18). O lugar mestiço que ocupamos com o Mágicos do Som deu-se a partir de nossos encontros. Mestiço por- que permaneceu num entre. A experiência de estar nes- te lugar provoca uma sensação de que este é o limiar que se ocupa em todas as experiências profissionais de um terapeuta. “Toda evolução e todo aprendizado exigem a passagem pelo lugar mestiço” (Serres, 1993, p. 19). Na produção do Mágicos do Som os lugares não estavam dados ou já constituídos, ocupávamos luga- res mestiços, funcionávamos de modo rizomático, sem que houvesse um centro unificador do qual partissem as decisões. Nas palavras de Serres: ... o lugar mestiço, em torno do qual bate o ritmo e vibra a música. (p.31) Onde soa o centro do pia- no? Em torno do terceiro lá? Ouça o xis ou o ixe da escala ascendente da esquerda para a direita, e encontre, nas proximidades de algum meio, a cas- cata de notas escorrendo do alto para o baixo; es- cute a quimera e o ponto de encaixe. Neste ponto, vernal, jaz a encruzilhada... (Serres, 1993, p. 25) A experiência do Mágicos do Som e tantas outras, incitam a acreditar que possamos fazer algo mais, criar coletivamente novos modos de trabalhar. “... nada aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém sem convidá-lo a deixar o ninho ... Quem não se mexe nada aprende” (Serres, 1993, p. 14). O Mágicos do Som partiu, partiu de si enquanto usuários, do manicômio, do lugar, do tempo enclausu- rado. O grupo se mexeu e detonou um aprendizado, multiplicidade, intensidade. Esquece sua própria terra, sobe, viaja, vagueia, conhece, observa, inventa, pensa. Não repete mais. Eu penso ou eu amo, portanto eu não sou; eu pen- so ou eu amo, portanto eu não sou eu; eu penso ou eu amo, portanto eu não estou mais aí. Zarpei do ser-aí. (Serres, 1993, p. 39). Aprendizagem mestiça, aprendizagem de um lugar que se move, de relações que se movem, de instituídos que se movem. Uma rede móvel construída em cada contato, em cada aproximação e afastamento. A apren- dizagem do Mágicos do Som abriu no corpo da mu- sicoterapia um lugar de mestiçagens. Mestiçagens com a estética da música, com outras estéticas, mestiçagens do setting musicoterápico. Eis o novo. Não mais ingenuamente oposta ao dia, como a ignorância ao conhecimento – que bela chance é o ritmo nictemeral para aquelas simples e cruéis divisões entre o erro e a verdade, a ciência e os sonhos, o obscurantismo e o progresso... (Ser- res, 1993, p. 53). MESTIÇAGEM – HÍBRIDOS-ACTANTES Evocamos um tema já problematizado por Chagas (2001), quando discute a Musicoterapia como profis- são híbrida, na complexidade do exercício de uma prá- tica profissional entre fenômenos de hibridação e de purificação. A Musicoterapia está na tentativa de se estabelecer enquanto categoria profissional dentre outras já existentes na contemporaneidade, o desafio de práticas que navegam entre a modernidade e a contemporaneidade. Os humanos e, ao mesmo tempo, não humanos presentes na produção do grupo musical em questão compõem a rede de actantes. Híbridos ou actantes constituem os nós dessa rede, que através dos encontros, dos agenciamentos das multiplicidades, configuram os engendramentos do “modelo de acopla- mento ou hibridação, em que se parece apostar numa espécie de estrutura ou funcionalidade híbrida” (Pe- dro, 2003, p.167 ). Cada actante, uma construção aber- ta, se transformava com as produções dos agencia- mentos na história, ao mesmo tempo contínua e des- contínua do grupo Mágicos do Som. ... pensar a partir dos coletivos, do que nos liga aos não-humanos, tem por objetivo estratégico abrir espaço para que possamos problematizar nos- sa própria constituição – enquanto sujeitos, en- quanto humanos – e transformação, na medida em que somos transformados por aquilo que aprende- mos (Pedro, 2003, p. 175-176). Serres nos esclarece sobre o campo de possibilida- des nas multiplicidade destes processos de mestiça- gens quando afirma que “estamos imersos numa espé- cie de “oceano de possíveis”, cujo alcance e direção não podemos saber de antemão, e no qual estamos aprendendo a navegar” (apud Pedro, 2003, p. 177). O MÁGICOS DO SOM No CAPS Usina de Sonhos um grupo processa rizomaticamente criação e contágio, inventando cole-
  • 6. 144 Silva, R. S. da, & Moraes, M. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 tivamente um modo de operar seus sonhos e sua musicalidade. “A música nunca deixou de fazer pas- sar suas linhas de fuga, como outras tantas ‘multiplici- dades de transformação’... ” (Deleuze e Guattari, 2004, p.21). O grupo musical Mágicos do Som pode ser con- cebido como uma composição contemporânea; que não totaliza, heterogênea, deixando passar suas linhas de fuga, tentando desterritorializar o instituído da lou- cura. Desterritorialização como um movimento que deriva do território, mas que harmoniza com este, uma repetição da diferença no ritornelo. Há uma função desterritorializante da música, que lhe permite transversalizar, e atravessar diversos modos de subjetivação, ou diferentes ‘mundos próprios’ – esta é uma das funções da arte como um todo. Mas esta qualidade, a música a tem em maior grau. (Rauter, 1998, p.162). Composição que opera um caminhar no entre, passagens, rupturas, criação, estado de coisas e fuga. Como uma fuga musical, melodias que criam movi- mentos, escapam e harmonizam. Dissonâncias não dicotômicas, sem binarismos, ritmo assimétrico. O desejo de criar um grupo musical emergiu em meio aos encontros dos usuários deste CAPS com as sessões de Musicoterapia, com os instrumentos musi- cais, com as práticas de assembléias em que todos po- deriam expor suas idéias e estas eram compartilhadas. Este desejo de criar um grupo musical foi se agencian- do com uma busca coletiva de levar adiante ideais de afirmação de uma potência de vida em detrimento a uma visão segregadora e impotente direcionada a usuários de serviços de saúde mental. “O agencia- mento é a liga do desejo na produção de mundos. Ele põe, em cena, os funcionamentos e os movimentos arborescentes e rizomáticos do desejo nesta produção” (Neves, 2002, p.112). O Mágicos do Som desejava romper com o instituído da loucura, esse era o sonho, constituir-se como qualquer grupo musical fora da construção da loucura. Eles queriam um outro lugar, o de músicos. Eles acreditaram nessa ousadia e constru- íram coletivamente uma dinâmica de funcionamento, engendrando possibilidades de expansão de territórios existenciais. Seguindo o fluxo molar, o “plano da segmentaridade dura, do visível, dos processos consti- tuídos...” (Neves, 2002, p.45), podemos dizer que o grupo musical foi se constituindo a partir de vários agenciamentos: com o poder instituído do CAPS, com o Poder Público Municipal e o apoio para gravar um CD, para fazer um vídeo-clipe da música de trabalho e com os recursos para apresentações em vários municí- pios. Estes agenciamentos produziram de um lado a visibilidade do grupo através da mídia local e de outro lado, o apoio de mais pessoas da comunidade. No seu caminhar o funcionamento do Mágicos do Som pro- duziu uma dinâmica onde todos os envolvidos fugiam do lugar instituído, era uma composição louco-músi- co, um devir músico no louco e um devir louco no músico. “Não há um termo do qual se parta, nem um ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar... Pois à medida que alguém se transforma, aquilo em que ele se transforma muda tanto quanto ele próprio” (Deleuze e Parnet, 1998, p.8). Uma transição em movimento, um caminhar no entre, um híbrido que expressava sua música e ampliava sua voz e seus sonhos, um concerto de intensidades, musicalmente interagindo em propul- são de contágio. O fluxo molecular com suas “linhas flexíveis, devir... operando aberturas para um campo de multiplicidades” (Neves, 2002, p.45). Cada som dos instrumentos, cada opinião nas discussões, cada crise constituía-se num repensar, refazer, refletir as práticas. Cada ator fazendo conexão com os outros. As regras eram construídas na experiência, a partir de acordos coletivos após discussões. Uma experimentação de “processualidade onde a variação é contínua e as rela- ções são produzidas por conexões de fluxos intensivos e heterogêneos” (Neves, 2002, p. 46). RIZOMA – COMPOSIÇÃO MICROPOLÍTICA E SUAS RESSONÂNCIAS A música não se detém no espaço. A música acon- tece no tempo, ela se constitui em sons e silêncios concomitantes. Assim também se constituem os dois planos indissociáveis, o plano molar e o molecular, estes são “dois modos de recortar a realidade” eles se atravessam o tempo todo e correspondem ao que Rolnik chama “duas formas de individuação, duas espécies de multiplicidades, ... duas políticas” (Rolnik apud Neves, 2002, p. 45). O molar corresponderia ao plano das formalizações, “plano da segmentaridade dura, do visível, dos processos constituídos” ... e o molecular ao plano das intensidades, “plano da forma- lização do desejo, do invisível, ... nele temos a predo- minância das linhas flexíveis-fluxos, devir” (Rolnik apud Neves, 2002, p.45). O plano macropolítico ressoa/afina-se com o mo- lar assim como o platô micropolítico ressoa/afina-se com o molecular e ambos podem ser audíveis numa harmonia contemporânea sem que as dissonâncias se- jam consideradas desafinação. Como um acorde com a sétima nota, a dissonância é constitutiva. Na ocasião em que o grupo Musical Mágicos do Som começou a funcionar, neste contexto, em confor- midade com os ideais da Reforma Psiquiátrica, era recorrente a discussão acerca da necessidade de reinserção social dos usuários de saúde mental através de dispositivos como a música. As idéias de reabilita-
  • 7. Musicoterapia e saúde mental ... 145 PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 ção psicossocial estiveram presentes de modo mar- cante na literatura sobre saúde mental no Brasil. No entanto, algumas discussões teóricas problema- tizam a concepção binária (incluído × excluído) pre- sente neste campo e propõem um modo de pensar a saúde mental longe das dicotomias, cartografando as forças que engendram o funcionamento dessa máqui- na, incitando forças propulsoras de disrupção do insti- tuído da loucura para o escape da linha de fuga da desrazão. Conceber a pertinência da desrazão se cons- titui numa necessidade ao lidar com a loucura. Corte- fluxo, variações intensivas, diferença produzindo di- ferença. Talvez seja possível afirmar que no grupo musical Mágicos do Som ocorreu um movimento no sentido da reinserção psicossocial. Porém, é preciso salientar que este movimento não seguiu um roteiro previamente estabelecido, ao contrário ele foi produ- zido de modo imanente e não dicotômico. Os binômios terapeuta-cliente, normal-anormal foram se desconfi- gurando e se constituíram num funcionamento rizo- mático. Funcionamento rizomático: improvisação tonal e atonal ao mesmo tempo Um rizoma é feito de platôs, mas há composições tonais, há dimensões, mas sem totalizações. As linhas constitutivas do rizoma podem ser tanto de segmen- taridade, de estratificações, onde o estado de coisas forma constructos visíveis, quanto de fuga ou de desterritorialização, as quais abrem brechas às forças do caos. Um movimento do ritornelo. Há entradas por qualquer parte do rizoma e as saídas sempre são múlti- plas. Porque rizoma é um rio que rói suas margens e ganha velocidade pelo meio (Deleuze e Guattari, 2004, p. 37). Ele “procede por variação, expansão, conquis- ta, captura, picada” (Deleuze e Guattari, 2004, p. 32). Um rizoma é um sistema a-centrado que rejeita qual- quer modelo estrutural, não hierarquizado, mas pode se propagar de forma fascista, o enrijecimento da for- ma ou uma priorização de um dos elementos do terri- tório, ou mesmo a idéia de uma estrutura profunda e lideranças apoteóticas podem produzir um rizoma de funcionamento fascista. Torna-se necessário que a heterogeneidade não sucumba a uma idéia de homo- geneização, tentativa de um acorde perfeito maior idealizado. “O rizoma é o método do antimétodo, e seus ‘princípios’ constitutivos são regras de prudência a respeito de todo vestígio ou de toda reintrodução da árvore e do Uno no pensamento” (Zourabichvili, 2004, p.99). Há que se caminhar sob os cuidados da prudên- cia nas construções coletivas, olhar atento sob as len- tes polidas pela ética. Remeter-se a ética como uma lanterna numa estrada ao caminhar. Porque funcionar rizomaticamente é construir o caminho no caminhar, o próprio caminhante como parte do caminho (pensa- mento taoísta). As dicotomias, dualismos, binarismos são dispensáveis no funcionamento rizomático. A gra- ma brota e se espalha pelo meio. “As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes” (Deleuze e Guattari, 2004, p.17). A idéia de multiplicidade substantiva, diferente da idéia de múltiplo adjetivado, nos remete a pensar o rizoma com inexistência de unidade que sirva de pivô, ou estrutura, ou divisão a priori entre sujeito e objeto. Formam-se dimensões que se agenciam e mudam de natureza. “Um agenciamento é precisamente este cres- cimento das dimensões numa multiplicidade que muda necessariamente de natureza à medida que ela aumen- ta suas conexões” (idem, p. 17). Bruno Latour (1994), antropólogo francês, faz uso da noção de rizoma quando lança as bases da teoria ator-rede. O autor trabalha com a noção de rede e su- blinha a importância da articulação entre humanos e não humanos na produção de efeitos em rede. Subjeti- vidade e objetividade são para o autor efeitos das arti- culações entre humanos e não humanos. Uma rede é um plano de conexões, de agenciamentos no qual as diferenças se produzem. Na construção do Mágicos do Som, os actantes usuários de saúde mental co- nectaram-se com a música, com os instrumentos musi- cais, com os poderes instituídos... e esta rede compôs uma música contemporânea por esses agenciamentos/ conexões. Em cada um desses actantes conectados, novas perspectivas, novos funcionamentos foram en- gendrados. “Como multiplicidade substantiva que comporta termos heterogêneos, o agenciamento estabelece entre os termos relações diferenciais imanentes, de modo que um termo da relação não se torna outro, se o outro já não se tornou outra coisa” (Neves, 2002, p.112). No grupo musical Mágicos do Som, as lideranças, os pa- péis, as funções, todas as formas apresentavam varia- ções ao longo do percurso. A cada apresentação musi- cal fazíamos uma reflexão sob todos os aspectos des- ta. Utilizando música, palavras e sons, compartilháva- mos as diferenças, sem idealizações, apenas pela pos- sibilidade de estarmos nessa convivência de forma prazerosa, sem nos perguntarmos quem era o terapeuta e quem era o cliente, ou quem era o normal e quem não o era. Transformávamos a nossa forma de atuar, de conviver, de pensar e de interagir. Na multiplicidade não há necessidade de unidade. Não há necessidade de divisão entre uno e múltiplo. Um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais (Deleuze e Guattari, 2004, p.15-16).
  • 8. 146 Silva, R. S. da, & Moraes, M. PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 O SOM DO RITORNELO5 Um caldeirão caótico musical configurava as ses- sões de musicoterapia no CAPs Usina de Sonhos, uti- lizávamos predominantemente a técnica de re-criação musical, na qual as regras estéticas da música não são priorizadas e a expressão sonoro-musical brota con- forme o pulsar da musicalidade. O desafio de produzir o grupo musical Mágicos do Som, um desvio que dife- renciava a relação com a música; uma organização dessa musicalidade expressiva caótica para uma formatação estética que permitisse a expressão musi- cal para apresentações em público. Uma ordenação vi- sível da musicalidade emergente. Em discussões cole- tivas, acordou-se que o grupo se propunha a tentar modificar a idéia estigmatizada sobre os usuários de ser- viços de saúde mental, eles gostariam de apresentar ao público seu ideário contra o preconceito que identifica- vam nas suas relações com as outras pessoas ditas nor- mais. Neste contexto, surgiu a primeira música, que du- rante todo o período que estivemos juntos foi repetida em todas as apresentações. Samba composto e cantado por Regina Serrão,6 componente do grupo. A música de tra- balho do primeiro CD – intitulado Saúde Musical – era uma música protesto, manifesto, expressão e apelo. Esta não foi a única música composta pelos com- ponentes do grupo, mas era a mais executada nas apre- sentações e se repetia como uma marca que expressa- va o ideário do grupo. Na letra desta música busca-se uma aceitação, mas seria a aceitação de uma diferen- ça? Uma tentativa de igualdade “somos bem pareci- dos...” ou um protesto contra os fluxos de segregação ao usuário de serviço de saúde mental? Esta composi- ção sintetiza sem homogeneizar a idéia, sem fechar, uma voz, várias vozes, uma polifonia. Como a própria música incita “ você não tem o direito de me querer aprisionado”, um exercício de buscar o significado da música nos parece enfraquecedor de sua potência, não buscamos uma representação. O grupo surgiu no contexto da luta antimani- comial, uma luta que não se detém em acabar com os muros dos hospícios, mas acabar com o enclausu- ramento da desrazão, acabar com o instituído da ver- dade sobre a loucura e acabar com a lógica antagônica que propõe uma segregação sobre uma forma de pen- sar a realidade e de vivê-la que não seja uniforme, formatada, extensiva. Deleuze e Guattari buscam na música o conceito de ritornelo para pensar o fenômeno de territoria- lização. O ritornelo pode ser definido como: todo con- junto de matérias de expressão que traça um território, e que se desenvolve em motivos territoriais, em pai- sagens territoriais (há ritornelos motores, gestuais, ópticos, etc.). Num sentido restrito, falamos de ritor- nelo quando o agenciamento é sonoro ou ‘dominado’ pelo som. (Deleuze e Guattari, 1997, p.132). Ritornelo é o retorno. Em teoria musical, tem a função de repetição. É um símbolo que demarca deter- minado trecho que deverá ser repetido, sendo necessá- rios dois sinais para fazer essa delimitação na partitu- ra (de abertura e fechamento do trecho). Ele facilita a escrita musical por não ser necessário que se reescre- va a parte que se quer repetir. Mas a repetição no fazer musical não acontece de forma absoluta, posto que a cada repetição, novos componentes musicais e inter- pretativos são expressos. Como já escrito anteriormen- te, essa repetição expressada na música Preconceito, marcava ao mesmo tempo uma sonata e uma fuga, uma sonata que propunha uma forma previsível e uma fuga que incitava uma mudança de lugar, um deslocamen- to. De louco e músico todos nós temos um pouco, é o que diz o ditado popular, mas quando o músico e o louco se instauram num híbrido e se expressa confor- me lhe convém, as noções de diferença e igualdade, ou a heterogeneidade da proposta toma uma certa ousadia. Repetia-se este canto como num ritual, era a marca do grupo, este canto, este cantar, este encantar. MOVIMENTOS DO RITORNELO O ritornelo possui três movimentos: territoria- lização, desterritorialização e reterritorialização. Ele os torna simultâneos ou os mistura: ora, ora, ora. As forças do caos se organizam, cria-se uma ordem, um traço de ordenação de um espaço-tempo. Mas esta ordem não é homogênea, há algo de desorganização. O território abriga em si forças cósmicas de abertura. Em algum momento insurge a improvisação, o lançar- se, no qual as forças presentes movimentam-se des- territorializando as antes instituídas. Forças de trans- formação. Cria-se, modifica-se a ordem acessando as forças do caos. Mas este movimento de desconstrução, em algum espaço-tempo, reterritorializa-se. Forças centrífugas e centrípetas redimensionam e propõem outra organização, ou melhor, outro arranjo, que não é mais o anterior, mas contém algo dele. O ritornelo é o próprio princípio gerador de movi- mento, através das composições de forças dos fluxos desejantes. O ritornelo não é outra coisa senão um movimento de retorno da diferença. O desejo manifes- ta-se em ciclos, em ondas, com velocidades e intensi- dades diferentes. O ritornelo é o desejo que flui. “As forças da desordem (as do caos), as forças terrestres (que implicam uma marcação territorial) e as forças cósmicas; tudo isso se afronta e concorre no ritornelo” (Deleuze e Guattari, 1997, p.118). Nesse pulsar de um manifesto, ouve-se uma sonoridade impune, um pro- testo que seduz. Um canto de pássaro que marca seu
  • 9. Musicoterapia e saúde mental ... 147 PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 território e é conhecido por este canto. Não há um dizer sobre a loucura que a totalize e quanto a arte, há o escape, o escape da desrazão, talvez, por vezes, aprisionada ou contida em formas de produção de subjetividade capi- talista. Cantar a diferença, repetir a diferença, brincar com a diferença, desejar a diferença, produzir a dife- rença, diferenciar a produção... esta foi a ciranda na construção do grupo musical Mágicos do Som. CONCLUSÃO O grupo musical Mágicos do Som produziu um diferencial nas práticas muscoterápicas tradicionais. Voltou-se sobre os muros manicomiais na busca de substituí-los por outras formas de atuação, ampliou o setting ou criou outros settings. Uma dinâmica de fun- cionamento que acreditamos permite-nos inventar no- vos modos de trabalhar em Musicoterapia, apostando nos coletivos heterogêneos e nas linhas que forem se desenhando a partir das experimentações. Expandir a clínica musicoterápica ou produzir desvios a partir de fluxos inesperados, construindo settings além de con- sultórios de saúde mental. Uma clínica no espaço da vida ou um espaço de vida na clínica. A construção mestiça da música, a nossa experi- mentação mestiça no grupo, permitiram-nos uma mis- tura capaz de transgressões e ousadias. Desvios, pos- sibilidades de lidar com os grupos sem a segmen- taridade das hierarquias enrijecidas dos modelos manicomiais. Um dos efeitos da produção do Mágicos do Som para as práticas musicoterápicas foi a aposta nos encontros das multiplicidades e nas produções de mais mestiçagens como artifício para o diferir como potência de vida. Potência de criação, possibilidades de inventar modos de trabalhar, criar modos de estar e atuar no mundo, convivendo com as produções hete- rogêneas. E que não se restrinja este modo de pensar à relação dos usuários dos serviços de saúde mental apenas em suas comunidades. Que estes e outros mo- dos de trabalhar possam ser utilizados em outras arti- culações, outros agenciamentos, outros encontros de multiplicidades substantivadas que somos nós. A pro- pulsão Mágicos do Som ainda reverbera. O pulso ain- da pulsa. REFERÊNCIAS Chagas, M. (2001). Musicoterapia desafios da interdiscipli- naridade entre a modernidade e a contemporaneidade. [Dis- sertação de mestrado], EICOS, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. Deleuze, G., & Guattari, F. (2004). Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia (3ª ed.) (Vol. I). São Paulo: Ed. 34. Deleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil platôs, capitalismo e esquizofrenia (Vol. 4). São Paulo: Ed. 34. Deleuze, G., & Parnet, C. (1998). Diálogos. São Paulo: Escuta. Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. São Paulo: Ed. 34. Moraes, M. (2006). A ciência como rede de atores: ressonâncias filosóficas [online]. Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, 11, 2, pp. 321-333, maio/ago. 2004 [citado 09 de março 2006]. Disponí- vel em: <http://www.scielo.br/scielo.php>. Moraes, M. (1998). Por uma Estética da Cognição: A Propósito da Cognição em Latour e Stengers. Informare, 4, 1, 49-56. Neves, C.E.B. (2002). Interferir entre desejo e capital. [Tese de Doutorado], Departamento de Psicologia Clínica, PUC-SP, São Paulo. Pelbart, Peter P. (1993). A nau do tempo-rei: 7 ensaios sobre o tempo e a loucura. Rio de Janeiro: Imago. Pelbart, Peter P. (1998). Da clausura do fora ao fora da clausura- loucura e desrazão. São Paulo: Brasiliense. Pedro, R. M. L. R. (2003). Reflexões sobre os processos de subjetivação na sociedade tecnológica. In: Machado, J. A. S. (Org.). Trabalho, economia e tecnologia: novas perspectivas para sociedade global. São Paulo: Práxis. Rauter, C. (1998). Clínica do esquecimento: construção de uma superfície. Tese (Doutorado). PUC São Paulo, São Paulo. Serres, M. Filosofia Mestiça. (1993): Nova Fronteira. Zourabichivili, F. (2004). O vocabulário de Deleuze. Rio de Ja- neiro: Relume Dumará. Notas: 1 Várias pessoas compuseram o grupo musical Mágicos do Som no período de 1997 à 2003, são eles: José Antônio Pátio Filho, Maria Lúcia Jacinto, Regina Lúcia Serrão, Jorge Luiz Silva, Josias Moraes, Hélio Cirineu, Se- bastião Venâncio, Rosiléia Cândido, Marco Antônio da Costa Marques, Carlos Nilson Mendes, Wanderley Brasil, Gilmar, Aridéia, Rinaldo, Márcia Ferreira, Marco Aurélio, Sônia Maria, Vera Gonçalves. E também Dona Cida, Jurema e Fernanda (familiares) e Raquel Siqueira (musicoterapeuta). 2 Os profissionais de nível médio que desenvolviam oficinas artesanais eram chamados de oficineiros. 3 Conforme Moraes (1998) a noção de rede “não remete a nenhuma entidade fixa, mas a fluxos, circulações, alianças, movimentos. A noção de rede de atores não é redutível a um ator sozinho nem a uma rede. Ela é composta de séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agen- ciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionais atores da sociologia, uma categoria que exclui qualquer componente não- humano. Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeita- mente definidos, porque as entidades da quais ela é composta, sejam elas naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identida- de e suas mútuas relações, trazendo novos elementos para a rede. Neste sentido, uma rede de atores é simultaneamente um ator cuja atividade con- siste em fazer alianças com novos elementos, e uma rede que é capaz de redefinir e transformar seus componentes”. 4 Abordaremos este conceito mais adiante, aqui referimo-nos à Deleuze quan- do escreve: “Lembremo-nos a idéia de Nietzsche: o eterno retorno como pequena cantilena, como ritornelo”. (1997, p. 159-160) 5 Agradecemos a Rosana Saldanha Silva cuja parceria permitiu que escrevês- semos este trecho do artigo que versa sobre o conceito de ritornelo. 6 Preconceito: Autora: Regina Serrão. Preconceito é besteira/Seja de raça ou de cor/Seja de perto ou de longe/O que vale é o amor/Essa idéia afasta, separa, ignora/Causa dor e sofrimento/Só o sabe quem o sente/Dói bastante dentro da gente/ Não somos perigosos/Muito menos desumanos/Temos di- reito à vida/Temos direito ao amor/Podemos parecer diferentes/Podem nos achar esquisitos/Com paciência mostramos/Que somos bem parecidos/O amor é uma virtude/Preconceito um pecado/Você não tem o direito/De me querer aprisionado. Autoras: Raquel Siqueira da Silva – Psicóloga. Especialista em Musicoterapia pelo Conservatório Brasileiro de Música. Coordenadora do curso de graduação em Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música. Mestranda no Progra- ma de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Marcia Moraes – Doutora em Psicologia Clínica, PUC-SP. Professora do Pro- grama de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: mmoraes@vm.uff.br Endereço para correspondência: RAQUEL SIQUEIRA DA SILVA Conservatório Brasileiro de Música – Centro Universitário Av. Graça Aranha, 57, 12º andar – Centro CEP: 20030-002, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Fones: (21) 9631-9409 / (21) 2610-0827 E-mail: raqsiqueira2000@yahoo.com.br