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PSICO           Ψ
                                                                                          v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007




                           Musicoterapia e saúde mental:
                     relato de uma experimentação rizomática
                                             Raquel Siqueira da Silva
                                                 Marcia Moraes
                                            Universidade Federal Fluminense (UFF)




                                                        RESUMO
       Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiência profissional na área de Musicoterapia no contexto da
       Reforma Psiquiátrica. A experiência teve seu início numa instituição manicomial na cidade de Volta Redon-
       da, no Rio de Janeiro e, em seguida, passou a ser realizada num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O
       trabalho musicoterápico teve como um de seus desdobramentos a criação de um grupo musical com os
       usuários dos serviços do CAPS. Utilizamos algumas noções da filosofia da diferença de Deleuze-Guattari
       para refletir sobre esta experimentação. Consideramos a Musicoterapia como um saber mestiço, híbrido e
       concluímos indicando que a experiência com o grupo musical nos permitiu refletir sobre algumas das for-
       mas de atuação e intervenção da Musicoterapia.
       Palavras chave: Musicoterapia; rizoma; saúde mental.

                                                       ABSTRACT
       Music therapy and mental health: Report of an rhizomatic experience
       This paper has the aim to report a music therapy professional experience in the context of Psychiatric Reform.
       The experience began in a psychiatric institution situated at Volta Redonda, in the state of Rio de Janeiro
       and, later, it was transfered to a Psychosocial Support Center (CAPS). Music therapy working had as one of
       its consequences the creation of musical groupe with the CAPS services users. We based this paper with
       some notions from Deleuze-Guattari difference philosophy in order to reflect about this experience. We
       consider music therapy as an hybrid knowledge and we conclude to indicate that this musical groupe
       experience allowed us to think about some ways of acting with music therapy.
       Key words: Music therapy; rhizoma; mental health.




                  INTRODUÇÃO                                     mento em que a voz do usuário de serviços de saúde
                                                                 mental pudesse ser ouvida sem preconceitos.
    Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiên-              Neste artigo apresentamos a trajetória desta expe-
cia profissional na área de Musicoterapia. A experiên-           riência e nos perguntamos de que modo o grupo musi-
cia que relataremos neste trabalho teve início na Casa           cal Mágicos do Som nos leva a repensar as práticas
de Saúde Volta Redonda (CSVR) onde uma de nós tra-               em Musicoterapia no campo da saúde mental.
balhava como musicoterapeuta. Neste contexto, nosso
trabalho era desenvolvido com os usuários de serviços
de saúde mental ainda em internação psiquiátrica.
                                                                      A MUSICOTERAPIA NA CASA DE
    No campo da Reforma Psiquiátrica, o poder públi-
                                                                    SAÚDE VOLTA REDONDA – O SOM NO
co municipal interveio na CSVR, um dos efeitos deste
                                                                      ESPAÇO-TEMPO DO MANICÔMIO
encontro foi a criação do Centro de Atenção                          A Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), locali-
Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Neste contexto              zada em município de mesmo nome no sul do Estado
foi possível desenvolver um trabalho musicoterápico              do Rio de Janeiro, é uma clínica psiquiátrica privada
que foi além das condições asilares e construiu uma              que desde abril de 1994 está sob intervenção da pre-
trajetória ousada. No âmbito do CAPS nosso trabalho              feitura municipal. Esta intervenção ocorreu em função
musicoterápico levou à formação de um grupo – o                  de várias precariedades no atendimento ao usuário e
Mágicos do Som1 – que pretendia criar um funciona-               irregularidades com os funcionários. Com o lema “Em
140                                                                                                      Silva, R. S. da, & Moraes, M.

Defesa da Vida”, a Secretaria Municipal de Saúde con-                  tava desestabilizar o lugar instituído da loucura. Por
tratou vários profissionais para promoverem a Refor-                   que prendê-los? Neste processo de desterritoriali-
ma Psiquiátrica neste município. O slogan inicial pro-                 zação, essa linha de fuga pleiteava já a dissolvência do
pagado era “Saúde não se vende, loucura não se pren-                   modelo manicomial para uma rede substitutiva de
de”. A ousada proposta da equipe técnica, formada                      atendimento ao usuário de serviço de saúde mental. A
por psicólogos, assistentes sociais, musicoterapeuta,                  pretensão não era criar serviços que complementassem
psiquiatras, enfermeiros e oficineiros2 era a de “des-                 o atendimento asilar, mas prescindi-lo totalmente.
construir” o manicômio.                                                     As linhas mais observáveis eram as duras, extensi-
    Havia uma atmosfera de grande otimismo para                        vas, visíveis. Conviviam as linhas que demarcavam a
mudar as forças instituídas e territorializadas do hos-                força dos instituídos da loucura com as linhas que se
pício. As práticas de isolamento nas enfermarias fo-                   pretendiam de fuga, mas que também se apresentavam
ram invadidas por olhares e intervenções atentas da                    de forma identitária, conscientizadora... Mas havia
equipe que propunha dissolver a dinâmica cronificada                   espaços-tempos onde as intensidades pulsavam. As
do funcionamento manicomial. O discurso da luta anti-                  assembléias foram uns dos espaços em que posterior-
manicomial ecoou em todos os espaços de discussões,                    mente pudemos identificar como dos mais propulso-
era o pulsar de uma empreitada que atravessaria nos-                   res de discussões que fragilizavam os enrijecimen-
sos modos de trabalhar e de pensar a saúde mental.                     tos instituídos e institucionais. Eram assembléias das
Mais do que um investimento do poder público muni-                     quais participavam todos os funcionários e todos os
cipal, era uma aposta nas possibilidades de produção                   usuários. Os segmentos, os serviços, as atuações pro-
de outras subjetividades, diferentes daquelas que ali                  fissionais, as queixas, os elogios etc., enfim todo o fun-
predominavam: a do louco marginalizado, excluído, o                    cionamento da CSVR era problematizado. A Assem-
sem razão.                                                             bléia era uma rede de conexões3 ocupando um espaço
    O primeiro projeto de musicoterapia da CSVR,                       de forma densa, mobilizando as formas e forças. As-
escrito em abril de 1995, apresentava os objetivos de:                 sembléia era o momento em que as vozes eram
“ propiciar a integração entre usuários e os assistentes               ouvidas, mas não somente as alucinatórias, ou as
através da música; facilitar a auto-expressão criativa,                cronificadas das posições hierárquicas, eram as vozes
através do sonoro-musical; promover a abertura dos                     cujos efeitos se produziam nas práticas quotidianas.
canais de comunicação através de técnicas musico-                      Era uma tensão e reflexão, um contraponto numa ins-
terápicas”. O grupo musicoterápico começou a acon-                     tituição que
tecer na sala de Terapia Ocupacional. Antes de ingres-
                                                                           os aprisiona no tédio infernal do Mesmo, na re-
sar no grupo o usuário era entrevistado com a ficha
                                                                           petitividade sem história , num eterno presente que
musicoterápica, uma espécie de anamnese sonoro-
                                                                           é em si a imagem cinza de uma morte sem desfe-
musical preenchida pelo musicoterapeuta, com vários
                                                                           cho (Pelbart, 1993, p.20).
dados de sua história sonoro-musical, isto é recorrente
em atendimentos musicoterápicos tradicionais.                              Pelbart (1989 e 1993) escreve sobre uma invenção
    Muitos componentes que posteriormente partici-                     da loucura na qual se produziu historicamente uma
pariam do grupo musical Mágicos do Som freqüenta-                      loucura inútil, capturada, impotente, cheia de manei-
vam este grupo de musicoterapia na CSVR durante                        rismos e revestida de uma segregação implícita, esta
suas internações. A técnica musicoterápica mais utili-                 segregação também produzida. Outros espaços na
zada era a re-criação musical, que consiste num fazer                  CSVR flexibilizavam este lugar, produziam mudanças
sonoro-musical livre, sem a exigência de estética mu-                  de posição, insistência, resistência. Vozes, vontades,
sical específica. O cantar como exercício de re-criar a                devires.
música e o dançar coletivamente são freqüentes no                          Tanto as assembléias quanto as sessões de musi-
emprego desta técnica.                                                 coterapia eram tempos ocupados por espaços diferen-
    Ao mesmo tempo em que forças propulsoras de                        ciados e, concomitante, espaços ocupados por tempos
transformação do modelo manicomial (as linhas de                       não aprisionados e isto era uma resistência. Porque
fuga) atuavam, práticas cronificadoras (linhas rígidas,                neste “lá” (local e tempo) encontravam-se falas que
visíveis e de abolição) atravessavam o tempo e o espa-                 se ouviam, sons que poderiam ser manifestos sem
ço. O espaço era manicomial, um prédio de hospício.                    asilamento, fontes sonoras que escapavam de grades e
    Ainda havia uma ação calcada numa cisão entre                      transpassavam os muros. Espaços e tempos de discus-
dentro e fora, provavelmente produzida por uma                         sões, de propostas, de acordos respeitosos a cada
dicotomia visível das velhas práticas manicomiais que                  voz, a todas e aos silêncios. Era possível sentir esta
na CSVR foram encontradas. Afirmar esta discussão                      orquestração e pretender ocupar outros espaços com
fora do espaço asilar era um movimento que se acredi-                  esta lógica inclusiva. Práticas homogeneizadoras e
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
Musicoterapia e saúde mental ...                                                                                            141

disciplinarizantes são recorrentes na história da saúde        Questionar se o louco seria capaz de escapar a sua
mental, contrariá-las é resistir e produzir diferenças.    história seria um falso problema, ele está o tempo todo
Acolher a diferença é resistir ao despotismo da predo-     produzindo linhas de fuga, seja em seu fazer artístico,
minância. Nas palavras de Pelbart:                         seja em sua alucinação ou delírio. São escapes, dis-
    Recusar a homogeneização sutil mas despótica em        rupturas, acontecimentos muitas vezes não comparti-
    que incorremos às vezes, sem querer, nos disposi-      lhados ou abafados pelos dispositivos institucionais e
    tivos que montamos quando o subordinamos a um          institucionalizados de apreensão de possibilidades de
    modelo único, ou a uma dimensão predominante.          diferir. Quanto à discussão filosófico-histórica sobre
    (Pelbart, 1993, p. 23)                                 loucura; embora esta não seja um invariante histórico,
                                                           Pelbart sublinha que ao mesmo tempo que criamos
     A forma do grupo de musicoterapia alcançou os         uma identidade para o louco, tornâmo-lo inofensivo,
objetivos propostos pelo projeto inicial, mas ainda es-    inoperante no seu processo de desterritorialização.
tava na forma, era possível improvisar, expressar, to-
                                                              O que escapa à história não é o eterno, mas o que
car, cantar, dançar, mas estávamos ali no espaço asilar,
                                                              Nietzsche chamou de intempestivo ou inatural,
compreendidos nesta linha de abolição, era uma fuga
                                                              Foucault de atual, Deleuze de devir, ou aconteci-
logo capturada. Os usuários de serviços de saúde men-
                                                              mento. (Pelbart, 1993, p.83). [E mais adiante o au-
tal, internados na CSVR, saíam da sessão e voltavam
                                                              tor pergunta:]: “Será que a libertação do louco não
para a enfermaria. Aquilo era incômodo, estranha-
                                                              corresponde, no fundo, a uma estratégia de homo-
mento, revolta, captura e submissão.
                                                              geneização do social? (Pelbart, 1993, p.104).
     “Não é inútil lembrar que o tempo da criação artís-
tica ou do pensamento também exige algo dessa or-              Presenciamos uma tentativa homogeneizadora, um
dem. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a         despertar de aforismos intelectuais que engendram um
forma brotem a partir do informe e do indecidido”.         saber despótico sobre a loucura, trata-se de uma sufo-
(Pelbart, 1993, p.36 ). A idéia do grupo musical não       cação de devires, provavelmente aspirada pela apro-
surgiu no manicômio. Os internos despotencializados,       priação indébita do que lhe é fortuito, a desrazão. Mas
medicados, sonolentos, compartilhavam daquele mo-          em ritornelos existenciais4 sempre há um espaço-tem-
mento. Assim se expressavam e eram ouvidos.                po para criar novas formas. Onde pensamos não ha-
                                                           ver espaço podemos criá-lo, mas não com um saber
    A primeira coisa que chama a atenção de um visi-
                                                           homogeneizante, talvez com um não-saber calcado no
    tante num hospital psiquiátrico é essa lentificação,
                                                           que há de mais simples e, no entanto, mais complexo,
    esse ritmo específico, esse regime temporal dife-
                                                           a experimentação. Experimentar, experienciar, presen-
    renciado. Sim, às vezes isto se deve aos efeitos dos
                                                           ciar, presentificar; estamos falando de conviver, mis-
    psicofármacos, às vezes à lentidão burocrática das
                                                           turar-se, confundir-se heterogeneamente e descobrir
    grandes instituições... (Pelbart, 1993, pp. 39-40)
                                                           diferenças antes impensadas. Outras formas de criar
     A experimentação do trabalho musicoterápico pre-      diferenças, produzi-las, ou simplesmente deixar que
tendia produzir intensidades naquelas vidas tão parali-    elas brotem rizomaticamente como erva proibida, ao
sadas, medicadas, rotineiras, com poucas perspectivas      mesmo tempo desejada e reprimida. Sempre há tantas
e surpresas, rotinas cortadas por crises logo abafadas.    forças em sintonia, tantas pragas de coerção, mas a
Embora as aparências de sonolência e lentidão esti-        estranheza da desrazão permite escapar a esta clausura
vessem mais visíveis, nem a internação, nem a crise,       da inconsistência.
nem a medicação continuariam da mesma forma por                Pelbart (1993, p. 95) afirma que a modernidade
todo o tempo; esta era uma esperança, apostar nos          capturou o estranho, domesticou-o. Ele sublinha a im-
devires, embora muitas vezes imperceptíveis. Os rit-       portância do Pensamento do Fora que seria a expe-
mos não se aglomeram nem se decompõem, eles coe-           riência que se dá no Desconhecido. O autor acrescenta
xistem, se misturam no tempo, a música se dá no tem-       que “o Pensamento do Fora é aquele que se expõe às
po e atravessa espaços. A única forma de reter a músi-     forças do fora que transforma a Força em intensidade”
ca de um momento é na memória, este é um legado. E         (Pelbart, 1993, p. 96). O poder despótico da razão em
aquelas pessoas internadas guardavam algo em suas          nossa cultura ocidental e o enclausuramento dos lou-
memórias. Apreciar as histórias contadas nas sessões,      cos a partir do século XVII nos remete a várias ques-
sem se preocupar com sentidos ou verdades era um           tões sobre o porquê da insistência do modelo mani-
exercício no tempo, como ocorre na música. Embora          comial, ainda que este modelo tenha se mostrado im-
as linhas de fuga, de desterritorialização fossem rapi-    procedente para muitos autores. Pelbart lembra que
damente capturadas pela máquina manicomial, as en-         “enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, o
grenagens apresentavam falhas propulsoras de devires.      pensamento racional trancafiava a desrazão e ainda
                                                              PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
142                                                                                                    Silva, R. S. da, & Moraes, M.

afirma que “é preciso recusar o império da Razão”                      to para a Experiência como para a Arte... duas faces
(Pelbart, 1993, pp. 106-107). Para isto, precisaremos                  da mesma moeda. (Pelbart, 1989, p.107)
mudar muitas coisas. Os trabalhadores, usuários, mili-                      Produziu-se nas sessões um som louco, diferente
tantes, familiares, todos os que estão direta ou indi-                 do som do louco, com todas as possibilidades de trans-
retamente envolvidos com a saúde mental, podem se                      gressões de ordem estética, várias matizes sonoras,
beneficiar com esta discussão, posto que a escravidão                  uma loucura desarrazoada e alegre, uma experimenta-
em relação à lógica racionalista não leva apenas ao                    ção não marcada pelos muros manicomiais que impu-
enclausuramento do louco, mas a outros aprisiona-                      tam à desrazão. Para se estar fora é preciso se implicar
mentos.                                                                nestas possibilidades criativas que a arte, a paixão
    Pelbart em duas de suas obras (1989 e 1993)                        e a loucura proporcionam, experiência-limite, limiar
aprofunda a discussão do Fora em relação à loucura e                   de desterritorialização. Processos de territorialização,
à desrazão.                                                            desterritorialização e reterritorialização são propulso-
      Enquanto a desrazão era afetiva, imaginária e                    res da dança existencial do ritornelo. Podemos nos
      atemporal, a loucura será temporal, histórica e so-              considerar não loucos, mas não precisamos abandonar
      cial. É assim que no próprio momento em que a                    as possibilidades da desrazão.
      desrazão é silenciada, a loucura é exibida de for-                    Poderíamos dizer que a viagem musical proposta
      ma organizada e explícita, no escândalo de suas                  seria uma viagem para algo diferente da loucura ins-
      formas e, por trás das grades, numa distância pro-               tituída, um entre, uma possibilidade de diferir. Uma
      tegida. (Pelbart, 1989, p.60)                                    abertura para o Fora é, não necessariamente a loucura
                                                                       aprisionada pela história, mas sim uma desrazão des-
     Não foi possível enclausurar a desrazão, esta não
                                                                       territorializante da loucura instituída. A loucura não é
configura uma antítese à razão. Podemos chamar de
                                                                       a única manifestação da desrazão, a loucura seria ape-
Fora uma experiência-limite que tangencia os limites,
                                                                       nas uma clausura do Fora. Pelbart (1989) fala de uma
mas se encontra no entre . Blanchot ( apud Pelbart, p.
                                                                       liberação da desrazão como uma importante modifica-
98) chama de O Fora o que está exposto às forças não
                                                                       ção nas modalidades de relação com o Fora. “A loucu-
visíveis, a relação com o estranho, a alteridade. Do
                                                                       ra é, com efeito, uma viagem para Fora, um vagar no
mesmo modo não é possível enclausurar a música, ain-
                                                                       aberto”(Pelbart, 1989, p. 138).
da que ela possa ter uma estrutura, uma melodia, uma
                                                                            Esta discussão profícua entre desrazão, loucura e
harmonização, um ritmo, algo sempre pode escapar.
                                                                       Fora remete às forças que engendram os dispositivos
Quando se produzia um som, por exemplo, nas ses-
                                                                       de libertação do louco de tantas clausuras, diremos que
sões de musicoterapia da CSVR , articulavam-se co-
                                                                       este movimento na Reforma Psiquiátrica assume o an-
nexões cujos efeitos abriam linhas. Nesse movimento
                                                                       damento musical de allegro ma non tropo, um anda-
não existia um certo ou errado, não havia exigência
                                                                       mento vibrante, porém ainda lento.
estética, existiam possibilidades estéticas, éticas e po-
líticas, forças e formas. Deleuze afirma que “Nas ar-
tes, tanto na pintura como em música, não se trata de                       O MUSICOTERAPEUTA-MESTIÇO E
reproduzir ou inventar formas, mas de captar forças...”                         CARTÓGRAFO SONORO
e complementa que “ a tarefa da música- diria Klee- é                      O lugar de musicoterapeuta tradicional, o lugar de
a de tornar sonoras forças insonoras... por exemplo o                  terapeuta, de psicóloga, passaram por uma estranheza
Tempo, que é invisível e insonoro...” (Deleuze apud                    na experimentação do Mágicos do Som. Não mais sa-
Pelbart, 1989, p.103) Que forças insonoras foram                       beríamos em alguns momentos que lugar estávamos
tangenciadas por este trabalho musicoterápico? As for-                 ocupando, estávamos caminhando no entre das posi-
ças não são visíveis, embora não deixem de ser per-                    ções, num u-topos, um não lugar. Era uma mistura,
ceptíveis. As formas podem ser visíveis.                               existia uma relação respeitosa entre nós, mas não hie-
     As sessões de musicoterapia na CSVR, juntamen-                    rárquica e/ou segregadora.
te com o dispositivo de assembléia, ocuparam um lu-
gar em potência de vida naquele manicômio. Os movi-                       Pouco em equilíbrio, e também raramente em
mentos de construção/produção de formas e suas                            desequilíbrio, sempre desviado do lugar, errante,
desconstruções reverberaram no CAPS Usina de                              sem moradia fixa. Caracteriza-o o não lugar, sim,
Sonhos.                                                                   o alargamento, portanto a liberdade ou, melhor
     Quando a arte se coloca à disposição das forças de                   ainda, o desaprumo... (Serres, 1993, p. 20)
um modo específico, ela entra em contato, através do                       Com o trabalho com o grupo musical Mágicos do
estremecimento daí resultante, com um fora do quadro                   Som podemos dizer que ocupávamos o não-lugar, isto
e um fora da arte- com o Fora. Fora e forças são... tan-               é, o lugar do limiar, do entre cujo sentido não é o de
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Musicoterapia e saúde mental ...                                                                                            143

falar pelos outros ou de estar no lugar dos outros. A      que se movem. Uma rede móvel construída em cada
proposta era a de que os usuários de serviços de saúde     contato, em cada aproximação e afastamento. A apren-
mental pudessem ocupar os lugares que eles escolhes-       dizagem do Mágicos do Som abriu no corpo da mu-
sem, conquistando seus interesses. Esta também era, e      sicoterapia um lugar de mestiçagens. Mestiçagens com
ainda é, uma prerrogativa da Luta Antimanicomial. Se       a estética da música, com outras estéticas, mestiçagens
nós nos propuséssemos a ocupar o lugar do usuário          do setting musicoterápico.
estaríamos construindo uma relação manicomial e               Eis o novo. Não mais ingenuamente oposta ao dia,
sufocando a voz do usuário, ao invés de promover o            como a ignorância ao conhecimento – que bela
contrário.                                                    chance é o ritmo nictemeral para aquelas simples e
    Ele, o lugar mestiço, se semeia no tempo e no es-         cruéis divisões entre o erro e a verdade, a ciência e
    paço. No meio da janela que atravessa, o corpo            os sonhos, o obscurantismo e o progresso... (Ser-
    sabe que passou para fora, que acaba de entrar em         res, 1993, p. 53).
    outro mundo (Serres, 1993, p. 18).
    O lugar mestiço que ocupamos com o Mágicos do            MESTIÇAGEM – HÍBRIDOS-ACTANTES
Som deu-se a partir de nossos encontros. Mestiço por-
que permaneceu num entre. A experiência de estar nes-          Evocamos um tema já problematizado por Chagas
te lugar provoca uma sensação de que este é o limiar       (2001), quando discute a Musicoterapia como profis-
que se ocupa em todas as experiências profissionais        são híbrida, na complexidade do exercício de uma prá-
de um terapeuta. “Toda evolução e todo aprendizado         tica profissional entre fenômenos de hibridação e de
exigem a passagem pelo lugar mestiço” (Serres, 1993,       purificação. A Musicoterapia está na tentativa de se
p. 19).                                                    estabelecer enquanto categoria profissional dentre
    Na produção do Mágicos do Som os lugares não           outras já existentes na contemporaneidade, o desafio
estavam dados ou já constituídos, ocupávamos luga-         de práticas que navegam entre a modernidade e a
res mestiços, funcionávamos de modo rizomático, sem        contemporaneidade. Os humanos e, ao mesmo tempo,
que houvesse um centro unificador do qual partissem        não humanos presentes na produção do grupo musical
as decisões. Nas palavras de Serres:                       em questão compõem a rede de actantes. Híbridos
                                                           ou actantes constituem os nós dessa rede, que através
    ... o lugar mestiço, em torno do qual bate o ritmo e   dos encontros, dos agenciamentos das multiplicidades,
    vibra a música. (p.31) Onde soa o centro do pia-       configuram os engendramentos do “modelo de acopla-
    no? Em torno do terceiro lá? Ouça o xis ou o ixe       mento ou hibridação, em que se parece apostar numa
    da escala ascendente da esquerda para a direita, e     espécie de estrutura ou funcionalidade híbrida” (Pe-
    encontre, nas proximidades de algum meio, a cas-       dro, 2003, p.167 ). Cada actante, uma construção aber-
    cata de notas escorrendo do alto para o baixo; es-     ta, se transformava com as produções dos agencia-
    cute a quimera e o ponto de encaixe. Neste ponto,      mentos na história, ao mesmo tempo contínua e des-
    vernal, jaz a encruzilhada... (Serres, 1993, p. 25)    contínua do grupo Mágicos do Som.
    A experiência do Mágicos do Som e tantas outras,           ... pensar a partir dos coletivos, do que nos liga
incitam a acreditar que possamos fazer algo mais,
                                                              aos não-humanos, tem por objetivo estratégico
criar coletivamente novos modos de trabalhar. “... nada
                                                              abrir espaço para que possamos problematizar nos-
aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém
                                                              sa própria constituição – enquanto sujeitos, en-
sem convidá-lo a deixar o ninho ... Quem não se mexe
                                                              quanto humanos – e transformação, na medida em
nada aprende” (Serres, 1993, p. 14).
                                                              que somos transformados por aquilo que aprende-
    O Mágicos do Som partiu, partiu de si enquanto
                                                              mos (Pedro, 2003, p. 175-176).
usuários, do manicômio, do lugar, do tempo enclausu-
rado. O grupo se mexeu e detonou um aprendizado,               Serres nos esclarece sobre o campo de possibilida-
multiplicidade, intensidade.                               des nas multiplicidade destes processos de mestiça-
                                                           gens quando afirma que “estamos imersos numa espé-
    Esquece sua própria terra, sobe, viaja, vagueia,
                                                           cie de “oceano de possíveis”, cujo alcance e direção
    conhece, observa, inventa, pensa. Não repete mais.
                                                           não podemos saber de antemão, e no qual estamos
    Eu penso ou eu amo, portanto eu não sou; eu pen-
                                                           aprendendo a navegar” (apud Pedro, 2003, p. 177).
    so ou eu amo, portanto eu não sou eu; eu penso ou
    eu amo, portanto eu não estou mais aí. Zarpei do
    ser-aí. (Serres, 1993, p. 39).                                          O MÁGICOS DO SOM
   Aprendizagem mestiça, aprendizagem de um lugar              No CAPS Usina de Sonhos um grupo processa
que se move, de relações que se movem, de instituídos      rizomaticamente criação e contágio, inventando cole-
                                                              PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
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tivamente um modo de operar seus sonhos e sua                          caminhar o funcionamento do Mágicos do Som pro-
musicalidade. “A música nunca deixou de fazer pas-                     duziu uma dinâmica onde todos os envolvidos fugiam
sar suas linhas de fuga, como outras tantas ‘multiplici-               do lugar instituído, era uma composição louco-músi-
dades de transformação’... ” (Deleuze e Guattari, 2004,                co, um devir músico no louco e um devir louco no
p.21). O grupo musical Mágicos do Som pode ser con-                    músico. “Não há um termo do qual se parta, nem um
cebido como uma composição contemporânea; que                          ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar... Pois à
não totaliza, heterogênea, deixando passar suas linhas                 medida que alguém se transforma, aquilo em que ele
de fuga, tentando desterritorializar o instituído da lou-              se transforma muda tanto quanto ele próprio” (Deleuze
cura. Desterritorialização como um movimento que                       e Parnet, 1998, p.8). Uma transição em movimento,
deriva do território, mas que harmoniza com este, uma                  um caminhar no entre, um híbrido que expressava sua
repetição da diferença no ritornelo.                                   música e ampliava sua voz e seus sonhos, um concerto
      Há uma função desterritorializante da música, que                de intensidades, musicalmente interagindo em propul-
      lhe permite transversalizar, e atravessar diversos               são de contágio. O fluxo molecular com suas “linhas
      modos de subjetivação, ou diferentes ‘mundos                     flexíveis, devir... operando aberturas para um campo
      próprios’ – esta é uma das funções da arte como                  de multiplicidades” (Neves, 2002, p.45). Cada som dos
      um todo. Mas esta qualidade, a música a tem em                   instrumentos, cada opinião nas discussões, cada crise
      maior grau. (Rauter, 1998, p.162).                               constituía-se num repensar, refazer, refletir as práticas.
                                                                       Cada ator fazendo conexão com os outros. As regras
    Composição que opera um caminhar no entre,                         eram construídas na experiência, a partir de acordos
passagens, rupturas, criação, estado de coisas e fuga.                 coletivos após discussões. Uma experimentação de
Como uma fuga musical, melodias que criam movi-                        “processualidade onde a variação é contínua e as rela-
mentos, escapam e harmonizam. Dissonâncias não                         ções são produzidas por conexões de fluxos intensivos
dicotômicas, sem binarismos, ritmo assimétrico.                        e heterogêneos” (Neves, 2002, p. 46).
    O desejo de criar um grupo musical emergiu em
meio aos encontros dos usuários deste CAPS com as
sessões de Musicoterapia, com os instrumentos musi-
                                                                       RIZOMA – COMPOSIÇÃO MICROPOLÍTICA
cais, com as práticas de assembléias em que todos po-
                                                                              E SUAS RESSONÂNCIAS
deriam expor suas idéias e estas eram compartilhadas.                      A música não se detém no espaço. A música acon-
Este desejo de criar um grupo musical foi se agencian-                 tece no tempo, ela se constitui em sons e silêncios
do com uma busca coletiva de levar adiante ideais de                   concomitantes. Assim também se constituem os dois
afirmação de uma potência de vida em detrimento a                      planos indissociáveis, o plano molar e o molecular,
uma visão segregadora e impotente direcionada a                        estes são “dois modos de recortar a realidade” eles se
usuários de serviços de saúde mental. “O agencia-                      atravessam o tempo todo e correspondem ao que
mento é a liga do desejo na produção de mundos. Ele                    Rolnik chama “duas formas de individuação, duas
põe, em cena, os funcionamentos e os movimentos                        espécies de multiplicidades, ... duas políticas” (Rolnik
arborescentes e rizomáticos do desejo nesta produção”                  apud Neves, 2002, p. 45). O molar corresponderia ao
(Neves, 2002, p.112). O Mágicos do Som desejava                        plano das formalizações, “plano da segmentaridade
romper com o instituído da loucura, esse era o sonho,                  dura, do visível, dos processos constituídos” ... e o
constituir-se como qualquer grupo musical fora da                      molecular ao plano das intensidades, “plano da forma-
construção da loucura. Eles queriam um outro lugar, o                  lização do desejo, do invisível, ... nele temos a predo-
de músicos. Eles acreditaram nessa ousadia e constru-                  minância das linhas flexíveis-fluxos, devir” (Rolnik
íram coletivamente uma dinâmica de funcionamento,                      apud Neves, 2002, p.45).
engendrando possibilidades de expansão de territórios                      O plano macropolítico ressoa/afina-se com o mo-
existenciais. Seguindo o fluxo molar, o “plano da                      lar assim como o platô micropolítico ressoa/afina-se
segmentaridade dura, do visível, dos processos consti-                 com o molecular e ambos podem ser audíveis numa
tuídos...” (Neves, 2002, p.45), podemos dizer que o                    harmonia contemporânea sem que as dissonâncias se-
grupo musical foi se constituindo a partir de vários                   jam consideradas desafinação. Como um acorde com
agenciamentos: com o poder instituído do CAPS, com                     a sétima nota, a dissonância é constitutiva.
o Poder Público Municipal e o apoio para gravar um                         Na ocasião em que o grupo Musical Mágicos do
CD, para fazer um vídeo-clipe da música de trabalho e                  Som começou a funcionar, neste contexto, em confor-
com os recursos para apresentações em vários municí-                   midade com os ideais da Reforma Psiquiátrica, era
pios. Estes agenciamentos produziram de um lado a                      recorrente a discussão acerca da necessidade de
visibilidade do grupo através da mídia local e de outro                reinserção social dos usuários de saúde mental através
lado, o apoio de mais pessoas da comunidade. No seu                    de dispositivos como a música. As idéias de reabilita-
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Musicoterapia e saúde mental ...                                                                                           145

ção psicossocial estiveram presentes de modo mar-         próprio caminhante como parte do caminho (pensa-
cante na literatura sobre saúde mental no Brasil.         mento taoísta). As dicotomias, dualismos, binarismos
     No entanto, algumas discussões teóricas problema-    são dispensáveis no funcionamento rizomático. A gra-
tizam a concepção binária (incluído × excluído) pre-      ma brota e se espalha pelo meio. “As multiplicidades
sente neste campo e propõem um modo de pensar a           são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades
saúde mental longe das dicotomias, cartografando as       arborescentes” (Deleuze e Guattari, 2004, p.17).
forças que engendram o funcionamento dessa máqui-             A idéia de multiplicidade substantiva, diferente da
na, incitando forças propulsoras de disrupção do insti-   idéia de múltiplo adjetivado, nos remete a pensar o
tuído da loucura para o escape da linha de fuga da        rizoma com inexistência de unidade que sirva de pivô,
desrazão. Conceber a pertinência da desrazão se cons-     ou estrutura, ou divisão a priori entre sujeito e objeto.
titui numa necessidade ao lidar com a loucura. Corte-     Formam-se dimensões que se agenciam e mudam de
fluxo, variações intensivas, diferença produzindo di-     natureza. “Um agenciamento é precisamente este cres-
ferença. Talvez seja possível afirmar que no grupo        cimento das dimensões numa multiplicidade que muda
musical Mágicos do Som ocorreu um movimento no            necessariamente de natureza à medida que ela aumen-
sentido da reinserção psicossocial. Porém, é preciso      ta suas conexões” (idem, p. 17).
salientar que este movimento não seguiu um roteiro            Bruno Latour (1994), antropólogo francês, faz uso
previamente estabelecido, ao contrário ele foi produ-     da noção de rizoma quando lança as bases da teoria
zido de modo imanente e não dicotômico. Os binômios       ator-rede. O autor trabalha com a noção de rede e su-
terapeuta-cliente, normal-anormal foram se desconfi-      blinha a importância da articulação entre humanos e
gurando e se constituíram num funcionamento rizo-         não humanos na produção de efeitos em rede. Subjeti-
mático.                                                   vidade e objetividade são para o autor efeitos das arti-
                                                          culações entre humanos e não humanos. Uma rede é
Funcionamento rizomático: improvisação                    um plano de conexões, de agenciamentos no qual as
tonal e atonal ao mesmo tempo                             diferenças se produzem. Na construção do Mágicos
     Um rizoma é feito de platôs, mas há composições      do Som, os actantes usuários de saúde mental co-
tonais, há dimensões, mas sem totalizações. As linhas     nectaram-se com a música, com os instrumentos musi-
constitutivas do rizoma podem ser tanto de segmen-        cais, com os poderes instituídos... e esta rede compôs
taridade, de estratificações, onde o estado de coisas     uma música contemporânea por esses agenciamentos/
forma constructos visíveis, quanto de fuga ou de          conexões. Em cada um desses actantes conectados,
desterritorialização, as quais abrem brechas às forças    novas perspectivas, novos funcionamentos foram en-
do caos. Um movimento do ritornelo. Há entradas por       gendrados.
qualquer parte do rizoma e as saídas sempre são múlti-        “Como multiplicidade substantiva que comporta
plas. Porque rizoma é um rio que rói suas margens e       termos heterogêneos, o agenciamento estabelece entre
ganha velocidade pelo meio (Deleuze e Guattari, 2004,     os termos relações diferenciais imanentes, de modo
p. 37). Ele “procede por variação, expansão, conquis-     que um termo da relação não se torna outro, se o outro
ta, captura, picada” (Deleuze e Guattari, 2004, p. 32).   já não se tornou outra coisa” (Neves, 2002, p.112). No
Um rizoma é um sistema a-centrado que rejeita qual-       grupo musical Mágicos do Som, as lideranças, os pa-
quer modelo estrutural, não hierarquizado, mas pode       péis, as funções, todas as formas apresentavam varia-
se propagar de forma fascista, o enrijecimento da for-    ções ao longo do percurso. A cada apresentação musi-
ma ou uma priorização de um dos elementos do terri-       cal fazíamos uma reflexão sob todos os aspectos des-
tório, ou mesmo a idéia de uma estrutura profunda e       ta. Utilizando música, palavras e sons, compartilháva-
lideranças apoteóticas podem produzir um rizoma de        mos as diferenças, sem idealizações, apenas pela pos-
funcionamento fascista. Torna-se necessário que a         sibilidade de estarmos nessa convivência de forma
heterogeneidade não sucumba a uma idéia de homo-          prazerosa, sem nos perguntarmos quem era o terapeuta
geneização, tentativa de um acorde perfeito maior         e quem era o cliente, ou quem era o normal e quem
idealizado. “O rizoma é o método do antimétodo, e         não o era. Transformávamos a nossa forma de atuar,
seus ‘princípios’ constitutivos são regras de prudência   de conviver, de pensar e de interagir. Na multiplicidade
a respeito de todo vestígio ou de toda reintrodução da    não há necessidade de unidade. Não há necessidade
árvore e do Uno no pensamento” (Zourabichvili, 2004,
                                                          de divisão entre uno e múltiplo.
p.99). Há que se caminhar sob os cuidados da prudên-
cia nas construções coletivas, olhar atento sob as len-       Um rizoma não cessaria de conectar cadeias
tes polidas pela ética. Remeter-se a ética como uma           semióticas, organizações de poder, ocorrências que
lanterna numa estrada ao caminhar. Porque funcionar           remetem às artes, às ciências, às lutas sociais
rizomaticamente é construir o caminho no caminhar, o          (Deleuze e Guattari, 2004, p.15-16).
                                                             PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
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               O SOM DO RITORNELO5                                     nelo quando o agenciamento é sonoro ou ‘dominado’
                                                                       pelo som. (Deleuze e Guattari, 1997, p.132).
    Um caldeirão caótico musical configurava as ses-
                                                                           Ritornelo é o retorno. Em teoria musical, tem a
sões de musicoterapia no CAPs Usina de Sonhos, uti-
                                                                       função de repetição. É um símbolo que demarca deter-
lizávamos predominantemente a técnica de re-criação
                                                                       minado trecho que deverá ser repetido, sendo necessá-
musical, na qual as regras estéticas da música não são
                                                                       rios dois sinais para fazer essa delimitação na partitu-
priorizadas e a expressão sonoro-musical brota con-                    ra (de abertura e fechamento do trecho). Ele facilita a
forme o pulsar da musicalidade. O desafio de produzir                  escrita musical por não ser necessário que se reescre-
o grupo musical Mágicos do Som, um desvio que dife-                    va a parte que se quer repetir. Mas a repetição no fazer
renciava a relação com a música; uma organização                       musical não acontece de forma absoluta, posto que a
dessa musicalidade expressiva caótica para uma                         cada repetição, novos componentes musicais e inter-
formatação estética que permitisse a expressão musi-                   pretativos são expressos. Como já escrito anteriormen-
cal para apresentações em público. Uma ordenação vi-                   te, essa repetição expressada na música Preconceito,
sível da musicalidade emergente. Em discussões cole-                   marcava ao mesmo tempo uma sonata e uma fuga, uma
tivas, acordou-se que o grupo se propunha a tentar                     sonata que propunha uma forma previsível e uma fuga
modificar a idéia estigmatizada sobre os usuários de ser-              que incitava uma mudança de lugar, um deslocamen-
viços de saúde mental, eles gostariam de apresentar ao                 to. De louco e músico todos nós temos um pouco, é o
público seu ideário contra o preconceito que identifica-               que diz o ditado popular, mas quando o músico e o
vam nas suas relações com as outras pessoas ditas nor-                 louco se instauram num híbrido e se expressa confor-
mais. Neste contexto, surgiu a primeira música, que du-                me lhe convém, as noções de diferença e igualdade,
rante todo o período que estivemos juntos foi repetida em              ou a heterogeneidade da proposta toma uma certa
todas as apresentações. Samba composto e cantado por                   ousadia. Repetia-se este canto como num ritual, era a
Regina Serrão,6 componente do grupo. A música de tra-                  marca do grupo, este canto, este cantar, este encantar.
balho do primeiro CD – intitulado Saúde Musical – era
uma música protesto, manifesto, expressão e apelo.
    Esta não foi a única música composta pelos com-
                                                                              MOVIMENTOS DO RITORNELO
ponentes do grupo, mas era a mais executada nas apre-                      O ritornelo possui três movimentos: territoria-
sentações e se repetia como uma marca que expressa-                    lização, desterritorialização e reterritorialização. Ele
va o ideário do grupo. Na letra desta música busca-se                  os torna simultâneos ou os mistura: ora, ora, ora. As
uma aceitação, mas seria a aceitação de uma diferen-                   forças do caos se organizam, cria-se uma ordem, um
ça? Uma tentativa de igualdade “somos bem pareci-                      traço de ordenação de um espaço-tempo. Mas esta
dos...” ou um protesto contra os fluxos de segregação                  ordem não é homogênea, há algo de desorganização.
ao usuário de serviço de saúde mental? Esta composi-                   O território abriga em si forças cósmicas de abertura.
ção sintetiza sem homogeneizar a idéia, sem fechar,                    Em algum momento insurge a improvisação, o lançar-
uma voz, várias vozes, uma polifonia. Como a própria                   se, no qual as forças presentes movimentam-se des-
música incita “ você não tem o direito de me querer                    territorializando as antes instituídas. Forças de trans-
aprisionado”, um exercício de buscar o significado da                  formação. Cria-se, modifica-se a ordem acessando as
música nos parece enfraquecedor de sua potência, não                   forças do caos. Mas este movimento de desconstrução,
buscamos uma representação.                                            em algum espaço-tempo, reterritorializa-se. Forças
    O grupo surgiu no contexto da luta antimani-                       centrífugas e centrípetas redimensionam e propõem
comial, uma luta que não se detém em acabar com os                     outra organização, ou melhor, outro arranjo, que não é
muros dos hospícios, mas acabar com o enclausu-                        mais o anterior, mas contém algo dele.
ramento da desrazão, acabar com o instituído da ver-                       O ritornelo é o próprio princípio gerador de movi-
dade sobre a loucura e acabar com a lógica antagônica                  mento, através das composições de forças dos fluxos
que propõe uma segregação sobre uma forma de pen-                      desejantes. O ritornelo não é outra coisa senão um
sar a realidade e de vivê-la que não seja uniforme,                    movimento de retorno da diferença. O desejo manifes-
formatada, extensiva.                                                  ta-se em ciclos, em ondas, com velocidades e intensi-
    Deleuze e Guattari buscam na música o conceito                     dades diferentes. O ritornelo é o desejo que flui. “As
de ritornelo para pensar o fenômeno de territoria-                     forças da desordem (as do caos), as forças terrestres
lização. O ritornelo pode ser definido como: todo con-                 (que implicam uma marcação territorial) e as forças
junto de matérias de expressão que traça um território,                cósmicas; tudo isso se afronta e concorre no ritornelo”
e que se desenvolve em motivos territoriais, em pai-                   (Deleuze e Guattari, 1997, p.118). Nesse pulsar de um
sagens territoriais (há ritornelos motores, gestuais,                  manifesto, ouve-se uma sonoridade impune, um pro-
ópticos, etc.). Num sentido restrito, falamos de ritor-                testo que seduz. Um canto de pássaro que marca seu
PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
Musicoterapia e saúde mental ...                                                                                                         147

território e é conhecido por este canto. Não há um dizer         Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. São Paulo: Ed. 34.
sobre a loucura que a totalize e quanto a arte, há o escape,     Moraes, M. (2006). A ciência como rede de atores: ressonâncias
                                                                   filosóficas [online]. Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, 11, 2, pp.
o escape da desrazão, talvez, por vezes, aprisionada ou            321-333, maio/ago. 2004 [citado 09 de março 2006]. Disponí-
contida em formas de produção de subjetividade capi-               vel em: <http://www.scielo.br/scielo.php>.
talista. Cantar a diferença, repetir a diferença, brincar        Moraes, M. (1998). Por uma Estética da Cognição: A Propósito
com a diferença, desejar a diferença, produzir a dife-             da Cognição em Latour e Stengers. Informare, 4, 1, 49-56.
rença, diferenciar a produção... esta foi a ciranda na           Neves, C.E.B. (2002). Interferir entre desejo e capital. [Tese de
construção do grupo musical Mágicos do Som.                        Doutorado], Departamento de Psicologia Clínica, PUC-SP, São
                                                                   Paulo.
                                                                 Pelbart, Peter P. (1993). A nau do tempo-rei: 7 ensaios sobre o
                        CONCLUSÃO                                  tempo e a loucura. Rio de Janeiro: Imago.
                                                                 Pelbart, Peter P. (1998). Da clausura do fora ao fora da clausura-
     O grupo musical Mágicos do Som produziu um                    loucura e desrazão. São Paulo: Brasiliense.
diferencial nas práticas muscoterápicas tradicionais.            Pedro, R. M. L. R. (2003). Reflexões sobre os processos de
Voltou-se sobre os muros manicomiais na busca de                   subjetivação na sociedade tecnológica. In: Machado, J. A. S.
substituí-los por outras formas de atuação, ampliou o              (Org.). Trabalho, economia e tecnologia: novas perspectivas
                                                                   para sociedade global. São Paulo: Práxis.
setting ou criou outros settings. Uma dinâmica de fun-
                                                                 Rauter, C. (1998). Clínica do esquecimento: construção de uma
cionamento que acreditamos permite-nos inventar no-                superfície. Tese (Doutorado). PUC São Paulo, São Paulo.
vos modos de trabalhar em Musicoterapia, apostando               Serres, M. Filosofia Mestiça. (1993): Nova Fronteira.
nos coletivos heterogêneos e nas linhas que forem se             Zourabichivili, F. (2004). O vocabulário de Deleuze. Rio de Ja-
desenhando a partir das experimentações. Expandir a                neiro: Relume Dumará.
clínica musicoterápica ou produzir desvios a partir de
                                                                 Notas:
fluxos inesperados, construindo settings além de con-            1 Várias pessoas compuseram o grupo musical Mágicos do Som no período
sultórios de saúde mental. Uma clínica no espaço da                de 1997 à 2003, são eles: José Antônio Pátio Filho, Maria Lúcia Jacinto,
                                                                   Regina Lúcia Serrão, Jorge Luiz Silva, Josias Moraes, Hélio Cirineu, Se-
vida ou um espaço de vida na clínica.                              bastião Venâncio, Rosiléia Cândido, Marco Antônio da Costa Marques,
     A construção mestiça da música, a nossa experi-               Carlos Nilson Mendes, Wanderley Brasil, Gilmar, Aridéia, Rinaldo, Márcia
                                                                   Ferreira, Marco Aurélio, Sônia Maria, Vera Gonçalves. E também Dona
mentação mestiça no grupo, permitiram-nos uma mis-                 Cida, Jurema e Fernanda (familiares) e Raquel Siqueira (musicoterapeuta).
                                                                 2 Os profissionais de nível médio que desenvolviam oficinas artesanais eram
tura capaz de transgressões e ousadias. Desvios, pos-              chamados de oficineiros.
sibilidades de lidar com os grupos sem a segmen-                 3 Conforme Moraes (1998) a noção de rede “não remete a nenhuma entidade
                                                                   fixa, mas a fluxos, circulações, alianças, movimentos. A noção de rede de
taridade das hierarquias enrijecidas dos modelos                   atores não é redutível a um ator sozinho nem a uma rede. Ela é composta de
manicomiais. Um dos efeitos da produção do Mágicos                 séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agen-
                                                                   ciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionais
do Som para as práticas musicoterápicas foi a aposta               atores da sociologia, uma categoria que exclui qualquer componente não-
nos encontros das multiplicidades e nas produções de               humano. Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um
                                                                   tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeita-
mais mestiçagens como artifício para o diferir como                mente definidos, porque as entidades da quais ela é composta, sejam elas
                                                                   naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identida-
potência de vida. Potência de criação, possibilidades              de e suas mútuas relações, trazendo novos elementos para a rede. Neste
de inventar modos de trabalhar, criar modos de estar e             sentido, uma rede de atores é simultaneamente um ator cuja atividade con-
                                                                   siste em fazer alianças com novos elementos, e uma rede que é capaz de
atuar no mundo, convivendo com as produções hete-                  redefinir e transformar seus componentes”.
                                                                 4 Abordaremos este conceito mais adiante, aqui referimo-nos à Deleuze quan-
rogêneas. E que não se restrinja este modo de pensar               do escreve: “Lembremo-nos a idéia de Nietzsche: o eterno retorno como
à relação dos usuários dos serviços de saúde mental                pequena cantilena, como ritornelo”. (1997, p. 159-160)
                                                                 5 Agradecemos a Rosana Saldanha Silva cuja parceria permitiu que escrevês-
apenas em suas comunidades. Que estes e outros mo-                 semos este trecho do artigo que versa sobre o conceito de ritornelo.
dos de trabalhar possam ser utilizados em outras arti-           6 Preconceito: Autora: Regina Serrão. Preconceito é besteira/Seja de raça ou
                                                                   de cor/Seja de perto ou de longe/O que vale é o amor/Essa idéia afasta,
culações, outros agenciamentos, outros encontros de                separa, ignora/Causa dor e sofrimento/Só o sabe quem o sente/Dói bastante
                                                                   dentro da gente/ Não somos perigosos/Muito menos desumanos/Temos di-
multiplicidades substantivadas que somos nós. A pro-               reito à vida/Temos direito ao amor/Podemos parecer diferentes/Podem nos
pulsão Mágicos do Som ainda reverbera. O pulso ain-                achar esquisitos/Com paciência mostramos/Que somos bem parecidos/O
                                                                   amor é uma virtude/Preconceito um pecado/Você não tem o direito/De me
da pulsa.                                                          querer aprisionado.
                                                                 Autoras:
                                                                 Raquel Siqueira da Silva – Psicóloga. Especialista em Musicoterapia pelo
                       REFERÊNCIAS                               Conservatório Brasileiro de Música. Coordenadora do curso de graduação em
                                                                 Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música. Mestranda no Progra-
Chagas, M. (2001). Musicoterapia desafios da interdiscipli-      ma de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense.
  naridade entre a modernidade e a contemporaneidade. [Dis-      Marcia Moraes – Doutora em Psicologia Clínica, PUC-SP. Professora do Pro-
  sertação de mestrado], EICOS, Universidade Federal do Rio      grama de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense.
                                                                 E-mail: mmoraes@vm.uff.br
  de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.
Deleuze, G., & Guattari, F. (2004). Mil platôs: capitalismo e    Endereço para correspondência:
                                                                 RAQUEL SIQUEIRA DA SILVA
  esquizofrenia (3ª ed.) (Vol. I). São Paulo: Ed. 34.            Conservatório Brasileiro de Música – Centro Universitário
Deleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil platôs, capitalismo e    Av. Graça Aranha, 57, 12º andar – Centro
  esquizofrenia (Vol. 4). São Paulo: Ed. 34.                     CEP: 20030-002, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
                                                                 Fones: (21) 9631-9409 / (21) 2610-0827
Deleuze, G., & Parnet, C. (1998). Diálogos. São Paulo: Escuta.   E-mail: raqsiqueira2000@yahoo.com.br

                                                                     PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007

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1988 musicoterapia e saúde mental uma experimentação rizomática

  • 1. PSICO Ψ v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007 Musicoterapia e saúde mental: relato de uma experimentação rizomática Raquel Siqueira da Silva Marcia Moraes Universidade Federal Fluminense (UFF) RESUMO Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiência profissional na área de Musicoterapia no contexto da Reforma Psiquiátrica. A experiência teve seu início numa instituição manicomial na cidade de Volta Redon- da, no Rio de Janeiro e, em seguida, passou a ser realizada num Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). O trabalho musicoterápico teve como um de seus desdobramentos a criação de um grupo musical com os usuários dos serviços do CAPS. Utilizamos algumas noções da filosofia da diferença de Deleuze-Guattari para refletir sobre esta experimentação. Consideramos a Musicoterapia como um saber mestiço, híbrido e concluímos indicando que a experiência com o grupo musical nos permitiu refletir sobre algumas das for- mas de atuação e intervenção da Musicoterapia. Palavras chave: Musicoterapia; rizoma; saúde mental. ABSTRACT Music therapy and mental health: Report of an rhizomatic experience This paper has the aim to report a music therapy professional experience in the context of Psychiatric Reform. The experience began in a psychiatric institution situated at Volta Redonda, in the state of Rio de Janeiro and, later, it was transfered to a Psychosocial Support Center (CAPS). Music therapy working had as one of its consequences the creation of musical groupe with the CAPS services users. We based this paper with some notions from Deleuze-Guattari difference philosophy in order to reflect about this experience. We consider music therapy as an hybrid knowledge and we conclude to indicate that this musical groupe experience allowed us to think about some ways of acting with music therapy. Key words: Music therapy; rhizoma; mental health. INTRODUÇÃO mento em que a voz do usuário de serviços de saúde mental pudesse ser ouvida sem preconceitos. Este artigo tem o objetivo de relatar uma experiên- Neste artigo apresentamos a trajetória desta expe- cia profissional na área de Musicoterapia. A experiên- riência e nos perguntamos de que modo o grupo musi- cia que relataremos neste trabalho teve início na Casa cal Mágicos do Som nos leva a repensar as práticas de Saúde Volta Redonda (CSVR) onde uma de nós tra- em Musicoterapia no campo da saúde mental. balhava como musicoterapeuta. Neste contexto, nosso trabalho era desenvolvido com os usuários de serviços de saúde mental ainda em internação psiquiátrica. A MUSICOTERAPIA NA CASA DE No campo da Reforma Psiquiátrica, o poder públi- SAÚDE VOLTA REDONDA – O SOM NO co municipal interveio na CSVR, um dos efeitos deste ESPAÇO-TEMPO DO MANICÔMIO encontro foi a criação do Centro de Atenção A Casa de Saúde Volta Redonda (CSVR), locali- Psicossocial (CAPS) Usina de Sonhos. Neste contexto zada em município de mesmo nome no sul do Estado foi possível desenvolver um trabalho musicoterápico do Rio de Janeiro, é uma clínica psiquiátrica privada que foi além das condições asilares e construiu uma que desde abril de 1994 está sob intervenção da pre- trajetória ousada. No âmbito do CAPS nosso trabalho feitura municipal. Esta intervenção ocorreu em função musicoterápico levou à formação de um grupo – o de várias precariedades no atendimento ao usuário e Mágicos do Som1 – que pretendia criar um funciona- irregularidades com os funcionários. Com o lema “Em
  • 2. 140 Silva, R. S. da, & Moraes, M. Defesa da Vida”, a Secretaria Municipal de Saúde con- tava desestabilizar o lugar instituído da loucura. Por tratou vários profissionais para promoverem a Refor- que prendê-los? Neste processo de desterritoriali- ma Psiquiátrica neste município. O slogan inicial pro- zação, essa linha de fuga pleiteava já a dissolvência do pagado era “Saúde não se vende, loucura não se pren- modelo manicomial para uma rede substitutiva de de”. A ousada proposta da equipe técnica, formada atendimento ao usuário de serviço de saúde mental. A por psicólogos, assistentes sociais, musicoterapeuta, pretensão não era criar serviços que complementassem psiquiatras, enfermeiros e oficineiros2 era a de “des- o atendimento asilar, mas prescindi-lo totalmente. construir” o manicômio. As linhas mais observáveis eram as duras, extensi- Havia uma atmosfera de grande otimismo para vas, visíveis. Conviviam as linhas que demarcavam a mudar as forças instituídas e territorializadas do hos- força dos instituídos da loucura com as linhas que se pício. As práticas de isolamento nas enfermarias fo- pretendiam de fuga, mas que também se apresentavam ram invadidas por olhares e intervenções atentas da de forma identitária, conscientizadora... Mas havia equipe que propunha dissolver a dinâmica cronificada espaços-tempos onde as intensidades pulsavam. As do funcionamento manicomial. O discurso da luta anti- assembléias foram uns dos espaços em que posterior- manicomial ecoou em todos os espaços de discussões, mente pudemos identificar como dos mais propulso- era o pulsar de uma empreitada que atravessaria nos- res de discussões que fragilizavam os enrijecimen- sos modos de trabalhar e de pensar a saúde mental. tos instituídos e institucionais. Eram assembléias das Mais do que um investimento do poder público muni- quais participavam todos os funcionários e todos os cipal, era uma aposta nas possibilidades de produção usuários. Os segmentos, os serviços, as atuações pro- de outras subjetividades, diferentes daquelas que ali fissionais, as queixas, os elogios etc., enfim todo o fun- predominavam: a do louco marginalizado, excluído, o cionamento da CSVR era problematizado. A Assem- sem razão. bléia era uma rede de conexões3 ocupando um espaço O primeiro projeto de musicoterapia da CSVR, de forma densa, mobilizando as formas e forças. As- escrito em abril de 1995, apresentava os objetivos de: sembléia era o momento em que as vozes eram “ propiciar a integração entre usuários e os assistentes ouvidas, mas não somente as alucinatórias, ou as através da música; facilitar a auto-expressão criativa, cronificadas das posições hierárquicas, eram as vozes através do sonoro-musical; promover a abertura dos cujos efeitos se produziam nas práticas quotidianas. canais de comunicação através de técnicas musico- Era uma tensão e reflexão, um contraponto numa ins- terápicas”. O grupo musicoterápico começou a acon- tituição que tecer na sala de Terapia Ocupacional. Antes de ingres- os aprisiona no tédio infernal do Mesmo, na re- sar no grupo o usuário era entrevistado com a ficha petitividade sem história , num eterno presente que musicoterápica, uma espécie de anamnese sonoro- é em si a imagem cinza de uma morte sem desfe- musical preenchida pelo musicoterapeuta, com vários cho (Pelbart, 1993, p.20). dados de sua história sonoro-musical, isto é recorrente em atendimentos musicoterápicos tradicionais. Pelbart (1989 e 1993) escreve sobre uma invenção Muitos componentes que posteriormente partici- da loucura na qual se produziu historicamente uma pariam do grupo musical Mágicos do Som freqüenta- loucura inútil, capturada, impotente, cheia de manei- vam este grupo de musicoterapia na CSVR durante rismos e revestida de uma segregação implícita, esta suas internações. A técnica musicoterápica mais utili- segregação também produzida. Outros espaços na zada era a re-criação musical, que consiste num fazer CSVR flexibilizavam este lugar, produziam mudanças sonoro-musical livre, sem a exigência de estética mu- de posição, insistência, resistência. Vozes, vontades, sical específica. O cantar como exercício de re-criar a devires. música e o dançar coletivamente são freqüentes no Tanto as assembléias quanto as sessões de musi- emprego desta técnica. coterapia eram tempos ocupados por espaços diferen- Ao mesmo tempo em que forças propulsoras de ciados e, concomitante, espaços ocupados por tempos transformação do modelo manicomial (as linhas de não aprisionados e isto era uma resistência. Porque fuga) atuavam, práticas cronificadoras (linhas rígidas, neste “lá” (local e tempo) encontravam-se falas que visíveis e de abolição) atravessavam o tempo e o espa- se ouviam, sons que poderiam ser manifestos sem ço. O espaço era manicomial, um prédio de hospício. asilamento, fontes sonoras que escapavam de grades e Ainda havia uma ação calcada numa cisão entre transpassavam os muros. Espaços e tempos de discus- dentro e fora, provavelmente produzida por uma sões, de propostas, de acordos respeitosos a cada dicotomia visível das velhas práticas manicomiais que voz, a todas e aos silêncios. Era possível sentir esta na CSVR foram encontradas. Afirmar esta discussão orquestração e pretender ocupar outros espaços com fora do espaço asilar era um movimento que se acredi- esta lógica inclusiva. Práticas homogeneizadoras e PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 3. Musicoterapia e saúde mental ... 141 disciplinarizantes são recorrentes na história da saúde Questionar se o louco seria capaz de escapar a sua mental, contrariá-las é resistir e produzir diferenças. história seria um falso problema, ele está o tempo todo Acolher a diferença é resistir ao despotismo da predo- produzindo linhas de fuga, seja em seu fazer artístico, minância. Nas palavras de Pelbart: seja em sua alucinação ou delírio. São escapes, dis- Recusar a homogeneização sutil mas despótica em rupturas, acontecimentos muitas vezes não comparti- que incorremos às vezes, sem querer, nos disposi- lhados ou abafados pelos dispositivos institucionais e tivos que montamos quando o subordinamos a um institucionalizados de apreensão de possibilidades de modelo único, ou a uma dimensão predominante. diferir. Quanto à discussão filosófico-histórica sobre (Pelbart, 1993, p. 23) loucura; embora esta não seja um invariante histórico, Pelbart sublinha que ao mesmo tempo que criamos A forma do grupo de musicoterapia alcançou os uma identidade para o louco, tornâmo-lo inofensivo, objetivos propostos pelo projeto inicial, mas ainda es- inoperante no seu processo de desterritorialização. tava na forma, era possível improvisar, expressar, to- O que escapa à história não é o eterno, mas o que car, cantar, dançar, mas estávamos ali no espaço asilar, Nietzsche chamou de intempestivo ou inatural, compreendidos nesta linha de abolição, era uma fuga Foucault de atual, Deleuze de devir, ou aconteci- logo capturada. Os usuários de serviços de saúde men- mento. (Pelbart, 1993, p.83). [E mais adiante o au- tal, internados na CSVR, saíam da sessão e voltavam tor pergunta:]: “Será que a libertação do louco não para a enfermaria. Aquilo era incômodo, estranha- corresponde, no fundo, a uma estratégia de homo- mento, revolta, captura e submissão. geneização do social? (Pelbart, 1993, p.104). “Não é inútil lembrar que o tempo da criação artís- tica ou do pensamento também exige algo dessa or- Presenciamos uma tentativa homogeneizadora, um dem. Do dar tempo e paciência para que o tempo e a despertar de aforismos intelectuais que engendram um forma brotem a partir do informe e do indecidido”. saber despótico sobre a loucura, trata-se de uma sufo- (Pelbart, 1993, p.36 ). A idéia do grupo musical não cação de devires, provavelmente aspirada pela apro- surgiu no manicômio. Os internos despotencializados, priação indébita do que lhe é fortuito, a desrazão. Mas medicados, sonolentos, compartilhavam daquele mo- em ritornelos existenciais4 sempre há um espaço-tem- mento. Assim se expressavam e eram ouvidos. po para criar novas formas. Onde pensamos não ha- ver espaço podemos criá-lo, mas não com um saber A primeira coisa que chama a atenção de um visi- homogeneizante, talvez com um não-saber calcado no tante num hospital psiquiátrico é essa lentificação, que há de mais simples e, no entanto, mais complexo, esse ritmo específico, esse regime temporal dife- a experimentação. Experimentar, experienciar, presen- renciado. Sim, às vezes isto se deve aos efeitos dos ciar, presentificar; estamos falando de conviver, mis- psicofármacos, às vezes à lentidão burocrática das turar-se, confundir-se heterogeneamente e descobrir grandes instituições... (Pelbart, 1993, pp. 39-40) diferenças antes impensadas. Outras formas de criar A experimentação do trabalho musicoterápico pre- diferenças, produzi-las, ou simplesmente deixar que tendia produzir intensidades naquelas vidas tão parali- elas brotem rizomaticamente como erva proibida, ao sadas, medicadas, rotineiras, com poucas perspectivas mesmo tempo desejada e reprimida. Sempre há tantas e surpresas, rotinas cortadas por crises logo abafadas. forças em sintonia, tantas pragas de coerção, mas a Embora as aparências de sonolência e lentidão esti- estranheza da desrazão permite escapar a esta clausura vessem mais visíveis, nem a internação, nem a crise, da inconsistência. nem a medicação continuariam da mesma forma por Pelbart (1993, p. 95) afirma que a modernidade todo o tempo; esta era uma esperança, apostar nos capturou o estranho, domesticou-o. Ele sublinha a im- devires, embora muitas vezes imperceptíveis. Os rit- portância do Pensamento do Fora que seria a expe- mos não se aglomeram nem se decompõem, eles coe- riência que se dá no Desconhecido. O autor acrescenta xistem, se misturam no tempo, a música se dá no tem- que “o Pensamento do Fora é aquele que se expõe às po e atravessa espaços. A única forma de reter a músi- forças do fora que transforma a Força em intensidade” ca de um momento é na memória, este é um legado. E (Pelbart, 1993, p. 96). O poder despótico da razão em aquelas pessoas internadas guardavam algo em suas nossa cultura ocidental e o enclausuramento dos lou- memórias. Apreciar as histórias contadas nas sessões, cos a partir do século XVII nos remete a várias ques- sem se preocupar com sentidos ou verdades era um tões sobre o porquê da insistência do modelo mani- exercício no tempo, como ocorre na música. Embora comial, ainda que este modelo tenha se mostrado im- as linhas de fuga, de desterritorialização fossem rapi- procedente para muitos autores. Pelbart lembra que damente capturadas pela máquina manicomial, as en- “enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, o grenagens apresentavam falhas propulsoras de devires. pensamento racional trancafiava a desrazão e ainda PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 4. 142 Silva, R. S. da, & Moraes, M. afirma que “é preciso recusar o império da Razão” to para a Experiência como para a Arte... duas faces (Pelbart, 1993, pp. 106-107). Para isto, precisaremos da mesma moeda. (Pelbart, 1989, p.107) mudar muitas coisas. Os trabalhadores, usuários, mili- Produziu-se nas sessões um som louco, diferente tantes, familiares, todos os que estão direta ou indi- do som do louco, com todas as possibilidades de trans- retamente envolvidos com a saúde mental, podem se gressões de ordem estética, várias matizes sonoras, beneficiar com esta discussão, posto que a escravidão uma loucura desarrazoada e alegre, uma experimenta- em relação à lógica racionalista não leva apenas ao ção não marcada pelos muros manicomiais que impu- enclausuramento do louco, mas a outros aprisiona- tam à desrazão. Para se estar fora é preciso se implicar mentos. nestas possibilidades criativas que a arte, a paixão Pelbart em duas de suas obras (1989 e 1993) e a loucura proporcionam, experiência-limite, limiar aprofunda a discussão do Fora em relação à loucura e de desterritorialização. Processos de territorialização, à desrazão. desterritorialização e reterritorialização são propulso- Enquanto a desrazão era afetiva, imaginária e res da dança existencial do ritornelo. Podemos nos atemporal, a loucura será temporal, histórica e so- considerar não loucos, mas não precisamos abandonar cial. É assim que no próprio momento em que a as possibilidades da desrazão. desrazão é silenciada, a loucura é exibida de for- Poderíamos dizer que a viagem musical proposta ma organizada e explícita, no escândalo de suas seria uma viagem para algo diferente da loucura ins- formas e, por trás das grades, numa distância pro- tituída, um entre, uma possibilidade de diferir. Uma tegida. (Pelbart, 1989, p.60) abertura para o Fora é, não necessariamente a loucura aprisionada pela história, mas sim uma desrazão des- Não foi possível enclausurar a desrazão, esta não territorializante da loucura instituída. A loucura não é configura uma antítese à razão. Podemos chamar de a única manifestação da desrazão, a loucura seria ape- Fora uma experiência-limite que tangencia os limites, nas uma clausura do Fora. Pelbart (1989) fala de uma mas se encontra no entre . Blanchot ( apud Pelbart, p. liberação da desrazão como uma importante modifica- 98) chama de O Fora o que está exposto às forças não ção nas modalidades de relação com o Fora. “A loucu- visíveis, a relação com o estranho, a alteridade. Do ra é, com efeito, uma viagem para Fora, um vagar no mesmo modo não é possível enclausurar a música, ain- aberto”(Pelbart, 1989, p. 138). da que ela possa ter uma estrutura, uma melodia, uma Esta discussão profícua entre desrazão, loucura e harmonização, um ritmo, algo sempre pode escapar. Fora remete às forças que engendram os dispositivos Quando se produzia um som, por exemplo, nas ses- de libertação do louco de tantas clausuras, diremos que sões de musicoterapia da CSVR , articulavam-se co- este movimento na Reforma Psiquiátrica assume o an- nexões cujos efeitos abriam linhas. Nesse movimento damento musical de allegro ma non tropo, um anda- não existia um certo ou errado, não havia exigência mento vibrante, porém ainda lento. estética, existiam possibilidades estéticas, éticas e po- líticas, forças e formas. Deleuze afirma que “Nas ar- tes, tanto na pintura como em música, não se trata de O MUSICOTERAPEUTA-MESTIÇO E reproduzir ou inventar formas, mas de captar forças...” CARTÓGRAFO SONORO e complementa que “ a tarefa da música- diria Klee- é O lugar de musicoterapeuta tradicional, o lugar de a de tornar sonoras forças insonoras... por exemplo o terapeuta, de psicóloga, passaram por uma estranheza Tempo, que é invisível e insonoro...” (Deleuze apud na experimentação do Mágicos do Som. Não mais sa- Pelbart, 1989, p.103) Que forças insonoras foram beríamos em alguns momentos que lugar estávamos tangenciadas por este trabalho musicoterápico? As for- ocupando, estávamos caminhando no entre das posi- ças não são visíveis, embora não deixem de ser per- ções, num u-topos, um não lugar. Era uma mistura, ceptíveis. As formas podem ser visíveis. existia uma relação respeitosa entre nós, mas não hie- As sessões de musicoterapia na CSVR, juntamen- rárquica e/ou segregadora. te com o dispositivo de assembléia, ocuparam um lu- gar em potência de vida naquele manicômio. Os movi- Pouco em equilíbrio, e também raramente em mentos de construção/produção de formas e suas desequilíbrio, sempre desviado do lugar, errante, desconstruções reverberaram no CAPS Usina de sem moradia fixa. Caracteriza-o o não lugar, sim, Sonhos. o alargamento, portanto a liberdade ou, melhor Quando a arte se coloca à disposição das forças de ainda, o desaprumo... (Serres, 1993, p. 20) um modo específico, ela entra em contato, através do Com o trabalho com o grupo musical Mágicos do estremecimento daí resultante, com um fora do quadro Som podemos dizer que ocupávamos o não-lugar, isto e um fora da arte- com o Fora. Fora e forças são... tan- é, o lugar do limiar, do entre cujo sentido não é o de PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 5. Musicoterapia e saúde mental ... 143 falar pelos outros ou de estar no lugar dos outros. A que se movem. Uma rede móvel construída em cada proposta era a de que os usuários de serviços de saúde contato, em cada aproximação e afastamento. A apren- mental pudessem ocupar os lugares que eles escolhes- dizagem do Mágicos do Som abriu no corpo da mu- sem, conquistando seus interesses. Esta também era, e sicoterapia um lugar de mestiçagens. Mestiçagens com ainda é, uma prerrogativa da Luta Antimanicomial. Se a estética da música, com outras estéticas, mestiçagens nós nos propuséssemos a ocupar o lugar do usuário do setting musicoterápico. estaríamos construindo uma relação manicomial e Eis o novo. Não mais ingenuamente oposta ao dia, sufocando a voz do usuário, ao invés de promover o como a ignorância ao conhecimento – que bela contrário. chance é o ritmo nictemeral para aquelas simples e Ele, o lugar mestiço, se semeia no tempo e no es- cruéis divisões entre o erro e a verdade, a ciência e paço. No meio da janela que atravessa, o corpo os sonhos, o obscurantismo e o progresso... (Ser- sabe que passou para fora, que acaba de entrar em res, 1993, p. 53). outro mundo (Serres, 1993, p. 18). O lugar mestiço que ocupamos com o Mágicos do MESTIÇAGEM – HÍBRIDOS-ACTANTES Som deu-se a partir de nossos encontros. Mestiço por- que permaneceu num entre. A experiência de estar nes- Evocamos um tema já problematizado por Chagas te lugar provoca uma sensação de que este é o limiar (2001), quando discute a Musicoterapia como profis- que se ocupa em todas as experiências profissionais são híbrida, na complexidade do exercício de uma prá- de um terapeuta. “Toda evolução e todo aprendizado tica profissional entre fenômenos de hibridação e de exigem a passagem pelo lugar mestiço” (Serres, 1993, purificação. A Musicoterapia está na tentativa de se p. 19). estabelecer enquanto categoria profissional dentre Na produção do Mágicos do Som os lugares não outras já existentes na contemporaneidade, o desafio estavam dados ou já constituídos, ocupávamos luga- de práticas que navegam entre a modernidade e a res mestiços, funcionávamos de modo rizomático, sem contemporaneidade. Os humanos e, ao mesmo tempo, que houvesse um centro unificador do qual partissem não humanos presentes na produção do grupo musical as decisões. Nas palavras de Serres: em questão compõem a rede de actantes. Híbridos ou actantes constituem os nós dessa rede, que através ... o lugar mestiço, em torno do qual bate o ritmo e dos encontros, dos agenciamentos das multiplicidades, vibra a música. (p.31) Onde soa o centro do pia- configuram os engendramentos do “modelo de acopla- no? Em torno do terceiro lá? Ouça o xis ou o ixe mento ou hibridação, em que se parece apostar numa da escala ascendente da esquerda para a direita, e espécie de estrutura ou funcionalidade híbrida” (Pe- encontre, nas proximidades de algum meio, a cas- dro, 2003, p.167 ). Cada actante, uma construção aber- cata de notas escorrendo do alto para o baixo; es- ta, se transformava com as produções dos agencia- cute a quimera e o ponto de encaixe. Neste ponto, mentos na história, ao mesmo tempo contínua e des- vernal, jaz a encruzilhada... (Serres, 1993, p. 25) contínua do grupo Mágicos do Som. A experiência do Mágicos do Som e tantas outras, ... pensar a partir dos coletivos, do que nos liga incitam a acreditar que possamos fazer algo mais, aos não-humanos, tem por objetivo estratégico criar coletivamente novos modos de trabalhar. “... nada abrir espaço para que possamos problematizar nos- aprendi sem que tenha partido, nem ensinei ninguém sa própria constituição – enquanto sujeitos, en- sem convidá-lo a deixar o ninho ... Quem não se mexe quanto humanos – e transformação, na medida em nada aprende” (Serres, 1993, p. 14). que somos transformados por aquilo que aprende- O Mágicos do Som partiu, partiu de si enquanto mos (Pedro, 2003, p. 175-176). usuários, do manicômio, do lugar, do tempo enclausu- rado. O grupo se mexeu e detonou um aprendizado, Serres nos esclarece sobre o campo de possibilida- multiplicidade, intensidade. des nas multiplicidade destes processos de mestiça- gens quando afirma que “estamos imersos numa espé- Esquece sua própria terra, sobe, viaja, vagueia, cie de “oceano de possíveis”, cujo alcance e direção conhece, observa, inventa, pensa. Não repete mais. não podemos saber de antemão, e no qual estamos Eu penso ou eu amo, portanto eu não sou; eu pen- aprendendo a navegar” (apud Pedro, 2003, p. 177). so ou eu amo, portanto eu não sou eu; eu penso ou eu amo, portanto eu não estou mais aí. Zarpei do ser-aí. (Serres, 1993, p. 39). O MÁGICOS DO SOM Aprendizagem mestiça, aprendizagem de um lugar No CAPS Usina de Sonhos um grupo processa que se move, de relações que se movem, de instituídos rizomaticamente criação e contágio, inventando cole- PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 6. 144 Silva, R. S. da, & Moraes, M. tivamente um modo de operar seus sonhos e sua caminhar o funcionamento do Mágicos do Som pro- musicalidade. “A música nunca deixou de fazer pas- duziu uma dinâmica onde todos os envolvidos fugiam sar suas linhas de fuga, como outras tantas ‘multiplici- do lugar instituído, era uma composição louco-músi- dades de transformação’... ” (Deleuze e Guattari, 2004, co, um devir músico no louco e um devir louco no p.21). O grupo musical Mágicos do Som pode ser con- músico. “Não há um termo do qual se parta, nem um cebido como uma composição contemporânea; que ao qual se chegue ou ao qual se deva chegar... Pois à não totaliza, heterogênea, deixando passar suas linhas medida que alguém se transforma, aquilo em que ele de fuga, tentando desterritorializar o instituído da lou- se transforma muda tanto quanto ele próprio” (Deleuze cura. Desterritorialização como um movimento que e Parnet, 1998, p.8). Uma transição em movimento, deriva do território, mas que harmoniza com este, uma um caminhar no entre, um híbrido que expressava sua repetição da diferença no ritornelo. música e ampliava sua voz e seus sonhos, um concerto Há uma função desterritorializante da música, que de intensidades, musicalmente interagindo em propul- lhe permite transversalizar, e atravessar diversos são de contágio. O fluxo molecular com suas “linhas modos de subjetivação, ou diferentes ‘mundos flexíveis, devir... operando aberturas para um campo próprios’ – esta é uma das funções da arte como de multiplicidades” (Neves, 2002, p.45). Cada som dos um todo. Mas esta qualidade, a música a tem em instrumentos, cada opinião nas discussões, cada crise maior grau. (Rauter, 1998, p.162). constituía-se num repensar, refazer, refletir as práticas. Cada ator fazendo conexão com os outros. As regras Composição que opera um caminhar no entre, eram construídas na experiência, a partir de acordos passagens, rupturas, criação, estado de coisas e fuga. coletivos após discussões. Uma experimentação de Como uma fuga musical, melodias que criam movi- “processualidade onde a variação é contínua e as rela- mentos, escapam e harmonizam. Dissonâncias não ções são produzidas por conexões de fluxos intensivos dicotômicas, sem binarismos, ritmo assimétrico. e heterogêneos” (Neves, 2002, p. 46). O desejo de criar um grupo musical emergiu em meio aos encontros dos usuários deste CAPS com as sessões de Musicoterapia, com os instrumentos musi- RIZOMA – COMPOSIÇÃO MICROPOLÍTICA cais, com as práticas de assembléias em que todos po- E SUAS RESSONÂNCIAS deriam expor suas idéias e estas eram compartilhadas. A música não se detém no espaço. A música acon- Este desejo de criar um grupo musical foi se agencian- tece no tempo, ela se constitui em sons e silêncios do com uma busca coletiva de levar adiante ideais de concomitantes. Assim também se constituem os dois afirmação de uma potência de vida em detrimento a planos indissociáveis, o plano molar e o molecular, uma visão segregadora e impotente direcionada a estes são “dois modos de recortar a realidade” eles se usuários de serviços de saúde mental. “O agencia- atravessam o tempo todo e correspondem ao que mento é a liga do desejo na produção de mundos. Ele Rolnik chama “duas formas de individuação, duas põe, em cena, os funcionamentos e os movimentos espécies de multiplicidades, ... duas políticas” (Rolnik arborescentes e rizomáticos do desejo nesta produção” apud Neves, 2002, p. 45). O molar corresponderia ao (Neves, 2002, p.112). O Mágicos do Som desejava plano das formalizações, “plano da segmentaridade romper com o instituído da loucura, esse era o sonho, dura, do visível, dos processos constituídos” ... e o constituir-se como qualquer grupo musical fora da molecular ao plano das intensidades, “plano da forma- construção da loucura. Eles queriam um outro lugar, o lização do desejo, do invisível, ... nele temos a predo- de músicos. Eles acreditaram nessa ousadia e constru- minância das linhas flexíveis-fluxos, devir” (Rolnik íram coletivamente uma dinâmica de funcionamento, apud Neves, 2002, p.45). engendrando possibilidades de expansão de territórios O plano macropolítico ressoa/afina-se com o mo- existenciais. Seguindo o fluxo molar, o “plano da lar assim como o platô micropolítico ressoa/afina-se segmentaridade dura, do visível, dos processos consti- com o molecular e ambos podem ser audíveis numa tuídos...” (Neves, 2002, p.45), podemos dizer que o harmonia contemporânea sem que as dissonâncias se- grupo musical foi se constituindo a partir de vários jam consideradas desafinação. Como um acorde com agenciamentos: com o poder instituído do CAPS, com a sétima nota, a dissonância é constitutiva. o Poder Público Municipal e o apoio para gravar um Na ocasião em que o grupo Musical Mágicos do CD, para fazer um vídeo-clipe da música de trabalho e Som começou a funcionar, neste contexto, em confor- com os recursos para apresentações em vários municí- midade com os ideais da Reforma Psiquiátrica, era pios. Estes agenciamentos produziram de um lado a recorrente a discussão acerca da necessidade de visibilidade do grupo através da mídia local e de outro reinserção social dos usuários de saúde mental através lado, o apoio de mais pessoas da comunidade. No seu de dispositivos como a música. As idéias de reabilita- PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 7. Musicoterapia e saúde mental ... 145 ção psicossocial estiveram presentes de modo mar- próprio caminhante como parte do caminho (pensa- cante na literatura sobre saúde mental no Brasil. mento taoísta). As dicotomias, dualismos, binarismos No entanto, algumas discussões teóricas problema- são dispensáveis no funcionamento rizomático. A gra- tizam a concepção binária (incluído × excluído) pre- ma brota e se espalha pelo meio. “As multiplicidades sente neste campo e propõem um modo de pensar a são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades saúde mental longe das dicotomias, cartografando as arborescentes” (Deleuze e Guattari, 2004, p.17). forças que engendram o funcionamento dessa máqui- A idéia de multiplicidade substantiva, diferente da na, incitando forças propulsoras de disrupção do insti- idéia de múltiplo adjetivado, nos remete a pensar o tuído da loucura para o escape da linha de fuga da rizoma com inexistência de unidade que sirva de pivô, desrazão. Conceber a pertinência da desrazão se cons- ou estrutura, ou divisão a priori entre sujeito e objeto. titui numa necessidade ao lidar com a loucura. Corte- Formam-se dimensões que se agenciam e mudam de fluxo, variações intensivas, diferença produzindo di- natureza. “Um agenciamento é precisamente este cres- ferença. Talvez seja possível afirmar que no grupo cimento das dimensões numa multiplicidade que muda musical Mágicos do Som ocorreu um movimento no necessariamente de natureza à medida que ela aumen- sentido da reinserção psicossocial. Porém, é preciso ta suas conexões” (idem, p. 17). salientar que este movimento não seguiu um roteiro Bruno Latour (1994), antropólogo francês, faz uso previamente estabelecido, ao contrário ele foi produ- da noção de rizoma quando lança as bases da teoria zido de modo imanente e não dicotômico. Os binômios ator-rede. O autor trabalha com a noção de rede e su- terapeuta-cliente, normal-anormal foram se desconfi- blinha a importância da articulação entre humanos e gurando e se constituíram num funcionamento rizo- não humanos na produção de efeitos em rede. Subjeti- mático. vidade e objetividade são para o autor efeitos das arti- culações entre humanos e não humanos. Uma rede é Funcionamento rizomático: improvisação um plano de conexões, de agenciamentos no qual as tonal e atonal ao mesmo tempo diferenças se produzem. Na construção do Mágicos Um rizoma é feito de platôs, mas há composições do Som, os actantes usuários de saúde mental co- tonais, há dimensões, mas sem totalizações. As linhas nectaram-se com a música, com os instrumentos musi- constitutivas do rizoma podem ser tanto de segmen- cais, com os poderes instituídos... e esta rede compôs taridade, de estratificações, onde o estado de coisas uma música contemporânea por esses agenciamentos/ forma constructos visíveis, quanto de fuga ou de conexões. Em cada um desses actantes conectados, desterritorialização, as quais abrem brechas às forças novas perspectivas, novos funcionamentos foram en- do caos. Um movimento do ritornelo. Há entradas por gendrados. qualquer parte do rizoma e as saídas sempre são múlti- “Como multiplicidade substantiva que comporta plas. Porque rizoma é um rio que rói suas margens e termos heterogêneos, o agenciamento estabelece entre ganha velocidade pelo meio (Deleuze e Guattari, 2004, os termos relações diferenciais imanentes, de modo p. 37). Ele “procede por variação, expansão, conquis- que um termo da relação não se torna outro, se o outro ta, captura, picada” (Deleuze e Guattari, 2004, p. 32). já não se tornou outra coisa” (Neves, 2002, p.112). No Um rizoma é um sistema a-centrado que rejeita qual- grupo musical Mágicos do Som, as lideranças, os pa- quer modelo estrutural, não hierarquizado, mas pode péis, as funções, todas as formas apresentavam varia- se propagar de forma fascista, o enrijecimento da for- ções ao longo do percurso. A cada apresentação musi- ma ou uma priorização de um dos elementos do terri- cal fazíamos uma reflexão sob todos os aspectos des- tório, ou mesmo a idéia de uma estrutura profunda e ta. Utilizando música, palavras e sons, compartilháva- lideranças apoteóticas podem produzir um rizoma de mos as diferenças, sem idealizações, apenas pela pos- funcionamento fascista. Torna-se necessário que a sibilidade de estarmos nessa convivência de forma heterogeneidade não sucumba a uma idéia de homo- prazerosa, sem nos perguntarmos quem era o terapeuta geneização, tentativa de um acorde perfeito maior e quem era o cliente, ou quem era o normal e quem idealizado. “O rizoma é o método do antimétodo, e não o era. Transformávamos a nossa forma de atuar, seus ‘princípios’ constitutivos são regras de prudência de conviver, de pensar e de interagir. Na multiplicidade a respeito de todo vestígio ou de toda reintrodução da não há necessidade de unidade. Não há necessidade árvore e do Uno no pensamento” (Zourabichvili, 2004, de divisão entre uno e múltiplo. p.99). Há que se caminhar sob os cuidados da prudên- cia nas construções coletivas, olhar atento sob as len- Um rizoma não cessaria de conectar cadeias tes polidas pela ética. Remeter-se a ética como uma semióticas, organizações de poder, ocorrências que lanterna numa estrada ao caminhar. Porque funcionar remetem às artes, às ciências, às lutas sociais rizomaticamente é construir o caminho no caminhar, o (Deleuze e Guattari, 2004, p.15-16). PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 8. 146 Silva, R. S. da, & Moraes, M. O SOM DO RITORNELO5 nelo quando o agenciamento é sonoro ou ‘dominado’ pelo som. (Deleuze e Guattari, 1997, p.132). Um caldeirão caótico musical configurava as ses- Ritornelo é o retorno. Em teoria musical, tem a sões de musicoterapia no CAPs Usina de Sonhos, uti- função de repetição. É um símbolo que demarca deter- lizávamos predominantemente a técnica de re-criação minado trecho que deverá ser repetido, sendo necessá- musical, na qual as regras estéticas da música não são rios dois sinais para fazer essa delimitação na partitu- priorizadas e a expressão sonoro-musical brota con- ra (de abertura e fechamento do trecho). Ele facilita a forme o pulsar da musicalidade. O desafio de produzir escrita musical por não ser necessário que se reescre- o grupo musical Mágicos do Som, um desvio que dife- va a parte que se quer repetir. Mas a repetição no fazer renciava a relação com a música; uma organização musical não acontece de forma absoluta, posto que a dessa musicalidade expressiva caótica para uma cada repetição, novos componentes musicais e inter- formatação estética que permitisse a expressão musi- pretativos são expressos. Como já escrito anteriormen- cal para apresentações em público. Uma ordenação vi- te, essa repetição expressada na música Preconceito, sível da musicalidade emergente. Em discussões cole- marcava ao mesmo tempo uma sonata e uma fuga, uma tivas, acordou-se que o grupo se propunha a tentar sonata que propunha uma forma previsível e uma fuga modificar a idéia estigmatizada sobre os usuários de ser- que incitava uma mudança de lugar, um deslocamen- viços de saúde mental, eles gostariam de apresentar ao to. De louco e músico todos nós temos um pouco, é o público seu ideário contra o preconceito que identifica- que diz o ditado popular, mas quando o músico e o vam nas suas relações com as outras pessoas ditas nor- louco se instauram num híbrido e se expressa confor- mais. Neste contexto, surgiu a primeira música, que du- me lhe convém, as noções de diferença e igualdade, rante todo o período que estivemos juntos foi repetida em ou a heterogeneidade da proposta toma uma certa todas as apresentações. Samba composto e cantado por ousadia. Repetia-se este canto como num ritual, era a Regina Serrão,6 componente do grupo. A música de tra- marca do grupo, este canto, este cantar, este encantar. balho do primeiro CD – intitulado Saúde Musical – era uma música protesto, manifesto, expressão e apelo. Esta não foi a única música composta pelos com- MOVIMENTOS DO RITORNELO ponentes do grupo, mas era a mais executada nas apre- O ritornelo possui três movimentos: territoria- sentações e se repetia como uma marca que expressa- lização, desterritorialização e reterritorialização. Ele va o ideário do grupo. Na letra desta música busca-se os torna simultâneos ou os mistura: ora, ora, ora. As uma aceitação, mas seria a aceitação de uma diferen- forças do caos se organizam, cria-se uma ordem, um ça? Uma tentativa de igualdade “somos bem pareci- traço de ordenação de um espaço-tempo. Mas esta dos...” ou um protesto contra os fluxos de segregação ordem não é homogênea, há algo de desorganização. ao usuário de serviço de saúde mental? Esta composi- O território abriga em si forças cósmicas de abertura. ção sintetiza sem homogeneizar a idéia, sem fechar, Em algum momento insurge a improvisação, o lançar- uma voz, várias vozes, uma polifonia. Como a própria se, no qual as forças presentes movimentam-se des- música incita “ você não tem o direito de me querer territorializando as antes instituídas. Forças de trans- aprisionado”, um exercício de buscar o significado da formação. Cria-se, modifica-se a ordem acessando as música nos parece enfraquecedor de sua potência, não forças do caos. Mas este movimento de desconstrução, buscamos uma representação. em algum espaço-tempo, reterritorializa-se. Forças O grupo surgiu no contexto da luta antimani- centrífugas e centrípetas redimensionam e propõem comial, uma luta que não se detém em acabar com os outra organização, ou melhor, outro arranjo, que não é muros dos hospícios, mas acabar com o enclausu- mais o anterior, mas contém algo dele. ramento da desrazão, acabar com o instituído da ver- O ritornelo é o próprio princípio gerador de movi- dade sobre a loucura e acabar com a lógica antagônica mento, através das composições de forças dos fluxos que propõe uma segregação sobre uma forma de pen- desejantes. O ritornelo não é outra coisa senão um sar a realidade e de vivê-la que não seja uniforme, movimento de retorno da diferença. O desejo manifes- formatada, extensiva. ta-se em ciclos, em ondas, com velocidades e intensi- Deleuze e Guattari buscam na música o conceito dades diferentes. O ritornelo é o desejo que flui. “As de ritornelo para pensar o fenômeno de territoria- forças da desordem (as do caos), as forças terrestres lização. O ritornelo pode ser definido como: todo con- (que implicam uma marcação territorial) e as forças junto de matérias de expressão que traça um território, cósmicas; tudo isso se afronta e concorre no ritornelo” e que se desenvolve em motivos territoriais, em pai- (Deleuze e Guattari, 1997, p.118). Nesse pulsar de um sagens territoriais (há ritornelos motores, gestuais, manifesto, ouve-se uma sonoridade impune, um pro- ópticos, etc.). Num sentido restrito, falamos de ritor- testo que seduz. Um canto de pássaro que marca seu PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007
  • 9. Musicoterapia e saúde mental ... 147 território e é conhecido por este canto. Não há um dizer Latour, B. (1994). Jamais fomos modernos. São Paulo: Ed. 34. sobre a loucura que a totalize e quanto a arte, há o escape, Moraes, M. (2006). A ciência como rede de atores: ressonâncias filosóficas [online]. Hist. ciênc. saúde-Manguinhos, 11, 2, pp. o escape da desrazão, talvez, por vezes, aprisionada ou 321-333, maio/ago. 2004 [citado 09 de março 2006]. Disponí- contida em formas de produção de subjetividade capi- vel em: <http://www.scielo.br/scielo.php>. talista. Cantar a diferença, repetir a diferença, brincar Moraes, M. (1998). Por uma Estética da Cognição: A Propósito com a diferença, desejar a diferença, produzir a dife- da Cognição em Latour e Stengers. Informare, 4, 1, 49-56. rença, diferenciar a produção... esta foi a ciranda na Neves, C.E.B. (2002). Interferir entre desejo e capital. [Tese de construção do grupo musical Mágicos do Som. Doutorado], Departamento de Psicologia Clínica, PUC-SP, São Paulo. Pelbart, Peter P. (1993). A nau do tempo-rei: 7 ensaios sobre o CONCLUSÃO tempo e a loucura. Rio de Janeiro: Imago. Pelbart, Peter P. (1998). Da clausura do fora ao fora da clausura- O grupo musical Mágicos do Som produziu um loucura e desrazão. São Paulo: Brasiliense. diferencial nas práticas muscoterápicas tradicionais. Pedro, R. M. L. R. (2003). Reflexões sobre os processos de Voltou-se sobre os muros manicomiais na busca de subjetivação na sociedade tecnológica. In: Machado, J. A. S. substituí-los por outras formas de atuação, ampliou o (Org.). Trabalho, economia e tecnologia: novas perspectivas para sociedade global. São Paulo: Práxis. setting ou criou outros settings. Uma dinâmica de fun- Rauter, C. (1998). Clínica do esquecimento: construção de uma cionamento que acreditamos permite-nos inventar no- superfície. Tese (Doutorado). PUC São Paulo, São Paulo. vos modos de trabalhar em Musicoterapia, apostando Serres, M. Filosofia Mestiça. (1993): Nova Fronteira. nos coletivos heterogêneos e nas linhas que forem se Zourabichivili, F. (2004). O vocabulário de Deleuze. Rio de Ja- desenhando a partir das experimentações. Expandir a neiro: Relume Dumará. clínica musicoterápica ou produzir desvios a partir de Notas: fluxos inesperados, construindo settings além de con- 1 Várias pessoas compuseram o grupo musical Mágicos do Som no período sultórios de saúde mental. Uma clínica no espaço da de 1997 à 2003, são eles: José Antônio Pátio Filho, Maria Lúcia Jacinto, Regina Lúcia Serrão, Jorge Luiz Silva, Josias Moraes, Hélio Cirineu, Se- vida ou um espaço de vida na clínica. bastião Venâncio, Rosiléia Cândido, Marco Antônio da Costa Marques, A construção mestiça da música, a nossa experi- Carlos Nilson Mendes, Wanderley Brasil, Gilmar, Aridéia, Rinaldo, Márcia Ferreira, Marco Aurélio, Sônia Maria, Vera Gonçalves. E também Dona mentação mestiça no grupo, permitiram-nos uma mis- Cida, Jurema e Fernanda (familiares) e Raquel Siqueira (musicoterapeuta). 2 Os profissionais de nível médio que desenvolviam oficinas artesanais eram tura capaz de transgressões e ousadias. Desvios, pos- chamados de oficineiros. sibilidades de lidar com os grupos sem a segmen- 3 Conforme Moraes (1998) a noção de rede “não remete a nenhuma entidade fixa, mas a fluxos, circulações, alianças, movimentos. A noção de rede de taridade das hierarquias enrijecidas dos modelos atores não é redutível a um ator sozinho nem a uma rede. Ela é composta de manicomiais. Um dos efeitos da produção do Mágicos séries heterogêneas de elementos, animados e inanimados conectados, agen- ciados. Por um lado, a rede de atores deve ser diferenciada dos tradicionais do Som para as práticas musicoterápicas foi a aposta atores da sociologia, uma categoria que exclui qualquer componente não- nos encontros das multiplicidades e nas produções de humano. Por outro lado, a rede também não pode ser confundida com um tipo de vínculo que liga de modo previsível elementos estáveis e perfeita- mais mestiçagens como artifício para o diferir como mente definidos, porque as entidades da quais ela é composta, sejam elas naturais, sejam sociais, podem a qualquer momento redefinir sua identida- potência de vida. Potência de criação, possibilidades de e suas mútuas relações, trazendo novos elementos para a rede. Neste de inventar modos de trabalhar, criar modos de estar e sentido, uma rede de atores é simultaneamente um ator cuja atividade con- siste em fazer alianças com novos elementos, e uma rede que é capaz de atuar no mundo, convivendo com as produções hete- redefinir e transformar seus componentes”. 4 Abordaremos este conceito mais adiante, aqui referimo-nos à Deleuze quan- rogêneas. E que não se restrinja este modo de pensar do escreve: “Lembremo-nos a idéia de Nietzsche: o eterno retorno como à relação dos usuários dos serviços de saúde mental pequena cantilena, como ritornelo”. (1997, p. 159-160) 5 Agradecemos a Rosana Saldanha Silva cuja parceria permitiu que escrevês- apenas em suas comunidades. Que estes e outros mo- semos este trecho do artigo que versa sobre o conceito de ritornelo. dos de trabalhar possam ser utilizados em outras arti- 6 Preconceito: Autora: Regina Serrão. Preconceito é besteira/Seja de raça ou de cor/Seja de perto ou de longe/O que vale é o amor/Essa idéia afasta, culações, outros agenciamentos, outros encontros de separa, ignora/Causa dor e sofrimento/Só o sabe quem o sente/Dói bastante dentro da gente/ Não somos perigosos/Muito menos desumanos/Temos di- multiplicidades substantivadas que somos nós. A pro- reito à vida/Temos direito ao amor/Podemos parecer diferentes/Podem nos pulsão Mágicos do Som ainda reverbera. O pulso ain- achar esquisitos/Com paciência mostramos/Que somos bem parecidos/O amor é uma virtude/Preconceito um pecado/Você não tem o direito/De me da pulsa. querer aprisionado. Autoras: Raquel Siqueira da Silva – Psicóloga. Especialista em Musicoterapia pelo REFERÊNCIAS Conservatório Brasileiro de Música. Coordenadora do curso de graduação em Musicoterapia do Conservatório Brasileiro de Música. Mestranda no Progra- Chagas, M. (2001). Musicoterapia desafios da interdiscipli- ma de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. naridade entre a modernidade e a contemporaneidade. [Dis- Marcia Moraes – Doutora em Psicologia Clínica, PUC-SP. Professora do Pro- sertação de mestrado], EICOS, Universidade Federal do Rio grama de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. E-mail: mmoraes@vm.uff.br de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ. Deleuze, G., & Guattari, F. (2004). Mil platôs: capitalismo e Endereço para correspondência: RAQUEL SIQUEIRA DA SILVA esquizofrenia (3ª ed.) (Vol. I). São Paulo: Ed. 34. Conservatório Brasileiro de Música – Centro Universitário Deleuze, G., & Guattari, F. (1997). Mil platôs, capitalismo e Av. Graça Aranha, 57, 12º andar – Centro esquizofrenia (Vol. 4). São Paulo: Ed. 34. CEP: 20030-002, Rio de Janeiro, RJ, Brasil Fones: (21) 9631-9409 / (21) 2610-0827 Deleuze, G., & Parnet, C. (1998). Diálogos. São Paulo: Escuta. E-mail: raqsiqueira2000@yahoo.com.br PSICO, Porto Alegre, PUCRS, v. 38, n. 2, pp. 139-147, maio/ago. 2007