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  1. 1. AS ORIGENS E AS FRONTEIRAS DA FILOSOFIA O reconhecimento de Nietzsche e Ricouer sobre os limiares do pensamento filosófico
  2. 2. (1873) A filosofia na era Friedrich Nietzsche LI trágica dos gregos
  3. 3. Os gregos souberam começar no momento propício, e esse aprendizado, o de saber quando se faz necessário começar a filosofar, eles compreenderam com mais clareza do que qualquer outro povo. Pois não começaram na miséria como atestam alguns, que derivam a filosofia do desgosto. Começaram antes afortunados, no momento de sua viril maturidade, na cálida alegria robusta e vitoriosa idade adulta. Que os gregos tenham filosofado nesse momento nos ensina tanto algo sobre o que a filosofia é e o que deve ser, como sobre os próprios gregos (p. 27-28).
  4. 4. Pois se empenharam em apontar o quanto os gregos podiam encontrar e aprender no Oriente estrangeiro, e quantas coisas eles realmente de lá trouxeram. Com certeza era um espetáculo curioso observar os pretensos mestres do oriente e os possíveis alunos da Grécia lado a lado, exibindo Zoroastro ao lado de Heráclito, os hindus ao lado dos eleatas, os egípcios ao lado de Empédocles, ou mesmo Anaxágoras entre os judeus e Pitágoras entre os chineses… deixemo-nos persuadir pela ideia como um todo, contanto que não nos molestassem com a consequência de que com isso a filosofia na Grêcia seria exclusivamente importada, e não cultivada em solo natural e doméstico, e que, sendo algo estrangeiro, teria antes arruinado os gregos do que trazido benefícios (p. 28).
  5. 5. Nada é mais tolo do que sugerir uma formação autóctone para os gregos. Muito pelo contrário: eles absorveram toda a formação que vivia em outros povos, sendo justamente por isso que chegaram tão longe — porque souberam arremessar para ainda mais longe a lança a partir do ponto onde outro povo a havia deixado cair. São admiráveis na arte do aprendizado frutífero; e, assim como eles, nós devemos aprender com nossos vizinhos para a vida, e não para o conhecimento erudito, utilizando todo o aprendizado como suporte do qual podemos impulsionar-nos para o alto, mais alto do que o próprio vizinho (p. 28-29)
  6. 6. Para Nietzsche, portanto, as perguntas acerca das origens da filosofia são totalmente indiferentes, pois a busca por uma concepção mais pura de saber não levaria aos primeiros princípios, mas à barbárie. Para ele, o que os gregos nos deixaram de paradigma foi uma postura que nos poupava de precisar inventar uma origem autóctone para a ciência e para a filosofia. Eles são os inventores típicos das cabeças filosóficas porque, desde o início, aprenderam a preencher, reforçar, elevar e purificar elemento adquiridos que, posteriormente, lhes acrescentam significado.
  7. 7. (1952) Filosofia e Profetismo I Paul Ricoeur LI
  8. 8. Alguns livros, de tamanhos e importâncias desiguais, estão reunidos por algo diferente do acaso; as mesmas perguntas lhes foram feitas: o que é a filosofia? Onde estão as suas fronteiras? O que qualifica um modo de pensamento e de expressão como filosófico? Essas interrogações precedem e preparam uma pergunta mais atual que será examinada posteriormente: o que é filosofar hoje?... Esta primeira crônica parte de alguns trabalhos dedicada a pensadores e a obras manifestadamente situadas na periferia, até mesmo, fora da filosofia, mas que geraram filosofia por atos ulteriores que chamaremos de “retomada”, através de uma “retomada” da não-filosofia pela filosofia... ao descobrir neles alguma das fontes não-filosóficas da filosofia talvez tenhamos acesso, paradoxalmente, às condições existenciais da autonomia filosófica; pois, para começar por si, a filosofia talvez deva ter pressupostos que ela repõe em questão e assumida criticamente em seu próprio ponto de partida (p. 83-84).
  9. 9. É justo interrogar primeiramente o livro de [André] Neher sobre Amós e o profetismo judaico... sobretudo o profeta de Israel se oferece imediatamente como a figura que se opõe polarmente à do “filósofo”, tal como foi modelada pela física jônica, pela matemática pitagórico e pale sofística ateniense... Neher tem o cuidado de reenraizar o profetismo em seu contexto geográfico, histórico e cultural, e de situá-lo no interior da relação não-filosófica por excelência: a Aliança de Iahweh com Israel a berith israelita… até mesmo o fenômeno histórico, o profetismo judaico, é ao mesmo tempo um “tipo" de não- filosofia e uma “fonte" de interrogação filosófica (p. 84-85).
  10. 10. Em sua "eleição", primeiramente, o profeta resiste a qualquer confusão com o "filósofo"; certamente, Sócrates obedecia ao seu demônio e Platão não nasceu para a filosofia senão tomado pela morte de Sócrates. Todavia, o que permanece especificamente hebraico é em primeiro lugar o seguinte: o profeta é arrancado dele mesmo por um Deus que o investe e se anuncia como uma ameaça de destruição; ele é o homem, não da liberdade, mas da necessidade... para esse homem vinculado, não há lugar para um setor laico da existência, para uma moral e uma política autônomas. Nem o problema do cidadão, nem o do cientista, nem o do sábio estão nesta via (p. 86-87).
  11. 11. Outro exemplo: também dissemos que o problema da ciência não era judaico; isso é verdade... A Grécia intitulou a “vidência" do lado da epistéme sob a influência dos jônicos, dos pitagóricos, de Demócrito e de Sócrates. Até que ponto, em contrapartida, essa problemática não mascarou o conjunto dos problemas da escolha que a "existência bíblica” põe radicalmente? Platão pensa a essência, e Deus além da essência; o judeu põe a existência na frente de Deus. Sócrates projeta a falta no plano da epistéme e a degrada a um erro; Amós vê diante dele a iminência do Nada, e confia ao Dia de Deus o Vão, a vanidade do mau. Todo o helenismo procura a salvação no conhecimento (Platão, singularmente, pela matemática e pela dialética); Amós compreende o "conhecimento" com base no modelo da relação conjugal; a sua justiça não tem modelo geométrico ou musical (p. 89).
  12. 12. Último exemplo: a sabedoria grega é inteiramente regulada pela idéia de natureza, de physis, ensinada pelos jônicos em Atenas. Esta noção jamais foi elaborada pelos judeus, nem como estrutura científica, nem como modelo ético. Em compensação, os judeus, ao meditar sobre uma história teológica, centraram a reflexão sobre a ligação entre criação e tempo histórico... a Criação, que interrompe rapidamente toda teogonia e toda cosmogonia; a familiaridade com o espaço — atestada pelas astrologias, os ritos agrários, as metafísicas caldéia, fenícia, cananéia e também egípcia — era superada de maneira diversa da invenção da geometria: pelo reino do Acontecimento, ele mesmo garantido por uma história excepcional. Assim, a noção de Criação nasceu da de Aliança, como a relação fundamental que serve de horizonte para a berith de Noé e de Israel... Platão descobre a Idéia na contemplação atemporal; Amós descobre a onipresença no passado da Aliança, no presente da eleição, no futuro do Dia de Deus. (p. 89-90).
  13. 13. A partir do exame de trabalhos dedicados a pensadores e obras situados nas fronteiras e periferias da filosofia grega — os vizinhos que Nietzsche havia mencionado — Ricoeur acredita que é possível lançar luz, paradoxalmente, às condições existenciais da autonomia filosófica. Mais do que isso, com um interesse específico para nós, também podemos nos perguntar se é possível filosofar a partir da aliança que Deus fez com seu povo em Israel, da sua eleição, do anuncio e da esperança escatológica? Em resumo, Nietzsche e Ricouer deixam em aberto a pergunta se o tipo de reflexão que veio dos gregos pode se descolar de seu próprio particularismo original e assumir uma catolicidade mínima para fazer parte de outro particularismo específico: o de Israel — e, em caso negativo, se existe uma alternativa de sabedoria para o povo da aliança.
  14. 14. O FIM DA FILOSOFIA E A TAREFA DO PENSAMENTO Um diálogo entre Hadot, Dooyeweerd e Heidegger a respeito da filosofia como um exercício preparatório para a sabedoria
  15. 15. Herman Dooyeweerd (1960) Raízes da Cultura Ocidental LI
  16. 16. parece que na discussão sobre esse problema de importância fundamental, nenhum método foi encontrado para revelar a verdadeira natureza subjacente a essa diferença de opinião. O resultado disso é que a discussão, apesar de todas as boas intenções daqueles que participam dela, continuam a demonstrar o caráter de um solilóquio, um monólogo de cada participante em si, uma vez que ela não chega realmente a um verdadeiro diálogo, uma discussão genuína em que aqueles que participam contribuem de fato para o objetivo mútuo de obter um esclarecimento íntegro do que é entendido (p. 17).
  17. 17. Devemos simplesmente esperar que duas opiniões sejam colocadas em pauta e que se dê a cada lado a oportunidade de apresentar uma série de argumentos a favor do seu ponto de vista? Parece-me que, desse modo, pouco ou nada se alcança. Esse tipo de debate permanece superficial. Os argumentos de ambos os lados só aparentemente confluem, pois os pontos de partida mais profundos, os que determinam os argumentos, permanecem ocultos (p. 18).
  18. 18. (1995) O que é a Pierre Hadot LI Filosofia antiga?
  19. 19. Se agora falamos de “filosofia” é porque os gregos inventaram a palavra philosophia, que significa “amor pela sabedoria", e porque a tradição da philosophia grega foi transmitida à Idade Média e posteriormente aos tempos modernos. Trata-se de apropriar-se do fenômeno em sua origem, sempre tendo consciência de que a filosofia é um fenômeno histórico que teve início no tempo e evoluiu até nossos dias. Tenho a intenção de mostrar a diferença profunda que existe entre a representação que os antigos faziam da philosophia e a representação que se faz habitualmente da filosofia em nossos dias, elo menos na imagem transmitida aos estudantes por conta das necessidades do ensino universitário (p. 16-17).
  20. 20. Eles têm a impressão de que todos os filósofos estudados esforçaram-se sucessivamente para inventar, cada um de uma maneira original, uma nova construção sistemática e abstrata, destinada a explicar, de uma maneira ou de outra, o universo; ou, pelo menos, caso se trate de filósofos contemporâneos, que eles procuraram elaborar uma nova discussão sobre a linguagem. Dessas teorias, que se poderia denominar “filosofia geral”, resultam, em quase todos os sistemas, doutrinas ou críticas da moral que extraem as consequências, para o homem e para a sociedade, dos princípios gerais do sistema e convidam, a partir disso, a fazer uma escolha de vida, a adotar uma maneira de comportar-se. Isso não entra na perspectiva do discurso filosófico (p. 17).
  21. 21. Penso que essa representação é um erro caso seja aplicada à filosofia da Antiguidade. Evidentemente, não se trata de negar a extraordinária capacidade dos filósofos antigos de desenvolver uma reflexão teórica sobre os problemas mais sutis da teoria do conhecimento, da lógica ou da física. Contudo, essa atividade teórica deve ser situada em uma perspectiva diferente da que corresponde à representação corrente que se faz da filosofia. Em primeiro lugar, ao menos desde Sócrates, a opção por um modo de vida não se situa no fim do processo da atividade filosófica, como uma espécie de apêndice acessório, mas, bem ao contrário, na origem, em uma complexa interação entre a reação crítica a outras atitudes existenciais, a visão global de certa maneira de viver e de ver o mundo, e a própria decisão voluntária; e essa opção determina até certo ponto a doutrina e o modo de ensino dessa doutrina. O discurso filosófico tem sua origem, portanto, em uma escolha de vida e em uma decisão e essa escolha jamais se fazem na solidão; precisamente, uma escola filosófica corresponde, opção existencial, e não o contrário (p. 17).
  22. 22. Em segundo lugar, essa comunidade, em uma palavra, de uma "escola" filosóficare houve filosofia nem filósofos fora de um grupo, de uma e antes de tudo, a uma maneira de viver, a uma escolha de vida, a uma opção existencial, que exige do indivíduo uma mudança total de vida, uma conversão de todo o ser, e, finalmente, a um desejo de ser e de viver de certa nesse caso maneira. Essa opção existencial implica, por seu turno, certa visão de mundo, e será tarefa do discurso filosófico revelar e justificar racionalmente tanto essa opção existencial como essa representação do mundo. O discurso filosófico teórico nasce, dessa opção existencial inicial e reconduz, à medida do possível ou por sua força lógica e persuasiva, à ação que quer exercer sobre o interlocutor, ele incita mestres e discípulos a viver realmente em conformidade com sua escolha inicial ou, ainda, conduz de alguma maneira à aplicação de um ideal de vida (p. 180.
  23. 23. A renovação dos estudos historiográficos empreendida por Hadot se dá quando ele nos mostra que o discurso filosófico deve ser compreendido na perspectiva do modo de vida. A filosofia antiga, que aprendeu muitíssimo dos seus vizinhos do antigo oriente próximo, era um exercício preparatório para a sabedoria. Trata-se de uma reflexão voltada para às formas de vida e todo o esquecimento dessa natureza contemporaneamente pelos exercícios escolares da filosofia — até mesmo os cristãos — deve ser encarado como um reducionismo empobrecedor.
  24. 24. Martin Heidegger (1964) O fim de filosofia LI e a tarefa do pensamento
  25. 25. Em que medida entrou a Filosofia, na época presente, em seu estágio final? Filosofia é Metafísica. Esta pensa o ente em sua totalidade — o mundo, o homem, Deus — sob o ponto de vista do ser, sob o ponto de vista da recíproca imbricação do ente e ser. A Metafísica pensa o ente enquanto ente ao modo da representação fundadora. Pois o ser do ente mostrou-se, desde o começo da Filosofia, e neste próprio começo, como o fundamento (arché, aítion, princípio)… quando falámos do fim da Filosofia queremos significar o acabamento da Metafísica. (p. 269-270).
  26. 26. lá, onde a Filosofia levou sua questão até o saber absoluto e à evidência última, oculta- se justamente algo que não pode ser mais pensado pela Filosofia como questão que lhe compete. Mas o que é que permanece impensado, tanto na questão da Filosofia como em seu método? A dialética especulativa é um modo como a questão da Filosofia chega a aparecer a partir de si mesma para si mesma, tornando-se assim presença. Um tal aparecer acontece necessariamente em uma certa claridade. Somente através dela pode mostrar-se aquilo que aparece, isto é, brilha. A claridade, por sua vez, porém, repousa numa dimensão de abertura e de liberdade que aqui e acolá, de vez em quando, pode clarear-se. A claridade acontece no aberto e aí luta com a sombra. Em toda parte, onde um ente se presenta em face de um outro que se presenta os apenas se demora ao seu encontro… impõe-se ao pensamento a tarefa de atentar para a questão que aqui é designada como clareira. (p. 274-275).
  27. 27. Aqui é nomeada a Aletheia, o desvelamento… O que o desvelamento, antes de qualquer outra coisa, garante, é o caminho no qual o pensamento persegue a este único e para o qual se abre… A clareira garante, antes de tudo, a possibilidade do caminho em direção da presença e possibilita a ela mesma o presentar-se… Somente o coração silente da clareira é o lugar do silêncio do qual pode irromper algo assim como a possibilidade do comum- pertencer de ser e pensar, isto é, a possibilidade do acordo entre presença e apreensão… Sem a experiência prévia da Aletheia como a clareira, todo discurso sobre a seriedade ou o descompromisso do pensamento permanece infundado. De onde recebeu a determinação platônica da presença como idéa sua legitimação? (p. 277).
  28. 28. Herman Dooyeweerd (1960) Raízes da Cultura Ocidental LI
  29. 29. Enquanto esses pontos de partida não forem colocados sob uma luz clara e nítida, e confrontados entre si, o contato real entre eles será simplesmente impossível. É também plausível que aqueles que defendem seus pontos de vista não tenham consciência dos seus próprios pontos de partida mais profundos. Nesse caso, a discussão inteira nunca fluirá para o diálogo, e o ouvinte permaneceria no escuro sobre os princípios básicos que estão em jogo… Pode ser verdadeiro que um seguimento do público leitor prefira não se ocupar dos motivos mais profundos da vida e busque discussão apenas para obter entretenimento, em vez de discernimento… há também aqueles que preferem evadir-se e buscam algum tipo de “diversão” (p. 18).
  30. 30. Seja como for, a “renovação espiritual” tornou-se uma palavra de ordem para o período do pós-guerra. Nós a adoraremos prontamente. Para agir com seriedade, no entanto, não podemos nos contentar com a superficialidade, mas procurar a renovação de fundo. Para que o “diálogo” do pós-guerra possa contribuir para a renovação espiritual da nossa nação, ele deve penetrar nessa dimensão profunda da vida humana onde uma pessoa não pode mais fugir de si mesma. É precisamente ai que devemos chegar para desmascarar as diversas visões sobre a importância e o alcance da antítese. Apenas quando as pessoas não tiverem mais nada que esconder de si próprias e dos seus semelhantes na discussão é que o caminho para o diálogo que procure mais convidar do que repelir se abrirá (p. 19).
  31. 31. Martin Heidegger (1964) O fim de filosofia LI e a tarefa do pensamento
  32. 32. Estas questões, das quais a Filosofia tão estranhamente se abstém, nem mesmo podem ser colocadas por nós, enquanto não tivermos experimentado o que Parménides deveu experimentar: a Aletheia, o desvelamento. O caminho que conduz até lá separa-se da estrada em que vagueia a opinião dos mortais. A Aletheia não é nada de mortal, assim como não o é também a própria morte… A Aletheia é, certamente, nomeada no começo da Filosofia, mas não é propriamente pensada como tal pela Filosofia nas eras posteriores… Fique esta questão entre como tarefa ao pensamento. O pensamento deve considerar se é capaz de levantar esta questão como tal, enquanto pensa filosoficamente (p. 278).
  33. 33. Mas não é isto tudo mística infundada ou mitologia de ma qualidade; em todo caso funesto irracionalismo e negação da Ratio? Respondo com uma pergunta: Que significa ratio, nous, noein, entender? Que significa razão e princípio de todos os princípios?… A racionalização técnico-científica que domina a era atual justifica-se, sem dúvida, de maneira cada vez mais surpreendente através de sua inegável eficácia. Mas tal eficácia nada diz ainda daquilo que primeiro garante a possibilidade do racional e irracional. A eficácia demonstra a retitude da racionalização técnico-científica. Esgota-se, no entanto, o caráter de revelado daquilo que é, na demonstrabilidade? Não tranca a insistência sobre o demonstrável justamente o caminho para aquilo que é? Talvez exista um pensamento mais sóbrio do que a corrida desenfreada da racionalização e o prestígio da cibernética que tudo arrasta consigo. Justamente esta doida disparada é extremamente irracional… Se perguntarmos pela tarefa deste pensamento, então será questionado primeiro, não apenas este pensamento, mas também o próprio perguntar por ele. Perante toda a tradição da filosofia isto significa (p. 279).
  34. 34. O PROJETO DE UMA FILOSOFIA HEBRAICA O lugar paradigmático da sabedoria bíblica no fim da filosofia e para a tarefa do pensamento
  35. 35. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  36. 36. A tradição bíblica é uma tradição intelectual… Os textos e as comunidades que praticaram suas diretrizes transmitiram uma tradição intelectualmente rigorosa, singularmente capaz de transformar um povo inteiro em um grupo astuto e perspicaz. E assim, foi transmitida enquanto textos, rituais e comunidade — a filosofia como uma forma de ser um povo! Estudiosos do antigo Oriente Próximo geralmente mantiveram esse truísmo próximo de seus coletes por duas gerações ou mais: a Bíblia Hebraica / Antigo Testamento contém seu próprio estilo filosófico distinto em associação com as filosofias da Grécia e de Roma. Mais recentemente, um grupo de estudiosos se convenceu da capacidade intelectual das Escrituras Hebraicas, organizando conferências e publicando um número crescente de livros. Mas por alguma razão de sociologia acadêmica, muitos estudiosos da Bíblia nunca souberam que os antigos estudiosos do Oriente Próximo se sentiam assim… Apenas a ideia de um estilo filosófico hebraico simultaneamente quebra vários paradigmas amplamente confiáveis sobre: 1. o que conta como filosofia; 2. a natureza e o propósito da literatura bíblica; 3. como as sociedades têm defendido noções abstratas de realidade (p. 1).
  37. 37. Este livro não é uma tentativa de pronunciar a única filosofia das Escrituras Cristãs. Em vez disso, sugiro que a literatura bíblica pode representar um estilo filosófico completo, distinto e coerente. E esse estilo hebraico muitas vezes passou despercebido pelos filósofos comparativos modernos e meus colegas religiosos, por razões que eu só poderia supor e que os sociólogos poderiam ser capazes de enumerar. Argumentarei por que a Bíblia hebraica e o Novo Testamento traem um impulso filosófico semelhante ao encontrado no helenismo, mas não no Egito ou na Mesopotâmia, executado com um método filosófico discreto para seus próprios objetivos… examinarei os mundos especulativos dos vizinhos de Israel, Mesopotâmia e Egito, o que esclarecerá por que os estudiosos do antigo Oriente Próximo geralmente pensavam em Israel como mais um par filosófico da Grécia e não do Oriente Próximo. Pretendo mostrar como a influência do helenismo no judaísmo pode ter dobrado esse estilo filosófico hebraico ao ponto da ruptura, se os autores do Novo Testamento não o tivessem recuperado em um robusto movimento de recuperação ad fontes. No final, Paulo - sim, até mesmo Paulo - pode estar se inclinando para sua herança filosófica hebraica enquanto simplesmente vestido com as vestes folgadas da retórica romana e da filosofia helenística. Finalmente, darei exemplos de como vários tópicos filosóficos podem ser abordados, desenvolvidos e defendidos dentro e através dos muitos gêneros da literatura bíblica (p. 4).
  38. 38. Se existe um estilo filosófico nos próprios textos bíblicos, a tarefa do pensamento é rastrear as camadas arqueológicas do mesmo e definir o que é característico nele. Essa é uma grande afirmação para a história das ideias no ocidente e oriente. Com ela, espera-se estimular a imaginação acadêmica, eclesiástica e pessoal para construir algo chamado "filosofia hebraica” — que pode, então, passar a ser testada no mundo da vida.
  39. 39. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  40. 40. Embora eu queira traduzir conceitos filosóficos das Escrituras Cristãs para as discussões contemporâneas, não presumo que nossos esquemas ou métodos filosóficos atuais sejam suficientes ou superiores. Por exemplo, argumentarei que o esquema bíblico para a verdade e seus efeitos epistêmicos descreve melhor as realidades do conhecimento hoje e se ajusta mais apropriadamente à epistemologia científica moderna do que a visão platônica ou a chamada Visão Padrão do conhecimento hoje. Portanto, não pretendo presumir uma visão progressista ou evolucionista da filosofia. Por essa conta, então, não somos ancestrais de filósofos tornando-se filósofos evoluídos (p. 11-12).
  41. 41. Dru Johnson (2015) Scripture’s Knowing LI
  42. 42. Filosofia é a disciplina acadêmica tradicionalmente preocupada com os processos que produzem as formas mais confiáveis de conhecimento. Na maioria das vezes, a lógica é apresentada como a melhor maneira de justificar nossas crenças sobre o mundo… Surpreendentemente, o processo de raciocínio das Escrituras geralmente não envolve coisas chamadas "crenças", que então justificamos usando um cálculo lógico, em vez de fornecer fatos para inserir em fórmulas lógicas (por exemplo, Se todos os homens são mortais e Sócrates é um homem, então Sócrates é mortal), as Escrituras Hebraicas e Cristãs estão mais frequentemente preocupadas em tornar os israelitas capazes de ver o que está sendo mostrado a eles. O Deus de Israel tenta mostrar ao faraó do Êxodo que ele e seu panteão egípcio não estão realmente no controle da fertilidade, criação, campos, rebanhos e muito mais, por exemplo. Ao conduzir o Egito e Israel por esse processo, o Deus de Israel está tentando mostrar ao Egito e a Israel algo que eles não podem ver, a menos que se submetam ao processo de conhecimento (p. xii).
  43. 43. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  44. 44. Demonstrar que existe um estilo filosófico hebraico requer que eu pise no pé de meus colegas de estudos bíblicos, estudos do antigo Oriente Próximo, filosofia e teologia. Isso presumivelmente exigiria certa competência (ou insanidade) de minha parte e caridade da parte do leitor… entre os filósofos, isso parece uma erudição bíblica; entre os teólogos, filosofia; entre os estudiosos da Bíblia, teologia. Nunca pertencendo totalmente a uma guilda, este projeto mostra por que esforços interdisciplinares como este são vitais para a compreensão do mundo intelectual hebraico e até mesmo do nosso mundo hoje. O objetivo é criar uma discussão vigorosa que eu acredito que vai demorar muito — para propor e demonstrar suficientemente uma visão robusta da filosofia hebraica abrangendo o que agora chamamos de Escritura Cristã (p. 18).
  45. 45. Eu uso o termo "filosofia hebraica" para me referir ao estilo filosófico da Torá que segue para o resto da Bíblia Hebraica e do Novo Testamento. Certamente os estudiosos bíblicos perguntarão: Por que não chamar isso de "filosofia semítica" ou usar algum outro termo, como "israelita", "judeu" ou "judaica", para modificar a filosofia? O termo "hebraico" refere-se apenas ao idioma e às pessoas de quem a Bíblia Hebraica descende. Claro, esses textos chegam até nós no início em grego (isto é, a LXX), tão cedo quanto em hebraico. Mas, o que é mais importante, os textos bíblicos hebraicos não têm traços de helenismo no conteúdo. Eu poderia ter escolhido "filosofia israelita" ou "filosofia judaica", que sinaliza o problema com qualquer termo que eu uso. Cada termo carrega suposições históricas e complexidades que às vezes são perpendiculares ao que Estou defendendo aqui (p. 46).
  46. 46. O termo hebraico, com as questões que levanta e os problemas implícitos, me dá uma designação adequada para um estilo filosófico anterior ao helenismo e distinto de outras escolas especulativas do antigo Oriente Próximo. Este estilo não pertence necessariamente aos repatriados de Judá; embora se pudesse argumentar que eles tiveram suas mãos editoriais finalizadoras sobre esses textos. Talvez pudéssemos considerá-la filosofia judaica nesse sentido. Mas o Judaísmo que surge do Período do Segundo Templo como uma religião irmã ao lado do Cristianismo torna o termo "judeu" muito complicado para os meus propósitos. "Filosofia israelita" parece ignorar a proveniência judaica desses textos. "Semita" tem muito conteúdo para ser útil, pois incluiria efetivamente árabes, assírios e muito mais. E assim, o termo "filosofia hebraica" terá que servir. "O hebraico” oferece, pelo menos, uma maneira de vincular minimamente a coleção de textos existente com a linguagem que remonta ao décimo século Antes da Era Comum e o grupo de pessoas em geral associado a ambos (p. 47).
  47. 47. O QUÊ FAZ DA SABEDORIA HEBRAICA FILOSÓFICA? Porque a filosofia não está limitada aos pensadores gregos e como eles nos ajudam a enxergar a sabedoria hebraica com novos olhares
  48. 48. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  49. 49. O ceticismo em relação à premissa exclusiva — de que a Bíblia contém filosofia — tem sido a pedra de tropeço mais proeminente e recorrente nessas conversas. Dois filósofos judeus, Shalom Carmy e David Shatz, resumem bem o sentimento: "Muito do que a Bíblia tem a dizer sobre assuntos de importância filosófica manifesta parece primitivo para sensibilidades filosóficas posteriores." Os filósofos podem ser céticos por um bom motivo: eles precisam ver para si próprios o conteúdo rigorosamente filosófico demonstrado nas Escrituras… Podemos detectar um estilo filosófico por meio do uso da lógica, do rigor, do raciocínio de segunda ordem e da defesa de tal raciocínio. Nem todos os escritos acadêmicos na Antiguidade exploram noções de segunda ordem e nem todo raciocínio defende um estilo particular de pensamento. Por isso, se pensadores helenísticos como Sêneca se enquadram na filosofia — o mesmo acontece com Deuteronômio (p. 24).
  50. 50. Apesar das diferenças de escopo e estrutura, o trabalho de Yoram Hazony cria o contexto para este livro atual… sua tese básica é que a Bíblia hebraica tem impulsos filosóficos que não devem mais ser ignorados. Primeiro, Hazony lançou o desafio contra a suposição ingênua de que a Bíblia Hebraica é uma obra de revelação. O pensamento é assim porque os filósofos consideram tacitamente os textos bíblicos como oráculos divinos, não podendo, portanto, serem analisados como uma obra da razão — como faríamos os diálogos de Sócrates ou a Summa de Tomás de Aquino, por exemplo… Mas Hazony aponta que os autores bíblicos nem sempre alegaram autoria divina e mostra que os filósofos gregos admitiram uma origem divina por trás de alguns de seus pensamentos (p. 10-11).
  51. 51. Mas também pode haver alguma hipocrisia em nossa predileção pelo estilo de discurso do helenista. Embora eu não me aproprie de sua dicotomia razão-revelação em todos os seus detalhes, Yoram Hazony argumenta que apenas em nossa miopia intelectual podemos ignorar os aspectos divino- reveladores das filosofias grega e romana. Hazony mostra, com um mínimo de exemplos, que a revelação divina fundamenta a tradição filosófica helenística, mesmo que optemos por ir além dela. Citando passagens de Parmênides, Empédocles, Heráclito e Sócrates, ele nos lembra que todos eles atribuem porções de seu pensamento e razão à revelação divina. Seu resumo nos surpreende de nossa percepção geral da filosofia grega como baseada exclusivamente na razão (p. 24).
  52. 52. Yoram Hazony (2012) The Philosophy of LI Hebrew Scripture
  53. 53. O que esses textos sugerem é o seguinte: Durante os duzentos anos entre Jeremias (o profeta bíblico) a Platão, floresceu uma tradição filosófica — a própria tradição que deu origem à filosofia ocidental — na qual a capacidade de conduzir a investigação filosófica foi freqüentemente vista como parcialmente ou totalmente dependente de revelação ou alguma outra forma de assistência de um deus (p. 9).
  54. 54. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  55. 55. E embora essa influência da divindade para o filósofo não seja nova nem reveladora, Hazony observa que Bertrand Russell a assinala sem explorar sua história da filosofia… Em certa época, eu poderia ter tacitamente presumido que o raciocínio rigoroso financia e permeia toda a filosofia grega, o que parece excluir as Escrituras Cristãs como fonte de pensamento filosófico. Mas Hazony efetivamente dissolve a nítida dicotomia razão-revelação meramente reconhecendo o que é óbvio: tanto a literatura grega quanto a hebraica incorporam a razão e a revelação como comumente as entendemos hoje. Pierre Hadot argumentou que a filosofia helenista preocupava-se principalmente com a prática da vida vivida aperfeiçoada por meio de "exercícios espirituais". A filosofia não era apenas as definições, argumentos e discursos que passamos a considerar como caracterizando a filosofia grega. Portanto, o fino paradigma da razão-contra-revelação deve ser rejeitado ou reparado, mesmo que apenas nas suposições que trazemos para esses textos (p. 25).
  56. 56. Depois que os estudiosos voltaram às leituras literariamente sensíveis dos textos bíblicos, a questão eventualmente e repetidamente veio à tona: O que aqueles antigos autores e editores hebreus pensavam que estavam fazendo ao elaborar esses textos dessas maneiras particulares? Eles parecem pensar que estão moldando algo dentro do mundo conceitual de seu público, mas o quê? Em outras palavras, a arte de escrever por trás do texto evidenciou um senso de propósito, e eu quero propor que um dos propósitos da literatura bíblica é prescrever um método ritualizado para pensar sobre o mundo tanto em seu aspecto histórico quanto em abstrato-transcendente granularidades. Em todo o processo, um método epistemológico discreto é prescrito, desenvolvido e apresentado repetidamente em sua forma de gênero (conhecimento adequado) e differentia (conhecimento errôneo). Esse método epistêmico adequado é tão primário quanto determina a formação adequada e os limites da filosofia ontológica, metafísica, ética e política de Israel (p. 26).
  57. 57. O ESTILO FILOSÓFICO HEBRAICO DA BÍBLIA CRISTÃ Os traços distintivos que caracterizam os movimentos filosóficos únicos presentes no interior da Escritura cristã
  58. 58. Dru Johnson (2021) Biblical Philosophy LI
  59. 59. Da mesma forma, proponho que o estilo hebraico consiste em modos de levantar problemas filosóficos, muitas vezes em contraposição à sabedoria dos vizinhos de Israel, e pedindo ao leitor para pensar sobre os compromissos doxásticos exigidos por eles. Assim como podemos discernir um "método socrático” nos textos díspares que retratam Sócrates, um conjunto particular de disposições e compromissos é necessário para ver esse estilo filosófico nas Escrituras Cristãs. Ao lado de uma epistemologia apropriada defendida no texto, uma batida constante de representações e acusações contra o entendimento errôneo e incoerente pulsa nas Escrituras. Da Torá aos profetas e nos Evangelhos, a “dureza de coração” e os “tem olhos, mas não veem” são apenas duas dessas acusações (p. 82).
  60. 60. Quero demonstrar que o estilo filosófico hebraico é distinto e distinguível das tradições de seus pares… Eu proponho que a literatura bíblica funciona como uma tradição filosófica coletada e com curadoria, e os marcadores genéticos de seu estilo são matizados o suficiente para detectar movimentos filosóficos únicos nos textos. Esses marcadores genéticos não são apenas traços, mas formam uma unidade orgânica dentro do estilo. Essa unidade orgânica, então, criará dificuldades para a posterior hibridização do estilo hebraico no judaísmo helenístico. Demonstrarei que os autores do Novo Testamento (examinados nesta obra) exibem uma tendência originalista, buscando manter a unidade orgânica hebraica (p. 83).
  61. 61. Estilos Filosóficos Hebraicos e Helenistas Bíblia Hebraica Tradição Hellenista Modos de Argumento: 1. Pixelado (apresenta exemplos que são sistematicamente arranjados) Modos de Argumento: 1. Linear 2. Em rede (desenvolvido intertextualmente da Toráe aos profetas até os Evangelhos e além) 2. Autônoma Convicções: 3. Misterionista (reconhecimento da inabilidade da lógica em ser exaustiva no entendimento da natureza da realidade per si Convicções: 3. Domesticacionista 4. Criacionista (alicerçada na noção de que Yahweh é o criador e sustentador do real) 4. Abstracionista 5. Transdemográfica (busca desenvolver sabedoria a partir da posição social de Israel) 5. Classisista 6. Ritualista (o entendimento é desenvolvimento a partir da participação em rituais) 6. Mentalista
  62. 62. Pixelizada. Por "pixelada", quero dizer que os autores bíblicos definem os contornos de uma abstração de segunda ordem com imagens e episódios sobre um conceito por meio de iterações e reiterações na narrativa, lei e poesia. Assim como um pixel participa da montagem da imagem sendo exibidos em uma tela, os argumentos da Escritura são abordados e reificados em vários locais da Escritura. Para ver o padrão de segunda ordem emergir, é preciso dar um passo para trás e ver a imagem inteira, que necessariamente inclui cada pixel discreto (p. 84).
  63. 63. Em rede. O estilo estrutural em rede refere-se à prática literária de confiança intra e intertextual em ideias desenvolvidas em coordenação com significado (intra) ou derivado (inter) de outros textos. Em outras palavras, o próprio raciocínio requer que o leitor transponha ou contextualize o material de outro lugar no corpus imaginado, mas alerta o leitor para essa demanda ao estabelecer redes literárias claras para esse outro material. Óbvio para qualquer leitor das Escrituras Cristãs, os autores bíblicos não definem abertamente seus termos ou os conceitos aos quais aludem. Na verdade, a busca por definição pode violar o próprio ponto da filosofia que está sendo defendida. Em vez disso, as instâncias são tornadas coerentes pela compreensão de sua rede dentro do todo. Podemos considerar a rede literária uma boa prática interpretativa, e é, mas a rede a que me refiro aqui também inclui as expectativas do autor em relação aos leitores (p. 89).
  64. 64. Misterionista. Por misterionista, quero dizer que, se existe um sistema causal fechado para o hebraico antigo, não temos acesso a seu funcionamento interno ou estruturas holísticas. Essa inclinação misterionista pode ser semelhante ao misterianismo de Colin McGinn em relação à consciência mente-corpo: estruturada e real, mas, em última análise, incapaz de ser compreendida holisticamente. O estilo filosófico hebraico defende uma convicção misterionista, mas sem perda de uma metanarrativa criacionista (p. 92).
  65. 65. Criacionista. Por criacionista, refiro-me à convicção da filosofia hebraica em fundar sua metafísica, ética, epistemologia e muito mais no evento de criação de Gênesis 1-3 que flui historicamente para a história presente de um israelita. A disposição criacionista pressupõe contiguidade com uma narrativa cosmológica e genealógica particular. Como o Egito e a Mesopotâmia, um retorno às narrativas da criação, aos temas da criação e à linguagem da criação permeia o pensamento filosófico das Escrituras Cristãs. A maioria dos textos bíblicos abertamente ou secretamente presume uma estrutura metafísica criacional, onde Yahweh organiza e ordena o cosmos como um campo de objetos separados dele e uns dos outros. Nada semelhante à unidade Brahminista, panteísmo ou panenteísmo deriva da formação e comissionamento bíblico de Yahweh da humanidade, a descoberta guiada da mulher e a unidade do par biologicamente sexuado dificilmente é referido diretamente após Gênesis 4. No entanto, vemos o presunção disso em quase todos os lugares da literatura bíblica (p. 94-93).
  66. 66. Transdemográfica. Por "transdemográfico", quero dizer que o objetivo do empreendimento filosófico nas Escrituras Cristãs visa promover um corpo social com discernimento com perspectivas diversas, mas mutuamente enriquecedoras sobre a realidade. Ninguém pode ser "o filósofo hebraico". Nem Moisés nem Jesus confiaram sozinhos por ser o filósofo singular; em vez disso, ambos foram descritos como especialistas em uma comunidade que poderia levar outros a ver o que estava lá antes deles. A epistemologia transdemográfica se concentra no know-how: discernimento socialmente distribuído para compreender adequadamente os fatos e estado de coisas (sabe-se). Isso reconhece que o corpo individual sempre pratica o pensamento filosófico dentro do corpo social, treinado desde a juventude por especialistas… As convicções transdemográficas não permitem um inclusivismo ingênuo, mas, em vez disso, uma dispersão de conhecimentos. Formas díspares de participação incluíram todos os que se juntaram a Israel. O sumo sacerdote, profetas, sacerdotes, reis, pais, filhos, mães, leprosos, emigrados, juízes e anciãos, todos tinham acesso e discernimento diferentes que trouxeram para a comunidade. A Torá e mais tarde Jesus e seus apóstolos esperavam que a comunidade empregasse esses tipos díspares de know-how para apreender intelectualmente noções de segunda ordem (p. 96).
  67. 67. Ritualista. Exclusivo para a Bíblia Hebraica entre seus pares, os rituais são designados para efeito epistemológico e moldar a comunidade. Eu argumentei em outro lugar onde todas as atividades pedagógicas e cognitivas são inerentemente ritualísticas e corporificadas. No entanto, por "ritualista", quero dizer que os autores bíblicos estão abertamente cientes da função epistêmica dos rituais e os empregam descaradamente em prol de um conhecimento preciso. Nem apenas saber, mas Israel se tornará um tipo particular de comunidade, que inclui, mas não se limita ao seu mundo intelectual compartilhado entre eles. Na Torá, Moisés instrui os hebreus a realizar ritos para saber. O tipo de conhecimento que resulta de uma performance ritual é um tipo de discernimento. Levítico 23 fornece o exemplo mais claro disso, embora a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento estejam repletos de rituais com enfoque epistemológico (p. 98).
  68. 68. Esses dois elementos estruturais (pixelizados, em rede) e quatro convicções (misterionista, criacionista, transdemográfica e ritualista) formam os marcadores do estilo filosófico hebraico. Quando eles estiverem presentes, vemos um estilo discreto de filosofia sendo praticado, distinto dos vizinhos de Israel no antigo Crescente Fértil e, posteriormente, dos conquistadores do norte do Mediterrâneo. Além disso, esses aspectos do estilo hebraico serão distinguidos dos modos particulares de discurso filosófico.
  69. 69. JESUS PODE ASSUMIR UM ROSTO FILOSÓFICO? Sobre a visão dos primeiros discípulos de Cristo a respeito de sua relação com a filosofia — e quão inesperada ela ainda é hoje.
  70. 70. Jonathan T. Pennington (2020) Jesus the great philosopher LI
  71. 71. Imagine uma igreja cristã de hoje em algum lugar do cinturão da bíblia na América, um lugar onde o cristianismo tem raízes profundas o suficientes e galhos largos por meio dos quais os seus membros podem construir suas mega igrejas… Agora, olha para as paredes do interior do santuário. Você pode ver os bonitos banners que relembram os valores da igreja e suas preciosas verdades a respeito dAquele que eles vieram adorar, Jesus… Pastor, Rei, Salvador, Messias, Amigo de pecadores, Emanuel. E Filósofo. Filósofo? Não é possível. Como voce reagiria a isso? Pode um pregador concluir seu sermão convidando seus ouvidos a “orar para receberem Jesus como seu filosofo pessoal”? (p. 3).
  72. 72. Foi só logo após a Primeira Guerra Mundial que os arqueólogos europeus toparam com Dura-Europos. Quando o fizeram, descobriram que os prédios construídos nas laterais das paredes eram o sonho de um arqueólogo! Eles estavam completamente intactos, preservados e intactos por causa dos escombros empalhados. Entre outras descobertas importantes, os pesquisadores encontraram uma igreja doméstica, congelada no tempo. Agora podemos olhar para as paredes de suas igrejas. Quais foram suas decorações? Como aqueles em nossa megaigreja imaginária, esses cristãos fiéis também usaram suas paredes para lembrar aos adoradores quem é Jesus. As imagens pintadas nesta igreja antiga retratam Jesus de várias maneiras, como o Bom Pastor, o Grande Médico e o Caminhante da Água. E como filósofo. Na verdade, em todas as imagens de Jesus curando, ensinando e realizando milagres, ele está usando as vestes de filósofo reveladoras, tem o corte de cabelo que indicava o seu status como um filósofo, e sua pose em uma postura de um professor de filosofia. Filosofo. Pintado nos muros de uma igreja. Por que? (p. 4-6).
  73. 73. No entanto, o que chamou a atenção dos estudiosos e da grande mídia religiosa foi exposto pelo jornalista Sandro Magister em uma pergunta precisa: “por que foi dado o rosto de um filósofo a São Paulo?” (2015). Na figura de um apóstolo com aspecto de um filósofo pensativo, olhar penetrante, testa alta, calvície incipiente e barba pontiaguda, esconde-se muito mais do que a simples fusão artificial entre a fé cristã e a arte helênico-romana. Para o diretor dos Museus do Vaticano, Antonio Paolucci, o que está em jogo é a ariscada decisão da Igreja, já estabelecida e difundida, em assumir como sua um mundo de imagens e formas que a tradição iconográfica helênica e romana já havia elaborado. Nesse contexto, foi quase natural e esperado que a questão “como representar os apóstolos da igreja?” fosse respondida através das formas e semblantes dos filósofos gregos e romanos. Foi a partir dessa ideia que Paulo de Tarso “calvo, barbudo, com o ar grave e absorto do intelectual, teve o rosto de Platão ou talvez de Plotino, enquanto que o rosto de Aristóteles foi dado ao pragmático e terreno Pedro, que tem a tarefa de guiar a Igreja praticante e combatente em meio às insídias do mundo (s/p.).
  74. 74. Jonathan T. Pennington (2020) Jesus the great philosopher LI
  75. 75. Acontece que os crentes de Dura-Europos não estavam sozinhos… Por volta dessa época, um homem chamado Justino nasceu em Flavia Neapolis, na Palestina, cerca de cinquenta quilômetros ao norte de Jerusalém… Justino começou a buscar a vida, alguma direção que lhe desse sabedoria e significado. Ele tentou ser discípulo de um mestre estóico, a filosofia mais popular da época. Insatisfeito, tentou ligar-se a um peripatético, professor dos costumes de Aristóteles. Isso também se mostrou impraticável. Quando ele abordou um filósofo pitagórico, foi informado de que ele não tinha o treinamento exigido em música, astronomia e geometria. Em seguida, ele começou a treinar nos caminhos do platonismo, com a esperança de encontrar a verdade e contemplar o deus das Ideias. Ele finalmente sentiu que sua busca pela sabedoria estava indo bem. Mas o verdadeiro Deus tinha outros planos (p. 6).
  76. 76. Enquanto caminhava perto do mar, Justino iniciou um intenso diálogo com um homem idoso, um homem que se revelou seguidor de Jesus de Nazaré. O homem cuidadosamente envolveu Justino, desafiando-o com várias perguntas perspicazes, levando-o a pensar sobre a alma e o destino da humanidade — nosso destino que depende do Deus verdadeiro e eterno. Justino perguntou como ele poderia aprender a praticar essa filosofia. A resposta do velho cristão foi que são os profetas hebreus, inspirados pelo Espírito, os verdadeiros filósofos do mundo e que apontam para a verdadeira sabedoria encontrada em Jesus. O coração de Justin ficou em chamas e ele começou a ler e meditar sobre os profetas e os "amigos de Cristo", passando a amar a verdade que eles falavam (p. 6).
  77. 77. Esta informação autobiográfica de Justino tem um propósito. Diálogo conta a história de um judeu chamado Trypho que se aproximou de Justino e iniciou uma conversa com ele. Porque? Porque ele reconheceu pelas roupas de Justino que ele era um filósofo… Justino explica a Trypho sua própria história — como ele passou por muitas filosofias insuficientes para finalmente encontrar a verdade filosofia de Jesus. Os profetas do Antigo Testamento eram filósofos. Jesus foi o maior filósofo. E agora, como discípulo de Jesus, Justino também é filósofo. Filosofia é uma maneira de encontrar a vida verdadeira, Justino explica, e agora ele encontrou essa verdade vida em Jesus. O cristianismo é a verdadeira filosofia que, pela fé e pelo poder do Espírito, permite que as pessoas vejam o mundo de uma determinada maneira e vivam de acordo. É o caminho para a verdadeira vida boa. E foi isso que Justino fez . Vivendo em Roma, no coração do império e de suas muitas escolas filosóficas, ele ensinou às pessoas a verdadeira filosofia do Cristianismo. Ele dialogou, defendeu, e fez apologética (isto é, deu a razão de sua fé), tanto pessoalmente quanto em escritos (p. 7).
  78. 78. Ainda que o encontro da fé cristã com filosofia no Império Romano seja marcado por sínteses — em maiores ou menores proporções — com a tradição helenística, comprometendo e modificando a abordagem hebraica de encarar o AT e o NT, o que fica evidente é que: tanto a visão da filosofia antiga como exercícios espirituais, quanto a abordagem hebraica de filosofia bíblica cooperaram para que fosse natural o surgimento da forma de enxergar o Cristianismo como “verdadeira filosofia” — que seriam muito comum não só nos Pais da Igreja, como também em toda a Patrística.
  79. 79. Jonathan T. Pennington (2020) Jesus the great philosopher LI
  80. 80. Avance agora para outro diálogo que aconteceu alguns anos depois, em 1999. O local não é Roma, mas Iowa, no debate primário do Partido Republicano na corrida para as eleições presidenciais de 2000. O moderador do debate fez a cada candidato a seguinte pergunta: "Com qual filósofo ou pensador político você mais se identifica e por quê?" O primeiro a responder foi o então governador George W. Bush. Sem hesitar, em seu sotaque texano sincero, Bush respondeu que o filósofo que mais o influenciou foi “Cristo”…. Essa resposta talvez seja um pouco menos sofisticada do que a de Justino, mas não é menos sincero. Tanto Justino Mártir quanto o governador Bush reconheceram em Jesus alguém que oferece a verdadeira sabedoria para saber como viver bem. Quando examinamos o longo espaço da história cristã entre as respostas de Bush e Justino, encontramos uma rica tradição de cristãos respondendo da mesma maneira… cristãos falando de Jesus como filósofo e o cristianismo como uma verdadeira filosofia de vida. O cristianismo não é apenas um conjunto de doutrinas, mas uma divina filosofia de vida completa que, se necessário for, devemos morrer por ela! (p. 8-9).
  81. 81. Mas algo mudou. Algo foi perdido. Se fôssemos conduzir uma entrevista ao estilo Jimmy Fallon do tipo "Word on the Street" hoje, eu duvido que muitos, se houver, ofereceriam que o Cristianismo é uma filosofia e que Jesus é um filósofo. Ninguém está fazendo banners "Jesus, o Filósofo" para os cartazes de suas igrejas. A Amazon oferece sucessos mínimos nas buscas que contêm "Jesus" e "Filósofo" em seus títulos, e os poucos que são encontrados são geralmente estudos históricos acadêmicos, não para o freqüentador comum da igreja. Os programas de cursos em faculdades bíblicas, departamentos de religião de universidades e seminários não apresentam Jesus como um filósofo. Isso sem falar nos cursos universitários de filosofia. Se um professor de filosofia sugeriu "Jesus" como uma das disciplinas a serem estudadas com Aristóteles, Kant e Hume, ele provavelmente receberia o duplo presente de sobrancelhas levantadas e uma reprimenda. Mas isso reflete uma grande mudança histórica. Ao longo de todo o vasto período da história da igreja, o Cristianismo foi entendido como uma sofisticada filosofia de vida com Jesus como o Grande Filósofo. Então o que aconteceu? (p. 9).
  82. 82. POR QUE JESUS NÃO ASSUME SUA POSIÇÃO FILOSÓFICA HOJE? As qualidades pessoais para tornar efetivo o trabalho intelectual rigoroso que Jesus desempenhava e convidada seus discípulos
  83. 83. Dallas Willard (2006) Jesus, o lógico LI
  84. 84. Em nossa cultura uma relação incômoda entre Jesus e a inteligência. Ao declarar que Jesus é o homem mais inteligente que já existiu, ouvi cristãos responderem: "Isso é um oximoro". Hoje, posicionamos Jesus automaticamente longe do (ou em oposição ao) intelecto e da vida intelectual. Quase ninguém o consideraria um pensador que tratou das mesmas questões que Aristóteles, Kant, Heidegger ou Wittgenstein, e que o fez com o mesmo método lógico. Esse feto tem implicações importantes para a maneira de vermos hoje a ligação de Jesus com o mundo e a vida — sobretudo se nosso trabalho é relacionado à arte, ao pensamento, à pesquisa ou ao âmbito acadêmico. Como ele pode se encaixar nessas áreas e nos guiar dentro delas sendo logicamente obtuso? Como podemos ser seus discípulos no trabalho e levá-lo a sério como mestre se, ao entrarmos em nossas áreas de competência técnica ou profissional, precisamos deixá-lo de fora? (p. 165).
  85. 85. Jonathan T. Pennington (2020) Jesus the great philosopher LI
  86. 86. Sentado em diversos cafés trabalhando neste livro, muitas vezes encontrei amigos, membros da igreja e alunos que gentilmente perguntavam no que eu estava trabalhando. Portanto, experimentei várias versões de "discurso de elevador" para descrever Jesus como um filósofo. Depois de um desses relatos, um amigo particularmente atencioso compartilhou como isso se relacionava com sua experiência. Apesar de seu forte compromisso com a igreja, sua experiência com o cristianismo foi de fato a necessidade de encontrar gurus alternativos. Conforme ele descreveu, ele aprendeu na faculdade bíblica e em muitos grandes pregadores os aspectos verticais do Cristianismo - quem é Deus e o que Jesus fez por nós e isso é ótimo. Mas ele não encontrou muitos professores ou líderes na igreja que o ajudaram a pensar sobre os aspectos horizontais do que significa ser uma vocação cristã, emoções, política e assim por diante - em resumo, uma filosofia de vida. Ele encontrou ajuda para isso em outros lugares, em pessoas como o famoso psicólogo-visionário Jordan Peterson (p. 13).
  87. 87. Não acho que a experiência do meu amigo seja incomum. Por termos perdido a imagem de Jesus como um filósofo de toda a vida, muitos cristãos fiéis encontram outros gurus para ajudá-los a resolver as questões da vida diária. Nossa cultura moderna tem muito de filósofos na torneira. Temos filósofos das finanças (Warren Buffett), filósofos dos livros que devemos ler para nos sentirmos fortalecidos (Oprah), filósofos dos princípios de liderança (Ray Dalio), filósofos da produtividade (David Allen) e como entrar no fluxo (Mihaly Csikszentmihalyi) , filósofos da moda e do cool chique (Heidi Klum), filósofos da criatividade (Austin Kleon) e filósofos da organização e do descarte de coisas (Marie Kondo). Os cristãos freqüentemente criam sua filosofia de vida a partir de uma mistura dessas, muitas vezes acrescentando uma versão cristianizada dos mesmos pensadores…Mas é melhor perceber que Jesus, o Filósofo, está fazendo mais do que falar às partes religiosas e espirituais da vida — os aspectos verticais. Ele é um guru para todas as realidades humanas e horizontais também. Quando perdemos a ideia de que Jesus é um filósofo da vida, ficamos presos à procura de gurus alternativos (p. 14).
  88. 88. Dallas Willard (2006) Jesus, o lógico LI
  89. 89. Quando falamos de "Jesus, o lógico", não estamos dizendo, é claro, que ele desenvolveu teorias de lógica como fizeram, por exemplo, Aristóteles e Frege. Se Jesus é quem os cristãos acreditam que ele é, sem dúvida, poderia muito bem ter feito isso. Ele poderia ter apresentado uma Begriffsschrift (Conceitografia) ou Principia Mathematica, ou formado axiomas alternativos de lógica modal ou estabelecido premissas lingüísticas… Quando falo de "Jesus, o lógico", estou me referindo a seu uso de insights lógicos, a seu domínio e emprego de princípios lógicos em seu trabalho como mestre e personalidade pública. Convém observar que aqueles que trabalham em áreas criativas ou no campo da teoria lógica não são necessariamente mais lógica ou filosoficamente competentes que outras pessoas… Entender de teoria lógica avançada pode, sem dúvida, ajudar um indivíduo a pensar de forma lógica, mas não é suficiente para garantir o pensamento lógico e, exceto em casos raros, nem sequer é necessário (p. 166).
  90. 90. Sem dúvida, para ser lógico é preciso entender os conceitos de implicação e contradição e ter a capacidade de reconhecer sua presença ou ausência em casos óbvios. Mas também é preciso ter a vontade de ser lógico, assim como certas qualidades pessoais que tornam isso possível e efetivo… Tudo isso, por sua vez, exige um forte caráter moral. Não apenas em pontos como determinação e coragem, apesar destas serem necessárias. Os hipócritas, por exemplo, não se dão bem com a lógica, nem mentirosos, ladrões, assassinos e adúlteros. Pessoas desse tipo estão sempre atentas para aparências e inferências que podem implicá-las logicamente em seus maus procedimentos… Um fato menos compreendido é aquele que só pode ser lógico caso a pessoa tenha assumido como valor fundamental o compromisso de ser lógica. Ninguém é lógico por acaso, assim como ninguém é moral por acaso. Aliás, a coerência lógica é um fator importante do caráter moral. Esse é, em parte, o motivo pelo qual, numa era de ataques à moralidade como a nossa, a vontade lógica também é desmerecida ou ignorada (p. 167).
  91. 91. Jesus usa a lógica sempre por entimema, como é comum na vida e nas conversas cotidianas. No que se refere à clareza, seus argumentos não são inteiramente expostos nem explicados. A importância do entimema está no fato de ele envolver a mente do ouvinte ou dos ouvintes a partir de seu interior, algo que a exposição completa e explícita de argumentos não é capaz de fazer… Ao usar a lógica, o objetivo de Jesus não é vencer batalhas, mas sim promover o entendimento ou o discernimento em seus ouvintes. Esse entendimento só pode vir de dentro, do entendimento que o indivíduo já possui. Ele parece "verter" de dentro da pessoa. Assim, Jesus não segue o método lógico que vemos com freqüência nos diálogos de Platão, nem o método que caracteriza a maior parte do ensino e dos textos de hoje. Ou seja, ele não procura tornar tudo tão explícito a ponto de a conclusão ser imposta ao ouvinte. Antes, ele apresenta as questões de tal maneira que as pessoas que desejam saber podem encontrar seu caminho, chegar até a conclusão apropriada como algo que elas descobriram — quer seja algo que aceitem, quer não (p. 167-168).
  92. 92. meu desejo é nos capacitar para ver Jesus sob uma nova ótica: vê-lo realizando um trabalho intelectual com os instrumentos apropriados da lógica, vê-lo como alguém que domina e se sente à vontade nessa área. Precisamos entender que Jesus é um pensador, que essa não é uma palavra repulsiva, mas sim um trabalho fundamental, e que seus outros atributos não excluem o raciocínio; antes, garantem que ele é, sem dúvida alguma, o maior pensador da raça humana: "a pessoa mais inteligente que já viveu aqui na terra". Ele usa constantemente o poder do discernimento lógico para possibilitar que as pessoas descubram a verdade acerca de si mesmas e de Deus a partir do interior de seu coração e de sua mente. Sem dúvida, essa lógica também contribuiu para o crescimento de Jesus em "sabedoria" (Lc 2:52) (p. 172).
  93. 93. Por falta de uma compreensão apropriada de Jesus, fazemos nosso trabalho nos campos intelectuais, acadêmicos e artísticos por nossa própria conta. Não temos confiança (também conhecida como fé) na capacidade de Jesus como líder e mestre nas questões às quais dedicamos a maior parte de nosso tempo de trabalho. Assim, com freqüência, nossos esforços ficam a desejar quanto aos resultados que deveriam produzir e podem até exercer menos impacto sobre os incrédulos, pois os realizamos com o "braço de carne”… Não se trata de um estudo detalhado dessa dimensão, mas ela merece tal estudo, pois é de suma importância para o desenvolvimento de uma fé saudável em Jesus (especialmente nos dias de hoje, em que é tão natural as instituições investidas de autoridade em nossa cultura — as universidades e as profissões — o omitirem). Porém, uma vez que soubermos o que procurar nos evangelhos, não teremos dificuldade em ver o uso perfeito, cuidadoso e criativo da lógica ao longo de todas as suas atividades de ensino (p. 174).
  94. 94. OS EVAGELHOS COMO ÁPICE DA LITERATURA SAPIENCIAL A apresentação histórico-teológica de Jesus como um mestre em busca de transformação na vida de seus discípulos pelas virtudes preconizadas pela abordagem hebraica de filosofia
  95. 95. Richard Bauckham (2012) Prólogo à obra Lendo LI os Evangelhos com Sabedoria
  96. 96. Não faz muito tempo que quase todos os estudiosos do evangelho teriam dito, com muita confiança, que os Evangelhos não são biografias de Jesus. Agora, porém, muitos diriam que é precisamente o que eles são, embora com a qualificação de que são o tipo de biografia que as pessoas escreveram naquela época. No entanto, isso faz deles uma história confiável ou são como lendas, mitos, romances ou propaganda? Muita literatura acadêmica está envolvida na busca pelo Jesus histórico, tentando voltar os Evangelhos para o que o Jesus histórico era realmente, antes de os primeiros cristãos começarem o processo de interpretação que se transformou nos Evangelhos. Materiais refinados de método histórico foram desenvolvidos para estudar os Evangelhos dessa maneira, mas as ferramentas e seus usos são discutíveis. Além disso, os resultados da busca são tão variados e contraditórios que colocam em dúvida a viabilidade de todo o empreendimento (p. 7).
  97. 97. Alguns diriam que a busca pelo Jesus histórico é necessária para a fé e o discipulado, hoje; outros diriam que é irrelevante ou mesmo perigosa. A fé cristā e a teologia deveriam adotar a noção iluminista de "história”, como a busca geralmente tem feito, ou questionar? Embora grande parte da erudição dos Evangelhos tenha-se preocupado com questões históricas, as indagações teológicas também são grandes. Não deveríamos, afinal, ler os Evangelhos principalmente como Escritura, com todo o cànon da Bíblia como seu contexto principal de significado? E assim que a Igreja geralmente os lê, e há aqueles que, agora, advogam fortemente que devemos retornar as práticas eclesiais tradicionais de leitura dos Evangelhos, das quais as preocupações históricas modernas nos distraíram. Há a hermenêutica, ciência da interpretação de textos, que possui uma grande literatura, parte filosófica e muito técnica. Isso, por sua vez, interage com outras questões sobre os Evangelhos e gera seus próprios tipos de indagações. Assustador e confuso? (p. 8).
  98. 98. [Jonathan Pennington quer] ajudar os cristãos a lerem os Evangelhos de uma forma que seja fiel ao tipo de textos que eles são…. Ele não rejeita a maioria dos textos do Evangelho por uma busca minimalista do Jesus histórico, tampouco deixa a história de lado em favor do cânon ou da teologia. Ele convida-nos a ler os quatro Evangelhos como história e teologia — cada um como uma narrativa inteira em si, como o clímax da grande metanarrativa das Escrituras e como a pedra angular no arco de todo o cânon das Escrituras. O que talvez seja mais distintivo em sua abordagem é sua preocupação com virtude e discipulado cristãos. Não é suficientemente definido o tipo de literatura dos Evangelhos, por dizer que são históricos e teológicos. Eles também são uma literatura que visa fazer a diferença na vida de seus leitores. Eles são formadores de virtude. Eles chamam seus leitores a seguirem Jesus de uma forma que é transformadora (p. 8).
  99. 99. Jonathan T. Pennington (2020) Jesus the great philosopher LI
  100. 100. É apropriado, então, compreender o clímax do sermão nas palavras do versículo acima (Mateus 7.24-27). Nessa imagem parabólica final, Jesus descreve Seu ensino como uma bifurcação na estrada, que divide Seus ouvintes em dois grupos distintos: o sábio e o tolo. Não há meio-termo. Os sábios se distinguem dos tolos não só por ouvirem os ensinamentos de Jesus, mas também por agirem sobre eles; isto é, eles ordenam suas vidas de acordo com seus caminhos e sabedoria. O conteúdo do ensino de Jesus é importante, mas, aqui, no final do sermão, a ênfase é na audição responsiva. Pessoas sábias devem ouvir corretamente o que Jesus ensina e também responder a essa graça com fé e vida fiel (p. 9).
  101. 101. Somos sábios em seguir os ensinamentos de Jesus quando nos aproximamos do tópico fascinante sobre como ler os Evangelhos… é apropriado que sigamos nossa leitura dos Evangelhos com o objetivo de sermos sábios e a imagem de construir a casa de alguém com sabedoria… como ser um sábio ouvinte e seguidor. É isso o que significa tratar os Evangelhos como Sagrada Escritura e com sabedoria. Não estamos procurando apenas um arsenal de boas técnicas, sejam elas pré-modernas, modernas ou pós-modernas. Não buscamos o mero conhecimento (scientia) pelo conhecimento (p. 10).
  102. 102. Nossos Evangelhos canônicos são teológicos, históricos e narrativas biográficas aretológicas (formadoras de virtude), que recontam a história e proclamam o significado de Jesus Cristo, que, por meio do poder do Espírito, é o restaurador do Reino de Deus… em qualquer outra coisa que possamos extrair dos Evangelhos, devemos entendê-los como uma mensagem — na verdade, eles afirmam ser a mensagem final — sobre o Reino de Deus vindo do céu para a terra na pessoa de Jesus, o Cristo. Concentrando-nos inicialmente na última parte de nossa definição anterior, aprendemos que os Evangelhos têm um propósito na comunicação que inclui tanto a narrativa quanto a proclamação significativa e aplicada… Os Evangelhos não podem ser considerados “meros” dados históricos ou apenas o pano de fundo da proclamação apostólica, mas eles próprios são de natureza homilética e exortacional. A mensagem intencional dos Evangelhos tem um conteúdo especifico, centrado em Cristo e no Reino. Essa mensagem sobre o Reino de Deus é tanto uma boa nova como uma natureza restaurativa (p. 190).
  103. 103. A segunda implicação que podemos derivar de nossa definição dos Evangelhos é que sua natureza biográfica significa que, em grande parte, eles existem para convidar-nos a olhar para os bons personagens e a evitar os maus; eles são aretológicos (formadores de virtude). Narrativas — especialmente bioi — servem para incutir a virtude em seus leitores mediante o poderoso meio de história… o veículo da história é tão transformador que envolve todo o nosso ser, permite-nos ter experiências de vida indiretamente e proporciona-nos um encontro real e experiencial com Cristo. Portanto, uma parte significativa de nosso objetivo na leitura dos Evangelhos deve ser experimentar a transformação e o crescimento da virtude de Deus. Logo, não podemos apenas ler os Evangelhos em busca de dados históricos ou mesmo informações teológicas, se estivermos separados do objetivo final que é aprender a viver de maneira diferente como seguidores de Cristo (p. 191).
  104. 104. Gosto de pensar nos quatro livros evangélicos, ou Tetraevangelho, como os princípios básicos em uma arcada romana. Esses princípios são essenciais para unir ambos os lados da arcada e, isoladamente, possibilitar sua sustentação, além de servir como entrada. Assim também, esses quatro Evangelhos funcionam como uma porção da Escritura Sagrada que é tão encaixada e posicionada que une a arcada com seus dois lados - as Escrituras do Antigo Testamento de um lado e o restante dos escritos do Novo Testamento de outro. Os relatos do Evangelho completam e, em última instância, fazem sentido à história da obra de Deus no mundo conforme encontrados nas Escrituras judaicas, enquanto, ao mesmo tempo, servem como o manancial para os demais testemunhos e ensinamentos apostólicos. Os quatro testemunhos dos Evangelhos fornecem o principio orientador (inclusive a regula fidei) e guiam para o entendimento e suporte de toda a Escritura Sagrada. Os Evangelhos, providencial e unicamente, funcionam como o ponto de apoio interpretativo para a leitura de toda a Biblia, pois eles focam na revelação de Deus em Jesus Cristo, a Palavra final pronunciada por Deus (p. 298).
  105. 105. Cada um dos evangelistas fornece um ponto crucial ou a conclusão da história do trabalho de Deus no mundo. Isso não é o mesmo que dizer que eles seriam contrariados por outras escritas, explicações ou pregações apostólicas que os precedem, mas sim que seus objetivos em escrever uma história continuada e consumadora são revelados mediante o método com que abordaram sua tarefa: os Evangelhos são escritos na forma narrativa da maioria das Escrituras judaicas, cientes dessas histórias e imitando-as de modo claro, além de intertextual e ilustrativamente explicando os eventos da história de Jesus, como o propósito e o telos da história de Deus. Esse propósito é manifestado, de forma implícita, nas particularidades com que Jesus restabelece e completa a história israelita, tais como Suas travessias pelo mar e a provisão de pães em uma região desértica (Mt 14.13-33), bem como em comentários mais explícitos, como o procedimento hermenêutico que Jesus concede na leitura das Escrituras judaicas em Lucas 24.27. Os demais testemunhos apostólicos claramente interpretam a vida de Jesus da mesma forma, como a leitura dos textos paulinos em 1 Coríntios 10 revela (p. 319).
  106. 106. Atualmente, não se faz um pequeno debate em alguns grupos sobre a antiga pergunta do que exatamente é “o evangelho”… Na condição de documentos que apresentam a história nele consumada, os Evangelhos ajudam-nos a ver que apresentar as “boas novas” às pessoas significa prover e entender todo o trabalho divino no mundo como completado em Jesus Cristo. “O evangelho" não é apenas uma mensagem sobre o perdão de pecados, mas também uma visão mundial completa. Assim, embora certamente não seja errado pensar no evangelho em termos da resposta de Cristo ao homem e a Deus, é melhor conceitualizá-lo e apresentá-lo em categorias históricas de salvação da criação, queda, redenção e consumação, e os Evangelhos certamente nos ajudam a ter essa perspectiva mais ampla. Da mesma forma, eles ainda fornecem um enfoque mais narrativo para pensarmos em como apresentar e explicar a obra de Jesus. Como temos dito, a teologia bíblica é essencialmente uma história sobre o que Deus tem feito na história verdadeira e o que Ele fará em nosso real futuro. Portanto, uma apresentação do evangelho que deixa de falar de Cristo em termos narrativos ou históricos viola a forma e a essência da apresentação bíblica (p. 330).
  107. 107. O cristianismo nunca deve ser entendido como mero assentimento intelectual e moral, por um lado, ou como ganhar ou manter-se em um pacto por meio da obediência, por outro. A tendencia para ambos os extremos está sempre presente. Porém, mantê-los em tensão equilibrada é a noção de seguir ou ser um discípulo, que mantém a visão de constante aprendizado e crescimento em conhecimento e maior virtude, seguindo o exemplo daquele que nos chamou pela graça… Nos Evangelhos, a compreensão do cristianismo com referência ao Mestre em conhecimento e obediência brilha mais claramente. Ao mesmo tempo, qualquer noção de que esse seguimento é apenas o mesmo que seguir Moisés ou Platão, ou qualquer outro professor, é consistentemente criticada e finalmente destruída: Jesus é repetidamente apresentado como mais do que um mero professor para imitarmos, e os Evangelhos estão aflitos para mostrar-nos que o fim da história desse professor é a Sua morte e ascensão em nome do Seu povo, para fazê-lo nascer de novo pela obra escatológica do Espírito de Deus (p. 333).
  108. 108. TENHAM A MENTE DE CRISTO A visão de Paulo sobre a mente transformada pelo Espírito enquanto verdadeira sabedoria para a prática Teológica e Filosófica para hoje
  109. 109. No entanto, transmitimos sabedoria entre os que são maduros. Não, porém, a sabedoria deste mundo, nem a dos poderosos desta época, que são reduzidos a nada. Pelo contrário, transmitimos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria que estava oculta e que Deus predeterminou desde a eternidade para a nossa glória. Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” Deus, porém, revelou isso a nós por meio do Espírito. Porque o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus.
  110. 110. Pois quem conhece as coisas do ser humano, a não ser o próprio espírito humano, que nele está? Assim, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus. E nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente. Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais. Ora, a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura. E ela não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Porém a pessoa espiritual julga todas as coisas, mas ela não é julgada por ninguém. Pois quem conheceu a mente do Senhor, para que o possa instruir? Nós, porém, temos a mente de Cristo. 1 Coríntios 2:6-16
  111. 111. Craig S. Keener (2016) A Mente do Espírito LI
  112. 112. Muitos pensadores da Antiguidade buscavam a transformação por meio da visualização do ser divino; místicos judeus também se esforçavam para ver algo do Deus entronizado, mas o exemplo fundamental de transformação resultante de vislumbrar a verdadeira glória divina é Moisés (3.7-16). Aquilo que Moisés experimentou de modo parcial, os ministros da nova aliança experimentam de modo mais pleno pela habitação do Espírito de Deus dentro deles (3.3,6,8,17,18)… Na clareza do plano de Deus proporcionada pela perspectiva da eternidade, aquilo que para o mundo parece ser a simples execução de Jesus por traição pelas elites se torna o ponto culminante da história da salvação, o prelúdio do triunfo de Deus por meio da ressurreição (p. 256).
  113. 113. Os cristãos coríntios estavam imitando os valores do mundo que exaltava pessoas que Deus não havia escolhido acima deles próprios, a quem Deus havia escolhido. Paulo desafia os coríntios exatamente nas questões das quais eles se gloriam (cf. 1Co 1.29-31). As filosofias do mundo defendiam a disciplina mental ou a obtenção de sabedoria por meio da dependência da divindade natural inata. Para Paulo, contudo, a sabedoria de Deus é revelada em seu plano na história (como em Romanos 11.30-34), que chegou a seu ápice na cruz, o epítome da corrupção humana. O cerne da sabedoria divina e, portanto, o cerne do que significa participar da mente de Cristo (1Co 2.16) é o caminho da cruz. Longe de adotar a sabedoria desta era, esse caminho confia no plano mais abrangente de Deus que o mundo despreza, pois o considera absurdo. Aqueles que são verdadeiramente sábios devem se gloriar em sua fraqueza e depender do poder de Deus (cf. 1Co 3.18; 2Co 12.9,10); devem dar toda honra (ou, em termos ocidentais atuais, todo o crédito) a Deus. Tal sabedoria que depende de Deus se harmoniza com a teologia de Paulo, por exemplo, naquilo que chamei de mente da fé (p. 258-259).
  114. 114. Em 1 Coríntios 1 e 2, Paulo admoesta os crentes a se tornarem maduros na verdadeira sabedoria divina. Também descreve o conteúdo de tal sabedoria: a mensagem da cruz que inverte os valores do mundo e nos convida a ver as coisas da presente era à luz da era vindoura (2.6-10), em que a sabedoria de Deus prevalecerá incontestada… Aqueles que, com base nas filosofias do mundo, se consideram divinos, devem, em lugar disso, cultivar a verdadeira aceitação da perspectiva divina (3.3,4) (p. 255-256).
  115. 115. Tal sabedoria estava “oculta” (2.7),22 escondida até mesmo dos mais instruídos e dos membros da elite do mundo (2.6,8); portanto, não foi discernida por olhos, ouvidos ou pela imaginação humana (2.9). O tema da sabedoria em questão aqui é a glória eterna que Deus projetou para seu povo no futuro (2.7), “as coisas que Deus preparou para os que o amam” (2.9). (A ideia de bênçãos futuras imperscrutáveis também ocorre no pensamento paulino em Efésios 2.7). São questões que não podem ser reveladas nem pelos sentidos nem pelo raciocínio humano (1Co 2.9), mas apenas pela experiência do Espírito (2.10). Ou seja, o Espírito provê uma experiência antecipada da vida no mundo por vir, a qual é também reconhecida por alguns dos primeiros cristãos (veja esp. Hb 6.4,5) (p. 261-262).
  116. 116. Desde que somente o Espírito de Deus conhece de fato a mente dele (1Co 2.11), somente o Espírito de Deus pode revelar verdades escatológicas (2.9,10) e as profundezas do coração de Deus (2.10). Deus revelou essas realidades escatológicas aos crentes por meio do Espírito (1Co 2.10), supostamente em um nível mais profundo que o entendimento ou a linguagem humana por si mesma é capaz de comunicar.27 O Espírito pode revelar as verdades de Deus porque consegue sondar até mesmo as profundezas do coração de Deus (2.10) (p. 262).
  117. 117. Alguns pensadores, especialmente da tradição platônica, consideravam a divindade suprema inefável ou, pelo menos, além da compreensão humana, enquanto outros autores advertiram que a mente mortal jamais seria capaz de entender os planos dos deuses. Tendo em vista as citações bíblicas inequívocas que Paulo usa nesse contexto, é possível que fontes judaicas sejam mais relevantes. As meditações judaicas tradicionais sobre a sabedoria já entendiam que só Deus é plenamente sábio e, portanto, que sua sabedoria precisa ser “revelada” (Ef 1.6-9). Paulo explica que o mundo não é capaz de entender Deus, mas o próprio Espírito de Deus, que o entende, pode revelá-lo àqueles que aceitam sua sabedoria (1Co 2.12,16) (p. 265).
  118. 118. Como as pessoas só eram capazes de entender plenamente a esperança escatológica e a perspectiva escatológica por meio do Espírito (1Co 2.9-11), de que maneira a pregação de Paulo podia comunicá-la? Paulo já afirmou que ele não anuncia sabedoria humana, mas, sim, a mensagem da cruz (2.2) e a sabedoria oculta (2.7) por meio do Espírito (2.4,5). Agora ele reitera que não comunica sabedoria humana, mas sabedoria transmitira pelo Espírito (2.13) (p. 266).
  119. 119. Uma vez que a passagem tem em comum o mesmo contexto, as duas interpretações levam praticamente à mesma aplicação. Como na teologia joanina, a sabedoria meramente humana não é capaz de entender as coisas do Espírito ( Jo 3.3,8,10); João permite o uso de analogias terrenas, mas até mesmo essas analogias parecem não passar de enigmas de um sábio para alguém que não conhece as coisas celestiais (3.12)… Na mesma tradição, só é possível conhecer a Deus por meio da revelação divina em Cristo (Mt 11.27) (p. 268).

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