O silêncio que envolve o mundo a temática do conto insônia

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O silêncio que envolve o mundo a temática do conto insônia

  1. 1. "O SILÊNCIO QUE ENVOLVE O MUNDO": A TEMÁTICA DO CONTO “INSÔNIA”, DE GRACILIANO RAMOS, COMO REFLEXÃO PARA AS INQUIETUDES PÓS- MODERNAS BORGES, FRANCIELI; OURIQUE1, JOÃO LUIS PEREIRA1 Aqui será abordada a discussão que vem sendo desenvolvida no subprojeto de pesquisa que está em andamento, intitulado O drama social filtrado pelo drama do indivíduo nas obras de Graciliano Ramos, vinculado ao projeto de pesquisa Regionalismo e regionalidade em João Simões Lopes Neto e Graciliano Ramos: diálogos sobre formação cultural, apoiado pela FAPERGS, e à linha de pesquisa Literatura e Estudos Regionais, Culturais e Interculturais do Grupo de Pesquisa CNPq ÍCARO. O projeto aborda a noção de regionalidade (em complementação ao conceito de regionalismo literário), que oportuniza outras possibilidades interpretativas acerca dos temas relacionados com a identidade e com as condições sócio-históricas de produção de textos literários. Aluna do curso de Licenciatura em Letras/Português e Literaturas de Língua Portuguesa, na Universidade Federal de Pelotas, bolsista de iniciação científica FAPERGS. francielidborges@gmail.com BORGES; Professor Doutor do Departamento de Letras e Comunicação, na Universidade Federal de Pelotas. jlourique@yahoo.com. OURIQUE1 RESUMO Este trabalho pretende realizar uma análise do conto “Insônia”, do livro homônimo de Graciliano Ramos. Essa narrativa convida o leitor a se vincular ao espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas, abordando questões ainda hoje vivenciadas, sendo possível, além da identificação com o leitor, uma comparação entre inquietudes do homem moderno e do homem pós-moderno. As discussões e análises aqui apresentadas se sustentam, principalmente, na abordagem teórica e crítica de Antonio Candido, Walter Benjamin, Anatol Rosenfeld, Erich Auerbach e Zygmunt Bauman. Palavras-chave: Literatura, Graciliano Ramos, inquietude, experiência, Pós-Modernidade. INTRODUÇÃO A leitura de uma obra literária permite explorar, além das análises calcadas nos aspectos formais, os aspectos psicológicos, sociais e históricos da qual fez parte e refletiu em suas páginas. A temática, a fragmentação e a repetição de expressões presentes no
  2. 2. conto “Insônia” são os elementos mais evidentes dessa relação de inquietude que aproxima a narrativa daquilo que entendemos, de forma ampla e genérica, como pós-modernidade. TRABALHO PROPRIAMENTE DITO A abordagem das situações cotidianas por um viés mais crítico é um desafio ao qual inúmeros escritores se dispõem, mas essa atitude frequentemente se transforma em armadilha: primeiro, porque sabemos que descrever o tempo no qual estamos inseridos é uma tarefa árdua e implica, necessariamente, uma visão reduzida acerca das situações que se relata; e por fim, porque as personagens – em sua maioria - se tornam caricaturas, clichês da sua época, previsíveis, ou seja, são relatos superficiais, geralmente construídas em torno de uma única ideia ou qualidade. O autor de Insônia, por outro lado, evidenciando o tom de incerteza e atentando às descrições mundanas com profusão, coloca em cheque os símbolos burgueses decadentes de uma sociedade que tem produzido cada vez mais angústia, melancolia e insones. Graciliano Ramos criou modos literários nos quais descreve complexos e variados lados da natureza humana, as suas paixões, desgostos e motivos de seus impulsos. Nesse sentido, a vaidade e o orgulho rompem, mediante a expressão trágica, com os traços de polidez impostos pelos costumes e hábitos. O escritor descreve a sordidez dos ambientes e a pretensa conduta das personagens, salientando os pontos em comum com situações reais. Em seus escritos algumas características são fortemente marcadas. Enquanto algumas vezes são o equilíbrio e quase excesso de lucidez que vêm do âmago de suas personagens, outras são os impulsos desordenados e desvairados que se sobressaem nas mesmas. A problemática da virtude e as relações permeadas por impulsos vis aparece como uma realidade onde todos nos inserimos. O escritor nordestino foi o romancista de uma região. Apesar da constante captação de valores humanos, pode se situar ao mesmo tempo em duas posições definidas: realizador de um documentário ao modo dos neorrealistas e animador do psicologismo. A estrutura social subsiste em função do acontecimento humano: as personagens dependendo das contingências – guerras, revolução, seca - para que projetem os dramas em intensidade. Há tamanha necessidade da humanização que, para assegurá-lo, Graciliano não subordina apenas o cenário ao homem, mas no homem penetra em busca dos grandes acontecimentos. É tão intransigente na revelação das personagens, nessa necessidade em apresentá-las em função da natureza humana, que obscurece o cenário em alguns casos. Ele se utiliza do monólogo para evidenciar as relações por intermédio do processo mental. Os contos de Insônia, antes do formato atual, foram publicados em jornais e reunidos com outros nomes. A perspectiva “noturna”, no entanto, é mantida e mais de metade do livro
  3. 3. se passa à noite. Os textos possuem vocábulos secos e frases endurecidas. Em diversos casos, a narrativa aborda a frustração e a confusão da personagem, entre a aversão por pessoas e coisas e a percepção brutal do mundo que a cerca, sem, contudo, conseguir distinguir ao certo o real do imaginário. O clima opressivo absorve o leitor, já que a vida é compreendida com demasiado negativismo. Isso se explica, segundo Rosenfeld e Auerbach, pela profunda mudança social e, portanto, na forma de pensar das pessoas durante a Modernidade. Essas transformações levariam à necessidade de representação de uma consciência multiforme e aberta a contradições, que se expressaria na instabilidade de conduta de narradores, na construção de personagens marcadas por paradoxos e vazios, na inutilidade ou impenetrabilidade de ações. É justo afirmar que Graciliano levou a ficção nordestina para o círculo exato em que se move o romance moderno. Sobre os anos trinta do século XX, é possível dizer que foi marcado pelo intenso engajamento político e social no campo da cultura. Ainda que alguns autores não tivessem consciência clara ou definição exata sobre suas obras, a inserção ideológica dá contorno àquele período. Até então, o Nordeste tinha dois ciclos perfeitamente caracterizados: o ciclo pré-modernista e o ciclo pós-modernista. No primeiro, o espaço da cena é ocupado pela ação episódica e em plano secundário os elementos sociais (Franklin Távora e Domingos Olympio). No segundo, os elementos sociais superam a ação episódica traduzindo rigorosamente o documentário (José Américo de Almeida e Rachel de Queiroz). Parece não ter havido o romance modernista. A colocação foi “a priori” e “a posteriori”. Mas ao fechar-se o segundo ciclo, Graciliano Ramos abre a terceira fase: acrescenta o documentário, sem anular a irradiação social e nem a inquirição psicológica. No posfácio do livro Insônia, em sua 13ª edição, Adonias Filho, in RAMOS (1977: 173) observa que: A flagrante exterioridade, muitas vezes atingindo o paisagístico, perde o domínio que exercia. Restringe-se o elemento descritivo. A narração, que era meramente episódica, transforma-se, condensando, e adquire mais forte capacidade de representação. A imediata decorrência será um novo conteúdo, nele o problema humano preenchendo o maior espaço. Mas, o que me parece importante é o romancista dele aproveitar-se para, sem eliminá-lo, fundamentar o realismo social. A primeira conclusão a aparecer, pois, é a de que a representação social resulta do núcleo humano, as personagens em parte relacionadas com o a condição humana e só posteriormente na dependência das fronteiras regionais. [...] É que se torna justo reconhecer em Graciliano Ramos o ficcionista que renova a novelística nordestina. Graciliano, após período conturbado no qual esteve preso pela ditadura Vargas, até fins de 1937, resolve permanecer no Rio de Janeiro inicialmente escrevendo para jornais.
  4. 4. Esse é o meio no qual surge o conto “Insônia”, no qual, de repente, o narrador/personagem de RAMOS (1977: 9) é arrancado pela pergunta “sim ou não?”: Sim ou não? Esta pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo e acordou-me. A inércia findou num instante, o corpo morto levantou-se rápido, como se fosse impelido por um maquinismo. Sobre o que se deve decidir? Essa é a dúvida que permeia o texto. Os insones, na tentativa de dormir, acabam refletindo sobre alguns fatores que têm o efeito inverso e os distanciam do pretendido descanso. Nessa angústia, não há alternativa a não ser observar e registrar um mundo escuro no qual vagam incertezas e oscilações entre a razão e a loucura. Nesse mundo se ganha alguma coisa, mas, habitualmente, também se perde alguma coisa. Freud fala sobre essas questões em 1930 através de um texto originalmente intitulado Das Unglück in der Kultur (A infelicidade na cultura) e que posteriormente teve o nome de Das Unbehagen in der Kultur (O mal-estar na cultura), conhecido no Brasil como o aclamado O mal-estar na civilização. Assim, o psicanalista destacou termos como “regulação”, “compulsão”, “supressão” ou “renúncia forçada”, além de observar que os seres humanos precisam ser obrigados a apreciar e respeitar a harmonia, a limpeza e a ordem. A renúncia aos instintos é evidente, já que os prazeres da vida moderna vêm com uma ordem pré- estabelecida que tem como um dos resultados a escassez de liberdade. BAUMAN (1998: 10) observa: Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. [...] Se os obscuros e monótonos dias assombram os que procuravam a segurança, noites insones são a desgraça dos livres. Sabemos que o “problema de identidade” é uma característica muito difundida entre as pessoas da contemporaneidade. Pode-se dizer que o que ocorre é uma falta de recursos com os quais se tornaria possível construir uma opinião mais sólida e duradoura sobre quem são. Nos momentos de aflição dos insones se experimenta uma percepção muito mais apurada sobre si e o mundo, já que o momento de dormir é, conhecidamente, aquele no qual refletimos e entramos em contato com nós mesmos. A tristeza, o desânimo e o cansaço dificultam o sono tranquilo e nesses lampejos no meio da madrugada surgem as divagações. RAMOS (1977: 12), em sua ficção, evidencia: A luz que vinha da casa próxima desapareceu, a vidraça apagou-se, e este quarto é uma sepultura. Uma sepultura onde pedaços do mundo se ampliam desesperadamente.
  5. 5. A palavra “homem”, na passagem seguinte, pode ser entendida como referência a um indivíduo social. Embora o equilíbrio da personagem seja precário e frágil, ela deseja poder se proteger do que lhe é obscuro. Essa é a sensação de medo e impotência, tão conhecida por todos. Mesmo cônscios que o medo é um sentimento experimentado por toda criatura viva, os humanos têm uma espécie de medo “em 2º grau” que é um medo, por assim dizer, social e culturalmente “reciclado” que orienta o seu comportamento, quer haja ou não uma ameaça presente (poderão ser os resquícios históricos). Os perigos dos quais se têm medo (e também os medos derivados que o estimulam) podem ser de três tipos: Alguns ameaçam o corpo e as propriedades. Outros são de natureza mais geral, ameaçando a durabilidade da ordem social e a confiabilidade nela, da qual depende a segurança do sustento (renda, emprego) ou mesmo da sobrevivência no caso da invalidez ou velhice. Depois vêm os perigos que ameaçam o lugar da pessoa no mundo – a posição na hierarquia social, a identidade (de classe, de gênero, étnica, religiosa e, de modo mais geral, a imunidade à degradação e à exclusão sociais). RAMOS (1977: 18) escreve: Desejaria conversar, voltar a ser homem, sustentar uma opinião qualquer, defender-me de inimigos invisíveis. As ideias amortecem como a brasa do cigarro. O frio sacode-me os ossos. E os ossos chocalham a pergunta invariável. – Sim ou não? Sim ou não? Sim ou não? Sabemos que a gravata há muito simboliza o poder masculino e representa, ainda hoje, status e formalidade. O objeto, citado no texto, pode ser uma representação da inquietação causada pela profissão enfadonha, mas necessária. A personagem de RAMOS (1977: 16) comenta: Rio, tento libertar-me da loucura que me puxa para uma nova queda, explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz: é uma gravata. [...] A pessoa invisível que me persegue não se contenta com a interrogação multiplicada: aperta-me o pescoço. Tenho um nó na garganta, unhas me ferem, uma horrível gravata me estrangula. Esse mesmo objeto, a gravata, faz lembrar algumas estruturas sociais que se perpetuaram através dos anos, sobretudo àquelas que desviam o projeto que originalmente via a comunidade como defensora universal da vida digna. A busca pela satisfação das necessidades que a vida moderna impunha e que agora se faz respeitar de maneira ainda mais cruel é o mesmo desejo interminável pelo sucesso “ao alcance de todos” que se vê nas vias midiáticas. No entanto, o que observamos é o sofrimento causado pelo descontentamento ininterrupto que vê o modo de vida simples como uma espécie de humilhação. BAUMAN (1998: 35) observa:
  6. 6. Os efeitos psicológicos, porém, vão muito além das crescentes fileiras de despojados e dos redundantes. [...] Nenhum emprego é garantido, nenhuma posição é inteiramente segura, nenhuma perícia é de utilidade duradoura, a experiência e a prática se convertem em responsabilidade logo que se tornam haveres, carreiras sedutoras muito frequentemente se revelam vias suicidas. [...] Meio de vida, posição social, reconhecimento da utilidade e merecimento da autoestima podem todos desvanecer-se simultaneamente da noite para o dia e sem se perceber. A personagem de RAMOS (1977: 17) faz refletir, também, o conceito de felicidade: Evidentemente sou um sujeito feliz. Hem? Feliz e imóvel. [...] Amanhã comportar-me-ei direito, amarrarei uma gravata ao pescoço, percorrerei as ruas como um sujeito doméstico, um cidadão comum, arrastado para aqui, para acolá, dizendo frases convenientes. Feliz, completamente feliz. Tentando convencer-se sobre uma felicidade duvidosa o insone do texto propicia a reflexão sobre o conceito de felicidade que temos na pós-modernidade, que é o conhecido “momento feliz” e não o “estado de satisfação”. O que observamos nos dias de hoje é uma sucessão de reinícios e uma ampla procura por especialistas para auxiliar a esquecer, apagar e desistir. Têm-se duas escolhas: modernizar (leia-se substituir) ou perecer. BAUMAN (2007: 12) atenta que: A constância, a aderência e a viscosidade das coisas, tanto as animadas quanto inanimadas, são os perigos mais sinistros e terminais, as fontes dos temores mais assustadores e os alvos dos ataques mais violentos. O sujeito doméstico ao qual Graciliano se refere é o ser humano seguro e convencional dos moldes sociais que não raro vive dias monótonos e noites em claro, inseguras, que tiquetaqueiam um relógio inexistente que aprisiona inconscientemente. Esse quadro é cotidiano e acaba rareando a liberdade em um nível alarmante. Surge aí a melancolia. SCLIAR (2003: 9), sobre esse quadro, diz que: Esse progresso não se faz sem preço. Os Estados modernos surgem em meio a guerras e conflitos. Há riqueza e há miséria; há uma brusca alternância entre otimismo e pessimismo, entre euforia e desânimo, verdadeira bipolaridade emocional que se traduz em incerteza quanto ao futuro. [...] A melancolia pode ser uma espécie de contágio psíquico, dominando o clima de opinião e conjuntura emocional de um grupo, uma época e um lugar. O melancólico está sempre envolto em um profundo sentimento de desânimo. Ele experimenta a perda de si mesmo. A sensação de incapacidade e a reflexão do que poderia ter sido não são usadas como aprendizado para soluções dos problemas vindouros, são usadas como um lamento daquilo que não se conseguiu realizar. Com isso, o melancólico
  7. 7. vive a angústia de não ter tido a melhor atitude em determinado momento e rememora de uma maneira tão constante (e isso talvez explique a repetição da pergunta “sim ou não?” utilizada vinte e uma vezes no texto) que só percebe o fracasso, e não a possibilidade de uma reflexão acerca de um futuro otimista. Essa escrita esquizofrênica é um reflexo do que o indivíduo experimenta no meio contemporâneo: um amontoado de fragmentos não relacionados entre si. A personagem de RAMOS (1977: 15) reflete: Que me dizia ontem à tarde aquele homem risonho, perto de uma vitrina? Tão amável! Penso que discordei dele e achei tudo ruim na vida. [...] Um silêncio grande envolve o mundo. O romance moderno, que originalmente era linear e progressivo, se entretinha em fazer paródia para criticar os costumes e subverter a história. Na pós-modernidade o que se tem é o pastiche, que é uma espécie de paródia branca, sem fundo crítico. O pós-moderno faz irromper várias culturas, já que há várias histórias - uma história em espiral que choca com os conceitos lineares. O apontamento vai para uma sociedade na qual o valor de troca é maior que o valor de uso: as imagens não são vistas como são e sim como parecem ser. O que ocorre no texto de Graciliano e que se evidencia em diversos textos contemporâneos é a desrealização do mundo circundante da realidade cotidiana. O mundo perde a sua profundidade e ameaça se tornar uma ilusão: a euforia e a intensidade são reproduzidas e implicam a desrealização do mundo, já que apresentam uma falsa verdade. Torna-se interessante pensar que o conto de Ramos evidencia o cansaço, a descrença e a confusão do homem moderno, pois, ao atentarmos para os dias de hoje, é nítido que essas questões não se desfizeram com o passar do tempo. A vida na pós- modernidade continua sendo uma busca contínua – sem que haja certeza sobre as coisas que se busca - e uma eterna checagem de estratagemas que nos permitam ofuscar que, talvez, esse período não tenha conseguido se livrar de muitos dos problemas que o antecederam. CONSIDERAÇÕES FINAIS As obras mais completas costumam manifestar dois aspectos da realidade, interior e exterior, estabelecendo relação de sujeito a objeto. Contudo, são ainda mais completas e indiscutivelmente mais problemáticas se fizerem a redução de um dos ângulos. Os escritores parecem alcançar uma plenitude quando ficam menos subjetivos, na tentativa de primar pela estratégia objetiva que reconhece a existência própria do mundo no qual o sujeito se insere. Ler os escritos do autor nordestino nos faz desenvolver aquela visão com a qual ao enunciar um nome a um lugar acabamos associando o lugar a um conjunto. Se enquanto que na modernidade de Graciliano Ramos, no ido século XX, suas personagens eram
  8. 8. reflexos de situações inquietantes, infelizes, confusas e beiravam a insanidade, na pós- modernidade observamos que o incompreensível virou cotidiano. FREUD (1980: 67) atenta para a seguinte questão: Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos. Pensando que o leitor pode dispor de inúmeras interpretações para um mesmo texto, se tem a impressão que no conto “Insônia” poderá ser feita uma leitura crítica potencialmente emancipadora, já que sua obra se situa no ponto de convergência entre a comparação entre o que se viveu e o que se vive. Dessa fusão da personagem, cenário e contexto social sai o drama que transmite ao livro a descarga nervosa que Aristóteles teria denominado catarse. REFERÊNCIAS AUERBACH, Erich. Mimesis: A representação da realidade na literatura ocidental. São Paulo. Perspectiva, 1976. BAUMAN, Z. Medo Líquido. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 2006. BAUMAN, Z. Modernidade e Ambivalência. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1991. BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 1998. BENJAMIN, W. A modernidade e os modernos. Tradução Heindrun Krieger Mendes da Silva e Arlete Brito. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000. CANDIDO, A. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. CANDIDO, A. Literatura e Sociedade. 8. ed. São Paulo: T.A. Queirós, 2000. FREUD, S. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. RAMOS, G. Insônia. 13. ed. São Paulo: Record, 1977. RAMOS, R. Graciliano: retrato fragmentado. São Paulo: Siciliano, 1992.
  9. 9. ROSENFELD, A. Texto / contexto II. São Paulo: Perspectiva / Ed.USP / Ed. Unicamp, 1993. SCLIAR, M. Saturno nos trópicos: a melancolia europeia chega ao Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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