Investigaçao da prática pedagógica de professores com alunos

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Investigaçao da prática pedagógica de professores com alunos

  1. 1. 1 INVESTIGAÇAO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA DE PROFESSORES COM ALUNOS PORTADORES DE DISTÚRBIOS ARTICULATÓRIOS (DISLALIA) Marilda Carneiro Santos marilda.cs@terra.com.br Universidade Estadual de Feira de Santana - Brasil Estamos atravessando um momento de grandes reflexões sobre a Educação em nosso país, e não podemos pensar isoladamente a Educação Especial que vem se construindo historicamente e acompanhando os progressos não só da Medicina e da Psicologia, mas também da Pedagogia. A Educação Especial, que obedece aos mesmos princípios da Educação Geral, deve ser iniciada no momento em que educadores ou pais identificarem atrasos ou alterações no desenvolvimento global da criança e deve continuar ao longo de sua vida, valorizando suas potencialidades e oferecendo-lhe todos os meios para desenvolvê-las ao máximo. O Ministério da Educação - MEC, a partir da nova LDB tem investido em um sistema de informações e políticas adequadas às exigências e complexidades da Educação Especial. Segundo dados atuais do Ministério da Educação e Cultura, o Programa Nacional de Capacitação de Recursos Humanos já atende 135 municípios. Dados estatísticos também comprovam o aumento (entre 1996 a 1999) de matrículas de alunos com Necessidades Educativas Especiais - N.E.E (por deficiência) em escolas regulares. As publicações na área foram igualmente incentivadas, e o próprio ministério lançou a série Diretrizes, específica para cada Necessidade de Educação Especial, e os Parâmetros Curriculares Nacionais para a Educação Especial.Como a Educação Especial deve utilizar metodologias especiais diversificadas e alternativas de atendimento diferenciado, ela necessita, além de fundamentos que norteiem suas orientações específicas, do profissional capital especializado, com vistas a proporcionar aos portadores de N.E.E. condições que lhes favoreçam a integração na sociedade.Isso quer dizer que, quando pensamos na formação do educador, devemos, também, pensar em uma escola que dê a todos2 uma mesma formação básica, uma vez que, neste momento histórico, o que queremos formar é o professor qualificado, o professor preparado para lidar com todos os alunos, incluindo os portador de necessidades especiais. A lacuna encontrada nas preocupações do MEC e o alto índice de incidência de problemas articulatórios funcionais comprovam a relevância de trabalhos a serem desenvolvidos nessa área, principalmente porque a linguagem constitui uma das manifestações essenciais na vida psíquica do homem, além de ser propriedade distintiva dos seres humanos. A aquisição lingüística é o resultado de uma atividade nervosa complexa que permite a comunicação interindividual de estados psíquicos e representa uma habilidade decorrente de uma complexa integração dos vários sistemas biológicos (cerebral, auditivo, motor e outros) inter-relacionados com os aspectos psíquicos, cognitivos, afetivos e sociais. Este trabalho analisa a pratica pedagógica de sete professores da primeira série do ensino fundamental em três escolas municipais de Feira de Santana em classes com crianaças com distúrbios articulatórios funcionais (dislalia). Para uma melhor compreensão dos distúrbios articulatórios funcionais (DAF), revisitamos as principais teorias sobre a aquisição da linguagem cujas perspectivas são diferentes e mesmo contraditórias. A teoria de Chomsky (1966) advoga que o indivíduo nasce com capacidades inatas e um conhecimento subjacente de uma gramática universal, ou seja, universais cognitivos e lingüísticos inerentes a todos os indivíduos que serão estimulados pelo meio. A teoria comportamentalista de Skinner (1957) contrasta, agudamente, com a abordagem chomskyniana e percebe a linguagem como um comportamento verbal semelhante a todos os outros comportamentos operantes condicionados, decorrentes da aprendizagem estímulo - resposta. Piaget (apud CASANOVA, 1997), por sua vez, lado afirmou que os indivíduos nascem apenas com uma potencialidade (capacidade inata): aquela de aprender. Assim, o conhecimento e desenvolvimento da criança dependem de exposição ao meio e da integração e construção do conhecimento. Para o autor, a base do conhecimento é a transferência e 2 Grifo nosso
  2. 2. 2 assimilação de “estruturas”, e uma língua seria adquirida por assimilação dos modelos favorecidos pelo meio. A linguagem, além de não se apresentar como uma capacidade inata, precisa esperar que uma etapa cognitiva se desenvolva para que o indivíduo possa começar a manifestar processos de “assimilação” ligados à aquisição da língua. Nesta breve perspectiva histórica, não se poderia deixar de mencionar a influência de Vygotsky, defensor decidido da linguagem como fenômeno sociocultural, e da aprendizagem como força motriz do desenvolvimento. Ele adotou uma postura interacionista, com respeito à aquisição e desenvolvimento da linguagem. Para ele, na interação entre o meio e a criança, ocorrem os processos de aquisição da linguagem, uma linguagem cujas funções ele estudou e definiu com precisão no seu livro Pensamento e Linguagem (1995). O estudo do desenvolvimento da linguagem realizado por Vygotsky constitui a contribuição mais específica do autor para a compreensão dos processos mediadores no desenvolvimento das funções psicológicas superiores. A linguagem vai se configurando como parte básica do desenvolvimento cognitivo, já que permite à criança, entre outras funções, perceber a realidade através das categorias lingüísticas e planejar e regular sua atividade. Para ele, quando o indivíduo começa a dominar a língua, apresenta duas funções de uso dessa língua, que são paralelas e não se confundem: a função social e a função cognitiva, (apud GOLDFELD, 1998, p.10). Para Vygotsky, o desenvolvimento da linguagem se assenta na apropriação individual da experiência sociocultural que é transmitida do adulto para a criança por meio do comportamento verbal simbólico. Acredita-se que, numa visão psicolingüística, esses são alguns pontos fundamentais sobre os quais se sustentam os estudos sobre a aquisição da linguagem considerados relevantes para o estudo que se pretende desenvolver. Tais teorias ajudaram a definir, também,o marco teórico desta pesquisa, que é sócio-histórico-cultural. A fim de analisar a formação do professor para o ensino fundamental, tem-se também como referencial as discussões mais recentes sobre a qualidade, a democratização e a modernização da escola. Schon (1983), Nóvoa (1995) Zeichner (1995) e Perrenoud (1998, 2000) introduziram novas abordagens no debate sobre a formação de professores, saindo de uma perspectiva centrada nas dimensões acadêmicas para uma perspectiva centrada nos professores como profissionais reflexivos, capazes de identificar as características do seu trabalho técnico e científico e o tipo de conhecimento e as competências que são chamados a colocar em prática. Segundo Nóvoa (1995, p. 9), “não há ensino de qualidade, nem reforma educativa ou inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores”. E no entendimento dessa formação, remetemos, de novo, ao paradigma de reflexão, considerando que o conceito de professor reflexivo, como prático reflexivo, reconhece a riqueza da experiência que reside na prática dos bons professores. Assim, a perspectiva de cada professor pressupõe a melhoria de seu ensino, começando pela reflexão sobre sua própria experiência (ZEICHNER,1993). A idéia de que os professores aprimoram seu trabalho ao longo da carreira ou que a experiência prática confere à prática pedagógica uma qualidade potencialmente superior, apesar de tácita entre os próprios professores, apenas recentemente começa a ser reconhecida pelos especialistas, como variável decisiva para compreensão do trabalho educativo e, sobretudo, para a ação e formação dos professores. Defende-se que a formação do professor deva acontecer ao longo da sua vida profissional pela da reflexão sobre a sua ação pedagógica, levando em conta a sua formação inicial. O ensino reflexivo deve, pois, aglutinar as preocupações com a experiência pessoal e com a prática, na formação e no desenvolvimento profissional de professores. Para o desenvolvimento do trabalho em sala de aula, a orientação teórica buscou, em Vygotsky, as explicações sobre os processos de desenvolvimento e de aprendizagem. Ele tem o mérito de fornecer a base teórica para o aprofundamento de nossa compreensão da prática
  3. 3. 3 pedagógica, especialmente aquela relativa a para crianças com necessidades educativas especiais. O próprio fato de Vygotsky ter trabalhado, durante grande parte de sua vida profissional, na área de crianças com problemas, sugere que sua contribuição nessa área deve ser tão profunda quanto nas outras em que atuou. Partindo da concepção geral de que, no desenvolvimento das crianças com deficiência, atuam as mesmas leis gerais do desenvolvimento do resto das crianças, Vygotsky explica a relação do ensino e do desenvolvimento, a partir da zona de desenvolvimento proximal - ZDP, na perspectiva mais positiva e otimista da escola especial (VYGOTSKY, 1995). A pesquisa foi delineada como um estudo bifásico. A primeira fase, descritiva e explicativa, consistiu no diagnóstico geral dos distúrbios da fala, em três escolas municipais do ensino fundamental, em Feira de Santana, e na identificação e análise da prática pedagógica dos professores de alunos com distúrbio articulatório. Os professores das séries fundamentais indicaram 121 alunos identificados por eles como portadores de distúrbios de fala. Uma avaliação de linguagem foi realizada, e constatamos que 43 (35,53 %) dos alunos apresentavam distúrbios de fala, dos quais 24 (19,83 %), distúrbios articulatórios funcionais simples ou complexo. As 03 escolas que apresentaram maior número de alunos com distúrbio articulatório, por turma, foram selecionadas como área da pesquisa. Portanto, trabalhamos com 19 alunos com D.A.F e 07 professores. Posteriormente, elaborou-se uma Proposta de Intervenção Pedagógica- PIP cujo objetivo é intervir na formação inicial e permanente dos professores do município. Essa segunda etapa propôs (1) modificações no Currículo do Curso de Pedagogia da UEFS e no programa da Disciplina Distúrbios da Fala e da Escrita, de modo a contemplar as necessidades dos futuros professores do ensino fundamental da rede pública de ensino em Feira de Santana; e (2) elaborar e aplicar um projeto de extensão 3 de caráter permanente que dê apoio metodológico e lingüístico aos professores que já atuam nas escolas municipais. O estudo inicial comprovou que o professor necessita de preparo para trabalhar com crianças portadoras de distúrbios da fala, confirmando a problemática do estudo, que é a atenção educativa às crianças com distúrbio articulatório funcional que freqüentam as escolas municipais. Partindo do pressuposto que a falta de conhecimento teórico-prático do professor, em relação ao trabalho com crianças portadoras de distúrbios da fala, dificulta o processo ensino – aprendizagem, tentou-se identificar os distúrbios da fala existentes e a prática docente nas séries iniciais do Ensino Fundamental , em escolas da rede municipal de Feira de Santana. O desenvolvimento da Pedagogia e Psicologias Especiais tem demonstrado que os alunos com N.E.E precisam receber educação diferenciada, em virtude de sua condição de portador de deficiência auditiva, visual, mental, dificuldades de linguagem e outras. Assim, a educação especial deve utilizar metodologias especiais diversificadas e alternativas de atendimento diferenciado. Ela necessita, além de fundamentos que norteiem as orientações específicas, do profissional especializado, com vistas a proporcionar aos portadores de N.E.E. condições que lhes favoreçam a integração na sociedade. A educação dos portadores de N.E.E é compreendida em sua dimensão não só cognitiva, mas também afetiva e sociocultural, com o objetivo de favorecer o desenvolvimento da potencialidade e a participação dessas crianças na comunidade. Em síntese, se o professor precisa vivenciar um processo formativo, na profissão, que seja contínuo e permanente, esse processo não pode ser pensado e definido sem que se considerem as necessidades desse professor, o tempo de experiência e, principalmente, seus desejos e expectativas na carreira. O professor precisam ser ouvido, apontar caminhos para poder sentir-se comprometido com sua formação. 3 Projeto de extensão que deverá estar vinculado ao Núcleo de Educação Especial da UEFS (em fase de regulamentação).
  4. 4. 4 Faz-se necessário, também, estudar os distúrbios articulatórios funcionais (dislalia), considerados como uma alteração de fala. Para tanto, é pertinente, neste capítulo, mostrar uma diferença entre fala e linguagem. Autores como (ZORZI, 1999) “definem a linguagem como uma capacidade que engloba diversos aspectos, sendo a fala um deles”, uma vez que a fala é a realização motora da linguagem, é a colocação da língua em palavras, é a sua realização oral. “Fala” se opõe a “Linguagem”: pode acontecer que a criança conheça as palavras, as estruturas da linguagem, que as tenha “na cabeça”, porém não consiga produzi- las por meio de palavras faladas” (AIMARD, 1998, p. 107) A linguagem constitui uma das manifestações essenciais na vida psíquica do homem, além de ser propriedade distintiva dos seres humanos em relação ao resto dos seres vivos. É o resultado de uma atividade nervosa complexa que permite a comunicação interindividual de estados psíquicos. Quando se fala em linguagem verbal, faz-se referência ao uso convencional das palavras faladas ou escritas tendo por objetivo a comunicação interpessoal. Tal uso envolve a aquisição ou domínio de uma série de aspectos lingüístico-comunicativos, dentre os quais, a fala está incluída. Os distúrbios de linguagem podem comprometer-lhe o uso com fins comunicativos, ou seja, distúrbios que prejudicam aspectos ligados à fase de planejamento, assim como a própria compreensão da linguagem. Nessa categoria, os distúrbios podem afetar as funções pragmáticas (alterações, quanto aos usos e funções da linguagem), formais (gramaticais) e semânticas ( conteúdo ) ( ZORZI, 1999, p.113). Fala é o processo fisiológico mediante o qual a pessoa faz uso da linguagem como meio de comunicação dos indivíduos, utilizando os movimentos dos órgãos fonoarticulatórios (lábios, dentes, língua, bochecha, palato etc.). É um ato individual de vontade e inteligência, na qual convém distinguir as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua e mecanismos psicofísicos que lhe permitam exteriorizar essas combinações. Os distúrbios de fala correspondem às alterações que afetam os padrões de pronúncia ou de produção dos sons da língua. Portanto, quando se refere ao distúrbio articulatório funcional, consideram os distúrbios que prejudicam a produção dos fonemas da língua na ausência de alterações orgânicas detectáveis, como, deficiências auditivas e anormalidades anatômicas, o termo "funcional" se refere ao fato de não serem encontradas alterações nas estruturas responsáveis pelo ato da fala. Esses distúrbios estão ligados, principalmente, às fases de programação e/ou execução neuromotora (ZORZI, 1999, p.113). Desde o início da década de 60, em substituição ao termo “dislalia”, alguns autores usam a expressão “distúrbio articulatório funcional”, definido como inabilidade para produzir os sons da fala, que não pode ser explicada a partir de alterações ou desordens emocionais sérias (DICKSON, 1962). A literatura nacional mais atualizada, (ZORZI, 1999, BENINE, 1999, MOTA, 2001) utiliza o termo “distúrbio articulatório funcional”, e em consonância com esses estudiosos, observa-se, neste trabalho, a opção pelo termo distúrbio articulatório funcional. O distúrbio articulatório funcional consiste na presença de erros na articulação dos sons da fala que afetam os padrões de pronúncia ou de produção dos sons da língua. Pode afetar um ou mais fonemas em qualquer posição que o fonema se encontre dentro da palavra (início, meio ou fim). É substituição de um fonema por outro; distorção; omissão ou acréscimo de fonemas na palavra falada. O distúrbio articulatório funcional de que trata este estudo é um problema nos órgãos periféricos (lábio, língua, dentes, bochechas, palato), que não é causado pela linguagem, nem deficiências orgânicas periféricas nem centrais, nem tampouco auditiva, mas sim de uma incapacidade funcional( BARBATO , s.d). Alguns deles são provocados, essencialmente, por um problema motor global ou dificuldades motoras localizadas na região bucofacial, em outros casos, as dificuldades iniciais são mais de ordem perceptivas, a criança não sabe mudar a posição da língua e dos lábios. Poderá surgir também de uma “insuficiente educação da linguagem” no período de desenvolvimento deste, ou de imitação de padrões incorretos de dicção em um meio verbal desfavorável” (BORGES ,1984).
  5. 5. 5 Não se trata, pois, de uma patologia fonoaudiológica grave, mas poderá se tornar um problema sério se persistir, além da idade de aquisição normal sem providência de terapia e compreensão pelos pais e professores. Infelizmente, há, no Brasil pouca divulgação dos estudos sobre os distúrbios de fala e de linguagem. Um outro agravante é a precariedade do sistema de Saúde e de Educação no atendimento aos portadores de distúrbios de fala. Sabe-se, no entanto, de iniciativas isoladas do trabalho com a fonoaudiologia educacional no âmbito da educação pública. Implantado a partir de 1988 pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, foi desenvolvido um trabalho, pela Divisão de Assistência Fonoaudiológica do Departamento de Saúde Escolar, com o objetivo de atender as necessidades do educando, professores e pais. Outra ação de destaque foi desenvolvida por uma escola de 1º grau, pertencente a Fundação Bradesco, a qual promoveu um trabalho conjunto com o professor, sugerindo objetivos e estratégias relacionados à área de linguagem. A problemática da formação de professores tem estado presente em todos os esforços de renovação pedagógica promovidos pelos sistemas de ensino ao longo dos tempos. A busca da construção da qualidade de ensino e de uma escola comprometida com a formação para a cidadania exige, necessariamente, repensar a formação de professores, tanto no que se refere à formação inicial como à formação continuada. A primeira fase deste estudo demonstrou que os professores não estão preparados para trabalhar com crianças portadoras de distúrbios articulatórios funcionais, constatação que reforça a necessidade de se desenvolver um trabalho pedagógico que interfira na formação inicial e permanente dos professores do município. A Universidade, por meio, dos cursos de Licenciatura e Pedagogia, pode favorecer uma melhor conscientização no sentido social e educacional do papel do professor, no plano de uma sociedade e de uma escola inclusiva de melhor qualidade para todos, com profissionais mais preparados para atuar de forma mais eficiente. Acrescenta-se, ainda, que a obra de Vygotsky pode significar uma grande contribuição para a área da educação, na medida em que traz importantes reflexões sobre o processo de formação das características psicológicas tipicamente humanas e, como conseqüência, suscita questionamentos, aponta diretrizes e instiga a formulação de alternativas no plano pedagógico ( REGO, 1995, p.102), numa relação dialógica e conduzida com o recurso de instrumentos pedagógicos de modo a possibilitar o desenvolvimento socio-histórico-cultural do aluno. Com base nas leituras de Shön (1983), Nóvoa (1995), Zeichner (1995) e Perrenoud (2000)) entre outros, foram feitas reflexões sobre a formação do professor, no que se refere à formação inicial e permanente e as relações dessa com os saberes e as experiências da docência, ou seja, o professor reflete na própria prática e é capaz de transformá-la. A pesquisa foi realizada em três escolas municipais de Feira de Santana. As crianças investigadas tinham de 7 a 12 anos de idade e estavam cursando da 1a série do ensino fundamental. As 03 escolas que apresentaram maior número de alunos com distúrbio articulatório funcional, por turma, foram selecionadas como área da pesquisa. Os sujeitos da pesquisa foram 07 professores que lidavam, em salas de aula, com alunos com distúrbio articulatório funcional. Além dos métodos teóricos e empíricos utilizados na pesquisa, a metodologia abordada foi em uma perspectiva qualitativa, apropriada ao objeto de estudo e ao referencial teórico – metodológico; foi realizada, também, análise quantitativa dos dados. A metodologia descritiva se caracteriza fundamentalmente por um contato direto do pesquisador com a situação pesquisada, permitindo reconstruir os processos e as relações que configuram a experiência de aprendizagem. Segundo Ludke e André (1998, p.13), esse tipo de enfoque envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos pelo contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva do participante. A metodologia explicativa tem como preocupação central identificar os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos.
  6. 6. 6 Para fazer o diagnóstico geral dos distúrbios da fala em escolas municipais do Ensino Fundamental, em Feira de Santana, aplicamos um instrumento de avaliação: da linguagem espontânea, na narrativa de quadrinhos, da audição, da visão, dos órgãos articulatórios de fonação, da pronúncia de fonemas e palavras, da percepção de apenas um traço distintivo nas palavras, da organização sintático-semântica e, finalmente, do entendimento de uma estória narrada (contada). Esse instrumento foi testado com 02 crianças de 05 anos que não apresentavam história de problemas de fala (gagueira, rinolalia, dislalia etc), cujas respostas mostraram-se compatíveis com as esperadas para essa faixa etária. A referência à idade de 05 anos para testar o instrumento se deveu ao fato de que é consenso, na literatura sobre estudos da aquisição da linguagem, um patamar aproximado aos 05 anos para a aquisição completa da linguagem. Tais crianças foram testadas em ambiente familiar, obtendo-se resultados bastante positivos, saíram-se bem em todas as questões. Entrevista (anamnese com a família) contextualizada com base em um instrumento cubano sob a orientação do Professor Santiago Borges Rodríguez, pelo qual se procura investigar o desenvolvimento psicossomático, psicomotor, físico, da personalidade, antecedentes patológicos familiares, ambientes familiares, entre outros. Para descrever esses dados, fizemos uma abordagem qualitativa, tendo o ambiente natural como fonte direta dos mesmos, e atentando para o maior número possível de elementos presentes na situação estudada. Foi realizada também uma análise quantitativa dos dados. Para a coleta de dados utilizamos a observação, questionários, entrevistas e registros em diários de campo. O ambiente da aprendizagem foi o eixo central de sustentação para a análise da prática dos professores visados por esta pesquisa. O desenvolvimento do trabalho permitiu-nos o transitar entre a observação e a análise, entre a teoria e a empiria. Cada encontro era registrado no guia de observação e em diários de campo, ao que se acrescentavam comentários livres da pesquisadora. Observou-se que existem na escola crianças portadoras de distúrbios da fala, e que o professor não está preparado para identificar o distúrbio, nem para desenvolver um trabalho em sala de aula de forma a minimizar os problemas educativos que esses distúrbios possam vir a causar, nem tem condições para encaminhar a criança ao especialista. Sabe-se que ainda não existe, na Bahia um serviço público voltado para o tratamento clínico dos distúrbios da fala como também um trabalho relacionado à fonoaudiologia educacional. Mediante a observação da prática pedagógica constatou-se que a formação específica do professor não favorece o trabalho em sala de aula com esses alunos. Diante dessa realidade foi elaborada uma Proposta de Intervenção Pedagógica - P.I.P, que consistiu; (1) em contribuir com a formação inicial do professor mediante a modificação no programa da disciplina Distúrbios da Fala e da Escrita do Curso de Pedagogia da UEFS, que passa então a ser chamada Necessidades Especiais na Aquisição da Fala e da Escrita, e a aplicação de um projeto-piloto na turma da referida disciplina, no semestre 2001.1, com objetivos voltados para o desenvolvimento da prática pedagógica de modo que contemple as necessidades dos professores; (2) em contribuir com a formação continuada. Foi elaborado um Projeto de Extensão com o objetivo de sensibilizar o professor para o trabalho com crianças portadoras de D.A.F, instrumentalizá-lo, por intermédio do trabalho desenvolvido em oficinas, no sentido de poder identificar o distúrbio e ajudar os seus alunos na sala de aula fazendo um trabalho paciente e constante, com exercícios que desenvolvam a oralidade, como também o trabalho preventivo em parceria com os alunos do Curso de Fonoaudiologia da UFBA. A avaliação da Proposta de Intervenção Pedagógica por critérios de especialistas ou profissionais da área foi considerou-a válida uma vez que 100% compreendem bem a sua natureza e a consideram importante para e educação, uma vez que vai preparar melhor o professor para o trabalho com crianças portadoras de distúrbios de fala, com resultados positivos para sua formação profissional; 80% dos especialistas consideram possível a
  7. 7. 7 aplicação da proposta nas escolas municipais de Feira de Santana, como, também, acreditam ela possa minimizar os problemas educacionais das crianças com distúrbios de fala. Diante das evidências que vêm de ser constatada, pode-se concluir que a formação dos professores interfere na prática pedagógica e que o professor não está preparado para trabalhar com alunos que apresentam distúrbios da fala. Justifica-se assim a importância e a necessidade de desenvolverem trabalhos nessa área e a urgência de formar o “profissional especializado” capaz de utilizar metodologias diversificadas e adequadas para favorecer a integração dos portadores de N.E.E. e assegurar-lhe o direito de acesso a aprendizagens imprescindíveis para o desenvolvimento de suas capacidades e potencialidades. Acredita-se que todas as ações que compõem o conjunto da Proposta de Intervenção Pedagógica vão interferir nos saberes pedagógicos do professor, trazer contribuições significativas para sua vida profissional, possibilitando um trabalho mais eficiente, de modo que alcancem desenvolver amplamente as potencialidades de seus alunos. REFERÊNCIAS AIMARD, P : O Surgimento da linguagem na criança. Porto Alegre: Artmed. (1998) BORGES, R. S. et al : Logopedia,. Havana: Editorial Pueblo e Educação. Tomo I. (1985)
  8. 8. 8 CASANOVA, J. P.: Manual de fonoaudiologia. Porto Alegre: Artes Médicas. (1997) DICKSOM, S : Differences between children who spontaneously outgrow and children who retain functional errors. J.Speech Hear. (1962) GONDFELD, M : Fundamentos em fonoaudiologia, linguagem. Rio de Janeiro: Afiliada. (1998) LUDKE, M. ANDRÉ, M : Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: Editora Epu. (1986) NÓVOA, A. (Coord.): Os professores e sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, Instituto de Inovação Educacional. (1995) ______ : Concepções e práticas da formação contínua de professores: In: NÓVOA, A. (Org.). Formação contínua de professores: realidade e perspectivas. Aveiro: Universidade de Aveiro. (1991) MOTA, H.B : Terapia fonoaudiológica para os desvios fonológicos. Rio de Janeiro: Revinter. (2001) PERRENOUD, P: 10 Novas competências para Ensinar. Porto Alegre: Artemed , (2000) REGO, T. C.: Vygotsky: uma perspectiva histórico- cultural da educação. Petrópolis, R J: Vozes. (1995) SCHÖN, D. A.: Formar professores como profissionais reflexivos. In: NÓVOA, Antonio (Org.). Professores e sua formação. Lisboa: Dom Quixote. (1992) VIGOTSKY, L .S : A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes.(1998) ______ : Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes. (1995) ZEICHNER, K.: A formação reflexiva de professores: idéias e práticas. Lisboa: Artes Gráficas. (1993) ZORZI, Jaime Luiz: A intervenção fonoaudiológica nas alterações da linguagem. Rio de Janeiro: Revinter. (1999) ______ . Possibilidades de trabalho do fonoaudiólogo no âmbito escolar-educacional. Jornal do CFFA, jul. (1999)

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