Centro de parto normal

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Centro de parto normal

  1. 1. Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/274Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturienteMachado NXS, Praça NS.DELIVERY CENTERAND OBSTETRICASSISTANCE FOCUSED ON THE PARTURIENT’S NEEDSCENTRO DE PARTO NORMALY LAASISTENCIAOBSTÉTRICACENTRADAEN LAS NECESIDADES DE LAPARTURIENTANilce Xavier de Souza Machado1, Neide de Souza Praça2RESUMOLevando em conta os vários estu-dos e reflexões a respeito do novomodelo de assistência ao parto enascimento (assistência humani-zada), e trabalhando como enfer-meira obstétrica em um Centro deParto Normal, surgiu o questio-namento a respeito desse con-ceito, devido às diversas cono-tações dadas a esse termo. Esteartigo foi produzido com a fina-lidade de divulgar nossa propostade substituição da expressão“assistência humanizada ao par-to”, por “assistência obstétricacentrada nas necessidades da par-turiente”, e de discorrer como essaassistência é prestada no Centrode Parto Normal do HospitalGeral de Itapecerica da Serra (SP),que segue um protocolo de con-dutas obstétricas e normas preco-nizadas pelo Ministério da Saúde.DESCRITORESHumanização do parto.Enfermagem obstétrica.Assistência centrada no paciente.ujeres.RESUMENTeniendo en cuenta los variadosestudios y reflexiones respecto alnuevo modelo de asistencia delparto y nacimiento (asistencia hu-manizada), y trabajando como en-fermera obstétrica en un Centrode Parto Normal, surgió el cues-tionamiento relacionado a eseconcepto, debido a las diversasconnotaciones que se le ha dado.Este artículo fue producido conla finalidad de divulgar nuestrapropuesta de sustitución de laexpresión “asistencia humaniza-da del parto”, por “asistencia obs-tétrica centrada en las necesida-des de la parturienta”, y de dis-currir cómo esa asistencia se pres-ta en el Centro de Parto Normaldel Hospital General de Itapece-rica da Serra (SP), que sigue unprotocolo de conductas obsté-tricas y normas preconizadas porel Ministerio de Salud.DESCRIPTORESHumanización del parto.Enfermería obstétrica.Atención dirigida al paciente.ABSTRACTAs an obstetric nurse working ina Delivery Center and consideringthe studies and reflections on thenew model of assistance to laborand birth (humanized assistance),I started to think about this con-cept, given the various connota-tions attributed to the term. Thisarticle was written with the aimof divulging our proposal ofreplacement of the expression“humanized assistance to child-birth” for “obstetric assistance fo-cused on the parturient’s needs”,and to describe the assistancegiven at the Delivery Center ofthe General Hospital of Itape-cerica da Serra, in the São PauloMetropolitan Region, where aprotocol of obstetric behavior andrules recommended by theMinistry of Health is followed.KEYWORDSHumanizing delivery.Obstetrical nursing.Patient-centered care.Recebido: 16/01/2004Aprovado: 03/08/2004RELATODEEXPERIÊNCIACentro de parto norCentro de parto norCentro de parto norCentro de parto norCentro de parto normal emal emal emal emal eassistência obstétrica centradaassistência obstétrica centradaassistência obstétrica centradaassistência obstétrica centradaassistência obstétrica centradanas necessidades da parturientenas necessidades da parturientenas necessidades da parturientenas necessidades da parturientenas necessidades da parturiente****** Extraído da Disser-tação“Infecçãopuerperal em umCentro de PartoNormal”, Escola deEnfermagem da Uni-versidade de SãoPaulo (EEUSP), 2004.1 Enfermeira Obsté-trica do HospitalGeral de Itapecericada Serra, SP. Mestreem EnfermagemObstétrica e Neona-tal pela EEUSP.nxsm@ig.com.br2 Enfermeira Obsté-trica. ProfessoraDoutora do Departa-mento de Enferma-gem Materno-Infantile Psiquiátrica daEEUSP.ndspraca@usp.br.
  2. 2. Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturiente275Machado NXS, Praça NS.Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/INTRODUÇÃODesde meados da década passada, vem se disseminan-do pelo país um modelo de assistência obstétrica, reco-mendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), querealça a mudança no olhar do profissional de saúde sobrea parturiente e sua família. Trata-se dos Centros de PartoNormal.Os Centros de Parto Normal atendem as normas preconi-zadas pelo Ministério da Saúde(1), conforme Portaria 985/99GM. Constituem-se em unidades de atendimento ao partonormal, localizadas fora do centro cirúrgico obstétrico. Dis-põem de um conjunto de elementos destinados a receber aparturiente e seus acompanhantes, permitindo um trabalhode parto ativo e participativo, empregando práticas basea-das em evidências recomendadas e que os diferenciam dosserviços tradicionais de atenção obstétrica. As primeirasrecomendações para esta modalidade de assistência foramcitadas pela Organização Mundial da Saúde, em 1996(2).Vale destacar que os Centros de Parto Normal surgiramcom o objetivo de resgatar o direito à privaci-dade e à dignidade da mulher ao dar à luznum local semelhante ao seu ambiente famili-ar, e ao mesmo tempo garantir segurança àmãe e seu filho, oferecendo-lhes recursostecnológicos apropriados em casos de even-tual necessidade. Seguem um padrão de pro-cedimentos previamente estabelecidos e quedirecionam as ações que realizam.O estímulo à implantação deste modelode assistência, no país, ganhou força, a partir da década deoitenta, quando o movimento de mulheres, no Brasil e nomundo, passou a questionar as práticas obstétricas de roti-na e apresentar propostas para humanizar o atendimento(3).Nesse período disseminou-se a divulgação de que na maio-ria dos países desenvolvidos a assistência ao parto e nasci-mento de baixo risco fundamenta-se na atenção prestadapor enfermeiras obstétricas e por parteiras especializadas,cuja formação está voltada para o suporte emocional e oatendimento da mulher e do recém-nascido, sem interferir noprocesso fisiológico do parto, permitindo à mãe vivenciaresse momento de forma prazerosa e segura. Este modelo deassistência prevê que, durante a gestação, a mulher tem aoportunidade de estabelecer o plano de assistência ao par-to, junto com o profissional que a atende, e seu primeirocontato, como parturiente, se dá na primeira relação com osprofissionais não médicos, garantindo-se, contudo, o aces-so a níveis de assistência de maior complexidade.Este movimento de mudança na assistência obstétri-ca envolve, também, legitimidade profissional e corporativa,com um redimensionamento dos papéis e poderes na cenado parto, com o deslocamento da função principal no partonormal, do médico obstetra para a enfermeira obstétrica (pro-cedimento legitimado pelo Ministério da Saúde), e do centrocirúrgico (palco da ação) para a sala de parto ou casa/centrode parto(4).No espaço hospitalar, existe uma série de obstáculospara se implantar uma metodologia de assistência que pro-mova o parto normal. A equipe de saúde não aceita comtranqüilidade a mobilidade da mulher, e ela própria sente-sepouco à vontade para decidir sobre os procedimentos deseu parto. Sobrepondo-se a essa situação, os Centros deParto Normal tornam menos hierarquizadas as relações en-tre as parturientes e os prestadores de cuidados, e oferecemum ambiente onde a mulher sente-se mais à vontade diantedos eventos que a circundam(5).O Ministério da Saúde(1), exercendo seu papel norma-tizador, implantou um conjunto de ações por meio de Porta-rias Ministeriais com o objetivo de estimular a melhoria daassistência obstétrica e de regulamentar a atuação do enfer-meiro obstetra na realização do parto normal sem distocia,aplicando práticas baseadas em evidências.Essas considerações nos mostram a es-treita relação entre os Centros de Parto Nor-mal e a assistência obstétrica baseada emevidências, ambos tendo a enfermeira obsté-trica como principal aliada e implementadora.Considerando essa situação e levando emconta os vários estudos e reflexões a respeitodo novo modelo de assistência obstétrica aoparto e nascimento - assistência humanizadaem Centro de Parto Normal - julgamos que aexpressão assistência humanizada não reflete a abrangênciada assistência prestada nesses serviços de assistência aoparto e nascimento, o que originou nosso questionamento arespeito desse conceito. Acresce-se o desgaste do termo pe-las diversas conotações a ele atribuídas.Nossa trajetória profissional, como enfermeira obstétri-ca, com atuação em diversos serviços de obstetrícia, queseguiam o modelo tradicional de assistência ao parto foienriquecida pelo trabalho atual no Centro de Parto Normalde Itapecerica da Serra, SP, inserido em uma instituição quetem como objetivo a redução do número de cesarianas e oincentivo ao parto normal. Nele é adotada a tecnologia apro-priada ao parto e nascimento com estímulo à assistência quevaloriza as necessidades da parturiente.Essa experiência, agregada à vivência profissional ante-rior, motivou-nos a refletir sobre a abrangência do termoassistência humanizada, amplamente empregado pelos ór-gãos e profissionais de saúde ao tratarem dos Centros deParto Normal. Este artigo, extraído de pesquisa anterior(6),foi produzido com o objetivo de justificar a proposta deadequação de nova terminologia à assistência prestada aA expressão assistênciahumanizada não refletea abrangência daassistência prestadanesses serviçosde assistência aoparto e nascimento
  3. 3. Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/276Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturienteMachado NXS, Praça NS.parturiente em Centro de Parto Normal. Sua finalidade édivulgar nossa proposta de mudança de terminologia, me-lhor adequando o conceito de assistência humanizada aoparto.JUSTIFICANDO APROPOSTAAs presentes transformações no modelo assistencialdirecionado à parturiente e a conseqüente valorização dotrabalho da enfermeira obstétrica, nos Centros de Parto Nor-mal, para a realização do parto e nascimento, remete-nos àimportância de realçar o significado da relação entre assis-tência e Centro de Parto Normal.As instituições deveriam propor-se a organizar os servi-ços de assistência obstétrica na perspectiva da promoção eda facilitação de um parto saudável, fisiológico e da preven-ção de possíveis intervenções e agravos, inclusive aquelesresultantes da assistência, como a dor iatrogênica e a lesãogenital da episiotomia desnecessária, entre outros(4).A literatura é rica em trabalhos voltados à assistência à mu-lherquevivenciaociclogravídico-puerperaleque,emsuatota-lidade, emprega o termo assistência humanizada. Por sua vez,existemautoresquereferemqueparatrabalharcomhumanizaçãoé necessário despojar-se da onipotência própria da formaçãomédica,trabalhandocomumaequipemultiprofissionalemqueoespaço de cada um deve ser respeitado(7).Na assistência humanizada, demonstrar interesse e com-promisso com o outro requer a conscientização dos possí-veis dilemas éticos presentes nessa relação. Na proposta derelação humanizada, as informações a serem transmitidasaos clientes e deles recebidas são fundamentais(8).A humanização da assistência reside, também, nas rela-ções interpessoais, em especial entre o profissional e o cli-ente e o acompanhante(9).O relacionamento entre paciente e profissional e institui-ção é fundamental para o processo de humanização, sendoeste composto por fatores como comunicação, empatia,conhecimentos técnico-científicos e respeito pelos sereshumanos(10).A humanização engloba uma série de diferentes aspec-tos referentes às idéias, aos valores e às práticas, envolven-do as relações entre os profissionais de saúde, os pacien-tes, os familiares e os acompanhantes, incluindo os procedi-mentos de rotina do serviço e a distribuição de responsabi-lidades dentro dessa equipe. No entanto, tais fatores tor-nam-se fragmentados se a experiência do nascimento nãofor reconhecida em seus aspectos emocionais(11).Ao prestar assistência humanizada à mulher, que vivenciao ciclo gravídico puerperal, os profissionais devem desen-volver habilidades relacionadas ao contato com essa mu-lher, favorecendo sua adequação emocional à gravidez e aoparto(12). Podem também ajudá-la a superar os medos, asansiedades e as tensões. No modelo humanizado de atendi-mento, a parturiente e seu acompanhante devem ser recebi-dos pela equipe com empatia e respeito, considerando sem-pre suas opiniões, preferências e necessidades.Acreditamos que a assistência humanizada está repre-sentada na expressão assistência centrada nas necessida-des da cliente e vale ser aqui apresentada em maior profun-didade. Não encontramos diferencial na assistência a queambas de propõem, apenas cremos que a segunda apresen-ta maior amplitude para destacar a real assistência prestadae os elementos nela envolvidos.Consideramos que a assistência obstétrica centrada nasnecessidades da cliente deva ser baseada não apenas emprocedimentos e normas técnicas pré-estabelecidas, mas navalorização da individualidade, visto que o ser humano édiferenciado pela própria natureza por ser racional e possuircaracterísticas específicas, como caráter, personalidade, sen-timentos, opiniões, crenças, desejos, aspirações, valorespróprios, dignidade e senso de justiça, que devem ser res-peitados, considerados e valorizados.Ao assistir o indivíduo, o prestador do cuidado deveconsiderá-lo como um todo, com sua subjetividade e comple-xidade, sendo membro de um grupo familiar e de uma comu-nidade(13). Deve, ainda, identificar as mensagens enviadaspelo cliente/paciente e reconhecer seus códigos, compre-endê-los e atuar de maneira a satisfazer as necessidades deatenção e de cuidado da clientela. Nesse processo de cui-dar, não devem ser esquecidos o contexto de vida e os valo-res que o cliente traz quando de sua internação. Saber iden-tificar as diferenças culturais e individuais contribui para aredução de desequilíbrios entre a assistência prestada e asnecessidades básicas da cliente/paciente.Nesse sentido, o cuidado deve ser oferecido de maneiraholística, valorizando-se a pessoa que o recebe(14). Portan-to, a parturiente deve ser considerada como um ser bio-psico-sócio-espiritual, para a qual a assistência de enferma-gem deve atender as necessidades. Dentre outras, devemosdestacar a promoção de sua adaptação ao ambienteinstitucional e a interação harmônica com o contexto onderecebe o cuidado – Centro de Parto Normal.As necessidades humanas possuem diversos concei-tos, porém nenhum deles é definitivo.Assim sendo, é possí-vel estabelecer bases para futuras abordagens e reformu-lações. Essas necessidades são universais e classificam-seem nível psicobiológico, psicossocial e psicoespiritual, di-ferenciando-se apenas no modo de satisfazê-las para cadaindivíduo. A assistência das necessidades humanas bási-cas consiste em um trabalho de equipe, que visa aoautocuidado, a recuperação, a manutenção e a promoção dasaúde em colaboração com outros profissionais(15).
  4. 4. Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturiente277Machado NXS, Praça NS.Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/Como se vê, há estreita relação entre a filosofia de assis-tência que deve ser oferecida à mulher que vivencia o nasci-mento e o parto, e o Centro de Parto Normal. Julgamos opor-tuno, portanto, discorrer sobre a relação deste binômio -Centro de Parto Normal - assistência centrada nas necessi-dades da parturiente.Discorrendo sobre assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturienteJulgamos que o conceito de atenção obstétrica centradanas necessidades da cliente melhor dimensiona o conceitode assistência humanizada, amplamente empregado, atual-mente. Justificamos tal opção pelo seu caráter amplo queenvolve um conjunto de conhecimentos, de práticas e deatitudes que visam não só a promoção do parto, mas tam-bém um nascimento saudável e a prevenção da morbimor-talidade materna e perinatal, com início no pré-natal e garan-tia de que a equipe de saúde realiza procedimentoscomprovadamente benéficos, para a mulher e para o recém-nascido, que evite as intervenções desnecessárias, que pre-serve sua privacidade e autonomia, já que o nascimento éum evento fisiológico e mobilizador, considerado um dosfatos mais marcantes da vida(1).Existem autores que acreditam que asações assistenciais para ser eficazes devemconsiderar não só as atividades técnicas, masas expectativas da mulher.Toda a equipe deve estar atenta no sentido deoferecer-lhe apoio, atenção e respeito desuas crenças e valores, seus medos, suasnecessidades(16).Conforme dito anteriormente, os textos com abordagemna assistência obstétrica prestada em Centros de Parto Nor-mal reforçam o papel da humanização, porém, acreditamosque substituir esta expressão por assistência centrada nasnecessidades da cliente mostrará a real abrangência da pro-posta de atenção desse novo modelo de assistência ao par-to e nascimento.Consideramos, outrossim, que a assistência obstétricacentrada nas necessidades da cliente caracteriza-se pelodireito à autonomia da parturiente, em que a informação éfator relevante, sendo a base principal para que tenha a li-berdade de escolher ou recusar qualquer procedimento rela-cionado com seu próprio corpo, e que esta escolha sejapertinente e convergente ao seu bem-estar. Portanto, estainformação deve ser inteligível, exata, concisa, adaptada aonível sociocultural e cognitivo de quem a recebe, para que oindivíduo possa ser capaz de, conscientemente, escolherqual a proposta para sua assistência que melhor se adapte,conforme seus princípios morais e éticos. Se não houverinformação com qualidade, o direito de decidir adequada-mente torna-se inexistente.Vale esclarecer que, no Centro de Parto Normal,campo desse estudo, a parturiente e seu acompanhantesão informados, constantemente, pela enfermeira obsté-trica que os assiste, sobre a evolução do trabalho de par-to e sobre eventuais mudanças de conduta para que pos-sam colaborar durante todo o processo do trabalho departo ativo até o nascimento. À cliente em trabalho departo é permitido expressar seus sentimentos quanto aosprocedimentos com os quais não concorda, cabendo àequipe, dentro de suas possibilidades, mudar a condutade modo que a parturiente sinta-se segura em relação àassistência prestada.Acreditamos também, que o empenho em manter o rela-cionamento entre os próprios profissionais e clientes, cons-titui-se parte da assistência obstétrica centrada nas neces-sidades da cliente, em que o respeito e a dignidade se tor-nem uma constante e sejam vistos como norma a ser pratica-da naturalmente.Vale acrescentar que ainda há maternidades que não ofe-recem assistência obstétrica centrada nas necessidades dacliente, pois não priorizam a individualidade, a cultura e oscostumes de cada mulher. Submetem-na, nomomento da internação, a rotinas pré-estabelecidas pela organização, e na maioriadas vezes retiram-lhe o direito à privacidade.Para evitar essa situação, a instituição devepreocupar-se com as necessidades da clien-te como princípio da assistência de enferma-gem definido em sua filosofia, oferecendo-lhe condições que, muitas vezes, são repre-sentadas por recursos humanos qualificados,por materiais e equipamentos e pela apro-priada estrutura física do local(17).Para essa visão ampliada da assistência obstétrica, cha-mada de atenção humanizada, propomos sua substituiçãopela expressão assistência obstétrica centrada nas neces-sidades da cliente, considerada por nós de maior amplitudee pertinente à implantação e implementação de Centros deParto Normal.Demonstrando a assistência obstétrica centradanas necessidades da parturiente aplicadaem Centro de Parto NormalAcreditamos ser oportuno citar que a assistência obsté-trica centrada nas necessidades da parturiente é plenamen-te desenvolvida no Centro de Parto Normal de Itapecericada Serra, SP, pois este segue os procedimentos definidospelo orgão gestor máximo do país para a atenção à mulherdurante o parto e o nascimento. Esta unidade, cujos partossão atendidos por enfermeiras obstétricas, realizou 10.559partos normais no período compreendido entre janeiro de2000 e janeiro de 2003.A assistência obstétricacentrada nasnecessidades da clientecaracteriza-se pelodireito à autonomia daparturiente
  5. 5. Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/278Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturienteMachado NXS, Praça NS.A seguir, destacamos os procedimentos adotados poresta unidade de atenção ao parto normal, os quais reforçamnossa certeza quanto à proposta de mudança de terminolo-gia(18). No Centro de Parto Normal de Itapecerica da Serra, aparturiente conta com dieta livre, tem direito a um acompa-nhante de sua escolha, tem liberdade para movimentaçãodurante o trabalho de parto, é estimulada à adoção de méto-dos não farmacológicos no alívio à dor - banho de aspersãoe de imersão para relaxamento, massagens na regiãolombossacra, exercícios de respiração e de relaxamento, es-tímulos a movimentos corpóreos, tais como abaixar, levantare balanço pélvico – o acompanhante é estimulado a partici-par na realização de massagens relaxantes para alívio da dor,são estimuladas as eliminações espontâneas (micção e eva-cuação). É a parturiente quem autoriza a realização do exametocoginecológico, com respeito a sua privacidade. O profis-sional deve considerar o desejo de independência da partu-riente no início do trabalho de parto e sua dependência nofinal deste, deve estimular a ingesta hídrica, realizarmonitoramento fetal pela ausculta intermitente, usar opartograma, encorajar o parto em atmosfera favorável, per-mitir interação entre mãe e filho, estimular o contato pele apele imediatamente após o nascimento, bem como o aleita-mentoprecocecomestímuloàamamentaçãonaprimeirameiahora após o nascimento, estimular o vínculo afetivo com asecção do cordão umbilical pelo acompanhante, em condi-ções estéreis, prevenir hipotermia do recém-nascido, favo-recer a dequitação fisiológica com exame rotineiro da pla-centa e de membranas ovulares, permitir que a família foto-grafe o parto e o nascimento se desejar, autorizar alta preco-ce pós-parto para mãe e filho, com retorno ambulatorial após48 horas, para consulta de ambos. Ao acompanhante é per-mitido o esclarecimento de dúvidas sobre condutas e proce-dimentos, bem como o estímulo à participação em todos osprocedimentos durante o trabalho de parto e o parto.Com esta relação de condutas recomendadas pelo Mi-nistério da Saúde, e definidas no protocolo de atendimentoda unidade, acreditamos que conseguimos caracterizar aamplitude da assistência obstétrica prestada à mulher emCentros de Parto Normal, a qual, com base nos estudos an-teriormente citados e em nossa experiência profissional, se-ria melhor caracterizada como assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturiente.CONSIDERAÇÕES FINAISVale ressaltar que mesmo comprovado por evidências, omodelo assistencial empregado nos Centros de Parto Nor-mal é gerador de resistências entre profissionais da área dasaúde que têm dificuldade em admitir que a assistência obs-tétrica prestada nessa unidade é coerente com uma propos-ta de atenção integral à mulher em trabalho de parto.Acreditamos que, por tratar-se de unidade com propostainovadora, os Centros de Parto Normal em funcionamento,atualmente, no país, constituem-se em ricas experiênciasassistenciais e de ensino, tanto para os profissionais, quan-to para os estudantes da área da saúde, mas em especialpara as mulheres neles atendidas, pois podem usufruir desua autonomia durante a atenção recebida. Cabe a nós, en-fermeiras obstétricas que atuamos nessas unidades, divul-garmos nosso trabalho, favorecendo, portanto, a troca deexperiências; assim, estaremos contribuindo para a dissemi-nação da proposta deste modelo de assistência.A dimensão dos fatores assistenciais, profissionais einstitucionais que regem a filosofia dos Centros de PartoNormal reforçam nossa proposta de substituição da expres-são assistência humanizada para assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturiente.REFERÊNCIAS(1) Brasil. Ministério da Saúde. Federação Brasileira dasAssocia-ções de Ginecologia e Obstetrícia. (FEBRASGO) /AssociaçãoBrasileira de Obstretrizes e Enfermeiros Obstetras (ABENFO).Parto, aborto e puerpério: assistência humanizada à mulher.Brasília; 2001.(2) Organização Mundial de Saúde (OMS). Maternidade segura.Assistência ao parto normal: um guia prático. Brasília; 1996.(OMS/SRF/MSM).(3) Costa Filho CF. Tratado de obstetrícia FEBRASGO. Rio deJaneiro: Revinter; 2000. Infecção puerperal. 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  6. 6. Centro de parto normal e a assistência obstétricacentrada nas necessidades da parturiente279Machado NXS, Praça NS.Rev Esc Enferm USP2006; 40(2):274-9.www.ee.usp.br/reeusp/(9) Basile ALO, Pinheiro MSB, Miyashita NT. Centro de partonormal: o futuro no presente. São Paulo: JICA; 2004.(10) Malik AM. Humanização. Coren-SP. 2000;(29):2-5.(11) Rattner D. Humanizando o nascimento e parto: o workshop.In: Síntese do 1º Seminário Estadual Qualidade daAssistênciaao Parto: contribuições da enfermagem; 1998 maio 14-15;Curitiba. Curitiba: ABEn - Seção PR; 1998. p. 24-5.(12) Carneiro LM. Parto humanizado: humanizar é preciso. J RedeSaúde. 2000;(20):16-7.(13) Cianciarullo TI.Aavaliação do sistema de assistência de enfer-magem como base do desenvolvimento do conhecimento naenfermagem. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR, Melleiro MM,Anabuki MH. Sistema de assistência de enfermagem:evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001. Cap. 16,p. 293-302.(14) Souza MF. As teorias de enfermagem e sua influência nosprocessos cuidativos. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR,Melleiro MM, Anabuki MH. Sistema de assistência deenfermagem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001.Cap. 2, p. 29-39.(15) HortaWA. O processo de enfermagem. São Paulo: EPU/Edusp;1979. p. 33-4.(16) Paschoal MLH, Rogenski NMB. Sistema de assistência deenfermagem perioperatória. In: Cianciarullo TI, Gualda DMR,Melleiro MM,Anabuki MH. Sistema de assistência de enfer-magem: evolução e tendências. São Paulo: Ícone; 2001. Cap.11, p. 201-19.(17) Ceccato SR, Van der Sand ICP. O cuidado humano comoprincípio da assistência de enfermagem à parturiente e seusfamiliares. Rev Eletrôn Enferm. [on-line] 2001; 3(1) Disponí-vel em: http://www.fen.ufg.br/revista.html. [Acesso em 19mar. 2002].(18) Hospital Geral de Itapecerica da Serra (SP). Protocolo deassistência humanizada ao parto e nascimento. Itapecerica daSerra: HGIS; 1999.Correspondência: Nilce Xavier de Souza MachadoRua Concórdia, 44CEP06850-000 - Itapecerica da Serra - SP

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