A evolução do imc

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A evolução do imc

  1. 1. 2 A evolução da altura e doÍndice de Massa Corporalde crianças, adolescentese adultos brasileiros noperíodo de 1974 a 2007Wolney Lisboa Conde, Carlos Augusto Monteiro
  2. 2. Sumário2 A evolução da altura e do Índice de Massa Corporalde crianças, adolescentes e adultos brasileirosno período de 1974 a 2007 267Resumo 269Introdução 269Métodos 270Coleta de dados 271Análise de dados 272Resultados 272Discussão 277Referências bibliográficas 279
  3. 3. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 269ResumoIntrodução:NoBrasil,asintensasmudançaseconômicasesociaisdasúltimasdécadasvêm produzindo importantes repercussões no campo da saúde e nutrição. O acompanha-mento das principais tendências quanto ao perfil nutricional da população permite quese conheçam a dinâmica e o sentido daquelas repercussões. Dois indicadores antropomé-tricos são particularmente informativos sobre o perfil nutricional de uma população: aaltura alcançada pelos indivíduos nas várias idades e o Índice de Massa Corporal (IMC).Objetivo: Descrever o fenômeno da transição nutricional no Brasil, a partir da análiseda evolução de indicadores provenientes de inquéritos antropométricos. Métodos:Os dados procedem de cinco inquéritos domiciliares probabilísticos realizados no Brasil,entre 1974 e 2007. O perfil antropométrico-nutricionalda população brasileira de criançase adolescentes é retratado a partir da distribuição dos índices altura-para-idade e IMC-para-idade. O perfil antropométrico-nutricional da população brasileira adulta é retratadoa partir da distribuição da altura e do IMC. Resultados: Quanto à desnutrição, pro-gressos inequívocos foram demonstrados a partir da evolução continuamente positiva dadistribuição da altura dos brasileiros e da progressiva redução de desvantagens observadascom relação a valores de referência. A evolução da distribuição do IMC nos últimos trintaanos indica pouca variação no risco de obesidade entre crianças menores de cinco anosde idade, independente do sexo, e, no caso de adolescentes e adultos, aumentos contínuosno risco de obesidade são vistos apenas no sexo masculino. Entre meninas adolescentes emulheres adultas, a evolução do IMC apresentou-se virtualmente estabilizada na últimadécada e até com tendência de discreta redução, como no caso das adolescentes.Palavras-chave: Nutrição humana, Índice de Massa Corporal, transição nutricional,perfil antropométrico.IntroduçãoNo Brasil, as intensas mudanças econômicas e sociais das últimas décadas vêm produ-zindo importantes repercussões no campo da saúde e nutrição. O acompanhamento dasprincipais tendências quanto ao perfil nutricional da população permite que se conheçama dinâmica e o sentido daquelas repercussões.A avaliação do perfil nutricional de populações por meio da análise de distribuiçõesdas dimensões corporais dos indivíduos é um procedimento aceito e tradicional no campoda epidemiologia nutricional1.Duas dimensões corporais são particularmente informativas sobre o perfil nutricionalda população que se quer avaliar: a altura e a massa corporal. Na medida em que o cres-cimento linear requer um ótimo estado nutricional, desvios negativos na distribuição daaltura dos indivíduos (com relação a uma distribuição de referência) indicam a exposiçãoda população à desnutrição. Quanto mais acentuado se apresentar o “desvio à esquerda”
  4. 4. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS270na distribuição da altura, mais intensa terá sido a exposição da população à desnutrição.Desvios negativos nadistribuição da altura observados nos primeiros anos de vida refletemexposição recente da população à desnutrição enquanto os mesmos desvios observadosem crianças mais velhas, adolescentes e adultos refletem exposição passada à desnutrição.A massa corporal reflete tanto o desempenho do crescimento linear quanto o acúmulode tecidos que deve acompanhar aquele crescimento. Quando a massa corporal é “ajus-tada” para a altura, como quando se calcula o Índice de Massa Corporal – IMC (peso emkg dividido pela altura em m elevada ao quadrado) tem-se uma medida da adequaçãodo acúmulo de tecidos. Desvios negativos na distribuição do IMC (novamente, comrelação a uma distribuição de referência) refletem acúmulo insuficiente ou espoliaçãode tecidos, usualmente de tecidos adiposo e muscular, indicando, assim, ocorrência dedesnutrição na população. Quanto mais acentuado o “desvio à esquerda”, mais frequentese mais graves serão os casos de desnutrição. Desvios positivos na distribuição do IMCrefletem usualmente acúmulo excessivo de tecido adiposo, indicando, assim, ocorrênciade obesidade na população. Quanto mais acentuado o “desvio à direita” na distribuiçãodo IMC, mais frequentes e mais graves serão os casos de obesidade na população. Dife-rentemente da distribuição da altura, em qualquer idade, a distribuição do IMC reflete oestado nutricional da população vigente no momento da avaliação.A realização de inquéritos antropométricos no Brasil, desde meados da década de1970, oferece os elementos necessários para se estabelecer a tendência de evolução dadistribuição da altura e do IMC da população brasileira ao longo das três ultimas décadas,propiciando, como se verá, informações inéditas e valiosas sobre o fenômeno da transiçãonutricional no País.MétodosAmostragemOs dados utilizados neste estudo procedem de cinco inquéritos domiciliares proba-bilísticos realizados no Brasil entre 1974 e 2007: Estudo Nacional de Despesa Familiar(Endef 1974/75), Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN 1989), Pesquisa Na-cional de Demografia e Saúde (PNDS 1996), Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF2002/03) e Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS 2006/07). Procedimentosprobabilísticos complexos de amostragem, que asseguram representatividade nacionalàs estimativas, foram utilizados pelos cinco inquéritos. Tais procedimentos são descritosem outras publicações2-5.A evolução da distribuição da altura e do IMC da população brasileira de criançasentre zero e 59 meses de idade levará em conta as amostras de crianças nesta faixa etáriaestudadas pelos inquéritos Endef 1974/05, PNSN 1989, PNDS 1996 e PNDS 2006/07. A mesma evolução no caso da população de adolescentes (10 a 19 anos de idade) e de
  5. 5. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 271adultos (20 ou mais anos de idade) levará em conta as amostras correspondentes estudadaspelo Endef 1974/75, PNSN 1989 e POF 2002/03. Em face de que os inquéritos realizadosaté 1996 não incluíram no seu plano amostral os setores rurais da Região Norte, foramexcluí­dos de todos os inquéritos os indivíduos residentes em domicílios rurais daquelaregião. Também foram excluídos os indivíduos não mensurados ou que apresentassemvalores biologicamente implausíveis de peso e ou altura1. O número de crianças, adoles-centes e adultos analisados neste estudo pode ser visto no Tabela 2.1.Tabela 2.1 Número de indivíduos estudados em cada inquérito, segundo faixa etária e sexoFaixa etária e inquérito TotalSexoMasculino Feminino0 – 4 anosENDEF (1974/75) 33.469 16.823 16.646PNSN (1989) 7.288 3.704 3.584PNDS (1996) 4.068 2.049 2.019PNDS (2006/07) 3.986 2.048 1.93810 -19 anosENDEF (1974/75) 63.963 31.237 32.726PNSN (1989) 13.689 6.908 6.781POF (2002/03) 35.420 18.338 17.08220 ou + anosENDEF (1974/75) 118.888 57.179 61709PNSN (1989) 31.262 15.435 15.827POF (2002/03) 93.329 44.097 49.232Coleta de dadosA coleta dos dados antropométricos em cada um dos inquéritos é descrita em detalheem outras publicações2-5. De modo geral, as medidas foram coletadas com maior precisãonos inquéritos PNSN 1989 e PNDS 1996 e 2006/07 do que nos inquéritos Endef 1974/75e POF 2002/03. Por exemplo, as medidas de peso e altura foram registradas em frações de100 g e de 1 mm, nos três primeiros inquéritos e em frações de 500 g e 5 mm nos outrosdois inquéritos. A menor precisão das medidas coletadas em 1974/75 e 2002/03 não deveinfluenciar estimativas de tendência central da altura e do IMC, como médias e medianas,mas pode aumentar o grau de dispersão das suas curvas de distribuição, sobretudo nocaso de crianças de pouca idade. Por essa razão e, também, por dispormos de medidas depeso e altura de menores de cinco anos em períodos próximos, este estudo não considerouas medidas obtidas pela POF 2002/03 nessa faixa etária. Informações sobre a idade dosindivíduos foram coletadas a partir de documentos oficiais nos cinco inquéritos.
  6. 6. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS272Análise de dadosO perfil antropométrico-nutricional da população brasileira de crianças e adolescentesserá retratado a partir da distribuição dos índices altura-para-idade e IMC-para-idade.A altura-para-idade, expressa em escores z, é calculada subtraindo-se a altura observadada mediana de altura esperada para idade e sexo, segundo um padrão de referência, edividindo-se o resultado da subtração pelo desvio-padrão esperado na mesma idade esexo1. O IMC-para-idade, também expresso em escores z, é calculado de forma análoga,subtraindo-se o IMC observado (peso em kg dividido pelo quadrado da altura em m)da mediana do IMC esperada para idade e sexo, segundo um padrão de referência, edividindo-se o resultado da subtração pelo desvio padrão esperado na mesma idade e sexo.O padrão de referência utilizado para a construção dos índices altura-para-idade eIMC-para-idade de crianças e adolescentes será a denominada curva OMS. Até os cincoanos de idade esse padrão reproduz a distribuição dos índices, tal como observada entreem estudo multicêntrico realizado no Brasil e em outros cinco países (Índia, Gana, Norue-ga, Oman e EUA) com amostras de crianças saudáveis e submetidas a regimes ótimos deamamentação e alimentação6. Dos cinco aos 19 anos de idade, o padrão OMS reproduz adistribuição dos índices antropométricos esperada nas várias idades com base em mode-lagens estatísticas que levam em conta a distribuição informada pelo estudo multicêntricoaos 5 anos de idade e a distribuição dos índices em um conjunto de estudos transversaisrealizados com crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos de idade7.O perfil antropométrico-nutricional da população brasileira adulta será retratado apartir da distribuição da altura (cm) e do IMC (kg/m2). Na ausência de distribuições dereferência normativas para a distribuição da altura e do IMC de adultos, empregaremosas distribuições da altura e do IMC estimadas pela curva OMS para homens e mulherescom 19 anos de idade.A evolução do perfil antropométrico-nutricional da população brasileira de crianças,adolescentes e adultos será descrita a partir da inspeção visual de gráficos da distribuiçãodos índices antropométricos em cada inquérito e da comparação dos valores médios dosíndices estimados em inquéritos adjacentes. O significado estatístico das diferenças entremédiasseráavaliadoportestecomadistribuiçãotdestudent.Todasasanálisesapresentadasneste estudo levaram em conta o delineamento amostral (estratos, conglomerados e pesosamostrais)decadainquéritoeforamrealizadascomoempregodoaplicativoStata,versão108.ResultadosCrianças menores de 5 anosA Figura 2.1 apresenta as curvas de distribuição dos índices altura-para-idade e IMC-para-idade construídas para a população brasileira de menores de cinco anos com base em
  7. 7. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 273quatro inquéritos realizados entre 1974/75 e 2006/07. No caso da altura, é evidente, nosdois sexos, a tendência temporal de deslocamento contínuo das curvas para a direita e aprogressiva aproximação do padrão de referência. No inquérito mais recente (2006/07),a curva de distribuição das alturas das meninas apresenta-se quase superposta à curvado padrão de referência. Em contraste com a distribuição da altura, a distribuição doIMC das crianças pouco se altera ao longo dos inquéritos, mantendo-se, nos dois sexos,sempre ligeiramente desviada à direita do padrão de referência.Figura 2.1 ‌Evolução da distribuição da altura-para-idade e do IMC-para-idade na populaçãobrasileira de crianças menores de cinco anos de idade entre 1974 e 2007.0510152025303540-5 -4 -3 -2 -1 0 1 2 3 4 5%Altura para idade (escores Z)OMS-2006 1974/75 1989 1996 2006/0705101520253035400 2 4 6 8 10 12%IMC para idade (escores Z)OMS-2006 1974/75 1989 1996 2006/070 2 4 6 8 10 12Altura para idade (escores Z)OMS-2006 1974/75 1989 1996 2006/070510152025303540%05101520253035400 2 4 6 8 10 12%IMC para idade (escores Z)OMS-2006 1974/75 1989 1996 2006/07Sexo masculinoSexo feminino---- Padrão de referênciaEstimativas dos valores médios dos índices altura-para-idade e IMC-para-idade nosquatro inquéritos confirmam, nos dois sexos, a trajetória fortemente positiva da distribui-ção da altura das crianças brasileiras e a presença de oscilações na distribuição do IMC.Comparando-se a média do índice altura-para-idade de meninos nos anos extremos doperíodo estudado (-1,50 em 1974/75 e -0,35 em 2006/07), conclui-se que em pouco mais
  8. 8. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS274de 30 anos o “déficit” de altura no sexo masculino foi reduzido em 77%. No caso dasmeninas, a mesma comparação (-1,42 em 1974/75 e -0,22 em 2006/07) indica reduçãode 85% do “déficit” de altura. (Tabela 2.2).Tabela 2.2 Média (e erro-padrão) dos índices altura para idade e IMC paraidade em crianças e adolescentes. Brasil, 1974/75 – 2006/07Faixa etária e inquéritoAltura-para-idade (Z) IMC-para-idade (Z)Sexo SexoMasculino Feminino Masculino Feminino0 – 4 anosENDEF (1974/75) -1,50 (0,06) -1,42 (0,05) 0,42 (0,02) 0,31 (0,02)PNSN (1989) -0,81 (0,05)* -0,77 (0,04)* 0,53 (0,03)* 0,48 (0,03)*PNDS (1996) -0,61 (0,05)* -0,49 (0,04)* 0,43 (0,03)* 0,32 (0,03)*PNDS (2006/07) -0,35 (0,05)* -0,22 (0,06)* 0,46 (0,04) 0,44 (0,04)*10 -19 anosENDEF (1974/75) -1,41 (0,04) -1,20 (0,04) -0,73 (0,02) -0,37 (0,01)PNSN (1989) -0,94 (0,04)* -0,84 (0,03)* -0,38 (0,03)* -0,05 (0,02)*POF (2002/03) -0,46 (0,02)* -0,32 (0,02)* -0,13 (0,02)* -0,11 (0,02)** Média estatisticamente diferente da média estimada no inquérito anterior.IMC: Índice de Massa Corporal.AdolescentesA Figura 2.2 apresenta as curvas de distribuição dos índices altura-para-idade e IMC-para-idade construídas para a população brasileira entre 10 a 19 anos de idade com baseem três inquéritos realizados em 1974/75, 1989 e 2002/03. Nos dois sexos, como no casodas crianças, as curvas de distribuição da altura dos adolescentes brasileiros mostramdeslocamento contínuo para a direita, na direção da curva do padrão de referência. No-vamente, são as meninas que se mais aproximam do padrão de referência no inquéritomais recente (2002/03). A evolução da distribuição do IMC da população adolescentesegue padrões distintos conforme o sexo. Entre meninos, a distribuição do IMC desloca-se continuamente para a direita, ultrapassando, no inquérito mais recente, o padrão dereferência. Entre meninas, a distribuição do IMC se desloca para a direita entre o pri-meiro e o segundo inquérito, quando alcança formato virtualmente superposto à curvado padrão de referência. A situação de superposição do IMC das meninas com o padrãode referência mantém-se no inquérito mais recente.
  9. 9. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 275Figura 2.2 ‌Evolução da distribuição da altura-para-idade e do IMC-para-idade napopulação brasileira de adolescentes (10-19 anos) entre 1974 e 200305101520253035400 2 4 6 8 10 12%Altura para idade (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%IMC para idade (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%Altura para idade (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%IMC para idade (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/03Sexo masculinoSexo feminino---- Padrão de referênciaAs estimativas para os valores médios do índice altura-para-idade dos adolescentes nostrês inquéritos confirmam a tendência secular positiva do crescimento linear no Brasil,indicando redução de cerca de dois terços do “déficit” de altura no caso do sexo masculino(-1,41 em 1974/05 e -0,46 em 2002/03) e de cerca de três quartos no caso do sexo feminino(-1,20 em 1974/75 e -0,32 em 2002/03). A variação temporal dos valores médios do IMCdos adolescentes brasileiros confirma a trajetória continuamente ascendente desse índiceentre meninos. Entre meninas, a média do IMC aumenta significativamente no primeiroperíodo (1974/75-1989), mas diminui, também significativamente, no segundo período(1989-2002/03) (Tabela 2.2).AdultosA Figura 2.3 apresenta as curvas de distribuição da altura e do IMC construídas paraa população brasileira de 18 ou mais anos de idade com base em inquéritos realizados em
  10. 10. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS2761974/75, 1989 e 2002/03. No sexo masculino, a curva da distribuição da altura desloca-se para a direita de modo discreto no primeiro período (1974/75-1989) e de modo maisintenso no segundo período (1989-2002/03). No sexo feminino, a curva da distribuiçãoda altura pouco se altera no primeiro período e desloca-se fortemente para a direita nosegundo período. De qualquer modo, em ambos os sexos, diferentemente do observadopara crianças e adolescentes, a distribuição da altura dos adultos no inquérito mais recenteainda se encontra bastante afastada do padrão de referência. Em 1974/75, no sexo mascu-lino, a curva de distribuição do IMC se apresenta ligeiramente desviada à esquerda comrelação ao padrão de referência; em 1989 ultrapassa ligeiramente o padrão de referência eem 2002/03 ultrapassa largamente esse padrão. No sexo feminino, a curva de distribuiçãodo IMC parte de uma distribuição já desviada à direita do padrão de referência (1974/75),desloca-se ainda mais para a direita em 1989 e mantém-se estável em 2002/03.Figura 2.3 Evolução da distribuição da altura e do IMC na populaçãobrasileira de adultos (20 ou mais anos) entre 1974 e 20030,005,0010,0015,0020,0025,0030,0035,0040,000 2 4 6 8 10 12%IMC padronizado (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%Altura padronizado (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%IMC padronizado (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/0305101520253035400 2 4 6 8 10 12%Altura padronizado (escores Z)OMS-2007 1974/75 1989 2002/03Sexo masculinoSexo feminino---- Padrão de referência
  11. 11. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 277As estimativas para a média de altura da adulta do sexo masculino confirmam a ten-dência secular positiva do crescimento, indicando ganho médio de 0,9 cm entre 1974/75e 1989 e ganho médio de 1,9 cm entre 1989 e 2002/03. No caso da população adulta fe-minina, a tendência secular positiva apenas se manifesta no segundo período, indicandoum ganho de 3,3 cm, portanto quase duas vezes superior ao observado no sexo masculino. A variação temporal dos valores médios do IMC da população adulta brasileira confirmaa trajetória continuamente ascendente desse índice apenas entre homens. Entre mulhe-res, a média do IMC aumenta significativamente no primeiro período (1974/75-1989) emantém-se estável no segundo período (1989-2002/03) (Tabela 2.3).Tabela 2.3 ‌Média (e erro-padrão) da altura e do IMC de adultos. Brasil, 1974/75 – 2006/07InquéritoAltura (cm) IMC (kg/m2)Sexo SexoMasculino Feminino Masculino Feminino20 ou + anosENDEF (1974/75) 167,3 (0,2) 155,2 (0,2) 22,4 (0,8) 23,1 (0,8)PNSN (1989) 168,2 (0,1)* 155,3 (0,1) 23,5 (0,7)* 24,5 (0,7)*POF (2002/03) 170,1 (0,1)* 158,6 (0,1)* 24,6 (0,4)* 24,7 (0,4)* Média estatisticamente diferente da média estimada no inquérito anterior.IMC: Índice de Massa Corporal.DiscussãoCom base em dados coletados por inquéritos nacionais probabilísticos realizados aolongo de um período de cerca de 30 anos, levando em conta três distintos agrupamentosde idade (crianças, adolescentes e adultos) e empregando indicadores antropométricos queavaliamaexposiçãodapopulaçãotantoàdesnutriçãoquantoàobesidade,opresenteestudoidentificou importantes características do fenômeno da transição nutricional no Brasil.Quanto à exposição à desnutrição, progressos inequívocos foram demonstrados apartir da evolução continuamente positiva da distribuição da altura dos brasileiros e daprogressiva redução de desvantagens observadas com relação a valores de referência. O fato de que essas desvantagens estão sendo mais rapidamente diminuídas no caso dascrianças é bastante positivo e autoriza perspectivas otimistas para as avaliações futuras.Por exemplo, mantida a velocidade da evolução da altura observada entre 1996 e 2006/07,as meninas brasileiras igualariam os valores de referência em aproximadamente 10 anos eos meninos em aproximadamente 15 anos. Ainda com relação à desnutrição, a ausênciade desvios negativos na distribuição do IMC da população brasileira, independente defaixa etária, confirma indicações anteriores de que a deficiência crônica de energia nãomais alcança relevância epidemiológica no País5, 9.
  12. 12. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS278Estudos anteriores indicam que o contínuo incremento observado na altura da popula-ção brasileira, que atualmente tem na infância seu maior ponto de inflexão, está associadoprincipalmente a variações na renda das famílias e ou na cobertura de serviços públicosessenciais. No período de 1974/75 a 1989, o aumento da altura das crianças mostrou-seassociado à forte expansão dos serviços públicos de educação, saúde e saneamento bemcomo a aumentos moderados na renda familiar10. No período de 1989 a 1996, aumentoda escolaridade das mães, maior acesso a cuidados básicos de saúde e expansão da redepública de abastecimento de água foram fatores decisivos, cabendo menor importância aomodesto aumento observado na renda familiar11. No período de 1996 a 2006 o aumentoda altura das crianças mostrou-se associado à forte elevação do poder aquisitivo dasfamílias bem como ao prosseguimento da expansão do acesso da população a serviçospúblicos essenciais12.Com relação à exposição da população à obesidade, os resultados deste estudo apre-sentam evidências que, em alguns casos, contrariam algumas idéias correntes sobre oaumento indiscriminado da frequência de obesidade no Brasil. A evolução da distribuiçãodo IMC nos últimos trinta anos indica pouca variação no risco de obesidade entre crian-ças menores de cinco anos de idade, independente do sexo, e, no caso de adolescentes eadultos, aumentos contínuos no risco de obesidade são vistos apenas no sexo masculino.Entre meninas adolescentes e mulheres adultas, a evolução do IMC apresentou-se virtu-almente estabilizada na última década, e até com tendência de discreta redução, como nocaso das adolescentes. Estudos anteriores já vinham evidenciando tendência de controleda obesidade na população brasileira de mulheres de nível socioeconômico elevado5, 13.Dentre os fatores que poderiam explicar o controle da obesidade na população bra-sileira do sexo feminino, destacam-se o aumento da altura e a melhoria nos níveis deescolaridade das mulheres. Importa acompanhar doravante a manutenção dessas ten-dências positivas na altura e na escolaridade para ver se o efeito protetor delas sobre aobesidade se manterá. Por exemplo, como se comportarão quanto à obesidade as mulheresque ascenderam economicamente na última década? Uma possibilidade é assumirem opadrão de cuidado observado entre as mulheres de nível socioeconômico mais elevado,outra é conservar a tendência de aumento do IMC observada nos grupos mais pobres.Os próximos inquéritos serão importantes para se analisar o efeito da mudança socialsobre a distribuição do IMC no sexo feminino.A tendência de aumento do IMC médio das populações é um fenômeno disseminadoem países desenvolvidos e em desenvolvimento. A obesidade é o sexto fator mais impor-tante para a carga global de doenças, afetando cerca de 1,1 bilhão de adultos e 10% dascrianças do planeta14. Os vetores que impulsionam a expansão da obesidade são comple-xos. Nos países em desenvolvimento, a obesidade é uma pandemia ligada a ambientesurbanos, alimentos altamente processados e mudanças que reduzem o padrão do gastoenergético das populações15. Mais importante é observar que nos países em desenvolvi-mento a obesidade é um forte vetor a alimentar os processos de desigualdade em saúde16.
  13. 13. Saúde Brasil 2008: 20 anos de Sistema Único de Saúde (SUS) no BrasilSecretaria de Vigilância em Saúde/MS 279Nos últimos trinta anos, as transformações políticas, econômicas e sociais observadasno Brasil contribuíram para redimensionar as agendas de alimentação e nutrição. Nestecontexto é possível vislumbrar, pela primeira vez, a possibilidade de nos próximos 10a 15 anos, mantidas as tendências atuais, o Brasil virtualmente controlar ou eliminar adesnutrição infantil.A interrelação entre as agendas da saúde e nutrição e as demais agendas é dinâmicae complexa, comportando o desafio de acelerar a tendência de redução da desnutrição ede implementar políticas para deter ou reverter a tendência de elevação do risco de obe-sidade e de suas consequências sobre a incidência de doenças crônicas e a mortalidadeprecoce. Nesse sentido, são prioritárias políticas públicas que promovam comportamentossaudáveis, envolvendo alimentação e atividade física, e que protejam especialmente apopulação infantil e os grupos mais desfavorecidos socialmente.A universalização do ensino básico e do acesso a serviços de saúde e de saneamentoe as políticas de transferência condicionada de renda a grupos socialmente vulneráveisestão entre as políticas públicas que contribuem para a superação definitiva do problemada desnutrição no Brasil e sua continuidade é crucial para a consecução desse objetivo.O novo desafio que surge, o de controlar ou reduzir a frequência da obesidade, requeroutra geração de políticas públicas que articulem a promoção da alimentação saudávele de estilos de vida ativos com medidas regulatórias que impeçam a propaganda de ali-mentos não saudáveis, com intervenções que tornem o ambiente urbano mais propíciopara a prática regular da atividade física e com ações de saúde dirigidas a indivíduos quejá apresentem excesso de peso.Referências bibliográficas1 World Health Organization. Physical status: the use and interpretation of anthropometry.Geneva: WHO; 1995.2 Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Fundo das Nações Unidas para a Infância.Perfil estatístico de crianças e mães no Brasil: aspectos nutricionais, 1974-75. Rio de Janeiro:IBGE; 1982.3 Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Fundo das Nações Unidas para a Infância.Perfil estatístico de crianças e mães no Brasil: aspectos de saúde e nutrição de crianças no Brasil,1989. Rio de Janeiro: IBGE; 1992.4 Bemfam, Sociedade Civil Bem-Estar Familiar no Brasil. Pesquisa nacional sobre demografia esaúde 1996 – PNDS 1996. Rio de Janeiro: Bemfam; 1997.5 Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2203: primeiros resultados: Brasil e grandes regiões. 2ª ed. Rio de Janeiro: IBGE; 2004.6 World Health Organization. WHO Child growth standards: length/height-for-age, weight-for-age, weight-for-length, weight-for-height and body mass index-for-age: methods anddevelopment. Geneva: WHO; 2006.7 De Onis M, Onyango AW, Borghi E, Siyam A, Nishida C, Siekmann J. Development of aWHO growth reference for school-aged children and adolescents. Bull World Health Organ.2007;87:660-67.
  14. 14. A evolução da altura e do Índice de Massa Corporal de crianças, adolescentes e adultos brasileiros no período de 1974 a 2007Secretaria de Vigilância em Saúde/MS2808 Stata Corporation. Stata statistical software. Version 10. College Station, TX: Stata Corporation; 2007.9 Brasil. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa de orçamentos familiares 2002-2203: antropometria e análise nutricional de crianças e adolescentes no Brasil. Rio de Janeiro:IBGE; 2006.10 Monteiro CA, Benicio MHD’A, Lunes RF, Gouveia NC, Taddei JAAC, Cardoso MAA.Nutritional status of Brazilian children: trends from 1975 to 1989. Bull World Health Organ.1992;70(5):657-66.11 Monteiro CA, Benício MHA, Freitas ICM. Evolução da mortalidade infantil e do retardo decrescimento nos anos 90: causas e impacto sobre desigualdades regionais. In: Monteiro C A,editor. Velhos e novos males da saúde no Brasil: a evolução do país e suas doenças. 2 ed. SãoPaulo: Hucitec/Nupens/USP; 2000. p. 393-420.12 Monteiro CA, Benicio MHD’A, Konno SC, Silva ACF, Lima ALL, Conde WL. Evolução dadesnutrição infantil no Brasil: descrição e determinantes (1996-2006). Rev Saúde Pública.2008(No prelo).13 Monteiro CA, Conde WL, Castro IRR. A tendência cambiante da relação entre escolaridade erisco de obesidade no Brasil (1975–1997). Cad Saúde Pública. 2003;19 (Supl 1):67-75.14 Haslam DW, James WPT. Obesity. Lancet. 2005;336:1197-209.15 Prentice AM. The emerging epidemic of obesity in developing countries. Int J Epidemiol.2006;35:93-9.16 Monteiro CA, Conde WL, Lu B, Popkin BM. Obesity and inequalities in health in developingworld. Int J Obes. 2004;28:1181-6.

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